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História O Colecionador de Sonhos - Capítulo 2


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Capítulo 2 - Life: the game


Fanfic / Fanfiction O Colecionador de Sonhos - Capítulo 2 - Life: the game

Não sei você, mas sempre amei muito os animais, e com certeza tenho um bom motivo para isso. Aliás, tinha um pequeno papagaio, um filhote, um novo ser no mundo. O coitado ainda estava aprendendo a falar, mas já me impressionava muito só por existir. Ele era o tipo de animal que me fazia pensar “Seres humanos para que, se os bichos tomam conta do planeta melhor que nós?” Até porque nós destruímos a Terra e esperamos achar em outro mundo o que não valorizamos neste.

O quão burro isso soa? Eu não sei.

Ele (o papagaio) se despediu de mim antes que eu fosse embora — e antes de colocar um biscoito para ele — e fiquei feliz por isso. Pode soar meio solitário, mas Bobo (nome do pássaro) era meu melhor amigo. O melhor dos melhores. Era o único com quem eu podia falar abertamente, sem parar, sem que ele me julgasse como louca ou fizesse piadas, e isso era animador; ter alguém para conversar sempre que necessário é revigorante, e ele sempre pareceu escutar tudo atentamente e me respondia sem nem precisar citar uma palavra. Bom, como eu já perguntei, para que seres humanos quando existem os bichos?

Após trancar a porta do meu apartamento, desci toda a escadaria, indo direto para a garagem do hotel para pegar meu carro e ir direto ao hospital onde trabalhava. Exatamente o emprego que me tirou a razão da paciência à uns anos antes, por não ser o que eu desejava, mas superei essa parte. Ainda iria conseguir.

Bom, vou aproveitar o intervalo entre o caminho do prédio onde morava ao hospital para te ensinar um pouco sobre a história.

O primeiro bebê que nasceu destinado a mudar a humanidade, disseram eles, para sempre, chamava-se Calvin (não o Klein; o sobrenome dele era Willians), e ele era um alfa lúpus (obviamente). Imagino como foi difícil conter as reclamações e alterações de humor dele. Com certeza acharam que ele estava louco, mas, ao invés de agirem como eu agiria — que seria esconder ele dentro de um porão indestrutível e nunca mais deixá-lo ver a luz do dia (ah, qual é? Ele matava muita gente!) —, simplesmente tentaram estudar a sua mente e descobrir o tipo de “doença” que o coitado tinha.

Bom, ele fugiu e se escondeu na floresta. Bem típico de alfa lúpus até agora.

Um dia, quando estava passando pela adolescência, ele teve seu primeiro cio. Foi uma catástrofe, porque perto de onde ele se escondia havia uma pequena cidade, e ele estava descontrolado, com feromônio correndo louco pelo sangue. Não tinha como não dar merda.

Odeio saber que as classes alfas, betas e ômegas surgiram a partir de estupros. Odeio pensar que faço parte da linhagem de pessoas que nasceram depois do sofrimento de várias mulheres — inclusive, fiquei muito chocada quando descobri que, no tempo dos nossos antepassados, apenas as fêmeas poderiam engravidar. Isso foi como pegar um prato de comida de restaurante gourmet e jogar no lixo, por mais que ela estivesse perfeita. Antes disso, acreditava fielmente que sempre fomos assim.

Mas, claro, assim como todas as burradas universais, essa também teve um lado bom (por mais que fosse doloroso admitir). O primeiro foi que a separação social entre religião, cor, nacionalidade, deficiência ou orientação sexual acabou assim que o mundo foi tomado por alfas, ômegas e betas, este último sendo o que “liderava” a “nova raça”.

Aí você pergunta: como assim?

Bom, por saberem que os betas eram os mais humanos e que eles faziam escolhas que favorecessem a todas as classes, somente um beta poderia mandar em qualquer coisa; somente eles chegavam ao cargo de patrão. (A desigualdade simplesmente pulou para sua raça. Betas eram os superiores, depois vinham os alfas e, logo em seguida, os ômegas.) Claramente houve uma discordância da parte dos alfas, mas nem o mais orgulhoso e teimoso deles podia dizer que a política dos betas era falha. Eles mandavam e o mundo progredia. 

Não sei por que não é mais assim. Lembro de ter lido que eram tempos divinos, onde o planeta Terra somente melhorou, então por que não voltamos com a “ditadura” beta?

