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História Nowhere but Up - Capítulo 27


Escrita por:


Notas do Autor


keep calm e preparem os lencinhos, amadas 🤧

desculpa algum erro e boa leitura!

Capítulo 27 - Bring the pain


Mordi meu lábio trêmulo e me inspecionei no espelho, enquanto pensava.

— Tá legal… Olha pra mim — Chloe disse, procurando fixar o olhar no meu através de reflexo e firmar sua certeza. — Você vai sair por esta porta e não vai deixar ninguém saber que você esteve chorando. Todos os seus problemas vão ficar aqui dentro. Vai ser a excelente médica que você é e vai conseguir falar na frente de todas aquelas pessoas. Não são monstros, não são inimigos, são nossos colegas. Gente que te admira e que te apoia. Você é forte e não pode deixar o que está sentindo agora te atingir… Está me ouvindo?

Eu ouvia. Eu a ouvia, mas não tinha força alguma para absorver sua determinação.

Só consegui travar ainda mais garganta, extremamente seca.

— Eu não consigo… — balbuciei, sentindo o meu choro preso.

Ela apertou os meus ombros, bem atrás de mim.

— Consegue, sim, e você vai fazer isso, porque todos estão contando com você. Foi você quem salvou a vida daquela menina e é você quem está sendo homenageada agora.

Balancei a cabeça e me apoiei na bancada da pia.

Eu estava há praticamente 48 horas seguidas sem dormir. Sobrecarregada com um mundo de coisas e ainda tinha que pensar em algum tipo de discurso de agradecimento.

Ouvimos uma batida repetida na porta e Chloe suspirou, virando para abri-la como já tinha feito uma vez antes.

— O que é?

Me escondi atrás da minha amiga, e quando vi que era Elliot mais uma vez, tentei fingir uma expressão neutra, mas era difícil.

— Está tudo bem? — ele me analisou, mas Chloe ficou na minha frente. — O que está acontecendo?

— Nada. Ela já vai sair — Chloe disse, simplesmente.

— Estão perguntando pela gente…

— Então responde. Diz que já estão indo.

Ele ia falar, mas ela nem esperou e fechou a porta na cara dele. Pude imaginá-lo irritado do outro lado.

Respirei fundo e virei para ela novamente.

— Chloe...

— Use isso — ela disse.

— Isso o quê? — perguntei, e a vi tirar um gloss labial do bolso. — Não, não…

Mas ela nem me deixou fugir, logo segurando o meu rosto e passando o gloss nos seus lábios.

— Só uma corzinha.

— Eu não gosto — grunhi.

— Deixa de ser chata, vão tirar fotos — ela disse e até parecia a minha mãe falando daquele jeito. Quando terminou, olhei no espelho e ela também ajeitou o meu cabelo. — Pronto. Você está linda!

Quis revirar os olhos, mas só segurei na maçaneta antes de sair. Ela me deu sorriso fraco, porém encorajador.

— Vai! Você consegue.

Soltei a respiração.

Abri e fechei a porta e saí na sala, vendo uma rodinha de médicos se desfazer assim que Elliot me notou. Ele ponderou, mas veio até mim ainda com uma certa dúvida.

— Tudo bem?

— Sim — respondi.

— Tem certeza?

— Sim... Vamos logo.

Eu não queria falar o que estava acontecendo. Eu também não queria nem demonstrar. Mas ele não era burro nem idiota e, embora tivéssemos resolvido o nosso impasse, ele sabia que eu estava escondendo alguma coisa.

Desde o primeiro instante em que fizemos o caminho para o andar de cima, eu me senti tremer inteira por dentro. Não gostava de multidões, ser o centro das atenções, muito menos de estar na posição de “novidade da semana”. Falar em público não era um problema tão grande assim, mas se eu pudesse evitar, evitaria. Porém, vendo pelo lado de que era apenas uma parte de gratidão pelo meu trabalho, eu me sentia um pouco bem com isso – por mais que minha mente estivesse desligada e longe de tudo, de todos e de qualquer coisa que estivesse fora de um único lugar específico daquele hospital. O único onde eu queria mesmo estar.

