História Novas e Belas Paisagens - Capítulo 1


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Categorias Choque de Cultura
Personagens Julinho da Van, Maurílio dos Anjos
Tags Sprinterkombi
Visualizações 75
Palavras 1.382
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: LGBT, Slash
Avisos: Bissexualidade, Homossexualidade, Sexo
Aviso legal
Os personagens encontrados nesta história são apenas alusões a pessoas reais e nenhuma das situações e personalidades aqui encontradas refletem a realidade, tratando-se esta obra, de uma ficção. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos, feita apenas de fã para fã sem o objetivo de denegrir ou violar as imagens dos artistas.

Capítulo 1 - Capítulo 1


A primeira coisa que Julinho notou foi que a barba de Maurílio era macia. Bem mais macia do que havia sido na sua imaginação. Bem mais macia do que havia sido naqueles sonhos dos quais ele nunca lembrava direito, que o faziam acordar de coração acelerado e pau semi-ereto, corpo grudado de suor no lençol e imagens esmaecidas de uma boca que ele fingia não saber a quem pertencia prestes a fazer coisas que ele jurava não saber o que eram. 

Foi a barba que o atrasou durante meses. Depois de admitir pra si mesmo que sabia muito bem quem vinha povoando seus sonhos, depois de admitir que as canções que vinha dedilhando sozinho no violão em casa tinham destinatário certo, Julinho havia aceitado que havia nome pro que vinha sentindo. Pra frustração que sentia toda vez que a porta do estúdio abria e a pessoa que chegava não era Maurílio, pros convites cada vez mais frequentes que fazia pra que esticassem pra algum bar após as gravações, pro fato de que coisas cotidianas cada vez mais lhe lembravam o moreno. Julinho da Van estava encantado por alguém. Não só. Julinho da Van estava encantado por um cara. E o bônus, a cena pós-crédito que vinha pra fazer o espectador sair atordoado do cinema: Julinho da Van estava encantado por um cara e o cara era o Palestrinha. 

A primeira parte da revelação foi a mais fácil de lidar. Julinho não era um homem frio. Estava acostumado a se encantar, mas não daquela forma. Os alvos de seus encantamentos eram em geral mulheres com quem convivia com alguma regularidade mas pouca intimidade, como a frentista do posto do Mixirica, pra quem ele, após meses de flerte sem sucesso, fez até uma serenata de dentro da van (infelizmente interrompida pelos demais motoristas na fila, que com sua insensibilidade não lhe deram a tranquilidade necessária pra expressar seus sentimentos da forma merecida) ou a balconista do pé-sujo que os pilotos frequentavam com cada vez mais regularidade, da qual ele falara por 5 minutos ininterruptos após ela ter deixado de cobrar 2 doses de pinga da conta dele (se isso não era amor, Julinho não sabia o que era). 

Lidar com a segunda parte não foi tão fácil. Nas semanas seguintes Julinho teve muitos momentos de revelação em que uma antiga amizade aparecia sob uma luz nova. A vida passou a fazer mais sentido ao entender que o frio na barriga que sentia antes dos dias de gravação do programa era a mesma sensação das noites antes do Paulinho da Barra lhe ensinar a surfar, na sua longínqua adolescência, e que a raiva que sentiu anos atrás quando o Caco (com o qual teve um breve projeto musical) começou a pegar a Aracely (garçonete de um dos bares de reputação duvidosa no qual se apresentavam, e que vinha dando mole pra Julinho) tinha bem pouco a ver com a Aracely e muito a ver com o Caco. Talvez Maurílio não fosse o primeiro barbado a mexer com os sentimentos de Julinho. 

A terceira parte era a que lhe despertava a vontade de sair sem rumo com a Sprinter e nunca mais voltar. 

O encantamento de Julinho tinha uma característica em comum: era inversamente proporcional à convivência real com seu objeto de desejo. Foi embora na primeira manhã em que a frentista do posto do Mixirica (na verdade, já havia diminuído um pouco quando Julinho descobriu que ela se chamava Daiane e não Monyque, como ele a havia batizado em sua imaginação) acordou a seu lado, de cabelo bagunçado e com o travesseiro babado. Foi embora quando deu carona pra balconista do pé-sujo pela primeira vez e ela lhe contou do problema de asma do irmão e da avó ranzinza e da máquina de lavar que tava quebrada há um mês e ele a ouviu gritar no telefone com a irmã que pegou dinheiro da sua bolsa. Julinho gostava de se encantar. Ele só não era muito fã de conhecer de verdade as pessoas pelas quais havia se encantado. 

