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História Nove Meses - Capítulo 23


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Capítulo 23 - Incerteza


Fanfic / Fanfiction Nove Meses - Capítulo 23 - Incerteza

Aurélio observava Jorge, que examinava Soberano com calma e atenção. O cavalo relinchava e se mexia, enquanto o veterinário o auscultava. Com paciência, Aurélio se encostou na cerca, esperando que o amigo terminasse o serviço. Diante da agitação visível de Aurélio, no entanto, Jorge parou o que fazia para olhá-lo por trás dos pequenos óculos que usava.

- O que há?

- Nada. – Aurélio resmungou.

- Segure-o para mim, sim? – Jorge pediu, enquanto preparava uma injeção para aplicar no animal.

Quando Aurélio se posicionou, segurando Soberano e alisando sua crina com paciência, na tentativa de acalmá-lo, Jorge aplicou o líquido com precisão em seu pescoço, fazendo-o se mover. Aurélio precisou segurá-lo com mais força, mas, aos poucos, ele foi se acalmando.

- Pronto, garoto. – Jorge disse, sorrindo e dando alguns tapinhas nas costas do cavalo, que o veterinário pediu para Aurélio levar até a baia.

Quando voltou para o estábulo, Jorge já guardava seus instrumentos em uma mala pequena e improvisada e tirava os óculos dos olhos.

- Vai me contar o que está acontecendo? – Jorge insistiu.

 

 

Julieta permitiu que Rômulo a examinasse, enquanto soltava alguns suspiros tensos. O médico, muito atencioso, tocava em sua barriga com delicadeza, media sua pressão e temperatura com paciência e tentava deixá-la o mais confortável possível enquanto fazia as perguntas de rotina. Deitada sobre a cama, usando apenas a camisola de seda, Julieta esperava que o médico terminasse a consulta com a impaciência de sempre. Quando Rômulo terminou de ausculta-la, fez um sinal que havia terminado e Julieta se sentou, puxando o hobby que havia deixado sobre a cama e vestindo-o. Ao amarrá-lo com força na cintura, encarou o médico.

- E então?

Rômulo, fazendo graça, olhou para os lados, com a testa franzida.

- Estou sentindo falta de seu acompanhante hoje. – Ele provocou com um sorriso.

Julieta, imediatamente, fechou a cara, reprovando a brincadeira.

- Rômulo!

Ele riu, enquanto guardava os instrumentos na mala.

- Tudo vai bem. Sua pressão está ótima, o que é um bom sinal.

- Ele não está se mexendo tanto quanto antes. – Julieta disse, apreensiva.

- É natural, Julieta. O bebê está crescendo, o que torna o espaço aí dentro menor. É normal que a criança se mova um pouco menos, ou que você sinta com menos intensidade quando isso acontece.

- Tem certeza, Rômulo? Tem certeza que não há nada de errado?

- Fique tranquila, está bem? Tudo está correndo bem.

Julieta suspirou, esfregando o rosto. Mesmo que se sentisse aliviada, ainda experimentava uma estranha agitação com a pergunta do médico a respeito de seu “acompanhante”. Também havia notado sua ausência.

 

 

- Rômulo está aí. – Aurélio comentou.

- Sim. – Jorge respondeu, incerto sobre o que aquilo queria dizer.

- Julieta anda preocupada com o bebê.

- É natural.

Aurélio suspirou e voltou a se movimentar com incerteza, mas de forma insistente. Jorge, que continuava com a atenção em seus instrumentos e já se preparava para pedir para Aurélio buscar outro animal na baia, para uma nova consulta, parou o que fazia e espiou o amigo com o canto dos olhos.

- Por que esse interesse todo?

- Julieta é nossa patroa, mas é também uma pessoa que inspira bons sentimentos, Jorge. – Aurélio disse, tentando dizer da forma mais contida que podia. – Ela se tornou... Uma amiga.

Jorge franziu a testa, com curiosidade. Havia notado que o amigo se aproximara inexplicavelmente de Julieta, mas nunca o tinha ouvido falar com esse entusiasmo e preocupação.

- Eu achei que seria inadequado barrar a guarda de Catarina e espiar a consulta. – Aurélio desabafou, mais para si mesmo.

