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História O Acordo - Adaptação Jenlisa - Capítulo 3


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Capítulo 3 - "Kimie"


Fanfic / Fanfiction O Acordo - Adaptação Jenlisa - Capítulo 3 - "Kimie"

A universidade fica a oito quilômetros da cidade de Hastings, em Massachusetts, que só tem uma rua principal e umas duas dúzias de lojas e restaurantes. O lugar é tão pequeno que é um milagre eu ter conseguido um trabalho de meio período ali, e agradeço a Deus por isso todos os dias, porque a maioria dos alunos é obrigada a dirigir uma hora até Boston se quiser trabalhar durante o ano letivo. Para mim, é uma viagem de dez minutos de ônibus — ou cinco, se for de carro — até o Della’s, a lanchonete em que trabalho como garçonete desde o primeiro ano da faculdade.

Esta noite a sorte está do meu lado: vim de carro. Tenho um combinado com Tracy, uma das meninas no nosso andar. Ela me deixa usar o carro quando não precisa, desde que eu devolva com o tanque cheio. É o acordo perfeito, principalmente no inverno, quando tudo fica coberto de neve, parecendo um rinque de patinação.

Não morro de amores pelo meu trabalho, mas também não odeio o que faço. Paga bem e é perto do campus, não tenho do que reclamar.

Esquece que falei isso… Hoje tenho todo o direito do mundo de reclamar. Porque trinta minutos antes do fim do expediente, vejo Lisa Manoban numa das mesas do meu setor.

Sério?

Ela não desiste nunca?

Não estou com a menor vontade de atendê-la, mas não tenho escolha. Soyeon, a outra garçonete, está ocupada tirando o pedido de um grupo de professores numa mesa do outro lado do salão, e minha chefe, Della, está atrás do balcão azul bebê de fórmica, servindo fatias de torta de nozes para três calouras sentadas nos bancos giratórios à sua frente.

Fecho a cara e caminho até Lisa, deixando minha insatisfação bem evidente ao encarar seus olhos castanhos reluzentes. Ela passa os dedos pelos cabelos escuros e abre um sorriso torto.

“Oi, Jennie. Que prazer encontrar você aqui.”

“Imenso”, murmuro, puxando o bloco de pedidos do bolso do avental. “O que vai querer?”

“Uma professora particular.”

“Desculpa, está em falta.” Sorrio, com gentileza. “Mas a torta de nozes é uma delícia.”

“Sabe o que fiz na noite passada?”, ela pergunta, ignorando meu sarcasmo.

“Sei. Ficou enchendo o meu saco com aquelas mensagens.”

Ela revira os olhos. “Quis dizer antes disso.”

Finjo pensar um pouco. “Hmm… pegou uma líder de torcida? Não, pegou o time feminino de hóquei. Não, espera, vai ver elas não são fúteis o suficiente para você. Vou ficar com a primeira opção… líder de torcida.”

“No caso, uma garota de fraternidade”, responde, convencida. “Só que queria dizer antes disso.” Ela ergue uma das sobrancelhas escuras. “Mas tô muito intrigada com seu interesse na minha vida sexual. Posso dar mais detalhes uma outra hora, se você quiser.”

“Não quero.”

“Outra hora”, repete ela, num tom desdenhoso, juntando as mãos sobre o tecido xadrez azul e branco da toalha de mesa.

Lisa tem os dedos longos, as unhas curtas e as juntas ligeiramente avermelhadas e arranhadas. Me pergunto se andou brigando recentemente, mas logo me dou conta de que deve ser por causa do vôlei.

“Eu tava no grupo de estudos”, me informa ela. “Tinha mais oito pessoas lá, e sabe qual era a nota mais alta?” Ela praticamente cospe a resposta antes que eu possa tentar adivinhar. “Seis. E nossa média combinada era de quatro. Como vou passar na segunda chamada se tô estudando com gente tão burra quanto eu? Preciso de você, Kimie.”

