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História Now or Never - Capítulo 15


Escrita por:


Notas do Autor


Alguém ainda lê essa coisa que eu chamo de história?

Se sim, peço desculpas pela demora – dois meses sem atualizar, meu pai –, acabei adiantando outras histórias minha e o bloqueio para esse cap estava grande.

Vou tentar atualizar o mais rápido que eu conseguir, isso se a autora que vos fala não infarte por causa do seu time domingo :)

PS: tive que excluir e tentar editar porque cortou um pedaço do diálogo, me perdoem.

Enfim, espero de verdade que vocês gostem, peço desculpas por qualquer erro e boa leitura! ❤

Capítulo 15 - Quinze - sentimentos.


Quando chego em casa, escuto da sala uma movimentação na cozinha. Não demora muito para que Théo entre no meu campo de visão. Ele está com um lado do quadril apoiado no balcão, mexendo no celular e esperando o micro-ondas apitar. 

— Ei — chamo sua atenção. Ele ergue os olhos da tela e sorri. 

— Oi, mana — vou até ele e ele beija minha bochecha. Está cheiroso, alguns fios do cabelo molhado estão grudados em sua testa. Acredito que faça pouco tempo que tenha tomado banho. 

— A mamãe está em casa? 

— Está, sim. Por quê? 

— Quero conversar com ela. 

As sobrancelhas dele parecem querer bater no teto de tão franzidas que ficam. Antes que ele possa responder, o microondas apita. Observo-o tirar o pacote de pipocas em silêncio, seus ombros estão tensionados enquanto ele põe tudo num pote. 

— Théo? Você ouviu o que eu disse? — Pergunto com os braços cruzados. 

— Ouvi. Olha, Ester… — ele suspira. — Eu não sei se é uma boa ideia. 

— Eu preciso tentar, eu não aguento mais esse clima dentro de casa. 

— Eu sei que tá insuportável, mas é melhor dar tempo a ela. 

Eu bufo, impaciente, deixando minha bolsa no sofá. 

— Só vou tentar, está bem? Se formos esperar até que toda a raiva e mágoa que ela sente se dissipe, vamos ficar anos adiando essa conversa — retruco, lançando um olhar para o relógio da cozinha. — Faz muito que ela chegou da empresa? 

Théo suspira novamente, um tanto derrotado. Acho que ele sabe que discutir comigo é inútil. Ele comeu um pouco de pipoca antes de responder. 

— Uma meia hora, talvez. Ela estava bem cansada. 

— Você viu se ela comeu alguma coisa? 

— Aqui, não. E provavelmente na empresa também. Você conhece a mamãe, sabe como ela é. 

Sim, eu sabia. Dona Véronique era o tipo de pessoa que quando estava concentrada ou muito ocupada com o trabalho, esquecia-se completamente de comer ou beber. Eu sempre a repreendia por isso, e chegava a ser um tanto irônico, pois sentia que os papéis de mãe e filha eram trocados nessas horas.

Eu assinto, voltando a cozinha. 

— Vou fazer alguma coisa para ela comer. 

— Caraca, vai tentar amansar ela com comida? — Escuto a voz de Elyaz soar atrás de mim. — Você é uma gênia! 

Eu giro os calcanhares, vendo-o com a expressão risonha. Ele parecia bem, o que deixava meu coração aliviado. Depois de tentar acalmar os ânimos naquela briga horrorosa dos meus pais e ir para o seu quarto, ficamos por um longo tempo conversando e acabei dormindo junto com ele. O jeito brusco como me contava o que ouvira demonstrava apenas um terço do seu incômodo. 

— Não tinha pensado por esse lado. Você não presta, Elyaz — eu rio e beijo seu rosto quando ele se aproxima de mim.  

— Eu sou esperto, é diferente. 

Théo revira os olhos. 

— Você é um trombadinha, isso sim. 

— A conversa não é com você, idiota. 

Eu engulo uma risada. Théo e Elyaz continuam com a discussão infantil enquanto eu começo a preparar uma torrada e encho um copo com suco de laranja. 

