História O Calor da Rosa - Capítulo 1


Escrita por: e rangerbaek

Postado
Categorias EXO
Personagens Byun Baek-hyun (Baekhyun), Park Chan-yeol (Chanyeol)
Tags Cbw, Chanbaek, Chanbaekwishes
Visualizações 405
Palavras 10.330
Terminada Sim
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Drama (Tragédia), LGBT, Shonen-Ai, Universo Alternativo, Yaoi (Gay)
Avisos: Homossexualidade, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Nudez, Violência
Aviso legal
Os personagens encontrados nesta história são apenas alusões a pessoas reais e nenhuma das situações e personalidades aqui encontradas refletem a realidade, tratando-se esta obra, de uma ficção. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos, feita apenas de fã para fã sem o objetivo de denegrir ou violar as imagens dos artistas.

Notas do Autor


Eu queria agradecer, singelamente, a quem doou esse plot, @holydodo. Ele foi um dos primeiros a chamar minha atenção na lista e eu sabia que não podia perder a oportunidade de escrever algo do tipo. Isso é incrível e sua ideia é incrível, então obrigado, de verdade.

agradecimentos especiais à Sara, que betou essa história (desculpe pelo trabalho rsrs), @baekyeoliee_
e também à Lua, que fez a capa e deu cor e cara para tudo isso, @lunaticah

obrigado também a todo mundo que passar por aqui, eu espero que gostem <3²

Capítulo 1 - 1. Único - O conto de um príncipe e um forasteiro.


 

Único - O conto de um príncipe e um forasteiro

 

Chanyeol Bradbury ajeitou os óculos com uma mão e apertou o botão no gravador com a outra. Era sua primeira entrevista com um morador da cidade e ele sinceramente não esperava consegui-la tão facilmente.

Quando chegou à aldeia localizada ao pé do Monte Kailash, ele não levou muito tempo para entender que era um daqueles lugares “fora do ar”. A iluminação era antiga, os postes nas ruas tinham luzes amareladas e até mesmo dentro das casas a fiação parecia ruim, mal projetada. Não tinham internet — o que já era de se esperar — e não usavam nenhum dos aparelhos que eram tão comuns a Chanyeol.

A pequena vila era como um rasgo no tempo, estagnada. Apesar disso, segundo os relatos do morador que estava entrevistando, era uma escolha deles, o isolamento; nativos e os moradores locais tinham deixado para trás aparelhos eletrônicos e coisas parecidas, mas sabiam muito bem o que eram e como funcionavam.

— O que você pode me dizer sobre a cultura local? — O objetivo da entrevista era coletar o máximo de informações possíveis. Tinha um mês inteiro pela frente antes de precisar voltar para casa e as pesquisas para fundamentar sua tese do mestrado haviam só começado.

— Você chegou em boa hora — disse o morador e sorriu mostrando os dentes. Vistos de fora pareciam pessoas selvagens, sérias demais ou com rostos inexpressivos, mas de perto eles eram gentis, amigáveis até, mesmo com um forasteiro curioso adentrando suas terras. — O inverno acaba de começar.

Chanyeol teve vontade de perguntar o que o homem quis dizer com “chegou em boa hora”. O inverno havia recém começado, mas o frio rigoroso já era suficiente para congelar-lhe os ossos. Por um momento pegou-se agradecendo o fato de que só tinha um mês na pequena cidade, mas em seguida arrependeu-se. Era antropólogo, porque era curioso, queria saber as histórias — contadas e não contadas — por trás das pessoas, seus ancestrais e suas culturas. Era antropólogo para estudar aquilo que elas deixaram como legado. E mesmo um frio tão cruel quanto o do inverno tibetano não deveria ser capaz de atrapalhar seu objetivo.

— O que isso significa? — Quis saber, ajeitando os óculos uma vez mais. Era um hábito.

O morador apertou os dedos esguios e cobertos de cicatrizes ao redor da caneca de chá preto, oferecendo a Chanyeol outro sorriso com dentes à mostra.

— O povo das montanhas desce para a cidade quando os invernos chegam — esclareceu ele. — Tem um festival de arte local que dura a semana toda, mas você já deve saber disso. É por causa deles que está aqui, não é?

— Sim. Mas não me lembro de ter comentado sobre isso.

Colocando a caneca sobre a mesa entre os dois, o homem suspirou.

— E nem precisaria. — Afastando uma das lapelas do pesado casaco de lã, o homem começou a buscar por algo no bolso interno de sua roupa. Por fim, tirou de lá um envelope, estendendo-o ao estrangeiro sentado à sua frente. — Pegue.

Obedecendo-o, Chanyeol esticou a mão para alcançar o envelope, correndo os dedos sobre a superfície do papel grosso e inspecionando-o antes de finalmente deixá-lo sobre a mesa, a cera vermelha que o selava voltada para cima.

— O que é isso?

— Um convite. — O homem se limitou a dizer. — Abra quando eu sair. E bem-vindo à cidade.

Antes que Chanyeol pudesse fazer qualquer pergunta, ou mesmo pedir ao homem para continuar a entrevista, ele se levantou e foi embora, desaparecendo pela porta sem olhar para trás.

Sozinho no térreo da casa onde estava hospedado, Chanyeol encarou o envelope. Então, desligou o gravador e usou os dedos para arrancar o selo.

 

[...]

 

Quando chegou na cidade, a primeira coisa que Chanyeol viu foram as decorações. Os moradores penduravam fitas e apetrechos coloridos nos arcos dos telhados, nas janelas das casas e nos postes das ruas, enfeitando os arredores.

Não levou muito tempo para que ele descobrisse que aquilo tudo era para comemorar a chegada da família real, o povo das montanhas, os nobres e nômades que desceram a encosta até a cidadezinha para passar o inverno.

Assim como o clima gélido, eles haviam acabado de chegar. Chanyeol estava ansioso para obter informações e, quem sabe, conhecê-los. Sua pesquisa tinha como alvo o reinado de nômades que desciam as montanhas tibetanas todos os invernos, sempre na mesma direção, mesmo que tivessem um fluxo migratório geral incalculável.

Eram pessoas diferentes e Chanyeol não poderia estar mais interessado em suas histórias, em seus passos.

O convite que o homem havia lhe entregado era uma cortesia da nobreza. Uma vez por ano seus príncipes e princesas mostravam seus talentos em um festival invernal que sempre acontecia naquela mesma cidade. Eram recebidos com pompas e tudo, admirados e estranhamente venerados pelos moradores locais. O inverno era deles, Chanyeol compreendeu isso enquanto lia.

A apresentação daquela noite atraiu tantas pessoas para o único teatro da vila que os lugares precisaram ser contados e reservados. Na fila extensa, do lado de fora da construção de pedra, Chanyeol e as outras pessoas com convites em mãos passaram primeiro, sendo direcionadas às cadeiras dianteiras, tão próximos do palco quanto possível.

Sentado na segunda fileira, a visão ampla do local era privilegiada. As luzes ali dentro eram escuras, reduzidas a quase nada para criar um ambiente que misturava ares sombrios e alguma outra coisa que Chanyeol ainda não havia identificado.

Mais tarde ele descobriria que o tipo de clima criado ali dentro era sensual, provocativo.

Havia sido informado que o talento da noite era o príncipe herdeiro, o mais velho e, segundo os burburinhos que ouvira até estar com a bunda numa cadeira, o mais bonito. Ainda não havia enxergado o rosto dele, então a parte sobre a beleza era um mistério, mas já conhecia seu nome.

Baekhyun, o príncipe que herdaria o reinado assim que seu pai, o rei, decidisse passá-lo para ele. As informações que Chanyeol conseguira antes de chegar até ali revelaram que eles tinham um sistema monárquico diferente do clássico, em que um rei morre e o trono passa ao primogênito. Não entendia muito bem como eles haviam alterado aquilo para caber em sua cultura e suas raízes, mas tinha tempo o suficiente para descobrir.

À medida que as cadeiras do pequeno teatro eram ocupadas, as luzes diminuíam mais e mais, quase ao ponto de se apagarem por completo. Chanyeol não sabia quem controlava a iluminação, mas estava dando muito certo se sua intenção era atiçar as pessoas.

A empolgação dos moradores era quase palpável, coletivizada e ridiculamente atrativa. Quase alcançava Chanyeol, mas ele mal sabia o que deveria esperar.

