1. Spirit Fanfics >
  2. O Caos Que Não Consigo Evitar (COMEÇO) >
  3. Chapter 9

História O Caos Que Não Consigo Evitar (COMEÇO) - Capítulo 10


Escrita por:


Capítulo 10 - Chapter 9


Sinto como se tivesse levado um tiro no meio dos meus olhos. Os abro meio devagar, sentindo eles pesados e doloridos. Como se eu tivesse dormido por horas. Reconheço o hospital. Estou tão acostumada à estar aqui, que reconheceria apenas pelo cheiro. Passo a mão por cima dos meus olhos e tento pensar o porquê estou aqui. Engraçado o fato de que sempre quando estou aqui, esqueço o que me fez parar aqui.

Ouço alguns barulhos do lado de fora e o Doutor Medlim abrir a porta. Ele percebe que estou acordada e olha para trás com um sorriso.

— Olha quem acordou. — Ele diz, ainda virado e vem para perto de mim. — Quanto tempo! Senti sua falta.

Dou um sorriso e quase respondo, mas me detenho. Gosto dele... mas sentir sua falta? Não gosto das circunstâncias em que geralmente estou com ele. Definitivamente eu não queria estar. Olho para a porta e logo vejo mamãe passando por ela e vindo para cima de mim.

— Meu Deus, Trina. Graças a Deus. — Ela está com o rosto inchado, mas posso ver que ela não tem lágrimas aparentes em seus olhos. Olho para seu lado e vejo Reed. Não vi que ele tinha entrado. Ele apenas se senta no final da cama e segura meus pés.

— Sabia que ia dar tudo certo. — Ele dá um sorriso aliviado e eu apenas retribuo, não entendendo o que caralhos está acontecendo.

— Bom. — O doutor tosse. — Tem algumas coisas que precisam ser esclarecidas agora, Srta. Gyen. — Sinto que vou levar um esporro no momento, ou ele não teria me chamado de Srta. Gyen. — Sabe do que se trata? — Ele me pergunta e franzo a testa, tentando pensar.

Não vem nada no momento e acho estranho. Olho para ver se tenho algum problema com meu corpo e analiso minha cicatriz. Não tem nada de errado.

— Não, mas pelo seu rosto deve ser algo grave. — Digo meio insegura. Ele afirma com a cabeça, sério.

— Poderia ter morrido, sabe disso né? — Pergunta e sinceramente não sei o que responder. Ele não costuma ser tão direto assim. Eu posso morrer à qualquer instante, mas ele não falaria isso se dessa vez não fosse mais grave. — Você chegou ontem com efeitos de sedativo, mas seu quadro não estava nada bom, Srta. Gyen. Reed disse que você estava com febre desde terça e dor de cabeça constantes, e hoje você acordou com um mal estar terrível. Você deveria ter procurado ajuda desde o primeiro momento.

— Por quê eu estava com febre e dor de cabeça? — Pergunto. Com certeza doutor Medlim sabe.

— Você está passando raiva ultimamente? — Ele me pergunta e tento pensar. Mais ou menos. — Tem feito coisas frequentes que fazem seu coração doer? — Perguntou e dessa vez tive que afirmar com a cabeça com pesar. — Bom, já responde a pergunta. O aumento da frequência cardíaca está afetando seu corpo e por isso os resultados são febres e dor de cabeça. Hoje quando você acordou pior do que o normal, deveria ter percebido que algo estava de errado. Reed disse que você levou um susto que afetou seu coração e que parecia que você estava tendo uma parada cardíaca. Você não sobreviveria à uma parada cardíaca. Para você ter algo assim, precisa ser algo que te cause choque profundo ou exercício muito brusco. Mas como você já estava debilitada e recebeu um susto, foi bem pior do que nas outras vezes. Você poderia ter morrido de novo, se tivesse acelerado mais ainda seu coração, mas por sorte Reed te deu um sedativo.

Quando ele termina, tento entender tudo de errado que aconteceu. Faz tanto sentido, mas eu nunca teria pensado nisso. Tenho sido descuidada, fato. Mas... eu tomei um sedativo? Engulo a seco.

