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História O Amor de Nicolas - Capítulo 1


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Capítulo 1 - Capítulo I


Início de Dezembro de 1931, Berlim - Alemanha

Infinitas paisagens passavam como num piscar de olhos pela janela do trem, mesmo com o vento soprando em seus cabelos negros, como um belo convite, Félix pouco se importava de estar perdendo a beleza natural que poderia ser apreciada num simples virar de rosto. Estava concentrado demais em toda a aventura que as palavras de seu livro lhe oferecia, não conseguia tirar os olhos dele, permaneceu assim por todo o trajeto que vinha seguindo de volta para casa.

Félix estava com os braços cruzados apoiando-os na mesa, que ficava entre seu acento e o de sua irmã, e perto de si o livro que tanto lhe roubava a atenção. E Paloma, ao contrário do irmão mais velho, não tirava os olhos da vista que tinha fora daquele transporte, eram os últimos momentos das cores do outono antes da paisagem virar puro branco da neve que Dezembro sempre trazia.

Paloma captava cada detalhe que passava por seus olhos um tanto melancólica. Ela estava pensativa e inquieta há um certo tempo, e não demorou muito para que sua inquietação passasse para seus pés em um ato de batê-los repetidas vezes contra o chão. 

O soar dos sapatos da irmã mais nova batendo em uma sequencia interminável começou a incomodar Félix, tirando totalmente sua paz na leitura. Ele levantou o olhar e viu uma Paloma inquieta á sua frente, ela estava assim desde que saíram da casa da avó Bernada, o que era de se estranhar já que as visitas à avó sempre levantavam seu animo e a deixava mais feliz. 

Félix pegou o livro da mesa e o colocou na atura do rosto escondendo-se atrás dele como se naquela posição o som irritante do salto da irmã fosse impedido de chegar aos seus ouvidos. Mas ela queria desabafar e Félix sabia que era o alvo, o que mais uma vez achou estranho, pois o irmão de confidências dela sempre fora Cristiano, ele se dava melhor com Paloma no quesito ouvir suas lamentações.

Mas o plano de ignorar isso até chegarem em casa foi por água abaixo, a inquietação dela começava a lhe irritar profundamente e ele não podia fazer outra coisa senão perguntar.

- O que há com você Paloma? Parece um pouco agitada. – Fingiu interesse e preocupação.

- Eu estou bem Félix, impressão sua. – Respondeu-lhe dando um singelo sorriso.

E Félix ficou definitivamente bastante surpreso com a resposta que teve, talvez tivesse entendido mal os sinais dela? Ela não estava fazendo aquilo para lhe roubar a atenção, estava realmente inquieta e nem se dava conta disso?

Félix insistiu um pouco mais, agora não por preocupação e sim por curiosidade.

- Tem certeza? Porque não falta muito para você fazer um buraco no chão. – Brincou dizendo o quanto aquele toc toc de sapatos batendo o estava tirando do sério.

Paloma sorriu envergonhada e parou imediatamente de mexer os pés daquele jeito.

- Me desculpe... Você tentando ler sossegado e eu incomodando, perdão. – Desculpou-se repetidas vezes.

Paloma respeitava muito o momento que o leitor tinha com seu livro, ela mesma passava horas lendo e quando Félix ou Cristiano ousava interrompe-la ela fazia uma cara de quem queria pular em cima de seus pescoços. E notando isso, apesar de não ser muito apito a leitura, Félix começou a pegar alguns livros para assim livrar-se das conversas entediantes que tinha com Paloma, já que a mesma não ousava falar com ninguém que estivesse com um livro na mão por respeito à leitura.

No começo Félix apenas fingia que lia. Muitas das vezes que Paloma lhe perguntava sobre o que se tratava o livro ele mal saberia responder qual era o titulo escrito na capa. Mas algum tempo depois, cansado de apenas olhar letras, Félix começará a ler e até mesmo gostar das historias. Era até irônico pensar que para fugir de sua irmã falando de romances literários ele começará a ler os tais romances que havia naquelas dezenas e dezenas de paginas.

