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História Nossa coleção de fracassos - Capítulo 4


Escrita por:


Notas do Autor


VOLTEI MEU POVO!!!


Apesar de redundante, devo pedir desculpas pela demora. É, não imaginei mesmo que demoraria tanto, mas imprevistos acontecem. E meu ritmo nunca pode ser considerado rápido... Mas estou aqui! Com mais um conto para vocês. Espero ter mantido a qualidade...

Mas e ai, como vocês estão? Ainda tem interesse por essa série de contos pessimistas e autodepreciativos? É uma coisa que eu me pergunto constantemente. Junto de outros questionamentos como "O que estou fazendo da minha vida?", "Por que as pessoas gostam tanto de cerveja?" ou "Deveria escrever um conto sobre o coronavírus ou seria de mau gosto?".

De todo modo, lhes agradeço que continuem lendo. E não, os contos não vão parar. Podem demorar, mas não vão parar. Nunca. Bom, a menos que eu morra, mas aí não teria muito jeito.

Boa leitura e não saiam de casa, pessoinhas <3

Capítulo 4 - A venda de Emily


Uma intensa junção de barulhos, que consistia em juntar os gritos exasperados que expunham diversão com a música eletrônica estourando, atingiu-me os tímpanos com uma força assombrosa. Vez ou outra, tive que apoiar-me em qualquer parede que encontrasse na tentativa de não ser arremessado ao chão pelo impulso sonoro. É bobagem, agora eu penso, com a bagagem de ter frequentado mais festas, mas naquele dia eu estava realmente preocupado de cair no chão por conta do som alto.

A luz negra parecia ter engolido o ambiente, mas havia alguns poucos, usando roupas fluorecentes, que conseguiam se destacar. Entre esses rebeldes, havia uma bela garota. Dizer que não havia notado sua presença até então seria meio bobo, pois não passaria de uma mentira. Primeiro, meus olhos foram atraídos de forma magnética por sua blusinha cor de verde marca texto, mas não parou aí. Ela dançava graciosamente, rebolava sem medo de parecer boba e parecia ter um sorriso reservado a qualquer um que lhe encarasse. Mas só quando nos encaramos de fato, cara a cara, pude vê-la de verdade. O rosto era cor de pêssego, na forma de coração, e suas bochechas coraram pelo que estava prestes a me dizer. Uma sútil argola rosada enfeitava o narizinho e seus olhos, tão expressivos e verdadeiros, ostentavam um castanho dourado realçado pelos enormes cílios fortemente delineados. Seus cabelos acastanhados estavam presos num coque e contidos por um arquinho preto. Como se gostasse dos holofotes, optou por vestir uma blusa fininha, verde fluorecente, que desnudava seu ombro direito.

— Ei, Tim, você quer ficar comigo? Ficar mesmo. Tipo se beijar e tal.

Foi oque ela me dissera. Surpreendentemente.

Bom, para um entendimento real de como cheguei a esse ponto, acho que precisamos retroceder um pouco. E, para retroceder, tenho que apresentá-la.

Emily Campos é uma boa garota. Eu vi isso no primeiro vislumbre que tive dela e nada acontecera para que essa ideia ruísse.

Eu, Martim, sou um cara nojento. E ela não notou isso até hoje, lutando fortemente contra os “absurdos” (a maioria deles verdadeiros, tenho que admitir) que as pessoas espalham sobre mim.

Duas pessoas e duas visões. Isso é complexo. Ou talvez simples até demais. Não importa.

Oque importa é que todos nós vemos. Todos temos uma opinião bem definida sobre algo e, para alguém com uma vivência um pouco diferente, essa opinião parecer estúpida é bem natural. Qual é? Não acha no mínimo bobo (prepotente seria uma palavra de um encaixe maior) se achar o dono da verdade? Há MILHÕES de verdades e MILHÕES de pessoas dispostas a defendê-las. Sem falar nas MILHÕES de pessoas dispostas a oferecerem uma réplica a essa suposta verdade. As coisas são assim mesmo, então ninguém deveria defender seu lado de modo tão intenso.

Mas se abster, fechar os olhos para os problemas e para tudo ao redor, é tão errado quanto. Trajar uma carapaça de indiferença (e digo carapaça porque não acredito que alguém seja verdadeiramente indiferente) e acenar, tentando apenas ser uma boa pessoa que não está disposta a perder vínculos com ninguém, embora os seres de seu meio sejam tóxicos ao extremo.

De todo modo, Emily Campos é uma boa garota. Uma garota excepcional, se não contermos os elogios. Mas se fez de cega e por isso os holofotes lhe atingiram.

Embora você esteja ansioso, ou minimamente curioso, peço humildemente que tenha calma. Confesso que não sou um defensor do ato de detalhar de maneira minuciosa sobre tudo que me aconteceu (se prestar atenção, notará que não contei sobre as Asas de Clara ou explanei sobre como adquiri esses olhos), mas, em alguns casos como esse, o contexto mostra-se necessário para a absorção total da história.

E tudo isso começara no dia 10 de maio, quando Nícolas Alves viera conversar comigo durante o recreio. Seus cabelos eram escuros e espetados por conta do gel. Em seu queixo quadrado jazia uma barba bonita, pois provavelmente fora feita num desses barbeiros metidos a besta. Eu estava apenas lá saboreando o combo delicioso que as bolachas duras formavam junto do achocolatado aguado.

— Só na boa, Martim? — perguntou Nícolas ao sentar-se a minha frente na mesa do refeitório. Quando olhou para o objeto de minha degustação, não pode conter a expressão de nojo.

— Só na boa. — lhe respondi, meio sem saco. Meu humor não estava em sua melhor forma naquele dia, além do fato de que eu nunca gostei dele. Agora junte tudo isso ao sono que impregnava meu ser e pronto. Nasceu a pior pessoa possível para se ter uma conversa.

— Acho melhor eu ir direto ao assunto. Sei que pode parecer um pouco… Ah, tarde. Isso! Sei que pode parecer um pouco tarde, mas eu queria te agradecer pelo lance das medalhas. Não entendo direito oque fez, — oque a Evelin fez. E ela fodeu a própria nota para que o senhor não tivesse uma manchinha na sua sequência de vitórias, seu babaca mal agradecido. — mas lhe agradeço. Com toda a humildade.

— Bom, de nada. — levantei-me, pois já havia lançado aquele projeto de lanche goela a baixo.

Ele também se levanta, seguindo-me apressadamente pelo refeitório.

— Ei! — quando parei de andar e direcionei meu olhar para trás, ele pareceu sossegar um pouco. Tinha uma condição física tão boa que eu sequer o imaginaria sem fôlego. — Esse Martim. Sempre apressado, né? Está bem, serei ainda mais direto. Durante a aula você deve ter escutado sobre a festa que vai rolar na casa do Gustavo hoje a noite. Poderia até ser na minha casa, mas você sabe como a minha mãe é, né? De todo modo, estou te convidando para ir lá. Como forma de agradecimento.

Espera, então tenho a honra de fazer parte do vosso festejo, meu lorde? Ah, por favor! Até onde vai a prepotência dessa criatura? Age como se fosse meu sonho ir num troço desses.

Confesso que nunca me vi como um cara que pudesse ser definido como popular, mas estou longe de ser um fracassado retraído como meu amigo Alex. Acho que estava mais para o literal meio termo. Evitei bastante ir em festar por considerar uma enorme futilidade, mas jamais deixaria de ir por falta de convites. Convites para essas coisas não me faltavam.

— Tenho que ver. Se não tiver nada melhor para fazer, dou uma passada lá.— eu não tinha absolutamente nada para fazer no dia, mas não podia contar isso a ele.

— Que bom! — ele pareceu bem aliviado, como se tivesse cumprido uma tarefa árdua. — Te mando uma mensagem com o endereço. Sério, acho que vai ser bom para você ir lá. Pegar umas minas para esquecer, pelo menos por um instante, que a Evelin está namorando. Fora o lance da Alice e tal, que não faz muito tempo.

Pensei seriamente em negar, lhe dizer o quanto aquela ideia dele não tinha sentido porque a gente não passava de bons amigos, mas fiquei com preguiça. Quando seus colegas de classe colocam algo na cabeça, é praticamente impossível fazê-los mudar de ideia. Sobre a Alice também não valeria a pena comentar. Embora jamais tenhamos nos beijado, qualquer um que nos olhasse diria que aquilo era um namoro.

