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História No.Soul - Capítulo 5


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Capítulo 5 - See you again


Fanfic / Fanfiction No.Soul - Capítulo 5 - See you again

Logo após a chuva que cobrira toda a noite, aquele dia amanheceu com um sol caloroso aquecendo as lápides e o gramado verde do cemitério, junto de um forte cheiro de terra molhada. Havia uma brisa fresca também, hora ou outra fazendo com que as árvores farfalhassem barulhentas e perdessem suas folhas.

Shouko estava confusa, nada fazia sentido. Nada fazia sentido há muito tempo. Seu pai não voltou mais, mesmo com sua mãe dizendo à ela e seus irmãos que ele iria chegar logo, logo. Mas os meses passaram e a casa em que agora moravam nem era mais a mesma.

O tempo passou um pouco mais, e, no fim, o homem que retornou não foi seu pai. Algo estava errado. Eles não se gostavam, então por que estavam vivendo juntos? Sua mãe continuou dizendo que tudo iria se acertar. Talvez fosse verdade, pois o anel ainda enfeitava o dedo dela, porém não tão brilhante como antes.

Um pouco mais de tempo e estavam sozinhas agora. Seus irmãos foram para um lugar longe, um lugar onde só ela não podia ir. Sua mãe disse que iria poder se juntar a eles num momento próximo, porém não sabia se era mesmo verdade.

Um pouco depois, quando ela ficava cada vez mais cansada, cada vez mais triste e cada vez mais delicada, Shouko de repente se viu sozinha.

O choro solitário e doloroso cobria todo local. Agachada diante da lápide, usava as mãozinhas cheias para limpar o nariz entupido e os olhos que, ardendo, transbordavam lágrimas salgadas que escorriam pelas bochechas e invadiam a boca. Tossir fazia a garganta doer e havia momentos em que não conseguia respirar. Não lembrava por quanto tempo estava assim, mas muito menos chegava a buscar uma resposta. Chorar era a única coisa que poderia fazer agora.

Cometa, seu pequenino pastor alemão, arranhava seu vestido preto, agoniado à medida que o pranto aumentava.

Quando as lágrimas acabaram e o mínimo som que fazia resultava em mais dores agudas no peito, passou a encarar a lápide a sua frente, na esperança de que isso fizesse mais lágrimas aparecerem. Milhares delas.

– Olá.

Shouko olhou para trás. Havia um senhor ali. Alto, vestindo um casaco grande e escuro junto de uma cartola negra que cobria os cabelos tão grisalhos quando a barba. Uma voz rouca que embora firme, parecia triste.

Quando se colocou de pé o senhor se agachou com dificuldade, grunhindo um pouco, e assim Shouko pôde ver os olhos acinzentados tão semelhantes aos dos seus irmãos, da sua mãe e tão diferentes dos seus.

– Você se chama Shouko?

Com as mãos largadas ao lado do corpo, a garota olhou para o lado. Ao longe seu avô e vizinhos, a senhora e senhor Mizuhara que a acolheram, os observavam apreensivos. Cometa balançava o rabo peludo.

– Falar com estranhos é errado. – disse ela.

– Seus pais lhe ensinaram isso? – um curto aceno, confirmando – Está certo, eles lhe ensinaram bem. Então, está tudo bem se eu me apresentar?

Shouko encarou um pouco mais o senhor. Tudo nele o lembrava um debilitado e ao mesmo tempo firme lobo solitário. Balançou de novo a cabeça, se perguntando se dessa forma estaria quebrando a regra que seus pais a ensinaram.

– Prazer em conhecê-la. – o senhor retirou a cartola, exibindo assim os cabelos cinzas escuro. – Pode ser um pouco repentino, mas sou seu, e dos seus irmãos, avô por parte de mãe.

Shouko não sabia, mas aquelas palavras iriam dividir sua vida outra vez.

__

“O futuro incerto sempre floresce em cima do gelo fino”

- Linked Horizon

__

Do outro lado da janela, a densa camada de nuvens esconde o pôr do sol. Não apenas isso, a cor cinza escura – pior agora com o rápido anoitecer – me preocupa. Tivemos o dia inteiro para a droga de uma tempestade cair e os indícios da chuva resolvem aparecer agora, quando já estamos tão perto.

