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História O Bom Samaritano - Capítulo 5


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Notas do Autor


Espero que gostem.
Favoritam!❤️

Capítulo 5 - Lavação de Roupa Suja


Fanfic / Fanfiction O Bom Samaritano - Capítulo 5 - Lavação de Roupa Suja

O vento frio de outono lambera seu corpo em um cumprimento de felicitações ao passar pelos seguranças sem ser barrado por eles. Respirou fundo ao pisar na calçada de concreto, finalmente sentindo a liberdade absoluta e almejada o invadir em maremotos imponentes e eletrizantes, acendendo cada célula de seu corpo à realidade, como se fosse um isqueiro do livramento. 

Nem mesmo o fato de ter que ir com Taehyung fizera aquela chaminha incandescente apagar-se de seu peito. Não era apenas uma conquista. Era a conquista. 

O céu era muito mais bonito visto daquela maneira. Ao contrário do que via pela janela de seu antigo quarto, atrás das grades, ele era infinitamente maior do que um mísero quadrado repartido e literalmente impossível de tocá-lo, embora seu esplendor seduzisse a isso. 

E pensar que poderia ter ficado mais dois, três meses lá dentro... no seu martírio... 

Sr. Namjoon não mentira ao dizer que ele era um vitorioso. Estava do lado de fora depois de meses ouvindo que jamais sairia dali, que apodreceria em seu quarto sem ninguém, morrendo de fome e imundo. Porém calara a boca de todos. Eles perderam e ele vencera. Isso. 

— Chupa, seus filhos da mãe! — gritou ele aos seguranças, aos enfermeiros, à trupe de Wooseok e ao diretor que estavam no portão, testemunhando indignados sua vitória para cima deles. — Eu estou livre dessa porra! Sou livre agora! Sai dessa merda! Obrigado, Sr. Namjoon! — Ele acrescentou ao vê-lo no meio de todos eles, se destacando pela sua seriedade e sincera felicidade. — Obrigado, de verdade. 

— Não há de quê, Jimin — respondeu ele sorrindo largo e satisfeito. — Cuide-se e seja feliz. 

O sorriso estampado em seu rosto era tão grande e bonito que chegava a ser ofuscante. A chaminha em seu peito se tornara um imenso incêndio às expressões das pessoas que tanto lhe fizeram mal e ao sorriso do único homem que lhe ajudara do início ao fim. Apesar de não os enxergar por causa de seus olhinhos fechadinhos e enrugadinhos, podia sentir a raiva lívida e uma alegria verdadeira. 

— EU ESTOU LIVRE, PORRA! — berrou às casas à sua frente, aos céus e para qualquer ser que possuísse audição para escutá-lo. E daí que eram onze horas, quase meia-noite? Depois de nove meses vivendo sozinho naquele inferno ele estava livre, não existia a opção "não comemorar". — Ah, estou livre! 

— Fico feliz por você, Jimin — disse Taehyung puxando-o pelo braço gentilmente, fazendo-o calar a boca com o gesto —, mas vamos parar de gritar, sim? Senão os vizinhos podem te denunciar por perturbação de sossego. 

— Ah, Tae! — Jimin o abraçou com o rosto banhado em lágrimas, seu peito pesando de tanta emoção. — Sei que estou sendo patético, mas é que... ah, céus... é tão... inacreditável, entende? 

— Você não é patético, Minie — consolou-o Taehyung empurrando-o para olhá-lo nos olhos. O toque de seus dedos em sua bochecha era quente e suave, como se sua pele fosse de porcelana, e secava delicadamente suas lágrimas. — Pelo contrário, é um homem forte. Chorar por causa do que você passou jamais o tornaria patético, uma vez que é algo superador, comovente, emocionante... É intenso. 

Jimin fungara, seus olhinhos brilhando em lágrimas; seu lábio inferior tremeu quando dissera, baixinho e frágil: 

— O Sr. Namjoon me chamou... me chamou de vitorioso. 

— E ele tem a total razão. 

Jimin o abraçara novamente, afundando o rosto em seu ombro e deixando-se chorar audivelmente, sem se importar por estar mostrando vulnerabilidade aos seguranças e às pessoas curiosas que, ao ouvirem a sua gritaria, apoiaram-se no peitoril de suas janelas para bisbilhotar. 

— Estou tãooo feliz... 

