História Nuestra Esencia - Capítulo 4


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Categorias La Casa de Papel
Personagens Personagens Originais, Professor, Raquel Murillo
Tags La Casa De Papel, Raquel Murillo, Serquel
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Palavras 4.381
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Drama (Tragédia), Romance e Novela
Avisos: Linguagem Imprópria, Nudez, Sexo
Aviso legal
Alguns dos personagens encontrados nesta história e/ou universo não me pertencem, mas são de propriedade intelectual de seus respectivos autores. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos criada de fã e para fã sem comprometer a obra original.

Notas do Autor


Oi girassóis, como estão?
Bom eu acho que agora começamos a engatinhar... Estou animada em entregar este capitulo para vocês.

Capítulo 4 - As palavras podem pesar toneladas


Fanfic / Fanfiction Nuestra Esencia - Capítulo 4 - As palavras podem pesar toneladas

“A minha própria mente me devora.” –Redbird

Fazia frio naquela manhã de outono.  

Todos os pequenos cantinhos de San Sebastian refletiam a beleza da estação; dos carros, cheio de pequenos chuviscos, as pessoas, sempre tão apressadas, com um guarda-chuva em mãos, incapazes de admirar o encanto daquele começo de dia. Ventava bastante e uma garoa caia fina junto ao céu nublado, tal qual o humor do homem de olhos castanhos.  

Faziam exatamente 5 meses que havia saído de casa, e seu inferno particular começara.  

Com o passar das semanas havia entendido que não era o divórcio que o afetava, mas sim a quebra de confiança. Se entregar a alguém de corpo e alma e esperar receber o mesmo amor e respeito em troca. Casamentos acabam, e tinha consigo a leve certeza de que o seu não duraria para sempre, mas esperava o mínimo de consideração possível. Era horrível fitar o teto e lembrar dos mais de sete anos jogados fora.  

Sua mente o traia por diversas vezes, vasculhando a memória em busca de bons momentos, em busca de qualquer coisa que o fizesse sentir que não havia sido em vão, que algo de bom sobrará dali que havia valido a pena. Mas não vinha, nenhum momento em especifico que não fosse conturbado, ou que não acabasse em brigas e cobranças. 

Um casamento fadado ao fracasso desde que começara.  

Seus olhos estavam marejados e o humor um pouco mais ácido que o do dia anterior.  Aparentemente, naquela semana, todos os astros conspiravam contra ele. Já era o segundo dia em que acordava indisposto e completamente antissocial.  

Lhe faltava coragem até para fazer o mínimo, mas tomando coragem levantou.  

A porta do quarto do amigo estava entreaberta e uma ideia remota sobre se desculpar passava por sua cabeça, mas se quer conseguia focar nisso. Sabia que o amigo estava certo sobre os questionamentos que o fizera, mas não tinha forças para admitir se quer para si mesmo, dizer em voz alta estava completamente fora de cogitação. 

-Bom dia, Sérgio. -Cumprimentou a loira que havia dormido na casa do namorado, ao ver a sombra do moreno se aproximando da cozinha. -Está se sentindo melhor? Denver comentou sobre sua indisposição... sentimos a sua falta. -O puxar de assunto veio junto com uma xicara de café e Sérgio agradeceu em silêncio. 

-Bom dia, Mô. -Sua mente vagou sobre a indisposição e seus lábios torceram em desgosto. -Hoje faz cinco meses que sai de casa...- Deu de ombro se sentando no balcão. -Talvez por isso ontem não tenha sido um bom dia, eu precisava pensar um pouco.  

-Vejo que pouco dormiu... -Ele concordou. -Já está na hora de você superar isso, Sérgio. A vida é muito curta para sofrermos por quem não vale apena. E sua ex-mulher nunca valeu. 

-A sua sinceridade é comovente ma friend. -A loira piscou o arrancando o primeiro sorriso do dia.  

Seus olhos voltaram a se perder pelo ambiente e o moreno riu fraco. Monica tinha quase razão, se ele não tivesse omitido as verdadeiras razões do dia anterior não lhe ter sido bom. Não que soubesse exatamente o porquê, era confuso ordenar os acontecimentos em sua mente e procurar uma única razão para que se sentisse aborrecido daquela forma.  