Dependendo de como o exame seja realizado, talvez não poderei ficar ao lado de Mika durante toda a prova. Não tenho dúvidas de que ele possa se virar sozinho, mas prometi a madame que iria protegê-lo.

Por falar nele, Mika ainda está irritado comigo. Não tanto como antes, mas está.

Desde que voltou há quase trinta minutos – mais chateado e bravo do que quando saiu –, não falou muito. Depois de tomar um banho e trocar as roupas pelas vestes mais escuras, está arrumando outra vez o malão por tanto tirar dali os livros que trouxe – embora seja claro que também está fazendo isso para evitar conversar comigo.

– Não acha que está sendo ridículo? – solto, impaciente, me pondo sentado na cama que não faço questão de arrumar. Afinal, qual é a desse silêncio estúpido? O que somos? Um casal de velhos?

– Por quê? – para a minha surpresa, ele responde (ainda que sem olhar na minha cara e bem mais frio que das outras vezes que coisas assim aconteceram).

– Não é como se eu tivesse sido o único a dizer e fazer algo de errado. – Bem, eu não fiz mesmo nada de errado, mas não é isso o que ele quer ouvir – Está exageran... – Quando percebo, movo minha cabeça para o lado. A bola de neve que Mika jogou por pouco acerta com força a parede atrás de mim, tanto que ficou grudada ali durante um instante e agora escorre lentamente, deixando um rastro molhado e escuro por onde passa. – Qual a droga do seu problema?! Tá afim de morrer, por acaso?!

– Você desviou?! Sério?! – ele devolve meu tom, franzindo tanto o cenho que as sobrancelhas claras parecem estar a ponto de se unirem. – Se não quer nem admitir que estava errado, fique quieto e me deixe te acertar, imbecil!

Mika retira uma das luvas, prestes a fazer outra bola de neve. Isso se for bondoso; se estiver com tanta raiva quanto parece estar, não irá demorar muito para me lançar estacas de gelo. Mas antes que voltasse a me atacar, uma voz feminina ressoa pelo quarto, e, provavelmente, por todo o resto do navio:

“Caros concorrentes, chegaremos em nosso destino dentro de uma hora. Por favor, reúnam-se no convés em trinta minutos. Repetindo: caros concorrentes, chegaremos em...”

Respirando fundo e parecendo se esforçar para esquecer a briga, Mika esperou alguns segundos para voltar a falar:

– Vá tomar um banho e se trocar, já deveria ter feito isso antes. – ele se agacha ao lado da cama e apanha a tampa do pote de vidro pequeno em que guarda a comida seca e nojenta de Silver – agora enrolado na cabeceira da outra cama – e vira o que sobrou daquela coisa de volta para o jarro, voltando-o para o malão – Te dou quinze minutos. Vou para o convés sem você se demorar mais que isso.

Hm? Não importa o quanto eu veja, ele está bem mais chateado que o normal. Isso é raro. Digo, já arrumei brigas piores que essa e ele não ficou tão irritado.

– Aconteceu alguma coisa enquanto estava fora? – As sobrancelhas loiras se sobressaltam um pouco e seus movimentos hesitam por um mínimo instante, os lábios de Mika entreabrem-se um pouco, completando a expressão apreensiva, antes de se crisparem e voltarem a abrir novamente.

– Do que está falando? Não aconteceu nada. – Mika se levanta. Os olhos azuis tampouco encontram os meus antes dele desviá-los para algum canto do quarto e passar por mim – Não devia, mas vou arrumar sua cama por você. Não demora muito no banho.

...Isso é sério?

Como ele ainda consegue mentir depois de uma reação dessas? Tch. Ótimo, não me diga. Bufo, indo em direção ao banheiro do quarto sem insistir numa resposta verdadeira ou ao menos decente. Se for algo importante, vou descobrir, de qualquer maneira.