— Mesmo sendo obrigado a ir morar comigo? 

Jimin o olhara confuso. Processava sua fala com lentidão, pois sua mente estava lotada de sentimentos alegres. Então, ao compreender o que sua frase queria dizer, Jimin o soltou, mas continuou perto, encarando-o. 

— O que te faz pensar que eu não ficaria feliz em ir morar contigo? 

Taehyung sorriu triste e passou a brincar com os seus cabelos louro-quase-branco, mantendo seus olhos neles ao invés de encará-lo também. Era como se ele já estivesse conformado com o fato de Jimin não querer ir com ele. 

— Eu te conheço há dez anos, Jimin. 

— E? — insistiu Jimin fungando novamente, desta vez coçando o nariz com a manga da camiseta larga, impaciente. — E o que isso tem a ver? 

— E — continuou Taehyung despreocupadamente, não fazendo a gentileza de olhá-lo — eu sei bem o quão forte é esse seu senso irritante de independência. Ir morar comigo, mesmo por cinco meses... 

— Três — corrigiu Jimin precipitado —, são no máximo três meses. 

— Viu? — Taehyung se afastara, disfarçando sua decepção com um sorriso insincero. — Por que reforçaria o prazo de tutela se isso não fosse ruim para você? 

— Tae, olha... 

— Isso te incomoda bastante, não é? — continuou Taehyung, ignorando-o. — Ir morar comigo deve ser muito ruim para o seu "super senso de independência", fere seus princípios e o faz ver meu apartamento como uma outra prisão — fitara seus olhos profundamente —, ou estou errado? 

Jimin ficou em silêncio por não ter o que argumentar para refutar esse pensamento correto do eloquente Dr. Kim Taehyung, cujo passara anos estudando para saber atacar, defender, argumentar e refutar até ganhar uma causa — o que acontecia em 85% das vezes. Não era por menos que ganhava qualquer discussão mesmo se estivesse errado, pois era muito bom nisso. 

Entretanto, daquela vez pelo menos, ele estava com a razão. Ir com ele incomodava Jimin mais do que ele pudesse imaginar. 

— Vamos? — propôs Taehyung, entrelaçando suas mãos. — Ei, não fique assim, eu não me importo. Farei de tudo para deixá-lo o mais confortável que eu puder, está bem? — E beijou o meio de sua testa. — Falando nisso, quer alguma coisa em especial no jantar? 

— Sanduíches estão ótimos para mim — respondeu Jimin depressa, não querendo que ele se incomodasse tanto por sua causa, não depois do que dissera. — É sério — tivera de reforçar ao olhar questionador de Taehyung em sua direção, achando que estava sendo modesto. — Alguns bastam. 

— Está certo, então.

.

.

.

Entraram no estacionamento aberto da clínica, quase totalmente escuro se não fosse pela luz da lua e das casas à frente. Encontrava-se quase vazio, tendo somente cinco carros contando com o ilustre Hyundai Azera de Taehyung, estacionado na antepenúltima fileira à esquerda, a partir da entrada, cujo carro se destacava de longe por causa de sua lataria reluzente. 

Taehyung comprara aquele Azera aos vinte e cinco anos, por ser discreto e bonito o suficiente para deixá-lo com um ar de importância ao sair de dentro dele, vestindo terno impecável e com um semblante sedutoramente confiante. 

— Tae, você tem blusa no seu carro? — perguntou Jimin esfregando os braços, o frio arrepiando os seus pelos e endurecendo seu maxilar. — Estou quase morrendo congelado... 

— Que exagero... — debochou Taehyung, caçando algo em seus bolsos. — Mas tenho sim, embora tenha aquecedor no carro. 

Taehyung tirou um controlezinho preto com botões cinzas de dentro do bolso de seu jeans. Pressionara um deles e o seu carro, imediatamente, apitara, ligando as luzes dos faróis dianteiros. 

— Que chique — elogiou Jimin falsamente, andando em direção ao carro. Deslizara sua mão pela sua pintura reluzente sorrindo, parando na porta do passageiro e a abrindo, olhando para Taehyung com a sua melhor cara de homem sexy. — E aí, gato? Me dá uma carona até o seu apê? 

— E o que eu ganharia em troca? 

— Um "muito obrigado" não basta? — retrucou Jimin sentando-se no banco de couro e sorrindo a Taehyung, que fechara a porta. — Nossa, além de ser um famosíssimo advogado e ator, também é um incrível cavalheiro. 

