História Nunca brinque com magia! - Capítulo 23


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Categorias O Senhor dos Anéis (The Lord of the Rings)
Personagens Frodo Bolseiro, Gandalf, Gimli, Legolas, Personagens Originais, Samwise Gamgee
Tags O Senhor Dos Aneis, Romance
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Palavras 7.417
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 16 ANOS
Gêneros: Magia, Violência
Avisos: Insinuação de sexo, Nudez, Violência
Aviso legal
Alguns dos personagens encontrados nesta história e/ou universo não me pertencem, mas são de propriedade intelectual de seus respectivos autores. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos criada de fã e para fã sem comprometer a obra original.

Notas do Autor


Obrigada a todos que comentaram...
Mesmo dodoí eu consegui terminar esse cap, armaria!

Capítulo 23 - Viagem Pelo Rio!


Fanfic / Fanfiction Nunca brinque com magia! - Capítulo 23 - Viagem Pelo Rio!

Enfim nós voltamos nossa atenção para a viagem. O sol estava à nossa frente e ofuscava nossos olhos cheios de lágrimas. Gimli chorou abertamente em seu adeus.

-Olhei pela última vez para aquela que era a mais bela. -disse ele a Legolas, esquecendo completamente de mim atrás de si. - Daqui para frente, não chamarei nada de belo, a não ser o presente que ela me deu. -colocou a mão no peito. -Diga-me, Legolas, por que vim nesta Demanda?". Mal sabia onde o maior perigo estava. Elrond estava certo quando disse que não podíamos prever o que poderíamos encontrar em nosso caminho. O tormento no escuro era o perigo que eu temia, e esse perigo não me demoveu. Mas eu não teria vindo, se soubesse do perigo da luz e da alegria. Agora, com esta despedida, sofri meu maior ferimento, e não poderia haver pior nem mesmo que eu tivesse de ir nesta noite, diretamente ao encontro do Senhor do Escuro. Pobre Gimli, filho de Glóin!

-Não. -disse Legolas. -Pobres todos nós! E todos os que caminham pelo mundo nestes últimos tempos. Pois assim são os modos deste mundo: encontrar e perder, como parece àqueles cujo barco está na correnteza veloz. Mas considero você um abençoado, Gimli, filho de Glóin: pois sua perda você sofre de livre e espontânea vontade, e poderia ter escolhido outro caminho. Mas não abandonou seus companheiros, e a menor recompensa que poderá ter é que a memória de Lothlórien permanecera sempre viva e imaculada em seu coração, e não vai se apagar nem envelhecer.

-Talvez. -disse Gimli. -E agradeço por suas palavras. Palavras verdadeiras, sem dúvida, apesar disso, todo esse consolo é frio. A lembrança não é o que deseja o coração. É apenas um espelho, mesmo que seja cristalino como Kheled-zâram. Pelo menos, é isso que sente o coração de Gimli, o anão. Os elfos podem enxergar as coisas de outra forma. Na verdade, ouvi dizer que para eles a memória e mais semelhante à realidade do que ao sonho. Não é assim para os anões. Mas deixemos de falar disso. Olhe para o barco! Está muito afundado na água com toda esta bagagem, e o Grande Rio é veloz. Não quero afogar minha tristeza em água fria. -pegou um remo, e dirigiu o barco para a margem Oeste, seguindo o de Aragorn que ia à frente, e que já tinha saído do meio da correnteza.

Eu nada falei, apesar de ter muito a dizer. Olhei para o elfo a minha frente que parecia preocupado, e para o anão a seu lado triste. Não seria minhas palavras que mudaria as tempestades de seus corações, assim tudo que eu podia fazer era sentar-me quieta e deixa-los livres em seus pensamentos e dores.

A brisa se aquietou e o Rio corria sem qualquer ruído. Nenhuma voz de pássaro quebrava o silêncio. O sol se cobria de névoa à medida que o dia ficava velho, até brilhar no céu claro como uma pérola branca e nobre. Depois se apagou no Oeste, e o crepúsculo chegou cedo, seguido por uma noite cinzenta e sem estrelas. Para dentro das horas escuras e silenciosas nós continuamos navegando, guiando nossos barcos pelas sombras das florestas do Oeste. Grandes árvores passavam como fantasmas, lançando suas raízes retorcidas e famintas através da névoa para dentro da água. A região era desolada e fria. Eu ouvia o som apagado e borbulhante do Rio que ondulava por entre as raízes das árvores e os troncos soltos perto da margem, e foi assim que caí num sono agitado.

Fui acordada por Sam, que por sua vez tentava acordar Frodo . Descobri que estava deitada, bem agasalhada, sob altas árvores de casca cinzenta num canto silencioso da floresta, na margem Oeste do Grande Rio Anduin. Tinha dormido o que me parecia ser por toda a noite pois a manhã cinzenta estava escura por entre os galhos nus.

Gimli se ocupava em fazer uma fogueira ali perto, e Legolas o ajudava, mas pareceu pressentir meu olhar, pois se virou para mim e sorriu.

Não demoramos ali, partimos de novo antes que o dia se abrisse. Não que a maioria dos membros de nossa Comitiva estivesse ansiosa por correr em direção ao Sul: estávamos satisfeitos porque a decisão, que deveria ser tomada o mais tardar quando chegássemos a Rauros e à Ilha Rocha do Espigão, pôde ser postergada por mais alguns dias. E assim deixamos que o Rio nos conduzisse em seu próprio passo, pois não queríamos correr em direção aos perigos que nos esperavam, qualquer que fosse o caminho que decidíssemos tomar no final.

 Aragorn nos permitiu que acompanhar a correnteza como desejávamos, poupando as nossas forças para o cansaço que viria. Mas insistiu que pelo menos partíssemos cedo a cada dia, e que viajássemos até o anoitecer, pois sentia em seu coração que o tempo urgia e temia que o Senhor do Escuro não tivesse ficado parado enquanto havíamos permanecido em Lórien.