 Quando termino, ponho tudo numa bandeja. Acabo atraindo a atenção dos meninos, os dois me lançam um olhar cheio de simpatia. 

— Boa sorte — Théo diz. Elyaz assente, como se desejasse o mesmo. 

Eu dou um sorriso fraco. 

— Obrigada, meninos. 

Então eu respiro fundo e subo as escadas, indo em direção ao seu quarto. O silêncio no corredor me faz pensar que talvez ela esteja dormindo, mas mesmo assim, bato na porta. 

— Pode entrar. 

Encontro minha mãe deitada na cama. Ela parece um pouco surpresa ao me ver, se recosta contra a cabeceira enquanto eu adentro a peça, sem jeito. 

— Desculpa atrapalhar o seu descanso — digo, pondo a bandeja na cama. — Mas Théo disse que você não comeu nada e... Bem, achei que seria bom te trazer algo. 

Minha mãe sorri de canto. 

— Obrigada, filha — agradece, passando a mão pelos cabelo castanho. — Mas eu tenho quase certeza que você veio aqui para outra coisa, além disso. 

Seu tom não foi hostil, tampouco ríspido. Sua postura não estava defensiva, o que me deixava um pouco mais aliviada, mas ainda sim, o nervosismo me fez engolir em seco. 

Sabia que tentar prolongar ou enrolá-la só seria pior, portanto decido ser direta – como sempre fui. 

— Nós podemos conversar, por favor? 

Mamãe encarou o copo de suco, hesitante, antes de tomar um gole da bebida. Foi inevitável não encolher os ombros quando seu olhar pairou em mim. Ela suspirou, pondo o copo na cômoda ao lado da cama. 

Fico impressionada com o fato dela conseguir manter-se elegante mesmo estando cansada. 

— Tudo bem — diz. 

Eu engulo em seco. Sim, eu havia pensado nas milhares de coisas que queria lhe dizer, mas era diferente de encará-la. 

— Só quero que você me escute, está bem? — Começo, firme, tentando não desmoronar. — Eu não posso dizer que entendo como você se sente, mãe, mas eu imagino. 

A dor que vejo riscar seus olhos faz meu coração se apertar. A única resposta que tenho é um aceno de cabeça, sem nenhuma palavra. 

— Desde que eu descobri, eu quis contar pra você. Eu nunca quis te esconder nada, mesmo sabendo que você ficaria arrasada--

— Doeria bem menos saber da sua boca do que ter flagrado os dois — interrompe chateada. Tento não transparecer que o seu tom amargo me afetou e continuo. 

— Eu sei. Eu errei, mas infelizmente, eu não posso voltar no tempo pra corrigir. Eu também sei que sempre tomei a frente das coisas, mas... É difícil ter que ser essa pessoa — sussurro, sentindo a costumeira exaustão que esse assunto me trazia pesar nos meus ombros. — Eu fui covarde. Omiti algo tentando me convencer que seria o melhor pra você e que contaria no melhor momento, mas esse momento nunca chegou. Acabei fazendo o que eu menos queria desde o começo: acobertei meu pai. 

Eu encaro o teto, piscando para afastar as lágrimas. Vamos lá, pensei comigo mesma, você tem que conseguir. 

— Eu não tô pedindo pra você me perdoar, eu só queria... Sabe, queria que você tentasse compreender, talvez, o meu lado. O lado dos meus meninos — digo, torcendo para não ser mal-interpretada. — Eu não consigo lidar com o fato de passarmos o resto da minha vida assim, nessa tensão e mágoa. Eu só... Só queria que conversássemos sobre.

O que se segue é um dos silêncios mais desconfortáveis que já experimentei na vida. Eu limpo discretamente algumas lágrimas teimosas que insistem em rolar pelas minhas bochechas, tentando não morrer de ansiedade. 

O rosto de dona Véronique estampa um misto de sentimentos, todos ruins, mas impossíveis de distinguir. 