Taehyung riu, contornando a frente do carro para entrar pela porta do motorista. Jimin tinha que confessar: sentira saudade das provocações e brincadeiras. 

— Eu sou um pacote completo, baby — respondeu Taehyung colocando o cinto, mas sorrindo cafajeste para ele. — Não é à toa que eu sou tão perseguido, não é mesmo? 

— E, olha, também é humilde — dissera Jimin imitando seu gesto de segurança. — Que partidão você é, hein, Tae. 

— É, eu sei. 

Jimin riu. 

— Idiota. 

.

Questionava-se sobre a razão da atração ser tão complexa e incontrolável à ponto de fazer-nos sentir desejo por pessoas de diferentes maneiras, formas e jeitos, enquanto assistia os comércios com as fachadas iluminadas por luzes coloridas e fluorescentes resvalando diante de seus olhos, à medida que Taehyung avançava pelas ruas movimentadas de acordo com a lei, irritando os outros motoristas que tinham foguetes nos escapamentos. 

Não importa se você é alta, mediana ou baixa, se seu corpo é magricelo, magro, médio, gordo ou obeso, ou até mesmo se seu cabelo é liso, ondulado, cacheado ou crespo, em algum momento aparecerão pessoas atraídas por você, porque, à primeira vista, sua estética as agradam — sem contar com as outras características que compunha a beleza do ser humano. 

E, logo depois de se atrair pela sua estética, vem os traços de sua personalidade cativante e única, às vezes muito mais importante do que a "beleza" e que não se pode moldar pelos padrões da sociedade. Você nasce daquela maneira, permanecerá assim pois é o que você tem de melhor e não se muda o que você tem de melhor. 

Jimin riu, sentindo a ironia de suas palavras. Ele próprio não ligava a mínima pela personalidade das pessoas que se envolvia profissionalmente, na hora o que valia era o que elas tinham para dar em troca de uma noite de sexo sem compromisso e sentimentos. Pouco se importava também se eles tinham empregos, famílias ou formações, isso não era algo importante para saber. 

Entretanto, quando ia para as boates a fim de pegar alguém, ele dava bola somente às pessoas que — esteticamente falando — aparentavam ter a capacidade de excitá-lo com um beijo. Ao longo de suas idas a esses lugares considerados promíscuos, conhecera algumas pessoas que conseguiram excitá-lo, mas não tanto quanto Bong Joon-ho conseguira, em apenas quinze segundos de um beijo que o levou à ala pertencida à luxuria, lá no inferno. 

Bong Joon-ho não valia a roupa do corpo. No senso comum, era conhecido por "sabe aquele cafajeste?", porque de fato Bong tinha doutorado nisso. Porém, isso não apagava o seu maldito talento de deixar qualquer pessoa louca com as suas habilidades na cama e suas pegadas fora dela — como acontecera com ele na boate Hellish Paradise, onde se conheceram e, em pouco menos de uma hora, Jimin já estava de quatro na cama de um motel caro, olhando-se num espelho enorme enquanto via Bong o fodendo com talento. 

Jimin não sabia se sua reação quando trepava com Bong era por causa da droga que usavam durante o ato ou se tinha a ver com as suas gônadas, hormônios ou qualquer outra coisa que provoca o seu tesão. Apenas sabia que aquele filho da puta fazia seu corpo entrar em erupção. 

Em contraste do que sentia por Taehyung, no entanto. Durante todos esses anos juntos, Jimin nunca o olhou com outros senão os fraternais, mesmo Taehyung sendo mil vezes mais bonito que Bong e de melhor caráter. Quando se conheceram naquela praça deserta em Gil-dong, Jimin não vira nada que despertasse seu desejo. Nem mesmo quando namoravam, anos atrás, ele conseguia sentir tesão no sexo, tendo de fingir gemidos e prazer para não o magoar. 

Infelizmente seu libido não seguia na direção da luz, na qual moravam as pessoas iguais ao Sr. Namjoon: boas, inteligentes, bem-humorados e amorosos; sempre desviando-se à obscuridade, onde viviam os cafajestes destruidores de corações, que possuíam o viciante talento de te satisfazer, fazê-lo se apaixonar, para depois sumir no mundo, estilhaçando seu amor como se Jimin não valesse a água que bebe. 