— No primeiro sinal de cansaço, deveria ter descansado. Não pode passar raiva atrás de raiva. Seu transplante foi uma segunda chance, Trina. Não pode desperdiça-lá. — Essas palavras mexeram muito comigo. Eu não posso desperdiça-lá, mas é tão difícil cada segundo da minha vida, não é como se eu decidisse o que fazer. — Tem de descansar de agora em diante e vou fazer questão disso. Não é para sempre, mas vai ter que tomar esses remédios durante o primeiro mês. Se eu souber que não está tomando, vou precisar colocar um acompanhamento psiquiátrico para você.

Desvio meu rosto para mamãe e Reed. Mamãe está brincando com a costura do cobertor e Reed está olhando para qualquer lugar, menos meu rosto. Parece até que eles já conversaram sobre isso ou tinham decidido essas normas antes de eu acordar.

Doutor Medlim se vira para uma gaveta do lado da minha cama e pega um frasco transparente com pílulas azuis celeste. Enche um copo com uma jarra de àgua próxima e depois se vira para mim.

— São pílulas parecidas com calmantes. Você não vai passar raiva, frustação e nem melancolia. Nada que possa estressá-la à ponto de aumentar sua frequência. É necessário nesse primeiro mês de recuperação. Você vai à escola normalmente e não vai fazer atividades muito elaboradas por enquanto. Não podemos arriscar. Também pedi para sua mãe comprar um Smartwatch, sabe o que é isso? — Neguei com a cabeça. — Um aparelho que mede sua frequência, pedi também para colocarem um sistema para quando sua frequência aumentar muito, você ouvir um barulho. À partir daí, acho que não preciso ressaltar que você precisa parar o que quer se esteja acontecendo e descansar, certo? É muito importante, Srta. Gyen.

Engoli a seco. Não precisam me alertar tantas vezes, entendi que preciso fazer o possível e o impossível para não botar minha saúde em risco. Eu também quero viver, caramba.

— Eu vou ficar bem. — Digo fraca. Quero que eles acreditem em mim. Reed finalmente voltou os olhos para cima e me deu um sorriso. Mesmo que eu não saiba se ele acredita mesmo em minhas palavras.

— Vai ser difícil, Trina. Esses remédios vão... mexer com seu psicológico. Vão te fazer ficar entediada, cansada e monótona. Mas eu conheço você o bastante para saber que você sempre é muito forte e aguenta todo tipo de desafio. — Doutor Medlim me elogia. Ele geralmente é duro com as palavras, mas essa é uma postura normal de médico. Sei que no fundo sou uma das pacientes preferidas dele. E eu o adoro. Adoro também a Doutora Ollder, mas é um caso diferente.

— Obrigada. — Digo e Doutor Medlim me dá um sorriso. Logo em seguida, convida minha mãe para conversar fora do quarto e fico sentada num silêncio desconfortável com Reed. 

— O que aconteceu? — Pergunto depois de um tempo. Geralmente, depois do sedativo, eu me lembro das coisas que passei. Mas hoje estranhamente não me lembro nem onde ocorreu, quando ou como.

— Vai saber depois. — Reed diz, mas não olha nos meus olhos. Sinto estranhamente que ele está prometendo algo à si mesmo. Espero que não seja em relação à mim.

 

 

 

 

Chego em casa com o que parece, um diabo nas costas. Parece que dormi por cima de uma pessoa na noite passada. Reed me falou que hoje é sábado e que eu faltei sexta na escola. Eu poderia perguntar à Lexie exatamente o que aconteceu na quinta, mas me sinto preguiçosa e desorientada. Eu só tomei uma dose do remédio até agora, mas não está parecendo tão ruim assim.

— Trouxe pipoca. — Reed chega na porta do meu quarto com um pote transbordando. O gesto é bem fofinho, mas só de sentir o cheiro, me faz querer vomitar.

— Não quero. — Volto a me deitar na cama. O teto parece bem mais interessante do que ficar encarando a cara de decepção de Reed. Difícil eu recusar comida.

— Bom. — Ele diz se aproximando. — Vamos assistir à um filme e só eu como. Que tal? — Ele se senta do meu lado da cama. Faço uma careta. Que saco. Não estou com vontade de fazer nada hoje.

