História Noturno - Capítulo 5


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Capítulo 5 - Part. V


Madeleine encarava as manchas de umidade. Por dentre os tijolos corria o orvalho deixado pela molúria. Uma brisa gélida transpassava pela pequena ruptura, – não maior do que um palmo de sua mão -, entre dois tijolos, estava a quase dois metros do chão empoçado. O débil sopro eriçava sua pele. Ela observou Craven erguer-se e caminhar com vagarosos passos em direção àquela brecha.

“Está amanhecendo”, disse o vampiro ao ocultar as mãos nos bolsos de seu casaco. Castle levantou seu olhar para a pequena parte do céu que se podia ver, a negritude da madrugada dava lugar minimamente a fraca e gradativa luz, a abóbada celeste possuía um escuro tom de gris. Eles ainda possuíam certo tempo antes do sol alçar sobre suas cabeças, transformando-os em uma pilha de cinzas.

“Pelo menos a caminhoneta está depois do píer.”, disse a mestiça com um fio de voz, enquanto tentava aquecer os braços. Ela mal conseguia respirar, o ar pesado em seus pulmões lhe dificultava a fala.

Mildred estava encolhida sobre um dos três bancos de concreto poeirentos, quando um alarme estridente soou acima deles. Com um tranco ela ergueu-se e aproximou-se do alto vampiro, o mesmo encarava o teto como se pudesse ver além. Passos apressados, contínuos. A upir sabia que aquele alarme indicava que, em breve a luz solar estaria em um nível perigoso para eles.

“Eles estão indo embora.”, afirmou a Lancaster voltando seus olhos esverdeados para cima. Mildred puxou sua espada quando o pequeno Andreas surgiu á porta silenciosamente.

“Mestre Markus está pronto para recebê-los”, informou com sua voz infante e monótona. Ele retirou do bolso de seu balandrau negro o mesmo molhe de chaves que outrora estava com Soren. “Apressem-se, não vamos nos demorar.”, exaltou o que havia dito batendo no relógio de prata que usava no pulso esquerdo. As luzes das tochas no corredor destacavam o medalhão de ouro que o garoto usava ao redor do pescoço, aquele também era o único pormenor que destoava do negro de suas vestes.

Craven, Mildred e Castle entreolharam-se, a upir fora a primeira a sair, seguida do alto vampiro e por último a jovem mestiça, antes de deixar o lugar, Madeleine inspirou o ar pesado em umidade dificultosamente, o medo a preenchia. Ela subiu as escadarias a passos brandos.

Ao retornarem ao salão, Castle sentiu-se aliviada em poder respirar sem tanta dificuldade. O recinto encontrava-se vazio, todos os que estavam presentes já não se encontravam lá. Havia apenas Markus, sentado em seu trono, com as pernas cruzadas e postura altiva, suas mãos unidas como se rezasse, os seus orbes rubros seguiam o caminhar do trio, que parou perante ele.  Andreas sentou-se ao lado esquerdo de seu senhor, atento a todos os seus movimentos.

“O porquê vieram até mim?”, entonou Markus em sua voz modulada e aveludada. Seus olhos recaiam sobre a mestiça, ele a analisava curiosamente.

“Precisamos que saiba, um mal terrível nos aguarda”, começou Madeleine, seus lábios róseos tremiam de ansiedade. “Por favor, acredite, eu poria meus pés aqui neste lugar repulsivo se não fosse um risco real.”, neste momento o demônio de cachinhos levantou-se indignado.

“Como ousa ser tão petulante? Se atreve a ser tão desrespeitosa com mestre Markus?!”, o garoto parou de súbito quando seu senhor ergueu a mão calmamente.

“Deixe que fale.”, disse pacientemente, não parecendo importar-se com a reação do garoto. “Seja breve e poupe-me dos seus insultos.”, Ele dissera passando o olhar pelos três pálidos rostos, sempre que olhava para Craven, Markus demonstrava quase imperceptivelmente certo desprezo, o fato de tê-lo em sua frente era uma provocação. Há muitos anos ele havia impedido Soren de matá-lo, apenas com a promessa e que Craven não retornasse. Os lábios do vampiro mal pareciam mover-se ao pronunciar as palavras.

