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História O Acordo - Bughead - Capítulo 36


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Notas do Autor


7/9♥️

Capítulo 36 - Chapter XXXVI


JUGHEAD

Ele bate nela.

O filho da puta bate nela.

Bastam trinta minutos na companhia de Cindy para chegar a essa conclusão.

Para entender os sinais. Vejo na forma como ela se esquiva quando ele a toca. Bem

de leve e provavelmente imperceptível para os outros, mas é o mesmo jeito com

que minha mãe reagia quando ele se aproximava dela. Quase como se estivesse

antecipando o próximo golpe do seu punho, da palma da mão ou da merda da

bota.

Mas esse não é o único sinal de alerta que Cindy está exibindo. O negócio

rendado de manga comprida em cima do vestido vermelho torna óbvio — já

fiquei com garotas de fraternidade demais para saber que não se combina sapato

branco com casaco preto. E tem também o brilho de medo que se acende nos

olhos dela toda vez que meu pai ameaça se mexer na cadeira. O jeito triste com

que seus ombros desabaram quando ele disse que o molho estava aguado. A penca

de elogios que lança na direção dele, porque obviamente quer deixá-lo feliz. Não,

deixá-lo calmo.

No meio do jantar, minha gravata está praticamente me enforcando, e tenho

certeza de que não vou ser mais capaz de controlar a raiva. Não acho que vou

conseguir chegar ao final da sobremesa sem atacar o velho e perguntar como tem

coragem de fazer isso com outra mulher.

Cindy e Eliza estão falando sobre alguma coisa. Não tenho ideia do que é.

Meus dedos apertam o garfo com tanta força que fico surpreso de não quebrá-lo

ao meio.

Ele tentou falar comigo sobre hóquei mais cedo, quando Eliza e Cindy

estavam na cozinha. Tentei responder. Sei que fui capaz de elaborar frases

propriamente ditas, com sujeito, predicado e a porra toda. Mas, desde que Eliza

e eu entramos nesta maldita casa, minha cabeça está longe. Cada cômodo guarda

uma memória que me faz a bile subir à garganta.

A cozinha foi onde quebrou meu nariz pela primeira vez.A pior parte era lá cima, no meu quarto, onde nem ouso entrar hoje, porque

tenho medo de que as paredes se fechem sobre mim.

Na sala de estar ele me espremeu contra a parede uma vez, quando meu time do

oitavo ano não chegou às finais. Mas notei que ele cobriu o buraco no gesso com

um quadro.

“Então é isso”

, Eliza está dizendo. “Agora vou apresentar um solo, que é o

que deveria ter feito desde o início.”

Cindy faz um barulho para expressar sua empatia. “Esse menino parece um

pirralho mimado.”

“Cynthia”

, diz meu pai, bruscamente. “Modos.”

E lá está de novo — o estremecimento assustado. Um fraco “Sinto muito” é o

que deveria seguir a reprimenda, mas, para a minha surpresa, ela não pede

desculpas.

“Você não acha, FP? Imagine se estivesse jogando com o Rangers e o seu

goleiro deixasse você na mão às vésperas do primeiro jogo da Copa Stanley?”

Meu pai tensiona a mandíbula. “As duas situações são incomparáveis.”

Cindy logo volta atrás. “É, acho que são.”

Enfio uma garfada de purê de batata e recheio de peru na boca.

O olhar frio de meu pai recai sobre Eliza. “Há quanto tempo está saindo com

meu filho?”

Vejo-a se ajeitando desconfortável na cadeira de canto de olho. “Um mês.”

Ele assente, quase como se tivesse gostado da resposta. Quando fala de novo,

percebo exatamente com o que ficou satisfeito. “Não é sério, então.”

Eliza franze o cenho.

Eu também, porque sei o que ele está pensando. Não, sei pelo que está torcendo.

Que esta coisa com Eliza seja passageira. Que esmoreça o mais rápido possível,

para que eu possa voltar a me concentrar exclusivamente no hóquei.

Mas ele está errado. Merda, eu também estava errado. Achei que ter uma

namorada iria me distrair de meus objetivos e dividir minha atenção. Adoro estar

com Eliza, mas não perdi o hóquei de vista. Ainda estou mandando ver nos

treinos e esmagando meus adversários no rinque. Este último mês me mostrou

que posso ter Eliza e o hóquei na minha vida, e dar aos dois a atenção

necessária.