Porém naquele dia em questão Paloma fez algo que para ele parecia ser quase impossível, conseguirá fazer com que aquele livro fosse menos interessante do que o que ela tinha para falar. E Félix pensou melhor, não podia perder essa oportunidade. Qualquer coisa que fosse que tirasse a paz e a felicidade da irmã mais nova era de seu interesse.

Félix marcou a pagina na qual havia parado, fechou o livro e o deixou de lado na mesa.

- O que há com você Paloma? E não me venha com a de que não é nada e que é apenas impressão minha. 

- Eu estou bem, já disse. Porque essa pergunta de novo? - Paloma reafirmou o que disse antes, e Félix mais uma vez não se deixou enganar.

- Porque você fala que está bem, mas não parece nada bem.

Paloma se remexeu desconfortável, sua expressão carregava preocupação, desanimo e Félix até mesmo pode perceber a ponta de tristeza em seu olhar.

- Félix, o que a vovó disse hoje... – Paloma suspirou desanimada antes de continuar. – Você acha mesmo que tudo que ela disse está para acontecer?

- Não há como saber uma coisa dessas, mas eu não duvido. O povo está desesperado por mudanças, a crise se alastra por todo o país, basta alguém prometer que irá proporcionar uma melhora de vida e uma gloriosa Alemanha, mesmo com base em discursos de exclusão, eles consideram essa pessoa um salvador, e apoiam mais ainda quando não fazem parte da porcentagem excluída... E você sabe né? A parte excluída nunca são os poderosos.

Paloma apoiou os braços na mesa e escondeu a cabeça entre as mãos em total tristeza e desanimo. Havia sonhos e sentimentos que se tornariam ainda mais difíceis de serem realizados com tudo que estava acontecendo, e Paloma dessa vez não se esforçou nem um pouco em esconder sua amargura.

- Mas é isso que tanto lhe atormenta? – Questionou Félix. – Questões políticas?

- E a você não? – Indagou espantada com a indiferença de Félix. – Não pensou nas consequências que isso traria para nós? Para todos?

- Papai e Cristiano vivem falando sobre esse assunto, por Deus só eu sei o quanto eles falam sobre lutar pelo bem do nosso país, tirá-lo de toda a humilhação que foi nossa derrota há anos atrás. Porque isso está te preocupando só agora?

Paloma olhou para os lados como se estivesse lhe escondendo algo a mais. E realmente havia algo escondido por trás daquela agonia, algo que ela ainda não tivera coragem de contar a nenhum dos irmãos, muito menos ao pai.

- Por nada. – Desconversou para livrar-se das perguntas. – Só estive pensando sobre o assunto e fiquei preocupada.

Antes que Félix pudesse questionar qualquer outra coisa a ela Paloma se levantou, junto com outros passageiros, o trem havia parado e eles chegado ao seu destino. Félix pegou seu casaco e foi atrás dela, mas antes de passar pela porta voltou para pegar o livro que havia esquecido sobre a mesa. Paloma nem se deu ao trabalho de esperá-lo e ele teve que correr para alcançá-la. 

Paloma bem sabia como Félix era, ele não se contentava até saber tudo e um pouco mais.

- Sabe que não me convenceu nem um pouco com esse “pensei sobre o assunto e fiquei preocupada” não é? – Afirmou ao alcançá-la, estava com a respiração puxada por conta do pequeno caminho que havia corrido. E desengonçado colocava o casaco às pressas, pois naquele finalzinho da tarde e inicio da noite o tempo começava a congelar, a temperatura costumava cair bruscamente naquela época do ano.

- Porque não? – Paloma andava rápido, estava literalmente fugindo do assunto.

- Porque eu te conheço desde pequena irmãzinha, e sei quando quer esconder algo de mim.

- Não estou escondendo nada Félix... O que há de errado em se preocupar com meus irmãos? É totalmente compreensível.

Félix riu, não falou mais nada a partir dali, apenas andava ao lado dela quieto e vez ou outra sorria.

- O que foi? O que está se passando por essa cabeça cheia de ideias? – O questionou, pois sabia que Félix queria falar.

