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História O ânimo que me habita - Capítulo 82


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Notas do Autor


Continuação do cap passado...
E obrigada pelo feedback de vocÊs! Li todos os comentários (embora não tenha conseguido respondê-los desta vez) e eles me ajudaram muito a raciocinar para escrever este aqui.
Espero que gostem.
Boa leitura.
.
Imagem: @YURIIKA_ YOI (twitter)

Capítulo 82 - Frente a frente - parte 2


Fanfic / Fanfiction O ânimo que me habita - Capítulo 82 - Frente a frente - parte 2

YURI

- Você fala em ficar maluco, né? – limpou as gotas salgadas que escorriam em sua pele com rapidez e penteou sua franja para trás. Com um intenso sofrimento e fraquejando com a voz, contou: – Eu já fiquei meio maluco de tanta falta que senti de você.  Eu não sei nem mais o que estou fazendo...   

Confuso, eu observava Victor com certa desconfiança. Ele estava até meio agressivo minutos atrás, e agora chorava? O Victor que estava diante de mim era aquele monstro em que se tornou depois de ter reatado com a bruxa. Então, por que seu olhar era o mesmo do Victor perdido que conheci há um ano atrás? E tentando entendê-lo, perguntei um tanto perturbado: 

- Você invade meu prédio, invade minha casa e briga comigo só para dizer que está com saudades de mim? 

- Vim porque fiquei muito preocupado – explicou cabisbaixo – De repente, descobri que você voltou a ter aquelas crises horríveis. E logo depois, você e Diana se estranharam de um jeito muito sinistro. Apenas vim para tentar entender, pois tudo anda tão estranho.  

Eu não posso te explicar nada, Victor. E o pior de tudo era que dizer isso já seria muito suspeito por si só. Diana desconfiaria e não sei até onde seria capaz de agir ou cumprir o que insinuou aquele dia.  

- Saudade de você eu já sinto há tempos, Yuri. 

Não, não olhe para mim desse jeito. Não me diga essas coisas com os olhos encharcados dessa forma. Só torna tudo mais difícil para mim, Victor. 

Enxugou mais lágrimas com a gola da camisa. E com voz esbanjada de ternura e com um sorriso pequeno e meigo, continuou: 

- Yuri, você... Sente minha falta o tanto quanto eu sinto a sua?  

Embora seus olhos brilhassem na esperança do meu “sim”, tentei escapar do seu questionamento. Eu não queria me forçar a ser mais gentil só por ele ter chorado. 

- Não tem motivos para ter saudade de mim. Você tem Diana agora. Sempre teve.  

- Não é a mesma coisa que ter você comigo.  

- Nesse caso, acho que o problema é seu.  

Depois do corte que dei na sua tentativa de ser romântico, ele se calou. Engoliu em seco aborrecido, desviando o olhar. 

- É, eu sei. 

Só que com Victor, eu era uma manteiga derretida. Tentava ser frio e a não me permitir vulnerável diante dele, até por medo de me machucar mais. Porém, ele longe de mim também era algo que me machucava muito. Ele não era o único que estava sofrendo, afinal. Assim, minhas defesas caíram mais rápido do que imaginei.  

- Você me faz uma falta enorme, Vitya – e assim que ouviu o que queria, ergueu seu olhar contente – Está sendo difícil me acostumar a não ter mais você comigo a noite, a não ter sua ajuda para gravar meus treinos com a câmera, ou a não me deliciar nas marmitas que preparava para mim... Ou somente a não ter mais sua companhia mesmo... 

Um sorriso doce em satisfação surgiu em sua boca e rapidamente se foi. Logo mais, uma leve preocupação preencheu seu rosto outra vez: 

- Quando fui a cozinha, vi uma sacola sobre a mesa. Você comprou comida fora? Você está se alimentando direito, né?  

- Estou sim.  

- Não quer que eu prepare algo para você comer? 

- Não, não... É que eu e Christophe iríamos fazer cachorro quente, mas como o clima para isso se foi pelo ralo graças a você, compramos qualquer coisa para cada um jantar. 

- Eu estraquei o clima? – constrangido, enfatizou a última palavra – Yuri, por acaso você e Chris... 

- Não. Não está rolando nada – seu corpo expressou um certo alívio – Deveria saber já que ouviu nossa conversa. 

