História O conto da queda de um anjo - Capítulo 1


Escrita por: ~

Postado
Categorias Undertale
Personagens Papyrus, Personagens Originais, Sans, W. D. Gaster
Tags Fell!sans, Personagem Original, Swapsans, Underfell, Underswap, Undertale, Universo Alternativo, Ut!sans
Visualizações 23
Palavras 4.927
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Drama (Tragédia), Famí­lia, Fantasia, Fluffy, Lemon, Romance e Novela, Sobrenatural, Universo Alternativo, Violência, Yaoi
Avisos: Adultério, Homossexualidade, Incesto, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Nudez, Tortura, Violência
Aviso legal
Alguns dos personagens encontrados nesta história e/ou universo não me pertencem, mas são de propriedade intelectual de seus respectivos autores. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos criada de fã e para fã sem comprometer a obra original.

Capítulo 1 - Capitulo 1 - Quando tudo começou


Red não era do tipo de pessoa — ou melhor, monstro — que se dava bem com as coisas. Claro, ele era bom em física, crises existenciais, tendências autodestrutivas, procrastinação, piadas suicidas e, as vezes, conseguia demonstrar afeto com outras pessoas, mas apenas de vez em quando e quando lhe era conveniente. Ah, e ser um bom irmão mais velho também. De resto, poderia dizer que ele era um completo inútil e péssimo exemplo a ser seguido. E esse fato era ressaltado ainda mais na presença de crianças, não que ele não estivesse acostumado com crianças, já que ele tinha um irmãozinho, mas com outras crianças em si, raramente conseguia se dar bem com elas.

Uma prova disso é estar jogado no sofá, desacordado, cheirando a mostarda, no início da noite enquanto tinha três esqueletinhos com fome em casa, um deles sendo seu irmão inclusive, outro seu primo e mais um — apelidada carinhosamente de peste laranja — que era o filho do seu melhor amigo, ou único amigo no caso. Ainda era surpreendente o fato de Sans e Blue confiarem nele para cuidar de seus irmãos caçulas.

Felizmente o mais responsável do trio de crianças não hesitou em tomar uma atitude: esporrar a cara de Red com um jornal até ele acordar e quase se engasgar com a própria saliva enquanto roncava. Era desnecessário dizer que ele encarou o irmão de Blue com uma carranca que era uma mistura de raiva e sono. Red odiava aquele pivete de moletom alaranjado.

Mesmo com a expressão furiosa e um tanto assustadora de Red que espantava seu irmão caçula e seu primo, Carrot continuava o confrontando com um olhar desafiador e sem medo. Por fim, Red se levantou lentamente, espreguiçando-se igual um gato gordo, e então esfregou os olhos, finalmente encarando a criança à altura.

— O que você quer? — Sua voz saiu de forma grossa, arrastada e lenta, denunciando que ainda estava com sono mesmo depois de ter dormindo por mais de sete horas seguidas.

— Estamos com fome..

— Vocês já não comeram doce o suficiente?

— Não queremos doce, queremos comida, agora. — Carrot demonstrava uma autoridade e seriedade incomum para uma criança da sua idade. Não que ele fosse uma criança mandona e exigente, mas ele não gostava de Red e o sentimento era recíproco, o que o fazia agir daquela forma com ele. — Meu irmão confiou em você para tomar conta da gente, faça o seu trabalho.

— Desculpe-me, “vossa alteza”, mas pelo o que eu saiba você já é grandinho o suficiente para cozinhar a própria comida. Boa noite. — E então Red voltou a deitar no sofá, dando as costas para Carrot. Não satisfeito, o pequeno esqueleto usou magia azul para puxar as almofadas do sofá, fazendo Red cair igual a um saco de batatas na estrutura de madeira. Era aquela mesma ladainha que o tirava do sério toda vez que tinha que tomar conta do irmão de Blue. — Tá bem, tá bem. Você ganhou! Vou ver se tem algo para vocês comerem.

E, com toda a lerdeza do mundo, Red se levantou para ir até a cozinha, não deixando de soltar maldições e xingamentos baixos pelo caminho. Ele não gostava de cozinhar, na verdade eram raras as coisas realmente úteis que ele gostava. Procurou pelos armários, pegando a primeira coisa que viu; macarrão instantâneo. Heh, isso deve bastar para tirar a fome daqueles três.

