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História Nos olhos de um Homem-Tigre - Capítulo 1


Escrita por: e vinchalier


Notas do Autor


Antes de mais nada, o plot dessa fanfic foi doado e posteriormente betado pela @morphoria e a capa foi feita pela @foxiest. Agradecimentos a elas.
Esse é o meu primeiro trabalho para o projeto e eu tenho que admitir que estou bem nervoso. Me diverti muito desenvolvendo esse plot e espero de coração que vocês gostem! Boa leitura ♡

Capítulo 1 - Capítulo Único


Inglaterra, maio de 1852

NO INÍCIO, Akutagawa ainda tentava acreditar que seria tudo provisório. Dazai e Chuuya, a casa nova, tudo isso. Passou as últimas semanas abrindo e fechando os olhos, desejando que tudo acabasse logo. Algumas vezes, sonhava com a mãe e passava o resto da noite tossindo e torcendo que ninguém o notasse; nesses momentos, a sonolência o confundia e ele se via logo com dificuldade de diferenciar os sonhos terríveis de uma realidade tão assustadora quanto. 

Não contava o tempo desde que aconteceu, porque assim ainda podia crer que foi tudo há pouco. Manteve-se confiante nessa ideia por quase um mês, e de uma hora para a outra estava sendo arrastado para Londres em uma viagem planejada de última hora. Talvez seu plano não estivesse funcionando tão bem, ele considerou, enquanto apoiava a cabeça na janela do trem tentando, aborrecido. 

— Ainda não entendo o que há de tão importante nessa viagem.

— Estamos indo ajudar um amigo, Ryunosuke — Dazai lhe respondeu, mais seco do que o normal. — Não acredito que teremos que repetir isso novamente até você entender.

Akutagawa suspirou, irritado. 

— Vocês não precisavam me trazer.

— Nós somos seus responsáveis agora, você gostando disso ou não. — Dessa vez foi Chuuya que resolveu falar. O aborrecimento de seu namorado diante toda aquela situação era mais do que clara e ele sabia que fazê-lo ter que lidar com um adolescente contrariado como Akutagawa só pioraria as coisas. Por mais que ele detestasse quando Akutagawa se fechava desse jeito, teria que se esforçar para conversar com ele; de certa forma, além de necessário para o momento, aquilo agora fazia parte de sua responsabilidade com o garoto — Mas vai ser bom para você. Não devemos ficar muito tempo fora. Já foi à Londres? É uma bela cidade.

— Não. Nunca.

— Então será como uma primeira viagem em família. Você não acha isso divertido?

Akutagawa não respondeu.

Na verdade, não achava nem um pouco divertido. Sendo sincero, aquilo parecia ser o oposto de divertido. Chuuya e Dazai também achavam isso. Mas não é como se lamentar fosse servir de algo, então os três se mantiveram calados por todo o resto da viagem. 

[ . . . ]

Tudo o que aconteceu depois do incidente foi horrível, mas os primeiros dias na casa de Dazai foram especialmente ruins. Ele era o homem que ensinava violino para Akutagawa antes de o garoto se tornar órfão. Toda a semana, o garoto era levado até aquela casa e passava duas horas exatas tocando e lendo partituras. Às vezes, apresentava-se em uma orquestra local. Talvez algum dia já tenha se sentido feliz fazendo aquilo, mas com o tempo tudo foi se tornando automático; eram trocas, escalas por parabéns, solos por validação. E ai dele se tocasse uma nota meio tom desafinado, segurasse o arco de forma inadequada, pulasse uma pausa sem querer. Dessa forma, tornou-se quase que uma máquina, capaz de reproduzir exatamente as notas que Dazai o mandasse tocar; estava a poucos passos de gerar fumaça pelas narinas e substituir as próprias articulações por engrenagens. 

Dazai sempre falou sobre o potencial do garoto, mas ele nunca parecia estar perto de chegar nele, era sempre incapaz de concretizar aquelas expectativas. Parou de se preocupar cedo sobre a qualidade ou a satisfação que tirava da própria música.

E então, aquilo aconteceu. Em uma tarde de abril, recebeu a terrível notícia que o assombraria até sua próxima vida. Pelo que pareceu, senhora Akutagawa, sua mãe, morreu de tuberculose no meio da madrugada, em sua própria casa. Por conta da falta de contato com outros parentes que o garoto e a mãe possuíam, a guarda do garoto acabou ficando com Osamu Dazai, antigo professor de música e amigo próximo da mãe. 

Ele se mudou para aquela grande casa poucos dias depois do falecimento da mãe. Ela era maior do que a antiga casa, mas bem mais quieta. Dazai o ajudou a levar a mudança, que consistia basicamente nas suas poucas roupas. Seu quarto ficava ao fundo da casa, distante o suficiente para mal ouvir as pessoas na sala, o que se tornou extremamente útil no futuro. 