— É tudo muito recente, Ester — seu olhar está baixo e seus dedos mexem distraidamente a frente do chale que usa. — Eu espero que nunca, nunca, você sinta algo parecido. Ser traído por uma pessoa que você jurou amar a frente de um altar e a outra é, quer dizer, era a sua melhor amiga. Duas pessoas que você confiava, que amava, que daria a vida por elas. E de repente, tudo muda.

O aperto no peito se intensifica ao vê-la começar a chorar silenciosamente. Controlo a vontade de me aninhar nos seus braços e limpar as lágrimas grossas. 

— Eu estava furiosa demais para pensar racionalmente. Sei que você entende a minha reação, mas eu fui dura com você — um sorriso fraco brincou em seus lábios. — De certa forma eu senti como se vocês tivessem me traído também, mas agora vejo que deve ter sido difícil ficar entre nós dois. 

— Você sabe que não era nossa responsabilidade contar — murmuro com a voz embargada. — Mas, mãe, eu tentei. Eu juro que eu tentei. 

Dessa vez, não consegui controlar o fluxo de lágrimas, minha visão ficou totalmente borrada. Eu me sento na beirada da cama, encarando as minhas mãos repousadas em minhas coxas. 

— Eu imagino, filha — sua voz estava repleta de emoção. 

Não havia mais o que ser dito, pelo menos não da minha parte. Eu não a esperava de braços abertos e que aceitasse tudo numa boa, pois eu sabia que se fosse eu, também não faria isso, mas só dela ter me ouvido, o alívio anestesiava um pouco da culpa.

Estou prestes a limpar o rosto e reunir coragem para sair do quarto quando sinto a mão de minha mãe pousar suavemente no meu ombro. Eu ergo o olhar e no minuto seguinte, estou acomodada em seus braços.

— Me desculpa — sussurro, tentando reprimir os soluços que insistem em fazer meu corpo tremer. — Sei que não vai mudar o que aconteceu, mas me desculpa. De verdade.

— Tudo bem — murmura. Ela também está chorando. — Obrigada por ter vindo aqui. Na verdade, eu não esperava menos; conheço a filha que tenho.

Nós duas soltamos uma risada, mas logo o silêncio volta a perpetuar entre a gente. Eu fecho os olhos, aproveitando da sensação que é estar abraçando novamente a minha mãe.

— Eu vou superar isso, Ester — ela diz com firmeza, intensificando o carinho em meus cabelos. Eu olho para o seu rosto, vendo-a limpar as lágrimas e sorrir de forma genuína. — Nós vamos superar isso.

Eu sorrio também, apesar do sorriso ser totalmente frágil. Seus dedos se afastam momentaneamente do meu cabelo, apenas para desunir os dedos das madeixas para passá-los por elas.

— Bom, mas agora, vou comer essa torrada — ela diz, rindo um pouco, limpando as lágrimas. Eu limpo as minhas também, vendo ela pegar o prato. — Você adivinhou. Eu estava pensando em descer para comer alguma coisa, a fome estava começando a aparecer. 

— Sei — espreito os olhos. — Um dia você ainda vai desmaiar por causa disso, mãe. Não pode passar tantas horas sem comer desse jeito! 

— Eu quem sou a mãe aqui, Ester — ela lembrou, franzindo as sobrancelhas de forma divertida. Eu rio, sem jeito. — Mas obrigada por se preocupar, meu amor. 

Droga. Vou chorar de novo. 

O apelido faz a felicidade fazer festa no meu peito. Antes que ela comece a comer, eu estico a mão para apertar a dela com força e nós trocamos um sorriso. 

Eu fiquei ali, enquanto ela comia, pondo, mesmo que aos poucos, a conversa em dia. E a cada palavra trocada e risada compartilhada, mais eu sentia que todo esse drama estava chegando ao fim. 



[...]



— E foi isso.

Agustine e Miranda me encaram. Não sei decifrar o misto de sentimentos que há em seus rostos. Acabara de contar tudo o que acontecera nos últimos meses entre meus pais. 

Após as nossas aulas, decidimos ir a um restaurante almoçar. Aproveitando a deixa que ela precisava contar os detalhes sobre a noite com Marco. 