Mas ele conhecia Maurílio. Ele já tinha visto o Palestrinha gritar com a irmã no telefone e reclamar da avó e vomitar na calçada depois de umas doses de rabo-de-galo de procedência duvidosa no pé-sujo supramencionado. Já tinha olhado pra ele mais de uma vez durante o programa se perguntando quando ele ia calar a boca. Caralho, até acordar ao seu lado de cabelo bagunçado e com o travesseiro babado Maurílio já havia feito, em noites em que todos eles apagavam na casa de alguém após horas bebendo e jogando conversa fora ou, com cada vez mais frequência, noites em que os dois se reuniam pra seu projeto musical e Julinho dizia ao piloto da Kombi que dormisse por lá mesmo, tava tarde, e Maurílio adormecia num colchonete enquanto a cama de Julinho parecia maior e mais vazia a cada noite. Maurílio falava dormindo e roncava e acordava num mau humor insuportável. Maurílio passava minutos falando coisas que Julinho não entendia sobre filmes com os quais ele não se importava. Maurílio inventava apelido pra si mesmo, tinha amizade com Uber, nem marcha sabia passar direito. E Julinho tava encantado pelo filho da puta. 

Se tinha algo que o piloto se orgulhava era não ter medo de encarar o desconhecido. Julinho da Van não era homem de se intimidar com pouca coisa, e depois de um tempo aceitou com tranquilidade o fato de que rapazes também eram capazes de dar partida no seu motor. Mesmo que um desses rapazes fosse o Palestrinha. 

Continuar sem dizer nada era uma opção cada vez mais distante. Os sonhos haviam diminuído, após cumprir sua função de alertá-lo pro que estava bem na sua frente, mas parecia cada vez mais impossível tratar como simples amigo alguém por quem ele havia descoberto sentimentos bem mais fortes. Sabia que a rejeição era uma possibilidade real e que podia interferir na amizade, mas se não dissesse nada o segredo geraria um afastamento que iria interferir na amizade de qualquer jeito. E também, Julinho da Van não tinha mais idade pra ficar de paixonite platônica. Mas aquela barba....

Era definitivo. Beijar Maurílio faria dele oficialmente um Cara Que Beijou Um Cara. Um homem. Um barbado. E se ele odiasse? E se a ideia de beijar Maurílio parecesse cada vez mais interessante, necessária até, mas o ato de beijar Maurílio fosse estranho e desagradável e diferente de tudo o que ele tava acostumado? E se ele arregasse, percebesse que não queria encarar esse desconhecido, botasse a perder a amizade, o projeto musical, o programa, pra pegar uma estrada e dar meia volta no primeiro quilômetro? 

- Cê tá legal? - era a segunda vez que Maurílio perguntava, mas a primeira que Julinho ouvia. 

O moreno se inclinava um pouco na direção dele, que havia acordado e afundado no sofá com a cabeça rodando enquanto Maurílio, após mais uma noite dormida lá, fora tomar banho com a naturalidade de quem está na própria casa. Agora, descalço e recém-vestido, estendia um copo de café pra Julinho e o olhava com olhar preocupado. O sol entrava pela janela e, naquele ângulo, fazia brilhar os olhos e a barba do outro piloto. Julinho estendeu a mão para o copo que Maurílio lhe oferecia, e rapidamente o depositou na mesinha ao lado do sofá. O outro piloto ia recolhendo a mão mas Julinho correu pra apanhá-la. Parecia muito importante que fosse ali, que fosse assim. Enquanto uma mão segurava a do amigo (ele podia jurar que sentia um leve tremor, mas não sabia de qual dos dois partia) a outra se ergueu pra tocar seu rosto. A barba de Maurílio era macia, notou com a reverência de quem tem uma revelação religiosa. Perdeu a noção de quanto tempo passou explorando com a mão aquele pequeno território que parecia gigante pelo fato de que, por tanto tempo, nunca havia imaginado se aventurar ali.

Não sabia quanto tempo teria ficado ali se Maurílio não tivesse usado a mão que ele ainda segurava pra puxá-lo mais pra perto, fazendo com que ele se levantasse e finalmente aproximasse sua boca daquela que vinha lhe despertando tantos sentimentos conflitantes. Sentindo a barba macia contra seu rosto, teve certeza de que naquela estrada definitivamente não ia dar meia volta.

 


Notas Finais


Era pra ser um 5 Coisas curtinho, mas encarnei o Palestrinha logo no começo.


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