História O Caminho da Água - Capítulo 9


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Categorias Histórias Originais
Personagens Personagens Originais
Tags Aventura, Drama, Fantasia, Romance
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Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Ação, Aventura, Comédia, Drama (Tragédia), Festa, Ficção, Ficção Científica, Harem, Hentai, Lemon, LGBT, Luta, Magia, Mistério, Romance e Novela, Saga, Sobrenatural, Suspense, Universo Alternativo, Violência, Yaoi (Gay), Yuri (Lésbica)
Avisos: Adultério, Álcool, Bissexualidade, Cross-dresser, Drogas, Estupro, Heterossexualidade, Homossexualidade, Incesto, Insinuação de sexo, Intersexualidade (G!P), Linguagem Imprópria, Mutilação, Pansexualidade, Sadomasoquismo, Sexo, Suicídio, Tortura, Transsexualidade, Violência
Aviso legal
Todos os personagens desta história são de minha propriedade intelectual.

Notas do Autor


Demorou, mas voltei. Enfrentei uma séria crise essas semanas, além de ter perdido o capítulo de novo e precisar o reescrever duas vezes (me matem). Essa é a segunda parte do anterior.

Enfim, sem mais delongas, divirtam-se!

Capítulo 9 - Estranhos - Parte II


Fanfic / Fanfiction O Caminho da Água - Capítulo 9 - Estranhos - Parte II

TAO 

Foi uma surpresa ver que todas as janelas do coche estavam abertas esta manhã, mas ainda não sei ao certo se isso é bom ou ruim. É como escolher entre estar preso numa panela fechada ou assar em brasa numa fogueira. De qualquer forma, é a primeira vez esta semana que tenho a oportunidade de ver todos os rostos dos híbridos com mais clareza, mesmo que alguns ainda tentassem em vão se esconder nas sombras.

Diferente do que eu esperava, só haviam rostos adultos por toda parte, na mesma mistura entre masculino e feminino, embora a maioria tivesse um tom de voz mais agudo a julgar pelos cochichos que tanto fui obrigado a escutar a meu respeito. Nunca vi tantos cabelos de cores diferentes, para mim só existiam preto e castanho, com exceção dos de Mira – e, a propósito, embora os deles sejam bastante variados, nenhum chega perto do estranho e belo tom de pêssego dos de meu irmão.

Passamos a maior parte do tempo em silêncio, exceto pelos murmúrios de alguns vez ou outra, que acabam por despertar a atenção de todos os presentes. Apesar de continuarem unidos, eventualmente se dividiram entre os que me odeiam, graças à influência das palavras gentis do único híbrido zaro – especialista na arte de manipular, mentir e despertar meu mais profundo asco, e aqueles que se preocupam com meu bem-estar, estes que posso contar nos dedos de uma só mão, além dos que se mantêm neutros a meu respeito ou não sabem quem de fato apoiar.

Juno é de longe o que mais faz questão de demonstrar a qual destes grupos pertence, e quase sempre está ao meu lado.

– Precisa de mais água? – perguntou-me o albino pelo que contei ser a décima vez desde que acordei. No mesmo instante, pude sentir o peso do olhar de quase todos sobre mim outra vez, a maioria em repulsa.

– Não, estou bem – tive que responder e novamente forçar um sorriso para o maior, na tentativa de não levantar suspeitas e ainda mais repulsa alheia. Porém, não deve ter funcionado muito, porque logo depois ele estava voltando com o mesmo recipiente de água de sempre.

É claro que estava morrendo de sede e não consegui negar de novo, cada parte de meu corpo parecia estar rachando, tanto por dentro quanto por fora e, apesar do calor infernal, há muito perdi a capacidade de suar para ao menos manter minha pele hidratada.

– Desse jeito, não dou mais do que três dias até que estejamos todos mortos – alfinetou Niza e, como era de se esperar, novos burburinhos enraivecidos concordaram em revolta. Seria a mesma coisa se eu comesse um grão que fosse do pouco que restara no estoque.

– Pela minha nobre casa, não comecem outra vez – resmungou Zirami.

No mesmo instante todos se calaram, mas ainda restaram caras fechadas e olhares ácidos lançados em minha direção. Felizmente, o mais velho e líder de todos os híbridos presentes não estava do lado que queria me estrangular até a morte, mas também não estava do meu. Deveria se manter imparcial até o último fio de cabelo, ainda que esteja mais propenso a apoiar qualquer lado em que esteja o outro palano do grupo.