A mente vagou pelo dia e os acontecimentos, havia trocado mais de duas palavras com Raquel, a loira misteriosa, descoberto até qual bebida ela costumava pedir... visto de perto o rebolar de seus quadris, e sentido de longe o cheiro de seu perfume. Tinha tudo para ser um bom dia. Se as sensações que ela lhe causava não o incomodasse tanto. Talvez porque não estivesse pronto para senti-las ainda. Raquel era um mistério delicioso de desvendar, cheia de pequenos empecilhos que o impediam se quer de chegar perto, linda de uma maneira única e até onde sabia: completamente intocável.  

Uma dor de cabeça a mais para a coleção das que já possuía.  

Um longo suspiro escapou de seus lábios, Silene tinha razão, era obvio o que estava sentindo, não só o jornaleiro do outro lado da esquina havia notado, talvez a cidade inteira fosse capaz de enxergar o quão bobamente encantado se estava.   

-Você está distante... aconteceu alguma coisa? -Ele a fitou.  

-Hoje também não é um bom dia. -Deu de ombros voltando para o café. -Mas logo passa. -Seus olhos caíram sobre a maçã sobre o balcão e a pegou. -Ando com pouco tempo para lamentações, até mais tarde Mô.   

-Até. 

No meio da ventania seu corpo se encolhia dentro do enorme casaco que usava, a caminhada não era longa e lhe trazia paz olhar para o lado e ver o mar, mas encontra partida a bela vista vinha junto com um frio mais acentuado que o normal.  

A distração o levou além e por breves segundos achou estar tendo algum tipo de alucinação, ainda que estivesse distante, os óculos lhe serviam de algo, e a última pessoa que imaginou encontrar estava ali no meio da rua. Já se passavam das 10h e ela encarava o telefone de rua pendurado em suas mãos, com uma expressão aborrecida no rosto, linda... se aproximar era quase que irresistível. 

-Bom dia, Raquel. -A mulher respirou fundo antes de levantar o olhar e encarar o dono da voz que lhe chamava. 

-Você? -Revirou os olhos. Por quais motivos aquele homem se achava no direito de ser tão educado e sorridente? A pergunta vinha desde o dia anterior quando ele o interrompera no Lisboa. -De novo... 

-Desculpe-me atrapalhá-la, mas você está com algum problema? -Raquel ponderou antes de responder. Visualizando a situação que se encontrava: Com um pneu furado, um celular descarregado e um telefone público que simplesmente não funcionada. Ou seja, na merda.  

-Meu pneu furou. -Respondeu por fim contrariada. -E eu não consigo ligar para o guincho, aparentemente os telefones dessa cidade não funcionam. -Sérgio até tentou se segurar, mas foi impossível não rir alto diante daquela situação. -O que há de tão engraçado? -Cruzou os braços. 

-A senhora chamou um guincho para trocar-lhe o pneu?  

-Bom se eu não consigo trocar o pneu, preciso arrumar alguém que o faça por mim. -Respondeu ríspida. Seu humor não era dos melhores, e aquele desconhecido parecia querer-lhe irritar um pouco mais.  

-Não há nenhuma formula mágica. -Se aproximou. 

-Eu sei que não! -Largou o telefone e voltou para o automóvel. -Mas estou com a mão machucada... -Arriscou na mentira. -Não tenho forças para troca-lo eu mesma. -Sérgio a olhou nos olhos e sem jeito ajeitou os óculos antes de colocar a pasta no chão.  

-Pode segurar meu casaco por gentileza? -Raquel estava estática e um tanto quanto incrédula com o desconhecido que sequer sabia o nome.  

-Você não está pretendendo...- O casaco lhe foi entregue e logo ele se punha de joelhos arregaçando a manga da camisa que usava.  

-Trocar o pneu? Bom, sim?! Não me é nenhum esforço. Leve como um favor.  

-Eu não pedi nenhum favor seu. -Revidou antes que pudesse se conter. -Sr..? 