Não demorou nada até que Akutagawa começasse a passar mais e mais tempo dentro do quarto para não ouvir Dazai. Durante sua pouca estadia em sua casa, Ryunosuke conheceu Chuuya, um homem ruivo que ele já havia visto algumas vezes na casa do antigo professor, mas sem nunca saber quem era. E foi com uma estranha naturalidade que Osamu o apresentou: sem muitos rodeios ou enrolações, contou ao garoto de seu namorado, o que fez Akutagawa duvidar rapidamente de suas ideias, considerando que, usando bem essa informação, poderia fazê-lo ser até mesmo preso. Dazai o fez jurar ser, com um sorriso capaz de lhe fazer arrepiar até a espinha, que seria o mais discreto sobre o assunto e, caso tivesse qualquer eventual dúvida, teria que resolvê-la exclusivamente com ele; Akutagawa seguiu essas regras feito um cão.

Os dois discutiam constantemente. Era quando brigavam que Akutagawa mais desejava a mãe, o conforto e a casa antiga de volta. Nunca se esforçou em entender os problemas que eles tinham um com o outro, não queria se envolver demais com nenhum deles. Mas, principalmente nos últimos dias, foi se tornando cada vez mais difícil evitar notar nomes e assuntos comuns em todas as discussões.

Ouviu sobre Fyodor durante um jantar. A maioria das refeições naquela casa eram feitas em silêncio, logo foi surpreendente ouvir Dazai perguntar algo.

— Você tem notícias do Fyodor?

Ele esperava que os dois fossem começar a discutir logo ali mas, para seu espanto, Chuuya o respondeu tentando soar o mais calmo e sério possível. 

— Achei que você não se importasse mais com ele.

— Por que não me importaria? Ele ainda me deve alguns favores. 

— Akiko disse que a coisa ‘tá feia. 

— Isso é ruim. Você não se preocupa?

— Com Dostoyevsky?

— Não, idiota. Com a gente. Podemos acabar que nem ele. 

Sodomia, atos sexuais contra a vontade de Deus, porque Ele aparentemente se importava muito com o modo em que as pessoas se relacionavam. Pessoas como Dazai e Chuuya. Akutagawa entendeu logo que era essa a causa de todo o problema. 

E esse era Fyodor Dostoyevsky: um homem condenado a prisão, que poderia passar anos em cárcere, e com uma situação atual preocupante, nas palavras do próprio Dazai. Um homem que Akutagawa nunca conheceu, ou ouviu falar, mas que agora seria obrigado a ajudar. Enquanto tivera aulas com Dazai, Akutagawa nunca imaginou que ele pudesse ser o tipo de gente que ajuda os outros dessa forma; mas, aparentemente, estava completamente errado. 

— Essa viagem parece mais uma fuga. 

Akutagawa disse, logo que foi obrigado a arrumar a própria bagagem. Estavam indo para Londres e Dazai tinha um homem para tirar da prisão. 

[ . . . ]

Quando os três chegaram, já era tardinha. Perto da estação do trem, pegaram um landau por algumas libras e em cerca de vinte minutos chegaram em uma pequena casa perto do centro da cidade; seria ali onde passariam os próximos dias, Dazai havia contado.

Logo em sua frente, uma mulher com um grande e cheio vestido preto acenava. Por sua expressão, Akutagawa não conseguiu decifrar se ela estava feliz ou irritada. Talvez fosse uma mistura dos dois.

— Vocês podem entrar logo? — ela pediu e eles obedeceram. Trancou a porta, aliviada, e continuou: — Não suporto ficar na rua, desse jeito. 

Ela apontava para a própria roupa, desconfortável. 

— Sintam-se em casa  — a mulher disse, de forma meio irônica, enquanto entrava por uma pequena porta que Ryunosuke julgou ser o banheiro.

"É sempre assim?", Chuuya e Akutagawa se perguntavam, olhando para Dazai, que respondeu com um levantar de ombros, despreocupado. Minutos depois, a mesma mulher voltou, dessa vez com uma roupa bem menos pomposa e feições bem mais imperturbada.

— Vocês, homens, não têm ideia do quanto aqueles espartilhos machucam. E são horríveis para as costas, ainda por cima. Alguns médicos até os recomendam — ela ia dizendo, Akutagawa concordando com a cabeça, sem entender muita coisa. — Conheço gente que faz até as crianças usarem isso. É nesses momentos que me sinto aliviada por ter estudado medicina…

Ela parou ao perceber a confusão do garoto — e, provavelmente, sua presença também — teve que se segurar para não rir.

— Dazai! Não é porque nos vemos pouco que você tem o direito de arrumar uma criança assim e não me avisar. Mas diga-me, quem é esse?

Dazai, então, apresentou-o. A mulher, que se introduziu logo depois como Yosano Akiko, a colega londrina e eventual médica particular do casal, observava-o de cima a baixo, com clara curiosidade. 

— Ei, Akiko. Pare de assustar o garoto. Ele já fala pouco, desse jeito você vai fazê-lo se calar para sempre. 

Yosano riu baixinho. Está bem, está bem, perdão. E cumprimentou propriamente seus hóspedes: um aperto de mão para Akutagawa, um abraço para Chuuya e um tapa nas costas para Dazai. 