— Quem vai tanto? Só para analisar se vale mesmo a pena eu ir.

— Basicamente, nossa sala inteira e quem os acompanhar. Algumas garotas do primeiro ano também, já que uma delas é prima do Gustavo. Até a Mia confirmou, oque achei bizarro por festas assim ofenderem sua honra inabalável. Eu convidei a Eve, mas, como deixei claro que o Eduardo não poderia ir, já deve imaginar oque aconteceu. Ela até gritou comigo, acredita? Além de enumerar diversos motivos para não querer ia na minha festa.

Embora fizesse tempo que não conversássemos direito, não pude evitar o pequeno sorriso que invadira meus lábios. Fazer isso é tão a cara dela…

Me foi requisitado que chegasse as 21:00, mas adentrei o terreno, cujo o portão estava aberto, as 22:30. Como é dia das mães, minha irmã mais velha foi nos visitar e tivemos um jantar especial, com direito a comidas diferentes e aquela coisa toda. Foi um pouco difícil convencer a minha mãe a deixar-me sair num dia como esse, mas, com ajuda de Laura que sempre insistiu na ideia de que eu precisava urgentemente aproveitar a suposta melhor fase da minha vida indo em festas, consegui a famosa permissão. De todo modo, mesmo que hoje não fosse um dia especial e a gente jantasse normalmente, confesso que jamais cogitei chegar as 21:00. Não queria parecer com aqueles desesperados que, devido ao quão grato ficaram pelo convite, acabam chegando até mais cedo.

Adentro sua casa, que era bem maior do que esperaria se julgasse pela parte exterior. Quase que imediatamente, uma onda de som estourado choca-se contra mim junto da fumaça de um narguilhé e o mundo torna-se neon. No mais, era uma boa casa, com tapetes forrando quase todo o piso e um espaço limpo por Gustavo ter removido grande parte da mobília inútil. Penso em recuar, mas Nícolas levanta do sofá, entregando a mangueira do narguilé que usava para uma garota ao seu lado e vai até mim.

— Finalmente, parceiro. Achei que você nem viria mais. — ele falou, com o cheiro de álcool que exalava da sua boca impregnando minhas narinas. — O que trouxe para gente? — antes que eu ousasse me manifestar, ele arranca a sacola da minha mão. — Refrigerante? Sério? — Nícolas, e a gangue de puxa-sacos que guardavam sua sombra, riram copiosamente.

Como era a primeira festa que eu havia ido (não por falta de convite, volto a ressaltar) eu estava preso na inocente ideia de que aqueles que bebiam eram exceção. Jamais cogitei que levar um refrigerante fosse tido como algo estranho.

Mesmo assim, não podia permitir que eu fosse alvo de troça.

— Bom, sempre tem algum fresco que não bebe, né? Temos que pensar minoria, sabia? E eu não fico com a consciência pesada de tomar toda a bebida de vocês sem ter trazido nada.

Nícolas estourou numa gargalhada, fazendo com que todos ao redor também rissem bastante.

— Esse Martim é foda. — deu-me uns tapinhas nas costas e voltou a sentar.— Aproveite a festa, mano.

E foi oque eu fiz. Ao menos, tentei fazer.

Fiz piadas com a maioria, cantei alto e tentei mostrar-me um cara bacana. Uma pessoa divertida. Alguém com quem se quer estar.

Mas, não tendo passado muito tempo, eu já estava de saco cheio.

Nem colocando meu sarcasmo no ápice eu conseguia divertir-me um pouquinho que fosse.

Eu odiava aquilo tudo. E me odiava por odiar aquilo tudo.

Pensei em Evelin. Pensei como talvez fosse sacanagem minha ir a essa festa quando sei dos detalhes sórdidos que compõe a infância do seu namorado, mas também passou pela minha cabeça como seria 100 vezes mais divertido com ela aqui do meu lado, zombando de tudo e incentivando-me a usar minha prepotência ao máximo. Se eu me sentisse mal, ela faria questão de me confortar com algum de seus gracejos.

Não importa o quanto eu fingisse me divertir, pois uma sombra me atingia em cheio com o fato de que eu, provavelmente, não merecia aquilo.

Eu podia deixar de ver tudo aquilo e me divertir banalmente, como todos aqui fazem. Abraçar a futilidade, embora seja contra alguns dos meus princípios.

Mas quem disse que eu estou acima o suficiente para dar-me o luxo de seguir princípios assim?

Posso ser genuíno, mas estou longe de ser feliz. Eles podem ser fúteis, mas são felizes beça. Quem saí ganhando nessa história? O narrador desse conto provavelmente não. Claro que não. Não há vitórias aqui, não é mesmo?

Sentia-me triste. E derrotado. E com raiva. Acima de tudo, cansado demais para sentimentos tão intensos.

Passei a andar a esmo naquela casa, esbarrando a todo momento por conta da gigantesca quantidade de pessoas aglomeradas naquele cubículo. As paredes invisíveis que protegem os casais de qualquer fator externo que venha atrapalhá-los pareciam não existir. Sério, sentia-me dentro de toda aquela pegação e isso era terrível. Nem a bebida, que eu tentei consumir em excesso para que a tristeza não me consumisse, parecera funcionar.

Até que, numa curiosa coincidência, esbarrei em Mia. Suas vestes pareciam estranhas por serem um pouco mais despojadas do que se esperaria dela. Uma blusinha listrada em preto e branco com uma saia jeans curta desfiada na cintura. Seus cabelos negros estavam maiores, beirando oque seria considerado longo.

Mia permanecera parada a minha frente, impedindo-me de passar. Devia estar deslocada. Claramente não era o tipo de garota que costumava ir em festas assim, eu até acredito que ela tenha chegado as nove e ponto e esteja com vergonha de ir embora.

— Deslocada? — perguntei por impulso. Devo ter ficado com pena.

— Sim. Bastante, na verdade. — olhou para todos os lados, como se fosse vergonhoso demais ser vista conversando normalmente comigo. Quando percebeu que ninguém a observava, passou a falar. — O pior de tudo é ter que responder, toda hora, que não bebo e entrar num debate nada produtivo sobre isso. Sério, por que não me deixam em paz? É um saco.

Eu suspirei. Deve ser tão bom ter plena consciência de que todos a sua volta são degenerados e você uma bela puritana afastada desses vícios terríveis.

— Olha, para bem ou para mal, eu trouxe um refrigerante. Se ninguém teve a ideia de misturar com alguma coisa, ainda está na mesa da cozinha, incólume. Faz assim, pega um dos copos escuros e enche de refrigerante. Caso alguém lhe pergunte, você diz que cedeu e agora passou a beber. Garanto que a noite ficará bem mais fácil. — isso se ela conseguir suportar o peso da mentira.

Ela parecia querer agradecer pela dica, mas deixei-a para trás antes que pudesse dizer qualquer coisa. Não estava com paciência para os atritos de sempre.

Logo voltei ao início, o sofá em que Nícolas estava sentado enquanto fumava narguilhé no começo da festa. Sentei-me naquele mesmo sofá, ponderando se devia ir para casa e dar por encerrada essa noite divertidíssima. Dessa vez, não tive tempo o suficiente para decidir, pois Ela apareceu. Emily Campos senta-se no sofá ao lado com duas garotas barulhentas em seu encalce. Uma era alta, talvez até um pouco maior do que eu, e usava óculos. A outra tinha um cabelo negro encaracolado acompanhado de um nariz que simulava um gancho em seu formato. As duas falavam de modo frenético, impedindo-me de absorver qualquer assunto no mar de frases esgrimadas. Também não era como se decifrar o assunto fosse uma das minhas prioridades.