-Sérgio, apenas Sérgio. -Ignorando a cara de indignada e pouco agradecida que a mulher fazia, o moreno continuou. Não que trocar pneu fosse sua especialidade, mas felizmente sabia se virar e fingir que o fazia com maestria. -Aqui faz muito frio... -Comentou vagamente tentando puxar qualquer assunto que fosse com ela.  

-Talvez porque esteja sem casaco. -Lhe disse o obvio e aquela foi sua deixa para desistir de qualquer dialogo.  

Não demorou mais que 15m até o que serviço estive pronto. A mulher havia se afastado, se recostando na parede mais próxima, um tanto quanto alheia a ele, sentindo a brisa do mar.  Se aproximou aos poucos, Sérgio, vinha ajeitando a camisa que havia ficado meio suja no meio da bagunça.  

-Bom acho que você consegue chegar pelo menos até em casa e verificar se está bem colocado. -Lhe sorriu de lado, recebendo pela primeira vez um sorriso sincero dela, que lhe estendeu o casaco. -Tenha um excelente dia, Raquel. -E se foi deixando a loira de boca aberta e surpresa com o atrevimento dele.  

O dia já não lhe parecia mais tão frio ou nublado. Seu humor havia subitamente melhorado, e em nada se parecia com a estação. Ele sequer se lembrava de que a semana não lhe estava sendo tão boa... riu sozinho, que feitiço era aquele que aquela mulher possuía. 

-Obrigada! -Gritou o vendo andar depressa. -Obrigada...  

Raquel voltou para o carro seguindo em direção ao destino inicial: a casa da irmã mais nova. Fazia tempo que não via Martha, e aquele convite para um café era estranho. Infelizmente não podia recusar, as pessoas já a cercavam o suficiente, ela não precisava de mais uma tomando conta de seus horários e exigindo mais do que estava disposta a dar.  

-Raquel eu preciso de um favor seu. -A loira encarou a irmã mais nova após bebericar o café que ela havia lhe servido. -Eu tenho um evento com Marcus hoje e a babá do Pedro está de folga... -A sobrancelha se ergueu a cada nova palavra que escorria dos lábios de Martha. -Podes ficar com ele para mim?  

-Como? -Gargalhou. -Seu filho tem dois anos e eu o peguei nos braços menos do três vezes. -A lembrou. -Não é uma boa ideia. 

-Raquel por Díos, seja uma boa irmã. Pedro é uma criança tranquila, não irá lhe dar trabalho algum.  

-Quem disse que eu sou uma boa irmã, Martha?  

-Eu odeio seus tons de deboche. -A xicara foi colocada em cima da mesinha de centro e a mais nova resmungava frustrada. -É muito difícil administrar todos os cafés fora de aqui, ter que comparecer a reuniões, festas, jantares e substituir as minhas queridas irmãs que nunca estão disponíveis. E de quebra ter um casamento para manter... -Inevitavelmente o comentário venenoso a atingiu, mas fingiu não entender as insinuações respirando fundo. Era patético estar ali ouvindo lamentações as quais não se importava nenhum pouco. A vida era feita de sacrifícios e Martha procurava sempre um jeito de se demonstrar cansada demais para as obrigações que tinha.  

-Você assumiu as filiais porque quis, Mama lhe disse que era melhor contratar um administrador e apenas o supervisionar.  

-Eu sei, mas... 

-Arque com isso. -Finalizou.  

-Pare de projetar seu egoísmo em mim, Raquel! Você seguiu seu sonho de ser investigadora e deixou o comando do Lisboa para quem o quisesse, e hoje usufruí dos lucros como todas nos. Custa colaborar uma vez? 

-Como é? Eu tanto quanto qualquer uma de vocês coloquei o café de pé quando o lugar estava as moscas! -Gritou se colocando de pé. -Larguei minha carreira por anos me dedicando a administração que hoje você só amplia. Nenhum de vocês tem o direito de me cobrar nada sobre o Lisboa.  

-Ele só deixou de ser uma prioridade na sua vida. -Debochou. -Como todas as coisas as quais você se importava, mas não é uma grande surpresa não é mesmo? Até a sua própria vida foi colocada em segundo plano por você, se quer se parece uma Murillo, Raquel! -Os olhos castanhos escureceram três tons e a raiva escorria por eles. 