Ela já era uma amiga de grande data dos dois, principalmente de Dazai. Estudaram juntos e, mesmo quando o homem se mudou para Bristol, continuaram a manter contato. Conheceu Chuuya, no entanto, antes mesmo que os dois começassem a namorar, mas sim por causa de sua prima, com quem morou junto por anos. Os três, de qualquer forma, eram amigos realmente próximos; então passaram o resto da noite falando das novidades: Akiko contou sobre como Kouyou foi passar um tempo com a família, porque eles querem lhe arrumar uma esposa e, ah, como ela fica triste só de falar disso, sabe, porque realmente gosta dela; sobre como tem medo de que aconteça qualquer coisa — vai que alguém descobre seu relacionamento com a mulher — mas acredita que estão escondendo tudo muito bem! sobre como Fyodor não conseguiu esconder e isso era realmente assustador, mas pelo menos ele tinha pessoas dispostas a o ajudarem, então tudo iria acabar bem, ela espera, porque seria realmente ruim ser preso — calma, as pessoas só são presas por isso, certo? — por uma razão dessas.

Akutagawa dormiu cedo aquela noite, mas não é como se perdesse muita coisa com isso. Era meio deprimente ver todos aqueles adultos em uma posição de vulnerabilidade tão grande. Evitando vê-las, talvez, as coisas pudessem passar mais rápido.

[ . . . ]

"O CIRCOU CHEGOU!"; ANFITEATRO DE ASTLEY APRESENTA PELA PRIMEIRA VEZ O MAIOR CIRCO AMBULANTE DE TODA A INGLATERRA.

Yosano passou o jornal para Akutagawa ao fim da manhã. Aquele era o terceiro dia dele em Londres, mas o primeiro que ele passou fora do próprio quarto: seus livros haviam acabado e ele precisava de algo novo para passar tempo. Estavam apenas os dois em casa —  Chuuya e Dazai saíram cedo de casa para tentarem todos os truques possíveis para ajudarem o amigo — e ela queria que o garoto pudesse achar algo de legal para fazer em sua primeira vez em Londres. O anúncio do circo estava em uma das primeiras páginas: letras grandes e chamativas, coloridas em vermelhos e pretos — era basicamente impossível não notá-lo ali.

Ele leu o anúncio algumas vezes. Falava sobre delicadas bailarinas, ágeis acrobatas e homens que engolem facas e mulheres que se banham em fogo. Todos se apresentando em um grande e glorioso palco, no maior anfiteatro que a maioria dos ingleses já viram.

— Ah, o anfiteatro… É um lugar incrível, e dizem que seus espetáculos também são de nível altíssimo. Apenas assisti à peças teatrais no Astley, mas esse circo realmente parece interessante, especialmente se tratando de certas atrações… 

Akutagawa entendeu rápido. Como médica, Yosano se interessava pelos fatores biológicos que compunham certos membros do espetáculo; como mero espectador, entretanto, o interesse do garoto vinha de lugares diferentes. Independente das diferenças, entretanto, era claro que ambos tinham seus interesses voltados para uma única coisa em especial: o Garoto-Tigre, a principal atração do show. 

E, antes mesmo que Ryunosuke pudesse formalmente pedir para assistir ao espetáculo, Akiko já estava se arrumando para sair. Não era muito longe dali, o anfiteatro, e os dois foram caminhando. Akutagawa percebeu que a mulher usava, novamente, um vestido com inúmeras camadas de saia, coloridas todas em tons de castanho e roxo. Não quis perguntar seus motivos, porque talvez já fossem óbvios o suficiente, mas achou curioso vê-la assim. De certa forma, parecia uma pessoa completamente diferente. 

— Quando meu pai nasceu, houve um grande incêndio aqui. Foi a segunda vez em que ele caiu aos pedaços por causa disso. Você não acha curioso? — Yosano começou a contar, assim que chegaram. — Reconstruíram-no várias vezes, o anfiteatro. Já ouvi pessoas dizendo que era culpa dos atores.

— Dos atores?

— É, dos atores. Por atuarem em peças indecentes. Como se merecessem o inferno, ou coisa assim. A verdade é que eu nunca vi nada demais sendo apresentado aqui; no máximo, algumas piadas, mas não sou muito fã das comédias. 

“Mas gosto de acreditar que os artistas de fato merecem o inferno. Me disseram que é para lá que eu vou, e eu gostaria de ficar com os atores. De qualquer forma, por mais que pegue fogo, o teatro é sempre refeito, não importa quantas vezes venha ao chão: é um sinal de que, mesmo que nem todos o mereçam, os britânicos realmente gostam do inferno. Não é curioso?”

Akutagawa concordou com a cabeça. Enquanto ouvia o que Yosano queria lhe dizer, eles procuravam os próprios lugares enquanto apreciavam o anfiteatro: a estrutura gigantesca, em círculo, em volta de um grande palco, era simplesmente a mais extensa que Akutagawa já viu em toda a sua vida. Por segundos, se imaginou tocando ali no meio, e se perguntou se algum dia chegaria a ser capaz de se apresentar na frente de uma plateia daquelas. Desistiu de tal pensamento logo, assim que o apresentador, um homem pequenino de cartola e terno claras, surgiu e caminhou até o centro do palco.  