Mas eu pude notá-la. Linda, sem dúvidas, mas claramente desinteressada. Talvez fosse cansaço, se quiser com muito afinco arrumar uma desculpa, mas julguei ser por conta da insistência de suas amigas para que fossem a outra festa depois dessa. E, sei lá porque, aquelas garotas não conseguiam conter a histeria, cheia de gritinhos agudos demasiadamente irritantes. Antes que me acuse sem provas (isso acontece frequentemente, pode acreditar), devo oferecer-lhe o fato de que é impossível deixar de escutar pessoas gritando assim do meu lado. Tornando também impossível que eu não passe por enxerido enquanto lhe conto isso. De todo modo, Emily respondeu algo como:

— Eu já tinha falado para vocês, né? Hoje eu não posso mesmo chegar tarde. Prometi de fazer um almoço especial de dia das mães para a mamãe amanhã, então eu preciso acordar cedo! Ir as comprar e tal. Eu até chamei vocês para irem comigo…

— Ah, para, né? O dia das mães foi hoje. Não precisa ser uma filhinha tão dedicada. — falou a garota mais alta, com veneno escorrendo de suas presas. Certo, não foi assim tão literal, mas eu queria dar ênfase em como eu achei-a venenosa.

— Eu trabalho durante a tarde. Não tive tempo e…

— Sempre esse trabalho. Você ama usar ele de desculpa para tudo, né? — dessa vez, falou a do nariz em forma de gancho.

— Fala mal dele, mas vive pedindo meu dinheiro emprestado…

— Ah, vai me jogar na cara então? Somos amigas. Amigas não deviam ser assim como você, sua ingrata!

— Não sou ingrata. Poxa! Mas vocês têm que entender que as vezes não dá. — Emily parecia realmente entristecida. Deve ser complicado ser uma pessoa boa.

— Deixa ela, Estefani. — disse a garota alta para a outra.— Deixa a filhinha da mamãe fazer tudo aquilo que precisa fazer. Depois ela vai se ligar o quanto é zoado tratar suas amigas assim. — com um “hunf!”, ambas foram embora, sem deixar Emily se explicar.

— Nem queria vir nessa festa idiota… — suspirou a garota, encarando o chão se tivesse prestes a chorar. Encarei por um tempo para conferir se ela de fato o faria, mas não aconteceu. Nada de lágrimas, apenas uma tristeza silenciosa.

Não sei oque me possuiu, mas obrigou-me a perguntar. Fui preenchido por um ato impulsivo que raramente dava as caras.

— Está curtindo a festa? — perguntei mais por vontade de puxar assunto do que por dúvida genuína.

Primeiramente, ficou confusa. Estava tão imersa na “briga” que acabara de ter que jamais cogitou que um estranho lhe dirigiria a palavra. Quando essa confusão passou, sorriu brandamente. Fiquei em choque, porque não havia de fato reparado em como ela era linda. Dona de uma doçura inocente (que julguei ser diferente de Evelin, que sempre tivera uma camada a mais de orgulho quando ostentava sua graça), seus olhos verdadeiros acompanhavam seu sorriso, como se no melhor casamento.

— Nem tanto hehe. — até sua risada era fofa, tão doce quanto envergonhada.

Algo nela me atraia. Não como acontecia com Alice, que era dona de uma presença assombrosamente magnética, mas conversar com Emily parecia certo. Sendo assim, mais do que disposto a confiar nesse impulso que me rege, decidi insistir um pouco mais.

— Olha, foi mau por escutar sua conversa, mas eu só queria dizer que acho muito foda você cozinhar para sua mãe assim. É 100 vezes melhor do que comprar um presente qualquer. Eu até faria o mesmo, mas sou inapto a tudo referente a arte culinária e jamais chegaria próximo de satisfazer o paladar delicado de uma dona de restaurante. Cozinhar para ela seria o mesmo que ensinar o Shaquille O'Neal a quebrar a tabela sendo anão.

Pensei seriamente em calar a porra da minha boca, pois eu tinha uma mania tensa de falar demais quando me empolgo, mas Emily começara a rir copiosamente. Sério, ele ficou até vermelha, como se fosse a coisa mais engraçada que já ouvira.

— Ou ensinar o Ray Allen a arremessar de três pontos sendo míope.

Aí foi minha vez de rir como não ria há muito tempo. Fiquei surpreso por ela rir de uma das minhas piadas. Ainda por cima complementá-la.

— Como é o seu nome, moço? A pior coisa é deixar de perguntar o nome das pessoas legais numa festa. Já aconteceu antes e está até hoje na minha lista de arrependimentos.

Pessoas legais, é? Bom, desmenti-la seria errado.

— É Martim. Mas pode me chamar de Tim. A maioria me chama desse jeito.

— Gosto de Tim. É fofinho e dá para fazer várias piadas na hora dos brindes. Mas qual é a do “Martim”? Nome meio gringo, né?

Odiosamente gringo, eu diria.

— Meus pais se conheceram quando se reuniram na casa de um amigo em comum para assistir Táxi Driver. Depois de conversarem bastante e se darem surpreendentemente bem, passaram a tornar essas reuniões semanais, sempre com um filme do Martin Scorcese. Logo, além de semanais, passaram a não incluir ninguém além dos dois e você sabe oque rola quando duas pessoas ficam vendo filmes sozinhas, não sabe?

A garota corara lindamente. Era de se esperar que ela soubesse do que eu falava, podia até mesmo ter mais experiências do que um virgem de merda como eu, mas portou-se como uma daminha casta.

— Eu adorei essa história.— por fim disse, rindo graciosamente. Precisou de um tempo para que a eventual vergonha passasse.— Sério, é muito bacana saber que romances assim ainda existem. Me faz querer viver um, sei lá. Talvez isso parta de uma idealização meio boba, mas eu gostaria. Eu ia curtir viver essas coisinhas bobas. — de repente, a garota levantara num salto. Esticou a mão para mim, fazendo-me com que fosse eu o confuso da história. — Ei, Tim, eu não aproveitei muito da festa até agora. Mas a música é boa. Vamos dançar? Vamos, vamos!

— Eu? Ah, bom… Não é muito a minha praia, na verdade. Eu nem saberia como fazer…

— Nem me venha com desculpas, moço. Eu te conduzo, se for o caso. Eu sou um amorzinho como professora, pode acreditar. Só não me magoe recusando meu pedido. As consequências serão graves se você me magoar. — tentara soar irritada, mas não funcionou muito bem. Uma doce risadinha nervosa sempre escapava quando ela falava, como se tentasse eternamente deixar o clima leve.

Impotente, eu suspirei e agarrei sua mãozinha macia. Usou de uma força curiosa para puxar-me para perto, encostando o nariz no meu peito. Corei com aquilo, como era de se esperar. Infelizmente não durou muito, pois a garota se afastara, apesar de ainda segurar minha mão. — Não me leve a mal, Tim. Mas não planejo dançar coladinho. Por enquanto, ao menos.

— Ei, antes de começarmos, você pode me dizer seu nome? Não danço com pessoas desconhecidas.

— Emily. — e foi me arrastando para o aglomerado de pessoas dançantes da sala. — Emily Campos. Agora não há nenhum empecilho, certo? Então vamos, Tim! Uhull!!

Naquele momento, enquanto ela segurava ambas as minhas mãos e as agitava na tentativa de fazer com que sua animação fosse transmitida como um vírus para mim, passou pela minha cabeça que ela era uma garota livre. Naturalmente animada e descontraída, do tipo que dançaria e cantaria nos momentos mais estranhos. Me levaria para aventuras que eu sequer cogitara encarar e todas seriam boas. Resultariam numa lição que me tornaria um cara melhor, é nisso que eu penso. Também tiraríamos fotos engraçadas e postaríamos. Talvez até passasse pela minha cabeça o quanto ostentar nossa felicidade é um pouco fútil, mas eu me conteria em lhe dizer isso. Eu me conteria em dizer várias coisas, pois não valeria a pena. Com o tempo eu obteria algum prazer nessas coisas bobinhas.

Ela jamais faria alguma coisa que me deixasse mal. Se o fizesse, teríamos uma discussão leve, coberta de risadas, e a questão se resolveria rapidamente. Eu podia até mesmo arrumar um emprego meio merda. Os dias seriam cansativos e provavelmente haveria um pouco de frustração por não seguir uma carreira que eu de fato curta, mas garanto que essa frustração sumiria quando lhe encontrasse durante a tarde. Ela também trabalharia porque eu não sou sexista o suficiente para cortar suas asas e, assim que ambos estivéssemos em casa, faríamos juntos o jantar. Eu estaria disposto a aprender a cozinha só para te ajudar nessas coisas.

Eu pensei nisso naquela hora e continuo pensando nisso até hoje. Mas fazer o quê? As coisas são como são. Pensar em como devia ter sido é uma grande besteira.

