História Not Fair - Capítulo 1


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Categorias Shingeki no Kyojin (Attack on Titan)
Personagens Levi Ackerman "Rivaille", Mikasa Ackerman
Tags Rivamika
Visualizações 203
Palavras 4.759
Terminada Sim
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 14 ANOS
Gêneros: Comédia, Shoujo (Romântico)
Avisos: Álcool, Linguagem Imprópria, Spoilers
Aviso legal
Alguns dos personagens encontrados nesta história e/ou universo não me pertencem, mas são de propriedade intelectual de seus respectivos autores. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos criada de fã e para fã sem comprometer a obra original.

Notas do Autor


Inspirada na música not fair da Lily Allen, no ritmo não na letra (que é genial, a propósito haiahauua)
Não, eu não me canso de imaginar as mil possibilidades deles encararem um sobrenome em comum

Capítulo 1 - I


 

 
  Ela virou a terceira dose, a cabeça girando.
  Os gritos a incentivavam, e Mikasa pegou a garrafa da mão do barman. Bebida forte, daquelas que nunca provara antes. Derramou na boca enquanto elas riam, as garotas bêbadas demais para qualquer noção. 
  A culpa era da Hanji.
  Ela que sequestrou as subordinadas para levar a um bar horrendo, sem nenhum medo de embebedar soldados em sua folga. Mikasa se recusou a colocar uma gota de álcool na boca, até que viu o capitão entrar no bar. Acompanhado. 
  Era um sentimento esquisito. Parecia que a raiva que sentia dele piorou mil vezes ao vê-lo naquele canto escuro, sentado de frente para a ruiva Petra, as mãos dos dois sobre a mesa em um toque discreto. 
  A raiva subiu quente.
  E justo naquele momento a Christa estava com um copo na mão. 
  Foi bom, a bebida rodou sua cabeça e deixou a realidade com um brilho bonito. Mas foi só olhar para aquele canto de novo que o mau humor voltou.
  Mas Mikasa já tinha a solução. 
  Três doses da bebida forte depois, estava com a garrafa na mão, em cima da mesa, dançando com Sasha. 
  O músico do bar tocava animado o piano, e um cara tirou um violino de algum lugar.
  Sasha roubou a garrafa e tomou um gole, mas Mikasa logo pegou de volta. Em algum momento, encontrou os olhos do capitão, fixos nela.
  Nem reparou direito, pois estão um cara ruivo a puxou da mesa e rodou com ela no colo.
  Mikasa riu.
  Era bom rodar assim.
  O vestido que usava era rodado, diferente do usual, o espartilho marcava a cintura e as mangas haviam caído nos ombros. Não queria vestir aquilo, mas foi a superior maluca que empurrou as roupas que cada uma tinha que usar.
  A pobre Sasha foi obrigada a vestir um decote imenso, mas Hanji não deixava ninguém chegar perto dela.
  Enfim, a saia do vestido levantou feito uma flor ao seu redor, e aquilo foi legal e a fez rir mais. Por que nunca vestira coisas rodadas antes? Foi burra.
  Enquanto o fortão ruivo a girava no ar, viu com a visão periférica a Petra fechar a expressão para o capitão. Ela se inclinou e sussurrou algo para ele, que ainda encarava Mikasa fixamente. Depois ela não viu mais nada.
  O cara a colocou de volta em cima da mesa, e sumiu dançando com Nina. Mikasa a viu lançando olhares para o cara fazia um tempo.
  Ela cansou, e se sentou balançando as pernas com a garrafa entre elas. O povo do bar estava muito animado, todo mundo bebendo e dançando, as meninas todas desapareceram em meio a confusão.
  Rindo, deixou a garrafa e saiu porta afora. Precisava de ar.
  A noite estava fresca, e a brisa era bem vinda no corpo quente. Quis fazer xixi, e foi até uma moita. Estava levantando as saias quando foi interrompida.
  - Ackerman. - Alguém a chamou, e ela virou para dar de cara com Levi.
