História O cheiro de Dezembro - Capítulo 3


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Notas do Autor


Essa vai para todos os corações partidos. Ola!
Musica do capitulo: Become the Warm Jets - Current Joys, links nas notas finais.
Nos vemos, xo

Capítulo 3 - Veja Billy, eu firmei meus pés


 

"Oh I can hear it when that old song starts to play
Cutting through my body in a million ways
Well is it me, or is it you who can’t relive?"- Current Joys

 

Billy e Steve eram regidos por algum tipo de força gravitacional, é está a conclusão que seus amigos tiram certo dia, sem a presença dos dois, na mesa de um bar. Sexta-feira, fim de expediente, todos se preparando para as festividades de dezembro. Se preparando para Billy e Steve.

Seria uma história engraçada de se contar, se Steve não fosse casado e pai de Anne e Amélia. E Billy ainda mais distante silencioso e recluso, mesmo aparecendo em todas as festas de seus velhos amigos, apenas mantendo uma tradição. Algo para se agarrar talvez.

Will acha que se tornou um “ritual macabro” onde eles se veem, lambem as feridas um do outro, enquanto todos assistem pela enorme rachadura que eles se tonaram.

“Okay, talvez você esteja certo!”, é Nancy quem diz, depois de uma longa discussão, durante os preparativos para aquela noite.

 “Você parece o psicólogo dos meus pais”, ela quer dizer, mas não faz, porque Will é de fato psicólogo e porque ela sabe que ele não está falando aquilo como quem tenta analisar uma realidade através do comportamento das pessoas.

Ela sabe, porque Steve e Billy sempre foram assim. Ninguém tinha o poder de mudar os fatos. Quando estavam na universidade e eles romperam a primeira vez Steve podia encher um oceano com as próprias lágrimas e Billy estaria se afogando em álcool e inconsciência. O caos juntos ou separados.  No entanto, em algo eles precisam concordar. Aquela era única forma menos dolorosa que ambos haviam encontrado de estarem presentes um na vida do outro, porque queriam estar presentes. Apenas se certificando que estavam bem o suficiente. Um acordo mutuo, selado silenciosamente. Se Billy era um lago turvo, Steve sabe que nunca tirou os pés de lá. Sabe que nunca quis tirar.

Algumas coisas na vida morreriam sem uma explicação. Steve poderia vascular nos escombros da memória por motivos, não acharia nada. Ele vasculharia todas as lembranças, Billy um universo inteiro e não obteriam respostas. A vida era o que era, e para eles, era sempre paralela, nunca unida.

“Steve está com alguém”, Billy soube na época. Ele soube do casamento á gravidez, assim como Steve soube que ele havia conseguindo a vaga na NASA. A pessoa mais jovem a entrar para o treinamento no curso espacial. Em poucos dias seria a primeira pessoa a pisar em marte e o primeiro ser humano a viver no planeta vermelho. Era oficialmente a última festa em que estariam juntos.

Todos beberam, comeram e se abraçaram. Contaram histórias estupidas da adolescência, os dias nos dormitórios da uni. Foram nostálgicos por uma vida inteira, por mais uma noite.

 Depois da meia-noite, as crianças dormiam devidamente acomodadas nos próprios quartos e camas. Não viram o tempo passar. Billy se despediu dos amigos, que continuaram mergulhados no vinho e na conversa. Foi Steve quem o acompanhou até o carro.

“Guardei para você”, o moreno disse, entregando a pequena caixa de veludo para Billy. Ele a abriu um pouco surpreso pelo conteúdo. Tinha dado a medalhinha para Steve antes de deixarem Hawkins, partindo para deus sabe-se lá o que. Era o que pensavam na época...Que estavam prontos para tudo.

“Obrigado”, Billy sussurrou, tocando o pingente. Era um objeto carregado de lembranças. A diferença entre boas e ruins eram mínimas, mas existiam. As boas tinham um penso maior, mesmo sendo as de menor número.

Steve observava o rosto de Billy abertamente, não tinha porque disfarçar. Todos, incluindo Mary sabiam daquela velha história. Era mais parecido com respeito, que qualquer outra coisa. Não era o mesmo olhar dirigido a sua esposa, amigos ou família. Esse tipo de olhar era de um amor vivo e quente, crescendo dia após dia. Os sentimentos que eles tinham, perceptível na troca de olhares, indicava um amor a muito tempo adormecido, impossível de despertar. Estava sobre camadas e camadas de gelo, preso para sempre. De alguma forma havia paz nisso, um conforto em meio a agitação eminente. Um lugar para se por os olhos, mas nunca o coração. Nunca o agora, nem o depois.

 Ficaram em silêncio por algum tempo, então Steve o abraçou, sem cerimônia. Ele achava justo se despedir também. Billy retribuiu o aperto, fazia um longo tempo desde a última vez.

“São só três anos...”, ele murmurou, num espaço confortável do abraço.