Apesar disso, não se viu qualquer sinal de inimigos naquele dia, nem no dia seguinte. As horas enfadonhas e cinzentas se arrastavam sem qualquer surpresa. Quando o terceiro dia de jornada terminava, a região começou lentamente a mudar: as árvores rarearam e desapareceram por completo. Na margem Leste à esquerda, vimos encostas compridas e informes erguendo-se em direção ao céu, tinham uma aparência escura e seca, como se o fogo as tivesse varrido, não deixando qualquer folha verde: um deserto hostil sem nem uma árvore quebrada ou rocha escarpada que aliviasse o vazio. Naquele dia tínhamos atingido as Terras Castanhas que ficavam, vastas e desoladas, entre o Sul da Floresta das Trevas e as colinas de Emym Muil . Nem mesmo Aragorn sabia dizer que pestilência ou guerra, ou que feito maléfico do Inimigo tinha desolado toda a região daquela maneira.

Eu coloquei a mão no peito.

-Sinto a dor dessas terras. Como se o próprio chão amaldiçoasse aqueles que destruíram sua floresta. Posso jurar ouvi o choro de animais que perderam suas crias, e daqueles que morreram. E o cheiro de sangue, invade minhas narinas. -murmurei, e apenas o anão e o elfo que dividiam o barco comigo ouviram minhas palavras. 

-Também posso ouvir os lamentos. -disse o elfo em dor, e eu fui até ele, sentando entre suas pernas, procurando conforto ao encostar minha cabeça em seu peito.

Legolas cheirou o topo de minha cabeça com carinho e eu segurei forte em seu joelho, e ele continuou a remar, agora com um pouco mais de força, procurando nos tirar dali o mais rápido possível.

Do lado Oeste, à direita de nós, a região também não tinha árvores, mas era plana, e em vários pontos coberta com amplos trechos de capim verde.

Nos dois dias seguintes, enquanto avançávamos, sempre para o Sul, uma sensação de insegurança cresceu em toda a Comitiva. Durante um dia inteiro, pegamos os remos e avançamos mais depressa. As margens passavam deslizando. Logo o Rio se alargou e ficou mais raso, praias compridas e pedregosas se deitavam ao Leste, e havia bancos de areia e cascalho na água, de modo que era preciso conduzir os barcos com cuidado. As Terras Castanhas surgiam em descampados desertos, sobre os quais soprava um ar frio do Leste. Do outro lado, os prados tinham-se transformado em ladeiras de grama ressequida em meio a uma região de brejos e moitas de capim. Pouco se falava e ninguém ria nos barcos. Cada um de nós estava ocupado com seus próprios pensamentos. E isso estava me deixando ansiosa demais, então resolvi que precisava fazer algo para passar o tempo.

Procurei em uma das bolsas por linha, e enquanto catucava as coisas ali acabei chamando a atenção dos outros.

-O que procura Aura? -perguntou Aragorn no barco da frente. -Pode ser que não esteja em seu barco, mas em um dos nossos.

-Linha.

-Linha? -ele perguntou sem entender, e Boromir bufou impaciente.

-Não me diga que pretende pescar? -comentou jocoso Pippin.

-Vou sim. -ele olhou para Merry e ambos começaram a rir, e eu os olhei sem entender.

-Aura, não dá para se pescar nesse rio. -Legolas falou compadecido.

-E por quê não? -perguntei sem entender.

-O rio é fundo e nem anzol ou vara você tem. -Boromir quase cuspia as palavras fazendo Legolas o olhar feio.

-Oras é melhor tentar do que nada. Não estou fazendo nada útil mesmo. -dei de ombros, e quando achei uma linha élfica fiquei feliz, e  procurei algo que me servisse de anzol.

Procurei qualquer coisa que me servisse, mas foi Gimli que me deu um pedaço fino de sua cota de malha de ferro, que este mesmo entortou para mim, tornado-o em um pequeno anzol. 

-Só posso lhe ajudar com isso, já que não tenho nenhuma madeira comigo. -disse o pobre Anão e eu fui até ele o abraçando feliz, fazendo o barco balançar.

-Não precisa, você já me ajudou muito. -amarrei a linha no anzol improvisado e coloquei um pequeno pedaço de carne seca que havia ali. Vi que Boromir e a dizer algo, mas parou ao olhar de Legolas e Aragorn.

Me levantei um pouco, e girei a linha no ar, a jogando o mais longe que consegui, e assim seguimos, com a linha sendo arrastada. No inicio todos ficaram olhando, como se esperassem que algo fosse acontecer, mas logo perderam o interesse. E até Sam dormiu olhando para a linha sendo arrastada pelo rio.

Fiquei muito tempo ali, e podia ouvir Boromir fazer uma piadinha ou outra, mas nem lhe dei ouvidos. 

Senti uma presença ao longe, e ao olhar para o barco de Aragorn que vinha atrás, pude ver aqueles olhos luminosos em cima de um troco que boiava, e Sam levantou-se agitado como se tivesse se assustado, ou acordado de um sonho ruim. Eu iria falar algo, quando a linha em minha mão começou a ser puxada bruscamente, e com um sobressalto eu a segurei e a puxei de volta com força.

-Legolas. -eu chamei agitada e esse veio até mim mas rápido do que eu poderia imaginar, jogando os remos dentro do barco. -Preciso de ajuda com isso. 

Ele não disse nada, mas tinha um leve sorriso nos lábios quando pegou a linha de minhas mãos e começou à puxa-la. E não demorou muito para que um grande peixe fosse trazido para nosso barco.

-Isso sim que é pescaria. -riu Gimli.

-Você conseguiu Aura! -exclamou Merry exasperado. 

-Hoje meus amigos, teremos um belo peixe assado para o jantar. E que comamos alegre, mas com nossas línguas bem presas dentro da boca, pois que está seja a ultima vez que duvidamos de você Aura. -disse Aragorn alegre.

-Ora eu só dei sorte. -falei animada catucando o peixe que se debatia. -Algo assustou-os nessa direção. -expliquei.

-Sorte ou não, não teríamos um jantar tão bom se você não tivesse tentando pescar. -Legolas me abraçou de  lado e beijou o topo de minha cabeça. 

