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História Notas amarelas - Capítulo 4


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Notas do Autor


Adivinhem qm apareceu depois de duas sema... tá, parei
Demorou, mas chegou mais um cap (o primeiro do ano), e isso graças ao meu querido papi q jogou a conta da internet fora e me deixou sem wifi por 4 longos e agonizantes dias, os quais aproveitei pra forçar a cuca e assistir documentários de assassinato no ID :)
Sem mais delongas, espero q aproveitem bastante esse cap, pq vcs já sabem, né? Ñ tenho certeza doq virá no próximo cap kkkkkk
Boa leitura

Capítulo 4 - Encontros


Fanfic / Fanfiction Notas amarelas - Capítulo 4 - Encontros

— A pizza chegou! — anunciou Sophi ao fechar a porta de entrada, antes de caminhar até a sala com a caixa média em mãos.

— Ainda bem, estou morta depois de tanto tempo desfazendo as malas e arrumando meu quarto — comentou Alice, saindo da cozinha com uma garrafa de Pepsi e dois copos de vidro equilibrados entre os dedos.

Após colocarem tudo na mesa de centro e se sentarem no sofá, Alice serviu a amiga com refrigerante e vice-versa, antes de darem a primeira mordida no jantar épico – assim apelidado por Sophia – na casa nova. Gemidos satisfeitos escaparam e elas deram um olhar cúmplice, felizes por finalmente poderem escolher quando dedicariam a refeição às porcarias que seus pais normalmente permitiam somente uma vez por semana.

O lado bom em ser independente se mostrava mais que bom.

— Eu vou engordar muito se morar com você, você é uma péssima influência — comentou a ruiva de boca cheia, conseguindo um riso por isso, mas principalmente por seu rosto sujo de ketchup e seus olhos brilhando de satisfação, sem um pingo de arrependimento.

— A escolha final ainda é sua, pode comer yakisoba de vegetais na próxima vez — brincou, rindo em seguida. — Mas me conta, como foi seu dia? Foi tão ruim quanto imaginava que seria? Aposto que já tem um círculo de amigos.

— Foi legal até. Minha professora bolou um exercício para nos conhecermos, e eu acho até que virei amiga de boa parte da turma.

— Mas?... — insistiu, notando algo diferente no jeito da amiga falar enquanto olhava fixamente a caixa de pizza aberta, quase como se não a enxergasse.

— Mas eu me encontrei com a Harumi e o Jackson, depois da aula, no mesmo lugar, justamente o que eu temia.

Alice retesou com o pedaço de pizza que tinha na boca, quase se engasgando, surpresa pela notícia. Esticou o braço para pegar o copo de refrigerante sobre a mesa e bebeu um gole, antes de prosseguir com outra pergunta:

— Nossa, e como foi?

 

 

 

 

Algumas horas atrás, departamento de teatro

— Eu sempre quis ir em um teatro da Broadway, deve ter sido demais ver os atores tão de pertinho. Acho que eu ficaria com ainda mais vontade de atuar.

— Foi exatamente isso que senti! — afirmou Sophi, empolgada.

A aula – ou o que deveria ser – acontecia em cima de um pequeno palco, onde deveria haver, no mínimo, quarenta pessoas, sentadas ou em pé, como era o caso de Sophia e a gordinha de óculos com quem conversava animada sobre sua resposta da pergunta: "por que arte?", a qual foi feita pela professora para os alunos e, assim, compartilharem o que os motivou a seguir com uma carreira incerta e concorrida. Feito isso, as pessoas se aproximaram naturalmente para compartilhar opiniões e experiências parecidas ou não.

No caso de Sophia, havia dividido a história de quando havia ido em um musical da Broadway com os pais, ainda quando eram casados. Era uma das poucas lembranças felizes que tinha com os dois. Tenha sido afetada por aquele momento ou não, quis fazer como os atores daquela peça: abrir um sorriso no rosto das pessoas; distrai-las e, talvez, ficar gravada na lembrança de alguém de forma nostálgica, como havia acontecido com si aos seus oito anos.

— Pessoal — chamou a professora, se aproximando do centro do palco enquanto batia palmas. — Fico feliz por vê-los se familiarizando uns com os outros. Como devem imaginar, é normal da nossa área enxergar o outro como inimigo antes, durante e até depois de uma audição. Antes de tudo, porém, lembrem-se que ajudamos uns aos outros, seja em palco ou atrás das cortinas; primeiramente somos uma equipe de teatro. Para não começar dizendo que espero que esse ambiente amigável permaneça até eu vê-los longe daqui, podemos começar com uma boa amizade depois de atravessar aquela porta. — Apontou. — Estão dispensados.

Após a deixa, um volume razoavelmente alto envolveu as pessoas até a saída, as quais ainda trocavam idéias e opiniões, entre elas, a ruiva e a nova companheira, que seguiram até a porta e pararam em um canto, sem atrapalhar a passagem para o corredor.

— Esse começo foi demais, não imaginei que o primeiro dia seria tão tranquilo e inspirador. A Rosemary é incrível — disse, gesticulando com as mãos de tão empolgada, arrancando um riso de Sophia. — Se todo dia for assim, me segura, daqui eu não saio nem se me devolverem o dobro do dinheiro das mensalidades.

— Eu também não esperava um começo tão incrível, tenho que agradecer à Alice — disse para si mesma, tirando o celular da mochila e o desbloqueando, antes de procurar o contato da loira. — O que acha de comermos juntas, Mad... ison? — completou, em dúvida quanto a intimidade. — Estou louca para te apresentar à minha melhor amiga. É a primeira vez que conheço alguém com a mesma paixão que eu, e tenho certeza que ela ficará aliviada em não ter que me ouvir criticar tanto alguns atores.