— O que é isso? — Perguntou Papyrus, o irmão mais novo de Sans, que se sentava à mesa, ou ao menos tentava, já que precisava ficar na ponta dos pés para subir na cadeira. Carrot, além de ser o mais velho também era o mais alto dos três, acabou ajudando Papyrus a subir na cadeira. Não demorando para também pegar outra e se sentar ao seu lado.

Red respondeu — se é que aquilo era realmente uma resposta — com um “Heh” baixo e característico de quando não queria conversar. Colocou a panela no fogo e a água para ferver, esperando enquanto ficava de costas para os três esqueletos.

— Não me diga que é miojo de novo. — Dessa vez quem falou foi Edge, seu irmão, esse um pouco maior que Papyrus e não precisando de muita ajuda para se sentar na cadeira, mas ainda assim se esticava para poder ver o que tinha na panela em cima do fogão.

Um “Uhum” positivo foi ouvido de Red. Isso pareceu chatear um pouco à Edge e Papyrus, já que essa parecia ser a única coisa que comiam enquanto os três estavam sob os cuidados de Red naquela semana. Carrot, que estava no meio dos dois, não aparentava surpresa. Apoiou a cabeça na mão e o cotovelo na mesa, encarando as costas de Red com um desgosto visível para quem o encarasse.

— Você não consegue ser menos inútil e fazer algo que realmente seja considerado comida?

— É a única coisa que tem. Não deveria reclamar.

— Então por que a geladeira e os armários estão com alimentos e ingredientes em abundância? — A magia azul de Carrot (claro, por que Red ainda se surpreendia?) Foi usada para abrir todas as gavetas, armários e até mesmo a porta da geladeira. Logo em seguida elas foram fechadas com violência, dessa vez por parte de Red que, por coincidência, também tinha a habilidade da magia azul. Depois de colocar o macarrão instantâneo na água fervendo ele se virou, encarando Carrot com a mesma hostilidade.

Aquele pivete estava começando a irrita-lo profundamente.

— Por que você tem que ser tão irritante e exigente? Parece até um velho rabugento.

Carrot não respondeu. Na verdade, até respondeu, mas mostrar a sua língua alaranjada e um gesto obsceno discreto não eram realmente considerados respostas. Por deus, como ele era irritante e mal-educado. Como que alguém tão bonzinho como o Blue poderia ter um irmão igual aquele? Bem, pelo menos depois da janta Red poderia colocar eles para dormir até Sans e Blue chegarem. É, era um bom plano. No entanto, era igual a todo plano que era bom e fácil na teoria, na pratica as coisas eram o completo oposto.

E, naquele momento, seu maior problema era achar uma forma de distração para os três sem precisar participar diretamente. TV? Foi quebrada quando caiu no chão por culpa de Carrot — sempre era culpa dele de alguma forma, pois aquele pirralho conseguia o tirar do sério de uma maneira surpreendente e rápida — quando Red estava tentando pega-lo para devolver suas revistas pornográficas — e como diabos ele havia conseguido acha-las? Red se lembrava de ter as escondido em um lugar que ninguém conseguiria encontrar — e em um desvio acabou derrubando a TV quando tropeçou na tomada. Livros infantis? Heh, ele não tinha paciência em ler para uma criança sem ser seu irmão.

Além dessas ele ainda tinha a opção de dormir. Aliás, era exatamente isso que estava fazendo enquanto estava sentado no sofá pensando no que fazer: dormir. Red tinha um problema de desgaste de energia rápido e esse problema era chamado de preguiça, o que dificultava a ele executar tarefas se tivesse em algum lugar confortável, ou melhor, qualquer lugar com uma superfície plana para ele deitar era perfeito para poder tirar um cochilo.

E então uma questão importante vinha na sua mente: por que raios Sans e Blue deixaram a responsabilidade de cuidar de Carrot e Papyrus com ele?

Quando se deu por si já estava cochilando, ali mesmo, sentado no sofá e com as orbitas fechadas. Apenas acordou pois caiu para a frente e a sensação da queda acabou o assustando. Olhou em volta, procurando pelas crianças de e então percebeu que estava sozinho no andar debaixo. Por quanto tempo havia cochilado? Aliás, como Red conseguia continuar vivendo sozinho e cuidar do pequeno Edge sem que assistentes sociais batessem na sua porta o tempo todo? Essas eram questões que não sabia responder, ou até sabia, mas não tinha muita vontade para tal.

Red se teleportou até o segundo andar, preguiçoso demais para usar as escadas, e acabou pegando a porta do seu quarto aberta. Ótimo, se Carrot continuasse mexendo nas suas coisas junto com Papyrus não ia demorar para Sans e Blue aparecerem pela porta da frente e encherem a sua cara de porrada, principalmente Blue, o irmão mais velho que era super protetor.