E, me dando conta que elas não tinham a mínima ideia de nada, resolvo compartilhar. Percebo que ultimamente não tenho contado muito da minha vida para as minhas melhores amigas e amigos, são tantas coisas que acabo esquecendo.

— Por que não nos contou antes? — Agustine pergunta, calmamente. — Nossa, Ester. Deve ter estar sendo horrível passar por isso.

— Me desculpem — digo, sorrindo sem graça. — Eu não sei, na verdade. Vocês sabem como eu sou, é um assunto delicado pra mim. Agora estou aprendendo a lidar, mas antes era insuportável; eu estava muito irritada e magoada com o que havia acontecido, ter que falar para outras pessoas parecia exaustivo demais.

— Acho que só não fico chateada contigo porque eu faria o mesmo — Miranda suspira. — Você sabe que pode contar com a gente, não é?

Ah, eu sabia. Com toda a certeza sabia.

Eu estico minhas duas mãos na direção delas e elas seguram com carinho. Meu coração está aquecido quando sorrio de forma genuína para as minhas amigas.

— Eu sei — por um momento, sinto vontade de chorar novamente. Ainda estou muito abatida com a conversa com minha mãe. — Obrigada por entenderem, eu amo vocês.

Meu Deus. Estou tão sensível que chega a ser irritante. Preciso voltar a assumir a minha pose de durona o mais rápido possível.

— Nós também te amamos — elas dizem em uníssono. Miranda leva a mão que segura até a boca, beijando levemente meus dedos e Agustine aperta a outra antes de soltar.

— Certo. Agora vamos trocar de assunto — eu levo uma garfada do meu macarrão antes de continuar. — Vá em frente, Miranda. 

Enquanto a morena bufa alto, a loira dá risada.

— Ai, meu Deus, quase esqueci! — Agustine exclamou, me fazendo rir junto dela. — Minha nossa, quando a Ester disse que vocês dormiram juntos, eu mal acreditei.

— Vocês são ridículas — murmurou Miranda. — E o que diabos a Ester já tinha que ir te fazer fofoca?! 

— Não foi fofoca! — Protesto indignada. — Você disse que iria contar quando nós três estivéssemos juntas, então eu só informei a Tine para ela não ficar de fora.

— Você podia ter esperado — o desconforto de Miranda era uma das coisas mais engraçadas de se ver.

— Mas assim não teria graça — dou um sorriso inocente.

— Miranda, não adianta você querer brigar com a Ester — Agustine intervém a meu favor. — Nós não vamos sair daqui até que você conte tudo.

Eu e Agustine mantivemos nossos olhos atentos a Miranda, que suspirou novamente e tomou um longo gole do seu refrigerante antes de começar a falar.

— Tudo bem! — Revirou os olhos. — O que vocês querem saber?

— O sexo — Agustine começa baixinho e de forma casual, como se estivesse falando sobre o tempo, o que desencadeia uma gargalhada alta de mim. Quase a faço ter uma crise de riso enquanto tento abafar a risada, visto que alguns olhares tortos das outras mesas pairam sobre a gente. — Foi bom?

— Maravilhoso — ela responde, soltando um suspiro quase dramático. 

— Eu disse que ele tinha cara de quem fodia bem! — Digo contente, causando risadas nas duas, ainda que Miranda parecesse querer se esconder embaixo da mesa. — Minha intuição nunca falha!

— Fala baixo! — Ela pede, exasperada. — Se vocês ficarem fazendo escândalo não vou contar mais nada!

Eu e Agustine nos olhamos cúmplices e logo fazemos um gesto que indica que prometemos mais discrição a nossa melhor amiga.

Perguntamos como tudo ocorreu e ela disse que eles haviam saído duas vezes e apenas na segunda, acabaram o fim da noite juntos.

Um sentimento bom, que eu julgava ser felicidade, parecia aumentar dentro do meu peito ao vê-la feliz. Não achava que Miranda estava apaixonada por Marco, mas era nítido que essa aproximação e esse tempo que passaram juntos estava fazendo bem para ela.

