História O caso Akademi High School - Capítulo 16


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Notas do Autor


Ah cara, eu não sei de quase nada. Sei lá se a leitura tá cansativa. Sei lá se isso aqui tá bom. Só sei que eu coloquei esforço e sei que espero que gostem. De resto, simplesmente não sei.

- (fala normal)
-- (conversa via mensagem)
--- (pessoa do outro lado da chamada do celular)

Capítulo 16 - Indisciplina


A noite era o único momento que Leona realmente tinha para ficar em casa e, por mais que fosse cansativo, a limpava todos os dias assim que chegava. Não gostava da ideia de ficar “parada” e muito menos de imaginar qualquer grão de poeira em seus móveis. Aquele dia estava, ainda, sendo mais longo que o normal. Para piorar tudo, Takao não conseguia achar um tempo sequer para ficar com ela. Sentia saudades.

Ademais, ainda tinha que lidar com o filho passando mal. Pouco saia da cama desde o dia do festival e conseguiu ainda parar na enfermaria durante a manhã daquela segunda. Se questionava se o filho comeu algo podre ou se era algum quadro de virose. Kokichi não deixava ela o levar ao médico. Ah, que menino complicado.

Já eram cerca de onze da noite de terça. Por conta do esgotamento do filho, ele já estava na fase quatro do sono. Ao menos não tinha que escutar reclamações do garoto, afinal o humor dele naquele dia parecia ser de um idoso amargurado. Não adiantava perguntar também, ele não respondeu absolutamente nada.

O celular tocou e, com o susto pelo volume que estava, quase deixou o último prato que estava secando com um pano cair no chão e quebrar. Não estava esperando ligação nenhuma. Dessa forma, ficava óbvio saber quem era. Pensou por longos segundos até decidir se atenderia ou não. O celular parecia ficar mais longe à medida que se aproximava, o mundo perdia cada vez mais suas cores enquanto deslizava a ponta de seu dedo na tela, para atender.

- O que você quer? São onze da noite…

--- Você não muda mesmo, né? Poxa, quando uma amiga liga você deveria ficar mais feliz. - Ryoba já começou a ligação colocando o máximo de pilha que podia. A risada era obrigatória.

- … fala logo o que você quer, se não vou desligar a chamada. - Leona não estava com paciência nem com culhões para uma ligação daquela mulher. Não tinha escolha, sabia disso muito bem.

--- Ah, para vai. Eu só queria saber como você está! Perguntar sobre seu dia, esses papos de amigas.

- Eu já falei oitocentas mil vezes que eu não vou te dedurar!! - Leona jogou o verde logo de cara. Queria que a chamada acabasse ali, mas tinha certeza de que a realidade seria outra.

--- Você tá se fazendo de boba? Já disse que quero saber como foi o dia, nossa! - Ryoba novamente deu sua característica risada. Sabia que isso afetava Leona de uma forma absurda.

- Que seja, que seja! Foi a mesma coisa de sempre, você sabe muito bem como é!  - Leona já estava quase passando mal. Passou a mão na testa. Estava suando frio.

--- Você devia variar um pouco, Leona-chan. Já tinha até ficado um saco de te seguir e observar cada movimento seu… ficaram tão repetitivos com o passar dos anos…

- Se for ficar reclamando da minha vida, vou desligar também. Vai curtir a América, vai. Seria bom se não voltasse.  - Leona quase clicou no botão para desligar a chamada. Contudo, como estava tremendo, clicou no viva voz. Entrou em desespero, e logo desativou esse modo. Tinha que tomar cuidado para não acordar Kokichi.

--- Ai, não fala um negócio desses. Sei que tá morrendo de saudades de mim, não devo demorar muito. Ah, eu fiquei sabendo da morte de uma garota daí… trágico, não é? - Ryoba fez uma voz de garotinha assustada muito convincente. Leona sentiu enjoo e levou uma das mãos à boca por alguns segundos. O suco gástrico havia subido pela garganta e agora o sabor estava a incomodando também. Ardia.

- Porque você tocou nesse assunto? Ela era uma amiga do meu filho. Você é inconveniente demais, ninguém te merece! - Leona recuperou a pouca compostura que havia sobrado desde que atendeu a ligação e, por fim, suspirou. Ainda assim, era visível que sua voz estava um pouco embargada.

--- Vai chorar? Eu só estou querendo pôr os assuntos em dia… e seu menino? Ele tá legal? Quero saber mais dele! Você nunca me fala nada sobre! - Ryoba novamente deu uma risadinha que tirou Leona do sério. 