"Quando em minha vida aparecerá a minha alma gêmea, céus?", perguntou Jimin olhando-se pela câmera do celular de Taehyung. Embaixo de seus olhos havia manchas escuras e uniformes que os tornavam fundos; sua pele macilenta esticava-se sobre seus ossos faciais e tinha uma profunda aparência de cansaço e, por último, seus cabelos ressecados e duros não pareciam mais louros, e sim brancos. 

Mesmo assim, em meio a tantas imperfeições, existia uma beleza natural em seus olhos e em seu sorriso, os quais traziam lampejos do antigo Jimin de tempos atrás. 

O semáforo fechara adiante e o carro de Taehyung perdera a velocidade aos poucos até parar por completo, em primeiro lugar na fileira de carros que se seguira. Seria uma ótima hora para conversarem sobre a ausência de Taehyung, mas Jimin não sentia essa necessidade, por isso ele devolvera o celular e, antes que Taehyung pudesse agradecer, virou-se à janela, na intenção de mostrar que estava focado na cidade. 

No entanto, ao fazer isso, encontrara-se com dois redondos olhos tão escuros e reluzentes quanto o carro conversível que dirigia. 

Apesar de seu rosto ser bizarramente familiar, nada chegava à sua mente para lembrá-lo de onde, não quando tinha à sua frente olhos hipnotizantes o suficiente para fazê-lo esquecer o próprio nome. Menos, é claro, para fazê-lo esquecer de dar uma conferida no pacote completo, um verdadeiro presente à sua libido carente. 

O dono daqueles olhos, que se adiantara na conferida completa, possuía cabelos escuros perfeitos para serem puxados num descarrego de tesão; combinava perfeitamente com o seu rosto impressionantemente lindo, suas sobrancelhas bem feitas e lábios que, apesarem de serem bem pequenos, transmitiam a sensação de fazerem altas maravilhas. 

Um verdadeiro anjo coreano caído, saído diretamente do inferno para atormentá-lo depois de nove meses de abstinência de sexo ou quaisquer coisas que remetessem a sexo, em suma. 

Todavia, o que deixava Jimin mais abismado não era aquela beleza, era o fato de estar excitado e com os neurônios desregulados somente com a porra de um olhar. E para piorar o seu estado vergonhoso de excitação, o moreno delicioso a pouco metros de distância vestia uma camisa social amarrotada com o peito confiantemente estufado e o encarava com um olhar duro, penetrante, sujo. Isso o fazia ficar ainda mais tentador e, consequentemente, multiplicando o incêndio em seu corpo quatros vezes mais. 

Jimin ofegava, suava e pulsava na calça como um rapaz virgem de quinze anos em seu primeiro contato com a vida sexual. Ele sentia uma necessidade desvairada de pular do carro, entrar no dele e sentar naquele moreno até que suas pernas latejassem por socorro. 

E estava até com a mão na maçaneta quando, por pura obra do infeliz destino, o semáforo tornara-se verde e o maravilhoso moreno, ao som das buzinas impacientes, arrancou seu carrão numa direção oposta da sua, deixando para trás o que seria uma ótima história de sexo na estrada. 

Entretanto, o sorriso safado e o olhar matador que dera antes de partir avoado foram gravados pela mente astuta de Jimin, que tinha o coração pulsando no peito às avessas do seu pau que pulsava em sua calça. 

— O que foi, Jimin? 

A voz de Taehyung soou estranha aos seus ouvidos, como se ele estivesse muito longe e estivesse falando dentro de um balde cheio d'água. Talvez escutasse assim por ainda estar emergido em pensamentos nada conservadores com aquele moreno desconhecido da estrada. 

— Jimin! Jimin! 

Sem respostas. Bom, quem responderia quando aquele maravilhoso moreno estava em cima de você, prendendo seus braços na cabeceira da cama de um hotel luxuoso em Las Vegas, comendo-o com os olhos enquanto prometia uma noite de muito prazer e orgasmos... 

— JIMIN! 

— Que é? — gritou Jimin de volta, assustado. Olhara para Taehyung como se fosse a primeira vez que o via. — Quero dizer... hum... o que foi, Tae? 

— Eu que pergunto, Jimin — respondeu Taehyung fitando-o com estranheza. — Aconteceu alguma coisa? 

— Por quê? 

