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História O Acordo - Adaptação Jenlisa - Capítulo 8


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Capítulo 8 - Diversão de um jeito platônico


Fanfic / Fanfiction O Acordo - Adaptação Jenlisa - Capítulo 8 - Diversão de um jeito platônico

LISA

Chae desaba no banco ao meu lado e se abaixa para desamarrar os tênis. O jogo acabou há alguns minutos. “Então, qual é a sua com a professora?” Seu tom é absolutamente descontraído, mas a conheço bem, e a pergunta não tem nada de casual.

“Kimie? O que tem ela?”

“Solteira?”

Ela me pega de surpresa. Chae é do tipo que se interessa por mulheres magras demais e mais doces que açúcar. Com aquele monte de curvas e a língua afiada, Jennie não se encaixa em nenhum dos pré-requisitos.

“É”, digo, cautelosa. “Por quê?”

Ela dá de ombros. Mais uma vez, como quem não quer nada. E, mais uma vez, sei direitinho o que tem em mente. “É gostosa.” Faz uma pausa. “Tá pegando?”

“Não. Nem você vai pegar. Tá de olho num babaca aí.”

“Eles estão juntos?”

“Não.”

“E isso não quer dizer que ela tá disponível?”

Não sei dizer por que de repente fico tão incomodada. Não gosto de Jennie desse jeito, mas o interesse de Chae por ela me deixa inquieta. Talvez porque saiba o quanto Chae pode ser sacana. Já perdi a conta de quantas vezes vi uma garota fazer a caminhada da vergonha para fora de seu quarto.

E me irrita imaginar Jennie se esgueirando do quarto dela, com o cabelo desgrenhado de quem acabou de transar e os lábios inchados. Não achei que isso fosse acontecer, mas meio que gosto daquela menina. Ela me mantém na linha, e, na última noite, quando a ouvi cantar… Cacete. Já escutei as palavras altura e tom serem usadas no American Idol, mas não tenho a menor noção dos aspectos técnicos da música. O que sei é que a voz rouca de Jennie me deu calafrios.

Afasto esses pensamentos e sigo para os chuveiros. Todo mundo está comemorando a vitória, mas esta é a parte que temo. Vitória ou derrota, sei que meu pai vai estar me esperando no estacionamento quando o time for para o ônibus.

 

[...]

 

JENNIE

Minha vida sexual não foi exatamente um mar de rosas. Ela se resumiu a medo, raiva e anos de terapia, e quando estava finalmente pronta para tentar esse negócio de sexo, as coisas não funcionam do jeito que gostaria. Dois anos após o estupro, no primeiro ano de faculdade, dormi com um cara que conheci num café, na Filadélfia, quando estava visitando minha tia. Passamos o verão inteiro juntos, mas o sexo era desajeitado e não tinha paixão.

No começo, achei que talvez só faltasse alguma química entre a gente… até que aconteceu o mesmo com Mia. Eu estava imersa nesses pensamentos enquanto Jisoo falava sem parar enquanto tomava café da manhã no domingo.

Mia e eu tínhamos o tipo de sintonia de incendiar um quarto. Fiquei com ela por oito meses e era insanamente atraída por ela, mas não importa o quanto tentasse, não fui capaz de contornar minha… Certo, vou dar nomes aos bois: minha disfunção sexual.

Não conseguia ter orgasmos com ela.

Só de pensar é um suplício. É ainda mais humilhante quando lembro a frustração que foi para Mia. Ela tentou me agradar. Nossa, tentou mesmo. E não é como se eu não pudesse ter meus próprios orgasmos sozinha, porque posso. Com muita facilidade.

Mas simplesmente não conseguia fazer acontecer com Mia, e ela acabou cansando de se dedicar tanto e não colher resultado nenhum.

E me largou.

“Ei, você ficou branca feito uma folha de papel.” A voz preocupada de Jisoo me traz de volta ao presente. “Tudo bem?”