— Pode me chamar de Mad — tranquilizou, rindo. — Eu bem que queria, minha amiga 'tá muito vidrada em coreanos ultimamente, mas já marquei de comer com ela. Talvez podemos comer todas juntas, o que acha? — perguntou, esperançosa.

— Sem problema. Acabei de mandar mensagem para ela, agora é só esperar responder — explicou, guardando o celular no bolso da calça. — E a sua amiga? Nos encontramos com ela ou...

— Bu!

Sophi se interrompeu ao ver um par de mãos subtamente agarrar os ombros de sua amiga, pegando ambas de surpresa, mas principalmente Madison, quem pulou de susto e disparou xingamentos baixos, envergonhada por quase ter caído em cima da ruiva que já considerava uma confidente das paixões teatrais mais loucas que guardava dentro de si.

— Já te disse para não fazer isso, doida — reclamou, fazendo uma careta irritada e causando risos nas duas amigas, mas rapidamente abriu um sorriso e deu espaço para as duas que a cercavam se olharem melhor. — Quero te apresentar à Sophia, minha primeira amiga do curso. — Sinalizou, sem perceber a cara de espanto da ruiva ao ver com clareza o rosto da pessoa a sua frente. — Sophia, essa é a minha melhor amiga: Harumi.

Por um momento que poderia ter durado uma hora ou um minuto, ambas se encararam: Sophia com os olhos levemente arregalados e a boca entreaberta, e Harumi não estava muito diferente, com os mesmos olhos levemente arregalados, mas portando um sorriro de lado, provocador; igual ao que Sophi se lembrava dos flashes desagradáveis de uma noite de azar, bebedeira e vergonha.

"Joguei pedra na cruz, não é possível", lamentou, forçando um sorriso amigável e empurrando o flash do beijo para o fundo de sua mente.

— Prazer. — Estendeu a mão, educada.

"É só me fazer de bêbada esquecida que vai dar tudo certo."

— Devo confessar que eu não esperava que minha amiga tímida iria se entrosar tão rápido com alguém. — Retribuiu, abrindo o sorrindo. — Mas agora que vejo que é você, não é tão surpreendente.

A barriga da ruiva foi tomada por um frio quase instantaneamente, o que a fez perder a compostura por um momento quase impercetível, mas não era por ter olhos puxados que esse detalhe passou despercebido do olhar afiado de Harumi.

— Vocês já se conheciam? — perguntou, estranhando a fala da asiática.

"Eu sabia que ia dar merda se eu viesse para universidade hoje", praguejou, com uma vontade enorme de bater a cabeça na parede, mas mais do que isso, vontade de pegar Alice pela orelha e gritar no seu ouvido que ela estava certa em não querer marcar presença no primeiro dia.

Nunca mais iria ignorar seu sexto sentido para dar ouvidos à amiga. Afinal, não havia sido ela a beijar uma menina que sabe que é supostamente "odiada" por ser o "motivo" da rejeição de alguém.

Além de patética, se sentia encurralada pela verdade vergonhosa.

— Não, só achei que pela sua aura ela seria uma pessoa espontânea, capaz de beijar até o seu pior inimigo, talvez — alfinetou.

"Isso é tortura", concluiu, fechando os olhos por um longo segundo, antes de tornar a abri-los e soltar a mão da asiática, quem ainda mantinha o sorriso que, naquele momento, havia se tornado o sorriso mais irritante do mundo para a ruiva.

Apertando os punhos como uma forma de conter a vontade de pular com as mãos no pescoço da mulher, se já estava difícil se segurar, se tornou ainda mais após Harumi piscar um olho para si; o que isso queria dizer, não sabia e não tinha vontade nenhuma de saber. Queria apenas sair correndo e nunca mais ter o desprazer de vê-la.

— Não acho que ela parece tão bipolar.

— Não se sabe o que se passa exatamente na cabeça das pessoas até vê-las fora de si, Mad.

Sophia sentiu o suor começar a acumular na testa e quase sentia seu corpo tremer, mas conseguiu se limitar a tremular os dedos agora inquietos, e mesmo sem querer olhar para a jovem que até então detestava, a olhou nos olhos, procurando entender o porquê de torturá-la tão descaradamente na frente dos outros. Porém, aqueles olhos castanhos conseguiam ser mais assustadores do que qualquer outra cor, detalhe que a fez desviar o olhar rapidamente.

— Entendi. Enfim, estávamos combinando de comermos juntas agora. Tudo bem se tiver mais duas pessoas com a gente?

— Pelo contrário, eu adoraria conhecer outros universitários. Parece que cada um é uma caixinha de surpresas — disse com um sorriso ameno, sem parecer ter segundas intenções, mas não era como se Sophi fosse abaixar a guarda; havia entendido muito bem as entrelinhas.

— Pensando bem... — voltou a falar, hesitante com o que Harumi faria após sua fala — ...acho que não vou poder comer com vocês hoje.

— Achei que nosso almoço já estava combinado. — Fez uma expressão confusa.

— Desculpa, Mad, de repente me toquei que minha amiga não gosta de lugares cheios, e vocês não devem querer passar o primeiro dia de curso comendo fora do refeitório, certo?

— Sem problema — respondeu a asiática, abrindo outro sorriso. — Não vamos morrer por causa disso.