— Quero só dormir. — Sussurro para ele como se fosse um segredo. Ele suspira e pega o controle do lado da minha cama. 

— Vou colocar baixinho e você pode dormir no meu ombro. 

— Ah sim, ai amanhã eu vou acordar com você dormindo aqui, dizendo que ficou com pena de me acordar para ir embora. Eu te conheço, Reed Gyen.

— Ok, e qual o problema? — Ele diz com um sorriso e liga a TV. Reviro os olhos e deito a cabeça no travesseiro, que é bem mais confortável que o ombro de Reed. Fecho os olhos e fico pensando no que eu posso fazer domingo. Eu passei três dias no hospital, é idiotice eu querer sair amanhã?

— Quer ir na sorveteria amanhã? — Pergunto com a voz abafada pelo travesseiro. Nem sei se Reed me escutou.

— Hã, pra quê? Posso comprar sorvete. — Seu tom soa indiferente, mas eu conheço Reed.

— Só quero sair dentro de casa um pouco, não vou me arriscar. — Tento, abrindo os olhos. Impressão minha ou estou pedindo permissão para Reed? Eu meio que acho que se eu não contar meus planos, ele vai achar que estou querendo fazer algo escondido e duvidoso.

— Tá. Vamos na sorveteria amanhã. — Ele afirma e volta a ver o filme. Em um certo momento, abro os olhos e fico apenas olhando para a parede, que nem uma psicopata. Não estou me sentindo feliz, nem triste. Estou apenas... aqui.

— E ai, filhotes? — Minha mãe abre a porta com tudo e dá um sorriso. Eu e Reed achamos engraçado ela nos chamar de "filhotes" em particular e vergonhoso quando ela nos chama assim na frente dos outros. Ela está de pijama e segurando uma maçã na mão.

— Assistindo filme. — Reed dá pause. — Quer? 

— Qual filme? — Minha mãe se aproxima e fita a TV por um instante. Franze os lábios e faz um expressão de horror. — Credo! Esse filme é pra idade de vocês? 

— Você nunca viu esse filme. — Digo com convicção. Eu não sei com certeza, mas não parece o tipo de filme que minha mãe assistiria. E um filme que ela também não nos deixaria ver.

— Mesmo assim, olha só a sinopse! — Ela diz, dando uma mordida na maçã. Como é dramática.

— É pra 16, e eu tenho 17.

— E eu tenho 16. — Reed completa. Minha mãe suspira fundo e coça a nuca. Por essa ela não esperava. Acho que ela ainda não aceitou o fato de que crescemos.

— Hum, não sabia que ser quase adulto dava direito à adolescentes de verem obscenidades e pornô na TV. — Minha mãe comenta baixo, comendo sua maçã.

— Que pornô, o que! Não aparece nem um peito nesse filme. — Reed diz, indignado. — O máximo é eles falarem merda e algumas cenas meio... — Reed tosse. 

— Vocês são irritantes. — Me levanto e vou até o banheiro para deixarem eles brigarem. O mais engraçado é que desde que eu levantei, não tenho mais ouvido eles. — Dá pra vocês pelo menos disfarçarem que estão falando de mim? — Grito e ligo a banheira. Um banho quente de banheira agora seria uma boa.

— Hã, não estamos falando de você, filha. Mas, hã... você tomou o remédio? — Minha mãe grita. Volto para o quarto e cruzo os braços. Reed levanta as mãos em rendição, como se dissesse "só mamãe está preocupada, ok?".

— Tomei quando saímos do hospital. — Digo e me sento de volta na cama. Reed e mamãe trocam um olhar suspeito. Lá vem.

— Você sabe que você tem que tomar duas vezes ao dia, né? — Mamãe pergunta, devagar.

— Doutor Medlim falou que só se eu quisesse. 

— Bom, mas ele disse que seria bem melhor. — Reed se intromete.

— Bom, mas ele disse que o remédio vai me deixar indisposta, e eu não quero ficar totalmente indisposta. — Afirmo. Eu não preciso de tanto calmante, não é como se eu fosse ter um surto do nada agora.