“Tive uma visão.”, disse a mestiça aproximando-se do trono vampiresco, ela lutava para não vacilar diante da imponência daquele upir. “O fragmento me mostrou uma espécie de descampado á beira de um arvoredo, mais á frente havia uma estrutura formada por círculos concêntricos de rochas.”, Madeleine agora focava seu olhar em um ponto fixo qualquer da parede detrás dos tronos, ela parecia lembrar-se de novos detalhes. “Havia corpos, muitas espécies... e fogo, as chamas consumiam nossos corpos enquanto um espírito ancião maligno nos assistia queimar.”, Castle terminou com um ar sôfrego, ela quase podia sentir o calor do fogo em sua pele, e uma pressão constante dentro de seu corpo. “Precisa acreditar em mim.”

Markus ouvia atentamente, mas uma estranha sensação o fazia perder seu foco por instantes. Logo ele soube o que era.

“Soren.”, entonou.

“Perdoe-me meu senhor.”, disse a voz desencarnada do rapaz. E sem demora o vampiro de cabelos negros adentrou o salão através do portão principal, seus olhos encarnados manifestavam uma desmedida indignação, Rayse o seguia – mesmo permanecendo a certa distância, nas sombras. Ele estava ouvindo.

“Mestre, não dê ouvidos a ela. Esses mestiços imundos...”, o rapaz aproximava-se furioso do trio, nesse momento Craven trincou seu maxilar brevemente, admitindo uma postura mais agressiva e imponente. “Não se pode confiar neles, mestre Markus. Tenho absoluta certeza de que planejam nos atrair para uma armadilha!”, Soren tinha um tom certamente ameaçador.

Serenamente Markus ergueu-se e seu trono e com grande celeridade se pôs a poucos centímetros de Madeleine. O hálito metálico do sangue fresco e o aroma amadeirado das vestes do upir invadiram as narinas da híbrida. Madeleine afastou-se intimidada.

“Neste caso, meu caro Soren, torna-se demasiadamente fácil, descobrir se falseiam ou vem em boa-fé.”, Gerhardt direcionou seus rubros e profundos orbes para a jovem de curtos cabelos. Madeleine levantou seu olhar áureo para o homem defronte, por um momento ela encarou incerta, aqueles olhos hipnotizantes. “Mostre-me”, ele proferiu levantando sua mão em um gesto acirrante, Madeleine prendeu a respiração por um momento dando a mão ao upir, ela abriu sua mente sentindo-o perscrutar seus segredos, memórias e pensamentos, a mestiça pôde sentir o aperto da outra mão de Markus sobre a sua, à medida que ele a sondava seu aperto se intensificava. Durante alguns raros milésimos ela conseguia lê-lo, como se compartilhassem da mesma consciência.

Uma forte dor começou a pontuar a fronte de ambos, até que Markus a soltou como se a mesma estivesse em chamas. Tudo não durara mais do que alguns poucos minutos.

“Markus”, falou a jovem mestiça. “Deve ser feita uma trégua com os Lycans, sabe disso, sem eles não podemos impedir-”, antes que pudesse terminar Madeleine fora interrompida por Soren.

“O quê?!”, proferiu o rapaz indignado. “Uma trégua?! Mestre, como pode ser quer cogitar tal absurdo! Os Lycans já mataram muitos de nós, são nossos inimigos, o senhor não pode fazê-lo!”, Soren estava enfurecido. Sem que nenhum deles notasse, o mesmo retirava de seu balandrau uma fina e letal adaga púrpura banhada em essência de Erva Moura.

“E nós já levamos muitos deles. É necessário que se faça Soren, não temos escolha.”, enfatizou o mais antigo dos upirs, seu rosto exprimia um forte pesar. “Rayse.”, chamou o homem de longos cabelos acaju, a jovem Lycan oculta nas sombras o ouvia atenta. “Informe a Sirus de nossa chegada, diga que estou indo pessoalmente propor-lhe uma trégua.”, a garota assentiu em obediência e partiu.

“Ouça a si mesmo!”, vociferou Soren encolerizado. “Negociará com troca-peles! Com animais!”, o vampiro ofegava irritadiço, sua voz estava áspera e suas palavras estavam carregadas de ódio. “Não permitirei! Você sempre foi covarde, tentando nos esconder nas sombras enquanto os Lycans conquistam território.”, com tais alegações Soren conseguiu total atenção de Markus, seus olhos demonstravam incredulidade e desapontamento.