- Passamos boa parte da vida ouvindo os discursos nacionalistas interminánoveis do papai em todo jantar e nada do que ele dizia fez você “pensar e se preocupar” comigo e com Cristiano antes? – Enfatizou com as mãos o que ela havia dito.

- E o que há de estranho em pensar sobre isso agora? Acho coerente por tudo que andamos escutamos recentemente no rádio.

- Há alguma coisa a mais na sua historia, sei disso. – Félix sorria, pois já cogitava algumas possibilidades.

- E o que você acha que seria?

Ela havia parado tão de repente de andar que Félix passou a sua frente sem perceber. Ele voltou-se para ela ainda com o mesmo sorriso de quem havia descoberto o ouro no fim do arco-íris.

- Você tem andado meio estranha durante essas ultimas semanas, sempre com a cabeça em outro lugar, some e aparece em casa do nada com a desculpa de está na casa de vovó. Papai mesmo achou estranhas essas visitas diárias, tanto que hoje ele me mandou acompanhá-la e acho que pretende me obrigar á isso sempre.

- Aonde você quer chegar com tantas insinuações sobre mim?

- O que to querendo dizer ou melhor afirmar, você tem se encontrado com algum rapaz e está escondendo isso da gente.

Paloma permaneceu calada por um bom tempo olhando suspeitamente para o chão, pode até ver que alguns pequenos flocos de neve já caiam sutilmente sobre seus pés e pelo chão ao redor.

- Não p-poderia... está mais enganado... Félix.

E a resposta gaguejada dela fora a confirmação para ele.

- Você não é mais nenhuma adolescente pra esconder namorado do papai sabia?

- Vamos embora... ou prefere congelar aqui que nem uma arvore? – Disse ela, que logo seguiu as pressas para casa.

Os dois caminhavam lado a lado, e Félix não perdeu a oportunidade de importuná-la um pouco mais sobre um assunto.

- Não irá confessar?

- Confessar?

-Não se faça de desentendida... Quem é ele?

- Não há nenhum “ele” Félix.

- Papai pode até ser duro com a gente, mas você sabe que ele nunca impediria você de namorar quem você ama. – Relembrou Félix. – Mesmo esse suposto amor sendo alguém de uma classe bem abaixo da nossa. Com as influências que nosso pai tem ele poderia até ajudar muito...

- Você tem uma imaginação muito fértil meu irmão, não só me arrumou um namorado como também já definiu sua classe social. – Disse Paloma sorridente com toda a historia que passava pela cabeça de Félix a seu respeito.

- A não ser que o problema seja outro... - Paloma ficou calada com o sorriso aos poucos sumindo de seu rosto. – Um problema irreversível. Mas o que poderia ser?

Antes que Félix pudesse apontar mais as desesperanças do amor dela eles chegaram em casa. Paloma entrou e subiu as escadas às pressas para seu quarto passando por Cristiano que ao mesmo tempo descia.

- O que houve com ela? – Perguntou ao chegar perto de Félix. - Paloma me pareceu está triste?

- Coisas de mulheres, nada de mais.

Félix colocava calmamente seu casaco no gancho da porta como se não houvesse acabado de causar uma enorme desesperança amorosa.

- O que você falou pra ela Félix? – Cristiano cruzou os braços, sabia como o irmão adorava dizer coisas que muitas das vezes levava a irmã às lagrimas. Fazer Paloma ficar com os olhos marejados era um dos hobbies preferidos de Félix.

- Não disse nada demais... – Félix foi até o sofá e sentou-se com um sorriso discreto no rosto, que não passou despercebido por Cristiano que permanecia com a mesma expressão seria o encarando. – O que foi?

- Você tem que parar de implicar com ela, você não é mais uma criança.

- Christiano sem lições de moral, por favor, eu to exausto. Tive que acompanhar a Paloma o dia inteiro por ai..

- Falando nisso, como foi na casa da nossa avó? – Perguntou sentando do lado dele. - Como ela tá?

- Nossa avó está bem, sempre querendo nós encher de biscoitos como sempre. E ela perguntou por você, reclamou que nunca mais foi vê-la.