__


– Estou falando sério. Tem que parar de arranjar brigas, principalmente agora.

Ele volta a abrir a boca, aumentando o tom de voz sempre que toca em um dos pontos que mais o incomodam. Quando se trata desse tipo de conversa sinto como se eu estivesse caminhando em ovos de dragão. Por outro lado, Mika não parece se incomodar com a atenção que estamos recebendo pelo corredor.

Nesses momentos ele se parece bastante com a madame, e por isso fica difícil reunir coragem o suficiente para contestá-lo ou mesmo me defender. Qualquer deslize e posso experimentar de primeira mão o qual semelhantes Cordellia e Mika são.

– Se formos aceitos em Soirée, é lá que vamos passar seis anos da nossa vida. Não quero que deixe essa grosseria de lado apenas para evitar ser expulso por ameaçar quebrar o pescoço de alguém, mas quero que deixe de ameaçar quebrar o pescoço de alguém para... para poder ter mais amigos.

Ah, merda, aqui vamos nós de novo.

– Por que eu iria querer mais amigos? Eu já tenho você. É barulho no meu ouvido o suficiente.

– Consegue ser um pouco mais simpático, pelo menos?

– Não sei qual é a minha função nesse mundo, mas com certeza não é ser simpático. – cesso meus passos e ele faz o mesmo – Sério, isso é mesmo tão importante para você?

Pude ver como fiz a escolha errada de palavras quando o cenho do loiro se franziu outra vez e os olhos me encararam completamente inconformados.

– O que está dizendo..? Não se trata de mim, Livi.

...Ah.

Aah...

Claro. Como pude esquecer?, penso, xingando a mim mesmo por ter sido tão lento em ligar os pontos.

Não é como se eu sempre soubesse o que passa na cabeça de Mika, mas em momentos como esse é fácil ver outra vez essa preocupação, a mesma de quando estávamos prestes a ir para aquelas festas entediantes e ridículas que o fazem carregar essa ideia até hoje. O que aquele desgraçado de olhos puxados disse apenas trouxe à tona esse receio de novo.

Trazendo problemas logo no primeiro encontro... Devo matá-lo? Não, com sorte ele morre no meio do teste.

Eu sei, Mika. Sei que embora eu estivesse convivendo com boas pessoas até hoje, não significa que apenas essas estarão lá. Pessoas como aquele velho nojento, com olhos que irão me ver como nada mais que o monstro demoníaco citado nas lendas em que tanto acreditam. Mais do que ninguém, eu sei disso.

Por essa razão, Mika quer que eu pareça mais dócil, quer que desminta o que os céus dizem ou que eu pareça a exceção desse clã amaldiçoado e, mais que tudo, não quer que eu sofra.

Vou acalmá-lo, por ora.

– Eu não me importo com o modo que vão me ver. Se centenas deles irão me enxergar como uma besta ou qualquer coisa do tipo não me preocupa, de verdade. Admito que seria outra coisa se estivesse sozinho, mas esse não é o caso, ou é?

Ainda que um pouco descontente e claramente preocupado, as linhas no rosto de Mika relaxam.

O mostro um largo sorriso. Finalmente ele não está mais bravo.

– E já que está te incomodando tanto, prometo me esforçar para não quebrar o pescoço de ninguém.

Os braços são outra coisa, entretanto.

Mas Mika, como eu esperava, conseguiu ler meus pensamentos, já que bufou e me mostrou um olhar cansado antes de falar:

– Ao menos melhore esse sorriso de raposa antes de me prometer algo...


__


O navio agora corre pelo mar, mas o vento ainda é forte e bastante desordenado, como se ainda continuasse a voar pelo céu, tingido de um laranja fosco e escuro, onde as nuvens carregadas se destacam como se fossem pinceladas mal feitas. Sinto gotas geladas encontrarem meu rosto com mais frequência a cada leve trovoada que ressoa. Maravilha.