Kimie? Isso foi um apelido? Como ela sabe que meu sobrenome é Kim? Nunca disse… argh! A porcaria da lista de chamada.

Lisa nota meu olhar surpreso e arqueia as sobrancelhas novamente. “Aprendi um monte de coisas sobre você no grupo de estudos. Seu telefone, seu nome completo, até onde você trabalha.”

“Parabéns, você é mesmo uma psicopata.”

“Não, só sou meticulosa. Gosto de conhecer meu adversário.”

“Ai, meu santo! Não vou dar aula para você, entendeu? Vai encher o saco de outro.” E aponto para o cardápio diante dela. “Quer pedir alguma coisa? Porque se não quiser, por favor, vai embora e me deixa trabalhar em paz.”

“Ai, meu santo?” Lisa dá uma risadinha antes de pegar o cardápio laminado e passar os olhos superficialmente. “Vou querer um sanduíche de peru.” Ela baixa o cardápio, mas logo em seguida o levanta novamente. “E um hambúrguer duplo com bacon. Só o hambúrguer, sem batata frita. Quer dizer, mudei de ideia… vou querer batata frita sim. Ah, e onion rings de acompanhamento.”

Meu queixo quase bate no chão. “Vai comer tudo isso?” Minha surpresa maior era por observar seu corpo e saber que não havia nenhuma gordura sobrando. Mas logo me lembrei que ela é uma atleta.

Ela sorri. “Claro. Sou uma menina em fase de crescimento.”

Menina? Tá bom. Só agora me dou conta — provavelmente porque estava distraída demais com o quão insuportável ela consegue ser —, mas Lisa Manoban é uma mulher completa. Não tem nada de menina, nem nas feições esculpidas, na altura ou no corpo bem definido, que, de repente, me volta à memória na imagem da foto que me mandou.

“Também vou querer uma fatia da torta de nozes. E, para beber, um Dr. Pepper. Ah, e umas aulas particulares.”

“Estão em falta”, digo, animada. “Mas o resto é pra já.”

Antes que ela consiga argumentar, me afasto da mesa e vou até o balcão dos fundos para passar o pedido para Julio, o cozinheiro da noite. Um microssegundo depois, Soyeon corre na minha direção e sussurra:

“Ai, meu Deus. Você sabe quem ela é, não sabe?”

“Sei.”

“É Lalisa Manoban.”

“Isso aí”, respondo, secamente. “Por isso que eu disse sei.”

Soyeon parece chocada. “Qual é o seu problema? Por que você não tá tendo um troço? Lisa Manoban tá sentada no seu setor da lanchonete. Ela falou com você.”

“Minha nossa, falou? Quero dizer, os lábios dela se moveram, mas não tinha percebido que estava falando.”

Reviro os olhos e vou até a área de bebidas pegar o refrigerante de Lisa. Não olho na direção dela, mas posso sentir seus olhos castanhos acompanhando cada movimento meu. No mínimo está mandando ordens telepáticas para que eu aceite dar as aulas particulares. Bom, problema dela. De jeito nenhum vou gastar o pouco tempo livre que tenho com uma jogadora de vôlei universitário que se acha uma estrela do rock.

Soyeon vem atrás de mim, alheia ao meu sarcasmo e ainda arrebatada por Lisa. “Ela é maravilhosa. Inacreditavelmente maravilhosa.” Sua voz vira quase um sussurro. “E ouvi dizer que é tudo na cama.”

Solto um riso de desdém. “Talvez ela mesma tenha espalhado a fofoca.”

“Não, foi Kim Dahyun que me falou. Ela ficou com Lisa no ano passado, na festa da casa Theta. Disse que foi o melhor sexo da vida dela.”

Não tenho resposta, porque não estou nem aí para a vida sexual de uma menina que nem conheço. Limito-me a dar de ombros e pegar o refrigerante na geladeira. “Quer saber? Por que você não a atende?”

