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História Noturno - Capítulo 4


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Capítulo 4 - Part. VI


As flamulas alaranjadas dançavam sobre a lenha em brasa. Elas refletiam sua charmosa dança no olhar opaco e apático de Cattermole. O vetusto apoiava-se sobre os mornos tijolos da chaminé de sua lareira, ele ocultava algo em sua trêmula mão, serrada em um punho, o velho homem tinha seu carpo próximo ao tórax. O grisalho homem comprimia tão intensamente o objeto em sua mão que suas juntas adquiriam uma cor esbranquiçada.

“Não posso permitir...”, sussurrou para si. “devo proteger a todo custo!”, o velho balbuciava consigo as mesmas palavras repetidas vezes, quase de maneira esclerosada.

Lucyus avançava vorazmente na direção daquela velha estrutura engolida pelas sombras, ao aproximar-se o suficiente, avistou com seu olhar bestial o fragmento partido do vidro da janela. A fria ventania cortante eriçou sua pele e com um golpe brutal de sua garra o rapaz estilhaçou a vidraça restante, adentrando o antiquário como um gatuno.

O ancião ouviu o som quebradiço e estridente da invasão no andar inferior. Cattermole rapidamente correu para uma larga cômoda e vasculhou por entre as gavetas, em uma delas, ao fundo, ele apanhou um frasco de vidro em forma de gota, selado por uma rolha envolta em várias voltas de barbante, dentro um líquido enegrecido e denso.

Naquele medíocre alcatruz estava uma das mais hediondas poções que o homem já executara: uma infusão do Pesadelo Valeriano. Qualquer ser que inalasse ou consumisse de alguma forma aquela substância entraria em um estado de sono tão atroz que sua consciência perder-se-ia em um limbo, permitindo que o desafortunado permanecesse fisicamente morto, porém sua mente estaria completamente consciente, o indivíduo seria capaz de sentir sua pele e órgãos apodrecerem, enquanto incessantemente arranha em desespero a tampa de seu caixão.

Cattermole era um dos poucos que conhecia e era capaz de preparar a poção.

O antiquário podia ouvir o ruído de seus artefatos sendo arremessados de um lado a outro e dos estilhaços e cacos acertando a tapeçaria. Logo pôde escutar o rangido abafado de passos acelerados escada acima. O estrondo das portas ricocheteando nas paredes dos cômodos ao redor era ensurdecedor.

Cattermole pressionava em sua mão trêmula o objeto ainda oculto quando Lucyus adentrou indômito à pequena saleta. O vetusto uniu as sobrancelhas, amedrontado e confuso, pois o Lycan não exibia a forma típica de sua espécie, mas uma fisionomia semelhante. Por seu corpo esguio e teso não havia traços da pelagem acinzentada dos lycantropos ou do focinho canino alongado. Contudo, seus olhos gélidos possuíam um estranho padrão, sua íris dispunha de um azul incandescente, enquanto a esclera era tomada por uma negritude profunda. Suas úngulas e presas bestiais destoavam ferozmente de sua aparência semi-humana. As garras haviam rasgado a carne de seus dedos e rompido suas unhas, sob a pele ensanguentada. Seu tronco curvado o obrigava a apoiar as mãos contra o chão de maneira animalesca, mas ao colocar-se defronte para o homem encolhido, aprumou sua postura enaltecendo sua altura desumana e respectivo corpo disforme. Seu rugido dera a coragem necessária que o velho homem precisava.

“Não se aproxime rapaz, ou vou designar-lhe uma morte lenta e dolorosa.”, o homem adunco ergueu vacilante o frasco com a infusão. O olhar atroz da criatura seguiu a botelha na mão envelhecida. Não houve recuo, apenas um rosnado enraivecido percorreu a garganta de Lucyus.

“Dê-me o amuleto Cattermole, de outra maneira terei que arrancá-lo de você”, alertou o Lycan com seu tom de voz ligeiramente destorcido em um rugido ameaçador e monstruoso. O velho homem não ousou pestanejar e atirou o frasco sob os pés da criatura. Uma bruma negra armou-se à volta do corpo cadavérico. O antiquário cobriu seu nariz e boca com sua mão livre, caso inalasse a densa nevoa agonizaria por milênios.

Aquela obscuridade se dissipou e para o assombro do ancião a criatura perante ele tornara-se por completo um monstruoso e hórrido Lycan. Cattermole tremia pávido. Seus ossos gelaram e ele não podia se mover. A cada passada de Lucyus o vetusto sentia um calafrio percorrer seu corpo, quando a bestial criatura parou a poucos centímetros de si ele pôde sentir uma lufada de hálito quente atingir seu rosto.

“Meu rapaz, este espírito maligno o está usando, não se iluda com as promessas dela. Não suje suas mãos com sangue. Não desafie o equilíbrio...”, o homem calvo não terminou sua frase, pois a enorme criatura rugiu furiosa e com um movimento de sua grifa dilacerou a garganta do pobre homem. Ele tombou agonizante sobre o chão, o sangue quente e viscoso escorrendo por seu pescoço enquanto tentava em vão manter-se vivo.

Lucyus inclinou seu corpanzil e arrebatou do moribundo o amuleto ensanguentado que escondia. Era uma rocha amorfa, pouco maior que palma da mão de Cattermole, possuía tons de verde, azul, roxo e dourado que se misturavam em distintos padrões de acordo com o ângulo que a observava. A besta noturna segurou-a firme e partiu descendo as escadas com celeridade e saltando pela janela por onde entrara, desaparecendo no véu negro da noite.



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