“Tudo”, afirmo. “Foi mal, viajei um pouco.”

Seus olhos escuros se suavizam. “Você tá mesmo chateada por não poder ver seus pais no dia de Ação de Graças, né?”

Ansiosamente, agarro-me ao pretexto que ela oferece e assinto com a cabeça. “Como você disse, é uma droga.” Dou de ombros. “Mas vou vê-los no Natal. Já é alguma coisa.”

“É tudo!”, exclama, com firmeza. “Agora vá escovar os dentes e ficar bonita, gata. Vou passar mais um café enquanto isso.”

“Ah, nossa, você é a melhor esposa do mundo.”

Ela sorri. “Só por isso, vou cuspir no seu café.”

 

[...]

 

LISA

Jennie aparece lá pelas cinco, usando casacão grosso com capuz de pele e luvas vermelhas berrantes. Na última vez que olhei pela janela, não havia um floco de neve no chão, mas agora estou me perguntando se rolou uma nevasca durante a minha soneca e nem reparei.

“Você tava no Alasca?”, pergunto, enquanto ela abre o zíper do casaco imenso.

“Não.” Suspira. “Não consegui achar meu outro casaco, então saí com o de inverno. Achei que pudesse ter deixado aqui.” Ela olha ao redor do quarto. “Mas acho que não. Droga. Tomara que não tenha esquecido na sala de ensaio. Tenho certeza de que uma daquelas calouras vai pegar. E amo aquele casaco.”

Solto um riso contido. “E qual é a desculpa para as luvas?”

“Minhas mãos tavam frias.” Ela ergue a cabeça para mim.

“Qual é a sua para o gelo?”

Percebo que ainda estou segurando um saco de gelo na lateral direita do corpo, onde Chae me atropelou no jogo mais cedo.

Estou toda roxa, e Jennie leva um susto quando levanto a barra da camiseta para mostrar o hematoma do tamanho de um punho na minha pele.

“Ai, meu Deus! Foi no jogo?”

“Foi.” Levanto da cama e vou até a escrivaninha pegar os livros de ética.

“Não acredito que você submete o seu corpo a isso por vontade própria”, ela se admira. “Não vale a pena, vale?”

“Vale. Vai por mim, uns arranhões e umas contusões não são nada comparados à emoção de estar na quadra.” Olho para ela.

Ela senta na beira da cama, deitando a cabeça com curiosidade. “Você sempre quis jogar? Ou foi seu pai que a empurrou para o vôlei?”

Fico tensa. “O que faz você pensar isso?”

Jennie dá de ombros. “Alguém me disse que seu pai é uma espécie de celebridade do vôlei. Sei que tem um monte de pais por aí que obrigam os filhos a seguirem seus passos.”

Meus ombros se enrijecem ainda mais. Estou surpresa de que ela não tenha falado no meu pai até agora — duvido que haja alguém na Briar que não saiba que sou filha de Marco Manoban —, mas também me espanto pela sua perspicácia. Ninguém nunca me perguntou se gosto mesmo de jogar vôlei. Todo mundo simplesmente presume que amo o esporte porque meu pai foi jogador.

“Ele acabou me empurrando sim”, confesso, com uma voz rouca. “Antes do primeiro ano do fundamental, já sabia sacar uma bola perfeitamente. Mas continuei jogando, porque amo o esporte.”

“Isso é bom”, diz ela, baixinho. “É importante fazer o que se ama.”

Tenho medo que ela faça mais perguntas sobre meu pai, então limpo a garganta e mudo de assunto. “E aí, por qual filósofo devemos começar… Hobbes ou Locke?”

“Você escolhe. Ambos são incrivelmente chatos.”

Solto uma risada. “Muito animador, Kimie.”

 

[...]