  Encarou-o, meio confusa. Ele não estava em um encontro com a menina lá? 
  - Você não tava com a menina lá? - A voz saiu toda enrolada, o álcool nublando todo seu senso.
  Mas antes que o capitão pensasse o que responder para a garota embriagada, um cachorro passou na rua.
  Mikasa viu o cachorro e desatou a correr atrás do bicho.
  - Carrocho! - Gritou na rua, aos olhos atônito do capitão. 
  O cão saiu em disparada, crente que a moça doida o deixaria em paz com uma corrida rápida. Veja bem, o cachorro estava acostumado a deixar todos os perseguidores para trás. Mas acontece que a Mikasa tinha uma resistência física monstruosa, e quando o animal olhou para trás e viu aquele monte de mulher insana correndo como se não houvesse amanhã, ganiu de desespero.
  - Carrochinho vemcáááá! - Ela gritou, agitando os braços e rindo psicótica para o cão. 
  Alguém segurou sua cintura e a deteve - o "carrocho" sumiu pelo beco, agradecido pela interrupção.
  - Solta! Meu irmão vai te morder! - Mikasa se debatia, e teria se soltado, se não fosse outro Ackerman a segurando. 
  - Mikasa, para quieta, inferno. - Levi era forte, mas nem ele conseguia segurá-la por muito tempo sem se machucar.
  - Ele é titã, seu tarado! Vai te matar e me dar o carrochinho! - Aparentemente ela estava obcecada pelo cachorro. - Eu sou da tropa do Levi, ele vai te destroçar! 
  - Me diz, pirralha, como eu vou matar a mim mesmo?
  Ela parou, finalmente o ouvindo.
  - Rivaldo? - Ela tinha conseguido confundir o nome dele, mas pelo menos sabia quem era. Mais ou menos.
  - Você está muito bêbada, Ackerman. Vou levá-la de volta. - Mikasa não precisava adivinhar que "de volta" não era para o bar. 
  - Mas você não vai sair dali e me levar porque a menina lá vai ficar brava e depois eu que vou tomar no...
  Ele calou a enxurrada de palavras com um olhar. Levi fez uma nota mental de deixar Mikasa longe de qualquer tipo de álcool. 
  - Ackerman, é melhor você não resistir. - Segurou firme no pulso dela. - Não vou te deixar aqui.
  Mikasa abriu e fechou a boca, incerta. O efeito do álcool passava lentamente e ela sentiu vontade de chorar. 
  - E o carrocho?
  - O que tem o cachorro? - Ele bufou. 
  - Coitadinho do carro...
  - Ele vai ficar bem! Tá vendo aquele beco? - Apontou para onde o animal correra. - Ali é a casinha dele, e ele vive com a esposa e os filhos. Você não quer separá-los, não é? 
  Ela olhou para a escuridão por um tempo, o lábio tremendo e os olhos cheios de lágrimas. Balançou a cabeça, mordendo o lábio trêmulo. 
  - Não quero separar a família do carrocho. - A voz dela saiu fina e sufocada, e Levi quis se bater. Olha a merda que fez. - Ele tem filhinhos...
  Mikasa estava chorando emocionada com a vida familiar do viralata. 
  Era demais para uma única noite - sem contar que a Petra ficaria furiosa com sua demora.
  - Eu também quero filhinhos... - Ela chorava baixinho, soluçando e se abraçando. 
  Levi passou a mão pelo cabelo, desesperado. 
  Mas ele colapsou mesmo quando Mikasa virou aqueles imensos olhos brilhantes e magnéticos para ele, transbordando de esperança. 
  - Você vai me dar um bebê? 
  Ele cogitou bater na cabeça dela para desmaiar, e arrastar o corpo até a base.
  - Mikasa, pelo amor de deus, vamos embora. - Arrastou-a pelo pulso e fechou os ouvidos as lamentações chorosas da moça. 
  Pelo menos as ruas estavam vazias e ninguém veria o melhor soldado da humanidade arrastando a segunda melhor soldado da humanidade bêbada e chorando pela madrugada. Dessa vergonha ele foi poupado.
  Como a Hanji também estava no fatídico bar, não havia ninguém acordado e bisbilhotando durante a madrugada. Entrou apoiando Mikasa, cuja bebedeira passava e o sono misturado a torpor começava a aparecer.