Quando Doutor Reg anunciou um pequeno coffee break para os funcionários e toda a equipe do NYC MED, eu já imaginei que pudesse aparecer muitas pessoas. Mas não que todo o espaço do auditório pudesse estar completo. Sim, completo. Desde os lugares do mezanino, na parte superior, às portas de entrada fechadas e com pessoas parando ali apressadamente, talvez só para dar uma “passadinha” e não deixar de ficar por dentro pelo que estava rolando.

O palco estava iluminado. Meus mentores, como Doutor Brennaman e muitos outros, meus alunos do internato e meus companheiros de time… todos estavam ali para me ver. Era o meu nome que estava sendo projetado junto com o de Elliot no centro e a definição dos nossos setores em letras maiúsculas. Eu nunca senti um frio tão forte na barriga ao ler cada palavra.

Antes mesmo de sermos anunciados, eu tirei o gloss grudento dos meus lábios e voltei a prender o meu cabelo. Chloe me encheria o saco mas Elliot só me olhou e observou, um pouco preocupado, ainda curioso.

Quando fomos anunciados, as pessoas aplaudiram.

Ele fez a fala dele. Agradeceu e honrou todos que haviam estado conosco até então. E quando foi a minha vez, eu tive que respirar fundo algumas vezes enquanto gaguejava e dava os piores sorrisos e os mais sem graça para toda a audiência.

— Eu realmente não sei o que poderia dizer aqui hoje. Esse evento não é sobre mim, sobre o Doutor Adams ou qualquer pessoa que entrou naquela sala de operações… É sobre uma vida. Uma vida que deu à minha um outro sentido como profissional. Eu não quero bancar a chata, a que fala de menos ou a que faz pouca questão do que está sendo realizado, então eu não vou discursar um "obrigado" ou nada do tipo. Mas quero dedicar esse momento, não só para todos que estão aqui presentes agora, mas para todos que fazem e já fizeram esse lugar ser o que ele realmente é. "Eu sou uma pedra", "Eu sou uma ilha"... Esses são os mantras de quase todo cirurgião que já conheci na minha vida. Nós gostamos de pensar que somos independentes, solitários, dissidentes... Que tudo que precisamos para fazer nosso trabalho é um bisturi e um machucado. Mas a verdade é que nem o melhor médico consegue sozinho. A cirurgia, assim como a vida, é um esporte de equipe. Eventualmente, você tem que levantar do banco e decidir: em que time você joga? E eu decidi jogar com vocês. Eu decido fazer isso, todos os dias. Vocês, cada um de vocês, foram um pouco da minha inspiração para o que eu faço hoje. Por isso, eu só gostaria de deixar aqui à todos, o meu respeito pela confiança excedida.

Eu não acreditei em uma só palavra.

Eu nunca falei tão aleatoriamente e tão perdida em toda a minha vida.

Depois que Doutor Reg também se pronunciou em nome do hospital, o evento meio que foi finalizado. Alguns diretores me cumprimentaram e cumprimentaram Elliot, e aí todo mundo que ainda tinha a sua ocupação esperando, foi embora. Chloe sorriu e fez um sinal positivo pra mim com as duas mãos antes de deixar o auditório com os outros, orgulhosa e contente, mas só quando eu vi Roxie surgir na direção contrária de quem caminhava para a saída, foi que eu me senti menos energizada. Ela tinha conseguido.

Pedi licença e me afastei, indo ao seu encontro.

— Alguém viu você?

Ela parecia muito pilhada com o que tinha feito.

— Eu nem precisei entrar no quarto, a garota da recepção deu bobeira no balcão por alguns minutos — respondeu e me entregou todas as coisas, exatamente como eu pedi.

Olhei para ela, muito agradecida.

— Obrigada… e não se preocupe. Não vou deixar encrencarem você por causa disso — falei, mas ela deu um sorriso sem graça. — Como ele está? Bem?