Quando viu o médico chegando, preparou-se para acompanhá-lo até Julieta, mas, ao encontrar Catarina, muito séria no corredor, desviou o caminho. Havia prometido a Julieta se afastar e, mesmo que ela o tivesse procurado, não gostaria de criar um clima suspeito. A empregada, por mais que parecesse ser alguém muito compreensiva, não poderia entender aquele interesse súbito e, certamente, não acharia apropriado, como demonstrou nas outras vezes em que ele estivera presente enquanto Rômulo a examinava.

- É evidente que seria impróprio. – Jorge retrucou, quase com graça. – Vai dizer que pretendia infiltrar-se no quarto da patroa, enquanto ela fosse examinada pelo médico?

Aurélio o encarou com receio. Em voz alta, aquilo realmente parecia um absurdo.

- Não foi o que eu disse. – Ele tentou remediar.

- Fique tranquilo. – Jorge o acalmou com um sorriso. – Julieta é a mulher mais forte que conheci em toda a minha vida. Ela ficará bem. Agora, busque Glorioso, sim?

 

 

Ao fechar os últimos botões do vestido, Julieta suspirou, encarando o próprio reflexo no espelho. A vivacidade que sempre perdia ao ver o médico chegando, voltou ao seu rosto, que enrubesceu rapidamente com as boas notícias. Sentia-se aliviada por saber que o filho continuava bem e alisou sua barriga com demora.

- Você está ainda mais linda. – Catarina comentou, observando-a de longe.

Julieta sorriu e se virou, ajeitando os cabelos que se despentearam durante a consulta.

- Não diga bobagem.

- É só a verdade, querida. – Catarina comentou, aproximando-se para tocar sua barriga. Julieta sorriu ao sentir o carinho genuíno que a empregada lhe depositava.

- Esse menino deve estar louco para conhecer a mãe.

- Você tem mesmo certeza de que será um menino, não é?

- Confie em mim, sei o que estou dizendo.

Julieta riu e permitiu que Catarina levasse uma das orelhas até sua barriga, enquanto cochichava com a criança, que parecia lhe responder, dando chutes leves e certeiros. Imersa naquele carinho mútuo e verdadeiro, Julieta soltou o ar e, subitamente, seus pensamentos a levaram até Aurélio. Ele lhe cruzou à mente de forma tão rápida e precisa, que ela não deixou de esboçar um sorriso curioso, que Catarina não desconfiou não ser pelos seus mimos. Julieta, de repente, foi invadida por uma vontade quase incontrolável de vê-lo, de lhe falar sobre a consulta, sobre as boas notícias que recebera, sobre o filho estar bem e saudável e, segundo Catarina, ansioso para conhecê-la.

Ansiosa por compartilhar aquela alegria com ele, Julieta afastou-se, fazendo Catarina encará-la.

- Onde vai?

- Preciso tomar um pouco de ar. – Julieta respondeu, sorrindo graciosamente, enquanto saía apressada do quarto, em direção às escadas.

 

 

- Gostaria de montá-lo. – Aurélio confessou, ao passar pela baia de Soberano e alisar seu pelo rapidamente.

- A patroa o mataria. – Jorge disse, rindo.

Aurélio concordou, devolvendo o riso e se lembrando do olhar de fúria de Julieta ao se aproximar do cavalo pela primeira vez.

Enquanto cruzavam o estábulo, em direção ao pasto, Aurélio suspirava, cruzando os braços em uma contemplação barulhenta. Jorge, que continuava intrigado com aquela agitação do amigo, revirou os olhos, enquanto caminhavam lentamente pela grama até as acomodações dos empregados.

- Você ainda está pensando em Julieta e no bebê? – Ele censurou.

Aurélio não gostou do tom e, ao subirem os degraus da varanda, fez uma careta, fazendo Jorge rir.

- Você precisa aprender a separar as coisas, Aurélio. Sei que aqui no interior as pessoas parecem demonstrar mais afeto, parecem ser mais próximas, mas, no fim das contas, nós somos o que somos: Serviçais.

Aurélio cruzou os braços, cerrando a porta, depois de entrar. Encostado na parede, suspirou pensativo, enquanto Jorge trocava a camisa suja do trabalho pesado.

- Julieta é uma boa patroa, Aurélio. Mas é isso que ela é. Uma patroa. – Jorge continuou.

- O que você está sugerindo? – Aurélio perguntou de forma tensa.