— Senhoras e senhores — dizia, com uma voz bem mais grave do que o esperado para o seu tamanho, e a atenção de todos era virada para ele. —, sejam todos bem-vindos ao Astley. Se preparem todos, pois hoje se encantarão, divertirão e tremerão de medo no mais novo espetáculo de nossa grande grupo circense, pela primeira vez nessa grande estrutura.

E o espetáculo começou. Akutagawa não conseguia tirar os olhos do palco: primeiro, uma elegante bailarina, que se movimentava delicadamente, fazendo seus giros e saltos como se fosse flutuar a qualquer momento, sendo seguida por diversas palmas e vivas; depois, uma mulher loira que deveria ter por volta dos 50 anos, que entrava em palco com uma enorme cobra marrom no colo. A cobra se arrastava lentamente por todo o palco, quase que observando a plateia inteira, subia no colo de sua domadora e se enrolava em seu pescoço; então, dois homens, um grande e um pequeno, entravam no palco. O homem grande, que deveria medir cerca de dois metros, pegava o pequeno, com as proporções de uma pequena criança, no colo, o jogava para cima, girava-o em seus braços, fez até um pequeno número de malabarismo com o menino.

E havia mais: uma hilária dupla de palhaços, mulheres que engoliam fogo, homens que faziam impressionantes truques de mágica. Todos fazendo os próprios números, com luzes e música, cada um dando seu máximo conseguir a aprovação do público. Até que chegou a hora do Homem-Tigre se apresentar.

Sua apresentação foi a última do show, anunciada de modo demorado, deixando todos animados. Olhando para o lado por um momento, Ryunosuke era capaz de ver os olhos de Yosano brilhando em animação, desejando poder ver o garoto logo. 

Seu número, entretanto, foi simples — Akutagawa sentia que faltava algo ali, presente em todas as outras apresentações, mas ele não conseguiu reconhecer o que isso era.

Era um garoto, aparentemente da sua idade, com um corpo que gradativamente se tornava mais parecida com a de um tigre: os braços e pernas se tornavam patas, seus dentes iam ficando maiores e maiores e seu corpo se envolvia aos poucos em pelos grossos e brancos. Uma vez completamente transformado em animal, processo esse que durava cerca de cinco minutos e era feito bem no centro do palco, de forma com que todos conseguissem ver, o garoto andava em círculos, brincava com enormes bolas de pano e comia pedaços enormes de carne crua que jogavam ao palco, devorando e rasgando-os  ferozmente.

Mas algo não estava lá. Akutagawa olhou novamente para Yosano: a expressão incrédula, presa no palco, esbanjando curiosidade e encanto — praticamente a mesma coisa que ele sentira assistindo os outros números do espetáculo, mas não conseguia de jeito nenhum sentir agora. Foi só quando olhou novamente para o garoto-tigre, agora voltando ao que ele julgou ser sua forma habitual, a do homem, que entendeu o que faltava.

O garoto foi sendo levado para os bastidores do anfiteatro pelo apresentador e domador de animais, claramente cansado, enquanto a plateia vibrava. Ryunosuke agora apenas via o menino de longe, mas ainda assim não conseguia deixar de se incomodar.

Ao invés da luz teatral e cômica presente nas expressões de todos naquele recinto, o Homem-Tigre — o mais glorioso ator de todo espetáculo, atração principal do show, tão amaldiçoado quanto abençoado com aquela habilidade tão singular — possuía olhos vazios. Não tristes, como o da primeira bailarina a se apresentar ali, ou cansados, como o do pequeno homem que outrora fora levantado e jogado ao ar — todos esses, mesmos sem feições enérgicas ou alegres, estavam executando seu papel, por eles mesmos, exibindo a si mesmos; os olhos do Homem-Tigre (e me arriscaria a dizer até mais: todo o seu corpo!) era moldado de forma desanimada, não transmitindo emoção nenhuma. E o pior: ninguém parecia perceber isso. 

Os aplausos eram altos e levaram minutos inteiros até cessarem completamente. O apresentador subiu novamente ao palco, junto com todos os outros artistas, para o agradecimento. Abaixaram-se lentamente, todos de mãos dadas, como se nunca tivessem feito isso na vida. O Homem-Tigre estava atrás de todos, com seus olhos infelizes e uma expressão de clara angústia, quase como se escondendo, enquanto o resto da trupe basicamente dançava ao som das vivas que recebiam. 

Akutagawa pensou se, na situação dele, agiria da mesma forma. De forma estranha, os olhos dele ressoavam em sua mente — olhava para aquele rosto sem vida como se olhasse para um espelho. Não conseguia parar de pensar naquilo.

O show havia acabado. Yosano e Akutagawa foram embora.