— Sei lá, você está aí, parado olhando pro nada — contou Taehyung voltando sua atenção à estrada, e Jimin agradeceu por isso. Suas mãos tremiam e o desejo borbulhava em seu corpo. Era tão forte quanto sentira por Bong na primeira vez. — Parecia até petrificado. 

— Eu não tenho nada, estou bem. 

— Tem certeza disso? 

Lógico que eu não estou bem. Você estaria bem se tivesse um maldito moreno gostoso dentro de sua mente, criando cenas eróticas que jamais se realizarão, pois você nunca o viu na vida? — era isso que queria dizer, mas ao invés disso respondeu: 

— Tenho sim. — E completou com: — Acho que é cansaço mesmo. 

Disfarçadamente se aprumara no banco para esconder sua ereção explicita. Seria um prazer triste se satisfazer sozinho, quando chegasse na casa de Taehyung, quando poderia ter realizado suas recém-fantasias com o causador delas. 

Semáforo vagabundo. 

— Acho que você precisa é de um bom banho quente, uma comida boa e uma ótima e tranquilizante noite de sono em uma excelente cama. 

Jimin balançara a cabeça rindo, mas não como se dissesse não. 

— É, com certeza eu preciso disso. 

Mas aí se lembrou de que não teria uma ótima noite sem aquilo e parara de rir instantaneamente. Como convenceria de que precisava mesmo de cocaína para, pelo menos, dormir, quando o amigo era irredutivelmente contra o uso, venda e compra de drogas ilícitas? Seria mais ou menos como tentar falar ao leão para parar de comer carne. 

Impossível. 

De nada adiantaria dormir no melhor colchão do mundo, na melhor e mais cara suíte, se não estivesse mentalmente e fisicamente esgotado, incapaz de raciocinar e ficar em pé — o que acontecia quando se passava o efeito da cocaína nele. Entretanto, como explicaria a Taehyung essa importância e, ao mesmo tempo, evitar uma discussão prolixa, enfadonha e inútil, como todas as outras que tiveram no passado? 

Seria impossível. 

Porém, isso precisava ser feito e ele faria, arcando com as consequências se fosse preciso. Ao contrário do que muitos pensam quando se trata de um viciado e seu elixir, não é uma opção não usar, pois o que está em jogo é a sua saúde mental, a sua paz. Não é um capricho, um exagero, é uma necessidade. 

Então, aprumando-se novamente no banco à medida que o seu desejo se transformava em determinação e Taehyung avançava reto numa rua bem asfaltada de casas nobres, Jimin ficara com o torso e as pernas viradas para o amigo e disse, embora Taehyung não o olhasse: 

— Eu preciso comprar cocaína, Tae. 

Silencio. Buzinas. Vozes altas e barulhos de motor. E, depois, a voz intransigente de Taehyung: 

— Não, não precisa. 

— Não é você que decide isso, Taehyung. Eu sei muito bem do que eu preciso e eu preciso, sim, dessa merda. 

— Se você soubesse mesmo do que precisa não estaria do jeito que está — replicou Taehyung inexpressivo, virando o volante todo para a esquerda e depois voltando-o, após terminar a curva que levava, mais à frente, ao seu condomínio. — Então, não, você não sabe. 

— De que jeito eu estou, Taehyung? — questionou Jimin estreitando seus olhos, os braços cruzados firmes no peito. — Horroroso? Ridículo? Deprimente? Parecendo uma caveira? 

Taehyung respirou fundo e parou o carro diante do portão da garagem subterrânea do condomínio fechado, um basculante imponente cinza e automático. Fitou-o com as pálpebras cansadas, sem se importar com as suas sobrancelhas erguidas em desafio. 

— Eu não estou me referindo à sua aparência — disse ele. 

— Ah, não? Está se referindo ao quê, então? 

— Em um contexto geral, estou me referindo ao seu modo inconsequente de levar a vida, como se ela não valesse nada — explicou-lhe Taehyung enquanto avançava pela garagem espaçosa e cheia de carros, à procura de sua vaga identificada. — Responde-me, onde você estaria se não tivesse escolhido esse caminho? 

— Provavelmente não estaria vindo de uma reabilitação fodida, após passar nove meses trancafiado numa clínica de merda contra a minha vontade, à espera do cara que dizia ser o meu melhor amigo e me amar — cuspiu Jimin sem piedade, dando espaço à raiva. — Não é mesmo, Tae? 