– Não se preocupe, nada vai acontecer a você enquanto eu estiver aqui – ele sussurrou com sua voz doce ao meu ouvido, onde também deixou um selar estalado, o que acabou me despertando um leve arrepio na nuca além de fazer boa parte de meu sangue subir para o rosto.

Parece que, não importa a temperatura do ambiente, sua pele sempre estará muito macia e gelada, como uma bela escultura de gesso ambulante. Por vezes o maior me puxa para seus braços até que eu adormeça quando percebe que estou realmente cansado. Na primeira vez que vi seu rosto não pude reparar muito nos detalhes, como seus caninos bem afiados e branquinhos, quase como presas, ou como cada um dos pelos de seu corpo me passara despercebido por ser tão alvo quanto o resto de sua figura.

Só existe outro de seus belíssimos traços que não conseguem ser singulares em relação aos dos demais. Zirami tem seus mesmos olhos felinos, embora os dele sejam mais ferozes e ameaçadores do que gentis a maior parte do tempo. No entanto, todos eles possuem brades, e esta é a característica que classifica um ser como híbrido, a marca de sua espécie. Foi algo que só fui descobrir o que era no que deveria ser meu segundo dia neste purgatório, quando pela primeira vez, exatamente como agora, todas as portinholas estavam abertas após uma tempestade de areia.

Juno aproveitara a rara oportunidade para tomar um banho de sol e, num gesto comum e distraído, colocara parte de seus cabelos lisos para trás de uma das orelhas pontudas. Naquele momento ficou óbvio para mim o motivo pelo qual aqueles traficantes confundiram meu irmão com o que eles chamam de “escravos de raça”.

– Posso ver?

Por um instante, senti meu coração acelerar com a pergunta repentina, que me resgatou de forma brusca de meus pensamentos. Precisou de um gesto mais específico do maior para que eu entendesse que ele se referia ao anel de prata em minha mão esquerda, este que eu por vezes me pegava encarando sem perceber.

– Claro – mesmo não fazendo muito tempo que o estou usando, tirá-lo é como estar me despindo de uma peça de minhas vestes de tão rápido que me acostumei.

– Foi um presente? – ele ergueu uma sobrancelha para mim, provavelmente já sabendo a resposta mesmo antes de eu afirmar com a cabeça – Daquele homem que mencionou antes, eu presumo. Estou certo?

– Juda – sussurrei.

– Deve ser alguém muito especial para despertar seu sorriso mesmo sem estar presente. 

Encarei-o confuso por um momento, e então uma de minhas mãos voou para minha boca apenas como reflexo depois de atestar que era mesmo verdade. Depois daquela noite fatídica, qualquer resquício de felicidade pareceu ter abandonado minha realidade por inteiro. Toda vez que meus olhos se fechavam, era atormentado pela voz de Sasahara a chamar meu irmão e o tirando de meus braços, isto quando não era pela sensação cravada para sempre em minhas lembranças daquele corpo repugnante sobre mim, espancando-me à vontade e depois tentando me violar. Se não fosse por Kei, ele teria conseguido, e era justamente a visão do novato morrendo em meus braços que não saía de minha cabeça.

Desta forma, não tive um segundo de paz em meus pensamentos nem mesmo quando adormecia contra a minha vontade. Verdadeiramente, era impossível sorrir, pelo menos até agora.

– Por que não me conta como ele é? – pediu Juno, entregando-me de volta o anel de elefante. É difícil dizer se o palano está mesmo interessado em ouvir sobre Juda, ou se apenas quer me manter distraído por algum tempo.

De qualquer jeito, não conseguia negar qualquer coisa que fosse a alguém tão gentil.

– Em todos esses anos, nunca encontrei alguém que medisse tanto as próprias palavras quanto aquela criatura, ele sempre se demora e pensa mil vezes antes de dizer qualquer coisa que seja, e na maioria das vezes que abre a boca é para me dar um sermão... – ouvi um riso soprado do híbrido – mas ele nunca, nunca gritou comigo. Mesmo quando era frio e me afastava, não deixava de ser gentil. É o tipo de pessoa que se mataria por quem ama sem titubear. Na verdade, eu não teria sobrevivido por tanto tempo se ele não fosse assim.