Chegaram em casa de noite e Dazai e Chuuya não tinham boas notícias. Fyodor tivera sua sentença final: três anos em cárcere privado, pena sujeita a alterações. Tentaram o seu melhor, eles contaram, mas foi essa a decisão final. Dazai ainda foi capaz de ver Fyodor, e eles tiveram uma breve conversa. Mesmo sem ser tão próxima do homem, Yosano ficou completamente abalada, considerando o perigo que aquilo afirmava para ela enquanto uma mulher que ama outra como ela; os outros dois sentiam-se da exata mesma forma.

Akutagawa sentia-se em uma viagem estranha por emoções. Há momentos atrás estava fascinado pelo circo, mas agora voltava à habitual sufocante sensação de melancolia; era como se acordasse de mais um dos seus muitos sonhos ruins. 

Por mais que Yosano insistisse que ficassem mais, Dazai e Chuuya decidiram pegar um trem de volta para Bristol na manhã seguinte. Mandaram Akutagawa para a cama logo, para que pudesse acordar bem-disposto no dia seguinte.

 E foi só se deitar na pequena e mal arrumada cama, fechar os olhos, que já tinha a imagem do tigre na cabeça. Não conseguia tirá-la dali, por mais que se esforçasse para pensar em outras coisas. 

[ . . . ]

 Devia ser umas duas da manhã quando Akutagawa desistiu de simplesmente dormir pelo resto da noite. Os mais velhos haviam parado de falar há algum tempo, então ele não tinha mais nada em que se concentrar: estava deitado, em um quarto escuro, sem conseguir dormir há horas e não conseguia parar de pensar em um Homem-Tigre que viu no circo. 

Algo dentro dele não se conformava nem um pouco com a ideia de ir embora no dia seguinte. Talvez porque nunca mais veria o Tigre.

Foi esse algo que o fez sair da casa de Yosano. Levantou-se cuidadosamente, tentando ao máximo não causar nenhum barulho, destrancou a porta e saiu. Essa foi a parte fácil.

A rua estava escura e, como alguém que nunca fora a Londres antes, Ryunosuke estava completamente confuso. Sua memória, entretanto, era ótima — por mais nervoso e inseguro que estivesse, lembrava-se bem das ruas por onde andou quando foi ao anfiteatro pela primeira vez. Não sabia ao certo o que esperar encontrar lá quando chegasse, mas não havia como ele desistir agora. 

Depois de muito tempo de confusão, achou o grande anfiteatro. Sabia que aquele era um circo ambulante, então foi rodando em volta da grande estrutura, até achar as diversas carroças e carruagens que abrigavam a trupe.

Os animais ficavam em carroças fechadas na parte de cima, em pequenas gaiolas. Havia umas duas assim: uma para o Tigre e outra para os outros.

Com o maior cuidado do mundo, Akutagawa subiu na carroça, lentamente entrando nela. Ainda que estivesse em um lugar com pouca iluminação, foi capaz de ver o Garoto-Tigre ali. Mesmo àquela hora, ele não estava dormindo, então foi se acuando, com claro medo. Naquele momento, ainda estava na forma de tigre: tinha grossos pelos brancos que cobriam todo o corpo do enorme felino. 

— Então você é de verdade… — Akutagawa comentou baixinho.

Ainda meio assustado, o tigre foi lentamente se transformando novamente em humano. Quando terminou, agora transformado em um garoto aparentemente da idade de Akutagawa, ele ainda mantinha duas patas de tigre no lugar das mãos, caso precisasse se defender de qualquer coisa.

O Homem-Tigre era uma rapaz bonito: vestia um suspensório meio surrado, tinha o cabelo branquíssimo desarrumado e os olhos em tons roxos e amarelos de pôr-do-sol. Não parecia especialmente cansado ou sonolento, e Akutagawa assumiu que, assim como ele, o garoto tenha passado a noite em claro.

Akutagawa achava que eles tinham muita coisa em comum.

— Desculpe-me, mas eu acho que não o conheço… — o Garoto-Tigre disse, meio embaraçado. Ele mantinha um sorriso estranhamente gentil no rosto enquanto falava.

— Eu estava te assistindo no último show. Perdão por te encontrar de repente... — E era como se Akutagawa só se desse conta de tudo que havia feito agora. — Mas eu precisava fazer isso. 

Se um estranho assistisse a cena, seria difícil saber quem ali estava mais confuso. Mesmo assim, ambos garotos tentavam soar o mais confiante e sério possível. Depois de segundos de silêncio, Akutagawa se apresentou.

— Eu sou Atsushi — o Garoto-Tigre respondeu. — O que veio fazer aqui?

Ele era realmente direto, em comparação a Akutagawa. Ele ficou sem resposta: deveria falar a verdade? Inventar uma mentira? Qual era a verdade?, o que ele veio fazer ali, no meio da madrugada?

Ele se esforçou para achar uma razão coerente. 

Não achou nenhuma, logo, disse o que parecia mais justo.

— Gostaria de conversar. 

E Atsushi riu, baixinho, esforçando-se ao máximo para não acordar ninguém.

