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História O Caso Hastings (The Hastings Case) - Capítulo 2


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Notas do Autor


Dana Hastings encontra um destino terrível nas mãos de um belo estranho. O fim marca o início da nossa história.

Capítulo 2 - CAPÍTULO UM: Morte na Floresta


Fanfic / Fanfiction O Caso Hastings (The Hastings Case) - Capítulo 2 - CAPÍTULO UM: Morte na Floresta

14 de julho de 1974

22:32

 

Dana Hastings era uma jovem muito atraente, com uma silhueta esbelta e que se fazia reconhecer pelos seus belos cabelos longos, sorriso brilhante e feições de líder de torcida. Ela chegou ao acampamento Love Heavens querendo o que qualquer outra jovem desejava: atrair um pretendente e divertir-se antes de se formar no colegial. Ela não tinha ideia de que, em vez de amor e diversão, estava prestes a conhecer o próprio diabo à espreita sob a fachada atraente e encantadora de um homem sedutor.

Love Heavens é o santuário ao ar livre favorito de muitos rapazes e moças em idade colegial que moravam em Hillthorn. Em uma noite de luar de 1974, uma festa acontecia lá, com muitos dos alunos do Colégio Hillthorn presentes, comemorando sua próxima formatura em frente à fogueira e às margens do lago ao redor da floresta. No meio da multidão, Dana Hastings se destacava como apenas outra garota bonita. Mas ela era muito mais que isso. Era o principal alvo de um demônio no meio de uma caça selvagem, e estava prestes a se tornar sua primeira presa.

Quem, no entanto, imaginaria o destino que Hastings encontraria nas mãos de um belo rapaz de cabelos claros, olhos azuis e lábios cor de cereja? Creio que não me engano em afirmar que nem ela sabia no que estava se metendo quando aceitou entrar no carro daquele belo estranho.

Era uma noite escura, embora o céu estivesse claro e a lua estivesse cheia e brilhante. Assim como ninguém esperava que uma tempestade viesse, Dana não esperava que seu pretendente fosse se transformar em seu próprio assassino. Talvez tenha sido a escuridão da meia-noite que cegou a todos da tragédia que estava por vir, escurecendo a cidade enquanto a grande tempestade se aproximava para recair sobre eles. Tudo o que Dana sabia é que os faróis dos carros eram a única coisa que iluminava a estrada enevoada na noite em que ela foi conduzida ao seu destino final.

O distinto som do motor era tudo o que ela podia ouvir, assim como o rádio do carro tocando uma canção antiga, enquanto o Cadillac vermelho corria rapidamente pela estrada remota em direção à casa do estranho misterioso. Ela sonhava com um beijo e uma noite de amor nos braços de um rapaz bem-apessoado, mas estava prestes a encontrar uma morte cruel e horrenda nas mãos de um verdadeiro monstro disfarçado de anjo de luz.

— Então, qual é o seu nome mesmo? — Dana perguntou, pondo o cabelo timidamente atrás da orelha. Dois borrões cor de rosa manchavam suas bochechas pálidas. Ela não conseguia parar de sorrir. Era impossível não sorrir cada vez que olhava para ele. Ele era bonito e gentil e, a julgar pelo carro e pelas roupas de marca, era abastado em recursos financeiros. Parecia quase bom demais pensar que aquele garoto estava interessado nela. Por que ele havia a escolhido? Por que não outras garotas? Qualquer que fosse a resposta, o fato era que o estranho decidiu que Hastings era a escolha certa. Melhor ainda: a escolha perfeita. E o que o diabo quer, ele sempre encontra uma forma de conseguir.

— Oh, meu nome é Ted — ele respondeu, os dedos da mão batucando o volante de couro enquanto ele o conduzia. — Theodore — ratificou —, mas você pode me chamar de Ted. É como todos me chamam.

— Certo — disse Dana. — Então, seus pais moram perto da colina, Ted?

— Sim, em uma mansão.

Dana arregalou os olhos, bastante impressionada. Ted, no entanto, notou sua surpresa ao olhá-la de esguelha e riu de forma convincente.

— Sou filho de George Palmer — explicou.

— O homem que está se reelegendo a governador?

Ted replicou com um simples aceno de cabeça.

— Uau! — disse Dana. — Nunca imaginei que algum dia sairia com o filho de um político.