 

Mas ela tem razão. A hora seguinte é brutal, e não apenas por causa das teorias supermaçantes. Estou morrendo de fome, porque dormi na hora do almoço, mas me recuso a terminar a sessão até ter dominado o assunto. Quando estudei para a primeira prova, me concentrei só nos pontos principais, mas Jennie me faz examinar todos os detalhes. Também me obriga a reformular cada teoria, o que, tenho de admitir, me dá um controle maior do emaranhado de complexidades que estamos estudando.

Depois de repassarmos toda a matéria, Jennie me faz perguntas sobre tudo o que li nos últimos dias e, satisfeita ao constatar que aprendi tudo, fecha o fichário.

“Amanhã a gente começa a aplicar as teorias a dilemas éticos de verdade.”

“Acho uma boa.” Meu estômago ruge tão alto que praticamente sacode as paredes, e faço uma careta.

Ela deixa escapar uma risada. “Com fome?”

“Faminta. Minnie é quem cozinha aqui, mas hoje ela não está, então ia pedir uma pizza.” Hesito. “Quer me acompanhar? Comer algumas fatias e, quem sabe, assistir a alguma coisa?”

Ela parece surpresa com o convite. Eu também me surpreendo, mas, para ser sincera, ter uma companhia viria bem a calhar. Chae e as outras meninas foram a uma festa, mas não estava com vontade de me juntar a elas. E já terminei todas as leituras do curso, então não tenho nada para fazer hoje à noite.

“O que você quer ver?”, pergunta ela, com cautela.

Aponto para a pilha de Blu-rays perto da TV.

“Chae acabou de comprar todas as temporadas de Breaking Bad. Sempre penso em assistir, mas nunca tenho tempo.”

“É o seriado do traficante de heroína?”

“Fabricante de metanfetamina. Ouvi dizer que é demais.” Jennie corre os dedos pelos cabelos. Parece relutante em ficar, mas igualmente relutante em ir.

“O que mais você tem para fazer hoje à noite?”, pergunto.

“Nada”, responde, cabisbaixa. “Minha colega de alojamento vai dormir na casa do namorado, então ia acabar só vendo televisão mesmo.”

“Pode fazer isso aqui.” Pego o celular. “Gosta de pizza de quê?”

“Hmm… cogumelos. E cebola. E pimentão verde.”

“Ah, todos os ingredientes sem graça?” Balanço a cabeça.

“Vamos comer bacon, linguiça e queijo extra.”

“Por que perguntou o que gosto se não vai pedir?”

“Porque tava torcendo para você ter um gosto melhor.”

“Não tenho culpa se você acha legumes uma coisa chata, Lisa. Dá uma pesquisada em escorbuto e vem falar comigo depois, tá legal?

“Escorbuto é uma deficiência de vitamina C. Não dá para colocar luz do sol nem laranja em pizza, gata.”

No final, cedo e peço duas pizzas, uma com os ingredientes maçantes de Jennie, outra cheia de carne e queijo. Cubro o bocal do telefone e olho para ela. “Coca Zero?”

“O que você acha que sou, fresca? Coca normal, por favor.”

Rindo, termino de fazer o pedido e, logo em seguida, coloco o primeiro DVD de Breaking Bad. Vinte minutos depois, toca a campainha.

“Uau. É o entregador de pizza mais rápido da história”, comenta Jennie.

Meu estômago não achou nada ruim. Desço até o primeiro andar e recebo a comida, em seguida, passo na cozinha para buscar papel-toalha e uma garrafa de Bud Light na geladeira. No último segundo, pego uma garrafa a mais, caso Jennie queira.

Mas quando ofereço a ela no segundo andar, Jennie balança a cabeça com veemência. “Não, obrigada.”

“O quê, é certinha demais para tomar uma cerveja?”

O desconforto cintila em seus olhos. “Não sou de beber muito, tá legal?”

Dou de ombros e abro a minha garrafa, dando um gole profundo, enquanto Jennie arranca uma folha do rolo de papeltoalha e puxa da caixa uma fatia gordurosa coberta de legumes.