- Eu não tenho vontade de conversar sobre ele com você. E só para matar essa sua “curiosidade” entre muitas aspas, ele está meio doente. - Talvez, abrir o jogo seria a maneira mais fácil de fazer Ryoba parar de falar do filho. Sabia que se ficasse escondendo informações, ela iria falar mais merdas que o normal.

--- Oh… entendi. Hm… estranho. - Ou, na verdade, pode ter sido uma péssima ideia.

- Estranha é você, sua sem noção. Doença é algo que seres humanos estão sempre sujeitos a pegar. Quer me deixar preocupada atoa, que eu sei.

--- É que eu não sei se é atoa sabe… isso me traz memórias - Leona simplesmente congelou com essa afirmação. Ficou vários segundos sem falar nem um “a”.

- A situação é bem diferente nos dias de hoje! - O desespero havia tomado Leona quase que por completo. O filho jamais poderia estar vivendo aquele tipo de coisa. Jamais.

--- Eu não diria isso, afinal, novamente uma menina morreu em Akademi High, certo? - Ryoba jogou a lenha na fogueira. Ainda assim, Leona simplesmente não queria ouvir.

- Isso não tem na…

--- Tem certeza? Hm… suicídio por envenenamento… se fosse coisa da minha Ayano seria realmente interessante. - Isso foi o suficiente. Leona simplesmente entrou em parafusos e perdeu quase toda a sanidade que lhe restou. Queria esganar Ryoba.

- Você me ligou só para falar algo assim e me tirar do sério?!! Você não cansa, Ryoba?!! Eu sinceramente não aguento mais essas suas ligações!!! Me deixa em paz logo, não vou fazer NADA! - Só não sabia ainda como estava conseguindo segurar o choro de raiva. Seu corpo não parava de sacudir inconscientemente.

- Nossa, Leona-chan! Eu só estava querendo ajudar você. Se acalma, é tudo pra descontrair um pouco o clima. Mas, falando sério, o que aconteceria com seu filho se isso que eu disse fosse a verdade e … ele soubesse? Acho que ele passaria mal hahaha. - Ryoba não parava de gargalhar. Agir daquela maneira era sempre a forma mais ideal de fazer Leona ficar desesperada. Muito no fundo, gostava disso ao menos um pouco.

--- Isso é descontrair pra você?! Psicopata sem noção! Louca! Desgraçada! - Leona simplesmente não aguentou mais, desligou a chamada e começou a chorar forte. Não adiantava trocar o número, já foi ameaçada sobre isso. O contato entre elas era uma obrigação. 

Não aguentava imaginar o filho atrelado a uma situação parecida com a dela no final dos anos 80. Não queria isso para ele. Seu coração apertava só de imaginar. Ele é curioso e ela, mais que ninguém, sabe o potencial dele para descobrir as coisas.

Preferiu engolir em seco e imaginar que aquilo era apenas conversa fiada. Deu sorte que o garoto não acordou.

 

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- Talvez eu esteja me arrependendo de dar essa monitoria de literatura… é muito complicado ter que lidar com pessoas tão diferentes e com tanta dificuldade!

- O Alemãozinho tá envolvido nisso? De qualquer forma, se desistir, você pode entrar no meu clu--

- Por favor, para de insistir! Não, ele não tá… até queria que ele estivesse, um pouco. Ele animaria as coisas lá. - Taro estava triste e com medo. Nunca sentiu muita confiança em si mesmo. Apesar disso, queria muito que a monitoria funcionasse. Ser professor era um de seus maiores desejos.

- Deixa disso… falando sério, você tem que manter a responsabilidade e parar de desistir tão fácil das coisas, Taro! Lecionar não é um de seus sonhos? - Budo conhecia bem o amigo para afirmar tal coisa. E sabia, também, que ele nunca foi uma das pessoas mais motivadas do mundo

- Bem, é, mas…

- Nada de “mas”! Eu não desisti de me tornar líder do clube. Mesmo que a Rai-chan fosse osso duro de roer, eu trabalhei para chegar onde estou. - Budo colocou uma das mãos no ombro direito de Taro. Ele tinha um ponto, querendo ou não. Taro deu um sorriso leve, precisava de mais alguns empurrões para finalmente ceder. - Mas, não pensa que é fácil me manter nesse posto! Lido com pessoas com dificuldade também! E se eu consigo, você dá conta.

- De brinde você ainda se tornou o menino mais popular da escola toda, já que você sempre foi bem sociável. Todo mundo te respeita e tem muita menina na sua cola. - Taro reconhecia o esforço do amigo para tal.

- Isso é por conta da minha beleza. Hehe… - Budo colocou o dedo indicador da mão direita embaixo do nariz e ficou esfregando enquanto sorriu largo.

