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História O Alcance da Promessa - Naruhina - Capítulo 15


Escrita por:


Notas do Autor


Olá, leitores, aqui está um cap que vai abalar as estruturas. Espero realmente que gostem. Boa leitura!

Capítulo 15 - O segredo


Por Naruto: 

O portal que separava o orfanato do restante do mundo era como um túnel do tempo, à minha frente. Por muito tempo eu quis cruzar aqueles limites, na infância, ansioso para conhecer o que a vida reservava para mim aqui fora. Mal sabia eu que a vida lá dentro era bem mais agradável. Não que eu seja ingrato pelo que tenho, hoje. Mas a vida adulta, em si, era um saco! As preocupações de agora nem se comparavam às da infância. Quando passei pela guarita, senti um calafrio me percorrer. Aquele lugar era tão nostálgico! Conforme olhava para cada parte, me recordava fazendo arte em tais lugares. A sala da Tsunade-sama era quase minha segunda sala de aula. Estava escuro, mas eu conseguia distinguir perfeitamente cada parte. Hinata parecia um pouco aflita ao longo do caminho, e ainda mais quando chegamos. Sua preocupação com seu aluno era evidente. De certa forma, aquilo me fazia admirá-la ainda mais. Ela sempre fora tão cuidadosa com as pessoas à sua volta, sua profissão parecia cair-lhe perfeitamente bem. Ela abriu a porta da sala que costumava ser de Tsunade-sama, mas que agora havia pertences de outra pessoa. Eram da irmã caçula de Hinata. Haviam fotos da família Hyuga espalhadas por todo o local. Inclusive uma em que Hanabi estava com um rapaz que me seguia pelo orfanato, quando pirralho. Konohamaru era poucos anos mais novo que eu. Possivelmente ele e Hanabi tinham a mesma idade. Pela imagem, eles pareciam ser um casal. Ele fora uma criança muito hiperativa, sendo sempre o alvo das implicâncias dos meus amigos, por ser baixinho. Imaginá-lo agora com uma namorada no nível de Hanabi era engraçado. Mas eu não tinha nenhuma moral para tal pensamento. Nunca mereci Hinata e mesmo assim sempre quis estar com ela. 

Hanabi estava sentada num pequeno sofá de couro. O menino tinha a cabeça deitada em seu colo. Os olhos bem abertos e cheios de lágrimas. 

- Kami do céu! – Hanabi exclamou, me olhando estupefata – Vocês são muito iguais! 

Hinata encolheu-se, escondendo o riso. Não sei se viu graça na reação de Hanabi ou se estava realmente me comparando com a criança. Também concordei que éramos parecidos, mas não tanto quanto elas começaram a comentar. Os cabelos eram loiros e desajeitados como eu costumava usar, na infância, mas os dele eram mais finos. Tínhamos a mesma tonalidade de azul nos olhos. E isso foi tudo o que eu pude perceber de semelhança. A criança levantou-se exasperadamente e foi para os braços de Hinata, afundando o seu rosto no colo dela. Seu choro era silencioso, mas incessante.  

- Hina-oba-san, eu não quero ficar aqui. Me leva para casa com você. – ele implorava. 

Ouvir a súplica daquele menino era lembrar-me exatamente do dia em que conversei com a Tsunade-obaa-chan. Aquele seu pedido fora algo latente em minha mente, durante a infância. Assim como ele, eu odiava estar preso no orfanato. Queria sair dali de qualquer forma, apesar de estar mais habituado com a vida ali dentro, diferente dele. 

- Gun, escute aqui – ela abaixou-se para ficar da altura dele – Esse é o seu novo lar. É aqui onde você vai crescer, fazer amigos, e vai estar sempre na minha companhia e na da Hanabi, até uma linda família adotar você. Eu não sei por onde você esteve, ou aonde morava antes de chegar aqui, mas saiba que você está seguro, agora. – ela beijou a testa do garoto que olhava fixamente para suas duas pérolas cintilantes, concentrado e nitidamente mais tranquilo – Eu geralmente não durmo aqui, mas estarei com você todos os dias, na sala de aula, eu prometo. 