— Conversar? Comigo? Isso parece tão suspeito, deveria me preocupar?

— Bom, você pode escolher se quer ou não acreditar em mim. Mas juro que não quero fazer nada demais — Ryunosuke prometeu. — Isso é importante. Para mim, quer dizer. Eu acho que é importante.

"Vou embora de Londres amanhã. Assisti ao seu número na última apresentação e não consegui tirá-la da cabeça. Sinto que, desde que a vi, preciso confirmar algumas coisas. Peço perdão pelo horário inadequado; eu não te acordei, certo?"

Atsushi piscou algumas vezes, meio surpreso e incrédulo: — Não durmo bem há tempos. Ninguém vem falar comigo, nunca; normalmente, as pessoas têm medo.

— Talvez eu também devesse ter — Akutagawa dizia, desviando os olhos do Garoto-Tigre. 

Quando voltou a olhar para Atsushi, podia ver o olhar ali; o olhar que não saía de sua cabeça desde o dia anterior, a mais pura definição de melancolia. 

— Era isso que você estava sentindo, não era? — Akutagawa apontava para o próprio  peito enquanto falava. — Enquanto fazia seu número. Era isso aqui que estava sentindo, estou certo?

Ele falava de modo realmente sério. Atsushi pensou se não poderia ser aquele um louco, ou um bêbado — entretanto, não havia loucura em seu tom de voz; seu corpo, mantinha-se reto, firme, e sua expressão séria, e ele soava sóbrio demais para um bêbado. Atsushi assustou-se ao considerar a possibilidade de aquele ser um homem são. 

 — Eu acho que não entendo o que você diz. Deve estar cometendo um engano. 

— Não, não cometo engano algum — Akutagawa tentava pensar em palavras, mas sua cabeça estava uma bagunça. Merda, ele não deveria estar fazendo aquilo, era insanidade. Parte de si quis fugir para longe, dizer estar enganado, voltar para casa, dormir e voltar para casa no dia seguinte; entretanto, era só pensar naquilo que conseguia sentir o peito apertar. Vamos lá, Ryunosuke, você consegue fazer isso, ele repetia mentalmente. — Quando te vi no teatro, ontem, eu consegui ver o que você estava sentindo. Senti que precisava fazer algo sobre isso. Bom… senti como se você precisasse também.

— Você não gostou do meu número? — O Garoto-Tigre perguntou. “Entraria em grandes problemas com meu chefe se estivesse fazendo algo de errado”, ele pensou. 

— Não é disso que estou falando. — Akutagawa não estava sendo honesto. Corrigiu-se: — Quer dizer, era você que não parecia estar gostando. Não consegui me divertir assistindo.  

— Me desculpe por isso. Estava apenas fazendo meu trabalho da forma que deveria. — Por mais triste que fossem suas palavras e olhos, Atsushi se esforçava em manter um sorriso gentil no rosto.

— Não sabia que seu trabalho consiste em ignorar sua dor atrás de uma máscara de tigre branco. 

Akutagawa pensava se não estava sendo grosso demais com o garoto. Não sabia bem de onde aquelas palavras estavam surgindo mas, naquele ponto, ele apenas as dizia. 

— Não trabalho por sorrisos ou diversão. Nunca trabalhei. As coisas funcionam bem dessa forma: as pessoas pagam, me assistem, me aplaudem. Não há outra razão para isso — ele falava essas palavras normalmente, sem esperar assustar Ryunosuke com tamanho pessimismo — bom, em sua cabeça, aquilo não passava da realidade, dolorosa mas imutável, que ele apenas poderia aceitar. — Não gostaria que as coisas fossem assim, mas eu sozinho não posso fazer nada para mudá-las.

— Você quer me contar mais sobre?

— Você quer ouvir?

— Quero. Por favor.

E então o Garoto-Tigre contou.

Nasceu em uma família pobre, ele disse, e foi mandado para as fábricas cedo. Com menos de sete anos, já fazia sapatos em troca de um pequeno ganho que por certo tempo ajudou a sustentar sua família. Nunca foi muito próxima dela, de qualquer forma: sentai-se distante do pai e da mãe, e hoje em dia teria que se esforçar um pouco se quisesse lembrar seus nomes. Nessa época, vivia tossindo e passando mal por causa de doenças. Nunca acreditou que iria passar dos 12.

Até os dias atuais, não sabia dizer se sua habilidade era uma benção ou maldição. Ela se manifestou pela primeira vez em casa, durante uma noite. Ele deveria ter uns nove anos. Não conseguia dormir e, quando olhou para o lado de fora e viu a lua, ele se transformou em tigre pela primeira vez. Além dele, ninguém viu a cena. Passou o resto de sua vida pensando ser um monstro. 

E, um dia, o que ele julgava ser esse lado monstruoso surgiu enquanto estava na fábrica. Foi um horror: até hoje, lembra-se dos gritos e dos rostos aterrorizados das outras pessoas, de tudo que elas tentaram fazer para "contê-lo", por mais que nunca tivesse a intenção de machucar qualquer pessoa. 