— Eu não sei... Ele só está recebendo as medicações. Ele também me viu do lado fora várias vezes e me chamou por isso. Perguntou quem tinha mandado que o vigiasse, porque sabia que eu trabalhava com a senhora.

— Tudo bem, tudo bem… Não precisa ficar o tempo todo por lá. Você pode tentar disfarçar e…

Ela balançou a cabeça.

— Acho que não é uma boa ideia... Ele não gosta de mim.

— Ele só está chateado comigo, Roxie. Ele não é o Bicho Papão — deixei claro e a encarei com confiança. — Volte e me mantenha informada, por favor — e mesmo de contragosto, ela assentiu. — Obrigada mais uma vez.

Roxie virou para ir, e quando eu também fiz isso, nem tive muito tempo de pensar. Elliot tinha estado bem atrás de mim. Eu me assustei, mas desviei do seu caminho.

— Ei, Anniston… Anniston! — ele me parou, tentando me alcançar. — O que está acontecendo? Quer conversar?

Fiz que não, atrapalhada.

— Não. Eu... só preciso ficar um pouco sozinha.

Ele me observou e observou os meus movimentos. Até olhou para o monte de pastas que eu levava nos meus braços.

— Ainda é por causa do dinheiro?

— Não, não é por causa do... — eu neguei novamente, com bastante pressa de sair dali. — Eu só preciso ir, tá bom? Depois a gente se fala.

E eu nem esperei mais um minuto, fugindo do que tinha me consumido minutos atrás.

Pensando agora... Se eu pudesse voltar no tempo e escolher uma outra formação, eu até poderia cogitar a Neurologia.

Olhando o nome de Justin na descrição da primeira página, eu comecei a ler todas as novas informações constando no seu prontuário. Exames de sangue, novos scans e até uma nova dieta que ele teria que seguir adiante. Ele tinha se machucado feio, estava com mais de cinco pontos na cabeça, mas nem por isso sua doença tinha se manifestado; felizmente.

Eu não sabia se ainda era sorte. Porque isso apareceu para ele desde o início do seu diagnóstico. Parte de mim acreditava que o acidente que ele tinha sofrido fosse o ponto alto para ele sair ileso dessa de uma vez; a outra parte só se perguntava o que poderia acontecer se aquelas primeiras horas de cuidado após a sua internação significassem um recomeço mais doloroso e solitário a partir dali. Porque eu não estava mais com ele e eu não sabia como ele estava se saindo – bom, pelo menos não diretamente.

Quando eu pedi, ou melhor, mandei, que Roxie me trouxesse todas as pastas que tivessem o nome de Justin, eu me senti um pouco fria. Pelo fato de que eu não estava medindo esforços para tentar saber qualquer mero detalhe do que estava acontecendo. E ele, muito provavelmente, não ficaria feliz com isso se soubesse. E eu perderia todo o seu otimismo de uma vez. Ou melhor, o que sobrava dele.

Quando cheguei na parte onde havia a revisão dos esclarecimentos da sua primeira e única cirurgia, eu parei, lendo com mais atenção. Justin não havia tido mais sintomas. O tremor em sua mão tinha desaparecido e ele não sentia mais incômodo ou dores. Qualquer médico se preocuparia. Embora fosse algo bom, um resultado silencioso para a Esclerose Múltipla era de deixar qualquer cirurgião desconfiado. E foi o que caiu sobre mim.

Esfreguei as têmporas, sentindo a minha cabeça começar a reclamar de tanta pressão, e respirei fundo, tentando pensar em um jeito de voltar a falar com ele. Eu queria vê-lo.

A porta do laboratório se abriu e Evelyn apareceu, me procurando pelo enorme e vazio cômodo.

— Ei. Está muito ocupada?

Se ela soubesse o que eu tinha feito, ficaria brava, mas eu não deixaria problema algum envolver o nome de Roxie, eu assumiria o erro.