  Agora era só vencer as escadas, deixá-la no quarto e voltar para a Petra. 
  Levi parou, olhando para a moça meio adormecida com o rosto apoiado em seu ombro.
  É, voltaria para a Petra. Mas primeiro garantiria o bem estar da pirralha. 
  Tropeçando e escorregando, subiu as escadas amparando a garota. Sabia qual era o quarto dela, mas estar lá dentro era estranho. Tudo tinha o cheiro bom dela, as coisas arrumadas o surpreenderam pois sabia que gente mais jovem era bagunceira. 
  Deixou Mikasa na cama e deu as costas.
  - O carrochinho tem uma família, não é? - Ela lutava contra o sono.
  - Tem. - Sussurrou do meio do quarto.
  - Eu acho que... Eu sou a última da minha. - Mikasa falou aquilo tão triste que até mesmo o Erwin teria pena. - Quando eu tiver meu filhote, não vou estar mais sozinha. 
  - E seu irmão? - Levi não podia negar que ficara curioso.
  - Ele não é um Ackerman, Rivaley. - Cada hora ela o chamava de uma coisa. - Quando eu tiver um Ackerman, não estarei mais sozinha. Eu sinto...
  Mikasa se calou, provavelmente caiu no sono.
  Ele ainda ficou um tempo só olhando para ela. Sabia o que ela queria dizer. Também sentia o mesmo, sabia que não estaria sozinho quando encontrasse alguém...
  Balançou a cabeça, o que era aquilo? A maluquice da menina estava o afetando já. 
  Fechou a porta do quarto dela e desceu as escadas, tentando tirar a imagem de Mikasa implorando por um bebê da cabeça. Que situação, pelas muralhas. 
  Estava saindo da casa quando parou, suspirou e deu meia volta. Vinte minutos depois subia as escadas com uma xícara de chá.
  Abriu a porta do quarto dela com cuidado, para não assustá-la. Se aproximou devagar e deixou a xícara ao lado da cama. Deu uma olhadela e viu que Mikasa havia agarrado o travesseiro e subido no lençol, o tecido do vestido embolado no quadril deixando as pernas dobradas a mostra.
  Se arrependeu de ter olhado. 
  Aquela menina sempre o inquietou, desde que viu os olhos negros o fitarem com raiva quando bateu no moleque estridente. Boa demais, perfeita demais, dedicada demais ao irmão...
  Tão distante quanto ele mesmo.
  E tão linda...
  Sua subordinada. Uma garota nova demais. 
  Então aceitou o convite da Petra para sair na folga e tentar esquecer um pouco da vida difícil. 
  Petra era legal, uma boa amiga. Um pouco insistente, queria se aproximar de qualquer forma. Talvez ela quisesse algo a mais, e Levi estava disposto a dar uma chance.
  Até ver Mikasa Ackerman rindo como nunca vira na vida, dançando feliz em cima da mesa, o vestido girando ao redor.
  Definitivamente, a garota era um problema em sua vida. E ainda mais que, quando percebeu, saíra atrás dela no bar.
  Sentou na cadeira ao lado da cama, observando Mikasa dormir.
  Ficou lá pensando nela e admirando sua figura, até que com um pulo lembrou da moça que deixou na mesa do bar.
  Saiu voando, mas não antes de olhar para Mikasa uma última vez.
   Ela sonhou com um cachorro felpudo que lambia seu rosto, e nunca esteve tão feliz. Abraçava o animal macio com força, e ria com os latidos animados. Mas estava diferente, pesada, e quando olhou para baixo viu uma imensa barriga de gravidez. 
  Acordou lentamente, a sensação de felicidade era tão real que ficou mais um tempo de olhos fechados só para aproveitar. 
  Depois sentiu sede. E uma dor de cabeça avassaladora. 
  Mas que merda...?
  Bebida. "Carrocho". Levi.
  Ah, não. 
  Mikasa nunca mais ia beber, ela jurou. 
  A primeira coisa que lembrou foi de se referir de forma pejorativa a superior, "aquela menina lá". Depois do cachorro e a perseguição. E depois Levi Rivaille cuidando da bebedeira dela.