Quando as luzes se apagaram de vez e um estranho barulho de metal — como moedas caindo em uma pilha — alcançou seus ouvidos, ele sentiu o corpo inteiro arrepiar em expectativa, segurando a respiração da mesma maneira que as outras pessoas dentro do local pareciam fazer.

Havia começado.

Chanyeol observou atentamente o momento em que alguma coisa emergiu da escuridão. Uma luz suave apontava para o centro do palco, focando-se em uma figura quase indistinta das sombras. Parada ali, em pé, era fácil afirmar que a silhueta se tratava de uma pessoa, provavelmente um adulto. A altura e a estrutura física levavam uma mistura de traços tanto femininos como masculinos, e Chanyeol se perguntou se era homem ou mulher.

Talvez não fosse nenhum dos dois e talvez fosse os dois.

Foi então que se lembrou de um detalhe ridiculamente óbvio: a apresentação da noite era a apresentação do príncipe herdeiro, Baekhyun. Chanyeol não o tinha visto de perto e ele era muito bem protegido pelo próprio povo para ser exposto a “pessoas de fora”. Aquele era ele? O príncipe das montanhas?

Chanyeol percebeu a si mesmo estranhamente encantado pelo rapaz sobre o palco. Não havia melodia alguma tocando ao fundo, o teatro estava mergulhado num quase absoluto silêncio, quebrado apenas pelos sons emitidos pelo corpo do príncipe.

Ele vestia roupas que Chanyeol já vira em performistas da dança do ventre, pouco tecido cobrindo a pele, poucos apetrechos. Era delicado e gracioso, mas à medida que ele se movia pelo palco em silêncio, brincando com os leques em suas mãos como se fossem adagas, Chanyeol também percebia traços fortes emoldurando-o. A curva na barriga exposta, os poucos músculos nas pernas e os ombros esguios.

Delicado, mas forte.

A ausência de melodia contribuía para dramatizar as coisas. Os suspiros eram coletivos, as respirações ofegantes de surpresa e até mesmo expressões eram refletidas nos rostos do público. O príncipe era talentoso, realmente talentoso, e era difícil até para Chanyeol sequer pensar em tirar os olhos dele.

Nunca vira alguém usar o corpo inteiro para alguma coisa da maneira que aquele rapaz parecia fazer. Gostaria de ter um vislumbre do rosto dele, mas, dos traços que compunham sua face, somente os olhos estavam à mostra, claros como água e destacados pelo tecido escuro da máscara que usava. Era comumente usada por mulheres árabes, o formato aquilino seguia os traços de um falcão e era responsável por exaltar o que havia de mais belo nas pessoas: os olhos.

Se o príncipe estava usando aquele apetrecho para esconder o rosto ou para atiçar a plateia, Chanyeol não saberia dizer. Ele não olhava seu público nos olhos, o tempo todo sua atenção era voltada para ele mesmo, para os leques em suas mãos, para seus braços e para seus pés, focado nos próprios movimentos.

Nervosamente, Chanyeol ajeitou os óculos e inclinou o corpo na direção do palco, muito interessado na performance silenciosa e tendo seu gesto refletido pelos homens e mulheres em sua fileira de cadeiras.

O príncipe talentoso arrancava suspiros surpresos com sua performance, arrastando o corpo pelo chão, movendo os quadris mais sensualmente do que Chanyeol se lembrava de já ter visto alguém fazer e usando aqueles leques como a representação de lâminas, apontando-as para seu público como se a qualquer momento pudesse soltá-las e cruelmente tirar a vida de alguém.

Uma aura misteriosa o cercava e Chanyeol pegou-se envolto por ela. De repente, a ideia de seu tema alvo para a tese de mestrado ser somente a família real, seus costumes e culturas não pareceu tão ruim.

Tão subitamente como começou, a apresentação terminou. Sem música, sem melodias, só a respiração ofegante do príncipe — soando ruidosamente alta em meio ao silêncio.

Ele deixou os leques caírem no chão com um baque surdo, então se retirou do palco, desaparecendo nas sombras à mesma medida que as luzes se apagavam outra vez.

 

[...]

 

Chanyeol Bradbury não era do tipo que invadia a privacidade das pessoas, de qualquer pessoa, então ele realmente não saberia dizer qual o motivo de estar fazendo exatamente isso. Escondido nas sombras perto do camarim, atrás das coxias do teatro, ele tentava ter um vislumbre de Baekhyun através da porta entreaberta.

Talvez tenha se interessado mais do que deveria pelo príncipe talentoso e, antes que percebesse, estava transitando pelos corredores escuros do local, procurando pelo dançarino sem nem ter uma boa desculpa para fazer isso.

Quando encontrou o camarim — o único dentro do teatro —, imaginou que ele deveria estar lá. Pensou se deveria bater na porta, quem sabe pedir por uma entrevista ou uma rápida conversa sobre seu povo, qualquer informação que ele quisesse lhe dar já seria valiosa.

Mas Chanyeol não bateu na porta. Não, porque ele ergueu a mão para fazer isso, o espelho de uma penteadeira mostrou-lhe o reflexo de algo que ele gostaria de passar mais tempo admirando. O príncipe havia tirado dos cabelos o véu que usava enquanto dançava.

Chanyeol ainda não sabia como eram os costumes do povo das montanhas, mas tinha a vaga ideia de que seria muito desrespeitoso vê-lo sem o véu, principalmente sem ter permissão para isso. Esperou de seu lugar nas sombras, observando a distância o reflexo do rapaz e cruzando os dedos — inconscientemente — para que ele tirasse do rosto a Battoulah, aquela máscara com formato aquilino que realçava os olhos e parecia ser feita de metal negro sob a luz.

Queria ver mais do rosto dele e torcia para que isso acontecesse antes que fosse pego por alguém. O rapaz era um príncipe, um nobre, e Chanyeol sabia que um completo estranho, ainda por cima um estranho de fora, violando sua privacidade seria considerado crime.

Baekhyun estava tirando a máscara, desprendendo-a dos fixadores que a seguravam em seu cabelo e Chanyeol finalmente veria mais de seu rosto. Os olhos eram como cristais, muito claros e bonitos, mesmo na pouca luz de velas e lampiões. Ele era pálido como o povo das montanhas parecia ser e o torso magro não esbanjava músculos, mas curvas sutis que denotavam o começo desse processo.

Ele era absurdamente bonito.

Estava tirando a máscara do rosto, expondo seus traços que eram refletidos no espelho da penteadeira e Chanyeol estava tão perto de enxergá-lo…

Passos ruidosos vinham do corredor escuro, não tinham pressa, mas eram pesados. Chanyeol ajeitou os óculos e perguntou a si mesmo se ele poderia ficar só mais um minuto, só até que aquela máscara caísse e todos os traços do príncipe herdeiro pudessem ser gravados em sua mente.

— Ei!

Assustado, Chanyeol se afastou da porta do camarim, tateando as paredes a fim de desaparecer nos corredores e sair dali antes que tivesse problemas. Os passos ruidosos passaram direto pelo espaço entre as araras de roupas e fantasias onde havia se enfiado, e ele pegou-se relaxando por um momento, tranquilo de não ter sido pego.

— Sairá para caçar esta noite, Vossa Alteza? — Talvez fosse um guarda. Na meia-luz era impossível discernir, mas ele falava como um. — Devemos deixar os cavalos prontos?

— Eu vou sozinho. — A voz que respondeu era suave, doce. — É a tradição, Kai.

O homem que falou primeiro riu e Chanyeol enxergava a sombra dele tremulando com o movimento de seus ombro.

— Tinha me esquecido — disse. — Eu já deveria chamá-lo de Vossa Majestade?

Foi a vez de Baekhyun rir. Tão suavemente que foi fácil para Chanyeol deduzir que eles eram amigos. Duvidava que qualquer pessoa agiria com tanta tranquilidade perto de alguém com quem não tinha uma relação íntima.

— Nem ouse fazer isso.

— Mas você vai ser rei um dia.

As sombras deles desapareceram quando um clique foi ouvido. Haviam fechado a porta e de repente o som de passos chegava aos ouvidos de Chanyeol outra vez, estavam caminhando em sincronia para longe dali.

— Eu espero que demore muito.

 

[...]