— Sim, conhecemos um bom café perto daqui. Não é como se fôssemos obrigar a sua amiga a ficar em um lugar que a deixe desconfortável — acrescentou, também sorrindo. — Se puderem esperar um pouco, acho que deixei meu lenço de microfibra na mesa — disse pensativa, checando os bolsos da calça. — Já volto, podem ir se conhecendo enquanto isso.

Assim que Madison voltou para dentro da sala, o corredor ficou em um silêncio constrangedor. Sophia não se atrevia a olhar para Harumi, muito menos falar com ela. Longe do olhar da de óculos, não precisava continuar fingindo querer conhecer a asiática, afinal, não eram exatamente desconhecidas; Harumi sabia sobre si, e ela sabia que as indiretas não eram para alguém imaginário.

Envergonhada, começou a enrolar uma mecha do cabelo ruivo no dedo indicador, sem saber o que fazer. Ao sentir o celular vibrar no bolso, o pegou com as mãos levemente trêmulas e quase suspirou de alívio ao ver que era uma mensagem de Alice, mas o alívio fora rapidamente substituído pela incredulidade ao ler o que ela dizia:

 

Alice: Desculpa, não estou com vontade de socializar agora.

 

Então era isso? Havia sido arrastada para a universidade, se encontrado com a última pessoa que queria ver, sido obrigada a agir como se nada tivesse acontecido, aturado indiretas 'pra lá de desconfortáveis e, como se não bastasse, agora estava sendo forçada a encarar mais uma situação constrangedora sozinha? Grande amiga!

— Tudo bem? — perguntou Harumi, notando as sobrancelhas franzidas da ruiva.

— Tudo ótimo, melhor impossível — mentiu, forçando um sorriso.

"A Alice me paga", pensou, guardando o celular de volta na calça.

— Deveria melhor sua comunicação ou atuação, não sei.

— O quê? — Levantou o olhar, irritada.

— É só uma dica porque sua resposta me soou estranha. — Levantou as mãos, rendida. — Não a conheço muito, mas percebi que você é esquentada.

— Você não sabe nada sobre mim. — Virou o rosto, aborrecida.

— Eu não teria tanta certeza — disse, chamando a atenção de Sophi ao se aproximar um passo. — Sei que não gosta de mim, que ninguém te segura quando está bêbada e, não menos importante...— Deu mais um passo, fazendo o coração da ruiva disparar pela proximidade. — ...sei que beija bem, mesmo fora de si.

Sophia abriu a boca, incrédula, sem o que dizer enquanto encarava tão de perto os olhos escuros e mais fechados que o normal, devido o sorriso que a garota exibia.

Só pôde dizer uma coisa naquele momento:

— Você é louca!

— E você é contraditória, bipolar, eu diria. — Sorriu mais, jogando um braço sobre os ombros da ruiva e a puxando para mais perto, conseguindo fazer o corpo de Sophi tencionar, alerta. — Não vou contar para ninguém do beijo, se é por isso que está tão na defensiva, mas sabe que alguém vai implicar uma hora ou outra, não sabe?

E como sabia. Sua memória afetada pela bebida não conseguia definir com clareza os rostos das pessoas que a observaram ir para cima da garota que desgostava e que roubara seu primeiro beijo na cidade nova, mas sabia que não eram poucas as testemunhas do seu começo vergonhoso como universitária. Tinha vontade de colocar um saco na cabeça para não ser reconheceria como a bêbada irritada e atirada, porém, uma parte de si ainda torcia para que ninguém se lembrasse do evento da noite passada; idiota, mas era a melhor alternativa. Até lá, tudo ficaria bem se ficasse longe de Harumi para garantir que não havia nada entre elas, certo?

Fechando os olhos por um momento, Sophia respirou fundo e inspirou, mas tranquila com a afirmação da asiática, mesmo que duvidosa com suas intenções após receber tantas indiretas na frente de Madison. Ainda sim, não tinha opções.

— Pelo bem da Mad, vou confiar em você.

— E o que a Mad tem a ver com isso? — perguntou, franzindo as sobrancelhas.

— Nada, mas se eu não gostasse tanto dela, deixaria a educação de lado e arrancaria seus cabelos.

— Ah, disso eu não duvido. — Riu, apertando o ombro da ruiva e a sacudindo levemente, sem se importar com os murmúrios irritados da outra.

Entretidas, uma tentando sair do aperto e outra a apertando mais no abraço, não notaram Jackson se aproximar cabisbaixo, murmurando frases de apoio para encorajá-lo a seguir com sua decisão, mas ao se ver próximo o suficiente para olhar mais claramente as duas presenças no corredor, se assustou ao ver Harumi e Sophia se abraçando tão intimamente em frente a sala, ainda sem perceberem sua presença; distraídas demais para isso.

— Haru... — chamou inconscientemente, tapando a boca ao perceber que atraira a atenção das duas. — Desculpa, eu não quis interromper. Vim convidá-la para almoçar e...

— Desculpa a demora. — Madison interrompeu, se juntando ao grupo. — Acabaram pisando e chutando meu lenço, por isso ele parou em um lugar um pouco escondido. Vamos?

— Licença — pediu Jackson, não dando tempo de Sophi formular uma explicação para o que ele viu.

 

 

 

 

Tempo atual

— Constrangedor, desconfortável e desastroso, praticamente o que eu esperava, mas foi pior pela situação que ele nos pegou.

— Você fala como se tivesse sido flagrada aos beijos com a mulher — zombou, rindo. — Era só um abraço.

— Um abraço que fez ele pensar coisa errada e... você não entende! — bufou, conseguindo um olhar mais sério da loira. — Não é fácil lidar com uma burrada que fez todo mundo ter a idéia errada de você.