- É que isso me apavorou tanto que quis confirmar.  

Hesitante para tirar uma certa dúvida, curiosamente perguntei:  

- Por que eu e Christophe juntos te assusta tanto?  

- Eu não sei, não sei, Yuri – pareceu incomodado, como se não soubesse expor o que sentia – Talvez me dê a impressão de que vou perder você para ele, que vou perder de uma vez a oportunidade de acertar tudo.  

- E eu não te perdi para Diana? Quer dizer, hã... Acho que você nunca foi meu, já que se divorciar nunca esteve nos seus planos, não é? – voltei a sentir rancor – Foi o ano inteiro de mentiras para cima de mim.  

- Não! Não foi nada disso! – disse já se desesperando outra vez.  

- O que tivemos foi uma mentira. Você mesmo disse isso! 

- Yuri, tente entender – sua voz de choro se exaltou novamente, agoniado na tentativa de se explicar – Quando topamos fazer isso, combinamos que não iríamos desenvolver sentimentos um pelo outro, lembra? Mas tudo mudou. Não foi mentira para mim. Sim, eu disse o contrário uma vez, mas eu estava sendo um idiota.  

- Que bom que admite.  

- Eu tentei me separar da Diana uma vez, mas eu não consegui. Ela... 

Quanto mais ele falava, mais eu recompunha minha frieza e menos tolerante me tornava às baboseiras que me dizia. Era o mesmo papo de sempre. Era sempre culpa dos outros, não dele. Cansei disso. 

- Tente entender você, Victor. O que tínhamos antes nunca mais vai voltar.  

- Tem certeza? – nervoso pelo assunto que comecei, puxou sua cadeira para mais próximo de mim, prosseguindo um tanto afoito – Yuri, será que não existe alguma forma de consertar os erros que cometemos? Talvez tentar de novo, e-e-eu não sei! Algum jeito de eu poder ver você e... 

- Isso é alguma piada? – elevei minha voz, já indignado. Mesmo que não desejasse mais discussões, senti como se estivesse prestes a perder o controle de novo – Você acha mesmo que isso sequer seria uma possibilidade depois de tudo? Você está fora de si, Victor! 

- Desculpe! – ansioso, buscou se justificar enquanto erguia suas mãos ao nível do peito em sinal de inocência – Achei que talvez...  

- Não! Chega! – me exaltei novamente. 

- Calma, Yuri. 

- Eu não estou suportando mais tudo isso. A minha competição é em alguns dias e já basta o meu pai para me atormentar! Não preciso de mais um para me desestabilizar e ferrar com tudo que treinei meses para conseguir.  

Afinal, se não estiver bem emocionalmente, jamais conseguirei apresentar a coreografia difícil que preparei para a competição. Não posso ficar me preocupando com as indecisões e as expectativas dos outros em relação a mim agora.  

Contudo, Victor se atentou a um importante detalhe da minha fala. Alarmado, questionou: 

- Seu pai?! O que houve, Yuri? 

- Nada – disse ríspido. 

- Ei, me conte. 

Victor tinha arrastado sua cadeira perto o bastante para que pudesse estender seu braço e acariciar minha bochecha, incentivando-me a me abrir. Corajoso ele. Ainda estava tão irritado pelas idiotices que dissera antes que poderia morder sua mão como uma fera. Por outro lado, Victor é uma das poucas pessoas que vivenciou o caos que é lidar com a personalidade do meu pai. E, por alguma razão, quando percebi o quanto estava interessado em saber as péssimas novidades, me senti acolhido e à vontade para falar.  

- O pai anda me telefonando muito – comecei assim que me acalmei.  

- Isso não é bom? 

Neguei com a cabeça. 

- Ele me liga todos os dias para tentar me convencer a não participar – dito isso, os olhos de Victor se arregalaram pasmos – Fica me desestimulando, me colocando para baixo. Se ainda morasse lá, ele me ordenaria a cancelar minha incrição no evento, ou dar um jeito de me impedir. Mas eu estando aqui, ainda mais com ele tão debilitado lá, não tem como mandar em mim. Então, está tentando levar para o lado pessoal.  

- Que tipo de coisa ele te diz? 

- Ah, que sou um filho ingrato, que ele está muito doente e que não merecia um filho que lhe desse tanto desgosto no fim da vida dele.  