 

Sozinho em seu quarto na casa de hospedagem, Chanyeol observava a neve caindo lá fora de maneira tranquila. Mordiscando a parte de trás de um lápis, não dava muita atenção para os rabiscos formando um esboço logo à sua frente.

Quando criança havia desenvolvido certo talento para a arte e para os desenhos. Tinha uma boa memória e conseguia reproduzir traços — tanto de lugares como de pessoas — com alguma facilidade. Não ficavam perfeitos, mas os detalhes contavam sua própria história.

Se não tivesse a câmera fotográfica por perto para gravar momentos, faria isso através dos desenhos. Sabia que eles não poderiam complementar as pesquisas de uma tese que precisava ser fundamentada em fatos em vez de interpretações subjetivas e acontecimentos pessoais, portanto aquele desenho que fizera de Baekhyun não apareceria no resultado final de suas pesquisas. Mas ficaria para sempre em seu caderno, como uma vaga lembrança do que havia visto naquela noite.

Tentou desenhá-lo sem a máscara, mas tudo o que sabia era que tinha um rosto de formato triangular, um queixo afilado e testa larga. As sobrancelhas eram tão escuras quanto o cabelo que Chanyeol havia conseguido ver depois que o rapaz tirou o véu para ajeitá-los.

Cabelos negros e olhos claros, um homem do Norte.

Chanyeol deixou o lápis de lado e escorregou para baixo na cadeira confortável, erguendo um dos pés para conseguir apoio e deixando o cobertor que estava sobre suas pernas tocar o chão.

Quando tirou os olhos da janela e da nevasca lá fora, encontrou seu desenho lhe encarando de volta. Não havia desenhado os dois olhos, um rabisco desconexo cobria o esquerdo — reproduzindo as sombras que engoliam todo um lado de seu corpo dentro do camarim —, mas tinha se esforçado para fazer o outro com toda a delicadeza que suas mãos permitiam. Novamente, seus desenhos não eram perfeitos, mas ficou satisfeito ao constatar que havia conseguido passar para o esboço a mesma aura enigmática que o rapaz tinha enquanto observava o próprio reflexo no espelho da penteadeira.

Chanyeol era um curioso nato e não saber como era o rosto do rapaz que ele estava se esforçando tanto para desenhar o deixava estranhamente nervoso.

Olhando as ruas da aldeia lá fora uma vez, viu as árvores esguias cobertas de neve e lembrou-se de uma coisa.

Em poucos minutos, tinha enrolado de novo o cachecol no pescoço, vestido o casaco e pegado a câmera, saindo do quarto mais apressadamente do que se imaginou fazendo.

 

[...]

 

Os pés iam tão fundo na neve que Chanyeol acreditava que a montanha seria capaz de engoli-lo. Suas meias e a bainha da calça já estavam encharcadas, mas isso não era coisa suficiente para fazê-lo voltar para o quarto.

Havia pesquisado sobre o reinado de nômades que desciam as montanhas no inverno antes de comprar uma passagem para o Tibete e sabia que um dos costumes mais memoráveis deles era o da caça. Mesmo que até então não se soubesse muito sobre o que caçavam, como ou por que motivo, aquilo era um fato: se havia inverno, havia caçada nas florestas.

E, coincidentemente, o alvo do interesse de Chanyeol havia comentado muito alegremente sobre sair para caçar. Sozinho.

Talvez só tivesse aquela chance de capturar seus traços. Em memória ou em fotografia, pouco importava, desde que tivesse alguma coisa. Não dormiria naquela noite sem saber como era o rosto do herdeiro do reino.

O vento gelado parecia descer a montanha da mesma maneira que os nômades faziam e era extremamente cruel, castigando a pele desprotegida de Chanyeol como centenas de agulhas caindo dos céus. A neve caindo, sólida e levada pelo vendaval, grudava em seus cabelos e roupas como se quisesse se fundir a ele. Seus óculos estavam tão embaçados que era sorte saber onde estava pisando.

Soube que estava próximo da floresta quando o vento parou de atingir-lhe de todos os lados, vindo somente em rajadas gélidas que tocavam suas costas como as mãos de um fantasma. Precisou tirar os óculos por um momento e, forçando a visão na direção de um ponto de luz no horizonte, compreendeu que a caçada já havia começado.

O ponto de luz parecia uma linha de largada e começava no topo de uma trilha rochosa que descia ainda mais a montanha, para o lado oposto da cidade e na direção do coração da floresta.

Chanyeol havia passado por ela quando chegou ali no dia anterior, mas não deu atenção suficiente, porque, no fim das contas, quem fazia trilha em pleno inverno? Cogitou que estivesse errado sobre o ponto de início da caçada, mas as duas figuras com casacos de pele pesados guardando os arredores daquele ponto de luz diziam o contrário.

Não havia visto ninguém vestido daquela maneira na cidade e mesmo os rostos deles não se pareciam com os rostos dos moradores. Eram estrangeiros, isso era óbvio, e certamente pertenciam ao povo das montanhas, o povo de Baekhyun.

Com os óculos de volta em seu rosto, Chanyeol era capaz de enxergá-los com clareza e distingui-los das sombras. Estavam, realmente, protegendo aquele ponto de luz, mas não pareciam muito preocupados com ameaças, voltados um para o outro e conversando com expressões relaxadas.

Talvez Chanyeol estivesse longe demais dos dois para ser visto por eles no meio das sombras da floresta. A neve deixava em evidência suas roupas escuras, mas a cidadezinha estava tão mergulhada em escuridão, principalmente ali, tão perto das árvores, que era ridiculamente impossível que eles fossem capazes de identificá-lo.

Mesmo assim, teve receio de se arriscar, optando passar por baixo da cerca que dividia o caminho entre onde a floresta começava e onde a trilha que seguia montanha acima tinha seu princípio.

Quando finalmente passou para o outro lado, as mangas do casaco já estavam encharcadas também. Chanyeol, que havia crescido no Oregon, já estava acostumado com o frio, mas não com aquele inferno gelado. O corpo inteiro tremia numa tentativa vã de se aquecer e ele descia o caminho na direção das árvores corajosamente, a câmera na mão e nenhuma certeza de que conseguiria voltar depois.

Imaginou a si mesmo vagando sem rumo por entre as árvores, procurando por alguém que ele sequer conhecia em um lugar congelante, correndo riscos dos quais ele não tinha a menor ideia. Havia animais selvagens por perto ou a cidadezinha os afugentava? Deveria temer alguma coisa além dos guardas do reino? Talvez sim, talvez não.

De qualquer forma, estava seguindo um caminho: sempre em frente.

Em algum momento, precisou ligar a câmera e tirar fotos do chão para se situar. Entre os troncos e galhos era tão escuro que não dava para enxergar dois passos à frente. Mesmo a neve, branca e em uma quantidade absurda, não era suficiente para ajudá-lo a encontrar um caminho. Então o flash das fotografias tiradas precisava servir de guia, de lanterna.

De sua caminhada noturna, Chanyeol poderia esperar qualquer coisa. Morrer congelado era uma possibilidade muito próxima da sua realidade e ser atacado por algum lobo ou outros animais selvagens que habitavam as montanhas também era um temor suficientemente real.

O que ele não estava esperando, sinceramente, era ter a ponta de uma adaga encontrando seu peito, bem no centro do tórax, no ossinho entre o esterno e as costelas.

Ergueu as mãos lentamente, assustado com a possibilidade de ser morto ali, no meio do nada e muito longe de casa, onde seu corpo seria coberto pela neve como se colocassem carne em um congelador.

Nervoso, apertou o botão do obturador, tirando uma foto e disparando a luz do flash, que iluminou os arredores por uma fração de segundos

Aquela fração de segundos, de qualquer maneira, salvou seu rabo de ser esfaqueado.

Chanyeol baixou os braços e ajeitou os óculos que já estavam escorregando sobre o nariz de novo.

— Baekhyun.

É, pelo menos havia conseguido encontrar o príncipe. Não era capaz de enxergá-lo em meio ao escuro quase absoluto, mas a adaga não estava mais pressionando contra o seu tórax e isso por si só já era motivo para se tranquilizar.

— Quem é você? — A voz do herdeiro soou de repente, gentil, mesmo que tão afiada quanto aquela lâmina deveria ser. Chanyeol havia visto o punhal quando o flash iluminou o cenário e ele estaria mentindo se dissesse que perdeu o medo de ser morto.