Nós nos ajeitamos na cama para comer, as duas em silêncio, enquanto aperto play de novo. O episódio piloto é incrível, e Jennie não se opõe quando passo para o seguinte.

Tem uma mulher no meu quarto e nenhuma de nós está pelada. É estranho. Mas meio legal. Não falamos muito durante o seriado — estamos absortas demais com o que está acontecendo na tela —, só que, quando o segundo episódio termina, Jennie se vira para mim de queixo caído.

“Ai, meu Deus, imagina não saber que o marido está produzindo metanfetamina? Pobre Skylar.”

“Com certeza ela vai descobrir.”

Jennie prende a respiração. “Ei. Sem spoilers!”

“Não é um spoiler”, protesto. “É um pressentimento.”

Ela relaxa. “Certo, tudo bem, então.”

Jennie pega sua lata de Coca-Cola e dá um gole demorado. Já destruí minha pizza, mas a dela ainda está pela metade, então roubo um pedaço e dou uma mordida grande.

“Uhhhh, olha só quem não resistiu à minha pizza sem graça. Tem alguma hipócrita aqui?”

“Não é culpa minha que você come feito um passarinho, Kimie. Não posso desperdiçar comida.”

“Comi quatro fatias!”

Tenho que admitir: “É, isso na verdade faz de você uma glutona completa se comparada às meninas que conheço. O máximo que comem é metade de uma entradinha de salada”.

“Isso é porque precisam ficar magras feito um palito para meninas como você as acharem bonitas.”

“Não tem nada de atraente numa mulher assim.”

“Aham, tenho certeza de que você não vê a menor graça em mulheres magras.”

Reviro os olhos. “Não. Só estou dizendo que prefiro curvas.”

Engulo a última mordida antes de pegar outra fatia. “ É bom de ter onde pegar quando… você sabe.” Arqueio as sobrancelhas para ela. “Mas vale para os dois lados.”

Ela solta um riso de desdém. “Esta é a parte em que devo elogiar seu corpo torneado?”

“Você gosta do meu corpo torneado? Obrigada, gata.”

“Não, você acha que tem um corpo torneado.” Ela franze os lábios. “Mas você não está errada.”

“Que bom que o seu gato tem tanquinho, então, né?”

Ela suspira. “Quer parar de falar assim?”

“Não.” Mastigo pensativo. “Vou ser sincera com você. Não sei o que viu nele.”

“Por quê, porque não é o machão da faculdade? Porque é sério e inteligente e não um pegador desenfreado?”

Merda, acho que ela caiu na do Wang. Se eu usasse chapéu, provavelmente tiraria o meu para ele, por ter sido tão bem-sucedido em criar um personagem que enlouquece as mulheres — o atleta nerd.

“Wang não é o que parece”, digo, bruscamente. “Sei que passa por atleta misterioso e inteligente, mas tem algo… duvidoso nele.”

“Não vejo nada duvidoso nele”, discorda.

“Claro, porque vocês dois já tiveram uma infinidade de conversas profundas e significativas”, rebato. “Vai por mim, é só uma máscara.”

“Eu discordo.” Ela sorri. “Além do mais, você não está em posição de julgar em quem estou interessada. Pelo que ouvi, só namora garotas vazias.”

Sorrio de volta. “Aí é que você se engana.”

“Ah, é?”

“É. Só durmo com garotas vazias. Não namoro ninguém.”

“Galinha.” Ela faz uma pausa, a curiosidade estampada em seu rosto. “Por que você não namora? Tenho certeza de que todas as garotas da faculdade matariam para ser sua namorada.”

“Não estou à procura de um relacionamento.”

Isso a surpreende. “Por que não? Relacionamentos podem valer muito a pena.”

“Disse a solteira.”