Depois disso, resolvemos parar numa margem próxima para jantar e descansar.

Aragorn foi preparar o peixe junto com Sam e suas ervas, enquanto Gimli e Legolas foram preparar a fogueira. Pippin e Merry ajudavam Boromir a descarregar as coisas.

-Posso me sentar com você? -me aproximei de Frodo que estava na margem do rio.

-Claro. -ele não me olhou.

-Parece que faz um eternidade que não conversamos. -disse. 

-É parece mesmo. -ele riu amargo.

-Eu fiz algo que lhe desagradou meu amigo? -ele me olhou profundamente.

-Por que diz isso? -ele me perguntou.

-Por que parece que tem me evitado ultimamente. -expliquei. -Na verdade, desde que perdemos Gandalf que está distante, não só de mim na verdade. Mas se você quer apenas ficar só vou respeitar seu espaço meu bom Frodo, mas pegue isso e passe em seu pescoço, sei que o peso do anel está ficando maior e já lhe machuca.

Eu havia feito uma pasta com ervas que tinha guardado. Não daria para muito, mas pelo menos ajudaria por um tempo, até eu encontrar mais.

-Obrigado Aura. -ele me olhou pela primeira vez, e me deu o que parecia ser a sombra de um sorriso.

-Frodo, não importa o que aconteça, eu seguirei você. 

-Mesmo que tenha de deixar Legolas? -ele pareceu se arrepender de suas palavras, e eu fui até ele, colocando a mão em seu ombro.

-Eu vim até aqui por você, pare te ajudar com esse fardo. -ele me olhou e eu sorri. -E nada vai me fazer mudar de ideia. 

-Mas o anel...

-O poder do anel me esconde do olhar dele lembra. Enquanto eu estiver com você, eu também estarei segura. -ele nada disse, mas afirmou.

Logo o cheiro de peixe cozido nos atraiu, e fomos até a fogueira, onde o calor espantava o frio e alegrava nossos corações. Sam fez uma sopa de peixe, fazendo com que este enchesse a barriga de todos e ainda sobrasse um pouco para o próximo dia. Todos pareciam mais alegres com as barrigas cheias e quentes, e naquela noite dormimos mais felizes.

Eu acordei assustada e num impulso puxei o arco ao meu lado, e pegando uma flecha atirei no escuro onde tinha ouvido um barulho. 

Ouviu um outro chiado e o som de algo caindo na água, e a coisa escura com formato de tronco se distanciou correnteza abaixo, entrando na escuridão da noite. Aragorn se mexeu dormindo, virou-se e se sentou me olhando, e só então notei que Frodo estava acordado, segurando Ferroada.

-Aura? -Legolas sussurrou ao meu lado preocupado.

-O que foi? -sussurrou também Aragorn, levantando-se e vindo até Frodo. -Senti algo enquanto dormia. Por que pegou sua espada Frodo, e porque atirou no barco Aura?

-Gollum. -respondeu Frodo. -Ou, pelo menos, imagino que seja ele.

-Ah! -disse Aragorn. -Então vocês sabem de nosso pequeno salteador? Ele nos seguiu em todo o percurso através de Moria e descendo o Nimrodel. Desde que pegamos os barcos, ele tem estado em cima de um tronco, remando com suas mãos e pés. Tentei pegá-lo uma ou duas vezes durante a noite, mas ele é mais astuto que uma raposa, e escorregadio como um peixe. Tinha esperanças de que a viagem pelo rio o fizesse desistir, mas ele é um nadador muito esperto.

-Eu não imaginei que a criatura chegaria tão próxima a nós. -Legolas me olhou preocupado. -Peço desculpas por não a ter protegido melhor. -ele parecia angustiado.

-Não há o que se desculpar. -eu toquei sua face o fazendo me olhar. -Sei que daria sua vida por mim se fosse preciso, mas entenda, que que faria o mesmo por você. Pois nenhum amor é maior que o outro, assim como nenhum vida é mais valiosa. -ele abaixou sua cabeça encostando nossas testas.

-Melinyel. -(eu amo você), meu rosto esquentou na mesma hora. -Mas ainda por ser tão sábia. -eu sorri, e o beijei de leve.

-Tentaremos ir mais rápido amanhã. Agora deitem-se e eu faço a guarda durante o restante da noite. Gostaria de poder pôr as mãos no maldito. Poderíamos fazer com que fosse útil. Mas se eu não conseguir, devemos tentar fazer com que se perca. É muito perigoso. Além da possibilidade de assassinar alguém durante a noite por sua própria conta, ele pode colocar qualquer inimigo que estiver por perto no nosso rastro. -disseAragorn.

A noite se passou, e Gollum não se manifestou outra vez. Depois disso mantivemos uma estrita vigilância, mas não vimos mais Gollum enquanto durou a viagem.

No dia seguinte seguimos viagem, e o terreno dos dois lados começou a mudar rapidamente. As margens começaram a se erguer ficando pedregosas. Logo estávamos atravessando uma região de colinas rochosas, e dos dois lados podíamos ver encostas íngremes enterradas em matagais de espinhos e abrunheiros, emaranhados com sarças e trepadeiras. Atrás  se erguiam penhascos baixos que se desagregavam e protuberâncias de rocha cinzenta, cobertos de hera escura, e além destes se erguiam, por sua vez, cordilheiras altas coroadas de pinheiros retorcidos pela ação do vento. Estávamos nos aproximando das colinas cinzentas de Eniyn Muil, a fronteira Sul das Terras Ermas.

E assim os dias foram se passando, até que chegou a oitava noite daquela jornada. Era silenciosa e parada: o vento soturno do Leste tinha parado. A diáfana lua crescente tinha caído cedo no poente, mas o céu no alto estava claro, e embora longe ao Sul houvesse grandes cadeias de nuvens que ainda brilhavam pálidas, no Oeste as estrelas cintilavam claras.