“Jughead comentou com você que está planejando entrar no draft depois da

formatura?”

, pergunta meu pai.

Eliza assente em resposta.

“Assim que for convocado, a agenda dele vai ficar ainda mais caótica. E imagino que a sua também.” Meu pai pressiona os lábios. “Onde se vê depois da

formatura? Na Broadway? Gravando um disco?”

“Não decidi ainda”

, responde ela, pegando o copo de água.

Noto que seu prato está vazio. Terminou tudo, mas não pediu para repetir. Nem

eu, embora não possa negar que a comida de Cindy seja muito boa. Faz anos que

não provo um peru tão suculento.

“Bom, a indústria musical é cruel para quem está começando uma carreira.

Exige trabalho duro e muita perseverança.” Meu pai faz uma pausa. “E uma

dedicação imensa.”

“Estou bem ciente disso.” Os lábios de Eliza se fecham numa linha rígida,

como se ela tivesse muito mais a falar e estivesse se contendo.

“O esporte profissional é a mesma coisa”

, acrescenta meu pai, severamente.

“Exige o mesmo grau de dedicação. Distrações podem custar caro.” Sua cabeça se

volta na minha direção. “Não é, filho?”

Estico o braço e cubro a mão de Eliza com a minha. “Algumas distrações

valem a pena.”

Vejo suas narinas se expandindo.

“Parece que todo mundo já acabou de comer”

, intervém Cindy. “Que tal a

sobremesa?”

Meu estômago revira diante da ideia de passar um segundo sequer a mais nesta

casa. “Na verdade, Eliza e eu temos que ir”

, digo, bruscamente. “A previsão do

tempo disse que ia nevar esta noite, e quero voltar antes que a estrada fique ruim.”

Cindy volta a cabeça para as janelas que vão do chão ao teto do outro lado da

sala de jantar. Atrás do vidro, não há um floco branco sequer no ar ou no chão.

Mas, graças a Deus, não comenta sobre a ausência de neve na rua. Se demonstra

alguma coisa, é alívio de que a noite desconfortável esteja chegando ao fim.

“Vou tirar a mesa”

, oferece Eliza.

Cindy assente. “Obrigada, Elizabeth. Muito gentil da sua parte.”

“Jughead.” Meu pai arrasta a cadeira para trás. “Quero falar com você.”

Então deixa a sala.

À merda ele e suas intimações. O filho da mãe nem agradeceu à namorada pela

comida maravilhosa que preparou. Estou muito cansado desse cara, mas engulo a

raiva e o sigo para fora da sala de jantar.

“O que você quer?”

, pergunto, assim que entramos em seu escritório. “E nem

adianta me mandar ficar para a sobremesa. Vim para o dia de Ação de Graças,

comemos peru, e agora tô indo embora.”

“Não estou nem aí para a sobremesa. Precisamos falar sobre aquela garota.”“Aquela garota?” Solto uma risada ríspida. “Você tá falando de Eliza? Porque

ela não é só uma garota. Ela é a minha namorada.”

“Ela é uma fraqueza”

, retruca ele.

Reviro os olhos. “Como chegou a essa conclusão?”

“Você perdeu dois dos últimos três jogos!”

, explode ele.

“E isso é culpa dela?”

“Claro que é! Está fazendo você perder o foco no jogo.”

“Eu não sou o único no rinque”

, digo, simplesmente. “E não fui o único que

cometeu erros nesses jogos.”

“No último, você cometeu um pênalti que custou muito caro”

, revida.

“É, cometi. Grande coisa. Ainda estamos no primeiro lugar da chave. Segundo

no geral.”

“Segundo lugar?” Está gritando agora, as mãos cerradas à medida que caminha

na minha direção. “E você está feliz de ficar em segundo lugar? Criei você para

chegar em primeiro, seu bosta!”

Teve uma época em que esses olhos em chamas e o rosto vermelho me fariam

vacilar também. Mas não mais. Quando completei dezesseis anos e fiquei cinco

centímetros mais alto e vinte quilos mais forte que meu pai, me dei conta de que

não precisava mais ter medo dele.