— E com o panimento...

— O correto é ‘banimento', Papyrus. — Corrigiu-o Carrot com uma pequena risada no final. Papyrus acabou corando de leve pelo erro cometido.

— Oh, certo... e com o banimento de Lucifax, a terra que ficou sob suas asas apodreceram, e os vales e plantações ficaram em esca... esca...

— ‘Escassez’...— O corrigiu mais uma vez de forma paciente. — Tudo bem errar, essa é uma palavra difícil mesmo. — Explicava Carrot de forma doce enquanto Papyrus tentava ler um livro grosso que era quase do seu tamanho, um pouco empoeirado, talvez, já que os lados das folhas pareciam mais escuros do que as página em si. Edge estava encostado na estante de livros, Carrot estava deitado no chão e Papyrus estava sentado no meio dos dois, que acompanhavam sua leitura. Pareciam realmente entretidos.

— O que estão fazendo? — Red pronunciou-se, entrando no quarto e se sentando junto aos três no tapete vermelho felpudo. Aparentemente Carrot não gostou de sua aproximação, já que fez cara feia quando Red se sentou, esse fingindo que não notava a mudança de sua expressão.

— Estamos lendo uma história! — Disse Papyrus de forma animada, mostrando uma das ilustrações que viu nas páginas anteriores. — E é sobre esse moço aqui, que foi banido por alguma coisa, acho, e agora acabou de cair dos céus.

Red olhou por um tempo a ilustração, se lembrando vagamente do que o livro se tratava e de quem era aquele esqueleto com asas. Não se recordava exatamente de qual era o capítulo, mas sabia que era algo entre a passagem de tempo da origem do mundo e o “A era dos decaídos”. O livro era sobre uma mitologia pouco conhecida, semelhante ao cristianismo, e contava sobre “o propósito da vida” até a parte em que um suposto “apocalipse” acontecia e tirava todo o pecado da terra depois de matar milhares de monstros e humanos. Mas, sobre aquela parte em especifico, se tratava de um anjo que caiu pelo seu orgulho e sede de poder, passando por cima até de outros anjos para conseguir isso.

. A questão agora era: por que Carrot foi pegar justamente esse livro para ensinar o Papyrus a ler?

— Esse não é um livro para crianças. Por que você tirou ele da estante, Carrot? — O tom acusatório e o olhar sereno de Red fizeram com que Carrot mostrasse indignação, se levantando na hora do chão.

— Calma ai, saco de banha, não fui eu quem pegou esse livro e sim o seu irmão que deu a ideia de ensinar o Papyrus a ler. Não aponte esse dedo gordo e saia acusando os outros logo de cara.

Epa, não fui eu quem escolheu o livro. Apenas dei a ideia, Papyrus foi quem pegou ele por vontade própria.

Antes que aquele diálogo se transformasse em uma discussão — e como Red estava sem paciência para separar brigas — o livro foi tirado do chão e colocado de volta na estante, em seu devido lugar de onde não deveria ter saído.

— Não vamos botar a culpa em alguém, apenas esquecer essa história e que vocês nunca leram o livro na vida.

— Espera! Mas ainda queremos continuar lendo. — Papyrus se levantou com rapidez do chão, quase que em um salto, e então puxou a manga da blusa de Red, igual a um cachorrinho implorando por um osso. — Queremos saber o que acontece depois.

— Olha, Paps, esse não é um livro recomendado para a sua idade. Talvez você possa lê-lo quando ficar mais velho.

— Mas eu não quero ler quando ficar mais velho, quero ler agora. Por favoooor. — Seus olhos se encheram de brilho, ameaçando poder lacrimejar a qualquer momento. Red não soube muito bem como reagir à isso. Olhou de relance para Carrot, igual a alguém pedindo ajuda, e esse apenas deu de ombros, parecendo não querer ajuda-lo realmente.

— Cara, é uma história interessante, mesmo sendo surreal e fictícia demais. Já que não nos deixar ler deveria ao menos ler para a gente. — Sugeriu, colocando as mãos nos bolsos do seu moletom laranja. Papyrus e Edge pareceram aprovar a ideia, e Red só pode concluir que aquele pirralho era um demônio em corpo de criança. — Ou se preferir pode ler a ‘sessão especial' das suas ‘revistas especiais' para eles. — É, aquele garoto era o demônio.

