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História O Acordo - Hinny - Capítulo 11


Escrita por: Gi_Martiel

Capítulo 11 - Onze


Harry 





Gina aparece lá pelas cinco, usando casacão grosso com capuz de pele e luvas vermelhas berrantes. Na última vez que olhei pela janela, não havia um floco de neve no chão, mas agora estou me perguntando se rolou uma nevasca durante a minha soneca e nem reparei.


— Você tava no Alasca?— pergunto, enquanto ela abre o zíper do casaco imenso.


— Não.— Suspira. — Não consegui achar meu outro casaco, então saí com o de inverno. Achei que pudesse ter deixado aqui.— Ela olha ao redor do quarto. — Mas acho que não. Droga. Tomara que não tenha esquecido na sala de ensaio. Tenho certeza de que uma daquelas calouras vai pegar. E amo aquele casaco.


Solto um riso contido. 


— E qual é a desculpa para as luvas?


— Minhas mãos tavam frias.— Ela ergue a cabeça para mim. — Qual é a sua para o gelo?


Percebo que ainda estou segurando um saco de gelo na lateral direita do corpo, onde o gigante do Greg Braxton me atropelou. Estou todo roxo, e Gina leva um susto quando levanto a barra da camiseta para mostrar o hematoma do tamanho de um punho na minha pele.


— Ai, meu Deus! Foi no jogo?


— Foi.— Levanto da cama e vou até a escrivaninha pegar os livros de ética. — O St. Anthony tem o Incrível Hulk no time. Ele adora espancar a gente.


— Não acredito que você submete o seu corpo a isso por vontade própria—ela se admira. — Não vale a pena, vale?


— Vale. Vai por mim, uns arranhões e umas contusões não são nada comparados à emoção de estar no gelo.— Olho para ela. — Sabe andar de patins?


— Não. Quer dizer, já andei. Mas no geral fico só girando em círculos na pista. Nunca tive que segurar um taco nem correr atrás de um disco.


— É isso que você acha que é o hóquei?— pergunto, com um sorriso. — Segurar um taco e correr atrás de um disco?


— Claro que não. Sei que tem um monte de habilidades envolvidas, e sem dúvida é intenso de assistir— admite.


— É intenso de jogar.


Ela senta na beira da cama, deitando a cabeça com curiosidade. 


— Você sempre quis jogar? Ou foi seu pai que o empurrou para o hóquei?


Fico tenso. 


— O que faz você pensar isso?


Gina dá de ombros. 


— Alguém me disse que seu pai é uma espécie de celebridade do hóquei. Sei que tem um monte de pais por aí que obrigam os filhos a seguirem seus passos.


Meus ombros se enrijecem ainda mais. Estou surpreso de que ela não tenha falado no meu pai até agora, duvido que haja alguém na Briar que não saiba que sou filho de Phil Potter, mas também me espanto pela sua perspicácia. 


Ninguém nunca me perguntou se gosto mesmo de jogar hóquei. Todo mundo simplesmente presume que amo o esporte porque meu pai foi jogador.


— Ele acabou me empurrando sim.— confesso, com uma voz rouca. — Antes do primeiro ano do fundamental, já sabia andar de patins. Mas continuei jogando, porque amo o esporte.


— Isso é bom— diz ela, baixinho. —É importante fazer o que se ama.


Tenho medo que ela faça mais perguntas sobre meu pai, então limpo a garganta e mudo de assunto. 


— E aí, por qual filósofo devemos começar... Hobbes ou Locke?


— Você escolhe. Ambos são incrivelmente chatos.— Solto uma risada. 


— Muito animador, Weasley.


Mas ela tem razão. A hora seguinte é brutal, e não apenas por causa das teorias supermaçantes. Estou morrendo de fome, porque dormi na hora do almoço, mas me recuso a terminar a sessão até ter dominado o assunto. 


Quando estudei para a primeira prova, me concentrei só nos pontos principais, mas Gina me faz examinar todos os detalhes. Também me obriga a reformular cada teoria, o que, tenho de admitir, me dá um controle maior do emaranhado de complexidades que estamos estudando.