Eles estacionaram na vaga ao lado de um Sonata e um outro carro comprido e bonitão, onde no alto lia-se APTM 522. Os vizinhos eram APTM 520 e APTM 524. Jimin, sentindo sua raiva consumindo cada parte racional de sua cabeça, retirou o cinto, caso tivesse de pular fora do carro. 

— Jimin, eu estive... 

— Não! Não me diga que esteve sem tempo, por favor — interrompeu-o Jimin, enfurecido por ele querer usar a desculpa que ele criara para justificar a sua ausência. — Eu disse isso a mim mesmo para não ficar zangado e entender o seu lado. Eu havia caído na real faz alguns meses, mas continuei me enganando até que, exatamente hoje, eu percebi que haviam se passado nove meses exatos desde a última vez que eu falei contigo. 

Taehyung abriu a boca para falar, talvez para se justificar, mas Jimin estava enfurecido demais para escutá-lo, precisava desabafar tudo o que pensara em falar a ele quando o visse, quando finalmente conversassem sobre a sua ausência inexplicável. 

— Você não faz ideia do que é ficar nove meses sem ver a única pessoa que você tem na vida, esperando sua visita para poder abraçá-la, ouvir a sua voz falando que tudo ficaria bem no fim, que ela estaria com você do início ao fim — despejou Jimin à medida que seus olhos se enchiam de lágrimas, porque ele estava falando de si mesmo, falando o que tanto pesava. — E dia após dia de sofrimento, a memória de vocês dois se divertindo por trinta minutos a cada visita apareceria em sua mente, relembrando de que por aquela pessoa, a única pessoa que você tem na vida, valeria continuar lutando contra tudo, pois sabia que ela faria o mesmo por você. 

Houve um silencio constrangedor quando Jimin se calou, secando as lágrimas que desceram pelos seus olhos durante o seu discurso. 

— Jimin, eu... 

— O que vai me dizer, Tae? — questionou Jimin voltando-se a ele às lágrimas. — Para quem eu liguei quando fui internado? Eu disse que esperaria a sua visita. E eu esperei. Você não faz a mínima ideia do quanto eu esperei por você, o quanto eu precisava da sua companhia, do seu sorriso, da sua voz... de você. E você não sabe o quanto chorei ao perceber que não teria nada disso, que não teria o meu melhor amigo ao meu lado naquele momento mais difícil da minha vida. 

Jimin fez uma pausa dramática antes prosseguir, soluçando, 

— Nem que fosse um mísero telefonema, um cartão de duas linhas ou qualquer outra coisa, eu só queria uma coisa que provasse que o meu melhor amigo não me abandonou, que o meu melhor amigo ainda estava lá, me dando forças para seguir em frente. — Jimin olhou-o fundo nos olhos. — Eu precisava de você, Tae, somente de você. 

E saiu do carro soluçando alto, não se dando ao trabalho de fechar a porta ou de se virar ao som de seu nome. Ele queria apenas andar. 

— Jimin! Jimin! Espera aí, Jimin! 

Não adiantava o quão alto Taehyung gritasse, ele continuaria andando reto em direção ao corredor no fim do estacionamento à direita, onde ficava o elevador. Também não dava atenção aos carros reluzentes enfileirados um do lado do outro em suas respectivas vagas. Secava as lágrimas com a manga da camiseta, mas sempre desciam mais, resultado da raiva mais a mágoa que sentia. 

Os gritos de Taehyung somente lhe davam mais gás a continuar andando. 

— Quer fazer o favor de parar, porra? 

Nesse ele parara, mas fizera apenas isso. Estava na entrada do corredor, conseguia ver a pivotante que escondia o elevador a quinze passos à frente. Deixou-se virar por Taehyung como uma boneca de pano desgastada, mas não o encarou a princípio, concentrando-se na manchinha sutil na ponta de seu nariz 

— Eu sei que fiz mancada contigo. — Falando daquela maneira tão coloquial, nem se assemelhava ao imbatível Dr. Kim Taehyung dos tribunais, o eloquente conhecedor de termos jurídicos do dicionário dos advogados e que gravara o código penal inteiro em uma semana. Assemelhava-se mais ao Taehyung que se apresentara a ele há dez anos, querendo a amizade de um viciado qualquer, com um cachorro-quente nas mãos. — Mas não era como se eu não quisesse ir, eu juro. 