Mas dançar com ela era bom… Ficar pertinho e rir de suas piadas, mesmo que eu nem tivesse escutado direito por causa do barulho alto.

Gustavo (o dono da festa que sequer deu as caras para me dar as boas vindas, diga-se de passagem) apareceu onde a gente estava dançando. O maior orgulho de Gustavo era o topete loiro platinado, cujo o formato lembrava-me ondas. Usava uma regata dos Lakers, número 23, e parecia ter se rendido a grande quantidade de álcool que ingerira.

— Porra, Martim! Não sabia que tinha vindo mano.— ele estava eufórico, até saltitante. — Está curtindo a festa? O Níc me disse que você estava meio chateado com o namoro da Evelin. Mas tamo junto, véi. Eu também fiquei mal. E fiquei pior ainda quando soube que ela não veio. Poxa, somos amigos ainda!

— Ela jamais viria se o Eduardo não fosse convidado.

— Por isso mesmo eu pedi para o Níc convidar os dois. Mas ela negou mesmo assim. E agora nem responde as minhas mensagens.

Fiquei um pouco triste por ele. É bem inocente em deixar tarefas assim para o babaca do Nícolas.

— Então, tá curtindo a festa? — perguntou novamente, mas como eu não havia respondido da primeira vez, não poderia julgá-lo.

— Agora sim. — sorri para Emily, que devolveu-me o sorriso em seguida. Sequer soltamos as mãos, então fiquei com medo que isso passasse a informação errada para o Gustavo. Por ventura, para todos os nossos colegas de classe.

— Emily! Eu estava mesmo querendo te encontrar. — desarrumou os cabelos da garota com um cafuné. — Vai posar aqui hoje, né? Se quiser, eu ligo pedindo para a Tia.

Espera, tia?

— Não precisa, primo. E duvido que você consiga se fingir de “pessoa responsável” estando tão bêbado assim. A mamãe te descobriria rapidinho.

“Algumas garotas do primeiro ano também, já que uma delas é prima do Gustavo”, Nícolas Alves havia me dito algo assim, não é?

Se ela é prima do Gustavo, então deve estar no…

— Mas fico feliz que esteja se dando bem com a minha priminha, mano.— dissera Gustavo, mas eu não escutara nada além do “priminha”.

De modo mais específico, o “inha”

Se é uma primeira anista, deve ter uns 14 para 15 anos. Eu tinha 17, então nada poderia ser considerado criminoso.

Gustavo, depois de provocar sua priminha um pouco e despentear seus cabelos castanhos com mais um cafuné, sumiu no meio da festa. Parece que encontrou um conhecido que ainda não cumprimentara ou algo que o valha, sei lá.

— Eu não sabia que você e o Gu eram tão amigos assim. — disse, entusiasmada.

Você nem imagina o quanto.

— É mais porque temos uma amiga em comum. Por tabela, acabamos ficando meio amigos. Acho que são assim que funcionam as relações do ensino médio, não?

— Eu não penso muito nisso. Estou 100% disposta a ser amiga de todos, então só depende deles me aceitarem hehe. Mas sobre essa amiga em comum, o nome dela é Evelin, certo?

— Isso. Vocês se conhecem? Não sabia que a Eve se importava com os alunos mais novos. Achei até que fosse apática para com eles.

— Não conversei muito com ela, mas chamá-la de apática seria maldade. Ela foi um amor comigo e com as minhas amigas quando perguntamos oque estava lendo. Ainda estávamos no fundamental. A gente idolatrava ela, sabia? Ela é linda e tão estilosa. Autêntica e diferente. Mas eu sempre senti algo estranho. Era como se eu não pudesse vê-la de verdade, sabe?

— Acho que entendo oque quer dizer. — e eu não falei da boca para fora. Eu realmente entendia. Eve trajava uma máscara bem apertada e são poucos aqueles que conseguem tirá-la e ver a verdadeira face chorosa dela.

Conversamos e dançamos mais um pouquinho, rindo aos montes (não havia decidido se passei do ponto quanto a quantidade de bebida que ingeri ou ela só era uma garota divertida mesmo). Desculpou-se bastante antes de me falar oque queria, como se me magoar fosse uma coisa hedionda.

— Então, infelizmente, terei mesmo que voltar para casa agora. Desculpa. Eu já vou levar uma bronca daquelas por não avisar a mamãe que ia demorar, mas valeu a pena ficar mais um pouquinho. Você é divertido, Tim. Eu adorei sua companhia e queria desfrutar dela por quanto tempo fosse possível. Ai, tô falando muito, né? Desculpa! Eu não sou do tipo de garota que consegue deixar de falar algo e muito menos passar vontade.

— Relaxa. Não precisa se desculpar tanto. Eu também adorei sua companhia. Na real, a festa estava um saco antes de você aparecer.

Ela sorriu, como sempre, mas só quando nos encaramos de fato, cara a cara, pude vê-la de verdade. O rosto era cor de pêssego, na forma de coração, e suas bochechas coraram pelo que estava prestes a me dizer. Uma sútil argola rosada enfeitava o narizinho e seus olhos, tão expressivos e verdadeiros, ostentavam um castanho dourado realçado pelos enormes cílios fortemente delineados. Seus cabelos acastanhados estavam presos num coque e contidos por um arquinho preto. Como se gostasse dos holofotes, optou por vestir uma blusa fininha, verde fluorecente, que desnudava seu ombro direito.

— Ei, Tim, você quer ficar comigo? Ficar mesmo. Tipo se beijar e tal.

Foi oque ela me dissera. Surpreendentemente.

Pensei em Evelin e Eduardo. Nos olhos que eu ganhara no começo do ano e em Joe, o Hippie maluco que me roubara um beijo. Pensei até mesmo em Alice enquanto apenas assentia.

Quando dei-me conta, não estava mais na festa. Olhei ao redor, meio tonto e enjoado, até que percebesse um resquício da minha personalidade ao redor do quarto. Várias roupas em tons de cinza e uma quantidade de livros maior do que seria recomendado a alguém com tão pouco espaço. Tirei a manta felpuda que me cobria e a atirei ao chão, podendo notar que ainda vestia a mesma roupa de ontem. Como dormir de calça jeans é simplesmente inadmissível (uma das poucas coisas que eu poderia considerar blasfêmia), penso que alguém me arrastara até o quarto.

O outro indício para isso era a minha dor de cabeça. Ela martelava insanamente, como se um fantasma tivesse sido contratado por Deus para acertar uma bigorna na minha cabeça por oito horas consecutivas em troco de um salário-mínimo. Como se não bastasse, uma maldita tontura deixava-me zonzo e meu estômago carregava um maldito tsunami.

É, provavelmente eu estava de ressaca. Minha primeira, se bem me lembro. Eu nunca dei-me ao trabalho de ir em festas assim.

Não há muito oque se falar dessa famosa ressaca. O único problema é que eu sequer lembro de ter bebido a esse ponto. Sempre encarei a ressaca como um castigo aqueles que usufruíram do néctar divino, mas seria mesmo justo eu pagar por algo que sequer lembro? Se eu não lembro, não aconteceu. Se não aconteceu, a ressaca não serviria de aprendizado (eu fiquei mais nervoso do que animado por ter aprendido algo).

Usei todos os meus conhecimentos sobre investigação criminal (que se resumiam a algumas aventuras de Holmes e tudo que devorei da Agatha Christie) para relembrar meus passos e a cadeia de eventos que me trouxera até aqui.

Lembro de ter ficado com a Emily. Se não estou errado, escutei alguns gritinhos de exaltação vindos de quem assistiu o tal beijo. Tadinha. Emily ficou envergonhada, embora continuasse rindo e explicando o ocorrido para suas amigas. Eu apenas colhi os frutos, aproveitando os elogios que os rapazes ali presentes me faziam. Não conhecia nenhum deles, mas fazia diferença? Eu tinha beijado uma garota considerada linda por muitos deles. Logo em seguida, levei-a para casa, pois estava tarde e eu queria portar-me como um cavalheiro. Um bom cavalheiro que segurava o vômito para dentro como Arthur segurara a excalibur quando foi para a batalha. Me despedi da garota com um singelo beijo em sua bochecha e voltei para a festa. Fiquei lá por sei lá quanto tempo e alguém, acho que uma garota, num ato de benevolência, me levou até em casa. Se ela me colocou na cama ou deixou-me lá para que alguém da minha família o fizesse é um mistério.