Assustado, Victor tentou contrariar meu pai rapidamente. 

- Não escute ele, Yuri.  

- Claro que não! Só que... Dói, né? Dói muito – eu tentei ser forte, mas uma ou outra lágrima foram mais resistentes e caíram – Então, por favor, Victor. Não acabe mais ainda com o meu emocional, está bem? Essa competição é importante para mim. Preciso estar estável para poder mandar bem, e não concentrado nas suas dúvidas, em Diana, em Chris, no meu pai, nessas brigas todas e... – a lista era tão grande que até desisti de continuar. Suspirei fundo e pedi: – Posso contar com você para isso?  

- Claro. Não quero te atrapalhar – acolhedor, levou uma mecha de cabelo que caía em meus olhos para trás da minha orelha. Aproveitando, desceu seus dedos pelo meu rosto deprimido, até chegar ao queixo e elevá-lo, como se tentasse me encorajar – Você vai arrasar na competição. Eu vi alguns dos seus treinos, Yuri, e seu programa está fenomenal. Tento certeza de que você vai se classificar, queira seu pai ou não. A coreografia que Minako montou para você está fantástica. 

- Minako? – identificando seu equívoco, o corrigi – Fui eu quem montou minha própria coreografia. Ela só me ajudou a escolher a música e alguns pequenos detalhes. O resto foi tudo eu.  

- Você que criou aquela apresentação insana?! Uau... – pareceu maravilhado, e confesso que aquilo preencheu meu ego e aqueceu meu peito por receber tantos elogios de Victor – Viu só? Isso te torna mais incrível ainda!  

- É, acho que sim – mas a decepção pela ausência de apoio do meu pai ainda estava escancarada em meu desânimo. E Victor notou isso. 

- Tente ignorar seu pai. Ele já está velho, não sabe o que diz. Eu não gostaria que ficasse se sentindo mal por causa disso ou pelas coisas ruins que andam te acontecendo – e sem forças nem para sustentar a si mesmo mentalmente falando, disse angustiado olhando o chão e brincando com suas próprias mãos: – Na verdade, acho que... Tirando seu pai, eu sou o culpado da maior parte das coisas ruins que anda passando, não é? 

- Ahn... Tecnicamente, meu pai estar implicando tanto comigo ultimamente também é culpa sua – hesitei, mas decidi concluir minha fala – Se tivesse ficado quieto sobre a patinação naquele dia em que jantamos lá na casa dos meus pais, ele não estaria sabendo da competição e atento se vou desobedecê-lo de novo ou não.  

Victor ficou um tempo silencioso e pensativo, talvez processando a responsabilidade que tinha por diversos acontecimentos negativos que me ocorreram recentemente, ou pelo menos as ocorrências das quais tinha conhecimento.  

- E suas crises, Yuri? Elas vieram mais fortes dessa vez? 

Concordei com a cabeça. 

- Não me lembro uma vez que vieram tão intensas.  

Victor parecia atormentado.  

- E elas já estão passando? Posso te ajudar? 

- Não se preocupe, já estou bem agora. Christophe me ajudou.  

- Ah é, Christophe... Por isso que ele estava com as chaves do seu apartamento? – sorri de canto, e ele já entendeu que sim. Depois, suspirou estressado e coçou a nuca, como se estivesse se arrependido de algo – E eu ainda briguei com ele por causa das chaves. Ele deve estar me odiando agora – e logo retornou ao assunto de antes – Quando essas crises voltaram, Yuri? São por causa das ligações do seu pai? 

- Também são por causa de você – e de Diana principalmente, mas teria que omitir essa parte. 

- De mim? 

- Já estou acostumado a lidar com meu pai. Já você, da noite para o dia, passou a me tratar mal. Sabia o quanto gostava de você e o quanto esses meus problemas com ansiedade me atrapalham. Esperava o que?  

Estava sendo duro demais com ele sendo tão insensivelmente honesto? Parte de mim acreditava que sim, afinal, não me sentia super confortável em jogar na cara dele todos os seus tiros que tanto me acertavam sem ele mesmo perceber. Outra parte achava que estava até pegando leve demais, pois tudo que lhe contava continha somente uma parcela dos fatos. Se Victor realmente soubesse a verdade nua e crua, não sei como suportaria ou como agiria. Além disso, lembrei-me de Diana e suas ameaças. Não posso dizer nada a Victor que o incentive a ficar comigo, ou sequer perto de mim. Por mais que me doa, por mais que um pedaço de mim não o quisesse longe, teria que ser assim.  