O convés está completamente cheio. Cento e cinquenta? Não. Cento e oitenta participantes, talvez. Poucos parecem ter mais de quatorze anos, não são muitos os que se arriscam a participar com mais de 12 anos. De fato, se usarmos a lógica, quanto mais velho for maior será a vantagem no teste prático, mas se não passarem no exame teórico – exigido apenas para os concorrentes com mais de doze anos – de nada irá servir o esforço.

Nos dividiram em cinco fileiras, e Mika está ao meu lado, na fila número um, olhando para o mar agitado sem estar exatamente olhando mesmo para ele. É comum vê-lo fazer isso; o oceano o ajuda a pensar, tanto que acaba mergulhando demais nos próprios pensamentos e receios. Como agora.

Com o quê demônios ele está se preocupando?

Ergo minha mão, mas antes que pudesse alcançar seu ombro ou abrir a boca para chamá-lo, meus olhos se voltam de imediato para o meu peito assim que sinto algo estranho ali.

O susto não foi imaginação: brilhando numa luz dourada que remexia-se ao ponto de parecer estar viva, um colar fino e comprido envolvia meu pescoço, flutuando levemente no ar à altura dos meus lábios. Resisto ao reflexo de tocá-lo e espero que se materialize por completo. A luz passou a escorrer pela corda escura traçada e se reuniu na ponta, formando sem pressa um belo cristal verde.

Quando o toco, enfim, a pedra sofre com a gravidade e cai em minha palma. Encarando com cuidado, consigo ver restos da mana usada dançando ali dentro. Mika, ao meu lado, faz a mesma coisa com a joia branca em seus dedos, também presa a um cordão.

– Recomendo que tomem bastante cuidado com isso.

Olho na direção da voz, alta e clara para se comparar com o barulho do mar e da chuva. Se equilibrando sobre proa, na ponta do navio, firme ao vento desregular de repente mais forte, o homem vestindo uma longa capa prateada nos observa com olhos frios, rígidos e um tanto cansados. O rosto com um pouco mais de trinta anos é firme e quase apático, como um de o soldado, marcado por várias cicatrizes de corte.

Não sei a quanto tempo ele estava ali. Não notei sua presença, e duvido muito que alguma hora perceberia se ele permanecesse calado.

– Há duas maneiras de passarem. Primeira: – Ele ergue o indicador, surpreendendo alguns com o quão rápido foi direto ao ponto. – destruindo quatro cristais e permanecendo com os seus, conseguirão a vaga, independente de onde estiverem. Segunda: – Ele ergue o dedo do meio, aumentando a altura da voz enquanto os olhos continuam a correr sobre nós – Encontrem e atravessem um espelho saltitante. Não será necessário destruir cristais de outros concorrentes se seguirem esse método, mas ainda precisarão manter os seus próprios seguros.

– Entretanto, além de não ficarem bastante tempo num mesmo lugar, os espelhos saltitantes foram ajustados para permitirem a passagem de somente oito participantes cada. – Pelo canto do olho, olho para o outro corpo caminhando pelas fileiras. Mais um que não percebi até este abrir a boca. Quando passa por mim em passos apressados, fazendo a longa capa vermelha esvoaçar detrás de si, consigo ter uma visão mais decente (embora rápida) do rosto da mulher alta, cuja voz é mais enérgica e forte. O cabelo castanho claro é o que mais chama atenção: belo e volumoso como a juba de um leão. – Então, tomem cuidado. Pensem bem antes de planejarem seus movimentos durante o exame.

O som agudo dos saltos cessa quando a mulher para na proa, ao lado do homem. Ela nos encara atenta com os braços cruzados. Na cintura, por baixo da longa capa, posso ver ponta da espada de esgrima que está pendurada no cinto dourado. Devem ser professores, esses caras. Ainda que seja só um palpite...

– Poderão formar duplas. – continua o outro, atraindo mais da minha atenção. Duplas? No mesmo instante olho para Mika, que retribui meu olhar. – Basta juntarem os dois cristais e, assim, ambos irão contar como um só concorrente. Entretanto, o número de cristais que deverão destruir irá dobrar também.

Ótimo, na primeira oportunidade vamos juntar esses colares.