Balancei a cabeça, um pouco nervosa e cobri as pastas de Justin com alguns livros por cima. Ela veio andando calmamente até mim e deu uma olhada no que eu fazia. Tentei disfarçar.

— Como você está? — perguntou.

Eu fiquei remoendo aquela pergunta para mim mesma.

— Bem...

— "Bem"? Soube que você passou a noite aqui, no dormitório.

Afirmei.

— Eu não queria deixá-lo e ir pra casa. Não seria justo, mesmo não estando com ele como eu gostaria.

Ela fez que sim e me analisou por um instante, se encostando na bancada.

— Vocês terminaram? Não estão mais juntos?

Baixei a cabeça, junto com a minha voz.

— Fui uma idiota. Ele não mereceu nada do que eu fiz.

Eu estaria mentindo se dissesse que não sabia dos boatos que já circularam um dia pelos corredores por aí. A defesa e a garra que Evelyn tinha havia sido um motivo a mais que só salvar vidas, e alguma coisa me dizia que a minha relação com Justin fazia surgir algum tipo de presságio para ela. Mas eu não arriscaria em questionar. Não agora. Em um outro momento.

Então, me preparando para um ponto que me inquietava, eu só voltei a lhe encarar.

— Posso te pedir uma coisa?

Ela esperou, mas assentiu.

— Não amenize a situação, não minta pra mim — pedi, sincera. — Como ele está?

Ela suspirou.

— O acidente não afetou o que ele tem… mas ele se machucou e bateu a cabeça, então precisa ficar sob observação. Eu suspendi o tratamento por pouco tempo e conversei com ele, mas parece que a importância de todo o cuidado que estávamos tendo não existe mais. Ele só me perguntou quando poderia ir embora.

Pressionei os lábios, não gostando tanto da sua resposta.

Ela cruzou os braços, compreensiva.

— Eu não sei o que houve entre vocês. Eu não sei o que veio acontecendo, mas estava bem claro no que tudo isso ia dar quando você decidiu assinar aqueles papéis — ela disse, me olhando. — Você quer saber se ele vai ficar bem? Sim, ele pode ficar bem. Mas nós duas sabemos o quanto as coisas podem mudar se não houver força de vontade e ele está desanimado. Não estou dizendo que você é a culpada por isso, não; mas... Tente ajudá-lo a não desistir, de qualquer forma. Mesmo que seja difícil, mesmo sendo a esposa dele ou não. Só... tente ajudá-lo. Ok?

Eu consenti.

Ela se desencostou na bancada.

— Ótimo. Agora… Será que você poderia me devolver as fichas do meu paciente?

Instantaneamente, eu sabia que não tinha conseguido segurar a minha expressão, e gaguejei.

— Q-Que fichas?

Ela nem se abalou, só estendeu a mão, esperando.

Eu suspirei, juntando tudo para entregá-la logo em seguida.

— Eu precisava ver a sua cara — ela abriu um sorrisinho sarcástico. — Se você roubá-las de novo, ou usar os seus internos como álibis, você não vai nem sonhar em saber informações do seu marido. Entendido, Senhora Bieber?

Revirei os olhos.

— Você é má, mas você não é a minha chefe.

— Não estamos mais no internato — ela disse com uma expressão mandona, mas aí me observou e balançou a cabeça, dando um sorriso fraco. — E parabéns pela garotinha. Você e o Adams foram incríveis.

Com isso, ela só deixou a sala.

E eu me debrucei sobre a mesa, voltando a ficar sozinha.

Por mais "preparados" que estejamos, não vemos realmente o desastre chegar. Tentamos imaginar o pior cenário para prever a catástrofe, mas quando o verdadeiro desastre chega, ele vem do nada. E quando o pior realmente acontece, nos encontramos completamente perdidos.

Por que coisas ruins acontecem com pessoas boas? Nos perguntamos essa questão tantas vezes que já se tornou um clichê. Mas, isso é porque coisas ruins acontecem com boas pessoas constantemente. Você só precisa esperar que quando seja sua vez, você saiba o que fazer. Como lidar, como perseverar. Mas a verdade é… Você não sabe como vai reagir ao seu pior cenário. Não até acontecer.