Fiquei um bom tempo em silêncio depois de um suspiro pesado deixar meus pulmões.

– Quantos anos ele tem? – perguntou-me de repente, agora eu tinha certeza que só estava me incentivando a continuar com o assunto.

– Vinte e um – pude ver o mais velho erguer as sobrancelhas em surpresa.

– Então, é apenas um garoto como você – ele tocou meu queixo com o indicador, fazendo-me esboçar um leve sorriso.

– Uhum. Só que mais ranzinza e com quase o dobro do meu tamanho, mas isso são detalhes – desta vez nós dois rimos baixinho.

– E ele é bonito? – questionou de repente, agora com quase todo o corpo voltado de frente para mim.

– Heh? – engoli em seco – A-Ah...

– Aposto que sim, você está gaguejando e corando de novo... – tudo o que consegui fazer foi enterrar meu rosto nas mãos e rir de pura vergonha – Tao, não me diga que você não é virgem...

– Juno! Isto são modos? – interrompeu Zirami, e testemunhei sua pele bronzeada ganhar um novo tom forte e rubro nas bochechas. A essa altura da conversa, tinha até me esquecido de que não estávamos nem um pouco sozinhos, o que só tornou aquele constrangimento ainda pior – Não é muito educado perguntar e expor a vida dos outros desta forma, ainda mais de um senhor...

– É. Tenho nojo só de imaginar a resposta – ao longe ouvi uma voz entojada desdenhar.

– E eu tenho quase certeza de que toda essa aversão é na verdade uma admiração reprimida, Niza... – alfinetou Juno, e pude ver o rosto do ruivo também ficar vermelho, mas sem sombra de dúvidas que foi de raiva – sabe que não precisa esconder nem ter vergonha de seus verdadeiros sentimentos, ainda mais por medo de ser rejeitado.

– E que melhor conselho a seguir senão o seu próprio? – triunfante, a raposa esboçou um sorriso de puro deboche. No mesmo instante, ele conseguiu fazer o do albino esmorecer por algum motivo que eu ainda desconhecia.

– Do que ele está falando, tan? – perguntei baixinho ao mais velho do meu lado, mas ele sequer me dirigiu o olhar.

– É, tan... – neste caso, todo o sentido afetivo da palavra foi deturpado para ser proferido pelo outro com puro desdenho – O que disse mesmo agora a pouco? Ah, é claro! Como pude esquecer? Não precisa esconder nem ter vergonha de seus verdadeiros sentimentos, ainda mais por medo de ser rejeitado. Por que não nos conta mais sobre isso?

– Calem-se! – e foi Zirami a novamente interromper uma discussão, como sempre fazia quando os ânimos estavam exaltados. Desta vez, direcionou a cada um de nós um olhar diferente, mas para o ruivo foi um bem mais repreensivo – Ouçam bem todos vocês, o próximo que abrir a boca até segunda ordem será atirado no deserto, nem que eu tenha que empurrar em pedaços por entre as barras!

O silêncio que tomou conta do coche no mesmo instante se estendeu por um longo tempo, o suficiente para a tarde cair lá fora e sermos deixados novamente no escuro. Chegou enfim a hora do jantar, quando repartíamos o pouco que tínhamos de pão em pequenos pedaços para quase trinta mortos de fome, e a secura era aplacada com dois ou três goles de água para cada um.

Juno voltara a sorrir e brincar depois de um tempo após a escassa refeição, mas ainda assim eu não conseguia tirar sua expressão tão abalada de meus pensamentos, o que me fizera ter ainda mais raiva da raposa maldita.

– Venha, deve estar cansado, Tao.

Sem precisar chamar duas vezes, eu me aconcheguei em seus braços como sempre tão acolhedores para me aproveitar de suas carícias. Foi tão fácil adormecer ali quanto seria se estivesse me jogando numa cama macia depois de um banho refrescante.


Pouco tempo deve ter se passado desde a última vez em que meus olhos estiveram abertos. Tudo ainda estava escuro, e pelo visto a maioria dos híbridos estava em sono profundo, senão cochilando a julgar não apenas pelo silêncio, mas também pelas respirações pesadas. Porém, em momento algum o albino deve ter parado as carícias em meu cabelo, entrelaçando seus dedos compridos em algumas mechas para depois voltar a penteá-las.