– Matar outros participantes é proibido. – anunciou a mulher, quase gritando. Os longos cabelos cheios dançavam freneticamente com a ventania, mas isso não parecia incomodá-la, pois os olhos permaneciam confiantes sobre nós, cada vez mais animados – Quebrem ossos, deixem inconscientes, mas não matem. Se sentirem que estão prestes a morrer, ou acabarem desistindo da prova, engulam o cristal, vai ajudar.

O homem ergue uma das mãos novamente e estala os dedos. Na mesma hora, diversos espelhos circulares emergem do mar agitado e formam um semicírculo em frente ao navio, permanecendo suspensos no ar. Espelhos saltitantes.

– Vocês tem até o amanhecer. É tudo. Simples, não?

– Hmph. – deixo escapar, baixo.

“Tudo”. Não me faça rir.

Olho para os espelhos, flutuando sobre a água inquieta, e para a linha do horizonte, sem nenhum sinal de terra firme. Estão omitindo algo, é mais do que óbvio. Eles já fizeram a grande gentileza de aumentar as chances de sairmos vivos do exame, pensar que nos dariam tudo de bandeja seria uma completa estupidez.

Os testes antigos duravam, em média, três dias. Até o amanhecer... É curto, porém com essa metodologia é tempo o suficiente.

Guardo meu cordão dentro da camisa, sabendo que terei de escondê-lo em outro lugar quando tiver a oportunidade.

Mais importante que isso, em qualquer momento...

– Tch. O que estão esperando? – vocifera o homem, desgostoso – Vão!

Meus pés soltam o impulso e meu corpo se move de imediato, e por um instante tudo parece tão lento assim que me viro para a minha direita, onde as costas de Mika já estão direcionadas para mim.

Eu inspiro o ar salgado do mar, sinto o meu sangue ferver e a adrenalina correr por todo meu corpo, e como um estalo, o tempo voltar a correr. Não tenho certeza se somos os primeiros a pular sobre as barras de apoio e deixar o convés, mas somente assim que nossos pés alcançam a água que vejo os outros no ar, abandonando o barco.

Os ignoro, e concentrando mais da minha mana nas solas dos pés corro pela superfície do mar. Ainda é um pouco difícil, principalmente quando a água está agitada, um deslize no balanço da mana e tropeço. Movo minhas pernas ainda mais depressa, ficando cada vez mais próximo de Mika que, ao contrário de mim, faz camadas de gelo surgirem onde os pés tocam, garantindo um solo mais estável para pisar.

Estão mais distantes entre si do que parecem. Após corrermos por provavelmente trinta segundos, o espelho com moldura prateada à nossa frente é mais nítido agora com a curta distância. O vidro é ondulado e se remexe em lentas ondas, como um véu.

– Mika! O espelho! Tem algo de errado com esse?! – grito, torcendo para que ele ouça minha voz no meio desse vento desordenado. Mika já deve ter visto um espelho saltitante antes, mas eu não tinha ideia de como se pareciam até hoje. Não me admiraria se sabotassem alguns no exame.

– Se tiver, disfarçaram bem! – ele me olha por cima do ombro, consigo ver o vapor um pouco denso escapar da boca enquanto fala. – Se prepare pra saltar! Recomendo fechar a boca ou os olhos! Vai ser um pouco enjoativo!

Dito e feito: à quase um metro de distância Mika dá um pulo e atravessa o vidro molenga e fosco, como se estivesse totalmente acostumado. Eu paro na mesma distância, hesitante. Encaro o vidro suspeito por alguns instantes mas o atravesso sem demora.

Contenho o impulso de abrir o olho assim que toda a escuridão em que estou parece girar infinitamente. Sinto como se estivesse mergulhando em algo entre a água e o mar, a sensação fria que cobre meu corpo contrasta com meu sangue que ferve dentro de mim, revirando minha cabeça e o meu estômago.

E então, de repente, sei que estou fora, me sinto caindo e meu coração falha. Abro os olhos no mesmo momento, encontrando um céu estrelado e topos de árvores que vão crescendo rapidamente em minha visão periférica. Uma dor em minha costa, um som alto de creck, folhas por todo lado e um chão duro.