— O destino não é mesmo uma coisa engraçada? Tão cheio de surpresas... — Houve uma breve pausa. Ele a olhou de relance, os olhos refletindo um desejo perverso, cintilando sob as claras pestanas, e garantiu: — É uma linda mansão. Tenho certeza que você vai adorar.

Dana sorriu e assegurou:

— Com certeza irei.

A leste da encosta havia uma estrada de terra estreita que subia até o topo da colina. Foi onde Ted se dirigiu para estacionar o carro, deixando sua passageira confusa e assustada. O terreno era inóspito e selvagem. O denso crescimento da vegetação obscurecia completamente a encosta. Todo o lugar estava envolto em urtigas e amoreiras entrelaçadas com grama espessa e samambaias. Não havia mansão nem casa à vista. Nada senão trevas, abetos e cedros ao redor deles cercando-os como pilares de um templo satânico.

Dana olhou em torno. Não poderia ser o lugar certo. Tudo era escuridão e uma densa floresta se estendia ao redor deles. Havia apenas uma explicação plausível: eles haviam se perdido. Só poderia ser um engano, certo?

— Ted?

— Sim?

— Por que você parou o carro? Estamos perdidos?

Ele não virou-se para ela. Em vez disso, manteve as mãos enluvadas firmes no volante enquanto seus olhos azuis se petrificavam na visão da floresta além do para-brisa embaçado.

— Não — respondeu calmamente, bastante seguro de si —, não estamos perdidos. Este é o lugar.

— Mas estamos no meio do nada! — Dana retrucou. — Não há casa alguma por aqui.

— Claro que há. Você não vê? Está logo à frente, bem diante dos seus olhos. É quase um palácio de tão bela...

— Estou confusa. O que estamos fazendo aqui?

— Viemos para minha casa! — exclamou Ted, em um ímpeto de raiva, apertando os dedos no volante. — É por isso que viemos aqui: para ficar juntos!

Dana piscou, surpresa.

— Eu... acho que não quero mais — murmurou. E, soltando-se do cinto de segurança: — Eu quero voltar. Eu quero voltar para a festa.

A resposta de Ted foi mais fria do que ela esperava:

— Então vá — ele disse —, ninguém está segurando você aqui.

Dana deslizou a mão para a porta do carro e tentou abri-la, mas, para seu infortúnio, estava trancada e sem maçaneta. A chave para a liberdade dela era o próprio Ted. Somente ele poderia libertá-la. Mas ele não queria fazer isso. Seus planos eram outros, muito mais perversos, muito mais cruéis do que simplesmente assustar uma garota, trazendo-a para uma floresta isolada no meio da noite. E em sua mente, ele já havia decidido qual seria o destino dela.

— Ted, abra a porta — Dana exigiu, ficando mais assustada a cada segundo compartilhado na presença dele. — Eu quero sair!

Ted fechou os olhos por breves instantes, exibindo perfeito controle de si mesmo, e então sorriu sadicamente, como se apreciasse brincar com as emoções de sua presa.

— Por que você está com tanto medo, Dana? Eu te disse: você pode sair. A porta está bem ao seu lado.

— Mas... está trancada.

Ted ergueu as sobrancelhas, fingindo surpresa.

— Ah, é mesmo? Isso é novidade para mim.

Ele sorriu novamente, mas Dana não o correspondia mais. Já sentia que suas intenções eram obscuras e temia por sua vida. Ela virou-se e tentou abrir a porta novamente, mas desta vez era tarde demais. Sentiu um calafrio percorrer seu corpo quando um cano foi posto contra sua nuca, e fechou os olhos ao ouvir a própria morte sussurrar em seu ouvido:

 — Atreva-se a se mover e eu te mato.

Dana não se moveu ou tentou escapar. Ela implorou por sua vida, o que provou ser em vão, pois nada impediria seu assassino de realizar suas obscuras intenções de alcançar as fantasias distorcidas que sua mente doentia alimentava.

Só havia uma forma da noite terminar.

Seis tiros foram ouvidos na escuridão. As únicas testemunhas foram os animais da floresta. E o próprio Ted.