Não foi mais trabalhar. Nem foi para casa. Por meses — talvez anos, ele não contava — viveu sozinho, dependendo apenas de si mesmo, nas ruas e nos becos britânicos. Não o queriam mais em lugar nenhum, e esse pensamento se tornava mais e mais claro a cada dia que passava.

Até que apareceu o circo. 

Eles viajavam de cidade em cidade e, certo dia, calharam de se encontrar. Foi visto pelo dono do circo na rua, quase morto de frio, se aquecendo com os braços que instintivamente se tornaram patas; entretanto, não foi em uma atitude heroica ou bondosa que o resgatou. Desde o início, pensava no potencial imenso do Homem-Tigre como atração.

Atsushi sempre soube disso, entretanto, não é como se pudesse recusar o chamado para entrar no circo. Era aquilo ou a morte — e, por mais que, pensando racionalmente agora, não considerasse a morte um final completamente ruim, coragem é algo mais do que essencial para escolher a morte. E Atsushi não se definia exatamente como uma pessoa corajosa.

Sua vida não mudou muito desde então. Continuava a andar de cidade em cidade, dessa vez junto de diversos desconhecidos, mas igualmente solitário. A maior diferença é que agora mais pessoas o assistiam e esperavam coisas dele. O público era o de menos — aplaudiam qualquer coisa que fizesse, desde que fizesse como um tigre branco; o problema mesmo era o resto da trupe, especialmente pelo seu domador e também dono do circo. Constantemente era agredido ou mal-tratado por coisas fúteis; "treinado" como um animal, mesmo com toda a capacidade que humanos possuíam — não lhe perguntavam nada, apenas mandavam e, vez ou outra, davam-lhe alguma recompensa boba.

Era difícil não manter-se triste durante as apresentações. No início, ainda se esforçava — brincava mais, olhava para o público e tentava se divertir os vendo naquela euforia toda; hoje em dia, já havia desistido completamente: era aplaudido de qualquer forma, não havia motivos para se empenhar mais. 

O resto da trupe ou o temia, ou desgostava — alguns faziam os dois. Era o favorito de todos, sempre a atração principal, mesmo sem esforço nenhum, e isso obviamente magoava aqueles que treinavam tanto. Até então, ficara poucos anos no circo, mas aquilo já foi o suficiente para que todos ali o desconsiderassem — não conversavam com ele, em qualquer hipótese, e as poucas palavras dirigidas à ele eram sempre em tom de sermão.

Isso sem contar as condições precárias do circo — os dias que passava sem comer, dormindo mal ou trancado em jaulas menores do que ele mesmo eram incontáveis.

Enquanto contava, Atsushi não se estendia muito falando sobre si mesmo — suas opiniões ou sentimentos eram deixados meio de lado, Akutagawa percebeu, enquanto os fatos eram descritos de forma detalhada e completa. Ainda assim, era como se ele entendesse sobre o que as histórias do Homem-Tigre se tratavam: eram sobre solidão, melancolia e imposição. 

Akutagawa não sabia se suas palavras serviriam de consolo, mas tentou falar mesmo assim:

— Acho que entendo parte dessas coisas. Estou passando por umas situações não tão boas, também. 

Atsushi pediu para ouvir sobre elas.

Akutagawa nunca havia falado com alguém sobre aquelas coisas. Entretanto, pareceu não ver problemas em falar com um Homem-Tigre sobre elas. E ele falou: falou sobre a mãe morta, os novos pais, Londres, Fyodor e Yosano. Falou sobre a solidão que sentia e a falta de esperança que ia cobrindo os seus dias, e falou sobre como era deprimente ver tantas pessoas em volta de si com problemas que ele não poderia mudar nem se quisesse. Falou das aulas de violino de Dazai, da música, do palco, e falou como nunca havia falado em sua vida.

Sentia-se como num sonho: suas palavras não eram pensadas ou calculadas, mas não paravam de surgir. Ele nem conseguia mais se sentir pronunciando-as, era como se as próprias palavras saíssem sozinhas de seus lábios.

Perguntou-se se Atsushi também de sentia assim. Não verbalizou a pergunta, mas acreditava que sim.

Atsushi ouviu tudo o que ele disse.

— Não é como se você não pudesse resolver nenhum problema por conta própria.

— Como eu poderia?

Atsushi respirou fundo antes de falar: 

— Não sei sobre seus amigos sendo presos, mas existe uma jaula que você pode abrir agora. Existem pessoas que você pode libertar.

"Eu posso pedir a sua ajuda?"

E então, Akutagawa sentia como se estivesse acordando daquele estranho sonho. Começou a tossir, se apoiando nas grades da jaula do homem tigre. As palavras custavam mais para sair, e ele precisaria pensar antes de falar qualquer coisa.

Havia algo o impedindo de cumprir aquele pedido.

Viveu a vida inteira evitando ter que tomar aquele tipo de decisão, e nunca imaginou que algo assim poderia ser tão difícil.