- Esse tipo de frase não ajuda nem um pouco… - Taro deu uma risada muito genuína. O humor de seu amigo era realmente contagiante. - Bem, vou tentar insistir mais um pouco… vou precisar de muita so-- 

- Taro-kun não precisa de sorte, ele é incrível! - Essa garota realmente não dava nenhuma pista de que ia chegar “chegando”. Raibaru parecia não fazer barulhos enquanto andava ou corria.

- De onde você veio?! - Budo ficou completamente arrepiado. A voz dessa garota funciona como um ASMR para ele.

- Eh… é que… tá, se você diz eu acredito… - Taro também havia se assustado. Contudo, levou ao coração o que ela disse. Foi um elogio que nem mesmo Budo tinha feito.

- Porque você leva a sério o que ela fala mais do que o que eu falo?! - Que por sinal, ficou revoltado ao perceber isso.

- Porque a Rai-chan é mais inteligente que você, Budo-kun. - Aquelas frases em terceira pessoa, para os dois meninos ali presentes, dava um certo charme nas frases dela, apesar de ser meio esquisito. Ela sempre foi assim. Na verdade, estavam acostumados com isso.

- De qualquer forma, obrigado! Digo para os dois… vocês sabem que sou meio inseguro… - Taro olhou para o chão e ficou balançando seu corpo levemente. Estava corado.

- Não se preocupa, cara. Tô aqui pra isso. Precisando, é só chamar. Fora isso, tá tudo bem, né? - Budo sabia que perguntar tal coisa poderia ser um pouco arriscado. Taro sempre foi reservado, mas tinha que saber como o amigo estava se sentindo depois de tudo.

- Ah, sim, está. Ando meio preocupado com a Amai ainda e, além disso, não esqueci completamente aquilo que houve com a Osana… mas não dá pra ficar negando a morte dela pra mim mesmo. - Não levantou a cabeça. Tentou ser maduro nessa resposta. Ainda assim, dava pra ver que ele ficava em choque só de ter que responder isso. Complicado.

- Talvez seja culpa minha… - Quando Raibaru falava em primeira pessoa, sabiam que era algo realmente sério. Mais um motivo para preferirem a “terceira”. - Acho que se eu não saísse da escola, não teria acontecido tudo isso… 

- Não se culpe, Rai-chan! Olha, tanto eu quanto o Taro estávamos aqui e também éramos próximos dela… também podíamos ter impedido ou notado qualquer comportamento estranho, sei lá. - Budo cruzou os braços e olhou para a direita. Não gosta de fazer contato visual quando toca nesses assuntos.

- Sei lá, tem tanta coisa acontecendo ao mesmo tempo… tá tudo virando de cabeça pra baixo. - Taro respondeu ainda encarando o piso da escola. Não queria que vissem as lágrimas se formando no canto de seus olhos.

- É, meninos… - Raibaru cortou o assunto. Ambos agradeceram mentalmente.

- Hm? - Budo ficou curioso, ela não era muito de falar naquele tom. Apesar disso, se aproveitou para olhar para ela mais um pouco. Taro, por sua vez, finalmente voltou a encará-los.

- Eu volto depois, eu só vou fazer uma coisinha bem rapidinho e eu já volto - Raibaru manteve a primeira pessoa, o que era estranho. Relevaram isso. Ela começou a saltitar após andar um pouco.

- Ela é uma menina muito prestativa, nunca fica parada num lugar só. - Taro e sua gentileza extrema, para variar. - E além disso, sempre ajudou todo mundo da escola… 

Budo não respondeu. Apenas ficou encarando Raibaru, até que ela sumisse da vista deles no corredor da escola. Aquela garota sempre chamou a atenção dele, e agora com ela de volta, talvez…

- Terra para Budo! Eu tô falando com você!

- Que foi?! Eu to aqui, cara! Não precisa ficar esperando resposta pra tudo! - Budo coçou a parte de trás da cabeça com uma das mãos. Aquilo estava errado e Taro sabia disso. Já tinha ideia do que podia ser.

- Você adora evitar conversa quando o assunto envolve a Rai-chan. Você ainda tá naquela? - Taro ficou encarando o amigo com um olhar sério. Queria receber um “não” como resposta.

- Ah? É… sinceramente, eu não sei. Imaginei que não estaria já que ela não tava na escola desde metade do ano passado, mas agora que vi ela de novo… Ah, sei lá! - Coçou com mais força. De brinde, fez um rosto de desconforto para o amigo.

- Você não muda mesmo… - Decepção.

 

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-- Não concordei muito com suas atitudes nos últimos dias.