Merda.

Estou deitado de lado, a grama marrom gelada contra a lateral do meu rosto. Minha visão está turva e minha cabeça dói. Não muito longe do meu braço esticado está algo que parece ser um longo galho, o que bati enquanto caía.

Mas que... Um pouco enjoativo? Sinto como se fosse vomitar o que comi nos últimos dois di... Mika.

Me levanto no mesmo instante e olho a minha volta. Ninguém, nenhum mísero sinal dele ou da sua presença.

Quando percebo já estou de pé, a dor tolerável quase não existe mais diante do meu desespero. Algo está errado, ele com certeza me esperaria.

– Mika? Mika!

Sem resposta. Não. Fomos mandados para lugares diferentes? Não me venha com essa! Nós entramos no mesmo espelho!

Meu coração acelera, meu sangue ferve novamente em fúria ao cogitar o que pode ter acontecido. Aqueles malditos... Eles ajustaram os espelhos saltitantes para levar cada participante para um local distinto? Não, seria impossível para o exame. Então o quê? Pela ordem? Aleatoriedade?

Puxo o cordão para fora da minha camisa. Entre meus dedos, o cristal verde brilha como antes, e por algum motivo ele aumenta a minha irritação. O de Mika era branco, sem dúvidas. A cor dos cristais, pode ser isso?

– Que seja... – murmuro, devolvendo o colar para dentro da camisa. Vou descobrir assim que encontrar algum outro concorrente.

Mordo o interior da minha bochecha numa tentativa de diminuir minha frustração e suprimir ao menos uma gota da minha raiva. Ficar irritado não vai me dar nenhuma vantagem. Eu preciso me acalmar, preciso pensar.

Buscando calma e alguma orientação, analiso o ambiente a minha volta, mas não é fácil, não com todos os meus pensamentos nele.

É uma floresta espaçosa, com árvores altas de folhas vermelhas – assim como boa parte da vegetação – de raízes tortuosas expostas e troncos grossos cobertos por musgos. Lembro-me as aulas chatas de geografia e encaro a coloração. Sangues da Terra?

Uma brisa fria e leve tem o som alto das centenas de folhas rubras que balançam, fazendo com que mais luz alcance o solo pelos espaços criados por um curto período. Nesse tempo, consigo ter uma visão clara do céu bastante estrelado e da lua cheia.

Um tempo de repente livre da tempestade, onde até mesmo as estrelas são vistas com facilidade; uma temperatura fria, mas confortável; e, principalmente, os Sangues da Terra.

Entendo. Província Norte, provavelmente. Desgraçados, me mandaram para tão longe assim?

Considerando a distância absurda dos envios, não é difícil dizer que as chances de Mika e eu nos encontrarmos outra vez são bem baixas, então, nesse caso, o mais prudente é seguirmos o exame sozinhos, sem irmos atrás um do outro. Mika com certeza está pensando o mesmo, pois seria ele a decidir isso. Essa ideia me mata, por outro lado.

É frustrante. Muito. Eu prometi a ela, prometi à madame que iria protegê-lo.

Segundos se passam comigo tentando convencer a mim mesmo – quase que futilmente – da ideia de que o que está feito, está feito, e que não há mais como voltar atrás. Mas o que faz com que eu me mova é a consciência de que o tempo está correndo e não posso me dar o luxo de não sair do lugar. Aquela cobra maldita... é bom se mostrar útil em uma situação assim.

Arranco o cordão do meu pescoço e o enfio na bota. Pode ser um lugar óbvio, mas estará mais seguro do que pendurado descaradamente embaixo do meu nariz. Agora, só me resta caçar.

Hm. Faz tempo que não faço isso, parando para pensar.

O vento sopra outra vez, leve e em direção ao sul. Começo a correr na direção contrária, atravessando os Sangues da Terra que crescem aqui. O cheiro de ferro característico das árvores é fraco, porém nítido. Permaneço no ritmo veloz por pouco mais de meia hora, mas nenhum sinal de outro concorrente próximo. Procuro rastros ou indícios de luta no solo coberto por folhas vermelhas, nos troncos duros, nas raízes cobertas por musgos. Mas não há nada.