-Eu vou embora. -Recolheu a bolsa e as chaves sobre o sofá.  

-Raquel... 

A porta bateu e as lagrimas começaram a escorrer por todo seu rosto. Parecia fácil lidar com todos seus monstros quando eles eram somente seus, fácil encarar a própria insignificância no espelho e seu martírio pessoal quando o fazia sozinha. Mas tudo se tornava um pesadelo sempre que exposta por outra pessoa, mesmo que esta fosse sua irmã.  

Martha tinha razão, não deveria mais ser considerada uma Murillo. Nem de longe se comprava a mulher que havia sido um dia. Suas fraquezas continuavam expostas, e seus ferimentos tão infecionados quanto há 780 dias atrás.  

Quem era aquela mulher, e o que os últimos dois anos haviam feito com ela? 

-Você fez o que? -Gritou a ruiva. 

-Ela me tira do sério, Alicia. -Jogou-se sobre uma cadeira vaga no centro da cozinha do café. -Eu sinto como se sentir pena dela fosse uma obrigação nossa. -A raiva da situação ainda fervia em suas veias.  

-Ela não quer a sua pena, Martha. -Seus olhos se fecharam. -Nem a sua, nem a de ninguém.  

-Eu assumi todas as franquias por causa dela. -Resmungou cansada. -Antes disso dividíamos as obrigações mesmo ela sendo inspectora. -Seus olhos marejaram em pura frustração. -E isso já faz mais de dois anos! Eu entendo ela não querer voltar para a delegacia, mas a Raquel precisa reagir. -Se colocou de pé andando de um lado para o outro. -Precisa querer viver. 

-Ela está... 

-Sim ela está. -Respirou fundo. -Mas não pode ser tratada como uma criança de 5 anos.  

-Você agiu como uma criança. -A cortou mais irritada do que no começo daquela discussão. -Sabes o quanto o assunto é delicado, e simplesmente colocou uma chave de fenda nas feridas a perfurando um pouco mais!! Que tipo de irmã você é? -Martha parou pela primeira vez e deixou que a culpa lhe atingisse. Sabia que não deveria ter falado assim com ela, mas estava cansada de toda aquela situação e do pouco reconhecimento que recebia. E no fundo não se arrependia de nenhuma palavra.  

-Ok, eu errei. -A ruiva ergueu a sobrancelha. -Não faz essa cara de deboche, vocês são iguaizinhas.  

-Vai trabalhar, vai Martha. -Apontou para a saída. -Imagino que tenha N coisas para serem decididas antes do jantar de hoje, inclusive a babá que irá cuidar do seu filho. Você já atrapalhou demais.  

Mesmo contrariada a mais nova saiu porta a fora. Martha era a mais nova das irmãs Murillo, e supostamente a mais doce entre as três. Mas com o passar do tempo e as obrigações que lhe foram designadas, o conto de fadas que era sua vida foi substituído por problemas e responsabilidades, e com isso havia ganho uma amargura acentuada.  

Sabia que era egoísmo de sua parte querer que tudo voltasse a ser como antes. E mesmo que Alicia gritasse aos quatro cantos que estava tudo bem, ninguém lhe tiraria da cabeça que Raquel estava sim no fundo do poço, mas por escolha própria.  

-Silene? -A morena parou o que fazia e a fitou. -Prepare alguns doces veganos e um chá de limão com hortelã e maçã para viagem. -O pediu saiu apressado junto ao avental que voara de seu corpo. -Vou precisar sair, você consegue dar conta de tudo? 

Silene encarou a ruiva com a sobrancelha erguida.  

-E para quem é o pedido? -Um leve tom de ciúmes se fazia presente em sua voz. -E onde você vai? 

-Está com ciúmes, meu amor? 

-Você não sai do Lisboa para nada, se um diluvio estiver acontecendo do lado de fora, tu se quer ficara sabendo. -Cruzou os braços. -E hoje vai levar uma encomenda pessoalmente?! 