-- Você não tem que concordar com nada. Eu só recorro a você se eu precisar de alguma ajuda. Me livrar da Amai era o único jeito.

-- Não digo disso. Ele notou que era você. Agora sim que ele vai ficar no seu pé e complicar essa sua vidinha estúpida.

-- Isso não importa. Eu precisava que ele tivesse medo de mim para me manter distante dele. Eu matei dois coelhos com uma cajadada só. Além disso, te paguei por tudo que você fez dessa vez.

-- Fale a merda que quiser, projeto de psicopata. Querendo ou não, você vai ter que diminuir esse seu ritmo agora e pensar melhor nas suas atitudes. Além disso, você não tá acostumada com isso de “emoções”, né? Se deixar levar por isso pode te trazer problemas imensos.

-- Eu não agi por impulso.

-- Não é o que parece. Aliás, se você acha que seus problemas simplesmente acabaram com a ausência da Amai, pode ir tirando esse seu cavalinho da chuva. Ela não era a única que estava gostando do Taro. E como estou decepcionada com você, não vou dizer quem é. Se vira nos trinta.

-- Desgraçada.

-- Te amo, beijos :) -

Se tivesse como, Ayano teria enforcado Info-chan naquele momento mesmo. Por mais que aquela garota fosse útil, era extremamente irritante. Sabia muito bem que ela queria usá-la de fantoche. O motivo que era desconhecido. Não ia deixar isso acontecer, de qualquer forma.

Sempre que um problema desaparece, outro surge no lugar e dessa vez Ayano estava no escuro. Não tinha ideia de quem poderia ser tal pessoa. Tinha que descobrir de alguma forma e sem a ajuda de Info-chan. 

A única solução que vinha em sua mente era ficar de olho em Kokichi Müller. Depois de tudo que aconteceu, era óbvio que ele se manteria alerta sobre qualquer garota que estivesse próxima de Taro. Não gostou muito da ideia, mas não havia nenhuma outra.

A cada dia que passava, sua necessidade pelo Yamada aumentava. Sentia cada vez mais. Estava amando aquilo. Estava odiando aquilo. Tudo ao mesmo tempo. Confuso. Viciante.

Tudo estava ficando mais difícil.

 

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Sem dúvidas, aquele seria o dia mais complicado de todos. O tempo estava, dessa vez, passando muito rápido. Não acreditava no que Megami tinha feito. Nem sabia o que falaria pra Midori. O clube de teatro era o pior de todos.

Kizana Sunobu era o motivo disso.

Não aguentava um segundo sequer ouvindo a voz dela. Só de se imaginar escutando as ordens daquela garota sentia o estômago embrulhar e a ansiedade aumentar. E tinha certeza de que não seria bem vindo lá.

Ao menos, o dia estava tranquilo. Nenhuma peripécia. Tudo dentro da normalidade. Queria passar aquele intervalo perto da Sakura isolada da escola, a mesma do rumor dos casais. Tudo besteira.

Parecia até uma profecia que havia saído de algum anime shoujo genérico dos anos 90. Hur Dur, confessar debaixo de uma árvore. Coisa de gente besta. Quando pensava em algum otário acreditando nesse tipo de coisa, sentia pena.

Contudo, era um lugar excelente para relaxar já que não era tão frequentado e era aberto. Caso alguém tentasse qualquer coisa, veria o indivíduo se aproximando de longe. Não era nada mal também imaginar as pétalas laranjas da Sakura caindo em seu corpo.

Laranjas? Sakuras tem flores rosas.

Não conseguia imaginar nenhuma cor além dessa, afinal foi a única cor que viu se aproximando dele numa velocidade absurda.

Uma garota havia agarrado ele. Não sabia distinguir se era um abraço ou uma tentativa de ippon. Só conseguiu pensar em Osana naquele momento, por conta das maria-chiquinhas. Mas não podia ser. Ele viu o corpo dela morto.

- A-le-mão-zinho!! - A voz fofa também contrastava. Era muito mais suave. Nada estridente.

- Raibaru?! O que?! - Ao perceber que era mesmo um abraço, deu um passo para trás. Logicamente, corou. Fazia um bom tempo que não a via, e ela já chegou dessa maneira? Sentiu a cabeça dela encostando em seu peito. Aquilo piorou tudo. A garota estava totalmente curvada para frente por conta do passo que ele deu.

- Rai-chan voltou!! Você cresceu e emagreceu mais!! O que anda fazendo, hein? Exercícios não parecem ser…

- A… Me solta!! - Müller ficou tentando empurrar a cabeça dela para longe. Aquilo estava passando dos limites. Grude demais.