 

 

14 de julho de 1976

6:32

 

Era pouco depois do amanhecer, e o chilrear dos pássaros parecia especialmente triste naquela manhã. Eles cantavam na memória de algo perdido, de uma vida cruelmente arrancada, de uma inocência interrompida. Hoje faz dois anos desde a morte de Dana Hastings. Dois anos desde que seu caso foi arquivado. Tanto quanto eu sabia, o assassino ainda podia estar à solta, andando pelas ruas em busca de sua próxima vítima. Mas ninguém mais parecia se importar, nem mesmo os oficiais inicialmente designados para investigar o caso. Dois anos foram o tempo suficiente para o assassinato de uma adolescente cair no esquecimento público. Ninguém mencionava mais o nome dela, nem os amigos nem a família. Era como se tudo tivesse voltado ao normal. Mal sabiam que era apenas o começo de uma série de assassinatos brutais e uma intensa caça ao assassino.

Nosso pesadelo começou da seguinte forma: há 40 quilômetros da cena do crime, em uma casa de dois andares nos Estados Unidos, uma garota de 17 anos voltou à consciência após despertar de um terrível pesadelo. Acontece que ela não estava sendo perseguida por um lobo faminto no meio da noite, como então havia sonhado, mas estava, em vez disso, deitada em sua cama na companhia de seu gato, Jonesy, ouvindo o som irritante e persistente de seu alarme anunciando que estava dez minutos atrasada para o seu primeiro dia de aula.

O nome dela era Laura Waldorf. Esta garota sou eu.

Seria o meu primeiro dia de aula após meses de férias. O mesmo em que o próprio diabo chegaria à minha vida e à vida de todos os estudantes do Colégio Hillthorn. Num lapso de lucidez, em meio a um sonho macabro e confuso, eu o vi caindo do céu como um trovão para devastar nossa pequena cidade. Ele era perverso, porém belo. Seu sorriso diabólico, ar paquerador e cabelos cor de uísque ajudavam a esconder seu segredo mortal: ele era o assassino mais perigoso da cidade.

Claro, naquela época, eu não sabia disso. Ninguém suspeitava que, no dia seguinte à sua chegada, ele seria capaz de estuprar e assassinar uma estudante a sangue frio. Naquela época, ele era apenas carne nova em uma escola de estudantes entediados. Uma figura intocável. Quase um deus. Um príncipe encantado, cuja carruagem mágica era um Bentley preto que brilhava mais do que seus sapatos.

Também era o primeiro dia de primavera. Os alunos estavam empolgados e as expectativas para o novo ano eram altas. O time de futebol da escola havia vencido um campeonato estadual no ano anterior e agora estávamos a poucas semanas do baile de boas-vindas. Mas essa mesma alegria não se limitava apenas aos arredores do Colégio Hillthorn. Ela se espalhava por toda a cidade como uma praga fatal, nos convencendo a crer na falsa ideia de que estava tudo bem.

Mas não estava.

A primavera começava a abrir seus primeiros botões de rosa à luz do sol, difundindo um doce aroma para enriquecer o ar da manhã!

Era o início de um pesadelo disfarçado de sonho.

 

Eu estava atrasada. Terrivelmente atrasada. Eu disse terrivelmente? Eu estava, na verdade, perigosamente atrasada. Temia que o professor não me deixasse entrar na sala de aula, mas surpreendentemente, em um ato inesperado de misericórdia, ele permitiu que eu comparecesse à sua aula.

Creio que deva estar pensando agora: “Outra adolescente irresponsável. Que grande surpresa!”. Mas, por favor, não se apresse em me julgar. Eu tenho o que para mim parece ser uma justificativa razoável para o meu atraso: todos na escola me odiavam, e eu também odiava a cada um deles, coletiva e individualmente falando.

É claro que nenhum deles vinha até mim para dizer pessoalmente, bem na minha cara, que me odiavam. Mas, de qualquer modo, eles não precisavam fazer isso para confirmar o que era óbvio para mim e para qualquer pessoa com um pingo de consciência e compaixão. Seus olhares maldosos e piadas ditas em sussurros indiscretos eram suficientes para eu saber o quão “bem-vindo” um judeu era entre os estudantes católicos.