Eram 09:30, o sol forte que escapava por uma fresta deixava-me agoniado e eu me sentia fodido por completo. Mesmo assim, me levantei. Troquei aquela roupa festiva por minha habitual roupa de mendigo (um conjunto de calça de moletom com uma camisa qualquer). O cheiro de café quente enchia minhas narinas, principalmente por ser a única coisa que minha barriga zoada suportaria. Fui até a cozinha e encontrei meu pai sentado lá numa cadeira. Usava uma camisa xadrez que seria de um encaixe magnífico se estivéssemos em junho. Ajeitou seus pequeninos óculos redondos (ele trocara a armação recentemente porque uma de suas leitoras, que provavelmente não passava dos 15 anos, disse que lentes quadradas o faziam parecer meio nerd) e tentou me pressionar com um olhar sério em seus rosto. Sentei na cadeira a sua frente (ele parecia querer que o fizesse), e dei-me o luxo de me servir uma caneca de café.

— A mãe não tá? — perguntei, com o objetivo de quebrar o clima estranho.

— Err… Não. Ela foi para o restaurante. Vai ter um evento lá perto, então pensou que seria uma boa abrir mesmo sendo domingo. Lá pelas uma ela está de volta.

— E deixa eu adivinhar, a Laura ficará responsável pelo almoço? Prepare o carro, pai! Precisamos fugir daqui.

Ele não se aguentou, riu de modo copioso, até chegando a lacrimejar os olhos. Imediatamente, fechou a cara, tentando soar sério, mas os lábios tremiam na forma de um riso que queria nascer. Oh, céus, agradeço essa sorte com toda a humildade. Ele é péssimo nessa coisa de dar as broncas. Sinto que ele encarnou por muito tempo no papel do “policial bom” e não consegue por de lado esse esteriótipo. Até hoje eu tremo de medo ao lidar com a minha mãe (tanto que faz muito tempo que eu não a vejo). Ela era franca até o osso e, sem erguer um milímetro de seu tom de voz, conseguia fazer você se sentir o pior ser humano da face da terra sem usar de chantagem emocional. Lembro no fim do ano passado, em que todos os membros da nossa família tirando a Melissa estavam trabalhando no restaurante. Um deputado foi até lá jantar com seu filhinho e sua esposa recatada. Queria se mostrar o poderoso, então fez questão de reclamar de tudo. Como minha irmã mais velha era a gerente, a tarefa de escutar as reclamações e se desculpar pelas supostas falhas foi concedida a ela. Pode não parecer pelas descrições que eu faço, mas Laura é uma ótima profissional, conseguindo manter uma polidez digníssima com os clientes. Surpreendentemente, minha mãe não se conteve tanto. Saiu da cozinha e caminhou até ele.

“Você é uma pessoa terrível. Sinto pena de você por achar que precisa agir assim para preservar sua posição e sinto ainda mais pena das pessoas que votam nesse projeto de homem. Por favor, retire-se do meu restaurante. Posso morrer de fome, mas não permitirei que experimente uma migalha sequer da minha comida”

Claro que ele se enfureceu, a ameaçando aos montes enquanto minha mãe apenas matinha uma expressão impassível.

E quanto a meu pai, o que ele fez nessa história toda? Apenas repetia “calma, amor. Não fique brava”. Essa é a diferença de ambos.

— Eu sei oque está tentando fazer. Está tentando me fazer rir para que eu esqueça sobre ontem, não é? Pois não funcionará comigo.

— O problema é que eu não lembro muito bem oque aconteceu ontem…

— Esse é o problema! — e o tom de voz dele ergueu-se junto com o desespero. É meio triste. Lidar com ele é sempre fácil. — Olha, filho, agir desse jeito não é nada legal. Lembra do Edward? O interesse romântico da Cindy em O diário da Cindy? Ele a magoou bastante agindo daquele jeito. Indo em várias festas e bebendo que nem um louco. E quanto ao Roy em Meu pequeno paraíso? Nossa querida Hilary Evans chorou o livro inteiro por causa dele.

Era muita informação para assimilar logo de manhã e a dor de cabeça não ajudava muito. Demorou algum tempo até que eu percebesse que ele estava falando de seus livros.

— O Edward ganhou uma bolsa de estudos para jogar basquete no fim do livro…

— Mas ele já tinha se redimido. Lembra que ele doou um rim para a mãe da Cindy?

Então eu posso ser um babaca se doar um rim? É isso?

— Roy não se redimiu. E ficou com a mocinha no final.

Esse foi o limite. Invés de gritar comigo, acabou por rir longamente. Dessa vez nem tentara se conter, apenas deixou fluir.

— Merda. Não dá mesmo para te vencer, hein? Sua mãe é incrível. — deu-me alguns tapinhas nas costas. — Só não repita isso, tá legal? Sua mãe fica triste quando você age desse jeito. — e assim, deu-se por encerrada essa pseudo bronca.

Segunda feira, dia 13 de maio, tudo parecia ter voltado a normalidade. Ou o quão perto dela fosse possível. Ainda haviam alguns sussurros sobre os acontecimentos de sábado, além de uns caras fazerem um belo esforço para conversar comigo (na sua grande maioria, amigos do Nícolas). Ignorei a maioria deles, respondendo suas gracinhas de forma vaga e não lhes oferecendo um pingo da minha atenção. A festa foi divertida, não poderia negar isso, mas grande parte da diversão foi ocasionada por Emily. Onde estavam esses caras quando eu de fato precisava de companhia?

Sendo assim, fui até Alex, que desfrutava de seu salgadinho de queijo. Supostamente de queijo, como eu sempre digo. Peguei um punhado generoso e passei a comer, um da cada vez, a moda dos burgueses.

— Como foi a festa lá? — perguntou seriamente. Embora eu tivesse certeza que ele jamais iria, uma pontada de culpa atingiu-me em cheio. Eu podia tê-lo chamado, eu devia tê-lo chamado para ir comigo.

— Ah, um saco, na sua grande maioria. Bom, haviam umas garotas bonitas. E, raramente, tocava música boa. De resto, toda aquela coisa que vemos nos filmes, mas de forma menos glamourizada.

— Pelo menos a garota do primeiro ano estava lá para te fazer companhia.— soltou uma risada anasalada, coisa rara dele fazer por sempre manter suas feições sérias.

— Então até você já sabe? — será que a Eve também sabia? Bom, não importa. — E eu não sei porque todo mundo ama dar ênfase no “primeiro ano”.

— É a parte mais legal da história, você tem que entender Fora as piadas como “o Tim resolveu abrir uma creche” ou “será que ele vai levar uma mamadeira para o encontro?”. Coisas assim são divertidas de se repetir.

Eram realmente boas piadas, mas como eu era o alvo do afronte, limitei-me a ficar irritado. Essas coisas nunca ficam tão divertidas quando você é o alvo.

Xinguei Alex, meio sem motivo já que ele só me relatara oque estava acontecendo, e penetrei minha mão na minha bolsa para achar meu celular. Antes que eu o fizesse, a professora entrara na sala, meio desesperada por ter se atrasado tanto para a aula quanto para o compromisso que tinha marcado. Ficou decidido, embora nenhum dos alunos tenha tido voz nessa decisão, que a gente ia até a sala do 1.º A para assistirmos uma apresentação sobre a África ou coisa parecida. Quando eu descobri, ficar vermelho foi inevitável. De todos os dias, tinha que ser logo hoje? O pior de tudo é que o Gustavo já acabou de vez com as minhas esperanças em não passar vergonha gritando um “É a sala da minha prima!”.

Pensei em gazear, mas ficaria ainda mais na cara. Além do fato de que eu não queria deixar a Emily triste lhe ignorando desse jeito. Sendo assim, pensei em ser casual. Falar um “Oi, Emily. Que coincidência ser logo a sua turma”. Depois, lhe daria atenção o suficiente para que ela não ficasse magoada, mas não o faria a ponto de parecermos um casal. Talvez no final, elogiar sua apresentação. Pronto, tudo resolvido.