- Espero que você não esteja sugerindo nada. – Jorge disse, enfatizando a palavra “você”. Encarando o amigo pelo canto dos olhos, ergueu uma sobrancelha. – Você não está, com qualquer interesse, além do profissional, em Julieta, não é?

Aurélio empalideceu e, nervoso, se virou, esfregando os cabelos.

- Que bobagem, Jorge. Você enlouqueceu?

Jorge deu de ombros.

- Não enlouqueci, não, Aurélio, assim como espero que você também continue são e se lembre da sua motivação para conseguir esse emprego.

- Você não precisa me lembrar. – Aurélio retrucou de forma seca. – Não preciso que ninguém me lembre que tenho um compromisso com Ema. E não precisa se preocupar. Nada lhe faltará.

 

 

Já anoitecia e uma brisa fresca fazia os cabelos de Julieta se desalinharem do penteado impecável de sempre. Da varanda, ela observava o jardim, que havia ganhado forma nas últimas semanas. Suas rosas, mais viçosas do que nunca, dançavam ao vento noturno e lhe tiravam suspiros satisfeitos. Seu olhar, no entanto, se perdia entre a noite, em uma reflexão silenciosa e demorada.

- Boa noite. – A voz de Aurélio a tirou de seus devaneios e, endireitando-se, ela o encarou. Tentou sorrir, mas não conseguiu. – Esperei que viesse ao jardim, mas você desapareceu. – Ele disse serenamente, enquanto subia as escadas.

- Eu tive uma consulta. Rômulo esteve aqui. – Julieta respondeu em um tom estranhamente impessoal.

- Eu sei. Estava angustiado esperando notícias, mas não vi Rômulo sair e você não apareceu...

- Não achei adequado. – Julieta disse.

Confuso, Aurélio a examinou rapidamente, com um olhar sério. Julieta, sentindo-se flagrada, corou.

- Eu preciso entrar. – Ela disse, apressada.

Quando se virou, pronta para se afastar, Aurélio a segurou delicadamente pelo braço. A corrente elétrica que sempre a tomava ao sentir aquele toque quente e familiar, a fez tremer e, imóvel, Julieta fechou os olhos.

- Por que você faz isso? – Aurélio perguntou tão baixo, que Julieta quase não ouviu.

Virando-se, muito lentamente, seu olhar encontrou com o dele. Aurélio estava tenso, chateado e tinha os olhos tão confusos que ela soltou o ar, em um suspiro culpado.

- Eu disse que me afastaria. – Ele sussurrou, ainda segurando seu braço, mas de forma quase carinhosa. – Eu prometi distância, prometi deixá-la, não perturbá-la com a minha presença. Mas você... Você me procurou. Foi tão difícil tomar a decisão de me afastar, Julieta. Foi tão difícil controlar a minha vontade de estar perto de você, de tomá-la nos braços, de não me render a tudo isso que você me provoca. Por que me procurou se vai agir como se fôssemos dois estranhos de novo?

Julieta engoliu em seco, fechando os olhos e abaixando o olhar. Sentia-se zonza com a voz de Aurélio, tão próxima de seu rosto, com sua mão, ainda tocando sua pele exposta pelo vestido de manga curta, pelo seu hálito quente e irresistível tocando-lhe os cabelos, pela confissão quase penosa que ele lhe oferecia. Seu corpo todo reagia a ele e era inútil negar, assim como sabia que era injusto colocá-lo naquela posição.

Levantando o olhar para encará-lo, ela respirou fundo. Sua garganta doía e seu coração batia descompassado. Não só pela forma como ele a olhava e a tocava, mas pela incerteza.

- O que há? – Aurélio perguntou, tocando seu rosto suavemente.

Julieta fechou os olhos, entregando-se àquela carícia branda e devotada. Deixou-se sentir, por alguns segundos, os dedos de Aurélio, percorrendo sua bochecha e seu queixo. Permitiu-se sentir seu calor, mesmo que não completamente, antes de abrir os olhos e dar um passo para atrás, distanciando-se daquelas mãos.

Ao erguer o queixo, o encarou, dessa vez, firme, com seus olhos castanhos tensos de uma desconfiança visível e exacerbante.

- Quem é Ema? – Julieta perguntou com uma incontida e necessária curiosidade.



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