“Estou solteira porque não encontrei ninguém com que me conectasse, não porque sou contra a ideia de ter um relacionamento. É bom ter alguém pra passar o tempo. Sabe, para conversar, abraçar, todas essas coisas melosas. Você não quer isso?”

“Um dia. Mas agora não.” Abro um sorriso convencido. “Se algum dia sentir a necessidade de conversar com alguém, tenho você.”

“Ah, então suas garotas vazias ficam com o sexo, e eu tenho que aturar sua tagarelice?” Ela balança a cabeça. “Estou me sentindo no prejuízo nesse negócio.”

Arqueio as sobrancelhas. “Ah, você quer o sexo também, Kimie? Fico feliz em oferecer para você.”

Suas bochechas se coram do tom de vermelho mais vivo que já vi, e começo a rir.

“Relaxa. Tô brincando. Não sou tão burra assim de dormir com a minha professora particular. Vou acabar te fazendo sofrer, aí você vai me ensinar a matéria errado e vou mandar mal na prova.”

“De novo”, corrige ela, com gentileza. “Vai mandar mal na prova de novo.”

Levanto o dedo do meio, mas estou sorrindo ao fazê-lo. “Você precisa ir ou posso botar o terceiro episódio?”

“Terceiro episódio. Claro.”

Nós nos acomodamos na cama mais uma vez, eu de barriga para cima com a cabeça em três travesseiros, Jennie de bruços, ao pé da cama. O episódio seguinte é intenso, e, assim que acaba, estamos ansiosas para assistir ao próximo. Quando me dou conta, acabamos o primeiro disco e estamos passando para o segundo.

Entre um suspense e outro, discutimos o que acabamos de ver e fazemos previsões. E, para ser sincera, não me divirto de um jeito assim platônico com uma menina desde… bom, nunca.

 

[...]

 

“Puta merda”, exclamo. “Acabamos a primeira temporada.”

Jennie morde o lábio e dá uma olhada no despertador. São quase dez horas. Acabamos de assistir sete episódios sem uma pausa para ir ao banheiro.

Achei que ia dizer que é hora de ir embora, mas em vez disso ela suspira e pergunta: “Você tem a segunda temporada?”.

Não posso controlar o riso. “Você quer continuar assistindo?”

“Depois desse final? Como não assistir?”

Não deixa de ser verdade.

“Só o primeiro”, implora ela. “Você não quer ver o que acontece?”

Claro que quero, por isso não me oponho quando ela se levanta para colocar o próximo disco. “Quer fazer um lanche ou algo assim?”, ofereço.

“Pode ser.”

“Vou ver o que temos.”

Acho dois pacotes de pipoca de micro-ondas no armário da cozinha, faço os dois e volto com duas tigelas de pipoca nas mãos.

Jennie roubou meu lugar, o cabelo escuro esparramado na minha pilha de travesseiros, as pernas esticadas à sua frente. As meias de bolinhas vermelhas e pretas me fazem sorrir. Reparei que não usa roupas de grife ou de patricinha como a maioria das meninas na faculdade, nem as roupas de festa ousadas comuns nas fraternidades e nos bares do campus nos fins de semana. Jennie gosta de calça jeans skinny, leggings e suéteres justos, o que ficaria elegante, se ela não combinasse sempre com alguma coisa de cor chamativa. Como as meias, ou as luvas, ou aqueles grampos de cabelo engraçados de que ela gosta.

Coloco minha tigela de pipoca na mesa de cabeceira e pego o controle remoto. “Pronta para a segunda temporada?”, pergunto, casualmente.

“Manda ver.”

Desta vez, sento ao lado dela, mas ainda tem uns sessenta centímetros entre a gente. É estranho como estou gostando disso — passar o tempo com uma garota sem me preocupar sobre como vou me livrar dela ou sobre as exigências que ela logo vai começar a fazer.

Assistimos ao primeiro episódio da segunda temporada, e ao segundo, terceiro… e, quando dou por mim, são três da manhã.