E não fiquei nem um pouco surpresa por ouvir que ele não a pressionou em nenhum momento e a respeitou o tempo todo.

— Vocês vão manter algo casual? — Questiono. — Ou ainda não conversaram sobre isso?

— Combinamos que iríamos com calma — Miranda diz. — Não há porque apressar as coisas. E outra que não sei se a palavra “relacionamento” está nos nossos planos.

— Eu concordo — Agustine comenta, após terminar de comer o frango grelhado em seu prato. — Você já passou um tempo sozinha, sabe que não é bom pular de um relacionamento pro outro.

Omiti a minha opinião sobre achar que Marco realmente gostava de Miranda, não queria parecer que estava querendo forçar as coisas.

Eu sabia que minha intuição normalmente estava certa e ela indicava que ainda rolaria coisas boas entre os dois.

— E vocês, hein? — Miranda espreita os olhos castanhos na nossa direção. — Também quero fuxicar a vida amorosa alheia.

— Pra fuxicar a minha vida amorosa, ela primeiramente teria que existir — Agustine diz, solene. Eu gargalho, mas meu riso morre quase instantâneamente quando ela joga a atenção para o meu colo. — É a vez da Ester.

Os olhos de Miranda se acendem e controlo a vontade de revirar os meus ao vê-la parecer ainda mais interessada no assunto.

— Ninguém? — Miranda indaga, curiosa.

— Ninguém — minto.

— Isso sim é estranho — Agustine tomba a cabeça para o lado. — Ninguém mesmo mexendo com esse coraçãozinho rebelde?

— Ninguém — repito a mesma resposta – ou seria mentira? – sem nenhum tipo de decoro.

Não passa despercebido por mim a troca de olhares entre as minhas amigas, mas logo, o assunto é desviado para um que não tem nada a ver com homens.

O que, para mim, fora um alívio.

Certo, eu não entendia muito bem meu impasse em dizer o que acontecia entre eu e Francisco para as meninas; tampouco os meus sentimentos em relação ao jogador ou as sensações agridoces e ambivalentes que eu andava experimentando – a muito contragosto, diga-se de passagem.

Eu sabia que se contasse, não seria como se no segundo seguinte elas abririam a boca e fariam Madrid inteira saber sobre nós. Mas ando “escondendo” isso há tanto tempo que não vejo muito sentido em contar.

E eu sabia que, no fundo, talvez fosse medo. Medo de expor o que sinto, medo de ser honesta comigo mesma. O que eu e Francisco temos, seja lá o que isso for, já ultrapassou a linha do casual ou a de amizade.

Eu não tinha como saber o que se passava na sua cabeça ou no seu coração, nós nunca conversamos sobre o que acontecia internamente e esse parecia um assunto desconfortável demais para ser debatido.

Mas eu sabia que nos seus silêncios e hesitações, caberiam palavras que provavelmente seriam decisivas.

A linha entre uma amizade com benefícios e um caso intenso era extremamente tênue, na maioria das vezes. E eu, Ester, assumia que cruzara essa bendita linha sem medir as consequências.

Eu sabia que estava apaixonada por Francisco.

Isso me assustava, porque eu também sabia como aquilo poderia me desestabilizar e no fim, ganhar de presente um coração partido.

Eu assumo que desde o início eu sabia que me envolver com ele era perigoso. Ia desde nossas diferenças pessoais até o fato do meu pai ser o seu treinador. Mas eu não havia posto nada disso na balança, porque ao que parece, me apaixonar era uma possibilidade totalmente remota.

Pelo jeito eu também me esqueci de como nosso coração faz escolhas estúpidas.

Controlando um suspiro quase melancólico, tento afastar qualquer pensamento que seja relacionado à Francisco e aproveito o resto do almoço com Agustine e Miranda.



[...]



À tarde, eu me encontrava à frente da casa de Francisco. Eu bato na porta e em questão de segundos ela é aberta. Mas não é Francisco quem abre. 

É Sara. 