- Ah... continua sem graça e ranzinza como sempre… Rai-chan não gosta disso - Raibaru fez beicinho enquanto soltava o garoto. Cruzou os braços logo em seguida. Afinal, estava revoltada.

- Quando você vai parar de falar em terceira pessoa?! Você continua parecendo ter uns cinco anos de idade! - Jogou na cara dela. Tal atitude era completamente oposta a dos outros dois. Aquilo gerava um contraste.

- Para! A Rai-chan amadureceu! Francamente Alemãozinho, você realmente vai acabar sem se casar se continuar desse jeito! - Ele mereceu essa resposta. A grosseria dele deveria possuir algum limite. Coisa que não era verdade.

- Obrigado por jogar na cara. - Ela, no fundo, só deu o troco.

- Você mereceu! Todo mundo ficou feliz, menos você, que foi totalmente rude! Rai-chan veio toda feliz te cumprimentar… - Raibaru bateu um dos pés no chão e suas bochechas inflaram. Novamente, ela estava correta. Müller grunhiu com a afirmação. Não queria dar o braço a torcer, mas não tinha outra escolha.

- Tá!! Me desculpa, era isso que você queria ouvir?! 

- É! Que bom que percebeu que agiu errado, hehe. - Ela sorriu finalmente. Müller havia desistido. - e então, como você tá? 

- Horrível. - O garoto suspirou com a afirmação. Não mentiu. E também nem se importou com isso, não era como se tivesse maneiras de esconder o motivo.

- Nossa… e por que?! - Raibaru arregalou os olhos. Aquilo era realmente fora do esperado. Normalmente ele daria uma resposta bem menos direta que aquela.

- A Megami me pois no clube de teatro à força… hoje é meu primeiro dia e vou ter que encarar a Kizana. - Isso explicou as coisas. Contudo, Raibaru começou a rir bastante.

- Ah, não acredito. - Colocou as mãos na barriga e continuou a gargalhar por mais alguns segundos. Não era de deboche, e sim uma mistura de alívio com graça. - Você devia ter entrado em algum outro clube mais cedo. Além disso, não é uma questão de morte. Você é muito dramático, Alemãozinho.

- Como você pode afirmar isso assim?? Olha, a Kizana dentre todas é a mais cheia de si. É a que eu mais queria evitar. Eu me achava até abençoado por não ter que ficar próximo. E agora, sei lá… eu tô fodido. - Sabia desde o início que seus motivos não seriam levados a sério. Sempre foi assim, afinal.

- Tenho certeza que com o tempo o Alemãozinho irá se acostumar. Quem sabe ela até não venha gostar de você? Todo mundo adora o Alemãozinho! - Raibaru deu um sorriso largo para o amigo e curvou o corpo um pouco para frente. Estava, ao menos, parecendo ser sincera.

- Lá vem você com esse papo estranho. A maioria da escola nem me conhece, e dos que sobram eu não gosto de quase todos. - Na visão de Raibaru, Müller tinha ficado vermelho cor de bacon. Logicamente ele estava encabulado, afinal, raramente recebia elogios assim. - A Kizana é uma das que não quero contato.

- A Rai-chan conhece quase todo mundo da escola, então ela sabe que todo mundo ama o Alemãozinho! Você é muito lerdo e não percebe isso.

“Deixa pra lá, não adianta discutir com ela.” - Müller se virou de costas para Raibaru para então seguir caminho para a sala de aula. Não havia mais tempo para relaxar. Estava com uma expressão visivelmente tensa.

- Olha… - O tom de voz que Müller fez com certeza era um que Raibaru raramente ouvia. Aquilo fez a garota arquear uma de suas sobrancelhas. Curioso. - Toma cuidado, por favor.

- Ah não… o Alemãozinho está usando seu tom sério… Pode deixar! Apesar de não saber do que tá falando.

- Acho bom. - Müller saiu andando pelo corredor sem olhar para trás. Assim que fez a curva, apoiou as costas e a parte de trás da cabeça na parede. Suspirou pesado.

- Caralho, puta que pariu, cacete… - Seu corpo estava parecendo gelatina. Raibaru sempre foi uma menina muito esquisita. - Essa garota me dá nos nervos…

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O tempo passou ridiculamente depressa. O fato de ter dormido na aula não ajudou nem um pouco, na verdade. Acordou dezenas de vezes com Rino Fuka chamando sua atenção. Aquilo era um saco. 

Pior ainda, já estava de frente para a porta do clube de teatro. Para variar, estava atrasado. Ficou vários minutos andando em círculos na escola. Queria fugir de lá, mas sabia que Megami poderia retirar a bolsa dele, se ele o fizesse. 