- Realmente estou em falta com ela.

- Mas foi bom você não ter ido.

- Por quê?

- Ela falou sobre política até meus ouvidos se cansarem.

- Imagino.

- Sabe às vezes ela parece com o papai só que de um jeito totalmente oposto, entende?

- Se colocar eles juntos num mesmo lugar é capaz de uma guerra ser iniciada em menos de cinco minutos.

Os dois sorriram.

- Paloma disse está preocupada.

- É normal ela se preocupar... – Cristiano mudou de uma feição divertida para uma mais séria.  

Era nesses momentos que Félix podia ver o quanto o irmão era igual á seu pai quando se tratava de política, dentre muitas outras coisas. Talvez fosse esse o grande motivo da preferência do pai pelo filho mais velho, Cristiano se tornará tudo o que César queria em um filho.

Félix ficou pensativo enquanto Cristiano continuava falando sobre conquistas, batalhas, perdas e tudo que já havia ouvido de seu pai antes. César e Cristiano defendiam os discursos seguidos naqueles tempos de aflição generalizada, em como o povo tinha de batalhar com as próprias mãos para recuperar a dignidade perdida na primeira guerra. Que toda a parte que os "atrasava" de progredir tinha de ser limpa para poder enfim nascer uma nova Alemanha, sem a vergonha de um povo derrotado pelos inimigos.

– Nada se é conquistado com flores, tenha isso em mente Félix e você irá alcançar tudo que deseja. – Aconselhou o mais velho. – Bom... Exceto as mulheres, essas sim, não com uma ou duas e sim com varias flores.

Cristiano se levantou batendo levemente nos ombros dele, Félix não gostava de admitir sua discordância quanto ao modo que o pai e o irmão pensavam. Por esse motivo tudo que costumava fazer em conversas como aquela era balançar a cabeça e concordar com o que lhe era dito.

- Vai sair agora? – Perguntou Félix ao ver o irmão colocar o casaco. 

- Amélie teve a maravilhosa ideia de levar Sofie para passar o dia na casa da mãe dela, vou buscá-las antes que o tempo fique tão frio a ponto de eu sair e congelar lá fora.

- Você na casa da mãe da Amélie, essa eu pagaria para ver. – Comentou com um risinho enquanto abria seu livro para continuar a leitura que Paloma interrompeu.

- Minha sogra realmente me detesta não é? - Suspirou desanimado.

Cristiano tratava tão bem Amélie e a filha dela que adotou como sua, e realmente não entendia o porquê da Sra. Müller parecer nunca está satisfeita com ele.

- Vai ver as suas flores não foram o suficiente para conquistar sua sogra. – Comentou Félix sorrindo.

- Vá pro inferno Félix. – Disse Cristiano após sair pela porta deixando Félix rindo sozinho.

Mas o sorrido deu espaço para uma expressão mais vazia.

- Acho que já estou nele. – Sussurrou.

O sorriso dele havia desaparecido completamente de seu rosto. Paloma achava que seu problema de está apaixonada por um homem que o pai não aceitaria era algo devastador, imagine ela em seu lugar onde nem o pai nem o resto do mundo aceitaria o tipo de sentimento que ele sentia.

Depois de algum tempo sozinho naquela sala vazia e silenciosa, costumava ser sempre assim quando não havia a presença de sua sobrinha Sofie, Félix decidiu subir e continuar a leitura no quarto. Mas ele pensou em antes passar no escritório do pai, dizer que já havia chegado com a irmã e que tudo correu bem na casa da avó, porém desistiu. As conversas com César de uma maneira extraordinária sempre caminhavam para uma discussão ou critica por parte do pai, raramente eles tinham uma convivência harmoniosa quando ficavam sozinhos por muito tempo. Félix sempre se perguntou por que o pai se deixava irritar tão facilmente com qualquer atitude sua, e a única resposta que tinha era dolorosa demais para ser aceita.