Era impossível manter minhas origens em segredo. Meu cabelo deixava evidente o que e quem eu era. Cheio demais, encaracolado demais, uma juba imperiosa e indomável feita de lã de ovelha negra. Uma profusão caótica de cachos escuros despontando da minha cabeça como serpentes de Medusa. Meu cabelo era tão judeu quanto meu nariz. Sugeria em sua desordem permanente e irreversível o cansaço que constantemente me afligia.

E eu estava especialmente cansada naquela manhã. Cansada de ser alvo de constante humilhação. Mas eu também era ingênua (ou otimista, chame como quiser) o suficiente para nutrir expectativas de que as talvez coisas fossem ser diferentes para mim daquela vez. Eu estava prestes a iniciar meu último ano no colégio de maior prestígio da cidade e estava empolgada com a perspectiva de conhecer novas pessoas e ingressar em uma classe inteiramente nova. Minha esperança, no entanto, foi reduzida a mil pedaços quando, ao chegar à minha classe e me sentar no único lugar disponível, vi as palavras escritas sobre a mesa.

“Judia fedoreta!”. Alguém escreveu “Judia fedoreta!” na minha mesa. Exatamente assim, faltando um ‘N’. E eu não acho que foi Hitler quem fez isso. Só para constar, eu não sou judia por escolha religiosa, mas por uma determinação do destino de me fazer nascer em uma família composta, em sua grande maioria, por judeus e israelitas. Meu avô — que Deus o tenha — era judeu. Meu falecido pai era judeu. Minha mãe? Minha mãe era mais do que definitivamente judia!

Se você me perguntar, eu diria que não há nada errado em ser judeu, embora o mundo insista em nos dizer o contrário. O grande problema — e esse era certamente o meu caso — era ser judeu em uma escola católica.

Os alunos evitavam passar por mim nos corredores da escola. Cordeiros brancos não gostavam de ser vistos perto de uma ovelha negra. E eu não era uma líder de torcida popular, nem uma nerd prodigiosa. Me caía como uma luva a definição de ‘solitária’. Eu também era o que alguns chamavam de ‘desajustada’. Uma esquisitona de cardigã azul e sapatos Mary Jane, cujo melhor amigo era um cara negro e gay que, assim como eu, só estava matriculado na escola por ter ganho uma bolsa de estudos integral.

Se tivéssemos que contar, ao invés das notas altas, com o altruísmo dos demais estudantes para permanecer na escola, então ficaríamos a ver navios. Sabíamos bem que a maioria dos alunos eram pessoas cercadas de privilégios e mordomias, que não se animavam nem um pouco em ter que compartilhar espaço e oxigênio com pessoas de origem humilde.

Mas felizmente para mim, entre esses demônios avarentos, havia uma garota simpática e gentil que encontrou em mim a pessoa perfeita para ser sua melhor amiga. Essa mesma garota me oferecia consolo enquanto eu recolhia meus pertences para ir à biblioteca para mais uma hora solitária de leitura durante o recreio.

— Este ano será diferente — ela me assegurou, acariciando meus cabelos da mesma maneira que sempre fazia quando eu estava triste ou chateada. Era um pretexto para brincar com os meus cachos, esticá-los como se fossem molas, coisa que eu jamais permitiria se estivesse inteiramente bem. — Eu vou cuidar de você — prometeu. — Sempre cuidei, não é verdade?

No dicionário inglês, a palavra “sparks” significa, embora não exatamente, “centelha”. Pode significar tanto a centelha de um fogo ardente quanto a centelha produzida por uma potente descarga elétrica. A centelha dela era diferente de todas as outras. A dela era a centelha que se acende quando uma ideia brilhante está prestes a iluminar a mente de alguém.

Não era uma ironia que seu nome também tivesse essa mesma centelha. Para mim, era e sempre seria questão de destino. Ela era, afinal, uma faísca de esperança incorporada em uma adolescente bonita.

Miranda Sparks. Por onde devo começar? Talvez pelo fato de que sua cor favorita era amarelo. O carro dela — um fusca da Volkswagen — era inconfundivelmente amarelo. Seus tênis — os que ela costumava usar para ir à escola — eram notavelmente amarelos. O armário dela? Bem, era azul do lado de fora, mas se você ousasse dar uma olhada por dentro, logo veria o interior amarelo e os sinais de paz desenhados por suas mãos delicadas, bem como pôsteres de girassóis (sua flor favorita) pendurados à porta!