  Que vergonha. 
  Sentou na cama, gemendo, e deu de cara com uma xícara de chá ao lado da cama. Ah.
  Ah.
  Ele... Ah!
  Levantou em um tropeço, esquecendo da roupa toda amassada. Tomou o chá em desespero, a garganta toda seca, e saiu do quarto quase correndo. 
  Precisava comer e precisava de água. 
  Mikasa estava meio confusa, aquela confusão de quem experimenta uma ressaca daquelas, então nem percebeu seu estado deplorável. 
  De alguma forma milagrosa, não havia ninguém na cozinha.
  Bem, quase ninguém. 
  Levi sorriu ao ver o estado de Mikasa, o cabelo negro tão bagunçado que parecia um dente-de-leão. A expressão também era cômica, extremamente confusa.
  Ele estava sentado na mesa, tomando o costumeiro chá. Também estava preocupado com ela, mesmo que não admitisse - e na verdade admitia sim.
  - Capitão?! - Já ela, não estava tão a vontade na presença dele. - O que aconteceu com seu rosto?!
  Levi tocou a bochecha esquerda, lembrando-se do tapa de Petra. Quando chegou no bar, a ruiva não estava muito satisfeita. Ligou a ausência dele com a da Mikasa e pronto, apanhou. 
  - Nada. - Desconversou, não queria falar do ciúmes muito bem justificado da ruiva. - Como você está? 
  Mikasa encheu um copo com água, sentando-se na frente dele.
  - Péssima. - Não ergueu os olhos para ele. - Desculpe por ontem. Eu nunca fiz nada assim na vida...
  - Eu sei.
  Silêncio desconfortável. 
  - Sabe aquele cachorro?
  Por que Levi tinha que lembrar daquela vergonha? Mikasa se sentia mal só de pensar no cão e seu surto. 
  - Uh.
  Levi tomou aquilo como um "sim". 
  - Ele me seguiu na volta, ontem a noite. Está morando no jardim.
  Mikasa ergueu a cabeça em um sobressalto, arrependendo-se pois tudo girou. 
  - E a família dele?!
  A expressão de Levi foi impagável. 
  - Bem, eu... Creio que...
  - Não precisa se explicar. - Ela segurou o riso. - Foi uma boa forma de salvá-lo de mim. Até hoje cedo eu achava que ele tinha mesmo uma família, até que percebi a real.
  - Você me pareceu bem empolgada com o "carrocho".
  Só faltou ele fazer as aspas com as mãos. Ela pensou em retrucar falando que ele parecia bem empolgado com a ruiva, mas achou melhor não. Ele ainda era seu superior. 
  E pareceria que ela estava com ciúmes. O que era algo absurdo. 
  Não é? 
  É.
  - Uh.-  Escondeu o rosto nos braços. - Então ele tá aí fora?
  Levi sorriu, mas ela não viu por estar com a cara na mesa.
  - Talvez não seja uma boa ideia ele te ver, pode espantar. 
  Ela estava pronta para retrucar quando percebeu que, caramba, ela estava tendo uma conversa descontraída com o capitão Rivaille. Rivaldo. Rivaley. - outra lembrança que surgiu na cabeça dela, e deu mais vergonha.
  Começou a rir de nervoso.
  - Qual é a graça? - Ele perguntou, franzindo o cenho.
  - Você é legal. - Respondeu ainda rindo. - Legal mesmo, não a pessoa horrível que...
  Parou de falar ao ser encarada pelo Levi. 
  - Agradeço o elogio. Eu acho. - Então ela percebeu que era só confusão na cara dele.
  Voltou a sorrir.
  - Vou subir. Preciso de um banho. - Levantou-se e deixou o copo na pia.
  Levi assentiu, levando a xícara aos lábios. Ela ia tomar um banho e fez toda a força possível para suprimir a imagem dela nua em baixo da água que se formou em sua mente.
 Ela abandonou a roupa no chão e entrou na banheira com ânsia. 
  Não aguentava mais a sujeira e as roupas da véspera. Parecia que cada centímetro do tecido estava coberto de bebida. E ela nem lembrava de ter derrubado na roupa.
  Suspirou de prazer com a água quente, submergindo e molhando os cabelos. 
  É, até que ele era legal.
  Suspirou novamente, passando a mão pela água. Bem legal, quando descontraído.
 