Depois de repassarmos toda a matéria, Gina me faz perguntas sobre tudo o que li nos últimos dias e, satisfeita ao constatar que aprendi tudo, fecha o fichário.


— Amanhã a gente começa a aplicar as teorias a dilemas éticos de verdade.


— Acho uma boa.— Meu estômago ruge tão alto que praticamente sacode as paredes, e faço uma careta.


Ela deixa escapar uma risada. 


— Com fome?


— Faminto. Simas é quem cozinha aqui, mas hoje ele não está, então ia pedir uma pizza.— Hesito. — Quer me acompanhar? Comer algumas fatias e, quem sabe, assistir a alguma coisa?


Ela parece surpresa com o convite. Eu também me surpreendo, mas, para ser sincero, ter uma companhia viria bem a calhar. Dino e os outros caras foram a uma festa, mas não estava com vontade de me juntar a eles. E já terminei todas as leituras do curso, então não tenho nada para fazer hoje à noite.


— O que você quer ver?— pergunta ela, com cautela.


Aponto para a pilha de Blu-rays perto da TV.


— Blaise acabou de comprar todas as temporadas de Breaking Bad. Sempre penso em assistir, mas nunca tenho tempo.


— É o seriado do traficante de heroína?


— Fabricante de metanfetamina. Ouvi dizer que é demais.— Gina corre os dedos pelos cabelos. Parece relutante em ficar, mas igualmente relutante em ir.


— O que mais você tem para fazer hoje à noite?— pergunto. 


— Nada— responde, cabisbaixa. — Minha colega de alojamento vai dormir na casa do namorado, então ia acabar só vendo televisão mesmo.


— Pode fazer isso aqui.— Pego o celular. — Gosta de pizza de quê?


— Hmm... cogumelos. E cebola. E pimentão verde.


— Ah, todos os ingredientes sem graça?— Balanço a cabeça. — Vamos comer bacon, linguiça e queijo extra.


— Por que perguntou o que gosto se não vai pedir?


— Porque tava torcendo para você ter um gosto melhor.


— Não tenho culpa se você acha legumes uma coisa chata, Harry. Dá uma pesquisada em escorbuto e vem falar comigo depois, tá legal?


— Escorbuto é uma deficiência de vitamina C. Não dá para colocar luz do sol nem laranja em pizza, gata.


No final, cedo e peço duas pizzas, uma com os ingredientes maçantes de Gina, outra cheia de carne e queijo. Cubro o bocal do telefone e olho para ela. 


— Coca Zero?


— O que você acha que sou, fresca? Coca normal, por favor.


Rindo, termino de fazer o pedido e, logo em seguida, coloco o primeiro DVD de Breaking Bad. Vinte minutos depois, toca a campainha.


— Uau. É o entregador de pizza mais rápido da história.— comenta Gina.


Meu estômago não achou nada ruim. Desço até o primeiro andar e recebo a comida, em seguida, passo na cozinha para buscar papel-toalha e uma garrafa de Bud Light na geladeira. No último segundo, pego uma garrafa a mais, caso Gina queira.


Mas quando ofereço a ela no segundo andar, Gina balança a cabeça com veemência. 


— Não, obrigada.


— O quê, é certinha demais para tomar uma cerveja?


O desconforto cintila em seus olhos. 


— Não sou de beber muito, tá legal?


Dou de ombros e abro a minha garrafa, dando um gole profundo, enquanto Gina arranca uma folha do rolo de papel- toalha e puxa da caixa uma fatia gordurosa coberta de legumes.


Nós nos ajeitamos na cama para comer, os dois em silêncio, enquanto aperto play de novo. O episódio piloto é incrível, e Gina não se opõe quando passo para o seguinte.


Tem uma mulher no meu quarto e nenhum de nós está pelado. É estranho. Mas meio legal. Não falamos muito durante o seriado, estamos absortos demais com o que está acontecendo na tela, só que, quando o segundo episódio termina, Gina se vira para mim de queixo caído.


— Ai, meu Deus, imagina não saber que o marido está produzindo metanfetamina? Pobre Skylar.


— Com certeza ela vai descobrir.