“Faço isso para proteger á todos! Se a profecia se cumprir, não restará Lycan ou Vampiro para guerrilhar!”, Mildred estava confusa, não apenas ela, mas todos à volta do upir, Profecia? O que o Gerhardt queria dizer com tudo isso?

“Espere.”, disse a upir afastando Craven de perto do vampiro Soren, antes que algo ruim ocorresse. “O que está insinuando, é que já houve uma profecia como a visão de Madeleine?”, Markus deu curtos passos para trás, concluiu que talvez tivesse se precipitado erroneamente. “Explique-se!”, ordenou Mildred.

“Mas que profecia?!”, agora quem questionava era Soren. O rapaz em seu ódio cego, não compreendia o que se passava.

“Isso foi antes de suas épocas.”, Explicou o upir. “Há milênios, uma grande guerra foi travada entre todas as raças, e a profecia foi escrita. Ela dizia que um espírito ancião: Morrigan renasceria no novo mundo através do ódio entre as espécies para massacrar os imortais e alimentar-se da ira dos humanos, tornando-se o ser mais poderoso que existe, pois como bem sabem, os humanos espalham fúria e destruição por onde passam. Com o passar dos séculos a profecia tornou-se uma lenda e os poucos que a conheciam já não existem mais.”, seus finos lábios tremiam a cada palavra proferida, agora Madeleine compreendia o sentimento que povoava os pensamentos de Markus enquanto compartilhavam memórias, era medo o que ele sentia.

“Isto não passa de uma história criada para ensinar as crianças humanas a perdoarem, e para lhes dizer como o ódio é algo ruim.”, Soren bradava descrente em tamanha tolice.

Puxando a adaga em um rápido movimento, o vampiro cravou-a no peito de Markus, atingindo seu coração. A lâmina deslizou por dentro da carne cortando-o até o ombro quando Andreas avançou com seu dom na direção de Soren, lançando-o contra a parede. O upir despencou sendo aparado pelos braços de Madeleine e Craven. Markus golfava sangue enquanto Castle tentava retirar a adaga cravada em seu peito.

Mildred tentava em vão conter Andreas em seus braços, impedindo que o garoto investisse contra o vampiro que se erguia sobre o chão com um sorriso enviesado.

“Você enlouqueceu? O que pretende fazer Soren?!”, Madeleine esbravejou para o bastardo. Markus grunhia de dor enquanto golfava mais de seu sangue.

“Realizarei o que sempre foi fraco demais fazer”, o vampiro encarava Markus diretamente. “Vou garantir a superioridade de nossa espécie exterminando os Lycans. Irei destruir qualquer um que se atrever a ficar em meu caminho.”, assim que escutou tais palavras blasfemas, Andreas não pôde conter-se, mas antes de desvencilhar-se de Mildred sussurrou para que apenas ela pudesse ouvir; “Leve mestre Markus daqui.”, e tão logo atacou Soren exibindo suas presas.

A upir distanciou-se e ajudou Craven e Castle a erguerem Gerhardt, logo em seguida o trio avançou para fora da construção, cruzando celeremente o píer até a velha caminhoneta verde. Mildred subiu no banco do motorista enquanto o vampiro, a mestiça e Markus foram na carroceria. O upir vomitava sangue, permanecendo quase inconsciente, tinha sua cabeça apoiada no ombro de Madeleine, a mesma pediu que Craven apanhasse seu bornal que estava no banco traseiro, o vampiro esticou seu braço pegando o objeto e entregando-o à Castle.

“Respire. Tenho que retirar a adaga”, a mestiça murmurou para o upir que negativou com a cabeça, implorando com os olhos, tamanha era a dor que sentia. Madeleine segurou firmemente o punho da lâmina e a removeu de uma vez, fazendo com que Markus gritasse em agonia.

“Mas o que há nesta adaga afinal?”, indagou Craven ao ver Castle retirar de dentro de seu bornal duas pequenas botelhas, uma em vidro transparente e a outra feita do fêmur de um Golem de pedra.

em desenvolvimento...



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