-Venham! -disse Aragorn. -Vamos arriscar uma jornada noturna. Estamos chegando a um trecho do Rio que não conheço bem, pois nunca viajei pela água nestas partes antes, não entre este ponto e as corredeiras de Sarn Gebir. Mas, se meus cálculos estiverem certos, as corredeiras ainda estão muitas milhas adiante. Mesmo assim, encontraremos lugares perigosos antes até de chegarmos lá: rochas e ilhotas de pedra na correnteza. Devemos manter uma vigilância rigorosa e evitar remar rapidamente.

Toquei o braço de Legolas antes de entrarmos no barco, e ele se virou para me olhar.

-Estou com um pressentimento estranho. -ele olhou nosso redor receoso, e veio até mim.

-Devemos falar com os outros? -perguntou preocupado.

-Não, pode ser só apreensão minha. -tentei sorrir, e me dirigi ao barco o deixando ali.

Ficou ao encargo de Sam, no barco da frente, a função de vigia. Ele se deitou com a cabeça para frente, espiando na escuridão. A noite ficou escura, mas as estrelas acima estavam estranhamente claras, e a superfície do Rio reluzia. Era quase meia-noite, e nós já estávamos navegando havia algum tempo, quase sem usar os remos, quando de repente Sam soltou um berro. Apenas a alguns metros adiante, formas escuras assomaram na correnteza e ele escutou a água veloz num turbilhão. Havia uma corredeira que levava para a esquerda, em direção à margem Leste, onde o canal estava desobstruído. Enquanto eramos arrastados para o lado, os  pudemos ver, agora muito próxima, a espuma clara do Rio batendo contra os rochedos pontudos que saíam das águas como uma fileira de dentes. Os barcos estavam todos amontoados.

-Ei, Aragorn! -gritou Boromir, quando seu barco bateu no da frente. -Isto é loucura! Não podemos desafiar as Corredeiras à noite! Mas nenhum barco pode sobreviver nas Sarn Gebir, seja de noite seja de dia.

-Para trás! Para trás! -gritou Aragorn. -Vire! Vire se conseguir. -mergulhou o remo na água, tentando deter o barco e fazê-lo voltar. -Meus cálculos estavam errados. -ouvi Aragorn dizer a Frodo. -Não sabia que tínhamos chegado tão longe: o Andum corre mais rápido do que eu pensava.

Com grande esforço, detiveram os barcos e os viraram, mas no início só conseguiram avançar muito lentamente contra a correnteza, e todo o tempo eramos trazidos para mais e mais perto da margem Leste, que agora assomava escura e agourenta na noite.

-Todos juntos, remem! -gritou Boromir. -Remem! Ou seremos levados para os bancos de areia. -enquanto ouvia isso, eu senti o barco onde estava raspar numa pedra.

Nesse momento, ouviu-se o zunido de cordas de arcos: muitas flechas assobiaram sobre nossas cabeças, e algumas caíram em nosso meio. Uma atingiu Frodo entre os ombros e ele cambaleou para frente com um grito, deixando cair seu remo: mas a flecha caiu para trás, repelida pelo seu colete oculto de malha metálica. Mas eu não tive tanta sorte, pois uma atingiu meu braço esquerdo ficando ali, e me fazendo cair para trás gemendo de dor. Uma outra passou através do capuz de Aragorn, e uma terceira ficou espetada na borda do segundo barco, perto da mão de Merry. Sam julgava poder divisar figuras negras correndo de um lado para o outro sobre os longos montes de pedra que jaziam sobre a praia Leste. Pareciam estar muito perto.

-Yrch! -gritou Legolas, falando em sua própria língua, num lapso.

Ele me olhou preocupado, mas ambos sabíamos que ele não podia largar os remos, ou estaríamos perdidos.

-Orcs! -gritou Gimli atrás de mim.

-Coisa do Gollum, com certeza. -disse Frodo raivoso. -E também escolheram um bom lugar.

O Rio parece decidido a nos levar direto para os braços deles! Todos se inclinaram para frente, colocando mais força nos remos: até Sam deu uma ajuda. A cada momento esperávamos sentir a mordida das flechas com penas pretas. Muitas zuniam acima de nossas cabeças ou caíam na água ali perto, mas ninguém mais foi atingido. Estava escuro, mas não escuro demais para os olhos noturnos dos orcs, e sob o brilho das estrelas nós provavelmente oferecíamos um alvo fácil aos astutos inimigos, se a cor cinzenta das capas de Lórien e da madeira dos barcos não derrotasse a malícia dos arqueiros de Mordor.

Continuamos lutando, remada após remada, e por mais que eu quisesse ajudar o ferimento doida, então me encostando na lateral do barco, e olhei para a flecha em meu braço, sem coragem de arrancá-la dali.

 Na escuridão, era difícil ter certeza de que estávamos realmente nos movendo, mas devagar a força da água em rodamoinho foi amainando, e a sombra da margem se apagou dentro da escuridão.

Finalmente, pelo que podíamos julgar, estávamos no meio do Rio outra vez, e havíamos recuado os barcos afastando nos bastante das rochas salientes. Então, eles viraram os barcos para o Oeste e os conduziram com toda sua força para a margem. Sob a sombra de arbustos curvados sobre a água, pararam para tomar fôlego.

Legolas soltou seu remo e pegou o arco que havia trazido de Lórien. Então pulou para a praia e subiu alguns passos na margem. Puxando a corda e encaixando nela uma flecha, ele se voltou, espiando por sobre o Rio na escuridão. 

-Aragorn cuide de Aura. -o elfo pediu, enquanto não tirava os olhos dos inimigos na outra margem.

Do outro lado ouvíamos gritos agudos, mas não se podia ver nada.

Eu virei meus olhos admirada para o elfo que se erguia imponente acima de mim, observando a noite e procurando um alvo em que pudesse mirar. 

As cabeças escuras de nossos inimigos estavam coroadas pelas estrelas brancas que reluziam contra os lagos escuros do céu. Mas agora, levantando-se e navegando do Sul, as nuvens avançavam enviando batedores escuros para os campos estrelados. Um terror repentino dominou a todos.