No fim, não tomou decisão nenhuma. Se fixou nos olhos de Atsushi, que estavam tão perplexos quanto pesarosos. Não conseguia se mexer, não queria se mexer nunca mais.

Foi embora dali o mais rápido que conseguiu.

Apenas percebeu o quanto chorava quando chegou em casa.

[ . . . ]

Inglaterra, novembro de 1867 

É sempre meio frustrante voltar para os cenários de memórias distantes: com o tempo, as cores sempre desbotam, e a coisa toda vai ficando como um quadro sujo. Nesse caso em especial, as ruas foram se tornando cada vez mais cinzas, empoeiradas, cheias de fumaça — as pessoas, menos vivas, deprimidas sempre pela tragédia alheia. As mulheres gradualmente trocavam seus vestidos largos, pomposos e claros por vestes mais largas, com golas mais altas e tons cada vez mais pretos; os homens, vistos de ternos e gravatas também escuros, muitas vezes com seus charutos, alimentando mais e mais a aura triste em que a Inglaterra às vezes parecia estar mergulhando.

Akutagawa estava em Londres pela primeira vez em quinze anos. O rei havia morrido e o luto de sua esposa inspirava os britânicos; agora, era parte da moda usar roupas que mostrassem o seu sofrimento por qualquer coisa. Ele mesmo usou preto durante grande parte de sua vida, mas nunca para seus pais ou qualquer pessoa assim; independente disso, afetar-se dentro de um ambiente tão deprimente parecia difícil.

Akutagawa Ryunosuke morou em Bristol por toda a sua vida, nunca gostou de viajar. Mesmo que às vezes fosse arrastado por Dazai para algumas cidades ali perto, nunca viajara por conta própria antes. Higuchi disse uma vez que achava que poderia ser por medo; ele disse que ela não o conhecia bem o suficiente para dizer uma coisa dessas e ela se desculpou. Todas as vezes em que se encontraram, era ela a pessoa que fazia a viagem, e ele sempre arrumava um pequeno quartinho em sua casa para ela. Essa foi a primeira vez em que Akutagawa foi visitá-la em Londres.

Os dois caminhavam em direção a casa de Ichiyo, calados. Por mais que tentassem se convencer do contrário, isso era um fato: nenhum dos dois gostava de conversar. Usavam da boa-educação e etiqueta como uma forma de evitar o máximo de contato possível, comunicavam-se por frases longas e complicadas mas nunca conversavam de verdade. Quem os via assim, juntos, nunca desconfiaria que eram nada mais nada menos do que noivos, enrolando o máximo que conseguiam para um possível casamento.

Ela o pediu em casamento já tinha alguns meses; Akutagawa não a amava e acreditava que ela fazia o mesmo, mas estava ficando velho e precisava se casar logo — tinha medo de não o fazer e acabar como Yosano ou Fyodor: preso, escondido, se disfarçando como alguém completamente diferente nas ruas.

Não queria botar e tirar máscaras, usar fantasias, criar personas; decidiu viver uma vida só, mesmo que ela fosse construída em cima de emoções que ele não sentia, opiniões que ele não concordava, ofícios dos quais ele não se orgulhava.

Ficava pensando nessas coisas enquanto tentava dormir. 

Pensava se não poderia mudar.

Pensava, então, em Atsushi, e em seus olhos tristes.

Onde será que ele estava agora? 

O anfiteatro de Astley agora era o Teatro Real. As pessoas não pareciam se animar tanto com ele. Talvez as pessoas cansem do inferno às vezes, ele pensava, lembrando de uma velha amiga.

Será que as pessoas ainda gostavam de Atsushi?, ele se perguntava.

Era inútil, não havia como chegar a nenhuma conclusão. Como se estivesse amaldiçoado; toda noite, sonhava com Atsushi, a conversa que tiveram e tudo o que poderia ter mudado nela. Sua vida inteira parecia ser programada para outra pessoa; sempre que pensava sobre ela, achava mais falhas, pequenas e grandes, colocadas ali sistematicamente. 

Talvez a culpa fosse dele. Talvez fosse de Dazai e Chuuya, talvez fosse de Higuchi, talvez fosse da própria rainha.

Também não gostava de pensar nisso.

Uma vez, Higuchi disse que ele parecia insatisfeito e melancólico o tempo inteiro. Ele disse que não havia motivos para ela tomar conta dele dessa forma, ela disse que ele devia ser menos frio.

Olhava para o espelho como se olhasse para o Homem-Tigre. A culpa de não o ter liberto quando podia inundava sua mente, mas a ideia de que talvez, até mesmo hoje, adulto, ainda fosse incapaz de tomar uma decisão daquelas, assustava-o mais ainda.

Não havia se libertado, também. Acreditava que não havia mais tempo para isso.

A cada dia que se passava, seus olhos ficavam mais e mais parecidos com os de Atsushi. 

Nunca se perdoaria por isso.

 


Notas Finais


Obrigado a todos que leram até aqui! E obrigado, mais uma vez, a @foxiest, que fez essa incrível capa, e a @morphoria, pelo plot e pela ótima betagem!


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