Justin permanecia deitado na cama. A tv ligada, mas ele olhava mesmo era para a janela, com o olhar perdido, sem a mínima atenção.

Dei um passo e não fui percebida. Principalmente depois que ele ajeitou a cabeça no travesseiro e esfregou o próprio cabelo. Então, eu fiquei estática pelo momento e pelo quê eu o vi fazer; pelos fios castanhos se soltando com facilidade entre seus dedos. Eu não acreditei.

Justin observou o próprio cabelo caído na mão e suspirou. Sua mão caiu contra a cama e ele se mexeu, só então percebendo que eu estava ali.

Devagar e triste, eu entrei. Ele virou para mim.

— Começou a cair já faz alguns dias — falou baixo e sem emoção. — Mas está tudo bem.

— Isso é normal — murmurei, com a voz afetada.

— É... Eu soube.

Alguns dos resultados dos seus dias de tratamento poderia estar chegando para nós agora, mas ele parecia já um pouco melhor do que eu para digerir a "notícia".

Os enjoos, os cansaços… foram apenas a primeira parte. Porém, eu não sabia como poderia lidar com a questão física e presente; mais realista.

Me mantive disposta a não chorar dessa vez e só cruzei os braços, parando a pouco passos da sua cama. Ele me observou.

— Como está o seu braço?

Esperei.

Ele não me respondeu, só continuou me olhando.

— E... a sua cabeça?

E ele também não me respondeu.

Fechei o punho, nervosa, sem saber como entender seu silêncio.

— Quer que eu vá embora?

Ele analisou o meu rosto e me olhou nos olhos.

— Não.

Ele estava apenas olhando pra mim. Olhando pra mim, e isso o machucava; como ele já havia dito antes.

Eu não soube mais o que fazer, o que dizer ou perguntar, então só me restou uma última tentativa de desculpas profundamente arrependidas da minha parte.

— Eu não consigo esquecer as coisas que te disse — comecei. — E isso é como um pesadelo horrível, daqueles que a gente não consegue acordar.

Justin desviou o olhar de mim e encostou a cabeça no travesseiro, virando para o outro lado.

Ele respirou fundo e foi a minha deixa:

— Me perdo...

Mas aí alguém entrou no quarto no mesmo segundo.

— Com licença — disse a enfermeira já conhecida, trazendo algum tipo de formulário em mãos e uma caneta.

Eu suspirei e assenti, me recompus e endireitei a minha postura.

Nancy fez um aceno simpático de cabeça para mim, indo até Justin. Ele se ajeitou e sentou melhor, pegando a caneta pronto para assinar onde ela indicava na folha.

Eu franzi a testa.

— O que é isso?

Ele nem se importou, mas Nancy não conseguiu esconder a preocupação por ele estar fazendo aquilo.

Me aproximei, pegando o papel da sua mão para ler.

— Documentos de alta? — perguntei, sem entender. — Evelyn não permitiu a sua alta.

— Não, mas eu insisti — Justin respondeu e me fitou. — Ela não sabe.

Eu o encarei, séria.

— Você está falando sério? Você não vai assinar isso.

Ele olhou do papel para mim.

— Você vai?

— Não — dei um riso sem graça. — Não me diga que é o que você quer, porque você está pensando muito errado.

Nancy olhou para nós dois e se sentiu uma intrusa. Ainda mais quando eu também peguei a caneta e reli o que estava nas entrelinhas.

Ele havia requerido a sua alta e a suspensão do seu tratamento. Eu não estava acreditando.

— Você enlouqueceu? — tentei manter o meu tom de voz calmo, mas eu estava surtando por dentro e queria jogar o papel na cara dele. — Só pode estar de brincadeira comigo.

Justin nem se abalou.

— Achei que a escolha fosse do paciente.

— Achei que eu ainda fosse a sua esposa.