Tão irritada enquanto se inclinava para pegar mais uma fatia de pizza, não percebeu quando Alice apertou a mão ao redor do copo e desviou o olhar para a TV desligada, chateada.

— Imagino que não.

Sophi levantou o olhar para a loira, confusa com seu tom de voz não usual, e não precisou de um minuto para ver a mágoa refletida nos seus naturais olhos amarelos, e preciso de menos tempo ainda para saber a causa disso.

— Eu não quis... desculpa — pediu, balançando a cabeça negativamente. — Não é como se te culpasse por não estar comigo naquele momento. Estou irritada e frustrada, e você sabe como falo besteira com facilidade — parou um segundo, esperando alguma reação da amiga, mas ao não ter resposta, continuou: — Sei que você sabe como é isso, depois que...

— Podemos mudar de assunto? — perguntou abruptamente, tomando um gole de refrigerante.

— Claro, desculpa. — Pigarreou, constrangida. — E como foi seu dia? Legal visitar o Alex no hospital?

— Ugh, não quero falar sobre isso — fez um som de reprovação, usando uma mão para tapar uma parte do rosto e dar ênfase no desagrado que sentia quanto aquilo.

— Foi tão ruim assim? — Riu.

— Muito.

Alice virou o restante do refrigerante de uma vez, fechando os olhos por conta do gás, mas se recompôs rapidamente e tornou a se esticar sobre a mesa, atrás de mais refrigerante. Enquanto isso, Sophia deu uma grande mordida na pizza, ansiosa, e se não fosse pelo quão distraída a amiga se mostrava, jurava que se engasgaria se ela a olhasse naquele momento, com o olhar desconfiado e severo que só ela e sua mãe possuíam.

Ainda com o nervosismo a flor da pele, engoliu a pizza que tinha na boca e bebeu um gole de refrigerante, como que tomando coragem para prosseguir:

— Precisamos conversar sobre a casa.

Alice direcionou o olhar para ela e levantou uma sobrancelha, estranhando as palavras e a anormal expressão séria que a amiga mostrava, prova de que o assunto poderia ou não ser sério. Ainda assim, mesmo sem pique para mais uma tempestade em copo d'água àquela hora, torcia por mais um drama.

— O que tem a casa?

— Talvez ela não seja minha... ainda.

— Como assim? — Engoliu em seco, abruptamente assustada com as palavras da mulher. — A casa não está no nome da sua família?

— Sim, mas aconteceu uma confusão de palavras quando minha mãe explicou isso. — Coçou a nuca, envergonhada. — Minha mãe e meu tio ganharam a casa do meu avô, mas ela acabou ficando inteiramente com o meu tio depois dele comprar a parte dela, daí ela foi morar em outra cidade para fazer faculdade. Enfim, ele pediu dinheiro à minha mãe para começar um negócio no exterior e se mudou, e lá as coisas deram super certo para ele. Ele alugou esta casa e estava tudo indo bem, até sugeriu voltar a casa para o nome da minha mãe em troca da ajuda financeira, mas nada foi feito de fato; burocraticamente falando.

— Resumindo: vocês levaram a palavra dele em conta e agora ele quer a casa de volta, certo? Agora não temos mais casa — concluiu, suspirando e cobrindo o rosto com as mãos.

Já conseguia sentir sua privacidade e liberdade indo embora, sendo obrigada a se alojar no dormitório da universidade, partilhar o quarto com três outras garotas e ir para o quarto pontualmente às dez da noite. Não era essa a vida de universitária que esperava quando se mudara de cidade.

— Ele não quer a casa de volta, calma — corrigiu, abanando as mãos sujas de pizza. — Mas é possível que um dia ele venha a pedi-la de volta, principalmente porque recentemente teve alguns problemas financeiros de novo. O melhor seria comprarmos a casa.

— Comprar uma casa? Nós? — perguntou, rindo soprado pela incredulidade.

— Sim, e não faça essa cara de que é impossível! — deu bronca, olhando a amiga se dar por vencida e cair para trás no sofá. — Com o dinheiro que a minha mãe deu para ele antigamente, mais a pequena quantia recente, ela cobriu 60% do valor do imóvel, sendo assim, só precisamos pagar os outros 40%.

— Você sabe quanto custa uma casa?

— Apesar de mobiliada, essa não é tão cara, e eu pensei que seu pai...

— Não vou pedir dinheiro para o meu pai. — Se sentou abruptamente, irritada. — Ele já comprou o carro e está pagando minha faculdade. Ele é médico, não exatamente milionário; não vou abusar de pedir para que me compre uma casa também.

— Também pensei que você diria isso. — Suspirou, derrotada. — Mas ainda podemos comprar. Se cada uma conseguir um emprego e alugarmos o quarto que sobrou, isso deve nos dar dinheiro para pagar o restante da casa. Meu tio não está desesperado por dinheiro, sabe? Ele conseguiu se estabilizar com o que ganhou da minha mãe e nos deu um ano para pagar tudo; seis meses, se ele precisar com urgência, o que é improvável. No pior dos casos, pedimos dinheiro emprestado no banco ou com seu pai. Pior dos casos — frisou, vendo a amiga abrir a boca para protestar. — Vamos devolver quando pudermos.

— Vamos acabar virando prostitutas desse jeito — brincou, mesmo sem ânimo, mas conseguiu arrancar um riso da ruiva. — Acho que não temos escolha, todos os apartamentos próximos já devem ter sido alugados, e não é garantia que ainda terão dormitórios sobrando na universidade — lamentou, se esticando antes de se levantar. — Vou escrever um anúncio e colocar no mural da universidade. Acha que 300 dólares seria muito?