Tento controlar a surpresa ao encará-la, mas acho que falho. Aliás, tanto eu quanto ela; a mulher elegante a minha frente franze as sobrancelhas bem feitas e seus olhos me analisam de cima abaixo. 

Minha nossa, ela é ainda mais linda pessoalmente. 

Diante do seu silêncio, eu tomo a frente para cumprimentá-la. 

— Oi — digo suavemente. 

— Olá — nossos olhares se encontram e alguma coisa em suas íris castanhas fazem eu me sentir sem jeito. — Acho que não nos conhecemos. 

— Verdade. Eu sou a Ester, prazer — dou um pequeno sorriso, rezando para que ela não me ache falsa. 

— Sara — diz, comedida. 

Ela está prestes a dizer algo, mas para quando ouvimos uma certa pesssoinha gritar meu nome. 

— Ester! 

Esqueço totalmente a discrição sobre meus gestos e abro um sorriso largo ao ver Junior correr na minha direção. 

Ai, esse menino... Sempre me salvando! 

Eu nem hesito em pegá-lo no colo, abraçando-o fortemente. 

— Oi, querido — sua expressão contente faz meu coração ficar quentinho. — Como você está? 

— Eu tô ótimo e você? — Ele devolve a pergunta, pondo seus braços envolta do meu pescoço. 

— Estou bem. 

— Mamãe, você conhece a Ester? — A atenção do pequeno é desviado para a progenitora. — Ela é amiga do papai. 

Se eu achava que Sara não tinha ido com a minha cara, ao olhar para ela agora, eu tinha tido a confirmação. 

Seu olhar pode ser comparado a um de raio lazer e temo que não tenha nada a ver com o Francisco pai. A mulher se detém principalmente nos braços que seguram seu filho. Quando volta a esquadrinhar meu rosto, há uma clara irritação nas suas feições.

— Agora conheço, filho — ela responde Junior, num tom que julgo tranquilo até demais. Observo-a trocar sua bolsa, que deve custar mais do meu rim, de braço. — Você parece nova, Ester. Quantos anos tem? 

— Vinte. 

— Não sabia que Isco tinha amigas tão novas — meus ombros se enrijecem com a amargura em sua voz. — Imagino como deve ser a amizade de vocês. 

Ok. Agora, sim, ela está com ciúme de Francisco. 

Me pergunto onde ela deve ter enfiado a noção; me alfinetar estando a sós comigo tudo bem, agora com o seu filho no meu colo? Está longe de ser algo que se deva fazer na frente de uma criança, mesmo que ainda seja uma criança – que sabemos que dificilmente irá entender a maldade nas falas dos adultos. 

Vendo que Junior está totalmente alheio a hostilidade que começa a impregnar no ar, eu respiro fundo antes de responder.

— Se você quis dizer que temos uma boa amizade, eu concordo — rebato de forma sutil. — Eu e Francisco nos damos muito bem.

Não deixei de notar o quanto ela pareceu incomodada ao me referir ao jogador pelo nome e não pelo apelido. 

— Eu imagino — mais uma vez, não se deu ao trabalho de disfarçar a amargura no seu tom. 

Eu ignorei. Eu não ia e muito menos pretendia comprar briga com Sara, principalmente por saber que se ela nutrisse qualquer tipo de implicância por mim, seria apenas por puro ciúme e ressentimento de Francisco. 

Quem tem que se resolver são eles dois, eu não tenho nada a ver com isso. 

— Tchau, meu amor — Sara se direciona a Junior, carinhosa. Ela beija seu rosto, arrancando um sorriso dele. — Se cuide, está bem? Obedeça seu pai e qualquer coisa é só me ligar. 

Ele assente, sorrindo. 

— Está bem, mamãe. Eu te amo. 

— Eu também te amo, filho — ela o abraçou fortemente. A essa altura, ele já estava de pé, no chão. Antes de ir embora, Sara me lança um olhar. — Tchau, Ester. 

— Tchau, Sara — eu sustento o olhar, observando-a se afastar em direção a um varro que presumo ser seu. 