— E você é, até nós resolvermos tudo de novo e eu não precisar mais preocupar você com os meus problemas.

Fechei os olhos por um único instante, incrédula.

— Pare — disse em alto e bom tom. — Apenas pare com isso. Você não faz ideia do que eu estou sentindo agora, Justin, e se o mínimo de juízo ainda lhe resta, é melhor você esquecer essa merda de divórcio.

— Eu volto depois... — Nancy avisou, saindo de fininho.

Eu esperei e ela saiu.

Olhei o papel novamente.

— Anniston…

— Não!

Ele balançou a cabeça, tentando me tranquilizar.

— Eu vou ficar bem… tá legal…

Eu o encarei novamente.

— Se você vier de novo com essa droga, ou se repetir toda aquela besteira de descansar no paraíso e olhar por mim lá de cima, eu juro que eu mesma mato você, está me ouvindo?!

Ele me analisou, nada intimidado.

— Eu sou o culpado agora?

— Você acha que não?

Olhei para ele e lhe mostrei o documento em minhas mãos.

— Você quer morrer? É isso?! — perguntei de uma vez, irada e assenti, entendendo. — Tudo bem. Mas e eu? Como eu fico?

Ele travou o maxilar, os lábios formando uma linha fina.

Só despejei tudo que estava dentro de mim:

— Quer saber o que tem de errado numa linda história, Justin? Eu. O meu papel. O que eu faço? Porque está parecendo que você não liga, que você não se importa, mas antes de fazer isso, me responda: O que eu devo fazer? Devo escolher o melhor caixão pra você? Devo… doar as suas coisas, as suas roupas, o seu violão? Me diz! — gritei, por fim. — É isso o que eu tenho que fazer enquanto você "vai na direção da luz"? É isso o que eu tenho que fazer enquanto você escolhe desistir de tudo?

Ele ficou calado.

— Você já se perguntou como deve ser pra mim? Você está doente, isso não é uma escolha e agora sofreu um acidente, mas eu estou aqui, te pedindo desculpas mais uma vez e você nem me olha mais por causa de um erro. Um maldito erro idiota! — gritei, de novo — Olha pra mim — pedi. — Olha pra mim. Eu errei, tá bom? E me desculpe por isso, mas eu não estava entendendo o que estava acontecendo comigo porque eu nunca soube como era estar apaixonada de verdade antes e você causou isso em mim!

Ele me observou com a mesma expressão de antes, mas aí seu rosto todo se suavizou ao me ouvir.

Eu balancei a cabeça, rasgando o papel com raiva, e apontei para ele, olhando nos seus olhos ridículos.

Eu amo você! Me diz o que vai acontecer comigo quando você for na direção da luz... Me diz o que eu faço porque eu amo você!

Doía. Doía mais que a nossa primeira briga. Eu estava implorando para ele em meio a um choro desesperado e só queria que ele tivesse noção do que estava fazendo, porque eu não iria suportar.

Ele não aguentou e pegou a minha mão, me puxando para mais perto da cama. Eu comecei a soluçar.

— Annis...

— Eu já entendi, você vai pro céu e vai ficar bem, mas e quanto à mim? — senti ele segurar o meu rosto e quase comecei a hiperventilar, sem fôlego e sem nem me dar conta do meu estado. — Não faça isso por você, faça por mim, por favor… Porque se você piorar, se você morrer… — mas balancei a cabeça, me negando a imaginar isso — Você tem que fazer isso e fazer por mim, senão eu nunca vou te perdoar.

Suas sobrancelhas se juntaram.

— Perdoar por morrer?

— Não! Por me fazer amar você! Por me transformar nessa bagunça! — eu estremeci, me encolhendo toda e agarrei suas mãos para que ele me abraçasse. — Por favor! Faça isso por mim, por favor! Eu não posso ficar sem você, eu não vou aguentar ficar sem você... Por favor!

— Está bem — ele disse baixo, me olhando com dor por me ver daquele jeito. — Está bem... Eu vou fazer, eu vou ficar.