— Ah, verdade? — disse Jimin ainda sem olhá-lo. — E o que te fez não ir? 

— O meu egoísmo, Jimin. 

Jimin o olhara nos olhos somente por causa da culpa sincera que sua voz soara em seus ouvidos. Através daqueles olhos castanhos viu o seu arrependimento, mas não falara nada porque aquela vez era a de Taehyung. 

— Fui egoísta em pensar na dor que sentiria se o visse do jeito que Kang te descreveu. 

— E como ele me descreveu? — questionou Jimin baixinho, seus lábios insensíveis e frios. — O que ele te disse? 

— Ele me disse que você estava fora de si, transtornado, agressivo — contou Taehyung em tom de quem pede desculpas. — Quando você me ligou e eu agi de forma estúpida, logo depois desligar a ligação, Kang me ligou e falou que você precisava de ajuda urgentemente, que você atacou um dos enfermeiros que foram lhe buscar... 

A risada de gélida de Jimin ecoou pela garagem como a risada de um ser maligno. Jamais imaginou que um dia sentiria tanto desprezo por alguém além dele, mas Kang aparecera em sua vida para mudar esse seu conceito. 

— Acho que você também ficaria agressivo se tivesse sua casa arrombada e um bando de homens desconhecidos vestidos de brancos te levassem à força para dentro de uma van branca, que tinha escrito à tinta na lateral Clínica de Reabilitação Sunshine, não é mesmo? 

Naquele momento ele queria estar com o Sr. Namjoon. Ele saberia ouvi-lo e compreendê-lo. Sua voz de cantor de rap o acalmava mais do que qualquer remédio prescrito por ele. 

O que acabara com o seu tratamento à base de remédios controlados fora o abuso nos comprimidos pelos enfermeiros, a fim de deixá-lo mansinho. Nas primeiras semanas ele estava tudo indo muito bem, seguia à risca a receita do Sr. Namjoon, mas depois tudo mudara. 

Se eles tivessem continuado com o tratamento, ele estaria muito melhor. 

— Acho que o diretor Kang — o seu desprezo ao pronunciar o diretor era tão forte que chegou a agredir Taehyung, ocasionando uma careta em seu rosto bonito, exausto e preocupado — esqueceu-se de mencionar a parte de que me bateram nas costas e nas costelas para eu ir com eles e, no meio do caminho, me doparam para eu parar de lutar contra aquela camisa de força. Quem me garante que fizeram isso apenas para "me acalmar"? 

— A questão não é de quem tem razão ou culpa — declarou Taehyung exasperado, esfregando o rosto e empurrando seus cabelos para trás e, em seguida, esfregando o pescoço. — Eu não tinha estrutura emocional ou psicológica para vê-lo naquele estado, ainda mais com um caso pesadíssimo que viera para coroar. 

"Tudo ficou tão bagunçado, Jimin, meus sentimentos, os meus pensamentos, os relatos das vítimas, as provas... eu tive de fazer uma escolha". 

— E escolheu me abandonar lá. Entendi, sério. — Jimin sorriu, mas um sorriso frio e falso, de raiva e tristeza. — Mas e aí, ganhou o caso, pelos menos? Para levar nove meses... sem te oferecer um espacinho de trinta minutos na sua agenda por todo esse tempo... 

— Levou sete meses para ele ser concluído e sim, eu ganhei — respondeu Taehyung displicente, como se fosse só mais um para o seu currículo de dezenas. — O ponto é que eu coloquei os meus problemas, a minha dor, acima de você. Não pensei em como você se sentia num lugar daqueles, sozinho e sofrendo. Mesmo doando regularmente para que você ficasse confortável, sabia que nenhum bem material substituiria a presença de alguém que te ama. 

"Acabou que eu não tive nem o conforto e nem a presença do alguém que me ama, olha que desfecho maneiro", disse Jimin a si mesmo, por pouco não deixando escapar. Embora seu lado vingativo quisesse jogar na cara de Taehyung que nada valera, o seu lado que o amava e tinha medo de magoá-lo o impedira de fazer isso. 

Então, para não correr nenhum risco de dizer coisas a mais, preferiu ficar em silêncio e encará-lo inepto. Taehyung o acompanhou no silêncio, suas mãos em cada lado de seu maxilar e os dedos em seu pescoço. 