-É para Raquel. -Suspirou. -Está sim acontecendo um diluvio, e infelizmente eu estou bem a par da situação. -Seus braços puxaram a mais nova em sua direção -E preciso resolver. 

-Mas hoje é dia em que ela costuma aparecer por aqui... -Comentou vagamente lhe dando um selinho.  

-Eu duvido que ela se quer saia do próprio quarto hoje. -A morena se afastou. -Prepare tudo no capricho, sim?! Vou pegar minha bolsa e talvez não volte mais hoje. -Silene apenas concordou deixando a namorada partir.  

Alicia contou até mil antes de atravessar a porta da frente. A situação se repetia como um Déjà vu em sua cabeça e as imagens que lhe vinham não eram boas. A sala estava um pouco mais bagunçada que o normal, com alguns vasos quebrados pelo chão. O desespero se tornava crescente conforme ia adentrando o ambiente. Aparentemente a discussão havia abalado mais as estruturas do que ela imaginava.   

-Meu Deus... Raquel quebrou a casa inteira.  

Seus olhos varreram o primeiro andar e nada encontrou além de estilhaços, insegura seguiu em direção ao segundo piso, orando baixinho todas as orações que conhecia e até as que não conhecia. A porta do quarto estava entreaberta e não bateu antes de o invadir. Seus olhos se arregalaram ao se deparar com irmã jogada aos pés da cama abraçada ao próprio corpo.  

Raquel permanecia de olhos fechados tentando conter a dor que se alastrava por todas as suas entranhas a impedindo de respirar. Estava novamente presa em uma de suas crises, e algo lhe dizia que aquela iria durar.  

-Calma...- sussurrou Alicia a abraçando. -Respira comigo... um...dois... você não está morrendo. -Repetiu por vezes. -Eu estou aqui.  

Mas a mente não lhe dava ouvidos. 

Estava morrendo... 

Sim estava.  

Na ponta do abismo.  

-Você também acha... 

-Shiiiiu. -Afogou seus cabelos. -Está tudo bem, eu estou aqui. -Aos poucos a loira recuperava o folego e a dor diminuía consideravelmente. -Eu trouxe chá gelado e alguns doces para você. -Mudou de assunto tentando a tirar da nevoa que a dominava. A tirando da ponta do penhasco.  

-Eu não posso... 

-Eu conheço sua dieta. -Revirou os olhos. -Pedi que separassem especialmente para você. -Seus braços a apertaram mais e ex-inspetora lhe sorriu agradecida. -Eu sei que não quer falar sobre o que aconteceu. -Raquel concordou com a cabeça. -Mas ela não fez de propósito, a Martha é... 

-Impulsiva, sem papas na língua e insensível? Sim ela é.  

-Ela está sobrecarregada com a administração, eu vou pedir que Sérgio tome conta dessa parte também, um filho pequeno torna tudo mais complicado...-Raquel a fitou. -Eu sei que não justifica. 

-Ela tem razão, Alie. Eu não sou mais a sombra da mulher que era. -Seus olhos fitaram o teto. -Mas isso não a dá o direito de me dizer o que disse, muito menos se revoltar desta forma porque eu não quis cuidar do filho dela. 

-Não, ela não tem razão. Você é incrível e a forma a qual escolheu seguir a sua vida é um problema só seu.  

A loira sorriu agradecida e voltou a se apertar contra a mais velha.  Raquel não queria mais revirar o assunto, então ele logo se perdeu, deixando-as abraçadas por um longo tempo, tendo aquele momento como o suficiente para curar qualquer dor que insistia em lhes atingir. Mais tarde entre chás e doces os ânimos se acalmaram e a loira conseguiu novamente guardar suas feridas no local onde estava acostumada a tê-las.  

15:45 daquela tarde.   

Sérgio parou o que fazia e percebeu que já estava atrasado para o encontro que tinha com ela. Sorrindo ele desceu a sua procura, e estranhou não a encontrar no local, Raquel costumava ser pontual. Como sempre debruçou o corpo sobre o balcão chamando por Silene.  

-Não perca seu tempo hoje.  

-Como?  