No mundo existe — e este é um fato do qual Miranda estava ciente — cerca de 50 ou mais tons de amarelo. Há o amarelo canário, o amarelo dourado e o amarelo do próprio sol. O amarelo dela era bem diferente. Era o amarelo da areia molhada, o amarelo quase bege, terroso, que era a cor de seus cabelos.

Miranda era tão bonita que poderia ter sido modelo, se ao menos não tivesse decidido se tornar advogada. Ela era a garota do anuário em cujo rosto seus olhos se demoravam. Seus longos cabelos loiros brilhavam ao sol, e seus olhos luminosamente azuis lhe davam a impressão de ser um anjo em forma humana. Seu corpo era esbelto, mas atlético como o de uma líder de torcida, e decerto atraía a atenção de muitos rapazes.

Os professores se dirigiam a ela como “Srta. Sparks”. Os amigos e familiares a chamavam simplesmente de “Mandy” ou, às vezes, de “Randie”. Eu a chamava de “raio de sol”, pois foi assim que ela veio a mim: como um sol quente e radiante em uma fria manhã de inverno. Sentia-me grata por tê-la como amiga, como meu sol pessoal para iluminar meu mundo sombrio e solitário.

— Laura, você precisa fazer alguma coisa! — Miranda disse em sua esganiçada voz de indignação. Era mais uma ordem do que um pedido.

— Não há nada que eu possa fazer sobre isso — eu disse, deixando a sala de aula com uma pressa quase indecente. — Eles só querem me irritar, mas não lhes darei essa satisfação. Não vou perder um segundo da minha vida me preocupando como eles.

— Mas isso é claramente um caso de discriminação! — Miranda retrucou, minha paladina da justiça. — É preconceito religioso, Laura. Você não pode simplesmente cruzar os braços e fingir que está tudo bem. Precisa fazer algo a respeito!

Parei no meio de um corredor quase lotado. Eu não queria, mas precisava. Ela estava falando alto demais, o que costumava fazer quando algum assunto lhe provocava revolta, e as pessoas já começavam a voltar a atenção para nós duas. Era a última coisa que eu queria.

— O que você sugere que eu faça? — perguntei. Minha impaciência revelou-se em meu áspero tom de voz. — Relatar o caso ao diretor? — sugeri ironicamente.

Para minha grande surpresa, ela assentiu enfaticamente:

— Sim, é exatamente isso que eu espero que você faça!

— O mesmo diretor que também é diácono? — rebati. — O mesmo que me proibiu de usar meu colar de estrela de Davi por dizer que ‘contrariava os princípios e valores religiosos da instituição’?

Houve uma pausa. Miranda calou-se. O modo como seus olhos se desviaram do meu rosto para fazer um percurso envergonhado até o chão foi sua própria forma de desculpar-se. Ela havia esquecido o ocorrido, mas eu não. Jamais esqueceria.

— Eu só quero que você seja corajosa — ela disse —, corajosa o suficiente para se defender.

— Tudo bem — falei. — Eu farei isso, mas não do seu jeito.

Vi os olhos dela brilharem intensamente ao ouvir minhas palavras.

— Está me dizendo que pretende confrontá-los?

Começamos a andar novamente.

— Bem — eu disse —, não diretamente. Pretendo reabrir o jornal da escola. Talvez eu consiga tratar dessas questões lá. Denúncias anônimas ou algo do tipo. Quem sabe? Eu vou dar um jeito. Acredite: eu não sou a única a sofrer discriminação nesta escola. Conheço outros alunos que estão passando por uma situação semelhante, senão pior que a minha.

— Está se referindo aos gêmeos mórmons? — Miranda perguntou.

— Também — assenti. — Mórmons, os budistas enrustidos... Enfim. Muita gente rica vem para este colégio por ser o melhor da cidade. O que podem fazer se, coincidentemente, também se trata uma instituição religiosa?

— Você poderá ajudar essas pessoas se trabalhar no jornal — disse Miranda, parecendo entusiasmada com a minha ideia. — Talvez incentive-os a falar sobre a discriminação que sofrem, a fazer denúncias. É um excelente plano! — afirmou.

Sorri de forma convincente.