Conseguia ouvir da porta os berros ridiculamente altos de Kizana Sunobu.

“Eu podia dar meia volta e ir embora… eu podia dar meia volta e ir embora… eu podia dar meia volta e ir embora.”

Tocou três vezes na porta e engoliu em seco. Não sabia se estava aberta, se podia sair entrando de qualquer jeito. Queria chamar o mínimo de atenção que podia. Mas, no fundo sabia que isso não era possível.

Assim, um dos membros abriu a porta.  Riku Soma era da sala de Kokichi, mas nunca sequer trocaram um mísero assunto. Para ele, observar aquele rosto cansado e com olheiras não era algo que sequer imaginaria ver na porta de seu clube.

- Eh… eu posso ajudar? - Riku costuma falar de um jeito meio “pomposo”, mas não conseguiu evitar onomatopeias naquele momento. 

Müller não respondeu. Ficou travado, olhando aquele clube esquisito. Ele queria distância daquele lugar. 

- Olha só quem chegou!! Na sua terra de plebeus é cada um por si? Não tem a mínima noção de horário?! - Todos na sala pareciam olhar para Kokichi de cima para baixo, com o nariz em pé. Era essa impressão que ele tinha. Porém, Kizana Sunobu fazia isso num nível muito pior.

Müller continuou encarando aquela garota e toda a sala. Não queria conversar e muito menos responder a essa “ofensa” gratuita. Kizana, por sua vez, começou a notar várias características incômodas naquele garoto. Olheiras, pele desidratada, cabelo despenteado. Quase nenhum cuidado com a aparência.

-Humpf…  Olha só para seu estado! Não sobrou um pingo de dignidade humana nesse seu corpo?! - Kizana cruzou os braços, estava em cima do palco. A impressão que dava era de que ele era simplesmente ralé naquele ambiente. - Pois eu já irei me adiantar e recitar a regra número um daqui: tenha sempre uma boa aparência! Esse não é um clube para mortos vivos.

- Se continuar a aparecer por aqui desse jeito, vou ser obrigada a te deixar por detrás das cortinas. Não que eu já não planejasse isso, óbvio. Não precisamos de mais atores aqui… é tudo culpa daquela Saikou que-- 

- Eu… quero perguntar uma coisa. - Interrompeu a garota sem mais nem menos. Ela falava demais e já estava extremamente estressado.

- Humpf... eu não vou tolerar esse tipo de indisciplina aqui! Eu sou a líder do clube e não gosto de ser interrompida. Mas, vamos, pergunte logo o que quer! - Kizana também estava no seu limite. Tudo estava dando errado naquele dia.

- Eu tô com dor de cabeça… posso ir para casa? 

Absolutamente todos os membros do clube, incluindo Kizana, arregalaram os olhos para a pergunta que ele fez. O que menos precisavam era de um moleque preguiçoso e indisciplinado ali. Alguns membros, inclusive, fizeram um “facepalm”.

- Mas é claro que não! Você é idiota?! Se está com dor, vá a enfermaria e peça um remédio! Aproveite e me traga flores para a peça.

- Eu já fui muito lá esses dias, e… espera… o que?! - Müller ficou completamente possesso e mordeu o lábio inferior. Não estava acreditando que aquela garota estava tentando fazer ele de capacho. - Você tem pernas e braços. Faz tu, porra!

- Então fique com dor e pare de reclamar. Boca suja! Mal criado! - Kizana queria esganar aquele moleque ali mesmo. Não podia fazer isso, nada foi escolha dela. Já sabia o que fazer para dar o troco. - Aliás, não está vendo que estou ocupada!? Eu não posso fazer tudo ao mesmo tempo. Aproveite, e me compre uma lata de suco. Esqueça as flores. Mas, saiba que eu não gosto de melão.

- Ahn?!  Porque eu?! Tem mais gente aqui além de mim!!  - Müller estava confuso e puto. Não sabia como reagir àquilo. Pior, ele não podia fazer muita coisa, na verdade. Ele já teria pedido para sair do clube se pudesse.

“Se ela não me incomodar mais, tanto faz então. Eu compro a droga do suco” - Müller parou a mão na frente dela. Provavelmente estava esperando ela entregar algo, coisa que ela não fez. 

- O que foi? Compre do seu dinheiro, oras. É para um bem maior!

- Bem maior? Bem maior?!! Meu dinheiro é para pagar o ônibus hoje! Cê tá tirando?! E o que seria essa merda de bem maior?! - Müller começou a tremer muito. Se todos ficassem em silêncio, poderiam ouvir o ranger de seus dentes. Talvez, se Kizana conhecesse o garoto, pararia de provocar.