- Mas, Hina-san... – Gun entristeceu-se – Se você não ficar comigo, ele vai vir me pegar. 

- Te pegar? – Hinata deu um riso contido – Monstros não existem, Gun. E nem fantasmas. Não precisa ter medo. 

- O monstro que eu falo existe sim! – ele bradou, firme. Os olhos voltando a despejar lágrimas, timidamente – Ele dizia que era meu pai, mas me deixou aqui, e depois me disse que eu não tinha pai e nem mãe. 

Hanabi e Hinata se entreolharam, assustadas. Prontamente, Hanabi pegou uma pasta em sua mesa e começou a fazer algumas anotações. 

- Está falando do Haruki-san? – Hanabi o indagou, parecendo ter despertado subitamente da fadiga que estava sentindo, até então – O homem que te trouxe aqui, Gun? Ele que dizia ser o seu pai? 

- Sim. Mas o nome dele não é esse. – O menino respondeu, um pouco receoso. 

- E qual é o nome dele, Gun? – Hinata o questionou, depositando um carinho na cabeça da criança chorosa. 

- E-eu... não sei se posso dizer... – Gun chorou com mais força – Ele disse que se eu falasse sobre isso, ele iria... me matar... 

Hinata pareceu engolir em seco. Hanabi tentava nitidamente forçar uma feição séria, disfarçando o abatimento com a declaração de Gun. Até mesmo eu, quase senti o meu coração parar. Aquela criança estava claramente sob ameaça. 

- Eu não quero ficar aqui, Hina-chan... – ele soluçava, entre os braços de Hinata – ele sabe que estou aqui e vai voltar para me buscar. Eu não quero ir com ele... Jens-san é muito mau! 

- Jens? – indaguei, surpreso – Mas ele é daqui? 

Vi que estraguei tudo, quando o garoto me olhou de esguelha e retraiu-se novamente. Hanabi me encarou bufando, chateada. Gun ficou assustado comigo, pois nem ao menos me conhecia. E eu acabei ali com todo o progresso que elas estavam tendo com ele, naquele momento. Mas foi tão automático questioná-lo, que simplesmente não pensei que faria mal. Jens não era um nome nada comum, por ali. Era dinamarquês. E isso era muito curioso. 

- Gun, me desculpa tá? – falei docilmente, abaixando-me para encará-lo. – É que eu conheço alguém com o mesmo nome, que mora muito longe. E por ser um nome incomum, eu só fiquei surpreso. 

- Quem é você? – o menino perguntou, ainda agarrado em Hinata, com receio. 

- Eu sou o Naruto. – sorri, estendendo-lhe a mão. Gun olhou para o meu gesto, ainda temeroso, sem conseguir decidir se a apertava ou não. 

- O Naruto é legal, Gun – Hinata declarou, incentivando-o a confiar em mim – Ele costumava ser o meu melhor amigo quando eu vivi aqui no orfanato. 

- Você também viveu aqui? – Gun perguntou, subitamente mais animado. 

- Ela e eu vivemos. – Afirmei, tomando a sua atenção para mim – E assim como nós tivemos momentos incríveis aqui dentro, você também terá, Gun – declarei para ele, vendo um tímido sorriso brotar em seus lábios. Gun então cerrou o punho e o bateu levemente em minha mão, cumprimentando-me. – Quando eu tinha o seu tamanho, eu era louco para ir embora do orfanato, assim como você. Mas hoje, aonde eu estou, não é tão divertido quanto costumava ser aqui. Na verdade, a minha vida era, de longe, bem melhor antes de eu ir embora. – Olhei para Hinata, de relance – Eu tive muita sorte de ter vindo para cá em minha infância, Gun. Eu fiz os melhores amigos da minha vida e conheci uma pessoa tão importante que fez toda a minha existência ter sentido. 

Hinata me encarou por breves segundos, desvencilhando-se de meus olhos, logo em seguida. Assisti a seu rosto enrubescer, ao passo que seu sorriso sumia. 

- Ual! – Gun bradou, entusiasmado – E essa pessoa é a Hinata-oba-san, não é? 

- Gun! – Hinata repreendeu-o, muito enrubescida. Aquilo me fez rir, internamente. Era provável que o efeito do álcool em Hinata já havia passado. 