Sophia negou com a cabeça, dizendo que, em todo caso, seria bom dizer que estavam abertas a negociar o preço. Assim, enquanto Alice subia para o banheiro, a ruiva fechou a caixa de pizza e tirou os vestígios do jantar de cima da mesinha, logo focando nos copos e na pia; a primeira tarefa que tinha na casa, depois de arrumar a bagunça que deixara seu novo quarto. Colocou as luvas de borracha amarela e, apesar de tudo, sorriu satisfeita.

Já no quarto, após lavar as mãos sujas de pizza, Alice pegou o notebook sobre a cômoda e se deitou, o abrindo e colocando a senha, antes de clicar no Word. Depois de poucos segundos carregando, a página se abriu prontamente com o espaço em branco pronto para ser preenchido. Algum tempo pensando no anúncio e repassando mentalmente o estado e as características da casa, logo digitou:

 

Aluga-se quarto único no valor de 250,00 dólares em residência de dois andares, endereço: xxxxxxxxx.

Preço negociável.

Interessados chamem no número: xxxxxxxxxx.

 

— Curto e direto — pensou alto, fazendo as modificações que achou necessárias no texto e usando o pendrive já conectado para mover o arquivo recém-salvo. — Espero que alguém legal alugue rápido, de preferência uma mulher.

Deixando o notebook de lado, Alice rolou de costas na cama e ficou um tempo olhando para o teto, pensando no(a) companheiro(a) que receberiam, na casa e no que faria quanto a dívida que Sophia tinha feito o favor de conseguir no segundo dia na nova casa.

Deveria começar a procurar um emprego, a pergunta era: que tipo de emprego? Sua única experiência parecida foi quando começou a cuidar do escritório e da agenda do pai, o que lhe rendeu um dinheiro generoso por isso, mas não poderia contar com a bondade das pessoas para sempre, principalmente a do seu pai. Se sentiria uma trapaceira caso pedisse ajuda das conexões do pai.

— Pareço uma filhinha de papai — praguejou, esfregando o rosto e resmungando sobre o quão difícil era ter de ser independente, ainda mais para alguém que não tinha dificuldade em conseguir o que queria.

Decidida a deixar o currículo para o dia seguinte, se levantou e caminhou até a caixa de papelão mediana que deixara em um canto do quarto, a qual abrigava seu material escolar e uma pequena pilha de cadernos que não decidira onde colocar. Com um pouco de esforço, ergueu a caixa até a barriga e a deixou em cima da cama, antes de pegar a mochila que deixara na cadeira e se sentar, concentrada em preparar o material do dia seguinte.

Tão concentrada enquanto relia alguns tópicos da primeira matéria de Histologia, não percebeu quando Sophi entrou com a cabeça no seu quarto, olhando o que fazia e orgulhosa pelo empenho que começava a mostrar nos estudos. Logo, não foi surpresa não notar o gato preto que pulara pela janela para dentro do quarto, pouco depois da ruiva desejar e receber um "boa noite".

Assim como si, ele tinha olhos amarelos e uma estatura grande; já um adulto.

Silenciosamente, o felino andou até a frente da cama e parou, observando o redor com curiosos olhos amarelos e mantendo o rabo levantado e parado, atento com o ambiente. E depois de observar pelo o que pareceu um curto minuto, deu um passo para trás e saltou sobre a cama, aterrissando em um caderno com desenhos de ovelhas e, consequentemente, assustando Alice.

— Porra! — praguejou, cobrindo a boca e se desculpando baixo por assustar o gato. — Que susto me deu! Como entrou aqui, safado? — perguntou gentilmente, esticando a mão e acariciando a cabeça do gato, este que ronronou em agrado. — Você até me lembra um gato que vi na rua quando era pequena, mas ele não era grande como você. Sabe...

Enquanto acariciava e conversava com o gato, um corvo a observava de um dos galhos da árvore próxima a sua janela, a qual o felino usara como escada para entrar no quarto. O corvo estava parado, analisando cada traço do rosto da mulher, como ela abria a boca para conversar de forma boba com o animal, como ela sorria mínimo e balançava a cabeça e os cabelos loiros e, não menos importante, se é que não estava louco, as incomuns orbes amarelas que pôde ver parcialmente.

— ...E ele morreu, e eu fiquei muito triste quando isso aconteceu, principalmente porque não fiz nada além de olhar e dar as costas — desabafou, secando algumas lágrimas antes de caírem.

Foi naquele momento que Dylan sentiu, ao observar seus olhos brilhando pelas lágrimas, uma estranha familiaridade, como se a conhecesse além da festa desastrosa, mas não se lembrava de onde ou quando antes disso, o que aumentou drasticamente sua curiosidade ao vê-la, porque no fundo de sua mente ele reconhecera a energia daquele olhar de algum lugar.

Se martilizou por esquecer algo que aparentava ser marcante, e não por simplesmente deixá-lo visível quando, sem dúvidas, estava invisível aos olhos mortais, mas porque o fez sentir.

Aquela garota não era normal, ao menos, não uma simples mortal, e sentia que tudo de misterioso sobre ela – inclusive a sensação estranha que acabara de sentir – girava em torno dos seus olhos, como havia sido no primeiro momento em que se olharam.

Ao mesmo tempo que temia e afirmava precisar saber mais sobre a loira desconhecida, Sophia gemia e rolava na cama, tendo os primeiros flashes.

 

 

[. . .]

 

 

— Acabei de colar o anúncio no mural e imprimir meus currículos — avisou, dando as costas para o mural grande demais para os papéis ali colocados. Levava uma mochila nas costas, uma pasta roxa em um braço e o outro levantado o suficiente para o celular alcançar a orelha. — Agora só falta distribuir.