— Sim, essa é a melhor maneira de lidar com isso. Talvez uma queixa não faça diferença para o diretor, mas se eu conseguir reunir um grupo de estudantes que afirmem estar se sentindo ameaçados ou intimidados de alguma forma... Bem, então aí o cenário mudará de figura.

Miranda sorriu, orgulhosa.

— Oh, Laura, você é mesmo genial!

Mas havia algo que eu notei naquela manhã que vai além da minha ‘genialidade’. Algo que notei após o infeliz evento na sala de aula. Notei, enquanto andava pelos corredores da escola, que ninguém me encarava mal, nem sussurrava ou ria de mim quando eu passava por eles. Era como se, no curto período de alguns meses, eu tivesse me tornado alguém completamente diferente, ou simplesmente me tornado invisível, afinal, como sempre desejei. Isso me fez pensar no que poderia estar acontecendo na escola. Digo, se eu não era mais o alvo, então alguém deveria ser. A questão era: quem poderia ser essa pessoa?

— O filho do prefeito — Miranda me explicou minutos mais tarde, enquanto seguíamos até os nossos armários situados no segundo andar. — Ele é o assunto principal da escola, especialmente porque as garotas estão loucas por ele. Dizem que é o cara mais gato do colégio.

— Não confio no julgamento delas — atestei. — Essas garotas se atraem por qualquer moço com uma herança e conta bancária bem gordas.

— Mas o Nick é realmente lindo! — Miranda argumentou. — Se você o visse, certamente se apaixonaria por ele. Eu sei porque eu mesma me apaixonei!

— Não duvido disso — provoquei. Eu sabia que Miranda se apaixonava fácil por qualquer garoto minimamente atraente. Seu interesse por Nick era apenas mais uma de suas muitas paixonites.

— Ele é tão elegante! — ela insistiu. — Ele tem esse lindo cabelo comprido que deixa qualquer garota com inveja. É liso como seda e tão brilhante que parece acender sob a luz do sol!

Olhei para ela e ri, achando graça.

— Então você está realmente apaixonada por esse garoto? Sério?

Ela pôs o cabelo atrás da orelha e mordeu o lábio inferior. Sim, ela de fato estava apaixonada. Seus maneirismos femininos atestavam sua paixão.

— Eu não sei — ela disse. — Talvez sim... Eu me interessei por ele, sabe?

Revirei os olhos, meio entediada, meio enojada. Ah, Miranda! Sempre indecisa e apaixonada! Como toda boa libriana...

 

Era tempo livre para as turmas do terceiro ano. O corredor que levava à escada do segundo andar não estava lotado, mas também não estava exatamente vazio. Era possível ver atletas sentados nos degraus, mascando chiclete e discutindo sobre lances de jogo. Os alunos mais aplicados (que é como eu chamo os nerds) debatiam sobre novas tecnologias enquanto folheavam livros de espessura intimidadora. Mas nenhum sinal do meu amigo que, em teoria, já devia ter saído da sala.

— Onde está o Ben? — perguntei a Miranda, olhando em torno. — Os colegas dele estão aqui, mas não consigo vê-lo. Será que foi ao ginásio?

— Ora, esqueça ele! — Miranda aconselhou, claramente impaciente. — Ele nos encontrará mais tarde. Sempre nos encontra.

Era verdade. Ben sempre me encontrava, não importa onde eu estivesse. Ele sempre encontrava uma forma de me rastrear. Se eu não o conhecesse bem, diria até que estava me perseguindo, mas sabia que não era esse o caso. Tratava-se apenas de sincronia telepática entre amigos de infância.

 

Segundo andar. Número 232. Corredor à esquerda. Memorizei essas instruções há quase dois anos, quando cheguei pela primeira vez à esta escola. Elas se fixaram em minha mente como um mantra enlouquecedor. Toda vez que o sinal tocava e uma aula se encerrava, eu subia as escadas até o segundo andar murmurando a mim mesma: “número 232. Corredor à esquerda”. Eram as coordenadas para chegar ao meu armário.

Ele nunca mudava. Todo ano era sempre o mesmo, com o mesmo problema no cadeado. Certa vez tentaram repintá-lo, mas passando a mão sobre o metal da porta, ainda era possível sentir as cicatrizes da frase gravada há dois anos: “Laura é feia e pobretona”. O autor até hoje eu desconheço.