 “Eu sei...”, Steve disse, desfazendo o abraço “Mas você não está indo para outro estado, é tipo... Marte!”, ele acenou como as mãos. Era algo grande afinal, talvez no fundo Billy só estivesse tentando diminuir em si mesmo, o impacto de estar indo para outro planeta.

Billy procurou em seu rosto algum sinal de desconforto, mas não havia nada. Ele só parecia um pouco...triste? Ainda assim radiante, ou era o brilho da noite no rosto do moreno. Hargrove se perdeu por alguns minutos encarando o perfil do home a sua frente. Quanto tempo havia se passado afinal.

“Você consegue imaginar?” Steve falou, encarando-o brevemente. Olhos brilhantes, extasiado de admiração. A tristeza ocultada pelo largo sorriso, que Billy olhou sem se importar, não naquela noite. Não enquanto explicava para sua mente, o tipo de coisa que gostaria de manter consigo em Marte “...o universo inteiro diante dos seus olhos”

Ele não podia. Billy não fazia ideia de como seria. Quando chegaram em Marte ele, alguns equipamentos e Magnus, a robô que seria sua companhia naqueles longos e inimagináveis 3 anos, Billy ainda não podia imaginar. Ele ainda não podia, mesmo contudo que estava ali diante de seus olhos.

O sistema de comunicação permitia que Billy conversasse, via chamada de vídeo com seus amigos e familiares três vezes por ano, seguindo o calendário romano e o tempo espaço com relação a vida na terra.

No segundo ano Billy notou a diferença. Anne e Amélia estavam crescidas “nono ano!”, ele lembra da reação exasperada.

 O tempo não parecia girar para ele, mas quando ele notou alguns fios de cabelo Branco em Steve foi obrigado a se lembrar das peculiaridades de sua atual situação. Ele estava com 35 anos agora, Steve com 38. Ele se deu conta da mudança no traço de todos, e perdeu algum tempo olhando para o próprio rosto naquela noite. Era como ter feito uma pausa do mundo.

4 de julho daquele ano, Billy recebeu a segunda ligação. A tela se acendeu um pouco mais clara de costume, e mais vazia também. Não estavam todos lá como de costume, apenas Steve. Billy soube imediatamente que estava errado.

Ele não reconheceu o loca de imediato, houve alguns murmúrios ao fundo e o que pareceu ser o som de passos e uma porta se fechando. Aparentemente seria uma conversa para dois.

“Eu não vou demorar, todos querem falar com você”, Steve falou, em meio a um sorriso tranquilo “Eu...eu estou doente. Achei que deveria contar para você, não na frente de todos. De qualquer forma eles já sabem”

Então Billy notou com mais clareza as olheiras profundas em Steve, como seu cabelo parecia ralo e sem brilho, e suas roupas largas demais para seu corpo. Ele estremeceu. Lembrou do dia em frente a casa do homem, lembrou da medalhinha que usava ali. 

 “Você já sabia...” ele sussurrou, depois de algum tempo. Os olhos correndo de um lado para o outro da tela, procurando mais, ciente de todos os sinais que ele ignorou. As mudanças em Steve eram nitidamente assombrosas “aquele dia, quando me entregou a medalhinha, você sabia?”

“Noventa e nove por cento? Sim”, Steve suspirou. Mesmo que estivesse sendo cauteloso com os detalhes, tudo doeu. A distância doeu, e era cruel agora. Ele olhou para Billy, que se afastou da tela por um momento, e esperou calmamente. 

 “Você vai ficar bem?”, as palavras de Billy soavam mais como um pedido, do que um pergunta. Um pedido do fundo daquele coração. Como se implorasse para tudo estar e ser exatamente como era quando ele deixou a terra 2 anos atrás.

Steve sorriu para ele, os olhos igualmente húmidos, como se tentasse conforta-lo por não saber. Como ele poderia? Havia começado um novo tratamento recentemente, não estava alimentando as próprias esperanças sobre algo que fugia de seu controle. Não podia fazer isso com Billy.

Houve o som de porta novamente, murmúrios de uma voz conhecida. Mas ainda parecia distante para Billy, mais distante do que ele se encontrava da terra naquele momento. Sua mente ainda turva pela notícia.

“Max quer falar com você...”

Foi tudo. Eles não voltaram ao assunto novamente, as ligações agora eram sempre feitas daquela sala clara demais. Billy deduziu que fosse um quarto de hospital, ou algo assim. Estavam todos sempre lá para conversar com ele. Nancy e Jonathan levavam os bebês as vezes. As “crianças” falando sobre a UNI, a cidade, viagens e trabalho. Mary parecia cansada ao lado de Steve, e Billy fingia não notar que as vezes ele dormia logo após o coro de “Oii Billy”, no início das chamadas. Mas ninguém parecia extremamente triste, todos pareciam bem. Calmos e cautelosos o bastante.