Eu respondo: agora, nem os alfas, nem os ômegas os levam tão a sério. 

O tempo entre a ida ao hospital acabou.

Assim que cheguei no meu local de trabalho, fui bem recebida pelo sorriso brilhante de Jung Hoseok, que, emanando seu delicioso cheiro de grama molhada pela chuva, me cumprimentou e comentou algo sobre eu parecer estar péssima.

— Nunca se é um bom dia para descer um lance de escadas — respondi, fazendo o sorriso do ômega se transformar em uma linha reta.

— Nunca se é um bom dia para reclamar de ter feito exercícios — rebateu, olhando em meus olhos, tentando ser sério. — Até porque ninguém quer ser sedentário, não é mesmo?

Apenas dei de ombros, não escondendo o quanto aquelas palavras surtiram zero efeitos em mim. O que não é culpa minha, pois teimosia é algo comum em alfas, certo?

(Havia acabado de quebrar minha regra número seis ao pensar assim; não generalizar as classes.)

É sempre assim antes de contrairmos uma doença, não é? Nós negamos, negamos, até que ela vem e nos faz gastar uma fortuna por falta de cuidados com o próprio corpo. Isso é frustrante, mas necessário, ou iríamos viver relaxados durante a vida toda.

Um exemplo se dá ao pensar em um dos meus primos, que viveu comendo besteiras muito processadas e acabou contraindo câncer. Não o conhecia muito bem, mas sabia que ele estava sendo mais cauteloso, comendo coisas saudáveis na Noruega. Não sei por que ele quis ser diferente e ir morar lá, mas achei legal do mesmo jeito. Sinto falta dele, ele era um bom beta, mas isso não significa que eu gastaria mais do que posso somente para visitá-lo.

Eu disse que a minha família era do tipo que parecia se odiar ao ponto de ir morar todos em países diferentes? Como “não”? Pois estou dizendo agora.

Minha mãe, que é ômega, morava nos Estados Unidos junto com meu pai, que, obviamente, é um alfa. Os meus tios moravam na Alemanha — um ou outro ficava por Portugal mesmo, mas a maioria realmente preferia a Alemanha. Meus primos maiores de idade se mudaram para a Dinamarca e meus avós criaram uma vida muito linda na Rússia. O motivo de separar a família? Eu não sei ainda, mas posso garantir que todos se amam — e todos os não agregados são coreanos.

Claro que sentia saudade dos meus pais e esperava poder vê-los, mas isso não era possível no momento. Sim, eu poderia simplesmente largar tudo e me mudar para onde eles estavam, mas o que deixaria na Coreia não importava? Claro que sim. Tudo importava, ainda mais a minha amizade com Hoseok. E, aliás, um outro motivo para não ter ido se deu ao fato de que queria ver a marca em minha mãe, já que ela ainda não a tinha. Sempre foi estranho esperar mamãe ir me buscar na frente da escolinha e ver os outros ômegas todos marcados (bem, quase todos).

— Uma alfa e um ômega que se dão bem? Sinto cheiro de casal — foi o que minha querida mamãe me disse quando falei sobre o Jung consigo. Fiquei feliz por saber que ela gostou dele, mas ativei meu modo “teimosa” ao afirmar constantemente que “eu e Hoseok” e “namorando” só estariam na mesma frase quando o “nunca vamos estar” está no meio.

Pff, mães! Sempre pensando em casais no sentido romântico.

Quebrei minha regra número seis, de novo. Sinceramente, essa é a regra mais fácil de se quebrar.

— Não tem aquele ômega que chegou semana passada para fazer a revisão de prevenção? Aquele que eu chamei de modelo de capa de revista e que cheirava a chá de camomila — ele disse, e eu afirmei com a cabeça. Minha boca salivava só de pensar em chá ou café, e aquele ômega realmente fora um atentado contra mim. Um verdadeiro teste de resistência. Deu vontade de morder ele só para saber se o gosto era o mesmo que o cheiro, mas não me julgue! Era um cheiro agradável. — Você tem uma notícia não muito boa para dar a ele. Boa sorte, enfermeira — desejou, me entregando os papéis onde constavam os exames do garoto “capa de revista/chá de camomila”. Suspirei pesadamente ao ler, pela segunda vez, o resultado do diagnóstico, e fiquei triste ao pensar na possível cara de decepção ou surpresa — ou os dois — que ele apresentaria.