Aragorn e Gimli me ajudaram a sair rapidamente do barco, mas antes que eu pudesse caminhar eu cai de joelhos sentindo um terror profundo.

-Algo se aproxima. -murmurei e Legolas suspirou ao erguer os olhos. No momento em que eu falava, uma forma escura, como uma nuvem mas que não era uma nuvem, pois movia-se muito mais rápido, surgiu do negrume do Sul, correndo em direção à nós, vedando toda a luz conforme se aproximava. Logo se definiu como uma grande criatura alada, mais negra que os abismos da noite. Vozes selvagens se ergueram para saudá-la, do outro lado do Rio. Frodo pareceu sentir um calafrio repentino percorrendo seu corpo e como eu caiu apertando seu coração.

De repente, o grande arco de Lórien cantou. A flecha, impulsionada pela corda, zuniu no ar. Eu com muito esforço olhei para cima. Quase em cima de mim, a forma alada guinou. Ouvimos um grasnado alto e rouco, no momento em que a criatura caiu, desaparecendo dentro da escuridão da praia Leste.

O céu estava limpo outra vez. Na escuridão, podia-se distinguir um tumulto de muitas vozes distantes, praguejando e lamentando, e então silêncio. Depois disso nenhuma lança ou grito veio do Leste naquela noite.

Passado algum tempo, entramos novamente nos barcos e Aragorn conduziu-nos novo correnteza acima.

Fomos tateando o caminho ao longo da margem por uma certa distância, até que encontramos uma baía pequena e rasa. Algumas árvores baixas cresciam ali, perto da água, e atrás delas subia uma margem rochosa e íngreme. Ali decidimos parar e esperar a chegada da aurora: seria inútil tentar prosseguir à noite.

Aragorn veio até o nosso barcos.

-Sinto muito tê-la feito sofrer por tanto tempo Aura. 

-Tudo bem, não está doendo tanto. -sorri corajosa.

Legolas veio para trás de mim e se sentou. Sentei entre suas pernas e Aragorn se agachou a minha frente pegando com leveza meu braço.

-Vai doer um pouco, mas você não pode gritar certo. -fiz que sim, e lágrimas manhosas já subiam em meus olhos. --Bom, está pronta? -fiz que sim e ele puxou a flecha de meu braço, enquanto Legolas me abraçava e sussurrava palavras gentis em meu ouvido.

Por sorte não estava fundo, mas ainda sim eu chorei um pouco de dor, mas não ousei fazer nenhum barulho. Ele colocou um remédio e fez um curativo da melhor forma que pode.

Não fizemos acampamento, nem acendemos o fogo, mas ficamos deitados e encolhidos nos barcos, que estavam ancorados uns perto dos outros.

Legolas estava abraçado comigo, me protegendo do frio, e Gimli ao seu lado conversava com este.

-Louvados sejam o arco de Galadriel e a mão e o olho de Legolas. -disse Gimli, enquanto mastigava um pedaço de lembas. -Aquele foi um belo tiro no escuro, meu amigo!

-Mas quem poderia dizer o que o tiro atingiu? -falou Legolas.

-Eu não. -disse Gimli. -Mas fico feliz em pensar que a sombra não se aproximou mais. Não gostei dela nem um pouco. Pareceu-me semelhante demais à sombra em Moria. -a sombra do balrog. -finalizou ele, num sussurro.

-A força maligna era diferente de um balrog. -disse tentando entender o que sentira.

-Não era um balrog. -disse Frodo, ainda tremendo pelo frio que o assaltara. -Era algo mais gelado. Acho que era... -parou neste ponto, e ficou em silêncio.

-Acha o quê? -perguntou Boromir ansioso, inclinando-se em seu barco, como se tentasse olhar o rosto de Frodo.

-Eu acho... Não, não vou dizer. O que quer que fosse, sua queda enfraqueceu nossos inimigos.

-É o que parece. -disse Aragorn. -Apesar disso, não sabemos onde estão, quantos são, e qual será seu próximo passo. Nenhum de nós deve dormir esta noite! A escuridão está nos escondendo agora. Mas quem pode dizer o que o dia revelará? Mantenham suas armas ao alcance das mãos!

Após essa conversa a noite passou em silêncio. Nenhuma voz ou chamado foram ouvidos outra vez do outro lado do Rio. E nós encolhidos em nossos barcos, sentíamos a mudança de clima.

O ar ficou quente e parado sob as grandes nuvens úmidas que flutuavam no céu, vindas do Sul e dos mares distantes.

O fluxo da água sobre as pedras na correnteza pareceu ficar mais ruidoso e próximo. Os galhos das árvores começaram a pingar.

Ao romper do dia, o mundo em volta de nós tinha ficado suave e triste.

Lentamente, a aurora deu lugar a uma luz clara, difusa e sem sombras. Uma névoa cobria o rio, e não se podia enxergar a outra margem.

-Não suporto nevoeiros. -disse Sam. -Mas este parece nos trazer sorte. Agora talvez possamos sair daqui sem que aqueles orcs desgraçados nos vejam.

-Talvez sim. -disse Aragorn. -Mas será difícil encontrar a trilha, a não ser que o nevoeiro suba um pouco, mais tarde. E precisamos achar a trilha, se vamos passar as Sarn Gebir e chegar aos Emyn Muil.

-Não vejo por que precisamos passar pelas Corredeiras ou seguir o Rio por mais tempo. -disse Boromir. -Se os Emyn Muil estão à nossa frente, podemos abandonar esses barquinhos, e avançar para o Oeste e para o Sul, até chegarmos ao Entágua, que podemos atravessar chegando assim à minha terra.

-Podemos, se estivermos indo para Minas Tirith. -disse Aragorn. -Mas isso ainda não foi decidido. E um caminho desses pode ser mais perigoso do que parece. O vale do Entágua é plano e pantanoso, e o nevoeiro é um perigo mortal para os que estão a pé e carregando coisas. Eu não abandonaria nossos barcos até que fosse necessário. Pelo menos, o Rio é uma trilha que não se perde.