- Você devia se casar com ela, Naruto. Não está vendo o quanto ela é linda? – Gun declarou, sorridente. 

- Gun, pare, por favor! – Hinata insistia na repreensão, com a vergonha cobrindo sua face cada vez mais. 

- Estou vendo sim, Gun. – afirmei, olhando fixamente para aqueles olhos perolados encantadores – Ela é realmente perfeita! 

- E aí, então, vocês podiam me adotar – ele declarou, com o sorriso mais forçado que eu já vira. O resultado disso foi a minha gargalhada alta em profusão com o profundo suspiro de pesar, de Hinata. Aquilo estranhamente parecia tê-la incomodado muito. 

 

Por Hinata: 

Ser constrangida pelas coisas que Gun falava não era nada perto da preocupação que estava me tomando por inteira. Gun ficava tranquilo quando tinha outros adultos por perto, mas ficava alarmado quando se sentia só. Era por isso que encontrava dificuldades para dormir. O pior era ver que isso o incomodava involuntariamente. A história de Gun era um verdadeiro mistério. Ele fora trazido por um homem que dizia o ter encontrado na rua, sem registros e documentos. Mas agora essa história não era mais algo em que se podia confiar. Precisávamos tirar de Gun, com cautela, todas as informações que pudéssemos, para investigar. Seria necessário tomarmos muito cuidado quanto à segurança dele e, algo dentro de mim me fazia sentir que era meu dever intervir nessa questão. 

- Hanabi, podemos conversar lá fora um instante? – Indaguei para a minha irmã caçula que já quase cochilava no sofá, depois que Naruto e Gun pareceram se tornar os melhores amigos do mundo. 

- Ah... claro! – Ela despertou, num salto – Vamos lá. 

- Pode ficar aqui com ele, por enquanto, Naruto? – perguntei, sem conseguir encará-lo. 

- Claro que sim! – ele respondeu, sem perder a atenção do menino que lhe mostrava alguns golpes de taekwondo que aprendera recentemente no clube de artes marciais. 

Puxei Hanabi para fora da sala, fechando a porta atrás de mim. Ela tentava permanecer atenta para me ouvir, mas sua feição sonolenta já denunciava a sua indisposição. Seus olhos me pediam para ser breve. 

- Hanabi, eu sei que isso quebraria o protocolo, mas não acho seguro o Gun ficar aqui, depois do que ele disse. 

- Eu pensei na mesma coisa. Ele ficar aqui só poria as outras crianças em risco. – Ela suspirou, deixando evidente o seu cansaço físico e mental – Mas onde ele poderia ficar, Hinata? 

- Em casa, comigo e o papai. – respondi, deparando-me com o olhar duvidoso de Hanabi, que pendia mais para desacreditado. 

- Acha que ele vai concordar com isso? 

- Acho que ele não iria se importar, ainda mais agora que quase não tem dormido em casa – falei, observando seus traços receosos – Inclusive, acho que se o Gun estiver lá, comigo, ele se sentirá mais seguro e então irá colaborar mais no processo da investigação. Isso não pode ficar assim, Hanabi. Ele está sob ameaça, não podemos ficar sem fazer nada a respeito. 

- Quanto ao protocolo, acho que Tsunade-sama concordaria em não seguí-lo, nesse caso. O Gun não tem documentos, então ele tecnicamente não está regulamentado no orfanato. Nós simplesmente o abrigamos aqui, até que a burocracia para registrá-lo seja resolvida. Mas por hora, leve-o para casa, sim. Até porque ele precisa descansar, e eu também – ela declarou essa última revirando os olhos cansados. – Ele não vai nos dar sossego, enquanto estiver aqui. Ainda mais agora que devemos ficar mais atentos a ele. Qualquer coisa que acontecer, ou se ele contar mais alguma coisa, você deve ligar para mim. 

- Hai. – respondi, mostrando-me confiável para ela. 

Abri novamente a porta, e surpreendi-me antes mesmo de adentrar à sala. As risadas de Gun e Naruto eram tão altas que cheguei a me assustar, ao ouvi-las. Contudo, me assustei ainda mais ao vê-los. Naruto segurava Gun pelas pernas, mantendo-o de cabeça para baixo. Os dois pareciam se divertir tanto que quase hesitei interrompê-los. 