– O senhor está dormindo? – Zirami sussurrou bem ao meu lado, mas antes que eu lhe respondesse a voz macia do maior o fez primeiro.

– Tao dorme tranquilamente – por algum motivo, quem sabe instinto, passei imediatamente a fingir um ressonar baixo para não levantar suspeitas de que estava escutando a conversa alheia.

– Você está bem? – a voz do moreno desta vez não apenas sussurrou, mas mesmo que fosse trovejante de qualquer forma, parecia tentar ser gentil.

– Niza pode ser bem mais desagradável quando provocado, mas não precisa se preocupar, Ranmi – respondeu Juno, tratando o outro por um apelido que quase me fizera rir e estragar meu disfarce, pois é algo que soa da mesma forma que rawr a anmi, cuja tradução é ''rugido de leão'', um significado forte demais para uma pronúncia que não poderia ser mais fofa.

Alguns segundos de silêncio depois e ouvi um pigarrear baixo do mais velho deles, seguido de um gaguejar contínuo e silábico.

– Quer me perguntar alguma coisa, nou? – incentivou gentilmente o de cabelos brancos, apenas para provocar um novo gaguejar alheio – Se é o que estou pensando, você já sabe a resposta.

Franzi o cenho, completamente perdido naquela conversa que, a propósito, nem era para eu estar ouvindo.

– Jamais tive vergonha de meus sentimentos e muito menos temo a rejeição, uma vez que eu já a aceitei como uma realidade... – ao mesmo tempo que gentil, agora seu tom de voz era carregado de certa melancolia – isto não quer dizer que ela deixou de me entristecer.

– Juno, entenda... – um suspiro cansado soprou quente ao meu lado – todos nós seremos separados mais cedo ou mais tarde, este é o único motivo pelo qual não...

Por algum motivo ele se calou de repente. Então, no instante seguinte ouvi o som molhado denunciar o que lhe interrompera. Só então percebi que as carícias do maior em meu cabelo também cessaram de súbito. Logo pude ouvir um gemido baixo e sôfrego que não acreditei ser do tão imponente híbrido mais velho do grupo.

– Sua boca é tão quente e molhada, Ranmi... – céus, nem era comigo e até eu me arrepiara com a forma luxuriosa que aquelas palavras foram proferidas – Até fico imaginando o quanto seu interior também deva ser apertado, eu poderia fodê-lo a noite inteira...

– Pare de dizer essas coisas, seu pervertido. Alguém pode ouvir...

– Queria poder ver seu rosto agora, nou... – um riso soprado deixou os lábios rosados do albino – fica ainda mais bonito quando está envergonhado.

Pelo visto, as aparências enganam bem mais do que eu pensava e, depois dessa, talvez nunca mais consiga encarar Juno da mesma forma. Um novo selar se iniciou no escuro e quebrando ligeiramente o silêncio noturno, até que arfares mais pesados denunciaram que as coisas estavam esquentando ainda mais em beijos mais sôfregos. Só me restava rezar para que ambos não se animassem tanto, porque além de eu estar literalmente no meio dessa história, também estava sentado no colo de um deles.

Fui salvo pelo barulho da portinhola se abrindo do lado de fora, que pareceu despertar a todos e também me serviu de álibi para que eu pudesse fingir ter feito o mesmo. Um feixe de luz amarelado, provavelmente de uma lamparina, iluminou de forma ligeira o interior do coche, apenas para que um dos guardas jogasse quatro pequenas sacas de juta de qualquer jeito no chão.

– Comida – resmungou o homem antes de nos trancar no escuro outra vez.

Zirami rapidamente se levantou de onde estava para conferir e guardar tudo junto do pouco que nos restara. Um burburinho se iniciou em comemoração e alívio, e naquele momento eu prometi a mim mesmo que nunca mais em toda minha vida reclamaria de qualquer alimento que me fosse dado para comer.

HUSSAM

Um prato enorme de porcelana fina foi posto à minha frente com um conjunto de talheres, seguido de uma travessa quente de ferro que abrigava o porco assado que provavelmente fora abatido pela manhã. Nunca tive a audácia de recusar um convite do rei, ainda mais se fosse feito pessoalmente, mas há pouco estava mesmo tentado a fazê-lo.