Justin me abraçou.

Fechei os olhos com força e enterrei o meu rosto no seu pescoço, finalmente chorando tudo o que eu tinha pra chorar. E por um longo tempo, ele me apertou e ficou agarrado comigo, se ajeitando em mim como podia pelos machucados.

Era mais que saudade. Eu estava encontrando nele o sentimento que eu nunca tive na vida. Era como voltar pra casa, aquela sensação boa e reconfortante. E quanto mais eu apertava o seu corpo contra o meu, podia constatar e sentir isso.

Eu estava destruída, devastada. Não consegui falar mais, não consegui fazer nada além de soluçar e agarrar sua roupa, como uma menininha assustada. Justin acariciou o meu cabelo e as minhas costas, chorando em silêncio junto comigo.

Meu coração estava nas mãos dele e agora ele sabia; era o meu medo. Agora ele sabia de tudo que eu ainda não havia lhe dito. Da única verdade entre todas as mentiras que eu havia jogado na sua cara. Se eu o perdesse, depois de tudo o que vivemos, eu não iria conseguir seguir em frente. Ele tinha se tornado o meu lar, a minha paz. Eu não queria que ele se fosse, mas também não queria vê-lo sofrer e nem passar por mais tormentos. Eu queria ele bem, eu precisava dele bem e ele precisava ficar bem. Por mim, por nós.

Não sei se mais alguém além dele viu o meu surto, mas também não dei a mínima. Justin me embalou em seus braços por todos os segundos e minutos e eu podia sentir seu peito bater descontrolado contra o meu. Mas então eu fui me acalmando e seus braços foram enfraquecendo ao meu redor... até caírem. E eu me afastei para olhá-lo.

— Justin?

Na tela dos aparelhos, o bipe cardíaco disparou indicando perda de pressão e ele já havia fechado os olhos.

— Justin! Acorda! — gritei, assustada.

Mas ele não acordou.

Deitei a cabeça dele com cuidado no travesseiro e apertei o botão na parede, indicando um código azul no quarto. O alarme soou alto e eu fiquei gelada, mas isso não me impediu de fazer tudo rápido e sozinha, e fazer qualquer coisa para salvar a sua vida.

Baixei toda a cama e juntei as minhas mãos no centro do seu peito. Contei mentalmente a massagem cardíaca enquanto a sua pressão só caía.

— Justin, acorda, por favor! — gritei de novo, desesperada. — Abre os olhos, olha pra mim!

Elliot apareceu apressado e assustado, e ainda mais assustado quando viu que era eu quem estava ali no quarto, com ele.

— Chama a Evelyn — implorei, sem parar de massagear. — Chama a Evelyn, rápido!

Ele desapareceu e eu só vi quando ele voltou, quando parou ao meu lado e puxou o lençol e o avental hospitalar que Justin vestia.

— Mandei chamá-la. Eu sou o único que está no andar.

 Eu só chorei mais.

— Não está adiantando, a pressão não sobe...

 — Há quanto tempo ele teve a crise?

— Menos de dois minutos.

Ele me olhou, focado, diferente de mim.

— Tá, se acalma e faz mais devagar. Você vai acabar quebrando as costelas dele.

Mas eu só conseguia empurrar as minhas mãos de um jeito rápido e forte, louca para que ele voltasse pra mim.

 — Anniston, não está me ouvindo? — ele virou para Nancy na porta. — Trás um kit de intubação e o carrinho de parada! Anniston, para, deixa comigo... Anniston!

Eu me afastei e cobri o rosto, com raiva até das minhas lágrimas. Elliot voltou a massagear, agora mais devagar, do jeito certo.

Sequei os olhos e dei a volta na cama pegando o instrumento para intubá-lo quando Evelyn entrou como um furacão pela porta.

— O que houve?

— Parada cardíaca — Elliot respondeu e pegou as pás magnéticas aplicando o gel.