— Nada disso, mocinha. Doutor Medlim disse para você tomar duas vezes, não se você quisesse. 

— Que? — Minha mãe inventa muito. — Eu lembro do que ele disse.

— Eu lembro também, filha. Mãe sabe o que fala. — Ela diz dando um sorriso sem graça. Ela quer me entupir de remédio, essa é a única razão. Ele falou que seria melhor que eu tomasse duas vezes, mas eu vou parecer uma morta viva.

— Tá, tanto faz. — Reviro os olhos como se não fosse nada e vou até a minha gaveta onde guardo o remédio. Engulo com meu copo d'agua na frente deles para não haver dúvidas e me viro para eles. — Satisfeitos? — Eles não respondem. — Agora todos saindo porque eu vou tomar banho agora. 

Vou novamente para o banheiro e Reed resmunga um pouco antes de tirar do filme chato que ele estava assistindo e desligar a tv. Já minha mãe, continua no quarto até eu fechar a porta do banheiro. Só assim para ela me deixar sozinha.

Tiro minha roupa e entro na água quente, sentindo uma sensação ótima e prazerosa. Relaxo um pouco e conforme vai passando os minutos, vou sentindo uma sonolência estranha. É como se meu corpo estivesse cansado, mas minha cabeça não. Mas ao mesmo tempo não quero pensar em nada. Mas ao mesmo tempo eu não quero dormir agora. Isso é... normal?

Tento focar no passado e tentar decifrar certas coisas. Aparentemente eu passei mal na quinta e fui levada ao hospital... Reed falou que me levou junto com a Lexie, mas ela teve que ir embora por algum motivo no qual ele não quis me contar. Não lembro de como, onde ou em que momento que tudo aconteceu. E nem lembro o mais importante: o por quê.

Mas no momento, eu realmente não quero pensar nisso e talvez amanhã eu me lembre. Eu sempre me lembro uma hora. Agora tudo que eu preciso pensar é nessa banheira de água quente que está fazendo meus ossos relaxarem e eu quero fechar os olhos. Dormir um pouco.

Ou para sempre.

 

 

 

 

— Desde quando você vai de rabo de cavalo para a escola? — Minha mãe pergunta de algum lugar atrás de mim. Não me viro. Acho estranho ela está acordada esse horário também.

— Desde que meu cabelo está que nem capim seco e pisado. — Respondo, bebericando meu chá. E é verdade sobre meu cabelo. Em circunstâncias normais, eu: lavaria, passaria uma prancha, um creme ou até um babyliss fajuto. Mas no momento, eu estou foda-se para cuidados matinais.

— A Trina que eu conheço nunca iria de cabelo preso. — Reed fala do meu lado. Parece um pouco surpreso. Eles estão falando tanto que estou quase me perguntando qual é o caralho do problema com meu cabelo.

— Tá ruim? Não olha. — Termino de beber meu chá com preguiça. Na verdade, estou fazendo tudo com preguiça. Esses calmantes são mais fortes do que eu pensei, parece que eu estou sendo arrastada por uma força cósmica e que tenho pedras como ossos. Um pouco exagerada? Talvez.

Acabei desistindo da ideia de ir na sorveteria com Reed. Mesmo que ele tenha se disposto à ir, o que achei estranho. Fiquei o dia todo infurnada dentro do quarto, assistindo vídeos de crimes não solucionados e comendo qualquer biscoito genérico que eu via pela frente. Foi um dia chato de doer, mas ao mesmo tempo eu não queria sair para fazer nada. E hoje estou sentindo a mesma sensação. Estou indo na escola porque sou obrigada, porque juro que minha vontade é de ficar na cama o dia todo.

— Não está ruim, está diferente. Bonita de qualquer jeito. Mostrando mais seu rosto. — Reed defende e a segura um fio solto na frente do meu rosto. Eu sempre solto esses fios do lado do meu rosto quando estou com o cabelo preso; me sinto menos feia.

— Hum. — Resmungo, deixando a xícara em cima da bancada. Eu sei que deveria lavar, mas... Olho para minha mãe e ela ri.

— Ok, já entendi. Eu lavo para você. Mas só hoje, mocinha. — Minha mãe pega a xícara e a leva para a pia.