— Por favor, pelo menos explica a história para a gente. — Papyrus continuava com o seu tom pidão, e não teve como Red dizer ‘não’ para ele.

Derrotado, ele se rendeu. Finalmente concordando em ler a bendita história. Papyrus acabou pulando de alegria, e então voltou ao seu lugar. Red voltou a pegar o livro e se sentou no tapete felpudo na frente dos três que se formaram em uma meia roda. Ele foleou algumas páginas para tentar se lembrar do que acontecia exatamente na história. “A origem do mundo” era esse o capítulo. Red pigarreou umas três vezes antes de começar a ler, e então, preparando a voz, deu um último aviso antes de começar com a leitura.

— Algumas palavras são um pouco complicadas para vocês entenderem, então vou apenas resumir tudo. E qualquer coisa mais pesada que vocês ouvirem não comentem com os seus irmãos, entendido? — Papyrus confirmou com a cabeça e Carrot apenas soltou um ‘tanto faz' entediado. Red prosseguiu: — Está bem... então, vamos começar...

 

A origem do mundo; o criacionismo antes da grande guerra.

No começo, não existia nada, era apenas um estranho vazio. Não havia sombra, mas também não havia luz. Não havia bondade e nem maldade. Não havia nada. Era um mundo neutro e cinza, que se transformava e então desmoronava, igual a poeira. Foi assim por muito tempo, até que algo começou a se formar. Uma luz no meio do nada, e com essa luz, a escuridão se formou. Logo havia um mundo de luz em que a escuridão espreitava.

A luz, contudo, não tinha nome, mas tinha consciência, e se sentia sozinha, sozinha por muito tempo. Nem a escuridão a fazia companhia, pois essa desaparecia quando se aproximava. Sua única companhia, era a poeira. Poeira e mais poeira, e, a partir da poeira, a luz criou as primeiras coisas para lhe fazerem companhia. No começo, a luz não possuía forças para criar coisas grandiosas, e então criou as estrelas. Porém, acabou percebendo que elas não se refletiam em sua luz, e então as distribuiu para a escuridão. Em seguida, depois de rechear a escuridão com estrelas, ela criou a lua, feita para mostrar sua beleza prateada. Porém, seu brilho prateado não se refletia no seu ser, e então a luz deu a lua para a escuridão.

Finalmente, depois de tantas falhas, a luz finalmente criou algo que a refletisse; um mundo azul. A água que preenchia toda a sua superfície. Mas, não satisfeita, a luz deu mais cor a superfície de água. Da poeira veio a terra, da terra veio a grama, da grama veio as arvores, Da poeira vieram as rochas, das rochas se formaram os picos, e dos picos se formaram as montanhas. Da poeira, veio a areia, e da areia, da areia veio a lembrança de que a luz estava sozinha.

Da poeira, que era obra prima da terra, que era obra prima das rochas, que era obra prima da areia, veio a primeira criação da luz. O primeiro ser foi criado em um dia, mas ele se desmanchou nas águas profundas. O segundo ser veio em dois dias, mas ele não suportava o calor do deserto. O terceiro foi criado em três dias, mas ele era pequeno e não alcançava o fruto das árvores. O quarto foi criado em quatro dias, mas esse não suportava a altura, nem as montanhas, nem dos céus. Dias se passaram e a luz não desistia de criar o seu ser, até que, na sétima tentativa, ela criou a criatura perfeita. Chamou-o então de Lucifax, sua criação, seu anjo, seu companheiro. E então, juntos, os dois moldaram o mundo a sua forma.

Animais foram criados e espalhados pela terra, cada um em seu território. E em um período de uma década, a terra ficou povoada por criaturas de todos os tipos. Mas algo estava errado, Lucifax sentia algo errado.

A criação era perfeita. Os animais, mesmo criados a partir da terra, também eram perfeitos. Ele era perfeito, o mundo era perfeito. Mas tinha alguma coisa errada, estava só. Aproveitava essa perfeição sozinho. A luz possuía um companheiro, mas o que Lucifax possuía? Estava sozinho na terra.

Decidido, Lucifax abriu suas enormes asas, levantando voou até fora da terra, ultrapassando as estrelas, entrou na escuridão, e então, quando chegou à luz, em um pedido singelo, implorou:

— Grande luz, deusa da criação, por favor, te questiono, por que aproveitas de minha companhia e eu não aproveito da companhia de outros? Es tão solitário na imensidão da terra.