-Mas o Inimigo se apoderou da margem Leste. -objetou Boromir irredutível. -E mesmo que você passe os Portões dos Argonath e chegue ileso à Rocha do Espigão, que vai fazer depois? Saltar sobre as cachoeiras e pousar nos pântanos?

-Não! -respondeu Aragorn. -Em vez disso, digo que iremos levar nossos barcos pelo caminho antigo até os pés de Rauros, e ali continuar pela água. Você não conhece, Boromir, ou decidiu esquecer a Escada Norte e o alto trono sobre o Amon Hen, que foram feitos nos dias dos grandes Reis? Eu, pelo menos, pretendo subir àquele lugar alto outra vez, antes de decidir meu roteiro futuro. Ali, talvez possamos ver algum sinal que nos guie.

-Não é costume dos homens de Minas Tirith abandonar seus amigos necessitados. -disse ele. -E vocês vão precisar de minha força, se chegarem à Rocha do Espigão. Irei até a alta ilha, mas não além daquele ponto. Ali rumarei para meu lar, sozinho, se minha ajuda não angariar a recompensa de algum companheirismo.

O dia avançava e o nevoeiro tinha subido um pouco. Decidiu-se que Aragorn e Legolas deveriam avançar imediatamente ao longo da margem, enquanto nós permaneceríamos perto dos barcos. Aragorn esperava encontrar algum caminho pelo qual pudéssemos ir, carregando os barcos e a bagagem, até atingir as águas mais calmas além das Corredeiras.

-Os barcos dos elfos não afundam, talvez. -disse ele. -Mas isso não quer dizer que poderíamos atravessar as Sarn Gebir a salvo. Ninguém jamais fez isso. Nenhuma estrada foi feita pelos homens de Gondor nesta região, pois mesmo nos dias gloriosos seu reinado só subia o Anduin até os Emyn Muil. Mas há uma passagem em algum lugar da margem Oeste, e espero poder encontrá-la. Não pode estar destruída, pois barcos leves costumavam viajar saindo das Terras Ermas, descendo até Osgiliath, e ainda faziam isto há alguns anos, quando os orcs de Mordor começaram a se multiplicar.

-Raramente vi em minha vida um barco vindo do Norte, e os orcs espreitam na praia Leste. -disse Boromir. -Se você for em frente, o perigo ficará maior a cada milha, mesmo que consiga encontrar um caminho.

-O perigo nos espera em todas as estradas que conduzem ao Sul. -respondi, e todos me olharam alarmados. 

-Esperem-nos por um dia. Se não voltarmos nesse prazo, saberão que de fato o mal nos atingiu. Então devem escolher outro líder e segui-lo da melhor maneira possível. -pediu Aragorn.

Legolas veio até mim e me beijou o topo de minha cabeça, me olhava preocupado, e ambos sabíamos que ele não queria me deixar ali, mas me levar seria ainda mais perigoso.

-Vá em paz meu coração está leve. -o sorri e este suspirou tranquilo e puxou minhas mãos as beijando de leve antes de sair.

Eu podia sentir que foi com o coração pesado que Frodo viu Aragorn e Legolas subindo a margem íngreme e desaparecendo dentro da névoa, mas seus temores se mostraram infundados. Apenas duas ou três horas tinham-se passado, e mal chegava o meio-dia, quando as figuras sombrias dos exploradores apareceram outra vez.

-Está tudo bem. -disse Aragorn, descendo a margem. -Há uma trilha que leva a um bom porto que ainda é utilizável. A distância não é grande, a cabeceira das Corredeiras está a meia milha abaixo de nós, e elas têm apenas uma milha de comprimento. Não muito além delas a água se torna límpida e calma de novo, embora continue correndo veloz. Nossa tarefa mais difícil será levar os barcos e a bagagem através da antiga passagem. Nós a encontramos, mas ela fica a uma boa distância desta margem, e prossegue protegida por uma parede rochosa, cerca de duzentos metros ou mais da margem. E nós não encontramos o ancoradouro Norte. Se é que a inda existe, devemos ter passado por ele ontem à noite. Podemos ter muito trabalho para remar correnteza acima e mesmo assim não encontrá-lo por causa do nevoeiro. Receio que devamos abandonar o Rio agora, e nos dirigir para essa passagem da melhor forma que conseguirmos.

-Isso não seria fácil, mesmo que todos fôssemos homens. -disse Boromir.

Olhei feio para ele, por tentar nos diminuir.

-Mesmo assim, vamos tentar, sendo todos homens ou não. -disse Aragorn.

-Vamos, sim. -disse Gimli. -As pernas de um homem ficam para trás numa estrada difícil, enquanto um anão continua, mesmo que o peso que carrega seja duas vezes maior que o do seu próprio corpo, mestre Boromir! -sorri animada para Gimli, por calar aquele homem.

A tarefa acabou se revelando realmente difícil, mas no fim foi desempenhada. Os mantimentos e bagagens foram retirados dos barcos e trazidos ao topo da margem, onde havia um espaço plano. Depois os barcos foram arrastados para fora da água e carregados. Eram muito menos pesados do que qualquer um esperara. Nem mesmo Legolas poderia dizer de que árvore cultivada na terra d s elfos eles eram feitos, mas a madeira era resistente e, apesar disso, estranhamente leve.

Merry e Pippin conseguiram, sozinhos, carregar seu barco ao longo da planície. Não obstante, era preciso a força de dois homens para levantar e arrastar os barcos pelo terreno que agora adeveríamos atravessar. O caminho subia, distanciando-se do Rio: uma região deserta, de pedras calcárias cinzentas, com muitos buracos escondidos pelo mato e pelos arbustos. Havia moitas de espinheiros, e pequenos vales abruptos, aqui e ali encontravam-se poças lamacentas alimentadas pelas águas que desciam dos planaltos na região mais interna.

Boromir e Aragorn carregaram os barcos um de cada vez, enquanto os outros iam aos tropeços atrás deles, levando a bagagem. 

Eu carreguei minhas coisas e alguns mantimentos, mesmo sobre os protestos de todos eles. Mas me mostrei irredutível e assim seguimos. Apesar de eu saber que Legolas matinha seus olhos vigilantes sobre mim.