Pelo modo como Soyeon arfa, é como se eu estivesse oferecendo um cheque de cinco milhões de dólares a ela. “Tem certeza?”

“Claro. É toda sua.”

“Ai, meu Deus.” Minha colega dá um passo à frente como se fosse me abraçar, mas logo em seguida volta o olhar na direção de Lisa e repensa a possibilidade de externar a alegria terrivelmente injustificada. “Fico devendo essa, Jen.”

Minha vontade é dizer que, na verdade, ela está me fazendo um favor, mas Soyeon já disparou na direção da mesa para servir sua princesa. Assisto, divertida, à expressão de Lisa se anuviar à medida que minha colega se aproxima. Lisa pega o copo que ela pousa diante dela, então ergue os olhos para mim e acena de leve com a cabeça.

Como quem diz “Não vai ser tão fácil se livrar de mim”.

LISA

Ela não vai se livrar tão fácil de mim. Está na cara que Jennie Kim não conhece muitos atletas. Somos pessoas obstinadas, e a principal coisa que temos em comum? Nunca, jamais desistimos.

Tenho fé que vou convencer essa menina a me dar aulas, nem que tenha que morrer tentando.

Mas agora que Jennie me passou para a outra garçonete, vai demorar até ter outra oportunidade de advogar a meu favor. Suporto o flerte descarado e o interesse não dissimulado da loira de cabelos curtos que está me servindo, mas, apesar de ser educada com ela, não flerto de volta.

Esta noite só estou interessada em Jennie, e fixo os olhos nela enquanto circula pelo salão. Não duvido nada que resolva fugir enquanto eu não estiver de olho.

Para ser sincera, o uniforme dela é bem sexy. Vestido azul-claro de colarinho branco e botões grandes na frente, e um avental curtinho em volta da cintura. Parece uma roupa saída de Grease, o que faz sentido, já que Della’s é uma lanchonete de temática anos 50. Posso facilmente imaginar Jennie Kim naquela época. O cabelo escuro na altura dos ombros tem um leve ondular, e a franja está presa de lado com uma presilha azul, dando um ar antiquado.

Enquanto a assisto trabalhar, fico imaginando qual será sua história. Perguntei às pessoas do grupo de estudos, mas ninguém sabia muita coisa. Um cara disse que é de uma cidade pequena no Centro-Oeste. Outro, que namorou um membro de uma banda durante todo o segundo ano. Tirando esses dois míseros detalhes, a menina é um mistério completo.

“Mais alguma coisa?”, pergunta minha garçonete, ansiosa.

Ela me olha como se eu fosse uma espécie de celebridade ou sei lá o quê, mas estou acostumada com a atenção. Fato: quando você é capitã de um time de vôlei universitário de primeira divisão que ganhou dois títulos consecutivos, as pessoas sabem quem você é. E as mulheres querem transar com você.

“Não, obrigada. Só a conta, por favor.”

“Ah.” Sua decepção é patente. “Claro. É pra já.”

Antes de se afastar, faço uma pergunta ríspida. “Sabe quando o turno da Jennie acaba?”

Seu olhar de desilusão se transforma em surpresa. “Por quê?”

“Estamos numa aula juntas. Queria falar com ela sobre um trabalho.”

A loira relaxa o rosto, mas um lampejo de suspeita permanece em seus olhos. “Na verdade, já acabou, mas ela só pode ir embora quando a mesa dela também for.”

Dou uma olhada na única outra mesa ocupada da lanchonete, com um casal de meia-idade. O homem acabou de pegar a carteira, enquanto a esposa está examinando a conta através de óculos com aro de tartaruga.

Pago por minha comida, digo tchau para a garçonete e saio para esperar por Jennie. Cinco minutos depois, o casal mais velho caminha para fora da lanchonete. Um minuto depois, Jennie aparece, mas se me viu rondando a porta, não transparece nada. Simplesmente abotoa o casaco e caminha em direção à lateral do prédio.

