História Nove Meses - Capítulo 6


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Categorias Orgulho e Paixão
Personagens Aurélio Cavalcante, Camilo Sampaio Bittencourt, Jorge Nascimento, Julieta Sampaio Bittencourt "Rainha do Café"
Tags Aurieta
Visualizações 121
Palavras 1.532
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Romance e Novela
Avisos: Adultério, Estupro, Insinuação de sexo, Sexo, Violência
Aviso legal
Alguns dos personagens encontrados nesta história e/ou universo não me pertencem, mas são de propriedade intelectual de seus respectivos autores. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos criada de fã e para fã sem comprometer a obra original.

Capítulo 6 - Singular


Fanfic / Fanfiction Nove Meses - Capítulo 6 - Singular

Sentindo que o ar lhe faltava, Julieta puxou com força o laço do vestido que se amarrava ao seu pescoço e soltou um suspiro de pura frustração. Catarina, que notou sua presença furtiva na cozinha, abandonou a panela que mexia para se aproximar da patroa com um olhar preocupado.

- Dona Julieta, está se sentindo bem?

- Não. Não estou. – Julieta bufou.

- Oh, meu Deus. Devo mandar Tião chamar o doutor Rômulo?

Encarando a empregada, Julieta fez uma careta.

- Não é isso, Catarina. Eu só... Topei com um intrometido, irresponsável, petulante, um...

- De quem a senhora está falando? – Catarina a cortou, amedrontada com um possível novo adjetivo. Julieta, cruzando os braços em frente ao peito, parecia imersa em uma raiva incontrolável.

- O novo empregado... O capanga. – Ela disse. Odiava esse termo, mas naquele momento pareceu adequado. – Você acredita que ele não me deixou sair?

- A senhora ia sair? – Catarina perguntou com surpresa e censura.

Ignorando o tom da empregada, Julieta andou de um lado para o outro, sentindo-se cada vez mais irritada. Ainda podia ver claramente os olhos de Aurélio Cavalcante, azuis e provocativos, que lhe impediam, quase como se fosse seu carrasco, de, simplesmente, tomar uma decisão que deveria ser só dela. Enquanto soltava o ar com mais força do que sua garganta podia suportar, lembrou-se do sorriso de provocação que seus lábios, vermelhos e carnudos, exprimiram, enquanto, com as duas mãos no bolso da calça notavelmente apertada, a desafiava em silêncio. Ela se lembrou da respiração, tão arfante e debochada, denotada pela camisa branca aberta, molhada com um suor denso e visível, que deixava de fora alguns pelos grisalhos de seu peito. Aquilo era inaceitável.

- Esse homem... – Julieta começou a frase, mas estancou, sentindo-se, subitamente, afoita. Limpando uma gota de suor que se formou em sua testa, ela se virou, sentindo que seu rosto queimava. – Ele é muito abusado.

Catarina, confusa com a expressão de Julieta que se transformou de repente, franziu a testa.

- Bem, ele só quer protegê-la

- Me proteger? – Julieta riu forçadamente. – Por que ele se importaria?

- Por que é o trabalho dele? – Catarina perguntou incerta, tentando sorrir.

Encarando-a, Julieta se sentiu, de repente, ridícula. Havia perdido o foco da raiva que a consumia e seus argumentos se perderam subitamente em um amontado de imagens que passavam por sua cabeça com uma insistência irritante.

Balançando a cabeça, suspirou, aproximando-se das panelas, numa tentativa de disfarçar o desconforto que o olhar de confusão da empregada lhe causava.

- Esse molho está muito ralo. – Julieta comentou, depois de lamber distraidamente o dedo que havia sido mergulhado na panela quente.

Ainda um tanto curiosa, porém atenta, Catarina aproximou-se, verificando o molho que acabara de preparar e que era aquecido no fogo alto.

- Acho que vou... Descansar. – Julieta disse, quando a empregada, com a testa franzida discordou que havia qualquer problema com a comida. – Estou me sentindo um pouco...

- Está se sentindo mal?

- Pare de me tratar como se eu estivesse doente. – Julieta esbravejou. Catarina soube, naquele instante, que aquele ataque não era pessoal e que a patroa abafava uma irritação que não ousou perguntar a causa. Escondendo um sorriso nos lábios envelhecidos, a empregada concordou.

- Estou apenas cansada. – Julieta acrescentou. – Cansada. Só isso.

Com um suspiro barulhento e dramático, Julieta saiu da cozinha, a passos largos e espaçados.

Finalmente sozinha, Catarina levou uma das mãos até a boca, mesmo que não houvesse ninguém de quem esconder o riso que lhe cortou. O gênio de Julieta era algo imprevisível, que metia medo na maioria dos empregados, mas para ela, havia certa graça. Sabia que Julieta havia perdido muito nos últimos anos e que fizera de seu temperamento sua única arma contra tudo o que precisava enfrentar em um mundo de homens. Aquele personagem que assumira, tão explosivo e irremediável, era só a uma casca, um disfarce para se proteger.

***

Caminhando em direção ao refeitório, Aurélio aproveitou para fechar o botão da camisa que, por descuido, deixara aberto durante a ronda da manhã. Seus passos largos faziam sua respiração ficar ainda mais agitada e, ao se sentar ao lado de Jorge, aproveitou-se de uma garrafa de água próxima para se refrescar.

- O que há com você? – Jorge perguntou, notando a tensão do amigo.