Finalmente tudo foi transportado e colocado na passagem. Então, sem muita dificuldade, a não ser por urzais espalhados e muitas rochas caídas, fomos indo para frente, todos juntos.

O nevoeiro ainda pairava em véus sobre a parede rochosa que se desfazia, e à esquerda a névoa escondia o Rio, nós ouvimos suas águas correndo e espumando sobre os escolhos pontudos e os dentes de pedra das Sarn Gebir, mas não conseguimos vê-lo. Tivemos de fazer duas viagens, antes que tudo fosse trazido a salvo para o ancoradouro Sul.

Nesse ponto a passagem, voltando de novo em direção à beira do Rio, descia suavemente até a borda rasa de um pequeno lago. Parecia ter sido cavado na margem do Rio, não manualmente, mas pela própria água que descia em rodamoinho das Sarn Gebir e batia contra um ancoradouro baixo e rochoso que avançava para dentro da correnteza.

Mais adiante, a praia se transformava abruptamente num penhasco cinzento, e não havia mais passagem para os que fossem a pé.

A tarde curta já passara e um crepúsculo apagado e nublado se formava.

Sentamos perto da água, escutando o rugido rápido e confuso das Corredeiras escondidas na névoa, estávamos cansados e sonolentos, e tínhamos os corações melancólicos como o dia que morria.

-Bem, aqui estamos, e aqui passaremos mais uma noite. -disse Boromir. -Precisamos dormir, e mesmo que Aragorn pretendesse atravessar os Portões dos Argonath à noite, estamos todos cansados demais, exceto, sem dúvida, nosso vigoroso anão.

Gimli não lhe respondeu. Estava caindo no sono ali mesmo, sentado, e eu não estava muito diferente, então não dei atenção as chatices de Boromir.

-Vamos descansar o máximo possível agora. -disse Aragorn. -Amanhã devemos viajar durante o dia outra vez. A não ser que o tempo mude de novo e nos engane, teremos uma boa chance de escapar sem sermos vistos por quaisquer olhos na praia Leste. Mas esta noite dois devem montar guarda juntos, fazendo revezamento: três horas de descanso e uma de plantão.

Dormir assim que encostei minha cabeça no chão, e só acordei quando Legolas se mexeu ao meu lado.

-Durma, você precisa descansar, eu faço a vigia por nós dois. -eu estava tentada a aceitar mas não seria justo com ele então me levantei também.

-Obrigada, mas prefiro ficar acordada com você. -mesmo na escura madrugada eu podia ver a sombra de um sorriso nos lábios dele.

Ele me conduziu mais a frente, longe de todos e ambos nos sentamos lado a lado num tronco ali, onde poderíamos conversar sem incomodar os outros.

-Essa é a primeira vez que conversamos realmente desde que saímos de Lórien. -eu disse rindo baixo.

-Sim, e isso é realmente assombroso, pois vários dias já se passaram e muitas coisas aconteceram. -vi quando ele olhou para meu braço machucado. 

-Sim, mas estamos todos vivos e bem na medida do possível. -encostei minha cabeça em seu ombro. -E isso é algo que devemos agradecer e comemorar.

-Você decidiu que caminho vai seguir não é? -ele pois para fora a dúvida de seu coração.

-Sim, e você também. -eu passei meu braço machucado pelo seu, o abraçando. -Mas nada está certo ainda. Então não vamos falar disso agora, não quando o momento não chegou.

Ele segurou minha mão e a apertou.

-Não importa o que aconteça, eu vou com você. -fiz que não em seu ombro.

-Nossos destinos podem não ser o mesmo até o fim dessa guerra, e permanecer juntos pode fazer com que soframos mais. -me lembrei das palavras de Galadriel. -Mas não importa onde eu for, é você que estará em meu coração, e é para você que eu voltarei.

-Você não sabe disso, não diga palavras que não pode cumprir... -ele parecia magoado, então o soltei e levantei indo me ajoelhar a sua frente, puxando seu rosto macio para mim, e olhando profundamente em seus olhos, pois eu precisava que ele visse o quanto eu estava sendo sincera ali.

-Ma melilyen? (Você me ama?) -o perguntei mesmo sabendo sua resposta. -Antan órenya tyenna! (Eu te dou meu coração!)

-Melinyë! (Eu amo). -ele respondeu, mas parecia sentir uma dor profunda. -Ma meluvalyen tenn'oio? (Você me amará pela eternidade?) -eu via a tristeza em seus olhos, pois entendia o que ele queria dizer com aquilo. Eu não era uma elfa, então para ele a qualquer momento eu amor acabaria, e ele queria está ao meu lado o máximo possível para poder aproveitar cada momento que pudéssemos ter juntos.

Mas eu era diferente, para mim eu podia prometer com toda certeza que o amaria sempre, pois meu coração jamais fraquejaria, disso eu não tinha dúvidas.

-Ná. (Sim). -eu encostei nossos lábios de leve. -Nalyë melmë cuilenya. (Você é o amor da minha vida. -sussurrei entre nossos lábios. -E por isso eu afirmo. Eu voltarei para você, não importa o que aconteça, mesmo que não seja nesse mundo.

Ele me puxou para sim com carinho e me abraçou forte.

-Me desculpe, e obrigada por acalmar meu coração Aura. -ele sussurrou no pé do meu ouvido me arrepiando.

-Eu que me desculpo por ter-lhe deixado sofrer por tanto tempo. 

Aquela horas pareceram passar mais rápido do que gostaríamos, pois antes que nos dessemos conta o dia já amanhecia e nossos amigos despertavam.

Demos um ultimo beijo, e com sorrisos cúmplices nos separamos sentando novamente lado a lado, mas nossas mãos continuavam entrelaçadas.

Assim, logo que estava completamente claro, partimos.