— Sou Chanyeol — informou, se perguntando se deveria estender a mão para cumprimentá-lo. — Eu sou antropólogo e estou fazendo uma pesquisa. Eu vi você essa noite, vi sua apresentação. Queria saber como você é.

Uma risada alcançou os ouvidos do rapaz segurando a câmera. Ela não era mais alta que o vento, mas soava inegavelmente mais bela que ele.

— Estava atrás de mim. — Não era uma pergunta. Chanyeol suspirou, ainda nervoso. — A noite é escura e cheia de terrores — murmurou Baekhyun, perigosamente próximo. — Nunca disseram isso a você, forasteiro?

 

[...]

 

Como se o Destino estivesse jogando um jogo muito sombrio, Chanyeol não foi morto naquela noite na floresta. Voltou para casa encharcado, o corpo inteiro tremendo de frio e uma sensação estranha invadindo seu peito como se fosse capaz de sufocá-lo. Voltou quase em pedaços, mas vivo.

Baekhyun havia lhe dito para ir embora, para sair da floresta e então se afastou. A voz dele era gentil, mas igualmente afiada e Chanyeol sentiu na pele o quão gelado o corpo dele estava, exposto ao frio invernal daquela maneira.

Ficou parado no mesmo lugar por minutos a fio, vendo uma silhueta sombria desaparecer por entre as árvores e então se colocou no caminho pelo qual acabara ali, saindo da floresta na direção da cidade.

Enquanto se arrastava na direção da casa onde havia se hospedado, buscando nos bolsos a chave da porta principal, em sua mente corriam repetições da imagem que havia visto naquele centésimo de segundo em que a luz da câmera o tirou da escuridão.

Não havia enxergado com clareza suficiente o rosto de Baekhyun, mas enxergou o punhal extremamente afiado apontando para seu peito e, principalmente, enxergou a pele exposta, o torso completamente nu.

Ele estava caçando no meio do frio de inverno sem roupa alguma. Aquela era a tradição do povo das montanhas? Nudez e adagas afiadas não pareciam combinar com o rapaz talentoso, extremamente gracioso e sensual que Chanyeol havia admirado sobre um palco naquela mesma noite.

Seu desenho do príncipe herdeiro ainda estava sobre a mesa, o lápis com a parte da borracha marcada por mordidas descansando de maneira singela sobre o papel de esboço.

Sem pensar duas vezes, Chanyeol tirou os sapatos e ocupou seu lugar na cadeira, não se importando de molhar o carpete ou o cobertor, que ainda se encontrava no chão.

Limpou os óculos antes de ajeitá-los novamente sobre o nariz, então alcançou o lápis e abriu uma página limpa em seu caderno de desenhos, tracejando graciosamente o contorno dos ombros esguios de um certo príncipe das montanhas.

 

[...]

 

A manhã seguinte era a segunda de Chanyeol Bradbury na cidade, o que significava que seu tempo estava próximo do fim.

Acordou muito mais cedo do que deveria depois de uma noite mal dormida e estava sentado sobre a mesa novamente, uma xícara de chá aquecendo os dedos enrijecidos de frio e os olhos atentos fixos sobre o rosto de traços marcantes gravado no papel.

Chanyeol teve a sorte de sua câmera captar um vislumbre do rosto do rapaz. Seus traços eram uma mescla entre delicado e extremamente masculino. O nariz afilado era quase feminino, mas a boca, naquele momento quase roxa por causa do frio, era bem desenhada e estreita, franzida em uma linha firme. As sobrancelhas muito escuras davam destaque aos olhos — que eram azuis, segundo a fotografia que Chanyeol seguiu para fazer o esboço.

Tinha cílios longos e o formato dos olhos era suave e angular. O rosto tinha maçãs altas e, assim como Chanyeol havia previsto, também era anguloso. Era essa a linha tênue entre a delicadeza do rapaz e seus traços masculinos bem marcados.

O cabelo dele era negro como óleo e chegava a ser encantador como sua câmera havia conseguido capturar até mesmo a beleza dos flocos de neve enrolando-se e enroscando-se nos fios escuros.

Baekhyun era tão bonito e gracioso como Chanyeol esperava que fosse. Não foi surpresa alguma ter suas expectativas atingidas e, talvez, até mesmo ultrapassadas. O príncipe era quase estonteante de tão belo, esguio e delicado como uma estátua grega. Tão artístico e natural que beirava ao ridículo.

Naquela manhã, Chanyeol usou os traços que enxergou no rapaz para fazer outros desenhos, reproduzindo sua estética harmoniosa em diversos esboços diferentes, de várias maneiras diferentes.

Não percebeu, de início, como o alvo de interesse de sua pesquisa havia mudado drasticamente do povo nômade nas montanhas para o príncipe do povo nômade nas montanhas, e sequer se preocupou em parar para pensar a respeito. Sua vontade de tracejar Baekhyun nas páginas do caderno de desenhos repentinamente mostrou-se maior do que a vontade de sair nas ruas em busca de mais entrevistas com os moradores locais e, quem sabe, até mesmo com parte do povo que acompanhava os nobres.

Chanyeol sentia-se inspirado para desenhar e, acima de tudo, estava curioso com a história daquele príncipe. Reproduziu num bloco de notas do computador a pequena conversa que tiveram, fez anotações em pedaços de papel sobre o som da voz dele e sobre o sotaque forte que até então Chanyeol não parava de apreciar. Também deixou uma série de comentários avulsos sobre a apresentação de dança sem melodia, sobre a beleza daquele rapaz e sobre seu talento para entreter as pessoas.

Deixou de fora a sensualidade, mas sabia que se lembraria dela muito claramente.

Quando finalmente saiu do quarto, pronto para enfrentar as ruas cobertas de neve e continuar suas pesquisas, as cenas da dança silenciosa e do cenário congelado da noite anterior passavam por sua cabeça como uma tormenta.

Sem perceber, inevitavelmente, Chanyeol Bradbury começara a caminhar na direção contrária àquela que deveria seguir. Os olhos azuis daquele maldito príncipe, tão enigmáticos e bonitos, eram como um ímã, atraindo-o para as sombras.

E Chanyeol, encantado demais com o pouco que havia visto, seguia o chamado bravamente, esquecendo-se que no fim das contas ele sempre temeria o desconhecido por trás da escuridão e, como o próprio Baekhyun lhe dissera, os terrores que a compunham.

 

[...]

 

Muita coisa poderia acontecer dentro de um mês.

Ainda parte do jogo que entretia o Destino, Chanyeol viu Baekhyun poucas vezes ao longo dos dias. Depois da noite da apresentação e da caçada, ele estava sempre transitando pela cidade. Havia dado de cara com o príncipe na tarde do segundo dia e se pôs a observá-lo de longe, caminhando sobre as ruas de pedra com a graça de um anjo, sorrindo e conversando com dois rapazes que acompanhavam seus passos.

A nobreza distinguia-se do povo das montanhas pelas vestimentas. Os homens acompanhando Baekhyun eram os mesmos guardando a luz naquela noite, ombros largos cobertos por pesados casacos de pele. Eram muito altos, quase três palmos maiores do que Baekhyun e isso significava que eram mais altos do que Chanyeol também.

O príncipe, diferente de seus companheiros, escondia o corpo sob um manto negro de inverno, os cabelos cobertos com um véu que terminava onde começava o capuz do manto, ocultando seus fios escuros como óleo e de alguma maneira emoldurando o rosto, naquele momento, completamente à mostra.

Chanyeol seguiu observando de longe, vendo o príncipe caminhar pela cidade e cumprimentar as pessoas, conversando com os companheiros de uma maneira que parecia alegre e até mesmo doce. Diferente do rapaz que apontou uma faca para seu peito, mas indubitavelmente parte de sua personalidade.

De tanto segui-lo com os olhos aonde quer que fosse, Chanyeol acabou sendo percebido. Não pelo príncipe, mas por um dos homens caminhando com ele. Em um momento, eles estavam rindo e conversando na frente de uma pequena loja de artesanato no centro comercial da cidadezinha, e no segundo seguinte os olhos afiados do homem com a pele de lobo nos ombros haviam se fixado em seu rosto.

Chanyeol engoliu em seco e o instinto de autopreservação fez com que temesse por sua vida ali mesmo. Felizmente, não aconteceu nada. Ou quase.

Dispensados com um gesto de mão por parte do príncipe, seus companheiros de caminhada permaneceram onde estavam, e o herdeiro do reinado começou a se mover em sua direção.