E já sabe em quais lugares irá distribuí-los? Isso é muito excitante! — disse, afinando a voz de empolgação, arrancando um riso da loira. — Não sei você, mas estou confiante quanto a isso.

— Eu queria estar tão confiante quanto você. Enfim, deixei um currículo com a bibliotecária; parece que têm vagas para universitários organizarem os livros, ajudarem outros alunos a encontrá-los, etc; achei que combina comigo.

Você realmente tem pinta de quem tem TOC.

Alice ajeitou o braço com a pasta, negando veementemente para Sophi que não é extremamente obsessiva com arrumação, mas que apenas nutre afeição por organização como qualquer pessoa normal, a qual também acha inaceitável misturar livros grandes com livros pequenos, mesmo optando a organização pela grossura ou ordem alfabética.

Passando pelo caminho tortuoso da universidade, caminhou por bons minutos em direção ao estacionamento, contando como foi vergonhoso se enrolar com a impressora e ter sido ajudada por uma mulher, no mínimo, vinte anos mais velha que si. Havia sido uma boa experiência a sua primeira ida à biblioteca, principalmente porque sabia que as pessoas dali eram gentis, como observou nos primeiros minutos no local. Teria sorte se fosse contratada ali; previa um bom clima de trabalho.

Fez alguma amizade? Você não me disse nada do seu dia ontem, agora pode me contar sobre o de hoje.

— Fiz, e foi muito bom, Sophi, mas depois te conto com calma. — Riu, voltando a ajeitar a pasta ao avistar a entrada do estacionamento. — Aliás, se tudo correr como previsto, terei aula no laboratório na próxima semana.

Tão animada enquanto conversava sobre o quanto estava ansiosa para usar jaleco e luvas na semana seguinte, não deu importância para a altura de sua voz ao passar pelos carros e pessoas que estavam por ali, fazendo hora na frente dos seus carros, a maioria de boa marca. Estava tão animada, que quase não percebeu o rapaz de preto que estava perto do seu carro, com as mãos nos bolsos do moletom preto e olhando para o chão, quase como se a esperasse; mas nunca que alguém totalmente de preto lhe passaria despercebido.

— Vou desligar agora, okay? Nos falamos daqui a pouco.

Te espero no refeitório.

Alice concordou e encerrou a ligação, antes de guardar o celular no bolso da jaqueta jeans e apressar o passo até o rapaz, quem só a notou ao ouvi-la falar com si:

— Oi — cumprimentou, sem graça ao estar de cara com o homem que temia voltar a ver – principalmente depois de perguntar se ele e seu amigo estavam no hospital para matar o sobrinho do professor. — Talvez você não se lembre de mim, mas nos vimos no hospital ontem.

Dylan afirmou levemente com a cabeça, hesitante em levantar o olhar para si ou falar alguma coisa, sentimento que pareceu intensificar sua dificuldade em se comunicar. Sentia-se quase sufocado.

Vendo que não seria respondida – talvez pelas suas palavras indelicadas do dia anterior, assim pensava –, prosseguiu:

— Eu soube do Alex. Lamento sua perda.

O ceifeiro permaneceu calado, tirando o olhar do chão para focar ao redor, percebendo que algumas pessoas olhavam na direção de Alice, rindo baixo e cochichando, o que a loira não percebeu por estar entre focar o olhar no homem a sua frente e no próprio All Star, incomodada pelo silêncio.

Dylan olhou para a mulher por um segundo e pigarreou, chamando sua atenção ao falar:

— Todos lamentam.

Foi impossível disfarçar o suspiro de alívio ao finalmente ser respondida.

— Para um calouro, ele era querido por muitos alunos — completou, apertando a pasta roxa e a colocando em frente o corpo, quase como um escudo. — Bom, eu estava indo beber alguma coisa no café aqui perto, quer ir comigo?

"Isso, não sabe o que dizer, agora convida um estranho para tomar café com você!", praguejou, torcendo para não ser má interpretada pelo convite.

Dylan ponderou por um instante. Primeiro, pensou nas pessoas que lá estariam, depois, na vergonha maior que seria para Alice, por outro lado, porém, era a oportunidade perfeita para se aproximar dela e saber mais sobre si, mesmo que a situação provavelmente o deixaria mais nervoso. Era um sacrifício que teria de fazer se quisesse descobrir o porquê dela o ver quando ninguém mais conseguia.

— Quero.

Após guardar a pasta no carro e trancá-lo, Alice sinalizou para ele a seguir e começaram a caminhar lado a lado, já que a cafeteria ficava a apenas uma quadra de distância depois dos limites da universidade, o suficiente para ir andando em uma conversa tranquila, mas ao contrário do que ela esperava, mal houve troca de palavras durante os quinze minutos de caminhada, o que fez ambos ficarem presos nos próprios pensamentos – principalmente por Dylan não saber como manter uma conversa.

Ao avistar o letreiro simples e sofisticado da cafeteria "Café com Leite", Alice suspirou, aliviada por estar tão perto do seu destino. Atravessaram a porta dupla do estabelecimento e a loira quase chorou de saudade ao não ouvir um sino tocar ao abrir a porta, como acontecia na sua cafetaria preferida da cidade em que morava. Ignoraram as pessoas que conversavam em suas mesas – a maioria universitários – e se sentaram em uma mesa ao fundo, ao lado da janela.