Félix não demorou muito para descer novamente, ele não gostava de se confinar entre quatro paredes, pois detestava se sentir preso. O que era irônico, a vida costumava ser bastante irônica com ele, porque Félix vivia em uma prisão pior que qualquer parede ou grades podia oferecer, vivia preso dentro de si mesmo, aprisionado junto a seus desejos.

Assim que desceu as escadas deu de cara com Cristiano abrindo a porta resmungando, parte de seu casaco estava coberto com alguns flocos de neve que ele retirou ao se balançar.

- Não sei o que fiz para merecer isso. – Reclamava. – Ela podia ser gentil e me convidar para ficar, mas não... Praticamente me mandou de volta pra casa nesse frio para eu congelar que nem um poste lá fora. – Acrescentou. – A Sra. Müller fica cada vez pior, se não fosse mãe de Amélie eu... nem ouso pensar no que diria para aquela senhora.

Félix nada falou ao se aproximar, apenas olhava o irmão com o mesmo sorriso de que quando ele havia saído.

- E você fique calado... – Ordenou Cristiano ao ver que Félix presenciava sua insatisfação.

- Nem me atrevo a falar alguma coisa sequer. – Dizia ainda rindo.

- Mas o que ouve aqui? – Exclamou César saindo de seu escritório. – Deu para ouvir sua voz de lá de dentro, o que aconteceu? – Perguntou aflito.

Era sempre assim, pensava Félix ao observar o pai se aproximando de Cristiano, só assim para ele sair daquele confinamento chamado escritório. Pois qualquer coisa fora do comum, qualquer reclamação, qualquer insatisfação do seu filhinho amado ele vinham rapidamente resolver com a expressão mais preocupada que um pai poderia ter. Nada podia afligir o seu imaculado Cristiano que ele vinha correndo.

- Não é nada pai... – Cristiano controlou sua própria irritação assim que viu César chegar, disse a ele que não era nada e que apenas havia se exaltado um pouco demais por uma bobagem. - Eu estou bem.

César olhou para Félix, que estava parado perto da escadaria apenas ouvindo a conversa, o olhava com um ar incriminador como se estivesse o culpando por qualquer coisa que havia acontecido com Cristiano. Isso não era uma surpresa para o moreno, já estava acostumado a ser acusado pelo pai por tudo de ruim que acontecia com Paloma e Christiano.

Félix deu de ombros e se sentou no sofá, não queria iniciar uma discussão a toa por algo que não havia feito.

- O que estava fazendo lá fora? – Perguntou César intrigado.

- Fui buscar Amélie e Sofie na casa da senhora Müller... – Disse receoso, não queria contar a ele que havia novamente se desentendido com a mãe de Amélie.

- Aconteceu alguma coisa grave?

- Não... Sofie acabou dormindo depois de brincar com a avó e não queríamos acordá-la, então Amélie decidiu dormir por lá está noite...

- E porque tanto escândalo?

- Por nada pai, eu só exagerei ao reclamar... do frio... e de mim mesmo por não ter me agasalhado mais sabendo que ia nevar assim. – Desconversou tentando não perturbar o pai com seu problema, pois sabia muito bem a opinião dele sobre o assunto. – Não é Félix?

- Hein? – Félix que tão pouco ouvia o que eles falavam, já que estava mais preocupado em olhar suas unhas, ficou perdido na conversa. Cristiano praticamente implorava com os olhos que o irmão confirmasse sua historia. – Sim claro, foi isso. – Respondeu sem ao menos saber exatamente do que se tratava.

César não se convenceu da explicação do filho e olhou feio tanto para Félix como para ele, não gostava quando se juntavam e mentiam. Porém nada disse, apenas voltou para o escritório e se trancou lá dentro como era de seu costume.

- O que houve hein? – Perguntou Félix assim que o pai saiu. – A mãe da Amélie não quis fazer chocolate quente pra você?

- Não começa Félix, não estou com humor para aturar suas piadinhas.

Cristiano se jogou no sofá em total cansaço e frustração, e apesar de não compartilhar muitas coisas com o irmão decidiu falar.