Gina prende a respiração. 


— Ei. Sem spoilers!


— Não é um spoiler— protesto. — É um pressentimento.


Ela relaxa. 


— Certo, tudo bem, então.


Gina pega sua lata de Coca-Cola e dá um gole demorado. Já destruí minha pizza, mas a dela ainda está pela metade, então roubo um pedaço e dou uma mordida grande.


— Uhhhh, olha só quem não resistiu à minha pizza sem graça. Tem algum hipócrita aqui?


— Não é culpa minha que você coma feito um passarinho, Weasley. Não posso desperdiçar comida.


— Comi quatro fatias!


Tenho que admitir: 


— É, isso na verdade faz de você uma glutona completa se comparada às meninas que conheço. O máximo que comem é metade de uma entradinha de salada.


— Isso é porque precisam ficar magras feito um palito para caras como você as acharem bonitas.


— Não tem nada de atraente numa mulher que é só pele e osso.


— Aham, tenho certeza de que você não vê a menor graça em mulheres magras.


Reviro os olhos. 


— Não. Só estou dizendo que prefiro curvas. — Engulo a última mordida antes de pegar outra fatia. — Homem gosta de ter onde pegar quando... você sabe.— Arqueio as sobrancelhas para ela. — Mas vale para os dois lados. Quero dizer, você não preferiria pegar um cara musculoso do que um magrelo?


Ela solta um riso de desdém. 


— Esta é a parte em que devo elogiar seu corpo musculoso?


— Você gosta do meu corpo musculoso? Obrigado, gata.


— Não, você acha que tem um corpo musculoso. — Ela franze os lábios. — Mas você não deixa de estar certo. Não me sinto atraída por homens magros.


— Que bom que o seu gato tem tanquinho, então, né?


Ela suspira. 


— Quer parar de falar assim?


— Não.— Mastigo pensativo. — Vou ser sincero com você. Não sei o que viu nele.


— Por quê, porque não é o machão da faculdade? Porque é sério e inteligente e não um pegador desenfreado?


Merda, acho que ela caiu na do Conner. Se eu usasse chapéu, provavelmente tiraria o meu para ele, por ter sido tão bem- sucedido em criar um personagem que enlouquece as mulheres, o atleta nerd.


— Conner não é o que parece.— digo, bruscamente. — Sei que passa por atleta misterioso e inteligente, mas tem algo...duvidoso nele.


— Não vejo nada duvidoso nele.— discorda.


— Claro, porque vocês dois já tiveram uma infinidade de conversas profundas e significativas— rebato. —Vai por mim, é só uma máscara.


— Eu discordo.— Ela sorri. — Além do mais, você não está em posição de julgar em quem estou interessada. Pelo que ouvi, só namora garotas vazias.


Sorrio de volta. 


— Aí é que você se engana.


— Ah, é?


— É. Só durmo com garotas vazias. Não namoro ninguém.


— Galinha.— Ela faz uma pausa, a curiosidade estampada em seu rosto. — Por que você não namora? Tenho certeza de que todas as garotas da faculdade matariam para ser sua namorada.


— Não estou à procura de um relacionamento.— 

Isso a surpreende. 


— Por que não? Relacionamentos podem valer muito a pena.


— Disse a solteira.


— Estou solteira porque não encontrei ninguém com que me conectasse, não porque sou contra a ideia de ter um relacionamento. É bom ter alguém pra passar o tempo. Sabe, para conversar, abraçar, todas essas coisas meladas. Você não quer isso?


— Um dia. Mas agora não.— Abro um sorriso convencido. — Se algum dia sentir a necessidade de conversar com alguém, tenho você.


— Ah, então suas garotas vazias ficam com o sexo, e eu tenho que aturar sua tagarelice?— Ela balança a cabeça. — Estou me sentindo no prejuízo nesse negócio. Coitada de mim.


Arqueio as sobrancelhas. 


— Ah, você quer o sexo também, Weasley? Fico feliz em oferecer para você.


Suas bochechas se coram do tom de vermelho mais vivo que já vi, e começo a rir.