A mesa extensa e farta era um desperdício exorbitante, visto que haviam somente os onze primeiros dos duzentos lugares ocupados em torno dela, sendo um deles o qual eu me apossava ao lado do príncipe herdeiro.

– Nosso filho quer conversar conosco, vossa alteza – em meio ao silêncio ensurdecedor que se apoderou do jantar, quase todos os olhares se ergueram para o belo jovem de longos cabelos cor de mel, formal e respeitosamente tratado como ''a primeira senhora do príncipe herdeiro'', sentado bem na frente do homem loiro e robusto ao qual ele dirigia a palavra.

– Mãe, agora não... – o garoto que herdara os cabelos do pai sussurrou para o mesmo quem lhe anunciara com um olhar suplicante.

– Pode dizer, Asher – o loiro mais velho pegou uma coxa inteira do frango exposto à nossa frente com apenas um movimento e estalar sonoro de ossos se partindo.

– Sabem que meu aniversário está se aproximando e, bem... em Zahma há o festival anual da primavera, que irá começar em duas semanas... – começou ingenuamente, apenas para se interromper em derrota ao perceber que todos os olhares dos presentes estavam voltados indignados em sua direção, inclusive o meu.

– Tenho certeza que, ao decorrer de seus estudos da geografia, aprendeu a distância entre nosso reino e Zahma. Sei disso pois eu mesmo o ensinei, e baseado neste fato a minha resposta é não – respondeu a primeira senhora do príncipe herdeiro, e de forma mais branda seria impossível.

– É claro que meu filho poderá ir – discordou Aron, e fora sua vez de receber os mesmos olhares indignados de antes, com exceção do visivelmente enraivecido sua esposa. Era uma clara provocação e, conhecendo meu amigo de infância, estava agindo sem pensar outra vez apenas para contar vitória temporária numa briga de casal.

– Divirjo humildemente, vossa alteza... – como sempre educado, Horus respondeu ao marido, mas qualquer outro em seu lugar depois de uma semana com aquele mesmo nível de estresse contínuo já teria o feito na mesma moeda – peço que conversemos sobre o assunto mais tarde.

– Ah, mas de forma alguma. Afinal, não sou o tipo de pai, marido ou futuro rei que adia suas obrigações. Inclusive, esta é uma qualidade que deveria ser acatada por todos neste reino. Não concorda, minha gentil senhora? – o jovem príncipe então lançou a melhor de suas provocações, um belo sorriso carregado de sarcasmo.

Em resposta, ele apenas recebeu um olhar furioso em meio a uma expressão impassível em contraste ao sutil acenar de concordância. O salão colossal inteiro mergulhou num silêncio profundo por um longo tempo mais uma vez, e agora ninguém parecia disposto a quebrá-lo. Então, quando enfim as sobremesas foram servidas, os ânimos pareceram se acalmar o suficiente para que alguém tentasse apaziguar a situação.

– Aron, é perfeitamente normal que uma mãe se preocupe com seu filho, ainda mais sendo ele tão jovem. Se me permite o aconselhar nesta situação, eu recomendo que escute sua esposa e ao menos conversem melhor sobre o assunto.

– Deixe-os, Titânia – após a rainha, vossa majestade pela primeira vez se manifestou sobre a situação.

– Peço perdão por tê-la inquietado com um assunto de resolução tão singela, majestade. Contudo, minha decisão permanece irredutível – ao ouvir a declaração do pai, Asher exibiu um sorriso radiante.

– Com a vossa licença, majestade – antes de se levantar, Horus fez uma breve reverência, que foi acatada de imediato pelo rei.

– Sente-se, minha senhora – ordenou o jovem príncipe da forma mais arrogante possível.

Após uma nova reverência em respeito ao pedido do marido, sua primeira senhora voltou a se sentar na mesa. Porém, agora com as mãos delicadas trêmulas e apertadas que já não podiam mais disfarçar seu furor.

– Meu filho não irá para Zahma, alteza – ele insistiu.

– Devo lembrá-lo que ele é meu filho também, minha senhora... – agora o sorriso triunfante de meu amigo desaparecera para dar espaço à um quase rosnar enraivecido – por direito, mais do que seu.