– Eu tento ser o melhor marido e o melhor pai, mas ela nunca acha que eu sou o suficiente para a filha dela. Eu entendo que ela não superou a perda do perfeito, amável e doce antigo marido da Amélie. Mas ele se foi, e eu estou aqui... e eu faço a filha dela feliz.

- Você já havia me dito que a Sra. Müller considerava o falecido de Amélie como um filho. Não deve ter sido fácil, ela só precisa de um tempo pra se acostumar com você.

- Já se passaram 3 anos Félix, isso pra mim é tempo o suficiente, a filha dela seguiu em frente... ela tem que aceitar isso.

- É complicado entender, cada pessoa reage de um jeito e às vezes o tempo demora a curar a perda de uma pessoa amada... e outras vezes acho que nem cura completamente. – Constatou com pesar. - Não vê o nosso pai?  Ele ainda continua se trancando naquele maldito escritório depois de tanto tempo que a nossa mãe se foi.

Cristiano olhou para Félix e viu que ele ainda estava com seu inseparável livro nas mãos.

- Você gosta mesmo de ler isso não é?

- Tá mudando de assunto. – Constatou o moreno. - Como eu disse cada pessoa reage de um jeito a perda de alguém, você e o pai não gostam de falar dela...

- Não!

- Por quê?

- Porque doe menos... agora pode me falar sobre seu bem dito livro.

- Me ajuda á passar o tempo. – Respondeu.

- Sabe do que você precisa pra passar o tempo Félix?

- Não começa, por favor... – Félix se levantou.

- Uma mulher.

- De novo você com esse assunto... – Félix se mostrou descontente. – É melhor parar, ta parecendo o papai falando desse jeito.

- Félix você vai fazer 23 anos, não é mais um garoto. Pretende viver sozinho a vida toda?

- Eu estou muito bem do jeito que estou.

Félix começou a andar de um lado para o outro na sala enquanto Cristiano falava do interesse que amiga de Amélie tinha por ele.

- A amiga da Amélie estava lá na casa da Sra. Müller e perguntou bastante de você. Edith é uma mulher muito bonita e tem interesse em você... Porque não?

- Porque eu não quero.

- Isso não é uma resposta sensata.

- Porque eu não estou interessado e ponto final.

Aquele assunto realmente deixava Félix nervoso, lembrava-se bem das vezes que havia ficado com uma mulher e por Deus era tudo que ele mais queria era esquecer. Não havia desejo algum pelo corpo delas, por mais que ele tentasse e tentasse nunca se sentia feliz ao lado de uma. Ele sabia muito bem o que queria e o que sentia, mas claro não considerava a menor possibilidade de contar isso à família, já havia ouvido historias de dois homens convivendo como um casal e como isso não era bem visto pela sociedade.

Cristiano tentou argumentar mais sobre a beleza e os atrativos de Edith, porém fora interrompido pelo pai que o chamou para uma conversar no escritório.


******


- Félix eu quero que suba e fale com Paloma... – Ordenou César assim que saiu do escritório e o encontrou na sala. – Peça desculpas por qualquer coisa que fizestes a ela.

Félix trucidou Cristiano com o olhar que abaixou a cabeça para não olhar em seus olhos. Mesmo sem a intenção o mais velho havia contado sobre o estado de Paloma quando chegou com ele.

- Cristiano contou que ela chegou triste. – Disse César. – E sei o quanto você é a causa das lagrimas dela na maioria das vezes.

- Eu não fiz nada. – Defendeu-se.

- Não quero argumentações do que fez ou deixou de fazer... Só suba e peça desculpas, pois quando ela descer para o jantar espero não notar nenhum sinal de tristeza em seus olhos.

- Félix... Obedeça o pai. – Aconselhou Cristiano ainda sem coragem de encarar o irmão por mais de dois segundos. 

Félix respirou fundo tentando dissipar a vontade de continuar aquela discussão dizendo o quanto o pai estava sendo incoerente.

- Sim senhor, eu vou pedir desculpas... apesar de não ter feito nada. – Enfatizou.