- Eu estou melhor sem você. E prefiro que as coisas continuem assim – disse com dificuldade e com a garganta falha – Sinto muito, mas não vai dar para voltar, não.  

Mas o mais doloroso mesmo foi ver a cara de coração partido de Victor. Parece que finalmente compreendeu que não me teria mais como alguém que lhe proporcionasse o afeto que sua carência precisa, e que tudo isso era culpa somente dele, não importava o quanto Diana se intrometesse. Ficou sem palavras. Tentou dizer uma sílaba ou outra, mas demorou para que algumas delas se articulassem e fizessem algum sentido. Seus olhos e sobrancelhas caíram tristes e meio sem vida. Mordeu seu lábio inferior, contendo uma mágoa que evidentemente já o possuía.  

- Ta... Ta bem, então. Ahn, então... – ele se enrolava, gaguejava, desviava o olhar, coçava o couro cabeludo completamente sem rumo. E estava bem chateado, dava para sentir – Bem, já que você está tão bem sem mim e já que estou ferrando tanto com a sua vida, acho que é melhor que eu fique longe de você mesmo – ele falava bem lentamente e tristonho – Talvez seja mais adequado que... Sabe... Que não nos intrometêssemos mais na vida um do outro. Não quero que fique infeliz por eu não estar te deixando em paz, ou por eu precisar mais de você do que o contrário – e por um breve momento, gargalhou como se risse da própria desgraça – Eu não quero... Te fazer mais nenhum mal, Yuri. 

- Está bem.  

Não consegui dizer nada além disso. Eu choraria muito se o fizesse. Victor longe de mim era algo que metade de mim gostaria, mas o que o eu por completo precisava. Contudo, ouvi-lo dizer aquelas coisas em voz alta, me fez cair a ficha de que realmente o capítulo que continha nossa história estava chegando ao fim.  

- Talvez seja isso que faltava entre a gente, – continuou ele desanimado – terminarmos de uma forma mais amigável, sem mais brigas, mesmo que tenhamos ainda muitos assuntos pendentes que talvez nunca iremos encerrar.  

Nossos olhares permaneciam fixos um no outro, confusos e com medo do futuro. Seu corpo todo parecia trêmulo. Até que estendeu a mão a procura da minha. E quando nossos dedos se entrelaçaram: 

- Desculpe, Yuri. Não queria que as coisas acabassem assim, com você saindo tão prejudicado pelas decisões que tomei. Eu sinto muito, muito mesmo – ele mordeu seu lábio pela raiva de si próprio – Se for o melhor para você, não seremos mais amantes. Mas a gente pode pelo menos não se estranhar e não discutir toda vez que a gente se encontra? A gente pode tentar ser amigos, se preferir. 

- Amigos? – amargurado, engoli em seco. Minha voz estava tão tremida quanto a de Victor – Não sei se consigo, Victor. Você me feriu muito – aliás, acho que nem uma mera amizade entre nós seria suficiente para Diana. Por isso, disse: – Eu vou ter que me afastar e ficar um pouco longe. Mas não é nada contra você. Apenas quero cuidar mais de mim agora. 

Não muito contente, jogou sua contraproposta: 

- Não precisamos ser amigos. Podemos ser só colegas, colegas de trabalho que se cumprimentam quando um ou o outro chega ou vai embora, que perguntam como vão as coisas, ou sei lá... Eu só não quero que me trate com indiferença, Yuri, ou que desvie o olhar como se eu nem estivesse ali. Porque vou estar presente e me importando com você. O que acha? 

- Colegas de trabalho não se visitam a noite, não se beijam, não conversam em particular num canto qualquer. Está ciente disso, não é?  

- Sim. Mas... – repentinamente, me olhou um tanto travesso – A gente poderia ser beijar pela última v... 

Antes que terminasse, afastei minha mão da sua e revirei os olhos. Cruzei os braços revoltado e cerrei meus lábios em irritação: 

- Não vou nem responder. 