— Vamos pegar Lexie? — Brinco com a costura do meu moletom. Reed me olha confuso.

— Ué, por que não pegaríamos? Cansou do seu projeto de melhor amiga? — Reed dá uma risada sarcástica.

— Larga de ser idiota. É mais caminho para chegar a escola. Ótimo.

— Desde quando você não gosta de chegar cedo? — Reed é muito burro, sim ou claro? Estou quase desmaiando de cansaço aqui e ele perguntando porque não quero chegar cedo na escola.

— Desde que eu decidi que minha cama é o segundo melhor lugar do mundo agora. 

— Segundo? Qual é o primeiro? 

— A sua cama, dã. — Odeio ter que admitir isso, mas é verdade. Ele apenas dá um sorriso como se concordasse e ele parte para outro assunto. Na real, estou ouvindo por educação, porque não estou prestando atenção. 

Tomo outro remédio antes de entrar no carro, e dou graças à Deus que o próximo remédio é para ser tomado 3 horas. Ainda estou com efeito do remédio de ontem, mas quando esse pegar: eu vou ter desejado não ter ido para a aula.

— Eai, gente. — Lexie diz quando paramos na frente da sua casa. O caminho foi rápido demais para o meu gosto. A cara de animação de Lexie é quase irritante. 

— Eai. — Reed e eu respondemos. Ela coloca o cinto e vamos em silêncio. Que bom. Não sinto nenhuma necessidade de fala no momento.

— Então... o que aconteceu? Não respondeu nenhuma das minhas trilhões de mensagens. — Lexie diz com um tom triste. Eu estranharia ela não estar quase raspando minha cabeça no momento, mas se ela me viu passando mal (e eu sei que viu), ela vai estar preocupada por eu não ter falado uma vez sequer com ela durante todo o final de semana. Eu nem sei se meu celular está carregado. Na verdade, nem sei aonde está meu celular.

— Desculpa, nem mexi no meu celular nesses dias. Mas eu to bem. — Respondo com tédio e ninguém fala mais nada. É bem notável minha cara de bunda e por mais que eu esteja com sono, eu não estou com raiva por termos chegado cedo.

— Ok. Pode almoçar com a minha galera hoje? Vai ser tranquilo. — Reed pergunta quando estaciona o carro. Olho no retrovisor para ver se Lexie esboça alguma reação, mas ela está olhando pela janela calada.

— Por quê? 

— Só hoje. Nunca mais almocei com você. — Reed faz um biquinho. Sei que não é por causa da minha falta na mesa, mas no momento eu não ligo.

— Hum. Ok. — Digo. Estou me sentindo estranhamente relaxada hoje. Não estou nem um pouquinho com vontade de xingar e contrariar Reed falando que eu sei me cuidar e que ele tem que parar de ser superprotetor.

Saímos do carro, e por mais que estejamos uma do lado da outra, Lexie e eu não nos falamos. Como se fôssemos completas estranhas ou estivéssemos no início de uma amizade forçada. Subimos as escadas e Reed se despede com um beijo na minha bochecha e um dedo do meio para Lexie. Que amizade bonita desses dois.

 

 

 

Estamos voltando da aula de História do segundo tempo até meu armário, quando Lexie grunhe. Me viro e vejo seu rosto vermelho e sua boca entreaberta olhando para o celular. Parece que está indignada, com raiva e triste com algo; tudo ao mesmo tempo.

— Algum problema? — Pergunto baixo e coloco a mão em seu ombro. Ela apenas vira a tela e fico meio perdida quando vejo uma foto do nosso casal preferido da tv estampando um site de fofocas.

"Kyle Logans e Bruna Morchat, protagonistas de Seven Loyars, confirmam boatos de suposto término. "Acho que quem nos acompanha merece saber e não vou ficar mantendo aparências para agradar o marketing ou ao público. É isso, me desculpem pelas expectativas. Eu e Kyle não era para ser." - Afirma Bruna em uma das entrevistas para a Creedence Magazine. Clique aqui para ver a matéria completa."