- Gun... o que você acha de ir para a minha casa? – perguntei. 

- Nani? Ta falando sério, Hina-oba-san? – Ele indagou, maravilhado – Mas é claro! 

- Então vamos para o dormitório arrumar suas coisas porque você irá passar um bom tempo comigo. – eu disse, estendendo minha mão para ele. 

- O Naruto pode ficar lá conosco também? – Gun perguntou, unindo sua mão à minha. 

- Ér... – meneei, sem jeito, oscilando entre um Naruto de sorriso torto e o olhar pidão de Gun – Eu acho que o Naruto tem outros deveres, Gun. 

- Não tenho não. – Naruto prontamente interviu, me encarando com um sorriso presunçoso – Na verdade, eu adoraria passar esse tempo com vocês! 

- Isso! – Gun vibrou, comemorando, enquanto eu tentava conter minha indignação com aquele atrevimento de Naruto. 

- Naruto... Você não pode fazer isso! – declarei, irritada. 

- Por que ele não pode ir, Hina-san? – Gun indagou, entristecido – Você não vai deixar ele ficar na sua casa? 

- É, Hinata...? – Naruto começou, remendando o questionamento de Gun – Não vai me deixar ficar na sua casa? 

- Naruto! – O repreendi, brava – Esqueceu que sua noiva está hospedada na mansão? Vai ser um ordinário e simplesmente deixa-la sozinha? 

- Sim – ele afirmou, tranquilamente – Mais alguma objeção que me impeça de passar uns dias com você? 

- Se mandem logo! – Hanabi interveio, impaciente – Eu preciso dormir. 

- Tudo bem, já estamos indo. – Suspirei fundo, retirando-me da sala com Gun, e Naruto no meu encalço. 

O trajeto até minha casa foi repleto de surpresas. Descobri que Gun e Naruto tinham mais em comum do que só a aparência física. Os dois eram loucos por artes marciais, música, e tinham as mesmas expressões faciais quando se empolgavam, ao falar de algum assunto de seus interesses. Possuíam tantas semelhanças que chegava a ser bizarro. O lado bom de todo esse transtorno em que Naruto me pusera, indo conosco para casa, era que Gun teria a sua companhia, e esta parecia lhe fazer muito bem. Na breve e profunda relação que eles haviam firmado, eu percebi que Naruto ainda era, em parte, a mesma criança travessa e sonhadora que conheci. Assistir aos dois interagindo era como estar diante de duas fases da vida de uma mesma pessoa. Eles eram idênticos. E eu precisava admitir que, com Naruto por perto, eu ficaria bem mais tranquila quanto à segurança de Gun. 

Meu pai não estava em casa, quando chegamos. Ultimamente ele vinha dormindo fora, às vezes, sem dar muitas explicações de seu paradeiro. Hanabi e eu o enchíamos de perguntas e das mais diversas insinuações pervertidas. E tudo para o senhor Hiashi-sama se resumia a uma mínima declaração que dizia se tratar de “assuntos pessoais”. Até que Neji soltou, certa vez, que o viu com a Kurenai-sama num restaurante às onze da noite. Desde então tudo o que fizemos foi importuná-lo para que finalmente admitisse que eles estavam saindo. A ideia era tão boa, para mim, que me lembrei de uma vez, na infância, em que desejei que Kurenai fosse minha madrasta, ou mãe adotiva, sem ao menos saber que Hiashi era meu pai. Muita coisa havia mudado, depois de tantos anos. Me apeguei tanto àquele senhor carrancudo que nos tornamos unha e carne, depois de um início conturbado que tivemos. Eu agora o chamava de pai, com todo o gosto. E eu o amava infinitamente. 