Peguei um tubo e encontrei sua traquéia e Evelyn se aproximou e olhou para mim, ligando o dispositivo. Eu me apressei.

— O que você está fazendo aqui?! Saia do quarto, agora.

Balancei a cabeça.

— Não...

— Carrega em 100 — ela mandou e me ignorou, posicionando o aparelho nos devidos locais no corpo de Justin. — Afasta.

Eu nem tive tempo de reagir.

Seu tronco subiu e desceu de forma abrupta, fazendo suas costas baterem de volta contra a cama. Eu simplesmente fiquei sem ar por ver ele sendo reanimado bem na minha frente.

O quarto todo ficou em silêncio e nós esperamos, olhando o monitor, mas não houve nada, nem mesmo um som. Justin continuava do mesmo jeito.

— De novo. Carrega em 200 — ela disse e esperou Elliot mudar a numeração. — Reage, vamos, Justin! — novamente fez o que devia e eu encarei o rosto dele desacordado bem ao lado. — Afasta.

Dessa vez, eu não quis ver.

Mas os bipes logo surgiram e se acalmaram quando eu ouvi.

— Pressão se estabilizando... — informaram, dizendo mais coisas, mas eu estava atordoada demais para prestar atenção.

Me aproximei dele, vendo ele abrir os olhos lentamente, muito alheio com tudo aquilo acontecendo à sua volta. Voltei a terminar o processo e liguei o balão de respiração ao tubo, pressionando devagar.

Minha boca estava seca. Minhas mãos tremiam e eu ao menos sabia o que fazer direito, a não ser apertar o objeto de forma calma, tentando fazer com que ele normalizasse a sua respiração.

— Você vai ficar bem — falei, assentindo para mim mesma, mas ele não parecia nem me reconhecer direito. — Vai ficar tudo bem…

Justin fechou os olhos e os abriu novamente, rolando-os na minha direção, como se tentasse reconhecer a minha voz mas estivesse cansado ou longe demais para isso.

Evelyn pegou o seu estetoscópio, Elliot afastou as coisas do carrinho… E aí Justin deu indícios que iria convulsionar.

Não.

Não, não, não… Por favor.

Quase todas as pessoas que estavam ali se aproximaram no mesmo instante para segurá-lo, o mantendo da maneira correta enquanto aquilo acontecia. Era horrível. Eu estava perdida no meio de tudo e só conseguia olhar para Evelyn, esperando que ela fizesse alguma coisa. Mas tudo o que ela fez foi me impedir de ver, me afastando.

— Anniston — ela falou de forma controlada, como se estivesse me pedindo algum sacrifício. E estava. — Sai daqui.

Duas mãos seguraram os meus braços e me levaram para fora do quarto.

Elliot estava à minha frente quando a porta se fechou atrás de mim e eu tremia da cabeça aos pés. Lágrimas quentes queimaram meus olhos e borraram minha visão, rolando pelas minhas bochechas. Eu não conseguia nem respirar direito.

— E-Ele… Ele…

Elliot me envolveu, me tocando e me consolando um pouco nervoso.

— Calma… Eu sei… Vão cuidar dele. Deixa ela fazer o trabalho dela.

“A dor. Você só tem que sobreviver a ela. Esperar que ela vá embora sozinha. Esperar que a ferida que a causou, cure. Não há soluções, respostas fáceis. Você só respira fundo e espera que ela vá diminuindo. Na maior parte do tempo, a dor pode ser administrada, mas às vezes ela te pega quando você menos espera, te acerta abaixo da cintura e não te deixa levantar. Você tem que lutar através da dor, porque a verdade é que você não consegue escapar dela e a vida sempre te causa mais.”

Eu não soube mais o que fazer. Então, Elliot pegou a minha mão.

— Vem... Vamos esperar.


Notas Finais


to muuuito nervosa, me contem o que vcs acharam!!!!!!

volto logo ❤️ usem álcool em gel, lavem as mãos e fiquem em casa! vou aproveitar essa quarentena para fazer parte do tempo livre de vocês :) beijo


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