— Ah. — Murcho o rosto. Eu e Lexie éramos fanáticas por eles na série, e quando descobrimos que eles são um casal na vida real, quase explodimos de felicidade. Eles eram tão fofos, o tipo de casal que eu me basearia. O término deles é triste demais.

— "Ah?" Trina, nosso casal terminou, você não está com raiva? — Ela pergunta confusa. Raiva, eu? Claro que não. É triste saber disso, mas por quê eu teria raiva? Estou decepcionada, apenas. Estranhamente não estou ligando muito para isso no momento.

— Não. Mas estou triste. Era o casal mais fofo da atualidade. — Respondo e começo a tentar abrir meu armário. Erro duas vezes por pura distração, mas apenas suspiro e volto a tentar.

— Trina, ok. Eu não ia perguntar porque não quero ser uma babaca. Mas... o que aconteceu? Você tá diferente. Não é só o rabo de cavalo. Aliás, você fica linda de rabo de cavalo. Mas... você tá parecendo um robô. Não está rindo e está séria. Percebi que você estava com sono no começo, mas agora parece que está apenas entediada demais. — Lexie fala.

Claro que Reed não contou o que aconteceu.

— Bom, desde quinta, tenho tomado uns calmantes necessários. Estou muito zen para ser verdade. — Dou um risinho forçado nessa última parte. Lexie suspira e pensa um pouco.

— Ok, me desculpa. Eu só... está tomando calmante para não ficar nervosa ao ponto de... hã, passar mal? — Lexie parece que está escolhendo as palavras, mas não a questiono sobre isso.

— É, basicamente isso.

— Bom, certo. Vem, vamos à aula. — Lexie diz e me puxa para a aula.

Aula de Física. Foi um saco, mas até que essa matéria é fácil. Fiquei prestando atenção em toda a explicação e Lexie também não puxou assunto. Tudo está parecendo tão normal e sem graça. Parece que todos estão muito chatos para ser verdade. Nada de interessante.

— Quer sair hoje? — Ouço Lexie perguntar quando toca o sinal. Faço uma careta. Eu não quero, mas seria chato da minha parte recusar, certo? Sinceramente, estou pouco me lixando pra isso agora.

— Hum, quem sabe outro dia? Hoje não é um bom dia. — Digo devagar.

— Nunca é pra você, né? — Pergunta. — Se fosse Allie você aceitaria.

Lexie sempre foi assim tão chata? Está muito diferente desde que voltou do Japão. Não temos a mesma amizade que tínhamos antes, mas eu pensei que depois de alguns dias ia voltar ao normal.

— Claro que não. Só não estou afim. — Balanço a cabeça afirmando.

— Certo. — Ela arrasta as palavras. Depois me pega pelo pulso e segue o caminho do banheiro.

Parece que minha vida se torna um borrão até a hora em que bate o bendito sinal do almoço. Aleluia, alguém ouviu minhas preces.

— Vou almoçar com Reed, lembra? — Falo com Lexie quando entramos no refeitório. Está cheio e todas as mesas estão ocupadas pelas mesas fixas, como sempre.

Lexie não parece decepcionada por não almoçarmos hoje com o nosso grupo usual. Lexie conversa com eles, mas parece que não gosta tanto da companhia deles. Lexie é muito fechada, e precisa de tempo para pegar intimidade com alguém e querer estar perto. Lexie me puxa pelo braço pelo refeitório até a mesa de Reed. Não a julgo, eu estou andando que nem uma lesma.

Chego perto e Reed se vira para nós com um sorriso direcionado para mim, e olha para Lexie com insegurança. Olho para os lugares que sobram nas cadeiras e automaticamente entendo. Ah, não acredito que Reed fez isso.

— Lexie. — Ele enrola, procurando a melhor forma de falar isso. — Bom... não guardei lugar para você. Vai ter que sentar em ou...

— Como? — Lexie o corta. Percebo algumas pessoas da mesa prestando atenção em nossa conversa. Inclusive, bato o olho em Sean que estava me olhando desde que chegamos. Faço uma cara confusa para ele e ele desvia o olhar. Garoto estranho. — Reed, eu sempre sento com a Trina.