-Alicia foi pessoalmente levar um chá até ela.  

-Pessoalmente? -Ergueu a sobrancelha. -Por que todo esse tratamento especial? 

-Você não sabe nada mesmo sobre ela. -Riu da cara do amigo. -Faz dias que a observa igual um bobo, e não sabe nada além do primeiro nome.  

-Seu eu lhe perguntasse obteria respostas?  

-Provavelmente não.  

-Então espera que eu descubra como? -A mulher o ignorou e continuou a tagarelar sobre o quão encantado ele estava por uma desconhecida, o vendo revirar os olhos. Era de fato muito engraçado, mas simplesmente não conseguia explicar de onde vinha essa conexão e desejo de simplesmente estar perto, que sentia por ela.  

Quinze minutos se passaram até que ele partisse direção ao escritório. Internamente não se sentia tão frustrado, a interação da manhã lhe havia enchido da mais pura alegria... isso lhe fazia crer que sobreviveria até sexta sem vê-la. 

Entre “boas tardes” ignorados e troca de olhares rápidas, duas semanas, então, se passaram. 

O cheiro de café forte predominava cada cantinho do Lisboa. Café com cheiro de casa, de colo de mãe, o preferido entre os cidadãos do mundo. Um verdadeiro aconchego em dias frios como aquele.  

Entre muitos clientes, um casal apaixonado adentrou o café naquela tarde, sorrindo largamente um para o outro. O homem olhava para a mulher como se ela fosse a mais linda do mundo, quase que encantador, até mesmo para quem os conhecia.  

Era quarta-feira, outubro, às 15h48m. Raquel já ocupava seu lugar no balcão, junto ao chá e um pedaço de torta de damasco. Seus olhos fixos nas páginas do mesmo livro, a roubava por completo da realidade em que se encontrava, e ela se permitia aqueles segundos de paz.  

O som de algo quebrando a despertou e inevitavelmente seus olhos varreram o estabelecimento, deixando que caíssem sobre a porta, sobre o casal. Seus dedos se fecharam em volta do copo que segurava e a respiração falhou por completo.  

-Vai acabar quebrando o copo desse jeito. -Intrometido e sem medo algum da possível patada que iria receber, Sérgio, se dirigiu a ela.  

Mas a patada não veio, seus olhos permaneciam fixos no casal que havia adentrado o café a pouco tempo. O liquido começou aos poucos vazar do copo que segurava e sujar-lhe as mãos. Raquel se assustou com a bebida quente tocando em suas mãos e a puxando de volta para a realidade.  

Uma realidade quase que sufocante.  

Recolhendo o que sobrava de sua dignidade e deixando o copo de chá para trás, a loira se levantou, mirou uma última vez o casal, e seguiu em direção a livraria, se jogando em um dos sofás. Não daria a eles o gosto de se quer imaginar que a estavam incomodando, mesmo que soubessem que estavam. Ir embora, infelizmente, lhe parecia impossível no momento e tudo que rezava era por minutos de silencio com seu martírio interior.  

Mas o momento não durou muito. Sérgio surgiu a seu lado minutos depois que havia sentado ali. Seus olhos caíram sobre ele por mais de 5 segundos, pela primeira vez desde que ele havia trocado seu pneu, e o rosto se franziu em desentendimento, o que ele queria ali?  

De todos os dias que haviam se cruzado e os muitos “Boa tarde” que ela havia ignorado, aquele era sem dúvidas a pior quarta-feira que ele poderia escolher para se aproximar dela. 

Seus dedos voaram para um livro qualquer do qual nem vira o título, e entre fingir ler o exemplar e olhá-la, notou que concentração não era algo que se fazia presente, e volta e meia a pegava fitando uma direção específica do café.  

-O que faz aqui? -Perguntou pela primeira vez se dirigindo a ele.  

-Hm, lendo?! -O sorriso debochado aos poucos surgia em sua face à fazendo revirar os olhos. -Você não me parece muito concentrada.... -Comentou vagamente.  