Félix subiu as escadas com um nó na garganta e uma vontade imensa de pular em cima de Cristiano. Félix, ao contrário do que havia prometido, não foi até Paloma e sim passará reto por sua porta, entrou no quarto seguinte ao dela. Se havia um jeito de deixar seu pai e Cristiano furiosos era entrando naquele lugar.

Não era exatamente um quarto, havia deixado de ser há muito tempo atrás. Não havia nada além de uma poltrona antiga, caixas empoeiradas cheias de brinquedos seus e de Cristiano, as bonecas que foram deixadas de lado quando Paloma cresceu, objetos que há muito tempo deixaram de ganhar atenção da família Khoury. E é claro ele, talvez a coisa mais sentimentalmente valiosa que tinha ali, o velho piano de sua mãe.

Félix caminhou até o instrumento que estava coberto com um lençol branco empoeirado. Ele costumava entrar naquele quarto e tocá-lo para se acalmar em momentos de raiva, mas até isso seu pai havia lhe proibido de fazer.

Félix retirou o lençol de cima do instrumento e sentou-se no banco, esticou a mão por sobre as teclas, porém as recuou logo em seguida. Pensando que talvez fosse má ideia provocar o pai que já estava irritado.

- Toque... – Encorajou Paloma.

Ela o olhava de longe, parecia está contente de vê-lo ali. 

– Eu adoraria ouvir você tocar.

- E você vai me entregar ao papai? Cristiano já fez isso, só falta você.

- Não... – Disse convicta. – Ao contrário do papai e do nosso irmão eu gosto de lembrar dela, ela tocando é tudo que eu me lembro. Não quero esquecer.

Ela se aproximou e sentou junto dele no banco, seus olhos estavam vermelhos. Havia chorado mais do que ele pensava.

- E também não precisa se desculpar...

- Eu não ia mesmo.

- Eu ouvi tudo, essa exigência do papai foi absurda. Mas ainda sim quero que me agrade... – Ela sorriu. – Toque... por favor, sei que quer isso tanto quanto eu.

- Não será você que irá levar uma bronca mais uma vez.

- Papai entrou no escritório com Cristiano novamente, lá dentro eles não escutarão nada e se escutarem digo que foi eu que pedi, como forma de você se desculpar.

Encorajado Félix virou-se para o instrumento e sutilmente começou a tocá-lo. As doces notas começaram a ecoar por todo aquele quarto vazio. Paloma admirava que apesar de fazer muito tempo que Félix não tocava, ele não havia perdido o jeito, suas mãos deslizavam pelas teclas com a mesma leveza desde a ultima vez que ela o tinha escutado.

Félix olhou para a irmã, ela mantinha os olhos fechados e mantinha um leve sorriso em seu rosto, como se estivesse relembrando todos os bons momentos que passou ali.

A música chegou ao fim e com isso veio o silencio naquele quarto.

- Für Elise era a preferida dela... E você toca tão bem quanto ela. – Comentou Paloma quebrando o clima de nostalgia. – Igualmente a ela.

Félix sorriu com o elogio, mas seu sorriso logo se desfez.

- Talvez seja por isso! Papai me proibiu de tocar desde que eu consegui ser tão bom igual a ela. – Concluiu Félix. – Não entendo ele deixar isolada a única coisa que a mamãe deixou pra nós.

- Ele disse que o piano é grande e velho demais para ficar ocupando espaço na sala.

- Não estou me referindo ao piano Paloma.  Estou falando do que a mamãe deixou pra nós aqui. – Tocou no próprio peito. – Ele nem sequer deixa a gente falar dela.

Os dois ficaram em silêncio até que Paloma perguntou sorridente.

- Se lembra da história que nossa avó contou sobre essa música?

- Lembro... – Disse sorrindo. – Ela falava que essa música era o jeito da nossa mãe dizer “Eu te amo” a alguém, tocando uma música.

- É uma forma muito bonita de expressar que ama alguém... porque quando se ama de verdade palavras parecem nunca ser o suficiente. – Paloma respirou fundo. 

- O que está acontecendo com você Paloma?

- Félix...

- Hum?

- Eu tenho um importante pedido a lhe fazer.



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