Contar ao garoto uma coisa assim não seria fácil — e não foi —, até porque não era algo simples. Ele, como o esperado, ficou arrasado com a notícia da sua doença e teria que passar por mais uma série de exames para saber onde ela havia chegado — qual o seu nível.

E é aqui que se encaixa a pergunta “O que é ter uma boa vida?”

Para muitos, essa pergunta se responde com dinheiro, fama, um ômega “gostoso” (ou alfa, tanto faz) na sua cama se entregando para você — do jeito que o ser horrível que você é imagina que um gordo se entrega a um pedaço de bolo entupido de recheio (o que não é verdade) —, carros caros, mansão de dar inveja e muitas coisas com um valor material absurdo (como uma Mouawad’s 1001 Nights Diamond Purse que, caso você não saiba, foi a bolsa mais cara do mundo), mas eu tive certeza que uma boa vida para Kim Taehyung significaria não ter seus dias contados. Claro, nenhuma pessoa com cérebro vai querer ter qualquer tipo de doença que pode levar sua vida.

Sim, eu sei que ele não seria o primeiro, nem o último, a passar por isso, mas ainda assim seria desanimador fazer uma consulta de rotina e descobrir, tipo, que você tem um tumor crescendo dentro de você.

O médico de um alguém que realmente se importa com o paciente nunca, nunquinha mesmo, iria querer que ele dissesse “Cara, eu vou morrer daqui a tantos dias”. E esse Kim Taehyung já era meio antigo naquele hospital. Ia rotineiramente quando era pequeno, mas parou de frequentar por um tempo, e, agora, isso.

Eu não tinha quarenta anos; é só que havia ouvido muito falar dele por ali.

Segundo os boatos, ele era simplesmente um filhote normal, educadíssimo, carinhoso e criativo. Sempre inventava uma brincadeira maluca para quando sua mãe ia para as suas consultas e ele não queria ir junto. Ficava na recepção, imaginando bolhas de sabão invadindo o hospital e Rukia Kuchiki aparecendo para passar o poder dela para ele. Depois, ele ficava murmurando em alto tom que iria se transformar em Sailor Moon para destruir os hollows. Pode-se dizer que ele era um fã de carteirinha de anime.

Quando ele virou um adolescente, os boatos mudaram. De “filhote-criativo-otaku” ele passou a ser o “escritor mirim”. Não havia entendido direito o que isso queria dizer até vê-lo pessoalmente uma semana antes de receber a tarefa que Hoseok me deu. Ele estava feliz, sorrindo mais que o próprio Jung, dizendo para todos que seu primeiro livro seria publicado em pouco tempo. Achei-o um pouco estranho quando ele simplesmente agarrou o meu jaleco e gritou a plenos pulmões um “Me belisca, agora!” e soltou um berro ainda mais alto — que fez meus tímpanos ficarem irritados —, mas sorri por ver a empolgação estampada em sua face (e, minha santíssima trindade, que face!).

Devo admitir: Kim Taehyung, além de animado e estranho (no bom sentido), era extraordinariamente lindo. Tipo, o ômega mais fisicamente atraente que eu vi na vida. Agora, se levar em conta o cheiro de chá de camomila dele, pode-se dizer que ele seria a minha personificação de ômega perfeito. Isso, é claro, se não estivesse doente.

Assim que a “tia da limpeza” — ela sim tem mais de quarenta anos e viu o Kim crescer — percebeu minha irritação repentina, foi até mim e perguntou se estava me sentindo bem. Suspirei mais uma vez, demoradamente, a fim de recobrar a paciência.

— Não se preocupe; estou melhor agora — afirmei, causando um alívio evidente na beta.

Nunca soube — e nunca quis descobrir — qual era o problema dos alfas com betas. Eles eram tão simpáticos que dava vontade de nascer de novo, mas como um deles. Sem falar que eles não passavam pelo cio, o que, por si só, já é um livramento tamanho mega colossal.

Sério, se você quer um bom conselho, pergunte a um beta. A maioria, pelo menos que eu conhecia, acabou virando psicólogo por causa disso.

— Querida, o que realmente aconteceu? Está disposta a me dizer? — perguntou, com cautela, esticando seu braço para afagar o meu.

— É só que eu não quero mesmo dar a notícia à ele, noona! — ditei em alto tom, fazendo a mais velha se assustar. — Me desculpe. — Machucar meu ego por causa dela sempre foi uma boa opção, acredite. Eu não costumo me desculpar por tão pouco.