Por ser a primeira vez de ambos no lugar, não hesitaram em olhar ao redor, sentindo cheiro de café e bolo e a atmosfera acolhedora e alegre os rodeando. As paredes eram decoradas com um papel de parede beje e marrom, e pela aparência limpa que tinha, Alice não duvidava que o lugar havia sido reformado para causar boa impressão nos calouros. As cadeiras de madeira clara e as mesas redondas eram um charme.

— Esse lugar é legal — comentou, voltando a olhar para o rapaz. — O que vai querer? Vou fazer o pedido.

— Nada, obrigado.

— Eu pago.

— Sério, não quero nada — garantiu, abaixando os olhos para mesa, incomodado com a insistência.

— Se você diz...

Dylan afirmou levemente com a cabeça, esperando a loira tirar a mochila das costas, pegar a carteira e se distanciar, para só então suspirar, aliviado por se encontrar sozinho novamente. Esticando os braços sobre a mesa, deitou o rosto sobre os braços e olhou mais uma vez ao redor, percebendo como as pessoas dali conversavam e davam risada com facilidade, provavelmente felizes por mais um começo de estudos; isso o trazia lembranças.

Pensou que iria chorar, mas ao levantar o rosto para a dupla de homens que haviam acabado de chegar em sua mesa, percebeu que seus olhos continuavam secos.

Abriu a boca, prestes a pedir para que se sentassem em outra mesa, mas calou-se quando se deu conta que não estava disposto a falar com tanta gente, além do outro motivo óbvio. Preferiu arredar para junto da janela e esperou, já que não poderia simplesmente sair da mesa.

Ao finalizar o pedido, Alice voltou para a mesa, confusa ao ver duas pessoas na mesa que Dylan deveria guardar.

— Licença, eu estava sentada aqui — disse, chamando a atenção da dupla ao apontar para a mochila que havia deixado encostada na mesa, confirmando o que disse.

— Desculpa, como não vimos ninguém, pensamos que alguém tinha esquecido a mochila — explicou o asiático, se levantando com o amigo.

— Ninguém? — Franziu as sobrancelhas, confusa, mas a dupla não deu importância enquanto caminhava em direção outra mesa.

Observando a expressão pensativa da loira ao olhar os dois rapazes se distanciarem, Dylan pigarreou, nervoso com o que poderia facilmente se tornar um problema, reação que chamou a atenção de Alice.

— Você é tímido ou... excluído na universidade? — perguntou hesitante, se sentando e puxando a mochila.

— O quê?

— Percebi como eles sequer te olharam, ignorando sua presença, e você também pareceu ignorá-los. Parecia que você nem estava aqui — respondeu, guardando a carteira no bolso menor. — Desculpa pela indelicadeza.

— Tudo bem — parou um momento, pensando em como contornar a situação. — Eu diria que sou os dois, tímido e ignorado.

— Então somos dois, apesar de eu não ser exatamente ignorada. — Riu, sem graça. — Aliás, acho que não nos apresentamos apropriadamente, certo? Sou Alice Coleman. — Estendeu a mão, lutando para manter o olhar firme no rosto do conhecido – o que não foi difícil, pois ele estava com os olhos presos na sua mão estendida.

— Dylan Miller — retribuiu, tremendo levemente com a espera da loira em ser cumprimentada. Fazia muito tempo que tocara propositalmente em um vivo consciente.

Ignorando o tremor que quase se assemelhava a de um velho, reprimiu a vontade de correr e apertou a mão de Alice, tão concentrado em olhar as mãos juntas, que não percebeu quando ela mordeu a parte interna da bochecha, praguejando mentalmente por ter se arrepiado com o aperto de mão frouxo do rapaz, quase como se sentisse nojo ou medo de pegar alguma doença ao tocá-la.

"É quente e macia", constatou, se sentindo bobo por esquecer tal sensação.

Alice soltou a mão particularmente ossuda e fria e fingiu interesse no zíper da mochila, antes de prosseguir:

— Sabe, eu não o convidei para vir aqui simplesmente para tomar café. Me senti mal pela piada que fiz no hospital e queria me desculpar, mas parece que não posso me desculpar te pagando um café — brincou, sorrindo sem graça. — Eu realmente lamento pelo o que eu disse ontem.

— Sem problema. — Baixou o olhar para as mãos subtamente inquietas, tomando coragem para dizer as palavras seguintes: — Na verdade, eu não aceitei vir por causa de café.

— Isso eu percebi. — Riu. Um segundo depois, arregalou os olhos com a idéia que lhe passou e disparou a falar: — Ah! Se tiver aceitado porque achou que eu estava a fim de você, não é isso! — esclareceu em voz alta, desviando o olhar envergonhado e balançando as mãos freneticamente, ação que chamou atenção de algumas pessoas.

— O quê? Não pensei que poderia ser isso! — afirmou, igualmente envergonhado. — No geral, foi por causa dos seus olhos.

— Meus olhos? — Piscou, confusa e nervosa com a fala do rapaz. — O que tem meus olhos?

— Eles são...

"...castanhos", completou em pensamento, só então percebendo que não eram os amarelos que pensou ter visto; os amarelos que o fez se sentir diferente. "Mas eu vi aquele brilho", afirmou, com os pensamentos dando voltas e voltas atrás de uma explicação para o que viu, mas não existia nenhuma além de que estava sendo manipulado pelos olhos da mulher, como da vez que se distraiu e errou o local do beijo pela primeira vez. Desta vez, porém, parecia pior; de primeira, provocara sua atenção e curiosidade, agora, era com algo adormecido há dezesseis anos que ela resolvera mexer, e isto era assustador. Que coisas mais ela poderia fazer?