Pedi à Mariko, nossa governanta, que preparasse um quarto para Gun. E com tal feito, me arrependi amargamente daquele pedido. Pois ao ver que se tratava de uma criança, ela me perguntou se podia hospedá-lo no quarto infantil, que foi projetado há quase nove anos, ao lado do meu. Eu tinha certeza que Gun realmente se sentiria bem naquele quarto, construído e planejado com tanto amor. Mas pensar em alguém dormindo ali, sem ser a criança que realmente deveria ocupar aquele aposento, era doloroso demais. Eu não sei por que razão pedi que mantivessem aquele quarto intacto, todos esses anos. Todos me aconselharam a desmontá-lo. Meu pai, Hanabi, Neji, Sakura, e até Kiba. Talvez se eu os tivesse ouvido, teria sofrido menos. Talvez não. Mas manter aquele quarto sempre arrumado era como sentir a presença da parte de mim que faltava. Por fim, concordei com Mariko em permitir que Gun ficasse lá. Contudo, ele se recusou a dormir sozinho. Tomou banho e foi se deitar em minha cama, na companhia de Naruto, enquanto eu preparava seu lanche na cozinha. Subi as escadas já sentindo o meu corpo pesar com todo o cansaço. Eu ainda não tinha descansado desde o dia anterior. Adentrei em meu quarto e me surpreendi com a serenidade em que os dois se mantinham, por sobre a cama. Gun estava quase pegando no sono, enquanto Naruto lhe contava uma história. Pus a bandeja por sobre a cômoda, dando-me por vencida que Gun não iria mais comer àquela hora. 

- Hina-oba-san, vem pra cá – Gun me chamou, nitidamente sonolento – O Naruto está me contanto uma história incrível. 

Sob o olhar curioso que Naruto me lançava, nas minhas vestes de dormir, fui até o outro lado da cama, juntar-me a eles. Ficamos deitados, os três. Gun no meio de nós, ouvindo atentamente cada palavra de Naruto. Eu não sabia discernir o que eu senti, naquele momento. Ponderava entre alegria e tristeza, se é que era possível mesclar esses dois sentimentos tão contraditórios. Ver Naruto ali, tão paternal, com Gun em nosso meio, me fez remeter ao sonho que eu carreguei comigo, por tanto tempo. À família que eu jamais poderia ter. Gun já tinha adormecido, e só percebi que eu estava chorando quando Naruto chamou a minha atenção, secando algumas lágrimas que escorreram. 

- Qual é o problema, Hinata? – Naruto quase sussurrou a pergunta, da forma mais dócil e cuidadosa possível. Tanto para comigo, quanto para não acordar Gun. 

- Nenhum. Me desculpa, eu nem sei por quê estou chorando. – Tentei desvencilhar-me dele, sem muito sucesso. – Acho que só estou muito cansada. 

- Por que não para de ser teimosa e conta logo o que está havendo? 

- Naruto... Eu não tenho nada a dizer. – suspirei, virando-me para o outro lado. Senti sua mão insistente tocar a minha cabeça e acaricia-la ali. 

- Eu respeito que não queira me contar os seus problemas. – ele declarava, sem parar a carícia – Mas eu acho, e só acho, que a partir do momento em que outras pessoas se preocupam com você, deveria deixa-las te cuidar. Se abrir sempre vai te fazer se sentir melhor. 

- Eu sinceramente não acho que me abrir com você vá resolver qualquer coisa. 

- E não vai. Não estou te prometendo isso. – ele parou a carícia, me puxando pelo braço para virar-me para ele, novamente – Mas vai fracionar a sua dor pela metade. Porque depois que desabafar comigo, metade da sua tristeza vai ficar em mim. 

- E você está mesmo me pedindo isso? – indaguei, voltando involuntariamente a chorar – Naruto... esqueça isso. Por favor! Como pode me pedir para sentir metade da minha dor? 

- Gostaria de ter todo o seu sofrimento para mim, Hinata. Mas sei que isso não te isentaria dele. Estou implorando que se abra comigo porque me corta o coração te ver assim. Sei que se fosse há um tempo atrás, você teria me contado tudo. E eu sinceramente não sei o que fazer para você voltar a confiar em mim. Eu só queria te ajudar, de alguma forma. 

- Vai por mim, Naruto – comecei, desviando meu olhar do seu – Você vai preferir não saber. Além do mais, não iria melhorar em nada. Pelo contrário. Faço isso para poupar você. 