Por sorte, ao entrarmos na sala e vermos aqueles rostos joviais, Nícolas, no ápice de seu bom senso, conteve o Gustavo (até mesmo tampou a sua boca, oque agradeci genuinamente) para que o mesmo não falasse nada desnecessário. Deve ter notado o quanto eu queria ser discreto.

Mas de nada adiantou.

Nem o suporte que ele me deu e nem todo o roteiro de como eu deveria agir.

Afinal.

Emily, mais do que depressa, gritou meu nome, atraindo a atenção de todos os presentes.

Mais do que depressa, ela saiu de trás da mesa que usava para acomodar sua maquete. Mais do que depressa, já estava engalfinhada em meu braço, muito próxima. Como forma de cumprimento, deu-me dois beijinhos, um em cada bochecha. Disse que era minha vez, fazendo biquinho e se aproximando, devagarinho. O cheiro de morango dos seus lábios preenchia-me a alma, fazia minha mente entrar num transe tão intenso que eu não queria mais sair.

Por sorte, a sensatez fez questão de me dar um murro e me acordar, então tive força o suficiente para não correspondê-la. Invés disso, dei-lhe um beijo na testa, mais carinhoso do que romântico. Ela corara um pouco com aquilo, até mais do que com o nosso beijo na festa.

— Humm… Não era bem esse tipo de beijo que eu esperava, mas está aprovadíssimo! Adorei. — riu um pouco, desconcertada.

Passou algum tempo antes que eu notasse que aquela cena era assistida por todos os alunos ali presentes, de primeiro anistas até veteranos como a gente. Evelin também deve ter olhado, mas não cheguei a conferir. Se tinham alguma dúvida dos boatos, Emily Campos fizera questão de dar-lhes a munição necessária para taxar a história como verdadeira.

Como a nossa professora estava num bom bate papo com a professora da turma deles (até hoje insisto na teoria de que elas formam um casal lésbico em segredo, mas não tenho como provar), Emily me puxou até suas amigas com o objetivo de me apresentar. Eu geralmente não sou tão apático com pessoas que desconheço, mas irritei-me na hora por ver que eram as mesmas da festa, a alta de óculos e a morena do nariz de gancho. Não estava concentrado o suficiente para guardar seus nomes em minha memória, por isso o ato de apresentar mostrou-se infrutífero. Só fiquei contente por não ter sido apresentado como namorado dela (embora isso fosse o esperado se analisarmos a situação de fora).

Fato é que a garota alta de óculos, depois de falar bastante sobre eu ser mais velho que elas, começou a insistir fortemente para que tirássemos uma foto nós quatro. Eu nem tinha forças para brigar, então apenas concordei. Já Emily…

— Ah, vocês sabem que eu não gosto de tirar fotos quando não tô arrumada. Não podemos deixar para outro dia? — foi apenas uma sugestão, e ela não tinha pedido nada demais, mas parecia nervosa quanto a refutar uma ideia de suas amigas.

— Mas faz tempo que não tiramos fotos juntas! — disse a garota do nariz de gancho, já alterando o tom de voz.

— Mas semana passada…

— Tá vendo, ela já começou com essas desculpinhas. — não sei ao certo com quem ela estava falando, então permaneci em silêncio. — Sério, é sempre assim com a Emi. Deve querer voltar ao tempo que não tinha amigas, aposto. Já que não gosta de ceder nem um pouquinho. Era super feliz quando tinha que ficar com os amigos do seu primo estúpido durante o intervalo.

— Para com isso! — Emily gritou, puxando novamente a atenção de todos na sala. Devem amar essa novela mexicana que minha vida colegial aparentemente se tornou. De repente, uma tontura lhe atingiu, pois teve que se apoiar na parede. Por consequência, também fiquei tonto, mas comparar-me a ela seria maldoso da minha parte. — Para… Por favor. Minha… — sua vista escureceu. Quando notei, pensei em quem seria capaz de jogar sob ela tamanha ironia. Sem resposta, apoiei seu corpo mole e fiquei triste por seus olhos tão verdadeiros serem cobertos por uma venda escurecida.

Não fiquei sabendo de Emily até vê-la no recreio, sozinha e entristecida, sentada nas mesinhas em que eu ficava matando tempo com a Eve. Ao menos, a venda havia sumido. Pensei em ir até lá, talvez para averiguar mais sobre essa questão ou apenas lhe oferecer certo conforto, mas desisti. Por conta dos boatos que se alastravam por aí, a exposição que minha presença traria faria com que ela ficasse ainda mais desconfortável e eu não me sentia nem um pouco à vontade em ir até aquele lugar com outra garota que não fosse a Eve. Parecia ser uma traição, embora a gente sequer tivesse definido aquele como “o nosso lugar”. Mesmo assim, eu também não a vi lá com o Eduardo, então pensamentos parecidos devem passar pela sua cabeça.

Voltando para o problema de Emily, parece obvio dizer que são as suas amigas. Lá na festa, se elas não tivessem ido embora antes que a discussão atingisse seu clímax, a venda apareceria. Julgo que o ato dela fechar seus olhos para as atitudes ruins de suas “amigas” fizeram com que uma venda literal lhe cegasse. Sendo assim, deveria ser fácil de resolver, não? Não, muito pelo contrário. Ter uma noção do que é o problema não é o mesmo que resolvê-lo. Ela provavelmente até já o notou, mas como descartar um relacionamento que já fora tão bom? Não posso dizer que não o fiz, mas dizer que foi fácil (que não há um preço a se pagar ao fazer isso) não passaria de uma mentira indulgente.

Não queria importunar Eve com isso, apesar de eu ter certeza que ela pensaria em 97 formas de resolver essa questão num piscar de olhos. Desde que começara a namorar com Eduardo, não nos falávamos direito. E se pensarmos bem, depois de todos os cortes, ela deve querer distância desse lado sobrenatural. Pensei em Alex, meu amigo recorrente, mas o mesmo não demonstra um pingo de interesse por nada que não seja sobre seus estudos.

Quem mais eu conhecia? Mia, talvez? Ela já me ajudou em um desses lances, mesmo que eu tivesse omitido todos os detalhes relativos ao lado sobrenatural da coisa.

Não, melhor desistir.

Ela me odeia e jamais me ajudaria a ajudar “uma garota que estou pegando”. Seria demasiadamente afrontoso para com sua honra inabalável.

Nícolas Alves? Talvez ele quisesse mostrar-me um pouco de gratidão, já que resolvi seu problema.

Não, nem fodendo. Sequer tenho motivo, mas não contarei com a ajuda desse filho da puta.

Desse jeito, só me resta uma pessoa. Não a melhor, nem a mais apta, mas talvez uma das principais interessadas em resolver esse problema.

Tive que recorrer ao primo. Gustavo e seu topete loiro seriam meus parceiros, não importa o quão decadente isso soe.

Quando voltei do intervalo e comentei que estava precisando de ajuda e queria ajudar Emily, ele mostrou-se eufórico de um jeito animado.

— Claro que eu vou te ajudar! É a minha priminha, né? E eu também sempre quis participar de um mistério com o Tim. Evelin sempre me falava sobre e até o Nícolas já se envolveu.

Espera, o Nícolas era a vítima! Como ele ousa agir como se fosse nosso parceiro? E eu fiquei genuinamente preocupado com oque Eve lhe dissera. Julgo que ela tenha tido tato em ocultar tudo de sobrenatural, mas qualquer deslize pode me fazer soar como um maluco.

— Bom, você começar me contando sobre Emliy. Suponho que vocês se conheçam bem. Tipo me dê sua opinião geral sobre ela.

— A Emily é um amor de menina, cara! Sério, o cara que ficar com ela vai se sentir como se tivesse ganhado na loteria. É como se fosse a irmãzinha que eu nunca tive. Ela também é super dedicada. Trabalha desde que pôde em uma sorveteria. Se quiser, a gente pode ir lá durante a tarde. Como anda meio frio, as pessoas não vão tanto até lá. Se quer conversar a sós com ele, esse é o lugar.

Seu depoimento não me foi tão proveitoso, mas aceitei com honestidade a ideia de encontrá-la no trabalho. Sendo assim, combinamos de almoçar em algum lugar e irmos direto até a sorveteria, esclarecer todas as questões pendentes. Ele também disse que ia aproveitar e pegar um jogo emprestado. Isso me fez questionar fortemente o quanto ele estava levando a situação a sério. De todo modo, só tinha ele e teria que me virar com isso.