Nunca vou esquecer a expressão nos olhos dele na primeira vez que reagi. Seu

punho estava vindo na minha direção, e, num momento de clareza, percebi que

podia bloqueá-lo. Não precisava mais ficar ali e apanhar. Podia devolver de igual

para igual.

E devolvi. Ainda me lembro a satisfação de chocar meus punhos contra o

queixo dele. E, embora tenha esbravejado de raiva, havia espanto — e medo —genuíno em seus olhos quando tropeçou para trás com a força do impacto.

Aquela foi a última vez que ele levantou a mão contra mim.

“O que você vai fazer?”

, provoco, apontando para os seus punhos. “Me bater? O

quê, cansou de descontar naquela mulher?”

Seu corpo inteiro fica mais rígido do que granito.

“Acha que não sei que você tá usando Cindy como saco de pancada?”

, sibilo.

“Olha essa boca, garoto.”

A raiva em minhas entranhas me domina. “Vai se foder”

, disparo. Minha

respiração fica entrecortada à medida que o encaro nos olhos. “Como você

consegue encostar um dedo nela? Como consegue encostar um dedo em qualquer

pessoa? Qual é o seu problema?”

Ele caminha na minha direção, parando a meros trinta centímetros. Por umsegundo, acho que vai mesmo me bater. Quase quero que o faça. Assim vou poder

bater de volta. Arrebentar os punhos nessa cara idiota e mostrar o que é apanhar

de alguém que deveria amar você.

Mas meus pés permanecem fixos no mesmo lugar, as mãos rígidas junto ao

corpo. Porque não importa o quanto queira esmurrá-lo, nunca vou me deixar

chegar tão baixo quanto ele. Nunca vou perder o controle e ficar igual a ele.

“Você precisa de ajuda”

, exclamo. “É sério, velho. Precisa, e realmente espero

que você procure ajuda antes de machucar aquela mulher mais do que já fez.”

Arrasto-me para fora do escritório. Minhas pernas tremem tanto que é um

milagre que consigam me carregar até a cozinha, onde encontro Eliza na pia,

passando uma água nos pratos. Cindy está colocando a louça na máquina. Ambas

se viram quando apareço, e as duas ficam pálidas.

“Cindy.” Limpo a garganta, mas o nó imenso permanece. “Sinto muito ter que

roubar Eliza agora, mas precisamos ir.”

Depois de uma longa pausa, os cabelos louros movem-se num aceno rápido de

cabeça. “Sem problema. Posso cuidar do resto.”

Eliza desliga a torneira e caminha na minha direção lentamente. “Tudo

bem?”

Balanço a cabeça. “Você pode esperar no carro? Preciso falar com Cindy um

segundo.”

Em vez de sair da cozinha, Eliza caminha de volta até a mulher, hesita por

um instante e então lhe dá um abraço caloroso. “Muito obrigada pelo jantar. Feliz

dia de Ação de Graças.”

“Feliz dia de Ação de Graças”

, murmura Cindy, com um sorriso tenso.

Enfio a mão no bolso interno do paletó e pego as chaves do carro. “Toma. Vai

ligando o carro”

, digo a Eliza.

Ela deixa a cozinha sem dizer mais nada.

Respirando fundo, caminho sobre o piso de azulejos e paro bem na frente de

Cindy. Para meu horror, ela reage com o estremecimento mínimo e assustado que

passei a noite testemunhando. Como se isso fosse uma situação tal pai, tal filho.

Como se eu fosse…

“Não vou machucar você.” Minha voz se quebra feito um ovo. Sinto náuseas só

de ter que dizer isso a ela.

O pânico envolve seus olhos. “O quê? Ah, querido, não. Não achei…”

“Achou sim”

, digo, baixinho. “Não tem problema. Não a culpo. Sei o que é…”

Engulo em seco. “Escuta, não tenho muito tempo, porque preciso sair desta casa

antes que faça alguma coisa de que me arrependa, mas preciso que você saiba deuma coisa.”

Ela solta a porta da lava-louça, pouco à vontade. “O quê?”

“Eu…” Engulo outro nó profundo e tento ir direto ao ponto, porque nenhum de

nós quer mesmo ter esta conversa. “Ele também fazia isso comigo e com a minha

mãe, tá legal? Abusou da gente, física e verbalmente, por anos.”

Seus lábios se entreabrem, mas ela não diz uma palavra.