 
 
 
 
 
  Ela não era a última de sua família. 
  Depois de tanta coisa, de tanta dor e tantas perdas... Levi ainda não falara nada para ninguém. 
  Não falou nada para Mikasa. 
  Estava na varanda, uma xícara de chá nas mãos, observando os que restaram.
  Hanji, Eren e Armin discutiam alguma coisa sentados na mesa do jardim, Connie dormia ao sol e podia ouvir Sasha na cozinha. Jean estava sabe-se lá onde. Mikasa brincava com o cachorro da tropa, carinhosamente chamado de "Carrocho".
  Depois de um tempo o animal superou o terror que sentia pela Mikasa, e os dois viraram melhores amigos.
  Levi gostava de vê-los brincar.
  Estava enrolando há semanas para contar a Mikasa. Haviam desenvolvido uma certa tolerância, e uma notícia daquela - que compartilhava do sobrenome e material genético dela - tinha que ser dada o mais rápido possível. 
  Ela o viu observá-la e corou.
  O capitão adorava vê-la vermelha.
  Mikasa se aproximou dele, Carrocho em seus calcanhares. O cão latiu para ele e mordeu o pé dela, querendo atenção. Nem parecia o animal desesperado que correu da soldado há tempos atrás. 
  - Oi.
  - Mikasa. - A cumprimentou, apertando a xícara. 
  Não teria oportunidade melhor, teria de ser agora.
  - Venha comigo.
  Ela o seguiu em silêncio, curiosa. Depois do confronto que tiveram no telhado há pouco tempo, havia começado a evitá-lo - sentia vergonha e medo de que Levi a odiasse.
  Por isso teve medo quando ele a chamou.
  - Não precisa ter medo. - Ele percebeu a tensão que emanava dela. 
  Quem estava com medo mesmo era ele. Levi buscava uma forma de contar para ela sem ter um derrame; não sabia o que esperar da reação dela. 
  - Uh... - Mikasa apoiou o corpo na parede do corredor enquanto ele destrancava a porta do quarto. 
  Ela estava bem assustada, os olhos bonitos maiores do que nunca e meio trêmula. 
  - Entre.
  Mikasa entrou em seu quarto e pareceu deslocada encarando os pés. Foi estranho para Levi, mas vê-la ali era agradável. 
  - Então... - Ela sussurrou,  erguendo o olhar timidamente. 
  - Precisamos conversar um assunto delicado. 
  Péssima abordagem. 
  Mikasa já ofegou e quase subiu em cima dele.
  - É sobre o Eren?!
  - Não - Respondeu antes que ela saísse correndo. - Não tem nada a ver com ele. 
  O alívio foi palpável, e a moça suspirou, arrumando a postura.
  - Ah - Colocou uma mecha do cabelo negro atrás da orelha. - Sobre o que é?
  Levi suspirou, olhando nervoso para a cama.
  - É sobre você - Buscou uma forma de ser mais claro. - E eu.
  Sua voz morreu ao vê-la corar e morder o lábio de cabeça baixa.