Num rompante inesperado, Horus se levantou sem fazer questão de esconder sua expressão mais do que ofendida. Só então o príncipe herdeiro pareceu despertar para o arrependimento, por menor que fosse ele em seu coração teimoso.

– Com sua licença, majestade – pediu novamente, desta vez sem encarar o rei para saber se tinha permissão de deixar a mesa, mas que de qualquer forma lhe foi dada.

– Horus! – bradou Aron, arrastando sua cadeira ao meu lado e saindo em disparada pela mesma porta que sua esposa saíra.

Sem saber o resultado da discussão, o jovem príncipe que restara na mesa me encarou, recebendo uma resposta negativa muda de minha parte. Seguindo perfeitamente o exemplo do pai, ele também arrastou sua cadeira da forma mais brusca que pôde e deixou o salão. Pelo visto, o plano de vossa majestade, o rei, ao requisitar minha presença para tentar impedir que as coisas chegassem a esse ponto não poderia ter dado mais errado.

No dia seguinte, finalmente soubemos o resultado da calorosa discussão. Horus não poderia estar mais furioso, como nunca o vi estar antes, e com toda razão, mesmo que tivesse ciência de sua pequena parcela de culpa na fuga do filho para Zahma.

–... não se lembra, Faruk? – assenti ao príncipe herdeiro, que até então me ignorava parado na porta de seus aposentos em meio à briga – Fugíamos até mesmo para reinos mais distantes aos quinze anos, e sempre voltávamos ilesos... – esta parte eu já não poderia afirmar com tanta certeza – não seja tão dramático...

– ASHER É MEU FILHO! – gritou Horus ao finalmente se voltar para o marido, derramando mais algumas lágrimas em sua expressão instável. Aron imediatamente emudeceu, assustado demais para ter qualquer outra reação – E ele só tem onze anos. Quero-o de volta o quanto antes, mande um exército inteiro atrás dele se for preciso. E se ele tiver um arranhão que seja, nem que meus ancestrais me condenem à morte por desonra, eu juro, pode esquecer o dia em que nos casamos.

Passando como um furacão ao meu lado, a primeira senhora nos deixou a sós nos aposentos reais. Aron não moveu um músculo sequer até que eu alcançasse um de seus ombros largos e musculosos.

– Meu príncipe...

– Traga-o para mim, Hussam – pediu baixinho, sem ao menos se virar para me encarar diretamente.

Em resposta, toquei meu joelho direito no chão e fiz uma reverência demorada antes de também o deixar, mas parei por um momento atrás da porta com o coração tão acelerado quanto angustiado ao ouvir o mais novo quebrar enfurecidamente os móveis de seus aposentos. Foi a primeira vez em muito tempo que fui chamado pelo primeiro nome, e graças a isso eu agora não me permitiria descansar e muito menos falhar até que o pequeno estivesse em segurança. Traria-o de volta mesmo se o pai dele fosse apenas Aron, um velho amigo de infância, e não o também príncipe herdeiro do trono de Górgia.

TAO

Assim como em quase todas as outras manhãs, meus ouvidos foram despertados por uma desordem caótica antes mesmo que eu pudesse erguer as pálpebras. Porém, algo estranho aconteceu. Zirami não só não os interrompeu, como também participava desta.

– Levante-se, Tao! – o albino saiu de perto da portinhola aberta, disputada assiduamente pelos outros híbridos, e agora me puxava pelo braço.

– Huh? – cocei os olhos ainda sonolento, mas ao lembrar que agora não estava mais no conforto e segurança de minha casa, rápido me alarmei – O que aconteceu?

– Depressa, você precisa ver isso! – sua voz doce estava realmente entusiasmada, mas bem diferente da forma que me lembro de ter escutado noite passada... céus, por que fui nascer tão curioso?!

Por mais que eu tentasse ver qualquer coisa que estivesse do lado de fora, haviam várias cabeças brigando por um espaço na minúscula janela para fazer o mesmo. Então, provavelmente com pena da minha situação, Zirami riu antes de enlaçar minha cintura pelas costas e erguer meu corpo até que eu pudesse encontrar um pequeno espaço livre.