— Não me importo que me observem — afirmou o rapaz, olhando diretamente nos olhos do antropólogo. Chanyeol ajeitou os óculos, sem saber o que esperar. Baekhyun era um pouco mais baixo do que pareceu na noite anterior e Chanyeol pegou-se precisando inclinar o pescoço para sustentar seu olhar. — Mas você não é nada discreto, forasteiro. Eles vão enfiar sua cabeça em uma lança se acharem que você representa uma ameaça para mim.

— Não é minha intenção te ameaçar.

O príncipe riu e Chanyeol observou a maneira como aquilo subiu aos olhos, brilhantes e afiados, mais azuis que o próprio céu e que o próprio mar.

— Isso é evidente. 

Os olhos do antropólogo desceram para a joia verde-escura que prendia o manto do rapaz e o deixava coberto. O fecho era próximo do ombro e a pedra que o decorava era verdadeiramente bonita, provavelmente rara também. Era inegável que aquele homem pertencia à nobreza. 

— Você me deixou curioso. Eu me pergunto… — Baekhyun começou, aproximando-se um passo de Chanyeol e diminuindo consideravelmente a distância entre seus corpos. — O que é que você queria ver quando espiou pela porta.

Um sorriso enigmático manchou os lábios do príncipe à mesma medida em que uma sensação gélida tomou o peito de Chanyeol. Como ele poderia saber? Era tudo o que se passava pela cabeça do antropólogo.

— Você não é nada discreto, Chanyeol. — O tom na voz dele era bem-humorado, talvez até mesmo empolgado com o rumo da conversa. O príncipe dos nômades era, no mínimo, excêntrico. — Vi você antes mesmo de pensar em bater na porta. Se queria conversar comigo, era só pedir. Não passa uma boa impressão ficar seguindo as pessoas dessa maneira.

— Perdão, Vossa Alteza.

Outra risada por parte do príncipe.

— O que foi? — Chanyeol quis saber, buscando um motivo para ele achar graça de tudo daquela maneira.

— Forasteiros me divertem — respondeu Baekhyun. — Venha me ver ao pôr do Sol, meu palácio é seguindo a trilha da montanha.

Olhando por cima do ombro dele, Chanyeol enxergou seus companheiros se aproximando a passos lentos. O príncipe suspirou e olhou de relance para eles, como se já soubesse que estavam seguindo em sua direção.

— Por que quer me ver? — Talvez estivesse sendo presunçoso, mas não importava tanto assim. Só queria sanar sua curiosidade e haviam muitas perguntas a serem feitas e muitas coisas passando por sua cabeça. Que razão havia para o herdeiro de um reinado convidá-lo para seu palácio?

— Você disse que queria saber como eu sou, então eu pretendo mostrar.

Os dois homens finalmente alcançaram os dois rapazes conversando, e Chanyeol se surpreendeu ao perceber que eles são realmente mais altos que ele próprio.

O silêncio estendeu-se entre os quatro homens por alguns segundos, até que Baekhyun tomasse a iniciativa de apresentá-los.

— Estes são Sehun e Kai — comentou e era quase cômica a maneira como o topo da cabeça dele sequer chegava à altura dos ombros dos dois rapazes. — O Lobo e o Leão. Rapazes, este é Chanyeol.

— Ah, então você é o tarado do teatro. — O homem com pele de leão cobrindo seus ombros afirmou e o antropólogo reconheceu imediatamente a voz dele, porque era a mesma que ouvira na noite anterior.

— Tarado? — O rapaz da pele de lobo moveu o braço e Chanyeol enxergou a espada embainhada em seu cinto.

Se perguntou que tipo de reinado era aquele onde o medieval colidia com o mundo moderno tão bruscamente. Espadas? No século XXI? A monarquia por si só já era algo surpreendente para um povo nômade, mas peles de lobo e espadas havia definitivamente ultrapassado qualquer expectativa que Chanyeol tinha deles.

— É um equívoco — defendeu-se, buscando nos olhos de Baekhyun qualquer tipo de ajuda. Ele havia erguido a mão para impedir seu companheiro de sacar uma espada e muito provavelmente enfiá-la no estômago de Chanyeol, mas não se preocupou em pronunciar uma única palavra. — Eu estava apenas… curioso.

— Certifique-se de manter seus olhos no rosto do nosso príncipe.

E lá estava Baekhyun rindo outra vez, como se alguém tivesse contado uma piada. Ele era gracioso, elegante e muito bonito, mas talvez fosse maluco também.

— Seja gentil, Sehun. Ele não é uma ameaça.

— Se você está dizendo, Vossa Alteza.

Eles começaram a se mover para longe do antropólogo. Nervosamente, Chanyeol ajeitou os óculos sobre o nariz e os observou partindo na direção da trilha da montanha.

— Até mais tarde, Chanyeol.

— Vossa Alteza.

 

[...]

 

O convite para ir até o palácio não fora recusado, mas isso não significava que Chanyeol estava tranquilo sobre encontrar o príncipe outra vez.

No fim da tarde, ouviu as indicações dele e se pôs a seguir o caminho para a casa onde os nobres se hospedavam, o palácio de pedra escondido em meio a montanha — algo como uma colônia de férias onde a família real passava os invernos.

Junto consigo, levava a câmera fotográfica, o notebook e um bloquinho para fazer anotações. Não sabia se o príncipe estaria disposto a sanar suas dúvidas sobre o próprio povo, mas decidiu que era uma boa ideia arriscar. Não gostaria de voltar para casa de mãos vazias, pelo menos alguma coisa tinha que ser fruto daquele encontro.

Quando chegou aos portões, os homens que acompanhavam Baekhyun — obviamente seus fiéis cães de guarda — já estavam esperando perto da entrada. Sehun, o homem da pele de lobo que tinha uma cicatriz na bochecha e olhos da cor de obsidiana, segurava um lampião na altura do próprio peito. O outro, rapaz de pele dourada e cabelos castanhos, estava de mãos vazias, mas parecia infinitamente mais simpático a presença de Chanyeol que seu companheiro.

— O rei não gosta que se ajoelhem, então você não precisa ser pomposo nem nada do tipo — informou Kai, segurando nas barras do portão largo de metal e puxando para fechá-lo. — Apenas o cumprimente com educação e aos sacerdotes. Será bem-vindo no palácio.

— Por que você está dizendo essas coisas a ele? — Sehun interveio. — Deixe que se ajoelhe, é um forasteiro.

A expressão de Chanyeol não era das mais amigáveis em relação aquele sujeito, mas ele preferiu se abster de comentários. Desde que Sehun ainda tinha uma espada embainhada na cintura, devia saber muito bem como usá-la e era cerca de dez centímetros mais alto do que Chanyeol.

— Deixe de ser hostil. O príncipe já disse que ele é bem-vindo e que você não deve atacá-lo.

— Não estou atacando ninguém.

— Todos sabemos que você quer.

Eles continuaram imersos em sua conversa enquanto caminhavam, guiando Chanyeol até a entrada do palácio. O antropólogo esperava que os dois homens passassem pela porta com ele, mas ambos pararam diante da estrutura arqueada assim que alcançaram a varanda do palácio.

— Bem-vindo — disse Kai, colocando a mão de um lado da porta enquanto Sehun se encarregava de fazer o mesmo do outro lado. — O príncipe está esperando para vê-lo.

— Lembre-se: mantenha seus olhos no rosto dele — alertou Sehun.

E então, finalmente, Chanyeol estava dentro do palácio de inverno da família real.

 

[...]

 

Naquela noite, Chanyeol não conheceu somente o rei, um homem estranhamente magro e estranhamente esguio, como também conheceu seus três outros filhos — irmãos de Baekhyun, é claro — e os sacerdotes que compunham uma espécie de Conselho Real.

Eram pessoas aparentemente simples e muito reservadas. Dos três filhos, além de Baekhyun, só havia uma menina, a segunda mais velha da linhagem. Se chamava Seulgi, e se ofereceu para mostrar o palácio a Chanyeol depois que ele se apresentou para os sacerdotes.

Sem muita opção, o antropólogo a seguiu em silêncio. Aparentemente, Baekhyun era a pessoa mais falante da família, porque nem mesmo quando havia mudado de cômodo as vozes da família real podiam ser ouvidas.