  A cena não facilitava nada, pois o capitão se imaginava mordendo aquele mesmo lábio, mas de uma forma muito mais prazerosa. 
  Levi era tão ferrado que a única moça por quem sentia atração era sua parente. 
  E ele teria de dar a notícia. 
  - Há pouco tempo eu descobri algo sobre minha família. - Parou de procastinar e resolveu fazer o que fazia de melhor: ir direto ao ponto. - O sobrenome da minha mãe. 
  - E o que isso tem a ver com... - Ela perguntava, confusa. 
  Não a deixou terminar.
  - O nome dela era Kuchel... - Respirou fundo. Era agora. - ...Ackerman. 
    Mikasa abriu a boca mas não falou nada. Só o olhou meio assustada, como se tivesse medo dele.
  Se afastou uns passos, batendo na cômoda e cambaleando até encontrar na parede, onde se apoiou.
  - Nossa. - Falou olhando para o chão, os cabelos caindo como uma cortina sobre o rosto. 
  - É, nossa. - Levi estava envergonhado.
  - Por isso me perguntou aquilo, sobre saber exatamente o que deve ser feito...?
  Os olhos negros o perfuraram, inquisidores. Carregavam o mesmo brilho que tiveram no bar, uma energia genuína e forte.
  - Sim. Aconteceu comigo, e por algum motivo achei que não fosse...
  - O único. - Ela completou, afastando os cabelos do rosto com um suspiro. - Que situação, pelas muralhas. 
  - É, que situação.
  Ela se remexeu, afundando o rosto no cachecol.
  - Nós somos meio que... Primos? Você é meu tio ou...? 
  Levi coçou o pescoço, incomodado. 
  - Acho que... Primos...?
  - Isso. Primos. - Mikasa concordou rápido, e ficaram em silêncio. 
  Silêncio desconfortável. 
  - Nossa. - Ela repetiu, torcendo o tecido vermelho nas mãos.  - Então... Bem vindo a família?
  Ela tomou coragem e o encarou, mais vermelha que um tomate. Havia algo nos olhos dela que ele não soube decifrar. 
  - É, família... Obrigado. - Pigarreou, se odiando por querer beijar aquela menina que agora era sua prima.
  Realmente, que situação. 
  - Eu vou, ah, descer e... - A moça falou envergonhada, gesticulando para a porta em um movimento mínimo.
  Levi assentiu, paralisado pela timidez súbita e mutilante. 
  - Nos vemos mais tarde, então. 
  Depois que ela saiu, o capitão sentou na cama e escondeu o rosto nas mãos. 
  Deveria tê-la beijado em cima daquela mesa de bar.
  Pelo menos teria a desculpa de não saber do parentesco e não morrer de culpa como agora, que buscava uma forma de beijá-la mesmo sabendo de toda a verdade.
  Primos... Ah!
  Que merda Levi havia dito? Era só dizer que não tinham qualquer ligação além do nome!
  Mas foi idiota e derreteu ao lembrar da esperança de uma família que ela nutria, que descobriu com a confissão bêbada. 
  Ela ganhou outro Ackerman, pelo menos.
  