- Então vá a pé depois. - Kizana revirou os olhos -  Ou peça dinheiro à Saikou, dê seu jeito. Faça logo porque eu estou com sede.

Müller ficou em absoluto silêncio por um tempo. Até que deu um tapa muito forte no próprio rosto e respirou fundo diversas vezes.

- Eu… vou… comprar seu suquinho… Mas, depois me deixa quieto! - Ele abriu a porta e bateu ela muito forte, depois de sair da sala. Não demorou muito para voltar, e fez a mesma coisa. Não comprou de melão, mesmo que quisesse. Ia sobrar para ele.

“E se eu jogasse boliche…? O strike seria bem na testa…”

Chegou perto de Kizana e ficou esperando ela puxar a lata de sua mão. Quando a garota o fez, ele ficou segurando com força. Como se não quisesse entregar, mesmo que fosse dela. Soltou uns segundos depois e Kizana deu uns passos para trás. Quase caiu sentada no chão.

Ela o olhou de novo com aquele nariz empinado. Soltou mais um de seus clássicos “humpf”, abriu a lata de suco e começou a beber quieta. Era óbvio que não iria admitir que estava ficando preocupada e com medo daquele garoto. Não faria isso nunca.

- Ah, bem melhor. Certo, já podemos começar os ensaios do dia.

As coisas melhoraram enquanto os membros estavam ensaiando. Talvez, ter entrado naquele momento tenha sido uma coisa até que menos pior do que seria se estivessem precisando de mais um ator. 

Vários minutos passaram, e num determinado momento pararam de atuar. Novamente, Kizana olhou para Müller e ele já sabia que lá vinha bomba. O garoto fez uma expressão facial de desgosto quase instantaneamente.

- Você - Ela ainda fez questão de apontar para ele, como se ele já não soubesse que estava sendo “selecionado”. - Pegue os acessórios e umas tábuas de madeiras no backstage enquanto continuamos o ensaio.

Aquilo era uma ordem. Não chegava nem perto das ordens “saikisticas” de Megami, que eram como leis de Deus. Era ordem de uma princesinha mimada, e também parecia um pouco uma atuação.

- Ahn?! Pera, eu não vou fazer parte de peça nenhuma?! Meio que eu tô no grupo agora, sabia?!

- Reclame com a Saikou, por ter te colocado no clube faltando uma semana pra próxima peça. Inclusive, estamos ensaiando pra outras subsequentes! Não tem espaço! Tudo tá sendo preparado há semanas! 

- Olha, eu tô tão puto quanto você com ela! Eu também não tive escolha. - Müller entrou no armazém batendo os pés com força no chão. Estava parecendo uma criança fazendo birra. Logo, começou a procurar o que foi pedido. Suspirou. Talvez não fosse algo tão ruim fazer esse tipo de trabalho, ao menos não tinha que olhar para a cara dela.

- Riku, ajude ele por enquanto. - Ele a obedeceu sem mais nem menos e ficou no armazém junto de Kokichi, o ajudando a pegar as coisas. Por incrível que parecesse, Müller puxou assunto.

- Como você aguenta essa grande arrombada? - Foi um sussurro, mas ainda assim, fez o garoto arregalar os olhos quando ouviu.

- Eh… ela é legal! É que você deu azar de ter entrado para o clube na semana da peça. Ela fica assim nesses momentos. - Riku respondeu completamente sem jeito. Já estava acostumado a ver pessoas que não gostavam de Kizana, mas nunca viu alguém falar dela dessa maneira. O novo membro era completamente antipático.

- Vocês dois parem de resmungar e enrolar! Venham logo! - Kizana reclamou enquanto tentava dar continuidade a peça. Precisava que Riku voltasse logo para tudo fluir naturalmente.

Não demoraram e voltaram para o palco. Nisso, o grupo ensaiou mais um pouco até quase a hora de ir embora. Já não havia mais treinos, então alguns membros já estavam guardando suas coisas para irem para casa.

- Sabe… você fez um bom trabalho no festival, no pouco que vi. - Müller tentou, ao menos, aliviar um pouco o clima pesado que tava naquele local. E então, percebeu a merda que tinha feito.

- Ora, do que está falando? - Kizana deu um sorriso clássico de himedere e colocou uma das mãos próximas ao queixo. A garota exalava um complexo de superioridade. - É claro que fiz. Só eu mesma para conseguir salvar aquele festival ho-

Kizana parou de sorrir. Havia se realizado de algo terrivelmente assustador.

- Espera… você não é… o garoto? Aquele que dançou com a Megami no festival?!

Müller fez um facepalm enorme. Novamente ele deu informações que não queria dar para o inimigo.