E então, ouço o bater de asas, distante o suficiente para não me deixar saber de qual direção vieram. Olho para cima, esperando passarem por aqui. São quatro, vindo do leste. Como se fosse combinado, gritos de agonia, vindos da mesma direção, me alcançam no instante que as aves somem de vista no céu estrelado.

Corro o mais rápido que posso ao garoto que berra desesperadamente, até que o silêncio frio subitamente volta a cobrir a floresta vermelha. Não faz mal, já estou perto o bastante. Por outro lado, pela forma que gritava e deixou de gritar, tenho certeza de que está morto. E se for assim, só há duas alternativas que explica o que acabou de acontecer: um completo idiota esqueceu as regras e o matou; alguma outra coisa fez isso. E espero que seja a primeira. Idiotas são fáceis de lidar.

Mais a frente, posso avistar o que parece ser uma clareira. Quando meus pés tocam o solo a céu aberto, outra brisa sopra por entre as árvores ao limite da campina circular. Acariciando meu rosto e o gramado vermelho, iluminado pela luz opala da lua cheia, a ventania carrega um doce e confortável aroma...

É aconchegante e familiar... Tenho certeza de que já o senti antes... Mas onde?

Estou um pouco inebriado, noto, como se estivesse prestes a ficar com sono. Sinto que estou pisando em algo. São flores, vejo. De grande pétalas azuis como a noite manchadas com gotas brancas. Seguindo à minha direita, mais delas aparecem, mais reunidas entre si quanto mais próximas da beirada do grande lago estão, até chegarem ao ponto de se acumularem em uma espécie de moita que se estende por toda a margem, onde uma criatura horrenda arrasta um corpo sem vida para dentro da água.

Uma sereia de água doce. Não sei muito sobre elas, apenas que são tão letais quanto as do oceano. Meus olhos caem sobre o concorrente. Não consigo ver seu rosto daqui, apenas o sangue que escorre da pele rasgada do pescoço, se mistura à grama de mesma cor e seca na pele morta acinzentada da criatura na região da boca fina e comprida, que se estende até onde seriam as orelhas; e nas mãos gigantes, com membranas entre os dedos e garras grossas, agarrando os tornozelos do garoto.

Ela me observa atentamente com os olhos grandes, silenciosa. A boca, curvada e aberta, dá a impressão de que está sorrindo, me dando nojo. Da cintura para baixo está imersa na água, mas pelos braços fortes sei que consegue se mover em terra firme. O corpo sobe e desce discretamente, denunciando a respiração ofegante.

O sono misterioso se desfez antes que eu percebesse. Não me admira, está claramente atrás da minha cabeça, esse bicho. De qualquer forma, esse garoto tem algo que preciso, então um confronto seria inevitável.

Preparo discretamente meus pés para pegar impulso, mas minha cautela vai por água abaixo assim que movo meu tronco e a maldita sereia grita desesperada com os olhos gordos arregalados. Já estou correndo, buscando a adaga que tenho presa no cinto às minhas costas, e ela, arrastando lerda o cadáver para a água, não deixando de berrar um segundo sequer, chamando as companheiras.

Maldita. Se continuar assim, não é só isso que atrairá.

Ela não é rápida, e percebe isso. Abandona o corpo e tenta voltar ao lago quando encurto a distância entre nós para menos de um metro, mas não tenho a intenção de deixá-la escapar. Puxo a adaga, e com um rápido movimento corro a lâmina por seu pescoço. Merda, raso.

Eu queria terminar isso com um golpe, porém ela cai e se remexe em agonia na margem do lago, gritando. De dor, desta vez, pressionando as mãos imensas no pescoço comprido que perde sangue azul sem parar, colorindo a água e as flores a sua volta, as brânquias se abrindo e fechando. A calda, com quase dois metros, está visível agora, debatendo-se e jogando água para os lados.

Ah, vamos, cale a boca.