Essa mulher era fantástica.

— Não se preocupe comigo. Você já é boa demais. — Viu o porquê de ser bom machucar meu ego por ela?

Se não entendeu, eu explico: ela sempre me dizia algo que o fazia inflar ainda mais.

— Olha, se preferir, eu posso dizer à ele. Que tal?

— Nem em um milhão de anos! — exclamei, tentando conter um rosnado. Além de estar me livrando de algo que tinha que ser de meu costume e entregá-lo à uma pessoa que nem deveria fazer esse tipo de coisa, eu iria manchar a minha imagem de corajosa por causa de um “não quero”, e fugir da responsabilidade quebra a minha regra número um.

Seria doloroso para mim deixar qualquer prova da minha fidelidade ao meu trabalho passar, e falar com Kim Taehyung seria, para mim, uma outra prova de que merecia o cargo que tanto queria alcançar.

“Se os alfas são, supostamente, a classe superior, por que não exige o cargo?”, você me pergunta.

Não posso. Alfas só são superiores no caso em que realmente envolve nossos lobos (ex.: cios, marcas, gravidez). O lobinho do alfa não precisa aparecer pra decidir a forma de como pagar as contas do fim do mês, e ele não surge para situações do tipo “Estou insatisfeito com o meu cargo. Quero outro emprego” porque lobos não precisam trabalhar, sacou?

Eu sei, seria mais fácil se Down me ajudasse, mas esse lobo inútil só serve para me dar trabalho. Nunca aparece quando eu quero! Aliás, Down é o nome dele porque significa “baixo” em inglês, então não há nada mais justo que fazer uma pequena homenagem, não?

Um fato: se Down não dependesse de mim para viver, com certeza me matava, até porque eu exagerei muito à respeito dele. Ele não é tão inútil quanto fiz parecer.

— Mas qual seria o problema? — Olhei para a mais velha como se ela estivesse pecando contra o Espírito Santo dentro de uma igreja.

— O meu orgulho fica onde? — Então, ela riu. — É isso que eu sou pra você? Uma piada? — dramatizei, arregalando os olhos e fingindo uma raiva em que ela acreditou.

— Ei, Haneul, não fique assim. Não foi isso que eu quis que você interpretasse — se explicou, e, então, foi a minha vez de rir, mesmo que pouco.

— Você é fofa!

— E velha. — Não me deu tempo para perguntar algo como “O que isso tem a ver?” Apenas correu para longe, pois o poderoso chefão chamava-a.

Não poder mais conversar com ela me fez lembrar de uma coisa: a notícia. Teria que pensar minuciosamente em cada palavra que fosse dizer, para não fazer o ômega chorar, mas, me conhecendo como conhecia, eu (provavelmente) não iria enrolar tanto. Minha principal característica sempre foi a sinceridade exagerada, e, em alguns casos, até perdi amizades por causa dela — claro, no colegial. Nunca entendi direito o que as pessoas tinham contra a verdade, mas acho que isso era um defeito em mim porque eu não usava filtro; só falava e deixava que as palavras agissem por conta própria. Por isso era mais fácil conversar com Bobo, o papagaio. Ele não fazia besteira e eu não precisava dizer verdades duras de se ouvir à ele.

De vez em quando, em momentos de muita emoção, Down me aparecia e conversava comigo e, como um bom lobo, sempre tentava me colocar pra cima com palavras animadoras, ou para baixo, com palavras realistas. Juro que se não fosse pelo meu cheiro, Hoseok acharia que sou beta — foi o que ele me disse.

— Você é boazinha demais pra uma alfa. Qual o seu problema? — ele me perguntou, como quem não queria nada, rindo da minha cara de bunda. — Quer dizer, você mais parece uma beta do que alfa. Se não cheira-se fortemente à essência de perfume de flores, diria que você é beta. Sério!

Acredita que foi quando ele disse isso que eu soube que cheirava à essência de perfume de flores? Todos me diziam que eu tinha um cheiro muito gostoso de sentir; forte na medida certa, mas nunca especializaram o odor. Poxa, nem minha mãe me disse e eu me sentia deveras traída com isso.

Mas, voltando ao assunto, “O que seria menos traumático à se dizer para Kim Taehyung?” Não poderia simplesmente chegar nele e soltar um “Cara, segura o rabo. Você está doente” de jeito nenhum. Eu poderia ser qualquer coisa, menos insensível.


Notas Finais


:>


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