— Tudo bem? — perguntou, preocupada ao ver Dylan começar a respirar rápido, com os olhos fixos nas mãos trêmulas sobre a mesa.

"Que diabos estou fazendo com uma humana que me causou tanto problema e incômodo?"

— Eu não deveria estar aqui — murmurou, se levantando num rompante e caminhando com pressa para a saída, ignorando os chamados preocupados de Alice.

Agradeceu mentalmente por uma pessoa ter acabado de entrar e aproveitou a deixa para ir embora, deixando apenas a loira confusa para trás, em meio suas perguntas e os olhares estranhos da cafeteria, direcionados todos para si.

Sem o que fazer sozinha no estabelecimento, pegou o celular para mandar uma mensagem para Sophi, mas se interrompeu ao receber a notificação de uma nova mensagem. Curiosa ao ver que se tratava de um número desconhecido, clicou rapidamente no ícone da barra de notificações.

 

Número desconhecido: Vi o seu anúncio no mural da universidade e fiquei interessada.

 

 

 

[. . .]

 

 

— A lasanha está pronta?

— Sabe que não entendo nada de cozinha, nunca cheguei perto do fogão. — Riu.

Alice revirou os olhos, tomando a dianteira para conferir o forno.

— Este jantar tem que ser perfeito.

— Até parece que é um homem quem vai se mudar 'pra cá — brincou, observando a amiga desligar o fogo, abrir o forno por um momento e espetar o garfo na massa, antes de se distanciar e acenar com a cabeça, confiante de seu prato. — Também não precisa exagerar, somos nós quem dizemos se ela vai ou não morar com a gente; quem tem que causar uma boa impressão é ela.

— Acontece que graças a nossa nova dívida, quanto mais rápido alugarmos o quarto, mais rápido juntamos dinheiro para quitá-la — explicou, ácida, largando o garfo na pia e pegando as luvas de cozinha para tirar a travessa. — Além disso, ela me pareceu simpática no telefone. Sugerir este jantar foi a melhor idéia que poderíamos nunca ter tido. Vai ser bom para nos conhecermos, fora que o fato dela estudar na mesma universidade que nós irá reforçar os laços de irmandade dentro e fora de casa.

— Ou piorar — completou, atraindo um olhar confuso da loira. — Ela estuda no mesmo período que nós e só há um banheiro, altas chances de brigarmos pelo tempo no chuveiro, sem contar que ela cursa jornalismo, uma provável fofoqueira, ou seja: nenhum pouco confiável. Não pense que vamos ser todas amiguinhas.

— Vou ignorar o que você disse.

Alice colocou a lasanha para esfriar na pia e tirou as luvas, fingindo não escutar a ruiva enquanto conferia – pela terceira vez – a mesa perfeitamente arrumada.

— Estou tentando te proteger — insistiu. — Você não pode usar lentes de contato o tempo todo. O que vai acontecer se ela ver seus olhos? Porque você é bem louca quando se trata disso.

Após sua fala, ouviu-se o som de alguém batendo na porta da sala, o que chamou a atenção das duas instantaneamente.

— Ela chegou — anunciou. — Eu atendo, e você coloca a travessa no centro da mesa — disse, dando as costas para a amiga, ação que a fez bufar de raiva. — E não deixa cair.

Não deixa cair, não deixa cair — repetiu com a voz forçada, fazendo caretas enquanto colocava as luvas de cozinha e movia o prato principal da noite.

Ao colocar a travessa na mesa, pegou o celular que deixara na ponta da mesa e conferiu as horas, pensando se colocar uma música relaxante em um volume considerável deixaria o clima leve, mascarando a dor de cabeça que era firmar um acordo de aluguel. Detestava burocracia. Enquanto digitava a senha no celular, ouviu passos e risadas se aproximando.

— Adivinha quem trouxe bebida e fez a sobremesa — disse Alice, segurando uma garrafa de vinho e parando na entrada da cozinha ao lado da convidada, esta que carregava uma vasilha média, rosa e fechada.

— Nem imagino — rebateu a ruiva, sarcástica, desistindo de colocar uma música e recolocando o celular na mesa, antes de se virar para as duas. — Praz...

Sophi se interrompeu, de olhos arregalados ao ver de quem se tratava a possível residente, quem se encontrava igualmente surpresa por vê-la, mas ao contrário da ruiva, a situação não parecia incomodá-la, pelo contrário, a fez sorrir minimamente.

— Que coincidência — comentou, abrindo o sorriso e deixando a loira mais confusa do que já estava com a reação da amiga.

— Harumi...


Notas Finais


Junta aqui q vou fazer algumas obs sobre o cap de hj: 1° eu vi vários vídeos sobre medicina veterinária pra saber sobre os materiais, as matérias, curso e etc, e assim como nas escolas, a ordem das matérias varia de universidade; 2° ñ estudei sobre a faculdade de teatro, mas ñ pretendo falar muito dessa área, então fds; 3° nunca fiz faculdade, me formei no ano passado, estou desempregada e ñ tenho nem carteira de trabalho, então as informações desta fic foram/serão todas adquiridas a base de pesquisas (até pq, tbm ñ moro no Canadá, consequentemente, ñ tenho certeza das coisas q rolam lá, choro)

Só encontros "desagradáveis" nesse cap, meodeos
Ñ sei vcs, mas tô gostando muito de fazer a Sophia e a Harumi interagirem, essa relação de amor e ódio mexe cmg e vai mexer mais ainda no decorrer da história (ops, spoiler kkkkk)
De repente me veio a imagem delas como casal secundário, wooooooooooooow vou pensar

Nos vemos daqui um tempo :)


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