Foi quando começou a rir. Abriu um sorriso enorme, ao ponto de até acirrar os olhos. Qual foi a última vez que o ouvi gargalhando? E não estava me referindo a risada irônica e sarcástica que soltava no meio das nossas brigas, mas aquela gostosa de se ouvir como esta, que me enchia de alegria e disposição para enfrentar qualquer obstáculo que me aparecesse. Ouvi-lo rindo para mim foi como sentir um resquício do antigo Victor por quem me apaixonei. E confesso que aquilo aqueceu meu peito, me dando esperança de que um dia tudo verdadeiramente ficasse bem.  

- To brincando, Yuri! – se defendeu sorridente – Só queria rever esse bico que você faz quando fica bravo comigo. 

- Brincadeira de mal gosto, hein – e sorri de volta, como se nunca tivéssemos brigado.  

Mas o sorriso de Victor vagarosamente se desfez quando decidiu perguntar sério: 

- Pedir um abraço seria uma brincadeira de mal gosto também? 

Meus lábios também se fecharam.  

- É melhor não, Victor – afinal, aí sim me desmancharia de vez, perderia qualquer indício de razão que me restava.  

- Você sabe que dia é hoje, não sabe? 

Essa não.  

- Sei, sim. 

Ele usaria aquilo como chantagem.  

- Então. É só um abraço de parabéns. 

Eu estava bem o bastante para abraçá-lo e o sentir tão perto de mim? Certamente não. Uma voz em minha cabeça insistia que eu iria me arrepender. Outra dizia que ele estava se aproveitando da situação para me roubar um beijo no fim das contas. Havia aquela voz também que me xingava de idiota por estar caindo nessa. Mas aquele talvez fosse a última vez que o abraçaria. E mesmo que tal ato me fizesse mal por um tempo por não poder abraçá-lo novamente, acho que prefiro que nosso término se consolidasse com esse abraço, e não com uma porta na cara e gritarias como da última vez que Victor esteve aqui.  

E por orgulho próprio, tentei omitir o quão estava louco para tê-lo em meus braços de novo: 

- É só um abraço e nada mais. 

- Isso – Victor concordou feliz – Apenas um abraço normal. 

- Exato. Não significa nada.  

- Não, de jeito nenhum. Até porque, somos só colegas.  

- É, colegas que se pegaram por um tempo, mas não se pegam mais. 

- Certo.  

- Ótimo.  

Na verdade, estava com um pouco de medo de fazer isso. Como seria depois de tudo que passamos, afinal? Seria doloroso? Ou me traria sensações boas? E diante dessas dúvidas e angústias, me levantei da cadeira e estendi os braços, o convidando para perto antes que mudasse de ideia.  

Victor também se levantou e deu um passo à frente. É engraçado admitir isso, mas foi o abraço mais esquisito que já tive. A gente se olhava, esperando que o outro tomasse a iniciativa de se aproximar. Estávamos hesitantes em nos tocar, como se fôssemos dar um choque um no outro. Quando finalmente meus braços se enlaçaram ao redor de suas costas, e os dele nas minhas, por um breve momento foi como se estivesse cumprimentando um estranho. Estávamos muito tensos.  

- Feliz aniversário, Vitya. 

- Obrigado, Yuri.  

- Quantos anos você está fazendo? 

- Ahn... Não quero falar sobre isso.  

Eu ri quando disse exatamente o que achei que iria dizer. Ele também riu baixo em resposta, aproveitando para se apertar contra mim. Não estava doendo como pensei, pelo contrário... Sua testa repousou em meu ombro, escondendo seu rosto dentro do nosso abraço nostálgico. O cheiro dele era doce do jeito que me lembro e me fazia sorrir abobado. Seu corpo era quente e me envolvia como se eu fosse preciosidade. Respirar se tornou tão mais fácil e o coração pôde bater quão forte gostaria. Me senti confortável, como se ali fosse meu lugar. Me senti querido, principalmente quando acariciava meus cabelos. Me senti em transe quando sentia sua respiração se chocar contra meu pescoço. Apertei suas costas quando notei que não queria nunca mais me afastar, pois quando isso acontecesse, seria o ponto final do amor que um dia a gente teve.   

Pensando nisso, voltei a chorar. Percebi que Victor fazia o mesmo quando o escutei inspirar forte pelo nariz. Mas diferente dele, eu soluçava e quase gritava de tanto remorso.  

- Victor... 