Bufando, finalizo o que comecei, enfiando a lâmina em sua têmpora antes que pudesse se proteger ou fugir. Enfim, o silêncio.

Olho o lago por um instante, procurando mais delas, mas felizmente não há nada. Fito o corpo aos meus pés. Sim, lá está, o cordão, entretanto, o que prendeu minha atenção não foi a pedra qual necessito, mas o sorriso estampado na face do garoto: calmo, doce até. Os olhos, por sua vez, estão quase fechados, me permitindo ver um pouco das íris castanhas.

Ele morreu... feliz? Mas o que...

De repente, a ficha cai.

Merda.

Olho para trás no mesmo instante. Corro meus olhos pelo rio. Algumas cabeças estão olhando para mim, outras sereias, mas que se danem.

O verdadeiro problema está na margem, à minha volta, perto dos meus pés, bem embaixo do meu nariz. Como eu pude esquecer isso?! Essas malditas flores!

Merda!

Arranco o cordão do pescoço dilacerado e corro. Sinto as batidas do meu coração frenéticas dentro do meu peito, o ar entrar e sair do meu corpo numa troca desesperada e incessante. Estou quase alcançando o limite da clareira quando o vento torna a soprar, percorrendo as árvores, a grama e passando por mim. Novamente, o mesmo aroma.

Tapo a boca e o nariz, não me permitindo respirar, cessando meus passos. Mas ele já está dentro de mim, correndo por minhas veias, atiçando minha memória. Meus joelhos não demoram para encontrar o chão, já distantes do meu controle. Uso meu braço disponível de apoio para não cair completamente, mas é tudo o que posso fazer. Isso é ruim, se continuar nesse ritmo vou...

Nos minutos que se seguem, são inúmeras as vezes que tento me levantar. O oxigênio está acabando e a agonia começa a crescer, tomar conta de mim. Eu preciso respirar... e o faço. O efeito é relaxante. Gradualmente a agonia, o desconforto, a raiva, tudo se esvai pelo cheiro transparente e distante. Me sinto calmo, tranquilo... Isso é bom... Deveria ter feito antes...

Finalmente perco a força nos braços e sinto frio da grama vermelha contra minha bochecha. Mais a frente, lá estão elas: azuis como a noite, manchadas por gotas brancas. Eu respiro fundo. Sinto o sono chegar, e com ele, o pesar das pálpebras. Na escuridão, aprecio o aroma nostálgico.

O cheiro da madeira queimando na lareira, do cobertor velho de lã... Dos cabelos cacheados dela, sempre carregando o aroma das flores...

E, dos pinheiros da floresta, mais forte ao entardecer, quando retornava e nos abraçava... No fim, eu gostava mais dele do que imaginava, huh?

Mais sonolento que nunca, tenho que me esforçar para abrir os olhos ao sentir o toque molhado no meu rosto. Sua mão acaricia minha bochecha, do exato jeito que costumava fazer antes. Meus olhos ardendo e a vista turva denunciam meu choro, mas ainda consigo ver o o borrão dos afiados escarlates e o brilho azul dos cabelos ondulados.

Como uma melodia, sua voz alcança meus ouvidos:

– Livi, meu menininho ingrato, por que não está dormindo?

Ah... Eu não me importo se você é real ou não...

Apenas me deixe vê-la outra vez.





Notas Finais


Roi... ^////^ Leitor, né?

Primeiramente, se gostou, que tal favoritar e deixar um comentariozinho dizendo o que achou? Ajuda muito! :)

Se você chegou até aqui, eu só tenho a agradecer e me desculpar. Se estava esperando a atualização, peço desculpas pela demora. Foi muito difícil escrever esse capítulo, mas estou muito ansiosa pelo próximo (que talvez demore menos). Irei focar mais na Shouko daqui para frente, afinal, ela é a nossa protagonista.

Preciso dar um aviso. Essa história ainda não tem um final definitivo planejado, então os capítulos irão demorar sim. Prefiro entregar algo demorado e bem feito que algo rápido e de qualquer jeito.

Espero que compreenda :)

Também disponível no Wattpad e no Noveltoon!


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