Sinto um aperto no coração à medida que me forço a prosseguir. “Ele não é um

homem bom. É perigoso, violento e… doente. Ele é doente. Você não precisa me

dizer o que ele tá fazendo com você. Talvez eu esteja errado e ele não esteja

fazendo nada… mas acho que tá, porque vejo no jeito como você reage perto dele.

Também reagi assim. Cada movimento meu, cada palavra que dizia… tudo que fiz

era marcado pelo medo, porque estava desesperado para que não me espancasse de

novo.”

Seu olhar desolado é toda a confirmação de que preciso.

“Enfim.” Inspiro fundo. “Não vou arrancar você daqui nos meus ombros, nem

chamar a polícia e dizer que esta casa abriga um caso de abuso. Não é o meu

papel, e não vou interferir. Mas preciso que você saiba de algumas coisas. Um, não

é culpa sua. Nunca se culpe por isso, porque a responsabilidade é toda dele. Você

não fez nada para provocar a crítica dele nem seus ataques verbais, e só deixou de

corresponder às expectativas dele porque elas são impossíveis de corresponder.” Meu

peito se aperta com tanta força que minhas costelas doem. “E dois, se algum dia

você precisar de alguma coisa, qualquer coisa, quero que me ligue, certo? Se

quiser conversar, ou ir embora e precisar de ajuda para juntar suas coisas ou

qualquer coisa, me liga. Ou se ele… fizer alguma coisa e você precisar de ajuda,

pelo amor de Deus, me liga. Promete?”

Cindy parece estupefata. Completa e inteiramente estupefata. Seus olhos azuis

estão vidrados, e ela começa a piscar depressa, como se estivesse tentando conter

as lágrimas.

A cozinha fica tão silenciosa quanto uma casa funerária. Ela simplesmente me

fita, piscando loucamente, os dedos de uma das mãos mexendo na manga.

Depois do que parece uma eternidade, acena com a cabeça, trêmula, e sussurra:

“Obrigada”.

O aquecimento está a toda quando sento no banco do motorista. Eliza ligou

o carro e está de cinto, como se estivesse tão desesperada quanto eu para sair

daqui.

Passo a marcha e acelero, afastando-me do meio-fio, numa urgência de meafastar dessa casa. Se tiver a sorte de jogar pelo Boston algum dia, vou morar o

mais longe possível de Beacon Hill.

“Então… foi tudo meio intenso”

, comenta Eliza.

Não posso conter o riso de escárnio. “Meio?”

Ela suspira. “Tava tentando ser diplomática.”

“Nem precisa se dar ao trabalho. Foi um pesadelo do início ao fim.” Meus dedos

apertam o volante com tanta força que ficam brancos. “Ele bate nela.”

Há um momento de silêncio, mas quando Eliza responde, é com tristeza, e

não surpresa. “Foi o que pensei. A manga dela deslizou na cozinha, e achei ter

visto marcas nos pulsos.”

A revelação provoca uma nova onda de raiva. Merda. Uma parte de mim queria

que estivesse errado a respeito de Cindy.

O silêncio recai sobre nós à medida que pego o acesso à estrada. Pouso a mão

no câmbio, e Eliza a cobre com a sua. Acaricia meus dedos, o toque gentil

aliviando um pouco da pressão em meu peito.

“Ela ficou com medo de mim”

, murmuro.

Desta vez, Eliza demonstra surpresa. “Do que você tá falando?”

“Quando fiquei sozinho com ela na cozinha, dei um passo na sua direção, e ela

estremeceu. Ela estremeceu, como se estivesse com medo que eu fosse machucá-la.”

Minha garganta se fecha. “Tudo bem, eu entendo. Minha mãe era assim também.

Eu também. Mas… caralho. Não acredito que ela achou que eu fosse capaz de bater

nela.”

A voz de Eliza se embarga de tristeza. “Acho que não é só com você. Ele tá

abusando dela, então Cindy deve ter medo de todo mundo que se aproxima. Foi

assim comigo depois do estupro. Assustada, nervosa, suspeitando de todo mundo.

Levei muito tempo para relaxar na frente de estranhos, e, mesmo agora, tem

coisas que ainda não faço. Como beber em público. Quer dizer, a menos que você

esteja lá para ser meu guarda-costas.”