— Relaxa. Tô brincando. Não sou tão burro assim de dormir com a minha professora particular. Vou acabar te fazendo sofrer, aí você vai me ensinar a matéria errado e vou mandar mal na prova.


— De novo— corrige ela, com gentileza. — Vai mandar mal na prova de novo.


Levanto o dedo do meio, mas estou sorrindo ao fazê-lo. 


— Você precisa ir ou posso botar o terceiro episódio?


— Terceiro episódio. Claro.


Nós nos acomodamos na cama mais uma vez, eu de barriga para cima com a cabeça em três travesseiros, Gina de bruços, ao pé da cama. O episódio seguinte é intenso, e, assim que acaba, estamos ansiosos para assistir ao próximo. Quando me dou conta, acabamos o primeiro disco e estamos passando para o segundo. Entre um suspense e outro, discutimos o que acabamos de ver e fazemos previsões. E, para ser sincero, não me divirto de um jeito assim platônico com uma menina desde... bom, nunca.


— Acho que o cunhado está desconfiando.— divaga Gina.


— Tá brincando? Aposto que vão guardar essa revelação pro final. Mas acho que Skylar não vai demorar pra descobrir.


— Tomara que peça o divórcio. Walter White é um cretino. Sério mesmo. Odeio o cara.


Dou risada. 


— Ele é um anti-herói. Foi feito para você odiar.


O episódio seguinte começa, e ficamos em silêncio na mesma hora, porque é o tipo de seriado que exige sua total atenção. Em dois tempos, chegamos ao último episódio da primeira temporada, que termina com uma cena que deixa nós dois com os olhos arregalados.


— Puta merda.— exclamo. — Acabamos a primeira temporada.


Gina morde o lábio e dá uma olhada no despertador. São quase dez horas. Acabamos de assistir sete episódios sem uma pausa para ir ao banheiro.


Achei que ia dizer que é hora de ir embora, mas em vez disso ela suspira e pergunta: 


— Você tem a segunda temporada?


Não posso controlar o riso. 


— Você quer continuar assistindo?


— Depois desse final? Como não assistir?— Não deixa de ser verdade.


— Só o primeiro— implora ela. — Você não quer ver o que acontece?


Claro que quero, por isso não me oponho quando ela se levanta para colocar o próximo disco. 


— Quer fazer um lanche ou algo assim?— ofereço.


— Pode ser.


— Vou ver o que temos.


Acho dois pacotes de pipoca de micro-ondas no armário da cozinha, faço os dois e volto com duas tigelas de pipoca nas mãos. Gina roubou meu lugar, o cabelo ruivo esparramado na minha pilha de travesseiros, as pernas esticadas à sua frente. As meias de bolinhas vermelhas e pretas me fazem sorrir. Reparei que não usa roupas de grife ou de patricinha como a maioria das meninas na faculdade, nem as roupas de festa ousadas comuns nas fraternidades e nos bares do campus nos fins de semana. Gina gosta de calça jeans skinny, leggings e suéteres justos, o que ficaria elegante, se ela não combinasse sempre com alguma coisa de cor chamativa. Como as meias, ou as luvas, ou aqueles grampos de cabelo engraçados de que ela gosta.


— Uma dessas é para mim?— Ela aponta para as tigelas que estou segurando. 


— É.— Passo para ela. 


Gina se ajeita, enfia a mão na tigela e ri. 


— Não consigo comer pipoca sem lembrar do Napoleão.


Pisco, confuso. 


— O imperador?


Ela ri mais ainda. 


— Não, meu cachorro. Quero dizer, o nosso cachorro, da minha família. Mora em Indiana, com meus pais.


— Que tipo de cachorro?


— Um vira-lata enorme, cruza de um zilhão de raças, mas lembra um pouco um pastor-alemão.


— E o Napoleão gosta de pipoca?— pergunto educadamente.


Ela sorri. 