- Não estou pedindo para ser poupado. – Ele puxou meu rosto de volta, alinhando-o ao seu, prendendo-me firme sob seus olhos – Fala para mim, Hinata. 

- Você n-não vai ficar diferente c-comigo se eu te contar? – indaguei, agora encarando meus próprios dedos indicadores, que já se digladiavam um ao outro. 

- Nunca. 

- Naruto... eu... não estou sabendo lidar com você e Gun aqui, juntos. – comecei, cautelosamente – Porque assim... parecemos a família que deveríamos ter sido. 

- Ainda podemos ser! – Ele interveio, segurando-me com força – Eu quase cheguei ao ponto de desistir de tudo, Hinata. Mas agora estou aqui com você, novamente. E vou fazer de tudo para não te decepcionar, se me permitir. 

- Naruto... – o cortei, bruscamente – ...eu fiquei grávida de você. 

Ele simplesmente não esboçara reação, mas seus olhos sequer piscaram. Depois de muitos segundos estático, Naruto ergueu as costas, sentando-se na cama e apoiando-as na cabeceira. Deu um profundo suspiro, cobrindo o rosto com as mãos. Os infindáveis minutos que se seguiram, foram de muita agonia para mim. Ele dava profundos suspiros acompanhados de tremores por todo o corpo. Seu rosto ainda era coberto pelas mãos. Ele ficou assim por quase dez minutos, quando finalmente se levantou, com as mãos postas na cabeça. 

- O que aconteceu depois? – ele indagou, com lágrimas nos olhos – Por que não tem uma criança com você? 

- Ele esteve saudável durante toda a gestação. – comecei, com o cuidado de não chorar para não acordar Gun – Era uma gestação de risco, por eu ser nova, mas eu não tive nenhuma complicação. Ele nasceu grande e forte, com três quilos e meio. Estava tudo bem com ele, mas... – minha voz embargou – Eu não sei o que aconteceu depois. Um dos médicos que fez o parto veio até mim e anunciou o seu falecimento. Fiquei tão chocada que sequer me lembro das causas que ele citou. Eu só queria o meu bebê comigo...então... não pensei em mais nada – segurei-me para silenciar o choro, que agora vinha muito mais intenso. Naruto veio até o meu lado da cama e me abraçou com força, chorando lamentosamente junto a mim. – ...Eu pude ver o seu rostinho, uma única vez, ao menos. E de alguma forma, parece que ele nunca morreu completamente. Eu sinto um amor tão grande no peito que é como se ele estivesse vivo, dentro de mim. 

- Hinata... – ele tentava criar fôlego para falar, em meio ao pranto – Me perdoa. Você esteve carregando esse fardo sozinha, por tanto tempo, enquanto eu apenas deixei você de lado, temendo ser contrário à vontade do meu pai... – ele ofegava descompassadamente – Eu deveria ter quebrado as regras... ter te ligado.... ter escrito... Eu sendo tão idiota, pau mandado da corte, e você aqui com toda essa culpa pra carregar... Eu não acredito que deixei você passar por isso sozinha! 

- Agora já passou, Naruto – lamentei, tentando me recompor – Não tem porquê se lamentar. Não vai adiantar. 

- Ele também era meu filho, Hinata! – ele declarou alto, quase acordando Gun. 

- Naruto! – sussurrei, repreendendo-o – Vamos ali para fora. Vamos acabar acordando o Gun. 

Naruto levantou-se e saiu às pressas para o corredor. Fui até o closet buscar um cobertor para cobrir Gun e depois saí do quarto, deixando a porta entreaberta. Naruto estava de pé, escorado à parede. Parecia sem vida. Seu traços estavam neutros, irreconhecíveis. Os olhos, sempre tão azuis e vívidos, estavam escuros. As pupilas dilatadas e as orbes agora avermelhadas. Naruto parecia destroçado. Eu nunca o havia visto daquele jeito. 

- Vem aqui – o puxei para abraça-lo. Senti sua cabeça reclinar-se sobre meu ombro, encharcando-o com lágrimas. Acariciei sua nuca e a parte superior de suas costas, na tentativa de confortá-lo – Era por isso que eu queria poupá-lo. Eu só te passei uma dor que não tem mais sentido, hoje. Mas você terá de conviver com ela pelo resto da vida, agora. 