Os membros do clube ficaram boquiabertos, incluindo Riku, e ficaram sussurrando sobre isso. Não acreditavam que aquele garoto, todo mal cuidado e antipático, era o mesmo que tinha dançado com aquele projeto de Deusa.

- Ah claro, agora tudo faz sentido! A Saikou só te colocou aqui para esfregar o namoradinho com cara de europeu dela! Era só o que me faltava. Eu não tenho tempo pra me preocupar com isso. - Kizana massageou as têmporas. Megami Saikou era uma das pessoas que mais a irritava, simplesmente por ser melhor em tudo e ter mais do que ela.

- Ela não é minha namorada!!! Ah, que merda! Que merda!! Agora você vai dar uma de Budo!  - Müller sentiu tanta raiva que socou a parede. Mas não esperava a dor latejante que ia sentir depois disso. - Aah! Minha mão!!!

- Ainda por cima é patético! Fica bravo e dá soquinho na parede! Ainda bem que não vou precisar atuar com você. Quem não controla as emoções sempre é horrível atuando. - Kizana passou a mão no rosto. Estava ficando cada vez mais estressada com aquele garoto. Mesmo assim, não era como se ele estivesse sendo completamente inútil ali. - Agora faz o favor de guardar as coisas que não vamos usar. Eu tenho que fechar a porta do clube, então depressa!

- Tudo eu, tudo eu! - Müller começou a resmungar palavras incompreensíveis para Kizana, que julgou que nem era japonês que ele estava falando. Ficou observando e esperou até que o último membro, sem contar ele, saísse do clube.

Assim que ele acabou, ela o acompanhou até o lado de fora e fechou a sala. Ficaram um tempo sem falar nada um com o outro. Novamente ele puxou o assunto.

- Eu… até gostei da peça que estão fazendo. - Müller, ao perceber que o dia já tinha acabado na escola, suspirou de alívio. Não conteve o mini-sorriso que sentiu necessidade de fazer.

- Eu sei que tá ficando bom, eu lá sou cega? - Kizana revirou os olhos. Aquela informação era óbvia demais.

- Que? - Todo o estresse que havia sido aliviado, retornou de uma vez só. - ... Eu acho que preciso de uma terapia. Urgentemente...

- Dá pra perceber. - Ela ficou olhando ao redor, para ver se não tinha ninguém passando lá. E como não havia, colocou um pedaço de papel na mão de Kokichi. - E vê se não sai falando pros outros sobre isso. 

- Ahn? Que iss… - Müller olhou aquela nota de 5000 ienes em sua mão. Ficou absolutamente confuso e quase berrou logo ali. - Eh?

- Eu não sei quanto custa uma passagem de ônibus. Eu só ando de limousine e essa é a menor nota que eu tinha. - Assim que ela acabou a frase, ele segurou a mão dela pra tentar devolver o dinheiro. Ficou atordoado. Em pânico.

- Olha, não é assim que funciona! - Ele estava revoltado, nada mais fazia sentido. - Você usa meu dinheiro, abusa e não se sente mal, e depois me devolve isso tudo?! Não tá certo!

- Isso é obviamente pelo suco, mas não vá se acostumando. Você foi competente o suficiente para receber o dinheiro de volta.

- Um suco não vale 5000 ienes!! 100 seria mais que suficiente! - Lágrimas se formaram no canto dos olhos. Não por estar triste, ou feliz. Era puro medo.

- Hm… então eu vou pedir o tanto de suco que eu quiser até você retribuir os 5000. - Müller nunca desejou tanto ter calado a própria boca depois dessa.

-  Você não ousaria… - Ele viu a garota concordar com a cabeça enquanto dava o sorriso himedere de novo. Droga. - Eu raramente trago dinheiro! Eu não poderia pagar isso nunca! Minha casa é longe, minha mãe não recebe muito. Eu não quero uma agiota não!

- Então retribua os 4900 em forma de trabalho braçal enquanto estiver nesse clube. Não quero dinheiro de pobre. - Mesmo que Müller não estivesse a fim de ser um escravo naquele clube idiota, era uma alternativa muito melhor que retribuir em dinheiro. Ignorou a ofensa por completo.

Kizana não queria admitir verbalmente que ele havia feito um bom trabalho. Ficou observando o garoto “namorar” aquela nota valiosa por alguns segundos. Era desconfortável ver aquilo.

- Tá, tá. Vai embora e finja que nada aconteceu. Além disso, amanhã trate de chegar no horário.

- Vou… eu vou vir arrumado amanhã. - Müller correu mais que o Papa-léguas.

 

 









 


Notas Finais


Eu não sei.


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