Abri o armário e recolhi meus livros. Por sorte, o armário de Miranda ficava ao lado do meu, então ela pôde fazer a mesma coisa. Não podia-se dizer o mesmo sobre Ben, cujo armário se localizava no primeiro andar. Dei um jeito de enfiar o livro na bolsa que já transbordava conteúdo e então acompanhei Miranda em sua ida ao banheiro para sua sessão diária de retoque de maquiagem. Eu costumava contar as vezes em que ela passava e repassava seu batom cor de rosa, mas naquele dia em específico minha mente estava em outro lugar.

Eu havia passado a noite em claro decidindo se devia ou não pedir ao diretor que me deixasse reabrir o jornal da escola. O jornal havia fechado no ano passado por falta de verba, embora os alunos também tivessem sua parcela de culpa nisso. Ninguém parecia especialmente interessado em ler o que era reportado. Os exemplares gratuitamente distribuídos frequentemente encontravam um final triste nas lixeiras da escola.

Eu tinha o desejo de mudar essa realidade, mas não sabia como dar o primeiro passo.

Olhei-me no espelho e me deparei com o que havia restado de mim após uma noite inteiramente dedicada à reflexão. Meu cabelo estava um caos. Meus olhos exibiam olheiras que maculavam a palidez mortal do meu rosto. Eu estava tão branca que parecia quase transparente. Suspirei fundo e abri a torneira do banheiro, colhendo com ambas as mãos água fria na qual lavar meu rosto. Não faria diferença alguma para mim. Diferente da minha amiga, eu não usava maquiagem. Minha pele era extremamente sensível a cosméticos e à luz do sol; portanto, não podia me dar ao luxo de passar no rosto nada além de sabão e protetor solar.

— Eu odeio te ver assim — Miranda disse, sem interromper a contemplação de si mesma no espelho do banheiro. — Já tentou usar maquiagem? Sua pele é tão bonita! Você ficaria linda de batom vermelho...

— Pareceria uma prostituta — retruquei.

Meu raio de sol lançou-me um olhar repreensivo e então sorriu amplamente. Meu coração derreteu. Como Miranda era bonita!

— Isso não é verdade — ela disse. — Não deveria ser tão dura consigo mesma. Sabe do que precisa para aliviar esse estresse?

Eu sabia exatamente o que ela iria sugerir, mas fingi não saber.

— Do que eu preciso, Dra. Miranda? Diga-me.

— Precisa da terapia infalível de toda garota: ver uns gatos, uns gatos treinando sem camisa. É isso!

Encarei-a em silêncio, como se dissesse: “É sério?”. Eis a solução para todos os meus problemas: ver garotos sem camisa fedendo a suor. Uau. Como não pensei nisso antes?

— Eu vou à biblioteca agora — objetei. — Preciso pôr minhas leituras em dia e...

— Nada de biblioteca para você, senhorita! — Miranda me interrompeu. — Não hoje. Hoje vamos assistir os rapazes jogando futebol no campo — ela decretou. — Vamos!

E então, como em todo clichê adolescente, a garota esquisita deixou-se ser guiada pela loira não tão megera e, em menos de dez minutos, as duas se viram sentadas no banco de madeira do estádio, com uma visão privilegiada dos jogadores que corriam sem camisa pelo campo de futebol.

Era um pesadelo para mim. Os garotos eram fortes e suavam, transpirando testosterona de cada músculo do corpo, de cada poro da pele. Não era apenas desagradável. Era absolutamente nojento! Mas, felizmente, não demorou muito tempo para que algo, ou melhor, alguém, me salvasse da tortura a que fui imposta.

O meu melhor amigo apareceu de supetão. Um dos poucos garotos negros da escola. Um cara tão gay quanto eu.

Bernard Sullivan surgiu furtivamente, como era típico dele, e nos deu um baita susto:

— Ei, pervertidas!

Eu olhei para ele como uma donzela em perigo olharia para seu super-herói. Era evidente que ele havia mudado durante o período em que esteve fora da cidade. Seu rosto estava mais fino, assim como seu corpo, e seu cabelo afro havia sido reduzido a um corte militar que destacava suas feições pronunciadas. Somente os sapatos permaneciam os mesmos: um All Star surrado pelo qual eu o reconheceria de longe.