Fizemos tudo que havia sido combinado sem grandes empecilhos. Depois de terminar de comer (estava quase sem dinheiro, mas Gustavo fez questão de me pagar um refrigerante) nos dirigimos até a Sorveteria Cristal, o lar das boas famílias e primeiros encontros. Estava vazio, então pude admirá-lo com mais precisão. Era um espaço amplo, com um piso azulejado em branco e paredes pintadas com um bege requintado. Haviam alguns quadros de paisagens para enfeitar essas paredes, embora, numa área específica, houvessem desenhos de bichinhos fofos. Também havia uma piscina de bolinhas, sendo um espaço para as crianças. No mais, mesas cristalinas limpinhas e freezeres encostados nas outras paredes. Durante o almoço, Gustavo me contara a história de como o dono da sorveteria era outro, mas, durante a troca, a nova dona afeiçoou-se a Emily de um jeito que foi impossível tirá-la do emprego. Ela também teve que se adequar com a nova pompa do lugar, já que ficara mais chique do que antes. Tirou de letra, como tudo que fazia.

Não estava tão movimentada por estarmos no inverno (na verdade, só havia uma família lá dentro além da gente), mas Emily teve prontidão em nos atender. Seu cabelo estava amarrado num coque e, além da camiseta azul bebê que deveria ser seu uniforme, usava um avental branco com um coração bordado em rosa lhe preenchendo. Quando notou que era gente, ficou mais feliz do que se esperaria, chegando até mesmo a dar alguns pulinhos.

— Ei, Mi, o Gustavo vai te ajudar a lavar as taças, tá? Eu quero conversar um pouquinho com meu amigo. — Mi, um garoto esguio e inexpressivo, assentiu de trás do caixa.

— Ei, sua folgada, quem disse que eu vou te ajudar? — falou Gustavo, meio alto.

— Poxa, fala baixo. E eu queria conversar com o Tim. Eu lhe devo essa conversa. Não pode me fazer esse favor? — disse com um olhar suplicante, mas não parecera assim tão efetivo. — Te pago um sorvete.

— Um sundae?

— Um picolé. Não sou rica, sabia?

— Um picolé de leite e a gente até pode conversar. — sem esperar pela resposta da garota, ele se dirigiu até onde Mi estava, lhe cumprimentando com um aperto de mão viril e indo para a área escondida onde a louça estava pendente.

— Por curiosidade, quanto é um picolé de leite aqui? — eu perguntei, honestamente curioso.

— 7 reais. O Gustavo quer me tirar o coro. Pode não parecer, mas ele é mais experto do que parece.

Tive até medo de perguntar sobre o sundae.

— E como você está, Emily?

— Estou melhor. Oh, bem melhor. Por sinal, me desculpa por te causar tantos problemas hehe. Não achei que isso ia me acontecer no colégio. É como se a minha vista ficasse toda escura, daí eu acabo perdendo o equilíbrio. É horrível. Como se fosse uma…

— Uma venda, né?

Seus olhos verdadeiros mostravam todo o choque que tivera.

— Sim! Isso mesmo! Dá até a sensação que tem um tecido na minha cara, é muito estranho. Muito mesmo. Mas como você sabe?

Eu pensei mesmo em lhe revelar toda a verdade. Sobre como o beijo me afetara e como eu posso enxergar manifestações sobrenaturais como a sua venda. Eu o fizera com os demais, então qual era a diferença?

Mas eu não o fiz.

Invés disso, inventei uma desculpa.

Estava disposto a rasgar sua venda, curar sua cegueira. Mas não estava disposto a deixar que me visse.

— Uma tia minha tinha uma doença parecida. E ela sempre falava como era parecido com o jogo de cabra-cega e as vezes chegava até mesmo a desmaiar na rua. É bem associada ao estresse, pelo que ela me disse. Vim te contar isso porque me pareceu ser a mesma coisa.

Para qualquer um, uma série de dúvidas complicadas seriam expostas como perguntas afrontosas. Como “espera, é mesmo uma venda?” ou “Você não acha isso muito absurdo, Tim?”. Não para Emily. Não havia nenhum motivo, por menor que fosse, para que ela suspeitasse de um cara supostamente tão legal como eu. De algum jeito, confiava em mim.

— Estresse, você diz… — pareceu pensativa e nenhum risinho nervoso saiu junto de sua voz macia dessa vez. — É, eu realmente estou um pouquinho estressada. Você viu, não viu? Todo o lance com as garotas. Eu sei que para quem olha de fora, é evidente que eu tenho que dar um basta. Se você tivesse na minha pele, viria que é pior do que parece. Mas eu sinto um pouco de saudosismo, embora soe bizarro se dito por uma garota do primeiro ano como eu. Quando me mudei para cá, no sexto ano, elas foram as únicas dispostas a fazerem amizade com a forasteira que eu era. Pensando agora, desde sempre elas agiam desse jeito meio tóxico. Deixavam na cara o quão sortuda eu era por elas serem minhas amigas e faziam questão de diminuir minha autoestima com seus comentários maldosos. Já pegaram meu dinheiro emprestado e não devolveram e, antigamente, eu tinha que fazer seus trabalhos. Consegui dar um basta, ao menos nisso, mas chorei muito pelo que elas me falaram depois. Ai, Tim, eu sei que sou idiota. Eu tenho outras amigas, então não ficarei mais sozinha se dar um basta nisso tudo. Mas… É difícil! É muito difícil descartar uma amizade assim. Tivemos momentos bons também.

— Primeiro de tudo, pode retirar já oque disse! — eu lhe falei, deixando-a confusa.

— Retirar?

— Isso! Quem você pensa que é para chamar a minha amiga Emily de idiota? — um sorrisinho desabrochara em seus lábios. — Nunca mais se deprecie assim, tá legal? — sei que parecia muito aquela coisa de “o sujo falando do mal lavado”, mas alguém promissora como ela jamais devia dizer essas coisas. — Olha, pode não parecer, mas eu já passei por uma situação parecida. No fundamental eu tinha um amigo assim. O nome dele era Renato, mas seu apelido, que todo mundo utilizava invés do nome, era Feijão. Já considerei Feijão como um dos meus melhores amigos e eu já cheguei a fazer muita coisa idiota para agradá-lo. Eu queria sua aprovação, seja lá por qual motivo. Mas teve um dia que eu resolvi ir contra ele. Já havia feito bullying em seu nome antes. Achava errado, mas era tudo pela gozação. Até que uma garota, cujo o nome eu não consigo lembrar, recusou o pedido dele para ficar com ela. Feijão era um cara meio vingativo, então pediu para que eu jogasse a mochila dela na valeta ao lado do colégio. Me recusei e acabei por sofrer esse castigo junto dela. Mas a garota era sortuda, então seus pais se mudaram no mês seguinte e eles se cansaram da provocação, deixando-me em paz. Passei sem amigos por todo o fundamental. Até tinham alguns dispostos a ter minha amizade, mas como confiaria que a situação não chegaria de novo a esse ponto novamente? Mas, mesmo sendo meio solitário, me senti bem comigo mesmo.

Essa última frase era uma mentira, mas quem se importa? Há tantas verdades no resto.

Mas comparar nossas situações foi errado. Ambos queríamos agradar um certo amigo, mas ela não chegou a fazer as coisas erradas que eu fiz. É uma vítima e só sofreu por ser uma boa pessoa. Eu só colhi oque plantei. Eu mereci ser um solitário e não devia sequer ter o luxo de conversar com uma garota tão legal quanto ela. Ainda mais ter beijado uma garota tão legal quanto ela.

Como a sorveteria estava bem vazia e Gustavo se ofereceu para ficar no lugar dela pelo resto do dia (por sinal, Gustavo trabalhar num lugar tão requintado deve ser cômico a beça. Quase me fez querer ficar lá só assistindo) pudemos ir para casa. Comprei uma casquinha de chocolate só para não sair de mãos abanando e Emily seguiu meu exemplo, comprando uma de baunilha. Segundo ela, teríamos o dobro de opções assim.