 
 
 
 
 
 
 
 
  Estavam de volta ao mesmo bar, só que a tropa toda dessa vez. O que não era lá muita gente, ele tinha que admitir. 
  Do mesmo canto escuro que ficara da primeira vez, observava Mikasa. De novo. 
  Ela não havia tocado em nenhum tipo de bebida que não fosse água - Levi sorriu sutilmente ao perceber isso - e passou a maior parte da noite com o irmão e Armin.
  Depois que a Hanji ameaçou Connie com uma faca pela terceira vez, o motivo ele não se deu o trabalho de descobrir, viu a oportunidade surgir. 
  Mikasa levantou da mesa que estava com os irmãos, desviou de Jean habilmente, e saiu porta afora. Não pensou duas vezes e foi atrás dela.
  A moça pensava duas coisa: nunca conseguiria fazer xixi naquele lugar, e que levaria a cadela embora consigo de qualquer forma.
  Havia saído para urinar naquela mesma moita da última vez, e foi surpreendida não pelo capitão, mas sim por uma cachorrinha preta e fofinha, muito peluda, pulando em suas pernas. 
  Se abaixou e pegou o bicho, a cachorra lambendo seu rosto de felicidade. Buscava uma forma de comunicar Hanji sobre mais um cão residindo com a tropa quando a última pessoa que faltava para completar o dejavú apareceu.
  - Outro cachorro, pirralha? - Levi não estava realmente surpreso. 
  - É uma fêmea. - Se virou para ele e mostrou a cachorrinha no colo. - Podemos chamá-la de Carrocha, vai ser amiga do Carrocho. 
  Riu da cara engraçada dele, que tentava segurar o sorriso e a expressão ficou meio amarrada.
  - Só se você a perseguir pelas ruas. - Se aproximou alguns passos. 
  - Não acho que ela vá fugir de mim. - Abraçou Carrocha mais forte e brincou com a patinha dela.
  Agora Levi sorriu de verdade - apenas um levantar no canto dos lábios. Ergueu uma mão e tocou uma orelha da cachorra, fazendo um carinho breve que a cadela nem percebeu.
  - Agora ele não está mais sozinho. - Murmurou sem tirar os olhos do animal fofinho. 
  - Ela também. - Mikasa acariciou Carrocha. - Agora ela tem um amiguinho.
  "Agora ela tem um amiguinho".
  Levi podia dizer que aquela situação definia bastante a sua própria. Um cachorro viralata que fugia de contato humano se aproximou da tropa, acabou obcecado por Mikasa - o Carrocho, no caso - e agora ganhava uma "amiguinha" da mesma raça. 
  O capitão se perguntou como Carrocho reagiria a Carrocha, o único outro cão que entrava em contato por meses.
  Olhou para Mikasa, toda feliz com a cadelinha, e suspirou resignado. 
  Tinha uma suspeita, e se houvesse a concretização, pobre Carrocho. 
  - O senhor já vai embora? - A voz baixa dela o despertou das divagações. 
  - Não. - Mikasa o olhou intrigada. O que ele fazia lá fora então? - Eu precisava de ar.
  A noite estava fresca, e o vento soprava com uma certa força. Era bom tomar ar, mas melhor ainda era a visão de Mikasa com os cabelos e saias voando ao redor.
  - Entendo. - A moça assentiu.
  - E você? - Perguntou de volta. 
  - Acho que vou para casa, estou cansada e quero levar Carrocha antes que ela fuja de mim. - Mikasa sorriu para ele, rindo da piada anterior.
  - Eu a acompanho. - Falou e só depois percebeu o quão desesperado para ficar com ela aquilo soava.
  Mas Mikasa não o questionou nem negou, só assentiu. Levi quis creditar que ela queria sua companhia.
  O caminho se volta foi silencioso e envergonhado, mas ambos estavam felizes de estar juntos - A cachorra latia de vez em quando e cortava o silêncio. 
  Quando se aproximaram da casa, já puderam ver de longe Carrocho de guarda na porta principal. O animal latiu e veio correndo, todo feliz por ver Mikasa, e parou intrigado ao ver um equivalente no colo da humana.
  Ela se abaixou e soltou Carrocha no chão, que momentaneamente ficou sem saber como agir, mas logo Carrocho se aproximou e eles estabeleceram um primeiro contato muito desconfiado.
  - Nunca tinha reparado que ele é cinza. - Mikasa comentou, olhando para o macho.
  Perto da fêmea, preta e peluda, o macho era um pouquinho maior, menos peludo, e teve a cor cinza destacada com o contraste de tonalidades.