Não perco tempo correndo atrás dela. “Kimie, espere.”

Ela olha por cima do ombro, franzindo a testa profundamente. “Pelo amor de Deus, não vou dar aulas para você.”

“Vai sim.” Dou de ombros. “Só preciso descobrir o que você quer em troca.”

Jennie gira feito um tornado de cabelo preto. “O que eu quero é não dar aula para você. É isso que quero.”

“Tudo bem, então tá na cara que você não quer dinheiro”, penso em voz alta, como se ela não tivesse falado isso antes. “Tem que ter outra coisa.” Reflito por um instante. “Álcool? Baseado?”

“Não e não, cai fora.”

Ela volta a caminhar, o tênis branco batendo na calçada com força, à medida que se aproxima do cascalho do estacionamento na lateral da lanchonete. Dispara sem perder tempo na direção de um Toyota hatch prateado, parado ao lado do meu Jeep.

“Tudo bem. Acho que você não liga para esse tipo de entretenimento.”

Sigo-a até o assento do motorista, mas ela me ignora por completo, abre a porta e joga a bolsa no banco do carona.

“Que tal um encontro?”, sugiro.

Isso parece despertá-la. Jennie se endireita como se alguém tivesse enfiado uma barra de metal ao longo de sua coluna, então se vira para mim, incrédula. “O quê?”

“Ah. Consegui sua atenção.”

“Não, conseguiu o meu desgosto. Você acha que quero sair com você?”

“Todo mundo quer sair comigo.”

Jennie dá uma gargalhada.

Talvez eu devesse me sentir insultada pela reação, mas gosto do som da risada dela. Tem certa qualidade musical, um tom rouco que tremula no meu ouvido.

“Só por curiosidade”, sugere, “quando você acorda de manhã, se admira no espelho por uma hora ou duas?”

“Duas”, respondo, animada.

“E dá um high five no seu próprio reflexo?”

“Claro que não.” Dou uma risadinha. “Beijo cada um dos meus ombros, aponto para o teto e agradeço ao camarada lá de cima por criar um espécime tão perfeito.”

Ela solta o ar com desdém. “Ah, tá. Bom, sinto muito por quebrar a sua cara, sra. Perfeita, mas não tô interessada em sair com você.”

“Acho que você não entendeu, Kimie. Não quero uma ligação amorosa com você. Sei que você não tá a fim. Se isso a deixa feliz, também não tô.”

“Isso me deixa mesmo muito feliz. Tava começando a me preocupar que eu fosse de fato o seu tipo, e é uma ideia aterrorizante demais de conceber.”

Quando tenta entrar no carro, agarro a porta para mantê-la aberta. “Tô falando de imagem”, explico.

“Imagem”, repete ela.

“É. Você não seria a primeira menina a sair comigo para aumentar a popularidade. Acontece o tempo todo.”

Jennie ri de novo. “Tô perfeitamente satisfeita com a minha posição na hierarquia social, mas muito obrigada por se oferecer para ‘aumentar minha popularidade’. Muito gentil da sua parte, Lisa. Mesmo.”

A frustração dá um nó em minha garganta. “O que você precisa para mudar de ideia?”

“Nada. Você tá perdendo seu tempo.” Ela balança a cabeça, parecendo tão frustrada quanto eu. “Sabe de uma coisa, se você transferir toda essa dedicação em me azucrinar para os estudos, vai tirar dez na prova.”

Jennie empurra minha mão, senta no banco e bate a porta.

Um segundo depois, o motor está rugindo, e, se eu não tivesse dado um passo para trás, ela com certeza teria passado por cima do meu pé.

Será que Jennie Kim foi atleta em outra vida? Que mulher teimosa.

Com um suspiro, fito as lanternas vermelhas e tento pensar em meu próximo passo.

Nada me vem à cabeça.

 



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