“Ai, merda, que horas são?”, Jennie deixa escapar. Assim que termina de falar, um enorme bocejo se abre em seu rosto.

Esfrego os olhos cansados, incapaz de entender como pode ter ficado tão tarde sem nenhuma de nós perceber. Assistimos literalmente a uma temporada e meia da série numa sentada só.

“Merda”, murmuro.

“Não acredito que já é tão tarde.” Ela boceja de novo, o que desencadeia um bocejo em mim, e, em pouco tempo, estamos as duas sentadas no meu quarto escuro — não me lembro de ter desligado a luz —, bocejando feito duas pessoas que não dormem há meses.

“Tenho que ir.” Ela tropeça para fora da cama e ajeita o cabelo com as mãos. “Onde tá meu celular? Preciso chamar um táxi.”

Meu próximo bocejo quase quebra meu maxilar. “Levo você”, digo, grogue, escorregando para fora da cama.

“De jeito nenhum. Você bebeu duas cervejas.”

“Horas atrás”, argumento. “Estou bem para dirigir.”

“Não.”

Deixo a irritação tomar conta de mim. “Você não vai entrar num táxi e andar pelo campus às três da manhã, de jeito nenhum. Ou eu levo você ou você fica aqui.”

Ela parece assustada. “Não vou ficar aqui.”

“Então eu levo você. Sem discussão.”

Seu olhar recai sobre as duas garrafas de Bud na mesa de cabeceira. Sinto sua relutância, mas também vejo o cansaço encobrindo suas feições. Depois de um instante, ela relaxa os ombros e deixa escapar um suspiro. “Tudo bem. Durmo no sofá.”

Balanço a cabeça depressa. “Não. Melhor dormir aqui.”

Foi a coisa errada a se dizer, porque ela fica mais rígida do que um poste. “Não vou dormir no seu quarto.”

“Moro com três jogadoras de vôlei, Kimie. Que, aliás, ainda não chegaram em casa de uma noitada. Não estou dizendo que alguma coisa vá acontecer, mas há uma chance de uma delas, sei lá, tropeçar bêbada na sala e passar a mão em você se a achar no sofá. Eu, por outro lado, não tenho o menor interesse em passar a mão em você.” Aponto para a cama enorme. “Cabem sete nessa coisa. Você nem vai reparar que estou aqui.”

Há um momento de silêncio. “Certo, vou ficar aqui. Mas só porque mal consigo manter os olhos abertos, e realmente não quero ter que esperar por um táxi.”

Vou até minha cômoda. “Quer alguma coisa para dormir? Camiseta? Moletom?”

“Uma camiseta seria ótimo.” Mesmo na escuridão, posso senti-la corando. “Você tem uma escova de dentes sobrando?”

“Tenho. No armário embaixo da pia.” Entrego uma camiseta velha a ela, e Jennie desaparece no banheiro.

Tiro a camisa e a calça jeans e entro na cama de roupa de baixo. Ao me ajeitar para dormir, ouço a descarga e a torneira da pia ligar e desligar. Em seguida, Jennie volta, os pés descalços batendo suavemente no piso de madeira. Fica parada ao lado da cama por tanto tempo, que acabo resmungando de irritação.

“Dá para deitar na cama logo?”, reclamo. “Não mordo. E mesmo que mordesse, estou quase dormindo. Então para de ficar aí me olhando feito uma doida e vem dormir.”

O colchão afunda ligeiramente à medida que ela sobe na cama. Sinto um puxão no cobertor, um farfalhar de lençóis e um suspiro, e Jennie está deitada ao meu lado. Bem, não exatamente. Está lá do outro lado da cama, no mínimo agarrada à beirada do colchão, para não cair.

Estou cansada demais para fazer uma observação sarcástica, então apenas murmuro: “Boa noite”, e fecho os olhos de novo.

“Boa noite”, ela sussurra de volta.

Poucos segundos depois, estou morta para o mundo.



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