O nevoeiro já ficava menos denso. Mantivermos nos o mais perto possível da margem Oeste, e assim podíamos ver as formas apagadas dos penhascos baixos subindo cada vez mais, paredes sombrias que tinham os pés afundados no rio veloz. No meio da manhã, as nuvens desceram, e começou uma chuva forte. Cobrimos os barcos com peles, para evitar que se alagassem, e continuamos, através daquela cortina cinzenta que caía, quase nada podia-se ver à frente ou em volta.

Entretanto, a chuva não durou muito. Lentamente, o céu foi ficando mais leve e, de repente, as nuvens se desmancharam, e suas franjas soltas rumaram para longe, subindo o Rio para o Norte. O nevoeiro desapareceu. Diante de nós agora abria-se uma garganta larga, com grandes encostas rochosas às quais se agarravam, em saliências e fendas estreitas, algumas árvores retorcidas. O canal ficou mais estreito e o Rio mais rápido. Agora íamos depressa acompanhando a margem, com pouca esperança de parar ou desviar, não importava o que encontrássemos à frente. Sobre nós via-se uma alameda de céu azul-claro, ao redor, o Rio escuro e ensombreado, adiante, negras eram, vedando o sol, as colinas de Emyn Muil, nas quais eu não  via qualquer abertura.

Olhei curiosa para a frente, e vi na distância duas grandes rochas se aproximando, pareciam dois grandes pináculos ou pilares de pedra. Altos, íngremes e agourentos, erguiam-se dos dois lados da correnteza. Uma pequena abertura apareceu entre eles, e o Rio levou nossos barcos naquela direção.

-Olhem os Argonath, os Pilares dos Reis! -gritou Aragorn. -Vamos passar por eles em breve. Mantenham os barcos em fila e o mais separados que puderem. Fiquem no meio da correnteza.

Quando fui levada na direção deles, os grandes pilares assomaram como torres vindo ao meu encontro. Parecia-me dois gigantes, figuras grandes e cinzentas, silenciosas mas ameaçadoras. Então percebi que de fato eram desenhados e moldados. O trabalho e o poder de antigamente tinham trabalhado neles, que ainda conservavam, através do sol e da chuva de anos esquecidos, as formas poderosas da escultura original. Sobre grandes pedestais alicerçados nas águas profundas, erguiam-se dois grandes reis de pedra: ainda, com olhos turvos e cenhos gretados, voltavam-se para o Norte. A mão esquerda de cada um deles estava levantada, com a palma para fora, num gesto de advertência, e cada mão direita empunhava um machado, sobre cada uma das cabeças viam-se um elmo e uma coroa, já se desintegrando.

Guardiões silenciosos de um reino há muito desaparecido, tinham ainda grande força e majestade. Dominado pelo medo e pela admiração, Frodo se encolheu, fechando os olhos e não ousando olhar para cima, enquanto o barco se aproximava. Até Boromir abaixou a cabeça quando os barcos passaram, frágeis e fugazes como pequenas folhas, sob a sombra duradoura dos guardiões de Númenor. Fiz uma pequena reverencia e baixei também minha cabeça.

Assim atravessamos a fenda negra dos Portões.

Os aterrorizantes penhascos se erguiam de ambos os lados a alturas incalculáveis. Lá adiante estava o céu pálido. As águas negras rugiam e reverberavam, e um vento gritava sobre nós. 

Eu pude ouvir Sam, resmungando e gemendo:

-Que lugar! Que lugar horrível! Se me deixarem sair deste barco, nunca mais vou molhar meus pés numa poça outra vez, muito menos num rio!

-Não tenha medo! -disse uma voz estranha a frente, era Passolargo, que ao mesmo tempo não era Passolargo, pois o guardião marcado pelo tempo não estava mais lá. Na popa estava Aragorn, filho de Arathorn, imponente e ereto, guiando o barco com movimentos habilidosos; seu capuz jogado para trás, e os cabelos negros esvoaçando no vento, uma luz em seus olhos: um rei retornando do exílio à sua própria terra.

-Não tema! -disse ele. -Por muito tempo quis contemplar as figuras de Isildur e Anárion, meus antepassados. Sob suas sombras Elessar, a Pedra Élfica, filho de Arathorn da Casa de Valandil, Filho de Isildur, herdeiro de Elendil, nada tem a temer! -então a luz em seus olhos se apagou, e ele falou para si mesmo. -Como queria que Gandalf estivesse aqui! Como meu coração anseia por Minas Anor e pelas muralhas de minha própria cidade! Mas para onde devo ir agora?

A fenda era comprida e escura, e repleta do ruído do vento e da água veloz, e dos ecos nas rochas inclinava-se um pouco na direção do Oeste de modo que, num primeiro momento, tudo adiante estava escuro, mas logo eu vi um espaço de luz à frente, sempre crescendo. Rapidamente se aproximou e de repente nossos barcos foram lançados através dele, saindo para um espaço amplo e claro.

O sol, há bastante tempo distante do meio-dia, brilhava num céu de ventania. As águas confinadas se espalhavam dentro de um lago longo e oval, o claro Nen Hithoel, cercado por colinas cinzentas e íngremes, cujas encostas estavam cobertas de árvores, mas cujas cabeças eram nuas, brilhando frias à luz do sol. Na extremidade Sul estavam três picos.

Nós agora descansaríamos um pouco, flutuando para o Sul na correnteza que atravessava o meio do lago. Comemos um pouco e depois pegamos de novo os remos e nos apressamos em nosso caminho. As encostas das colinas a Oeste caíram na escuridão, e o sol ficou redondo e vermelho. Aqui e ali, uma estrela nebulosa aparecia. Os três picos assomavam diante de nós, escurecendo no crepúsculo. Rauros rugia com uma voz possante. A noite já se deitava sobre as águas velozes quando chegamos finalmente à sombra das colinas.

O décimo dia de viagem chegava ao fim. As Terras Ermas estavam atrás de nós. Agora não podíamos mais avançar sem escolher entre o caminho do Leste e o do Oeste. O último estágio da Demanda estava diante de nós.


Notas Finais


Se tiver algo errado por favor me avisem, não consigo mais corrigir!
Finalmente o próximo será o capitulo mais esperado pela maioria de vocês, alguma ideia do que vai acontecer?


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