- Shiiii, não chore – Victor sussurrou em meu ouvido. Deixou seu corpo mais ereto, depositando um beijo na minha testa. Ainda não desmanchando nosso abraço, afastou somente sua cabeça, para que pudesse me ver e limpar as minhas lágrimas por mim. Mas ele também estava em prantos – Não chore, não.  

- Victor, vá embora. Vá para casa, por favor – eu precisei implorar por isso. Se dependesse de mim, ficaria com meu rosto molhado em seu peito acolhedor a noite toda. Mas já havia um tempo considerável que Victor havia vindo para cá – Diana vai ficar brava com você se demorar muito.  

- Yuri, desculpe por insistir – segurou meu rosto com uma das mãos carinhosamente – Por que quer ficar tão longe dela? Deixe eu te ajudar, por favor. 

- Não é nada demais. Só quero distância dela.  

- Está com medo que ela saiba que estive aqui, não é? 

Concordei com a cabeça, deixando o choro se extrapolar ainda mais, muito mais do que achei que fosse possível. O apertei novamente, afundando meus olhos em seu pescoço, desesperado ao pensar o que Diana faria quando Victor voltasse contanto que esteve aqui.  

- Yuri, eu ainda não entendo de onde vem essa aversão tão grande por Diana de repente. Mas se isso for te deixar melhor, por que não combinamos uma história entre a gente? Quando eu chegar em casa, vou dizer a Diana que não te encontrei. Fiquei te esperando por um tempo e depois decidi voltar. E caso ela te pergunte alguma coisa, você confirma a história dizendo que estava com Christophe. O que acha? 

- Vai mentir para ela? – limpei meu nariz com o dorso da minha mão – Victor, você não é muito bom nisso. Esqueceu o quanto linguarudo você é? 

- Mas eu consegui esconder que a traía por muitos meses. Não me subestime. Acho que deveríamos fazer assim, se isso for te deixar mais tranquilo. Pode ser? 

- E que escolha eu tenho, droga?! 

- Shiii, está tudo bem. Fique calmo, Yuri. Calma... 

Demorou para que a calma realmente viesse. Não imaginei que tinha tanto sofrimento acumulado dentro de mim. E aquele abraço quase eterno de tão longo que durou desencadeou tudo. É obvio que rapidamente fui tomado por uma dor de cabeça violenta. Mas quando as lagrimas secaram, felizmente me senti mais leve. Mesmo que Victor e eu ainda não concordemos em algumas questões, acho que nos entendemos na medida do possível.  

- Yuri. 

- Hum? – estava de olhos fechados, apenas curtindo o carinho das suas mãos e o aconchego do seu corpo ainda colado no meu.  

- Nosso término foi tão conturbado que mal tive a oportunidade de agradecer tudo o que fez por mim. Foi incrível o tempo que passamos juntos, Yuri. 

- Uhum. Foi o melhor ano da minha vida. Eu pude finalmente me dedicar ao meu sonho, me livrei das broncas do meu pai, fiz amigos novos, fui em um monte de festas, e passei um tempão com você. Foi perfeito.  

- E você foi tudo que faltava na minha vida dentro de uma pessoa só. Você reacendeu em mim o ânimo que precisava para viver. Eu te amei muito, Yuri. 

Foi quando fiquei incomodado. 

- Então por que nunca me disse? – perguntei repleto de ressentimento.  

- Como assim? 

- Você nunca disse “te amo” para mim. 

- Nenhuma vez? 

- Não.  

- Você está brincando, né? 

- Sempre falou que gostava e que sentia saudade. Mas que amava mesmo, nunca falou.  

Dito isso, Victor fortaleceu seus braços e me apertando ainda mais, como se seu corpo suplicasse pelo meu perdão quando as palavras não mais bastavam. Senti sua respiração sofrida e trêmula atrás de mim quando confessou: 

- Caramba... Pelo visto, fui ainda mais imbecil do que pensei.  


Notas Finais


Oie.
Bom, o que eu queria passar nesse capitulo: que os dois terminaram, mas eles meio que se entenderam dessa vez. Eles não vão sair mais ou ter algum tipo de relacionamento, mas eles vão tentar tocar a vida como mero colegas. Deu para entender isso? Isso ficou claro no capitulo? Se não, me aviseeeeem. Sou perfeccionista!
Grande abraço para vocês.
E lembrem-se: pandemia ainda ta rolando. Se cuidem


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