Sei que o último comentário foi uma tentativa de me fazer sorrir, mas não é o

que acontece. Ainda estou preocupado com a reação de Cindy.

Na verdade, perdi a vontade de conversar. Simplesmente… não consigo. Ainda

bem que Eliza não me força. Adoro isso nela, nunca força a barra para

preencher os silêncios.

Ela pergunta se tudo bem botar uma música e, quando faço que sim, liga o iPod

no som do carro e coloca uma seleção que de fato me faz sorrir. É a de rock

clássico que mandei para ela por e-mail, quando nos conhecemos. Percebo que

pula a primeira música, porque era a preferida da minha mãe. Tenho certeza deque explodiria de chorar se a ouvisse agora.

E isso demonstra o quanto Elizabeth Cooper é… maravilhosa. É tão atenta a mim,

meu humor, minhas dores. Nunca estive com alguém que me entendesse tão bem.

Uma hora se passa. Sei que foi uma hora porque é o tempo de duração da

playlist, e quando ela termina, Eliza coloca outra, o que me faz sorrir também,

porque tem um monte de Rat Pack, Motown e Bruno Mars.

Estou calmo agora. Na real, um pouco mais calmo. Toda vez que sinto como se

estivesse relaxando, lembro do medo nos olhos de Cindy, e a pressão aperta meu

peito de novo. À medida que as incertezas se misturam em minhas entranhas,

forço-me a não me ater à pergunta que remói meu cérebro, mas, ao acelerar pela

rampa de saída e seguir pela estrada de duas pistas rumo a Hasthgin, ela me volta à

cabeça, e, desta vez, não consigo evitá-la.

“E se eu for capaz?”

Eliza abaixa o volume. “De quê?”

“E se eu for capaz de machucar alguém?”

, pergunto, a voz rouca. “E se for

igualzinho a ele?”

Ela responde convicta. “Você não é.”

Uma tristeza me sobe pela coluna. “Tenho o mesmo temperamento, sei que

tenho. Queria estrangulá-lo hoje.” Aperto os lábios. “Precisei de toda a minha

força de vontade para não jogá-lo contra a parede e espancá-lo até a morte. Mas

não valia a pena. Ele não vale a pena.”

Ela pega a minha mão e entrelaça os dedos nos meus. “E é por isso que você

não é como ele. Você tem essa força de vontade, e isso significa que não tem o

mesmo temperamento. Porque ele é incapaz de se controlar. Deixa a raiva tomar

conta e machuca as pessoas em volta, pessoas que são mais fracas do que ele.” Ela

aperta minha mão com mais força. “O que você faria se eu o irritasse agora?”

Pisco, confuso. “Como assim?”

“Vamos fingir que não estamos neste carro. Estamos no meu quarto, ou na sua

casa, e… sei lá… digo que dormi com outra pessoa. Não, digo que estou dormindo

com o time inteiro de hóquei desde que nos conhecemos.”

O pensamento faz minhas entranhas se revirarem.

“O que você faria?”

, pergunta.

Olho para ela com uma cara feia. “Terminaria tudo e iria embora.”

“Só isso? Não ficaria tentado a me bater?”

Recuo, horrorizado. “Claro que não. Pelo amor de Deus.”

“Exatamente.” A palma de sua mão move-se com carinho sobre meus dedos

frios. “Porque você não é como ele. Não importa quão bravo fique com alguém,não iria machucar essa pessoa.”

“Não é verdade. Já me envolvi em mais de uma briga no gelo”

, admito. “E, uma

vez, soquei um cara no Malone’s, mas foi porque ele disse alguma merda sobre a

mãe do Archie, e eu não podia deixar meu amigo na mão.”

Ela suspira. “Não estou dizendo que você seja incapaz de violência. Todo mundo

é capaz. Estou dizendo que você não faria mal a alguém que ama. Pelo menos não

intencionalmente.”

Peço a Deus que esteja certa. Mas quando seu DNA vem de um homem que faz

mal às pessoas que ama, vai saber.

Eu começo a tremer, e sei que Eliza percebe, porque aperta minha mão

direita para firmá-la. “Para o carro”

, diz.

Franzo a testa de novo. Estamos bem num trecho escuro da estrada, e, muito

embora não haja outros carros à vista, não gosto da ideia de parar no meio do

nada. “Por quê?”

“Porque quero beijar você e não posso fazer isso enquanto seus olhos estão na

estrada.”