Seulgi não disse uma única palavra depois que Chanyeol aceitou acompanhá-la. Ela usava hijab, um véu escuro que escondia seus cabelos e só deixava o rosto em evidência, mais ou menos parecido com o que viu Baekhyun usando. O dela, porém, era mais elegante e elaborado.

A distância e em meio ao silêncio, o antropólogo percebeu que eles não caminhavam sozinhos. Um dos sacerdotes, do grupo de seis homens vestidos com roupas muito semelhantes as dos monges de templos budistas, seguia seus passos. Era silencioso e não parecia preocupado, mas não parou de acompanhá-los nem mesmo quando Chanyeol reparou em sua presença.

Em algum momento, Chanyeol viu-se diante de uma porta. O sacerdote dispensou a irmã de Baekhyun, pedindo educadamente que ela se retirasse, e bateu com a junta dos dedos na madeira algumas vezes.

— É o quarto dele? — O antropólogo quis saber, buscando nos olhos do sacerdote qualquer coisa próxima de uma resposta.

Não havia nada.

Segundos depois, Baekhyun abriu a porta. Ele não estava sorrindo e o véu ainda cobria seus cabelos. Recebeu Chanyeol com uma expressão tranquila e fechou a porta depois de permitir que passasse por ela.

O cômodo cheirava a canela e algum tipo de óleo de essência. As paredes de pedra formavam arcos e só de estar em pé no hall, Chanyeol já poderia afirmar que o teto era abobadado. Havia uma cama no fundo do cômodo e um conjunto de sofás bem no centro. Do outro lado, uma lareira acesa emitia calor.

— Não costumo trazer as pessoas ao meu quarto — informou o príncipe, seguindo na frente de Chanyeol até o espaço onde os sofás estavam. — Bem-vindo.

Baekhyun estava descalço sobre o piso gélido, usava calças simples e uma túnica branca, e não parecia com frio. Era gracioso até mesmo no jeito de andar, o movimento suave de seus quadris atraindo a atenção do antropólogo e fazendo com que se lembrasse de sua apresentação de dança.

Correndo os olhos por toda a extensão das costas do rapaz mais baixo, Chanyeol também se lembrou do que Sehun havia dito sobre manter os olhos no rosto do príncipe. Tarefa difícil seria obedecê-lo.

— Como eu falei para você, eu estou fazendo uma pesquisa e…

— Devagar. Acabou de chegar, Chanyeol. Não precisa ter pressa.

Ajeitando os óculos em um gesto de nervosismo, o rapaz mais alto assentiu. Sentaram-se de frente um para o outro nos sofás. Baekhyun cruzou as pernas imediatamente, apoiando os dedos entrelaçados sobre uma das coxas e direcionando a Chanyeol um olhar calmo, quase sonolento.

Ele tinha pálpebras avermelhadas que se destacavam da pele pálida, lábios ainda mais vermelhos e, fosse o calor dentro do cômodo ou não, suas bochechas também estavam manchadas de carmim.

— Pronto. Comece.

E Chanyeol, é claro, fez ao príncipe todas as perguntas que se passaram por sua cabeça, com exceção de uma.

 

[...]

 

No vigésimo dos vinte e oito dias que Chanyeol passaria na cidadezinha ao pé da montanha, um inferno se instaurou no lugar.

Em um momento, o antropólogo estava jantando a comida local, uma carne com temperos fortes acompanhada de molhos doces, bebendo chá e conversando com a mulher dona da casa onde estava hospedado, uma senhora extremamente gentil que sabia tudo o que se podia imaginar sobre ervas e chás. No momento seguinte, houve um minuto inteiro de silêncio. Todo mundo que estava à vista desapareceu dentro das casas e estabelecimentos dos arredores e, quando se deu conta, Chanyeol Bradbury estava sozinho.

No momento depois deste, o fogo que aquecia seu corpo e sua comida foi apagado com água, as brasas ferventes chiando à medida que seu calor desaparecia. A cidade mergulhou em sombras e tudo de luz que Chanyeol tinha para se guiar era a fraca iluminação da Lua acima de sua cabeça, muito escondida atrás de camadas espessas de nuvens e da neve que vinha caindo cada vez mais todas as noites.

Sua hospedeira havia lhe dito que uma tempestade cruel se aproximava daquele lugar e que todos deveriam se proteger naquela noite. O frio seria ainda mais rígido que nos dias anteriores e a sensação de estar num apocalipse congelante não seria incomum, já que eles passavam por isso todos os anos.

Chanyeol imaginou que aquele fosse o motivo, mas ainda não fazia sentido algum que todos tivessem simplesmente se recolhido tão de repente.

Outro instante se passou. O antropólogo ficou de pé e buscou qualquer fonte de luz que pudesse servir de guia, mas não parecia haver nenhuma, como se toda a cidade houvesse mergulhado em sombras subitamente.

Em silêncio, tentou tatear ao redor para encontrar a casa e voltar para dentro, para a segurança de seu quarto.

Em nenhum momento passou por sua cabeça que aquele isolamento era proposital.

De repente, uma luz alaranjada se fez presente. De início, Chanyeol pensou em seguir na direção dela, mas na medida em que outras luzes exatamente iguais se acendiam, seu brilho sombrio iluminando os rostos de vários homens diferentes, ele soube que aquilo era um problema grave.

Antes que tivesse a chance de fazer qualquer coisa, percebeu-se cercado por dezenas de homens cujos rostos ele já havia visto pela cidade. Eram os moradores locais que estavam lhe cercando e se aproximando como se quisessem machucá-lo.

O desespero tomou conta de sua mente e seu coração enquanto buscava por uma saída, porque não havia nenhuma. Estava encurralado e os homens estavam avançando em sua direção, lenta e ritmadamente. Haviam se preparado para aquilo, fosse o que fosse.

— O que… O que estão fazendo…?

Algum dos homens tentou dizer alguma coisa, mas a pulsação de Chanyeol era esmagadora contra seus ouvidos e ele não conseguia escutar nada além disso. Via as bocas se mexendo e os homens avançando, mas não entendia o que diziam e não compreendia seus movimentos, ou o motivo de alguns deles segurarem garrafas e facas apontadas na sua direção.

Todas as luzes se apagaram novamente e, como uma onda de abutres devorando um cadáver, todos aqueles homens partiram em sua direção de uma vez só.

A noite é escura e cheia de terrores.

 

[...]

 

O amanhecer já podia ser visto pelas janelas arqueadas do palácio de inverno da família real. O Sol não era visível dali, devido a montanha, mas o céu clareando pouco a pouco, sim.

Não havia um único músculo no corpo de Chanyeol que não estivesse doendo ou latejando. Estava deitado sobre um lençol no chão, nu e confuso. Ainda haviam borrões coloridos nos cantos de sua visão e sua língua parecia pesada demais para falar.

Tentou se mover, mas uma espécie de choque se estendeu por todo o seu braço e ele percebeu a si mesmo gemendo de dor.

— Fique quieto, Chanyeol. — Era a voz de Baekhyun.

Só depois de ouvi-la o antropólogo se deu conta de que o príncipe estava por perto. Não só isso, mas perto demais, os cabelos negros livres do véu caindo em cascatas na sua direção. Ele olhava para baixo, extremamente atento a alguma coisa e, quando tentou seguir o alvo de seus olhos, Chanyeol começou a sentir os músculos do braço que Baekhyun limpava com um pano úmido relaxando, doloridos e extremamente tensionados.

— O que… aconteceu? — perguntou ao rapaz ajoelhado ao seu lado.

Baekhyun levou um bom tempo para responder, tomando longos minutos para molhar o pano na bacia de água ao lado de suas pernas e esfregá-lo sobre os machucados de Chanyeol logo em seguida.

— Eu não sei com certeza — o príncipe murmurou. — Kai e Sehun trouxeram você para cá. Acordei com o barulho dos passos e mandei que o trouxesse aqui. Estou esperando que meu pai explique o que houve, mas até agora tudo o que sei é que atacaram você na cidade.

— Eu me lembro disso.

As sobrancelhas do príncipe franziram e ele pegou a mão de Chanyeol com mais delicadeza do que alguém poderia afirmar que possui. Esfregou o pano molhado e úmido em seu braço, e o antropólogo sentiu os arranhões e machucados ardendo.

— Eu fiz algo… para ofendê-los?