— Sim, você sempre senta com a Trina. Hoje é minha vez. — Reed fala mais firme. Eles trocam um olhar irritado por alguns segundos, quando Lexie respira fundo e se vira com raiva para sair.

Devo admitir: fiquei muito surpresa quando Lexie aceitou "numa boa". Esperaria que ela arrumasse um barraco. Olho sua saída brusca enquanto ela se dirige até a mesa de Logan, Kim, Daisy e Allie. Logo ela se senta, e vejo Allie se virando para mim. Ela parece estar mais distante e estranha quando me dá um sorriso pequeno. Retribuo também e me viro quando Reed me chama.

— Então, maninha. Peguei isso para você. — Ele colocou um prato cheio de verduras e um pedaço de frango com maionese na minha frente. Ele definitivamente não precisava ter feito isso, mesmo sendo um gesto bastante fofo.

— Obrigada, mas você sabe que não precisava, né? — Pergunto e ele dá de ombros, como se não se importasse. Mexo um pouco a comida com o garfo. — Por que não guardou uma cadeira para Lexie? Você sabe que ela sempre senta comigo.

Ele apenas se vira e dá uma olhada rápida pra onde acredito que seja a mesa aonde Lexie se encontra. Depois se vira pra mim e coça o olho.

— Ela tá bem, não se preocupa. — Ele diz bufando.

— Aconteceu alguma coisa desde quinta- feira com você e Lexie? — Pergunto. Percebo que não estou com raiva de Reed por ter excluído Lexie e nem pelo fato de Reed estar fazendo o máximo para me contar o mínimo possível. Que paradoxo mais engraçado.

Com a menção de quinta-feira, vejo Sean virar ligeiramente para o nosso lado e mesmo com os olhos fixos na mesa, posso sentir que ele está prestando atenção. Qual é a desse garoto? Por que do nada ele ficou interessado sobre a gente? Ou sobre mim, o que eu acho menos provável.

— Nada demais, ela só ficou com raiva de algo que eu fiz, mas depois ela entendeu que foi o certo. — Diz e faço uma cara confusa. Parece que ele está falando em código para que eu não descubra. Ele percebe que fiquei confusa, mas também não explica. — Acho melhor você comer, vai esfriar. — Resmunga, apontando com o queixo para o meu prato.

— Para de esconder as coisas de mim. — Parece que não consigo reforçar a voz nem falar um pouco mais alto. Coloco um pedaço de beterraba na boca e mastigo de má vontade.

— É entre mim e ela, você sabe que não nos damos tão bem assim. — Fala por fim e sinto que não vou conseguir tirar mais nada dele. 

Como devagar toda a comida e não levanto o olho para ninguém nenhuma vez. Estou estranhamente com vergonha, como se não devesse estar aqui. Estou fazendo isso por Reed, mas ele mesmo não faz coisas por mim. Sim, ele fez meu prato. Sim, ele guardou um lugar para mim. Mas eu quero saber coisas que aconteceram e tiveram a ver comigo. E ele não me conta. Mas também não estou com vontade de brigar por isso. Só quero ir embora.

Me viro para a mesa onde Lexie se encontra. Estão todos conversando, menos Allie, que parece estar com raiva de alguma coisa. Com que cara eu iria naquela mesa e pediria para Lexie sair comigo? Não sei nem se ela acabou de comer. Ou se a conversa está boa e fluindo. Ir sozinha é uma opção, aliás, eu não nasci grudada com Lexie. Só quero ficar sozinha.

Me levanto com calma e me viro, sentindo a mão de Reed no meu pulso.

— O que vai fazer? — Pergunta. Tiro meu pulso de seus dedos. Ou melhor, seus dedos do meu pulso.

— Quero sair um pouco, sozinha por favor. — Digo baixo. O pessoal da mesa já está começando a perceber eu em pé. Reed franze a sobrancelha com a minha resposta.

— Algum problema? Quer que eu vá com você, sei lá? — Pergunta já se levantando.

— O problema aqui é que você está me tratando como uma criança de 5 anos, e pode continuar aqui. — Digo empurrando seus ombros para baixo para ele se sentar. Por incrível que pareça, ele não nega ou faz um cara de sonso, apenas suspira e tenta se levantar de novo.