Uma coisa que eu percebi enquanto caminhávamos pela rua foi que raramente o assunto acabava. Não é como se fosse trabalhoso ou algo que o valha, a conversa apenas fluía. Para os rumos mais aleatórios e curiosos, mas eternamente divertidos. Ela ofereceu-me um pouco do seu sorvete de baunilha, dando-me na boca enquanto dizia “ahhh”. Meio envergonhado, eu fiz o mesmo, porque ela deixara claro que o queria.

— É, o time de basquete do colégio tá uma merda agora. — o pior era que nem falávamos de basquete, mas soava tão natural que nem causara estranhamento. — Bom, pelo menos não foi cortado. Por que não volta a jogar lá, Tim? Você era bem melhor que o ala-armador atual.

Oque não era um grande mérito, mas resolvi não comentar.

— Ah, agora não tenho tanto interesse em basquete. Seria trabalhoso e o time já está formado. Não me aceitaria.

— Pois eu aposto que aceitaria! E se não aceitasse, você podia se matricular no colégio rival e ganhar deles. Melhor! Ficar sumido por uns dois anos e voltar para treinar um time de calouros fracassados. Apesar das diferenças e da clara falta de habilidade, eles treinariam duro e conseguiriam vencer os fodões do basquete colegial. Pena que o colégio vai se chocar contra um iceberg em seguida.

— Que filme é esse!?

O gênero mudou num instante…

— O nosso filme. O roteiro vai ser meu e a direção do Scorcese, para agradar seus pais. Só precisamos pensar em como trazer um iceberg e jogar no colégio. Não queria usar efeitos visuais. Sou uma garota autentica.

Ri até quase cuspir todo o sorvete da minha boca. Fazia tempo que eu não ria tanto, a ponto de ficar vermelho e me faltar o ar. Havia esquecido como isso fazia-me bem.

Os assuntos aleatórios pareciam surgir um após o outro. Falamos sobre filmes e livros (acabei descobrindo que ela era uma grande fã dos escritos do meu pai, mas não falei sobre ele), como eu achava sertanejo universitário engraçado e como ela havia começado a escutar pagode porque a mãe amava. Lamentamos como a cadelinha dela, Lilica, morreu no ano passo e eu lhe contei que só não adotava um gato porque minha irmãzinha tem alergia. Falou também sobre como o seu tio ensinara seu papagaio a falar palavrões quando ninguém estava olhando.

Após atravessar uma rua movimentada, chegamos a sua casa. Era rosa e pequena, lembrando uma casinha de boneca em aspecto. Isso me pareceu tão adequado quanto o jardim florido que lhe adornava. Como ela morava só com sua mãe, devem ter concedido a filha o privilégio de escolher a cor.

— Bom, acho que é isso. — terminei minha casquinha e depositei o guardanapo usado em sua lixeira. — Você fica bem? Tem outras amigas, né? Para não ficar sozinha e tal.

— Tenho sim. A maioria de outra sala, mas não acho que as garotas da minha sala me desprezem. Tentarei uma aproximação, só para não ficar sobrando nos trabalhos em dupla hehe. Ah, e eu também tenho a mamãe. Confio nela mais do que em qualquer pessoa.— disse decididamente, também jogando fora o guardanapo que portava. — Muito obrigada, Tim. De verdade. A conversa que eu tive com você me ajudou bastante. Você me salvou. Posso deixar para trás essa fase ruim, mesmo sozinha.

— Eu não te salvei de nada. Você decidiu sozinha. — ela não havia me dito nada, mas dava para ver pelo seu rosto que ela havia decidido resolver sua situação. — E você não está sozinha. Tem as garotas da outra sala e teu primo Gustavo. Se precisar de mais um amigo, terá a mim também.

— Só amigo? — perguntou-me aos risinhos, toda debochada.

Não pude conter uma risada.

— Até amanhã, Emily. Se cuida.- beijei-lhe novamente na testa e saí.

Deixei-a em casa, vez ou outra virando para lhe jogar um aceno.

Pela primeira vez, um gosto amargo não preencheu minha boca.

Pude me sentir bem. Honestamente.

Parecia tão… Certo. E verdadeiro. E honesto. Inocente. E não decadente. Não triste.

Talvez… Eu merecesse aquilo. As coisas não acontecem por acaso, certo? Se ela apareceu na minha vida, deve ter um motivo ou sei lá. Seria apenas uma pequena prova do que eu nunca terei? Do que eu nunca serei?

Eu podia ter sido melhor. É isso que tanto me frustra.

Faltavam exatas duas quadras para que eu chegasse em casa, por isso a quadra de basquete aparecera. A mesma quadra onde gastei toda a minha determinação treinando arremessos e recusei a proposta de Alice Sanches. Ao lado da quadra, havia outra quadra (dessa vez de futebol de areia) e um parquinho básico composto de um trepa trepa, um escorregador e uma gangorra. Todos de uma tintura vermelha gasta.

Admirando todo o vazio daquele projeto de praça, demorei a notar que Ela estava lá. A pele era cor de creme e seus cabelos tornaram-se ruivos e curtos. O pouco cabelo que restara fora repicado e agora mal cobrira suas orelhas, ambas adornadas com luas pequeninas. Olhos profundos e desafiadores, negros, tal como ônix e também realçados pelas lentes quadradas de seus óculos. Não usava uniforme (afinal, considerava aquilo uma besteira e seria uma besteira ainda maior por não estar no colégio), optando por um quimono de crochê bordado. Em sua maior parte era bege, mas tinha uma parte sem renda ostentando um azul.

Era minha parceira, Evelin Carvalho, que estava sentada em um dos lados da gangorra, fumando um cigarro.

Antes de perceber, já tinha ido até lá. E antes de perceber, estava sua frente.

— Olha, acho que não dá para brincar sozinha nesse brinquedo.

Com uma risada sútil, ela me respondeu.

— Ora, então brinque comigo, meu caro.

Sentei-me na outra ponta da gangorra, em silêncio. Começamos a subir e descer, embora não tivesse um pingo da graça que tinha quando eu era uma criança. Demorou um tempinho até que eu quebrasse o tal silêncio.

— Achei que você não gostava do fumo. Algo sobre exaltar seu esteriótipo de revoltada ou coisa parecida.

— Fala isso porque não viu oque uma senhora metida a moralista acabou de me dizer “devia ter vergonha! Expor as crianças a seus vícios”. Não estava muito interessada em lhe oferecer uma réplica, mesmo que já tivesse pensado em 10. Apenas baforei no rosto dela, fazendo nossa doce anciã ir para casa tossindo. Algumas crianças tentaram me enxotar daqui, outras a´te pediram licença docilmente, mas lhes sugeri um belo lugar onde poderia enfiar meu cigarro e logo deixaram-me em paz. Oh céus, e seu os pais delas aparecerem? Como lidarei com tantos adultos, Tim? Terá que me sugerir algumas ideias. Você sempre tem ideias criativas.

— Você mudou o cabelo também. — eu apontei o obvio, como insisto em fazer sempre. Não sabia muito oque lhe dizer e como lhe dizer.

— Sim. Na verdade, eu me arrependi de deixar ele tão curtinho. Mas não preocupe-se, senhor. Ele já está condenado, oh,oh oh. Se eu não o foder com a tesoura, a tintura o fará a longo prazo. Mas fico surpresa que só tenha notado agora. Eu pintei no dia seguinte em que comecei o namoro. Não notou?

— Não. Eu não notei. — eu realmente não a vi…

Ficamos uns bons minutos brincando numa quietude assombrosa. Ninguém ousava abrir a boca para algo que não fosse respirar ou soltar fumaça. E estava tudo bem. Ficar quieto ao lado dela era algo que sentia falta, quer quisesse admitir quer não.

Por fim, ela me falou, num tom igual ao tom que usaria para falar alguma banalidade.

— Terminei com Eduardo. — disse Evelin Carvalho, baforando toda sua frustração para o céu na forma de uma nuvem de fumaça cinzenta.


Notas Finais


Leu até aqui? Sério? Ora, então deixe um favorito, um comentário ou compartilhe. Uma crítica ou sugestão de tema que quer ver sendo abordado (tanto nessa série específica ou em algum outro conto). Sou todo ouvidos (ou olhos, já que a suposta sugestão viria através dos comentários).
O nome do próximo conto será "A cicatriz de Evelin". Sim, chegou a vez da nossa garota favorita ganhar um conto só dela, como nome no título e tudo mais.


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