-Não é um bom dia. -Deu de ombros e ele riu daquela resposta tão ruim que também costumava oferecer as pessoas. Seus olhos se encontraram e pela primeira vez Raquel notou a profundidade dos castanhos que ele carregava, e inevitavelmente a beleza que possuía. -Eu preciso ir, boa leitura. -O olhar se quebrou e a loira se colocou de pé partindo depressa em direção a saída.  

-Raquel! -Seu corpo todo estremeceu e a respiração falhou ao sentir aquela voz invadir seus ouvidos junto as mãos que tocaram em seu braço a impedindo de sair.  

-Alberto... -Sussurrou desconcertada. -Desculpe, preciso ir, estou atrasada. -Se livrou de seu toque.  

-Como sempre. -Ela apenas concordou com a cabeça, e saiu como um furacão porta a fora. Não podia lidar com ele por mais do que segundos.  

A porta do carro bateu com força e pela primeira vez respirou desde que trocaram aquelas duas palavras. Então ele tinha alguém... riu sem humor algum se lembrando de todas as vezes que tentaram lhe avisar ao tocar no nome dele, e ela os ignorou completamente. Mas era obvio que depois de anos sem se verem ele estaria com alguém.  

Só ela havia parado de viver.  

Suas mãos se fecharam contra o volante e respirou fundo repetidas vezes deixando que o ar invadisse seus pulmões, se recusando a deixar qualquer lagrima cair por ele mais uma vez. Ninguém além de si mesma merecia suas lagrimas.  

Sérgio permanecia sentado no mesmo lugar, observando a cena de longe, que por mais rápido que houvesse sido, não havia passado despercebida por ele que era um bom observador. Aquele homem a incomodava, todos os poros do corpo dela denunciavam isso, ou ele era um bom leitor de linguagem corporal, aquilo não fazia de fato diferença, a questão em si era; o porquê, mais um dos muitos mistérios que não sabia sobre ela.  

Seus olhos caíram sobre os livros, que no calor do momento, a loira havia esquecido e sorriu. Talvez o universo estivesse conspirando a seu favor.  

-Silene eu preciso de uma informação importante. -A moça o olhou de forma engraçada, sem entender a agitação que claramente o tomava, visto que o tique em arrumar os óculos se fazia presente de forma acentuada.  

-Diga...  

-Quem era aquele homem, e por que Raquel ficou tão perturbada em esbarrar com ele? -Silene se remexeu desconfortável e inevitavelmente mudou de assunto.  

-Você não deveria estar trabalhando? -O viu revirar os olhos e suspirou. -Por favor não me meta nessa história, Sérgio.  

-Silene... 

-É o crápula, filho de uma puta, desgraçado do ex-marido dela. -Ambos arregalaram os olhos quando ouviram a voz da ruiva surgir em meio a conversa. -E por mais que eu achei encantador você descer aqui todos os dias as 15h45m e esperar por ela, não vou lhe dizer que será fácil. Porque não será. -Ela sorria de lado tentando passar para ele o máximo de confiança que podia. - É um longo caminho de pedras, Sérgio... só o enfrente se estiver disposto a isso.  

-Eu não... 

-Calma, eu não vou me opor, mas vou ser clara sobre a situação. -Seus dedos tocaram as mãos dele sobre o balcão. -Ela não é mulher para você, e isso não lhe é uma ofensa, acredite. Raquel era o mais lindo dos cristais, mas algumas circunstâncias colocaram rochas ao seu redor. -Respirou fundo. -Demoli-las não será uma tarefa fácil.  

-Alicia.. -Tentou se explicar.  

-É só um aviso, porque eu realmente acredito que você tem um ar de vida, e é disso que a minha menina precisa. E já fazia um tempo que eu queria lhe dizer isso. -Sérgio continuava estático e sem falas. -Talvez o ex-marido dela seja o menor de seus empecilhos.  -E partiu sem mais observações, ou se quer o permitindo se justificar. Deixando Sérgio e Silene pasmos.  

-Se a superprotetora da sua loira abençoou esta loucura, quem sou eu para torcer contra?  


Notas Finais


E eeeeentão? Me critiquem, deem sugestões, amor... me chamem para uma cerveja hahaha
Me deixem saber o que vocês estão achando ♥


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