- Não me lembrava que fazia tanto calor no Vale. – Aurélio resmungou.

- E ainda estamos na primavera. – Jorge comentou com um sorriso.

Suspirando e em um silêncio excessivamente conturbado, Aurélio cruzou os braços, recusando a comida que uma empregada muito baixa oferecia. Jorge, que acabava de comer e limpava o canto dos lábios com bastante classe, franziu a testa.

- Qual é o problema? – Ele insistiu.

Balançando a cabeça, Aurélio, finalmente, o encarou.

- Eu achei que havia tirado a sorte grande de não precisar trabalhar com o mal-humorado senhor Bittencourt e acabo de descobrir que Julieta é tão ou mais insuportável que ele.

Abafando uma risada, Jorge não pareceu surpreso com o desabafo.

- Então já teve seu embate com dona Julieta?

- Ela é realmente tão...

- Geniosa? – Miguel, um senhor que vigiava os pastos e com quem Aurélio havia trocado algumas palavras antes, completou a frase ao se aproximar, rindo como um garoto. – Dona Julieta é pior que uma onça.

Surpreso com a descrição quase precisa de Miguel, Aurélio franziu a testa, olhando-o com interesse. Jorge, que não gostava de participar de fuxicos de empregados, pareceu desconfortável.

- Ela me destratou. – Aurélio acrescentou. – E não foi a primeira vez.

- Aurélio... – Jorge o censurou.

- É verdade, Jorge. Hoje só estava fazendo o meu trabalho e ela veio com sete pedras na mão. Pior, declarou-se, em alto e bom som, minha inimiga.

Miguel, abrindo os lábios com exagero, urrou.

- Oh, você está perdido meu amigo.

- O que há com essa mulher? – Aurélio perguntou com interesse e irritação. – Qual o problema de Julieta, afinal?

Aproximando-se, Miguel pareceu querer dar um tom dramático para a conversa.

- Ela é assim. Desde que trabalho aqui, dona Julieta é famosa por seu temperamento difícil. Ela é geniosa que só. Alguns homens já chegaram a dizer até que duvidam que ela seja mesmo mulher. – Miguel disse, rindo.

- Como é? – Aurélio estreitou os olhos.

- Bem, você sabe, as mulheres devem ser doces e amáveis. Dona Julieta não é nada disso. Parece uma vespa. Anda sempre com um olhar de desconfiança, como se todos estivéssemos tramando algo contra ela. Até com o senhor Bittencourt ela troca farpas. Já vimos antes, não é, Jorge?

Revirando os olhos, Jorge balançou a cabeça.

- Você está exagerando. Dona Julieta é muito boa, é muito justa.

- Mas muito brava também. – Miguel disse, soltando uma risada alta. Voltando a baixar o tom, completou: – Só não insistimos no caso de ela ser homem, porque... Bem, além de seu gênio, dona Julieta é dona de um primor muito... Feminino. E evidente.

Aurélio ficou pensativo. Ao se lembrar do olhar forte e desafiador da patroa sentiu, de repente, um leve tremor atingir seu corpo. É claro que havia notado e se surpreendido com a beleza de Julieta Bittencourt, mas, talvez de forma inconsciente, vinha tentando ignorar esse fato. Agora que Miguel o dizia em voz alta, no entanto, mergulhava em imagens rápidas, mas abundantes, que o fizeram conter um suspiro de concordância. Julieta era realmente uma bela mulher e, surpreendentemente, seu olhar desafiador e arrogante, pareciam ter evidenciado ainda mais esse fato.

Incomodado com a reação do próprio corpo diante daquela constatação abrupta e inconveniente, Aurélio fez uma careta, disfarçando um sorriso que quase se formou em seus lábios.

- Julieta é só uma mulher mal-educada. – Ele resmungou. – Acha-se melhor do que os outros porque é rica e usa de sua autoridade para aterrorizar os outros. Além do mais, por que ela é tão fixada na cor preta? Uma mulher que se comporta como se fosse viúva de um marido vivo é, no mínimo, algo a ser questionado.

- Julieta é excêntrica. – Jorge retrucou, mesmo incomodado com o teor da conversa.

- Mas você há de convir que o preto lhe veste muito bem. – Miguel acrescentou, piscando com malícia.

Aurélio prendeu o ar ao se lembrar da bela silhueta de Julieta, escondida por trás dos longos vestidos negros, que pareciam fazer parte de seu ser. Lembrou-se de, muito rapidamente, notar a curva de sua cintura e quadril na primeira vez que a viu no estábulo. Sua barriga, ainda plana, não denotava a gravidez, mas a curva generosa de seus seios, bem escondidos por trás do pano grosso, que não tinha decote algum, o fez desviar o olhar muito abruptamente, sentindo-se grotesco por ousar espiar uma mulher grávida daquela forma.

Um nó muito denso se formou em sua garganta com a breve lembrança e, engolindo em seco, se levantou.

- É melhor eu voltar para o serviço.

- Você nem comeu. – Jorge disse, vendo-o se afastar.

- Estou sem fome.

Caminhando em direção à entrada da propriedade, Aurélio coçou a garganta, enquanto limpava uma gota de suor que escorria de sua testa. Sentia-se quase enjoado e culpado pelo que seu corpo experimentou diante daqueles comentários vis, dos quais havia sido, inegavelmente, cúmplice.



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