- Eu precisava saber disso – ele suspendeu o rosto, me encarando. Suas mãos deslizavam por minhas mandíbulas, num carinho terno e verdadeiro – Obrigado por ter me contado. Agora tudo está como sempre deveria ter sido. Não era para ser a sua dor, mas a nossa. 

- Vem aqui comigo, um instante – Entrelacei minha mão na sua, conduzindo-o para a entrada do quarto ao lado. – Atrás desta porta fica o quarto que deveria ter sido do nosso filho. Quer entrar? 

Sem conseguir reunir palavras, Naruto apenas assentiu. Abri a porta e dei passagem para ele. Apertei os olhos com força, antes de finalmente adentrar. Poderia ser difícil para Naruto estar ali, mas era muito pior para mim. Eu nunca mais entrei naquele quarto, desde que voltei do hospital. Mas Mariko o cuidara tão bem, esses anos todos, que eu tinha certeza que nada havia mudado. Quando finalmente adentrei naquele ambiente, não pude conter as lágrimas. Os lençóis da pequena cama eram trocados regularmente, o que dava a impressão de que aquele quarto estava sendo usado. O berço se mantinha intocado e com alguns brinquedos de tecido. A pintura de azul nas paredes, cor escolhida a dedo, no tom mais próximo dos olhos de Naruto. Tudo estava impecável e intacto. Naruto olhava atordoado para cada detalhe do aposento. Pegou um bicho de pelúcia e o cheirou, como se pudesse conter ali qualquer indício ou memória de nosso filho. Mas o pequeno nunca sequer chegou a conhecer àquele quarto. 

- Como ele iria se chamar? – Naruto perguntou, sem tirar a atenção do objeto em suas mãos. 

- Bom... você me disse uma vez que gostaria que nosso primeiro filho se chamasse... 

- Boruto? – ele completou, virando-se para mim. Ele me fitava com os olhos cintilantes, admirados, e um leve sorriso nos lábios. Apenas assenti, retribuindo-lhe o gesto. – Quanta coisa aconteceu... – ele suspirou, um pouco mais tranquilizado – E nada disso pode ser apagado. Jamais. Agora entendo você, Hinata. E sei que fugir não iria mesmo apagar o nosso passado. Nada poderia, na verdade. Isso é uma coisa com a qual precisaremos conviver pelo resto da vida, como você mesma disse. – Ele se aproximou de mim, pegando em uma de minhas mãos – Precisamos aceitar tudo o que aconteceu e encarar tudo o que ainda está por vir. Agora eu já sei o que devo fazer. 

- Como assim? – O indaguei, receosa – O que você pretende, Naruto? 

- Irei encarar Jiraya e os membros da corte, custe o que custar. – Ele garantiu, decidido – Independentemente de qual tenha sido a origem de meus pais e os deveres de sua linhagem, eu cresci aqui e descobri o meu lugar no mundo. Eu não aceito que vim parar aqui por acaso. Esse é o meu lugar! Jiraya é o atual regente da Noruega e pode continuar sendo. Não me cabe mais continuar na corte, como um rei de figura, até finalmente me casar com uma mulher que nem mesmo amo, só para assumir a regência e realizar um possível desejo de meu pai. Posso garantir que se meus pais fizeram planos para mim, um dia, eles com certeza quiseram que eu fosse feliz, acima de qualquer coisa. 

- Naruto... você ainda não me respondeu. O que vai fazer? – Perguntei, aflita. Eu finalmente começava a ver uma luz no fim do túnel e ao mesmo passo, começava a me preocupar profundamente com Naruto. 

- Eu não sei se é possível abdicar do trono. Mas eu o farei. Estou farto de sempre ouvir Jiraya me falar sobre esse dantesco princípio de direito divino! Sucessão ao trono não pode ser algo movido por escolha divina ou por qualquer outro discurso religioso. Eu realmente não nasci para isso! 

- Mas... Naruto, pensa bem – meneei, apreensiva. Naruto era muito impulsivo e imediatista, o que poderia prejudica-lo. – Isso não é arriscado? 