Um sorriso involuntário surge em meus lábios. Ninguém nunca me pediu para

encostar o carro para poder me beijar. Embora esteja exausto, chateado, triste e sei

lá mais o quê, a ideia de Eliza me beijando agora soa como o paraíso na terra.

Sem uma palavra, paro no acostamento, coloco em ponto morto e ligo o pisca

alerta.

Ela se aproxima e segura meu queixo. Seus dedos delicados acariciam minha

barba por fazer, então ela se inclina e me beija. Só um toque fugaz de seus lábios,

antes de se afastar de leve e sussurrar: “Você não é como ele. Nunca vai ser”. Seus

lábios fazem cócegas em meu nariz e beijam a pontinha. “Você é uma pessoa boa.”

Ela me dá um beijinho na bochecha. “Você é honesto, bom e compassivo.” Morde

de leve meu lábio inferior. “Quer dizer, não me leve a mal, às vezes você é um

idiota completo, mas é um tipo de idiotice tolerável.”

Não posso conter um sorriso.

“Você não é como ele”

, repete, com mais firmeza agora. “A única coisa que

vocês dois têm em comum é que os dois são jogadores de hóquei talentosos.

Parou aí. Você não é como ele.”

Nossa, como precisava ouvir isso. Suas palavras tocam aquele lugar aterrorizado

em meu coração, e, à medida que a pressão em meu peito se dissipa, seguro sua

cabeça por trás e a beijo com força. Minha língua penetra sua boca, e solto um

gemido feliz, porque ela tem gosto de frutas vermelhas e cheiro de cereja, e adoro

isso. Quero passar o resto da noite beijando essa mulher, o resto da vida, mas nãoesqueci de onde estamos no momento.

Relutante, interrompo o beijo — exatamente quando a mão dela baixa em

direção à minha virilha.

“O que você tá fazendo?”

, rouquejo, e em seguida gemo de novo, quando ela

esfrega meu pau dolorido por cima da calça.

“Qual é a sensação?”

Agarro sua mão para impedir seus movimentos. “Não sei se você tá ciente disso,

mas estamos dentro do carro, no acostamento.”

“Jura? Achei que estivéssemos num avião a caminho de Palm Springs.”

Engulo uma risada, que se transforma num chiado quando a mulher provocante

ao meu lado me acaricia de novo. Eliza aperta a cabeça do meu pau, e meu saco

se contrai, pequenas ondas de calor varando meu corpo. Ai, merda. Está longe de

ser a hora de fazer isto, mas tenho que saber se está tão excitada quanto eu e não

consigo conter minha mão quando ela desce até o seu joelho. Acaricio a pele

macia de sua coxa antes de deslizar a mão sob o vestido.

Encosto na calcinha e solto um gemido quando sinto o tecido úmido na palma

da minha mão. Está molhada. Molhada de verdade.

De alguma forma, consigo puxar a mão de volta. “Não podemos fazer isso.”

“Por que não?” Um brilho travesso se acende em seus olhos, o que não me

surpreende, porque estou descobrindo depressa que Eliza é super aventureira

quando confia em alguém e se permite baixar a guarda.

E ainda me surpreende que ela confie em mim.

“Qualquer um pode passar por nós.” Faço uma pausa significativa. “Até uma

viatura da polícia.”

“Então é melhor sermos rápidos.”

Num piscar de olhos, ela abre a minha calça e enfia a mão na minha cueca. Na

mesma hora, meus olhos reviram para o alto.

“Pro banco de trás”

, explodo.

Seus olhos se arregalam e, em seguida, se enchem de prazer. “Sério?”

“Porra, se a gente vai fazer isso, melhor fazer direito”

, respondo, com um

suspiro. “‘Mostre a que veio ou nem precisa vir’

, lembra?”

A rapidez com que se lança no banco de trás me faz gargalhar. Rindo, abro o

porta-luvas, pego uma tira de preservativos escondidos e me junto a ela.

Quando vê o que estou segurando, fica boquiaberta. “Camisinha? Tudo bem,

talvez eu esteja brava com isso, apesar de que, provavelmente, não deveria estar,

porque é muito útil agora. Mas, sério? Você tem camisinha no carro?”