— Desculpa, mas se você soubesse o que aconte... — O corto. Estou falando baixo para o resto das pessoas não escutarem, mas Reed parece que está falando alto demais.

— Então me conta. — Digo e ele me olha por alguns segundos antes de fazer uma cara de cachorrinho sem dono. Não, essa não vai colar agora. — Não pensa em me seguir. Tô falando sério. 

Por mais que minha voz não tenha soado nem um pouco ameaçadora, acho que Reed entendeu o recado. Ele se senta novamente com relutância e nesse momento percebo que o que rolou é bem pior do que imagino. Se ele não quer me contar nem que seja para eu ficar aqui, imagino que deve ser bem envergonhoso. Reviro os olhos e começo a me afastar calmamente. Tenho que manter a dignidade.

Vou sair daqui e ficar um pouco no banheiro para espairecer. Estou muito confusa. Nunca tive uma perda de memória tão longa como essa. E eu já estive muitas vezes para o hospital.

— Trina! — Ouço alguém me gritando, uma voz familiar. Viro minha cabeça devagar e vejo uma tão conhecida garota de cabelos dourados se levantando. Ela sai depressa dos acomodamentos da mesa e dá um sorriso quase imperceptível antes de caminhar até mim. 

Algumas pessoas estão nos olhando por conta do chamado um tanto não discreto de Allie, mas quem realmente foca os olhos na gente são Lexie e Reed. E talvez Sean. Mas não dá pra saber porque sempre quando eu o olho, ele está com a cara enfiada no seu prato.

— Eu queria falar com você. — Allie diz com um biquinho. Parece me analisar bastante e achar estranho minha postura tensa. Nem eu sei por quê estou assim. — Mas... sabe, você não veio na sexta. — Pigarreou.

— É. — Concordei desnecessariamente. Sinto como se estivesse sem expressão. Espero que Allie não perceba. Mas com seu jeito cauteloso, eu duvido.

— Bom. — Ela se mexe pra frente e para trás em seus calcanhares. Me pergunto quando nos tornamos tão desconfortáveis na presença uma da outra. Ou eu me tornei. — Sabe... sem querer ser, hã, enxerida, ou algo do tipo... — Ela coça o olho com o punho. — Se bem que você sabe que eu sou assim, né.

— Sei. — Juro que não queria ser grossa, mas foi exatamente o que aconteceu. Allie engoliu a seco.

— Se não quiser me falar, não precisa. — Ela diz num sussurro.

Ainda estamos no meio do refeitório e imagino que esteja ocorrendo uma cena bem constrangedora. Allie com a cabeça baixa como se estivesse intimidada e eu com a postura rígida. Meu Deus, como eu odeio essa merda.

— Nem sei do que você quer saber, Allie. — Digo calma. Ela engole a seco e fica vermelha. Jesus, algum dia esperei ver Allie Shandly envergonhada?

— O que exatamente aconteceu na quinta?

A pergunta me pega de surpresa. Quinta-feira foi o dia que passei mal, conforme todos tem afirmado. E Allie quer saber o que aconteceu. Tenho vontade de perguntar se ela está querendo saber sobre o acidente em específico. Mas seria idiotice, é óbvio que ela está querendo saber sobre o acidente em específico.

Por incrível que pareça, sinto meu sangue gelar. Conserto ainda mais minha postura (como se fosse possível), fico ainda mais séria e me sinto nervosa. Como Allie poderia saber sobre o acidente? Por acaso... eu passei mal na escola? No meio da aula? Alguém mais viu? Fiz um escândalo? Por que Allie pareceria tão inquieta se eu não tivesse passado realmente mal na sua frente?

Não consigo despejar tudo que sinto e muito menos me expressar.

— Você viu o que aconteceu na quinta? — Minha voz soa rígida.


Notas Finais


Deixem comentários, eu amo os ler!
E não esqueçam da estrelinha!


Gostou da Fanfic? Compartilhe!

Gostou? Deixe seu Comentário!

Muitos usuários deixam de postar por falta de comentários, estimule o trabalho deles, deixando um comentário.

Para comentar e incentivar o autor, Cadastre-se ou Acesse sua Conta.


Carregando...