- Mais do que você imagina. – Ele declarou, cabisbaixo – Não só para mim, mas para o Jiraya também. Principalmente para ele, na verdade. Ele não age mal comigo por culpa própria. Jiraya vem sendo chantageado pelo pai de Dorothea desde que fui encontrado. 

- Isso é sério? – indaguei, ainda mais perplexa. A vida na corte realmente não era tão agradável quanto eu imaginava – Mas por que razão ele faz isso? 

- Dorothea é a primogênita da família de nobres mais rica na Dinamarca, Hinata. E tudo o que eles sempre quiseram era ter benefícios reais e alguma oportunidade de chegarem ao poder. Por isso, a cabeça de Jiraya está a prêmio, caso eu não me case com Dorothea. Por estar a mando dele, Jiraya ainda não me passou a regência da corte. Essa chantagem faz com que ele siga as instruções do patriarca para tudo, inclusive para me proibir de retornar para esta cidade, ou de ter qualquer contato com você. Por isso, eu só poderei ser o regente quando casar-me com ela.  

- Mas... isso é horrível! – exclamei, horrorizada. Sentei-me na cama, tentando raciocinar direito. Aquela história estava me fazendo entrar em parafusos. Tudo parecia tão cruel e desumano que eu chegava a julgar fantasioso. Não era possível que realmente existissem pessoas assim – Não há nada que vocês possam fazer contra ele? 

- Poderíamos fazer algo, se fôssemos tolos o suficiente para arriscar tudo o que está em jogo. É uma monarquia absolutista, Hinata. Nós somos o poder. Se o próprio poder está ameaçado, como esperamos que outros resolvam isso para nós? – Ele suspirou, pensativo – Eles são muito poderosos! Possuem espiões e aniquiladores de prontidão em todos os lugares do reino. É bem provável que tenha um por aqui, agora mesmo. Se pegarmos o patriarca dessa família infame, ainda haverá subordinados o suficiente para causarem um estrago gigantesco. E eu estou no meio disso tudo, Hinata. Também corro risco de vida. 

- Naruto, você não pode se arriscar desse jeito. – levantei-me exasperadamente, segurando-o pelos ombros – Quanto menos por causa de mim. Não quero conviver com esse fardo. Se alguma coisa acontecer a você eu nem sei se me perdoaria por isso. 

- Amor... – ele acariciou o meu rosto ternamente, com as costas dos dedos – ...você não vai me escapar dessa vez. Eu vou me arriscar para cumprir com a nossa promessa. Talvez Boruto não tenha vindo ao mundo ainda porque Deus sabia que ele corria sérios riscos, sendo meu primogênito. A cabeça dele seria certa, para alguém como Jens. 

- Jens? – indaguei. – Não é o nome do suposto pai de Gun? 

- Sim. É o nome do pai de Dorothea. Curioso, não? 

- Estranho demais. 

- Eu vou acabar com isso de uma vez por todas, Hinata. – ele declarou, firme – E então vou me abster da coroa, deixar-me livre de qualquer ligação com a corte, pra que nossos futuros filhos, você e eu fiquemos em paz. Eu preciso ser corajoso se quiser mudanças. 

- Naruto... – o chamei, com lágrimas nos olhos. Passei meus braços por trás de sua nuca, presa a ele, contornando-o. O encarei com todo o amor que havia em meu peito. Eu ainda não tinha deixado as coisas claras na minha cabeça sobre ficar ou não com Naruto. Mas qualquer pensamento racional apenas adiaria o inevitável. Nós havíamos nascido um para o outro. Esse era o nosso destino. E pensar em perde-lo era doloroso demais – ....Fique vivo, por favor! 

- Tenho motivos de sobra para querer ficar vivo, agora. Só me responda uma coisa. 

- O que? 

- Casa comigo? 


Notas Finais


Mais uma do ENEM:

QUESTÃO - O que a Hinatinha vai responder?

A) "Caso sim!"
B) "De novo essa fanfic, Naruto?"
C) "Caso não!"
D) "Você não já está noivo? Não quero relacionamento a três!"
E) "Calma aí que vou ali sonhar com a minha mãe pra ver o que ela acha"

Façam suas apostas. Obrigada por sua leitura!


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