Então Billy seguiu por aquele estranho ano de pesquisas, descobertas e anotações. Ele parecia estar no modo automático. Algo tinha mudado na atmosfera de marte desde a notícia, mas ele estava lidando bem com aquilo. Foi assim até o último semestre do 3° ano no planeta vermelho. Ele estava pronto para voltar, estaria em casa em janeiro do ano seguinte, mas a ligação na véspera do natal deslocou outra camada, desta vez no universo.

Foi Nancy quem o recebeu, ela parecia uma bagunça. Olhos vermelhos e inchados.

 “Oi Billy, só um minuto”, ela disse ajustando a tela “Ele esperou a noite toda para falar com você”, ela disse, sorrindo gentilmente para o loiro. Saindo logo em seguida. Agora eram só eles dois, e Billy notou coisas novas no quarto. Coisas e sons que não estavam ali na última chamada.

 “Você parece assustado”, Steve falou, uma suavidade que atingiu dolorosamente o peito de Billy. Ele respirou fundo. Não estava pronto para aquilo, ele estava assusto. Mesmo nos dias que correram depois da notícia, ele nunca imaginou aquele momento.

“Estou voltando para casa”, ele queria dizer. Como se aquilo pudesse inverter o que acontecia ali. Como se aquelas palavras fossem a solução para tudo. Fossem a cura que eles precisavam.

“Como estão todos?”, ele murmurou, desconhecendo a própria voz embargada de choro.

 “Eles vão ficar bem”, Steve respondeu e Billy também não reconhecia aquela voz. Ele se deu conta de que não notara, porque eram tantas pessoas falando ao mesmo tempo. “Oi Billy”, ele teria percebido o quão cada vez mais frágil Steve parecia chamada, após, chamada? Ele não sabia se podia sentir o próprio corpo naquele momento. Tudo ardia dolorosamente. Billy ofegou, sem perceber que prendeu a respiração por alguns minutos.

Então era assim que tudo terminava? Por uma tela? Billy abaixou a cabeça, olhando para as próprias mãos, até que sua vista ficou completamente embaçada. Ele teria se esgueirado para o dormitório de Steve na UNI e teria se apertado mais a ele durante o sono. Provavelmente teria o beijado mais vezes também. Arriscaria segurar a mão dele em público, ou teria levado Steve para o lago, onde poderiam fazer isso. Teria o abraçado mais vezes sem motivo algum, porque mesmo tendo feito todas essas coisas, não parecia o suficiente naquele momento. 

Quão injusto ele poderia fazer tudo aquilo parecer? Não sabia o que dizer, mesmo ciente da possibilidade, aquele momento nunca passou pela cabeça de Billy, mas agora doía em tudo o que eles eram. Steve nem mesmo se lembrava de tudo o que pretendia dizer para ele. Talvez só quisesse vê-lo uma última vez, ou talvez os soluços do menor tenham atordoado sua mente.

“Sinto muito”, ele disse, sem ter a atenção de Billy. Que cenário bizarro, mas ele meio que sabia. Só não teve coragem de dizer para Billy. Queria poder espera-lo por 3 anos, esperar que ele retornasse de marte e pudessem se despedir adequadamente. Infelizmente seu corpo não suportaria tantos dias.

O mais novo respirou fundo, tentando controlar as lágrimas, mas já sentia o tremor causado pelo choro. Ele podia sentir o tremor, mesmo naquele nível de gravidade.

“Hey Billy, me deixe ver os seus olhos”, o mais velho pediu num fio de voz. Parecia ainda mais frágil, indo direto para o coração do loiro. Ele acha que já esteve nisso antes. Talvez nada precisasse ser dito afinal.

Billy seca as lágrimas como pode. O jeito estranho como elas caem de seus olhos e pairavam no ar, como se o tempo estivesse encarando-o de volta, tornava tudo pior.

O som do monitor era assustadoramente alto sem a conversa, a respiração áspera de Steve também. Ele o observava tão calmo, num momento que parecia durar uma eternidade.

“Obrigado”, ele sussurrou. Antes de Billy se dar conta, tudo estava em silêncio novamente.

O silêncio era parte dele na terra também. De alguma forma, o silêncio era o universo se redimindo, por uma infância e adolescência conturbada. Ele aceita a proposta de seus superiores por mais 3 anos. Está tudo bem afinal, os exames indicam que sim. Mais 3 anos então, porque Billy não está pronto para encarar um planeta sem Steve.

Lá em cima ele pode manter aquela realidade a milhas e milhas de distância, mesmo que o rosto de Harrington não esteja presente nas chamadas. Tão longe, jogado no universo, ele pode respirar um peso por vez, até que o tempo passe. Até que ele tenha cumprido sua tarefa e a terra em marte floresça. Então a gravidade não será nada, e os pesos serão deixados de lado. Tanto quanto o ar não terá importância, pois tudo será silêncio outra vez. 

Se Steve era um oceano inteiro, Billy sabe que se manteve ao pé da maré, sempre sentindo suas águas. Sempre indo e vindo.

 


Notas Finais




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