Baekhyun suspirou e não olhou Chanyeol nos olhos. Ele ainda enxergava as coisas com alguns borrões e sua cabeça não escapou da lista de membros com dores fortes, então não era um bom momento para tentar ler as expressões do príncipe.

— Não. Você não.

— Então o que…

— Vossa Alteza? — Uma voz interrompeu. Chanyeol não se lembrava de já ter ouvido essa. — Sua Majestade está de volta ao palácio.

Baekhyun assentiu, deixando o pano de lado e olhando para Chanyeol com uma expressão esquisita.

— Um dos sacerdotes acabou de ver você pelado — comentou, antes de desprender seus dedos dos de Chanyeol e ficar de pé. — Eu já volto.

O céu ficava cada vez mais claro enquanto os minutos passavam. Chanyeol tentou se mover novamente. Doía como se todos os seus músculos estivessem travados e ele não gostou de ver marcas avermelhadas, arranhões e outros ferimentos cobrindo toda a extensão de seu corpo.

Lembrava-se muito vagamente do inferno da noite anterior, como se o cérebro houvesse ativado o mecanismo de autodefesa para preveni-lo de um trauma, como acontece em acidentes de carro, por exemplo. Suas memórias iam até o momento em que seu corpo havia sido jogado ao chão.

Tinha sido uma surra bem feia, haviam cortes extensos na lateral da cintura, nas pernas, proeminências sobre seus braços e em sua cabeça que não deveriam estar lá. Havia sido linchado, era isso que tinha acontecido, mas a ideia do motivo era muito vaga.

Quando Baekhyun retornou, trazia nos braços roupas limpas e um kit de primeiros socorros. Se Chanyeol não estivesse se sentindo horrível, se esforçaria para sorrir para ele pela gentileza de tomar conta de si sozinho.

— Eu disse para você ficar quieto — resmungou o príncipe, abaixando-se no chão e deixando as roupas que trouxera ao lado das pernas de Chanyeol.

— Perdão, Vossa Alteza. — Havia sarcasmo, mas não muito.

— Se já consegue falar normalmente, então está tudo bem.

E Baekhyun se pôs a, muito pacientemente, cobrir os machucados de Chanyeol com curativos e esparadrapos. O antropólogo sequer sabia como, mas, de alguma maneira, nem mesmo seus dedos escaparam de cortes e ferimentos feios. Baekhyun usou álcool para limpar uma ferida aberta em seu dedo e ardeu tanto que chegava a coçar.

— Meu pai explicou o que houve.

A palma da mão que Chanyeol usava para apoiar o corpo também doía. Quando a ergueu para observá-la e encontrar o machucado, viu a pele esfolada como se tivessem passado uma lixa sobre ela.

Gentilmente, Baekhyun segurou em seus dedos e limpou o machucado com álcool também. Ardeu, mas não tanto quanto anteriormente. Sentado no chão com as pernas abertas, o príncipe permitiu que o antropólogo se aproximasse e usasse seu corpo para se apoiar em alguma coisa. Enfaixou a mão dele com calma, finalizando outro curativo com três tiras de esparadrapo.

— E o que houve… exatamente?

Baekhyun tocou nos ombros de Chanyeol para trazê-lo para trás, procurando uma posição mais favorável para limpar os machucados em seu rosto. De repente, o antropólogo se deu conta de que estava enxergando tudo meio borrado, porque não estava com seus óculos.

Havia se habituado tanto a eles que se esquecia de que estavam lá. Agora, no entanto, faziam muita falta.

— Foi culpa minha — murmurou o príncipe. — Fique quieto.

— Culpa… sua?

— Disse para ficar quieto.

Teimosamente, Chanyeol tentou se mover. Baekhyun não fez esforço algum para impedi-lo e o forasteiro percebeu que era porque o príncipe sabia que ele não iria muito longe.

— Baek…

— Foi por minha causa — explicou ele em tom baixo, usando uma tira de esparadrapo para cobrir o machucado no canto da boca de Chanyeol. — Aparentemente, as mulheres da cidade não apreciam muito a ideia de que eu goste de homens. Eu… sinto muito.

Havia uma intimidade em constante crescimento entre eles e isso fazia com que Chanyeol se esquecesse de que se conheciam há pouquíssimo tempo, porque a impressão que tinha — deploravelmente caindo de amores pelo príncipe como se encontrava naquele instante — era de que já se conheciam por uma vida.

Desde a entrevista que Baekhyun concedeu-lhe, Chanyeol passou a lhe fazer companhia sempre que quisesse. Poucas vezes foram vistos juntos na cidade, mas o antropólogo passava bastante tempo no palácio, o que jamais passaria despercebido por pessoas que habitavam aqueles arredores há muito mais tempo do que ele.

Começou a se envolver com o príncipe lentamente. Baekhyun não era fácil, mas também não era difícil demais. Aparentemente, ele era muito capaz de se entregar de corpo e alma para alguma coisa, e a impressão que Chanyeol tinha era exatamente essa, de que aquele rapaz estava se entregando.

Sobre uma coisa Baekhyun estava além de certo: Chanyeol não era discreto. Em seu romance às escondidas, o rei levou pouco menos de uma semana para tomar conhecimento dos beijos que vinha trocando com seu filho sob seu próprio teto. Em seguida, foi a vez de os sacerdotes flagrarem Chanyeol e Baekhyun aos beijos perto da lareira.

Não tiveram problemas em relação a eles. Chanyeol não pôde dizer que ele já era considerado “de casa”, mas o pai de Baekhyun era o rei, sua vontade era soberana e ele não havia se preocupado o suficiente para se meter nos casos amorosos de seu filho mais velho.

Talvez os dois tivessem se tranquilizado demais e por isso tudo aquilo acabou acontecendo. Era óbvio que mais cedo ou mais tarde as pessoas da cidade descobririam, mas nem de longe Chanyeol diria que eles seriam capazes de linchá-lo da maneira como haviam feito.

E tudo aquilo, ainda por cima, era movido por ciúmes.

— Meu pai quer se desculpar com você. — Baekhyun continuou falando, inclinando a cabeça para encontrar o olhar de Chanyeol com o próprio. — Nenhum de nós queria que tivesse acontecido. Gostaria de ter podido evitar. Sinto muito, Chanyeol…

— Vou ficar bem.

— Eu sei disso. — De repente, o príncipe pensou que era uma ótima ideia acariciar o cabelo encaracolado do antropólogo. Seus dedos se prenderam nos fios e ele precisou de minutos de paciência para desembrenhá-los. — Mas é injusto com você que não possamos fazer nada. Acho que eles têm uma visão muito equivocada de mim.

— Equivocada?

— É. — Os olhos de Baekhyun voltaram-se para o céu que ele conseguia enxergar através da janela. Ele deixou a própria afirmação morrer no ar e o silêncio estendeu-se entre os dois uma vez mais. — Você consegue me enxergar?

Chanyeol riu. As costelas doeram e os músculos abdominais também.

— Minha miopia não tem um grau tão elevado — comentou. — Eu consigo enxergar sem os óculos, mas as coisas ficam um pouco… borradas.

— Eu sou um borrão?

— Tecnicamente, sim. Mas eu consigo distinguir seus traços se é isso que você está me perguntando.

Baekhyun riu. O corpo dele tremulava com o som que chegou aos ouvidos de Chanyeol e havia algo de confortável em estar ali, tão perto dele.

— Eu não fiz os curativos na sua barriga — ponderou o príncipe, desenrolando-se do corpo do homem maior e se movendo na direção das gazes e esparadrapos de novo. — Está frio. Me deixa terminar, assim você pode se vestir.

— O que houve com as minhas roupas, Baek?

— Estão sujas. Só isso — informou ele. Chanyeol assentiu. — E eu tirei seu relógio também. Está na minha mesa de cabeceira, pode pegá-lo mais tarde.

— Aonde você vai?

Baekhyun havia se levantado e estava caminhando para longe. Ou talvez fosse impressão de Chanyeol, porque ele parou a poucos passos de distância, em cima de um tapete felpudo que o antropólogo não se lembrava de já ter visto. Talvez só não tenha prestado atenção o suficiente.

— Aqui está mais confortável, por causa da lareira — afirmou Baekhyun em um tom baixo. — Vamos mover você para cá.