Meus ombros só relaxam quando ela acena para Junior uma última vez e dá partida no carro, indo embora. Não tenho muito tempo para processar o que acabara de acontecer, pois Junior agarra a minha mão e está praticamente tentando me arrastar para dentro. 

— Vem, Ester! — Ele exclama. — O papai está na sala.

Nós entramos e tomo a liberdade de fechar a porta atrás de mim. Seguimos pelo hall de entrada, não demora muito até eu enxergar Francisco sentado num dos sofás. 

— Olha quem está aqui, pai — Junior anuncia a nossa chegada e senta-se ao lado do pai. 

Francisco vira a cabeça em minha direção e ao me ver, um sorriso surge em seus lábios. 

— Chegou rápido — comentou. 

— Eu sei — digo, me sentando no outro sofá. 

Junior franze o cenho, parecendo confuso, e apoia os cotovelos contra a coxa esquerda de Francisco. 

— Você sabia que ela viria? — Perguntou ao pai. 

— É claro. 

Obviamente, ele tinha me convidado. Não me sentiria nem um pouco confortável chegando na sua casa assim, do nada, sem avisar.

Mais tarde, após Junior sugerir que víssemos um filme, eu e Francisco aproveitamos a deixa de fazer pipoca para ir a cozinha e conversar um pouco. O menino estava na sala, pondo o DVD no aparelho e ajeitando o resto para nós.

— Eu achei que tinha a ver com a sua mãe — Francisco comenta após eu contar sobre mamãe. — Você parecia determinada pra fazer alguma coisa. 

Eu solto um suspiro. 

— Eu tô tão feliz — murmuro, encostando meu corpo contra o balcão. — Não me importo se ela ainda está chateada comigo ou com os meus irmãos, vou respeitar o tempo dela. Só o fato de saber que ela me escutou e que as coisas tendem a melhorar me deixa mais tranquila. 

Acompanho o jogador fechar a panela e parar ao meu lado, esperando o milho estourar. Ele passa o braço por meus ombros, fico brevemente surpresa pelo gesto, mas logo passa. Junior não podia nos enxergar daqui. Quando ele me olha, consigo sentir que também está feliz pela notícia. 

— Você não tem noção do quanto isso me deixa aliviado — diz, ostentando um sorriso de canto. — É sério. Foi horrível te ver mal nessas últimas duas semanas e não poder fazer nada. Espero que tudo se resolva, que tudo fique bem, pelo menos entre vocês duas. 

— Eu acho que vai — digo, não evitando um sorriso. — Acredito que vai. 

Seu sorriso, ainda que fechado, aumenta um pouco mais. Eu fecho os olhos momentaneamente ao senti-lo beijando o topo da minha cabeça. Eu volto a olhar para frente, ouvindo os primeiros barulhos vindo da panela. 

Então, me lembro do acontecido com Sara. 

— Você devia ter me avisado sobre como sua ex é simpática — ironizo. 

Eu me desvencilho dos seus braços, ficando a sua frente. Francisco franze o cenho, confuso, mas leva apenas alguns segundos até a compreensão invadir seu rosto. 

— Vocês se encontraram quando ela estava indo embora — constatou.  

Eu assinto. 

— Achei que ela iria voar no meu pescoço. 

Apesar do meu tom bem-humorado, ele não pareceu achar graça. 

— Ela te disse algo? — Ele questionou, seriamente. —  Te desrespeitou? Olha, Ester, se a Sara falou qualquer coisa que-- 

— Relaxa — interrompo, despreocupada. — Ela me alfinetou, sim, mas não foi nada de mais. Mesmo eu achando desnecessário fazer aquilo na frente do Junior... 

— Desnecessário é eufemismo — ele revirou os olhos. — E o que foi que ela disse? 

— Disse que “imaginava bem como era a nossa amizade” — digo, fazendo aspas com os dedos. — Sabe, insinuando que tínhamos algo mais. 

— E o que você respondeu? — Ele sorriu debochado e foi a minha vez de revirar os olhos. 