A visão era de tirar o fôlego, ao mesmo tempo em que me fizera arregalar os olhos ao ver algo que nunca tinha imaginado existir em tamanha magnitude. Estátuas gigantescas das formas mais variadas, cujo resto de suas estruturas deveriam estar imersas em quilômetros abaixo desse deserto. Por entre elas, podíamos ver uma legião de povos, aparentemente de culturas diferentes, que cursavam para mesma direção que também estávamos seguindo.

Junto deles, não haviam apenas cavalos e camelos, mas os elefantes que Juda tanto sonhava em ver algum dia, além de outras que eu não fazia ideia do que seriam.

– Olhem, búfalos! – apontou um dos híbridos para o que mais parecia ser um boi enorme com chifres maiores ainda.

– De que me importam os búfalos quando estou vendo tigres-dente-de-sabre de verdade?! – riu-se outro deles. Porém, ambos se calaram quando um grupo de animais ainda maiores surgiram no horizonte.

– São... mamutes... – sussurrou uma terceira voz embasbacada.

Quando o animal ergueu sua tromba imensa e bateu num dos dentes igualmente enormes e protuberantes, que mais pareciam chifres, meu queixo caiu de vez.

– O que acha deste ponto de referência, meu senhor? – Zirami ainda ousou me questionar com um sorriso no rosto.

– Sabe para onde estamos indo?! – o encarei ainda sem acreditar.

Exatamente como me erguera em seus braços fortes, o maior me colocou no chão sem o menor esforço.

– Agora eu sei, é minha terra natal... – o mais velho bagunçou meus cabelos antes de finalmente responder – estão nos levando para Zahma.

Uma nova agitação tomou conta do coche, desta vez pelo anúncio do mais velho. Enfim, pela primeira vez no que pareceu uma eternidade às escuras, temos uma rota.

– Quanto tempo falta para chegarmos, nou? – perguntou Juno antes mesmo que eu pudesse o fazer.

– No ritmo em que estamos e contando com contratempos, acho que mais umas três semanas.

Depois de alguns minutos a mais naquele tumulto de alegria, com exceção de um rosto amargo que não parecia nem um pouco animado em chegar ao nosso destino, Zirami mandou que nos sentássemos e assim todos nós o obedecemos.

– Certo, o que tenho para anunciar a vocês é algo difícil de se dizer, mas não quero que se desesperem.

De nada suas palavras adiantaram, pois no instante seguinte um vozerio aflito explodiu em resposta ao pronunciamento do mais velho.

– Silêncio todos vocês! – o palano mais velho precisou urrar para que mesmo sua voz trovejante pudesse se fazer maior do que o barulho alarmado dos demais – Tudo bem, a má notícia é que provavelmente teremos essas três semanas, com muita sorte duas, se não tivermos nenhuma tempestade de areia, para enfrentarmos sem previsão de parada para reabastecer. Por isso, nosso racionamento, tanto de água quanto de comida, será ainda mais rigoroso, salvo os doentes e o senhor aqui conosco.

E então, pude mais uma vez sentir o olhar de um grupo de híbridos formado pela maioria que desejou com afinco minha morte naquele momento.

– Temos uma boa notícia? – Juno, percebendo o mesmo que eu, colocou-se em minha frente de forma protetora.

– Não – respondeu Zirami, tocando no ombro do outro palano como uma forma de consolo antes de se isolar no canto para a recontagem do nosso estoque.

Parece que essas serão as três semanas mais longas da minha vida.


Notas Finais


Então, introdução de novos personagens e espero que recebam eles com carinho, pois eles tem um lugar especial no meu coração e serão bem importantes mais para frente. Para quem ficou voando nas formas de tratamento em chaukossi, aqui vão elas:
Nok - é o artigo que usam para se referir a uma pessoa sem gênero;
Siv - para mulheres mais velhas. Remete à palavra mãe, em chaukossi, que é masiv;
Nou - para homens mais velhos. Remete à palavra pai, em chaukossi, que é panou;
Tar - para homens ou mulheres bem mais velhos da família. Remete à avós, em chaukossi, que é otar;
Shi - para veteranos no geral em qualquer grau de proximidade, mais formal;
Tan - para veteranos também de forma unissex, mas considerados da mesma família;

Enfim, espero que tenham gostado. Até o próximo capítulo! \(^°^)/
Beijos e menor que três! <3


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