  - É por causa dela. - Levi achou engraçado a visível confusão dele e a desconfiança dela. - Perto dela, a cor fica mais em evidência. 
  Se olharam, olhos negros e cinzas.
  Logo o vermelho aflorou no rosto dela, e Levi ficou encarando feito um idiota. 
  E então Carrocha saiu correndo, e Carrocho foi atrás, deixando-os sozinhos.
  Mikasa suspirou, mexendo no barrado de renda em seu corpete. 
  - O senhor vai voltar para o bar, não é? - Ela estava triste. 
  Levi queria muito ficar. 
  - Não. Estou cansado e Hanji não para de gritar. - Os gritos de Hanji sempre eram uma boa desculpa. 
  Eles se puseram a andar lado a lado em direção a casa.
  Acanhada, Mikasa o olhou por baixo dos cílios. 
  - O senhor está cansado, então? - Perguntou timidamente, e Levi sentiu um nervoso descomunal.
  E se ela tivesse ouvido a mentira em sua voz?!
  - Bem, não exatamente. Estou cansado da Hanji mesmo. - Foi a melhor desculpa que arrumou. Depois iria se desculpar com a louca, estava colocando tudo nos ombros dela.
  - Eu pensei que... Estou sem sono e... Poderíamos conversar ou...? - Nunca viu Mikasa tão envergonhada.
  Levi sorriu para ela.
  Sorriu de verdade.
  Dez minutos depois estavam na sala, ambos com uma xícara de chá nas mãos, de frente um para o outro, evitando os olhares.
  - Como estão as coisas com a rainha? - Ela rompeu o silêncio em um murmúrio baixo.
  - Bem. 
  - Ah... - Mikasa olhou ao redor, procurado algum assunto. - O senhor acha que os cachorros vão se dar bem? 
  - Acho.
  - Eu também. 
  Ela corou, encarando a xícara pousada no colo. Levi não estava sendo evasivo por escolha, era simplesmente o nervoso descomunal que o fazia tão tapado, caso o contrário já teria vomitado de desespero na saia dela. 
  - O senhor está bem? - Ela perguntou, preocupada com a expressão quase epilética de Levi. 
  - Estou. - Não estava.
  Mikasa ficou quieta, o cenho franzido para a xícara em seu colo.
  O capitão pensou que deveria estar parecendo muito idiota aos olhos dela. Por que simplesmente não aproveitava a merda da situação e se aproximava de Mikasa de uma vez por todas?!
  Burro.
  - Ackerman - Começou devagar. - Eu...
  Um tumulto de latidos e grunhidos interrompeu sua fala, e os animais surgiram não se sabe da onde, em uma correria louca, atravessando a sala com Carrocho perseguindo a fêmea. Mikasa se levantou em um impulso, igual Levi - afinal os dois possuíam os reflexos militares que os qualificava como os melhores - buscando uma forma de lidar com a balbúrdia.
  Os cães se chocaram contra os humanos, naquela correria insana. Levi tropeçou, Mikasa tropeçou, e todo mundo caiu.
  Carrocha não ficou muito tempo no chão, logo se jogando contra Carrocho e os dois sumindo dali com a mesma rapidez com que surgiram.
  Só restou Mikasa estirada de costas no chão, com o terrível capitão Rivaille em cima. 
  Tão próximos quanto possível, Levi se viu presa do olhos negros que ostentavam uma expressão surpresa e estranhamente carinhosa.
  E ele nunca foi tão impulsivo quanto naquele momento. 
  - Eu gosto de você. - Terminou a frase anterior na pior posição possível. 
  Mikasa não respondeu, suspirou e fechou os olhos, relaxando contra o chão. 
  - Não como amiga - Levi se apressou a se explicar, preocupado com um mal entendido e se enrolando ainda mais. - Não que você não seja uma boa amiga, porque é, mas eu...
  Era só o que faltava, Levi ofender a menina! Por que estava tão enrolado? Nunca foi assim.
  - Eu entendi. - Ela sussurrou, sem abrir os olhos. 
 Mikasa franziu as sobrancelhas e os lábios se juntaram em um biquinho pensativo. 
  - Ah - Ele sentia cada curva do corpo dela abaixo de si, e o calor cálido o fazia estremecer.
  - Tudo bem - A oriental o olhou timidamente, piscando os cílios. - Acho que eu também gosto de você. 
  Mikasa corou e Levi também, mas ninguém fez menção de sair da posição anormal que se encontravam.
  Lá fora, os cachorros corriam em círculos e latiam animados, felizes por estarem juntos.
 

Notas Finais


Xablau


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