— Adora. Nós o pegamos quando era filhote, e teve uma vez... Eu tinha uns dez anos, e meus pais haviam me levado ao cinema. Ele abriu os armários enquanto estávamos fora e conseguiu tirar uma caixa de pacotes de pipoca de micro-ondas. Devia ter uns cinquenta pacotes lá dentro. Minha mãe gosta de uma promoção e, sempre que tem alguma coisa com o preço bom, ela compra a prateleira inteira. Acho que aquele mês foi algum tipo de pipoca gourmet. Juro que o cachorro comeu todos os pacotes, até a embalagem. Passou dias colocando caroço de milho e pedaço de papel para fora.


Dou uma risada.


— Meu pai ficou louco— continua ela. — Achou que Napoleão ia ter uma intoxicação alimentar ou algo assim, mas o veterinário disse que não era nada demais e que um dia ia acabar saindo tudo.— Ela faz uma pausa. — Você tem algum animal de estimação?


— Não, mas meus avós tinham uma gata quando eu era criança. O nome dela era Peaches, e era louquinha de pedra.— Enfio um punhado de pipoca na boca e rio ao mastigar. — Era carinhosa comigo e com a minha mãe, mas odiava meu pai. O que não é uma surpresa, acho. Meus avós também o odiavam, então ela deve ter percebido. Mas, cara, como aterrorizava o velho.


Gina sorri. 


— O que ela fazia?


— Arranhava sempre que podia, mijava nos sapatos dele, esse tipo de coisa.— De repente, desato a rir. — Ai, merda, a melhor coisa que ela fez? Era dia de Ação de Graças, e estávamos na casa dos meus avós, em Buffalo. Todo mundo reunido à mesa, prestes a comer, quando Peaches entra pela portinhola de gato. Logo atrás da casa tinha um barranco, e ela costumava rondar por lá. Enfim, ela entra pela casa trazendo uma coisa na boca, mas ninguém consegue ver o que é.


— Meu Deus. Isso não tá cheirando bem.


Estou sorrindo tanto que minhas bochechas doem. 


— Peaches salta em cima da mesa como se fosse a rainha da cocada ou sei lá o quê, caminha ao longo da beirada e despeja um coelho morto no prato do meu pai.


Gina arqueja. — Sério? Que nojo!


— Meu avô se escangalhou de rir, minha avó teve um treco porque achou que toda a comida em cima da mesa tinha ficado contaminada, e meu pai...— Meu humor desaparece, quando lembro o olhar no rosto dele. — Vamos apenas dizer que não ficou muito satisfeito.


Eufemismo do ano. Um arrepio corre por minha espinha à medida que vou me lembrando do que aconteceu quando voltamos para Boston, alguns dias depois. O que fez com minha mãe como punição por “envergonhá-lo”, conforme a acusou durante seu ataque de raiva.


A única coisa positiva é que minha mãe morreu um ano depois. Não estava lá para testemunhar quando ele voltou sua raiva contra mim, e sou grato por isso todos os dias da minha vida.

Ao meu lado, Gina também fica sombria. 


— Não vou encontrar meus pais no dia de Ação de Graças.


Olho para ela, avaliando seu rosto. É óbvio que está chateada, e sua confissão me distrai das memórias esmagadoras apertando meu peito. 


— Você costuma ir para casa?


— Não, passamos as férias na casa da minha tia, mas este ano meus pais não podem pagar a passagem, e eu... não posso bancar uma viagem para a casa deles.


Parece estar escondendo alguma coisa, mas não consigo imaginar sobre o que estaria mentindo.


— Não tem problema— murmura, ao notar o olhar de simpatia em meu rosto. — Sempre tem o Natal, não é?


Faço que sim, embora, para mim, não existam esses feriados. Prefiro cortar os pulsos a voltar para casa e passar as festas com meu pai.

Coloco minha tigela de pipoca na mesa de cabeceira e pego o controle remoto. 


— Pronta para a segunda temporada?— pergunto, casualmente. A conversa ficou muito pesada, e estou ansioso para mudar de assunto.


— Manda ver.


Desta vez, sento ao lado dela, mas ainda tem uns sessenta centímetros entre a gente. É estranho como estou gostando disso, passar o tempo com uma garota sem me preocupar sobre como vou me livrar dela ou sobre as exigências que ela logo vai começar a fazer.