— Disse que se ela quis dizer que nós tínhamos uma boa amizade, eu concordava com ela — dou de ombros. — Se a Sara quer me odiar, ela irá fazer isso sozinha, porque não será recíproco. Não tenho culpa se ela ainda sente algo por você ou o que seja, Francisco. Que Sara pense o que quiser sobre nós. Não é da conta dela o que temos ou o que sinto por você. 

Só me dou conta do que acabei de dizer quando sinto o olhar de Francisco queimando sobre mim. Sua sobrancelha está arqueada quando ergo meus olhos na sua direção e meu estômago revira diante do nervosismo. 

Ele descruza os braços e também se desencosta do balcão, acabando por ficar mais perto de mim. 

— E é da minha conta o que você sente por mim? — Me sinto exposta demais com a intensidade da qual esquadrinha meu rosto, mas não quebro o contato visual. 

— Eu gosto de você, você sabe — soo firme. — A não ser que você seja tão idiota ao ponto de não notar. 

— Eu também gosto de você, Ester — diz, ignorando minha provocação. 

— Espero que não seja como amiga, como na última vez que você disse isso. 

Agora, mais do minhas palavras, seus olhos estão afiados. Não há nenhum indício de irritação, mas eu sei que o cutuquei em lugares indesejados. 

É a primeira vez que conversamos sobre, a primeira, também, que estou colocando-o contra a parede. Nunca o cobrei nem pressionei, mas... Porra, dessa vez não consegui conter minha língua. 

Não tenho a mínima certeza dos seus sentimentos e, as vezes, me pego pensando se estou esperando algo que ele nunca poderá dar.

Quando estou prestes a encerrar o assunto, um tanto frustrada por não ter uma resposta – nem que fosse evasiva –, Francisco segura meu rosto com força e me beija. 

A tensão e a surpresa invadem meu corpo por instantes, até que dêem lugar a excitação. Meu ventre se contrai e eu, quase que automaticamente, deixo minha cabeça pender para trás para que ele possa aprofundar o beijo. 

Não era lugar nem hora para fazer aquilo, mas eu não conseguiria me afastar nem se quisesse. Sua barba roça contra meu rosto, me fazendo arrepiar, enquanto sua língua entrelaçava-se com a minha como velhas conhecidas. 

Como eu estava fodida.

Francisco parecia saber exatamente o que fazer para ter total controle do meu corpo. A firmeza e lentidão da qual me beijava sempre iria me deixar indefesa, vulnerável. Eu diria até que atordoada. 

Ele ainda está segurando meu rosto quando nos afastamos. Apesar de achar que nunca conseguiria lidar com o seu olhar intenso, eu perdera qualquer tipo de decoro sobre as sensações e reações que ele causava em mim. 

A ansiedade aflora gradativamente com a nossa troca de olhares e quando seus lábios se entreabrem, sei que está prestes a dizer algo. Porém, ele hesita e um segundo depois, sua boca se fecha. 

E também, não sobra tempo para dizer nada, visto que um barulho começa a ecoar pela cozinha. 

A pipoca. 

— Tinha me esquecido — resmungo. 

— Não tinha como não esquecer — murmurou rouco. 

Antes que se afaste para desligar o fogão e procurar um pote para pôr a pipoca, Francisco me lança um olhar minucioso. Eu desvio o olhar, sentindo cada lugar onde seus olhos percorreram em chamas. 

— Vou para a sala — aviso, deixando a cozinha. 

Enquanto meus coturnos batem contra o chão, minha cabeça parece se fundir num nó cego. Fico incomodada ao perceber que a mesma frustração que sentia antes do beijo voltou, e dessa vez parece mais forte. Mas não tinha muita coisa que eu pudesse fazer. 

Mais uma vez, eu teria que me contentar com o seu silêncio. 


Notas Finais


Até onde eu sei, na vida real, a Victoria quem é a mãe do Junior, mas na história eu acabei mudando e é isso.
E queria deixar claro que rivalidade feminina não vai haver aqui, essa hostilidade entre a Sara e a Ester vai durar beeeeeem pouco

Até o próximo. ❤


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