Sem esperar por ajuda, Chanyeol arrastou-se na direção dele. Podia ter ficado de pé, mas era muito trabalhoso se levantar para se abaixar novamente; mais fácil engatinhar até os pés do príncipe como um servo.

Em frente à lareira, estavam ainda mais próximos do que antes. Chanyeol preferiu ficar sentado para fazer os curativos, não porque doesse menos ou coisa parecida, mas porque a luz da lareira evidenciava os traços e sombras no rosto do príncipe que ele gostaria de desenhar mais tarde.

Baekhyun diminuiu ainda mais a distância entre eles quando se inclinou para cobrir os machucados no ombro de Chanyeol com um curativo. Tudo doía. Mesmo assim, Chanyeol ainda encontrava forças para erguer a mão e tocar no rosto de Baekhyun. A ponta de seu dedo esfregou o lábio inferior do rapaz, mas a sensação não era agradável e o movimento não era sensual, porque tinha a porcaria de um curativo impedindo que seu toque tivesse o efeito que ele gostaria de causar. 

— Você é muito bonito — sussurrou Chanyeol, como se fosse um segredo e Baekhyun não soubesse disso. — Quero te beijar, Vossa Alteza.

Os lábios de Baekhyun se mancharam com um sorriso, esfregando-se contra o dedo de Chanyeol sem que ele quisesse que isso acontecesse.

— Se você estiver procurando permissão…

Chanyeol não permitiu que ele terminasse de falar. Se esforçou para ignorar a dor nos músculos e se moveu para fechar a distância entre suas bocas. Baekhyun o segurou para que Chanyeol tivesse as mãos livres e pudesse segurar em seu rosto; era um beijo tranquilo, e perceber a maneira suave como os lábios do príncipe deslizavam sobre os seus fez o antropólogo sorrir como um idiota.

Baekhyun se afastou momentos depois e, quando Chanyeol tentou roubar outro beijo, ele se limitou a cobrir seus lábios com os dedos.

— Sua boca está com gosto de sangue.

Estava? Nem sequer havia sentido.

Em vez de insistir em outro beijo, limitou-se a tocar nos cabelos do príncipe. Não era raro vê-lo sem o véu dentro de casa, já que ele usava porque gostava, mas Chanyeol não achava que seria capaz de se acostumar com o quão bonito aquele rapaz era capaz de ser.

Sentindo a mão de Baekhyun sobre seu peito, o antropólogo se deu conta de que estava sendo empurrado de costas contra o tapete felpudo no chão. O calor emitido pela lareira trazia conforto e, observando o príncipe, Chanyeol percebeu que ele estava usando a mesma túnica da primeira noite em que colocou os pés no palácio. Era uma lembrança agradável, principalmente agora que ele estava ocupando os dedos em desfazer o laço no topo da gola, permitindo que ela caísse, aberta, e revelasse seu peito liso.

— Você me quer? — Baekhyun murmurou, tão ridiculamente baixo que Chanyeol quase não ouviu.

— Quero. — Sua demora para dar uma resposta não pareceu desencorajá-lo.

Baekhyun resmungou alguma coisa, mas ergueu a barra da camisa logo em seguida e permitiu que Chanyeol o tocasse na cintura, no peito, na barriga… Lentamente, tomando conhecimento do território que ele estava adentrando.

Os dedos do antropólogo eram gelados contra a pele morna do rapaz mais baixo, mas isso não chegou a ser um problema. Diante do fogo da lareira, com a ajuda falha de Chanyeol, Baekhyun se livrou da túnica, expondo o torso sem pudor algum e permitindo-se ser tocado sem pudor algum também.

— Vai ter que me mostrar como se faz. — O sussurro do príncipe soou envergonhado, mas Chanyeol demorou para perceber que era isso, porque a primeira coisa que ele pensou era que Baekhyun estava brincando.

Minutos depois ele percebeu que não.

Baekhyun era virgem.

Chanyeol, deitado no chão, observou o príncipe se livrar das calças e se surpreendeu com o quanto ele era incapaz de se incomodar com a nudez. Os dedos do antropólogo alcançaram a coxa do rapaz, acariciando com cautela e esperando sinais de que poderia seguir em frente.

Quando Baekhyun se inclinou para tocar sua boca com a própria, ele soube que acabou de receber a carta verde.

Foi questão de tempo até seus dedos cobertos de curativos estarem apertando e segurando os fios negros de Baekhyun com falsa delicadeza, puxando para guiá-lo a expor o próprio pescoço as investidas de sua boca, ou porque a mão morna e curiosa do príncipe tocando seu pau lenta e dolorosamente estava tirando-o de si.

— Eu vou ser seu primeiro, Vossa Alteza.

A mão que deslizou pelas costas do rapaz mais baixo até alcançar sua bunda deixou toda a pele pelo caminho eriçada e Chanyeol quase conseguiu vê-lo encolher o corpo, todo trêmulo, em um orgasmo.

— Guarde esse segredo.

Os dedos machucados mergulharam entre a pele macia das coxas de Baekhyun, explorando tudo pelo caminho, indo e voltando calmamente, como se eles tivessem todo o tempo do mundo.

Quando Chanyeol deslizou dois dedos para dentro de sua boca, Baekhyun soube que ele iria guardar esse segredo a sete chaves.

 

[...]

 

Os últimos dias de Chanyeol com o povo das montanhas são passados na segurança do palácio de inverno dos Byun. Era interessante observar a maneira como levou tão pouco tempo para que o antropólogo se tornasse bem-vindo entre eles, ao ponto de até mesmo Sehun ter parado de lhe encher o saco — o que, segundo o príncipe, talvez tivesse muito a ver com seu colega Leão e pouco a ver com o quanto Chanyeol se esforçava pra ser simpático com ele.

Em seu último dia, um sábado terrivelmente gelado, o antropólogo perdeu os primeiros minutos da manhã desenhando esboços de Baekhyun em seu caderno. O príncipe dormia enrolado nas cobertas como se fosse um filhote, os joelhos flexionados e o torso curvado, enroscado nos próprios travesseiros e ocupando todo o espaço no centro da cama.

Era bonito de observar, principalmente com a luz azulada da manhã entrando pela janela, colorindo o ambiente com um tom frígido e esmaecido.

Baekhyun dormindo sobre a cama não estava vestindo roupa alguma, porque ele se empenhou bastante em dar a Chanyeol uma noite romântica e luxuriosa, antes que o antropólogo precisasse partir de volta para seu lado do mundo.

As pétalas de rosa que Baekhyun teve o cuidado de usar para decorar o quarto estavam amassadas e caídas sobre o piso de pedra, ou enroladas nos lençóis, ou nos cabelos do príncipe, ou mesmo nas roupas de Chanyeol.

Sentado em uma cadeira a poucos passos de distância de onde Baekhyun rolava de um lado para o outro na busca por posições mais confortáveis, o antropólogo se distraía desenhando-o. Era complicado fazer um bom esboço sem enxergar com clareza — ainda estava sem seus óculos, já que eles foram quebrados pelos gentis moradores da cidade ao pé da montanha —, mas ele estava se esforçando mais do que comumente.

Este desenho Chanyeol não pretendia levar para casa.

Então ele tomou todos os minutos necessários para traçar as curvas de Baekhyun sob o lençol, rabiscando em seu esboço desde os cabelos desgrenhados às marcas muito suaves em seu pescoço e ombros. Chanyeol se preocupou em deixar evidente até mesmo a tira de tecido — que nenhum dos dois saberia dizer de onde saiu — enrolada no antebraço do rapaz.

Baekhyun sabia que Chanyeol iria embora antes que ele acordasse, porque eles conversaram sobre isso na noite anterior. Era o motivo de Chanyeol estar se esforçando tanto para fazer um bom desenho para o rapaz.

Sobre a lareira havia uma rosa de plástico, artificial, mas tão bonita que parecia de verdade. Enquanto desenhava, Chanyeol imaginou Baekhyun segurando-a em uma das mãos, só com a ponta dos dedos, a flor delicadamente inclinada para baixo, como se fosse cair no chão a qualquer momento.

Quando finalmente terminou seu desenho, assinou com o rabisco que ele chamava de rubrica e arrancou a página do caderno, dobrando-a com todo o cuidado do mundo.

Por fim, Chanyeol Bradbury deixou o esboço e a rosa sobre a mesa de cabeceira, observando Baekhyun pela última vez.

E então partiu sem olhar para trás.

 


Notas Finais




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