As mãos geralmente quentes e firmes de Taehyung estavam trêmulas e hostis, como se estivesse sendo contaminado pelos seus sentimentos. Isso entristecia bastante Jimin, pois gostava de seu calor, que o aquecia ao abraçá-lo. Apesar de ser independente e rebelde, curtia a segurança que os braços dele transmitiam. 

Talvez por não suportar mais aquele silêncio sepulcral que pairava ao redor deles, Taehyung aproximou suas testas segurando sua nuca com as duas mãos e disse, sua respiração estável misturando-se com a dele: 

— Eu peço perdão por não ter sido o amigo que você mais precisava, por não ter ido assim que você me ligou e, principalmente, peço perdão por não ter cumprido a promessa que te fiz há dez anos, de sempre cuidar de você, de protegê-lo contra tudo e contra todos. Perdoe-me, Jimin, por favor. 

— Você me deixará comprar, Tae? 

Taehyung se afastara dele, enojado. 

— Esse é o preço do seu perdão? Poder comprar cocaína? 

Jimin riu com escárnio e cruzou os braços, criando uma barreira entre eles. Era incrível como Taehyung deduzira que seu perdão estava à venda como uma vez o seu corpo estivera. Claro, o seu passado nem tão distante sempre refletiria em seu futuro, não importava as decisões que tomasse para apagá-lo, ele ainda estaria lá. 

E apesar de isso desanimá-lo bastante, não os culpava por pensarem assim. Se ele tivera a coragem de transar com quem fosse por dinheiro, cocaína e afins, por que não venderia seu perdão também? 

— Não, Taehyung, esse não é o preço do meu perdão, até porque eu nunca deixei de desculpá-lo por qualquer coisa que faça. E desta vez não seria diferente. 

— Isso quer dizer que você me perdoa mesmo? 

Jimin o olhara por um curto período de tempo antes de responder. Os olhos cansados, o semblante preocupado, os cabelos castanhos bagunçados e os lábios rosados contraídos — que quando se abriam formavam um precioso sorriso quadrado — ainda o tornavam um dos homens mais bonitos do mundo. Irresistível caso se vestisse de terno sob medida, com aquela cara de safado e olhar penetrante, que conquistava quem quisesse — menos ele, claro. 

Achando desnecessário aquela pausa para responder uma simples pergunta que eles já tinham a resposta, Jimin sorriu afetado ao ansioso Taehyung e assentiu, desmanchando a barreira ao ser abraçado por ele. O amava tanto... 

— Obrigado, Min, de verdade — disse ele apertando-o ainda mais, típico dos seus abraços de urso que ele adorava tanto, quase tirando-lhe o fôlego. — Prometo nunca mais fazer isso. Cuidarei e te protegerei até que meu coração pare de bater. E isso inclui não permitir que consuma esse tipo de coisa. 

— Mas, Tae, eu preciso... 

— Daremos um jeito, ok? — garantiu Taehyung segurando seu rosto próximo ao de Jimin, seus olhos incomplacentes, seguros, nos dele. Não tinha motivos para prolongar aquela discussão, não quando os olhos de Taehyung prometiam ajudá-lo a superar, a seguir em frente. — Confie em mim, Jimin. Você é forte, é vitorioso e tem a mim. Superaremos isso juntos. 

Jimin assentiu vigorosamente, embora mordesse o lábio. Dera preferência à concordância não verbal, pois sabia que se abrisse a boca sua voz denunciaria o seu ceticismo. Vinha consumindo cocaína há mais ou menos quinze anos. Durante esse tempo, houve sim um hiato de seis meses que ficara completamente sóbrio, com ajuda da dança contemporânea e músicas clássicas — foram os meses mais frutíferos de sua vida, era como se ele finalmente tivesse conseguido a felicidade genuína fazendo que amava. 

Infelizmente, porém, tivera uma recaída que voltara duas vezes pior, chegando a ter uma quase overdose. Sinceramente ele torcia de todo o coração que Taehyung tivesse razão e eles arrumariam um jeito para os motivos de ele usar cocaína para dormir, porque, senão, ele provavelmente morreria em um beco qualquer, por insuficiência cardíaca. 

— Daremos um jeito nisso, Minie. Eu prometo. 

 

 

 

(...)


Notas Finais


❤️❤️❤️
Obrigada por sua leitura!


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