Dou de ombros. “Claro. E se eu estiver dirigindo um dia e esbarrar com a Demi Rossi enguiçada na beira da estrada?”

Eliza bufa. “Entendi. Esse é o seu tipo então? Morenas peitudas com curvas de

sobra?”

Cubro seu corpo com o meu e apoio os cotovelos ao seu lado. “Não… Prefiro

loiras peitudas.” Enterro o rosto em seu pescoço e acaricio sua pele. “Uma em

especial. Que, aliás, também tem curvas de sobra.” Minhas mãos escorregam até

sua cintura. “E quadris minúsculos.” Deslizo-as por ela e aperto suas curvas. “E

uma bunda boa de pegar.” Enfio uma das mãos entre suas pernas. “E a buceta

mais apertada do planeta.”

Ela estremece. “Você tem uma boca tão suja.”

“É, mas você ainda me ama.”

Sua respiração falha. “Verdade.” Seus olhos verdes brilham para mim. “Eu te

amo.”

Meu coração quase explode enquanto essas três palavras maravilhosas pairam

entre nós. Outras meninas já me disseram isso antes, mas desta vez é diferente.

Porque é Eliza quem está falando, e ela não é qualquer menina. E porque sei

que, ao dizer que me ama, está falando de mim — Jughead —, e não da estrela do

time de hóquei da faculdade, nem do sr. Popular, nem do filho de FP Jones.

Ela me ama.

É difícil falar com o nó enorme que tenho na garganta. “Também te amo.” É a

primeira vez que digo a uma mulher que a amo, e a sensação não poderia ser

melhor.

Eliza sorri. Em seguida, puxa minha cabeça para me beijar, e, de repente, não

estamos mais falando. Levanto seu vestido e baixo as calças. Nem tiro a calcinha,

só empurro de lado, visto uma camisinha com uma das mãos e guio meu pau

para dentro dela.

Ela geme no instante em que a penetro. E não estava brincando quando falei

que é apertada. Ela me comprime feito um torno, e vejo estrelas, tão perto de

perder o controle que tenho que me esforçar para não chegar ao clímax.

Já transei com garotas dentro do carro antes.

Nunca tinha feito amor com uma.

“Você é tão linda”

, murmuro, incapaz de tirar os olhos dela.

Começo a me mover, morrendo de vontade de ir devagar e fazer isso durar, mas

estou dolorosamente ciente de onde estamos. Um bom samaritano — ou pior, um

policial — pode ver o Jeep e achar que precisamos de ajuda na estrada, e, caso

decida se aproximar, vai ter uma boa visão da minha bunda, os quadris metendo e

os braços de Eliza segurando minhas costas.Além disso, a posição restringe meus movimentos. Tudo o que posso fazer é dar

estocadas rápidas e superficiais, mas Eliza não parece se importar. Produz os

ruídos mais sensuais à medida que me mexo dentro dela, suspiros sussurrados e

gemidos trêmulos, e, quando acerto um lugar específico, geme tão alto que tenho

que apertar minha bunda para não gozar. Posso sentir o orgasmo se aproximando,

mas quero que ela goze também. Quero ouvi-la gritar e me apertar com espasmos

em volta do meu pau.

Coloco a mão entre nós, com o polegar em seu clitóris, esfregando de leve.

“Mostra pra mim, gata”

, sussurro em seu ouvido. “Goza pra mim. Quero ver você

gozando no meu pau.”

Ela aperta os olhos com força, os quadris se erguendo para atender minhas

estocadas apressadas, então grita de prazer, e gozo com tanta força que minha

visão falha e minha mente se parte em milhões de pedaços.

Quando o prazer avassalador finalmente se dissipa, percebo a música que está

tocando.

Abro os olhos. “Você baixou One Direction de novo?”

Ela torce os lábios. “Não…”

“Aham. Então, por que está tocando ‘Story of My Life’?”

, pergunto.

Ela faz uma pausa, em seguida, solta um grande suspiro. “Porque gosto de One

Direction. Pronto. Falei.”

“Sorte a sua que te amo”

, aviso. “Senão nunca aceitaria isso.”

Eliza sorri. “Sorte a sua que eu te amo. Porque você é um idiota completo, e

não tem um monte de meninas por aí que aguentariam.”

Ela provavelmente tem razão quanto à parte do idiota.

E, sem dúvida, está certa quanto à sorte.



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