Sorri e abri espaço para ele se sentar ao meu lado. Ele se acomodou no banco de maneira casual, descansando os braços nas pernas abertas.

— O que fazem? — perguntou, como se não fosse óbvio. — Espiando os caras do time de futebol de novo?

— É o que faço todas as quintas — disse Miranda. — Você já devia estar acostumado.

— É difícil para um cara se acostumar com o fato de que suas amigas se tornaram duas safadas insaciáveis.

— Ei! — Dei um tapa no ombro dele, ofendida.

Bernard riu, achando graça.

— É claro que eu não me referia a você, Laurinha. Sei bem que foi a Mandy quem te corrompeu. — Ele afagou meus cabelos e disse, dissimulando compaixão: — Coitada da Laurinha! Tão pura, tão inocente! Quase uma santa entre meros mortais.

Eu afastei a mão dele, impaciente.

— Sem gracinha! — resmunguei, retomando minha seriedade habitual. — Preciso falar com você sobre algo importante. É sobre o jornal da escola. Estou pensando em reabri-lo.

— Mas para quê? — Bernard indagou. — Ninguém lia aquela porcaria mesmo...

— Isso é porque só publicavam artigos de moda e de ciência — retruquei. — Ninguém quer ler sobre o mesmo assunto o tempo todo.

— Eu não me importaria em ler sempre sobre moda — Miranda disse, sem desviar a atenção dos jogadores. Em um ímpeto de entusiasmo, ela ergueu as mãos e bradou em celebração infantil: — Isso, Shawn, você consegue! — E virando-se para mim, acrescentou: — Ele é tão gato!

— Olha, você sabe que eu sempre vou te apoiar no que for — Bernard disse em tom apaziguador —, mas o fato é que a escola não tem mais verba para manter o jornal. De onde você vai conseguir dinheiro para isso?

— Arrecadações, talvez? — sugeri sem muita convicção.

Bernard desviou o olhar. Sinal de que não colocava muita fé no que eu propunha.

— Olha, eu dou um jeito — insisti. — Eu enviei meu currículo para um colégio local. Eles estão precisando de uma pessoa para ajudar uma tal conselheira, psicóloga, sei lá, com um trabalho de escritório. Aparentemente, contratar uma secretária experiente custa caro demais.

— E você por acaso tem experiência com trabalho de escritório? — Bernard perguntou.

— Sim — eu disse —, eu já trabalhei por alguns meses no escritório da mamãe. Coisa de jovem aprendiz, basicamente. Enfim, só preciso da sua ajuda, Ben. Não posso começar o jornal sozinha.

Bernard ergueu o cenho, atônito:

Minha ajuda? Mas como? Para quê? Eu também não tenho um puto no bolso, esqueceu?

— Quero que me ajude com os artigos — esclareci. — Sempre te achei um bom escritor.

Ele abriu um daqueles sorrisos cafajestes pelo qual qualquer mulher se derreteria (qualquer mulher, menos eu), e então me arrependi instantaneamente de ter lhe elogiado.

— Sou bom escritor, é? Jura?

— Tenho total convicção do seu talento — respondi, seca. O que menos queria era inflar o ego dele. — E aí, você topa ou não?

Ele se manteve em silêncio por alguns segundos, parecendo refletir sobre o caso, e então respondeu:

— Está certo. Eu aceito sua proposta.

Creio que, naquele momento, um coro de anjos cantou ‘Aleluia’ no palco da minha mente.

— Maravilha! — eu disse, alegre. — Então iremos à sala do diretor assim que as aulas terminarem.

 

Quando o sinal tocou, Bernard, Miranda e eu corremos às pressas para nossas respectivas salas. Minha próxima aula seria de ensino religioso, cujo professor, um solteirão de meia-idade e óculos fundo de garrafa, conseguia ser mais chato e deprimente que os versículos bíblicos que melancolicamente recitava.

Meu dia avançou longo e enfadonho, marcado por aulas infinitas, anotações intermináveis e discussões acadêmicas que tinham como único objetivo preencher o vazio das horas tediosas. Quando, mais tarde, o sinal finalmente anunciou o fim das aulas, Bernard me acompanhou em minha ida até a secretaria. Estávamos prestes a convencer o diretor a desenterrar o jornal da escola. Ou ao menos tentar convencer.


Notas Finais


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