Assistimos ao primeiro episódio da segunda temporada, e ao segundo, terceiro... e, quando dou por mim, são três da manhã.


— Ai, merda, que horas são?— Gina deixa escapar. Assim que termina de falar, um enorme bocejo se abre em seu rosto.


Esfrego os olhos cansados, incapaz de entender como pode ter ficado tão tarde sem nenhum um de nós perceber. Assistimos literalmente a uma temporada e meia da série numa sentada só. 


— Merda.— murmuro.


— Não acredito que já é tão tarde.— Ela boceja de novo, o que desencadeia um bocejo em mim, e, em pouco tempo, estamos os dois sentados no meu quarto escuro, não me lembro de ter desligado a luz, bocejando feito duas pessoas que não dormem há meses. — Tenho que ir.— Ela tropeça para fora da cama e ajeita o cabelo com as mãos. — Onde tá meu celular? Preciso chamar um táxi.


Meu próximo bocejo quase quebra meu maxilar. 


— Levo você— digo, grogue, escorregando para fora da cama.


— De jeito nenhum. Você bebeu duas cervejas.


— Horas atrás— argumento. — Estou bem para dirigir.


— Não.


Deixo a irritação tomar conta de mim. 


— Você não vai entrar num táxi e andar pelo campus às três da manhã, de jeito nenhum. Ou eu levo você ou você fica aqui.


Ela parece assustada. 


— Não vou ficar aqui.


— Então eu levo você. Sem discussão.


Seu olhar recai sobre as duas garrafas de Bud na mesa de cabeceira. Sinto sua relutância, mas também vejo o cansaço encobrindo suas feições. Depois de um instante, ela relaxa os ombros e deixa escapar um suspiro. 


— Tudo bem. Durmo no sofá.


Balanço a cabeça depressa. 


— Não. Melhor dormir aqui.


Foi a coisa errada a se dizer, porque ela fica mais rígida do que um poste. 


— Não vou dormir no seu quarto.


— Moro com três jogadores de hóquei, Weasley. Que, aliás, ainda não chegaram em casa de uma noitada. Não estou dizendo que alguma coisa vá acontecer, mas há uma chance de um deles, sei lá, tropeçar bêbado na sala e passar a mão em você se a achar no sofá. Eu, por outro lado, não tenho o menor interesse em passar a mão em você.— Aponto para a cama enorme. — Cabem sete nessa coisa. Você nem vai reparar que estou aqui.


— Um cavalheiro se ofereceria para dormir no chão, sabe?


— Pareço um cavalheiro para você?


Ela ri disso. 


— Não.—  Há um momento de silêncio. — Certo, vou ficar aqui. Mas só porque mal consigo manter os olhos abertos, e realmente não quero ter que esperar por um táxi.


Vou até minha cômoda. 


— Quer alguma coisa para dormir? Camiseta? Moletom?


— Uma camiseta seria ótimo. — Mesmo na escuridão, posso senti-la corando. — Você tem uma escova de dentes sobrando?


— Tenho. No armário embaixo da pia.— Entrego uma camiseta velha a ela, e Gina desaparece no banheiro.


Tiro a camisa e a calça jeans e entro na cama de cueca. Ao me ajeitar para dormir, ouço a descarga e a torneira da pia ligar e desligar. Em seguida, Gina volta, os pés descalços batendo suavemente no piso de madeira. Fica parada ao lado da cama por tanto tempo, que acabo resmungando de irritação.


— Dá para deitar na cama logo?— reclamo. — Não mordo. E mesmo que mordesse, estou quase dormindo. Então para de ficar aí me olhando feito uma doida e vem dormir.


O colchão afunda ligeiramente à medida que ela sobe na cama. Sinto um puxão no cobertor, um farfalhar de lençóis e um suspiro, e Gina está deitada ao meu lado. Bem, não exatamente. Está lá do outro lado da cama, no mínimo agarrada à beirada do colchão, para não cair.


Estou cansado demais para fazer uma observação sarcástica, então apenas murmuro: 


— Boa noite— e fecho os olhos de novo.


— Boa noite— ela sussurra de volta.


Poucos segundos depois, estou morto para o mundo.



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