A luz, refletindo em suas palavras, riu docemente, e então disse, de forma bondosa, as seguintes palavras:

— Como podes estar solitário na imensidão da terra? Ela es grande, bonita e repleta de criaturas para lhe fazeres companhia.

— Sim, minha deusa, mas não quero animais feitos de terra, nem a grama sob meus pés, nem a profundeza das águas e nem a imensidão dos céus. Eu quero alguém à minha altura, alguém com a mesma essência de poeira, alguém igual em corpo e alma.

A luz, entendendo a sua angustia, atendeu ao pedido do anjo. Ela, sabendo quanto demoraria para criar um ser perfeito, deu à ele oito dias e sete noites de espera. E assim, Lucifax o fez: voltou para a terra e esperou, do alto de uma montanha, abaixo das estrelas, que seu pedido fosse atendido.

Como o prometido; sete noites e oito dias se passaram até que uma luz forte surgiu do céu. Lucifax, então, desceu das montanhas até seus pés tocarem a grama. Lá, finalmente encontrou o que procurava: um ser com a mesma essência, alado, feito de poeira. Um pouco maior e mais esguio, mas, sim, eram iguais de corpo e alma.

O ser então, tão igual e ao mesmo tempo tão diferente, levantou-se da grama, suas asas eram tão grandes que arrastavam no chão e, temeroso pela sua existência repentina, buscou consolo no mais baixo de aparência tão igual.

— Onde eu estou? Quem eu sou? — Questionava desordenado, temendo cair a cada passo.

O menor, o que foi criado primeiro, a primeira criatura a habitar aquele lugar, estendeu-lhe a mão e, de forma iluminada e esperançosa, deu as graças ao novo companheiro, explicando-lhe:

— Não temas, estás seguro comigo. Sou Lucifax, seu companheiro, e irei te ensinar tudo que precisas saber sobre esse lugar.

— E o que é esse lugar?

— É o nosso lar.

— O que é um lar?

— É onde o lugar onde nos sentimos felizes em estarmos.

— Então, é por isso que sorrires?

Lucifax, percebendo a ingenuidade de seu companheiro, e em como aquele universo era demasiado grande para ele, não tardou em ensina-lo sobre como a vida funcionava. Eles andaram todas as terras, mergulharam até o fundo do mar, voaram até muito além das estrelas. Viram a luz, viram as trevas, viram os tempos secos e viram as gotas d’chuva caírem em suas faces. Conviveram juntos no início da criação até os tempos em que os demais anjos foram criados.

A luz, então, após a criação de seus cinquenta anjos, decidiu criar outra espécie a partir da poeira: os monstros. Alguns, semelhantes aos anjos em partes, outros, completamente diferentes. Mas todos sabiam o seu propósito: povoar a terra, respeitar e proteger tudo que nela era de mais sagrado.

O mundo, por quatro décadas, permaneceu em paz. Monstros respeitavam monstros e anjos, anjos respeitavam os anjos e faziam o seu papel e, por algum tempo, isso era sinônimo de algo bom. Até que, com os restos de poeira que sobraram de cada criação, uma nova criatura foi criada intencionalmente.

A poeira que sobrava não ficava na terra, e sim voltava para a escuridão. Mas, aquela não era mais uma poeira virgem e, com o tempo, ganhava vida própria sem o conhecimento da luz ou de qualquer um dos anjos. Com o tempo, ela foi se espalhando, até chegar na terra, singelo e sutil igual a uma cobra, e aos poucos, os monstros eram infectados com as suas tentações, doenças e ódio sem causa.

Os anjos notaram essa mudança. Não tardando em avisar a luz que, sem saber a origem de todo esse mal, ordenou para que os monstros infectados fossem isolados em uma parte do mundo, e os ainda puros, fossem para perto das montanhas onde poderiam ser vigiados e protegidos pela luz e os anjos.

E ainda assim, temendo que seus soldados fossem afetadas com a doença que se assolava na terra, a luz ordenou para que morassem acima das nuvens. O único lugar em que o zênite, o amanhecer e o crepúsculo poderiam ser vistos juntos. Dando início a “Era acima do solo”.

 

Papyrus se esticou para levantar a mão o mais alto que conseguia enquanto estava sentado. Estava com a dúvida clara em seu rosto. Red, que esperava por alguma pergunta idiota, olhou para ele e sinalizou para que tirasse sua dúvida.

— Diga, Papyrus.

— Como os anjos conseguem viver acima das nuvens se elas são feitas de fumaça?

Red encarou Papyrus com cara de paisagem por uns cinco segundos. Ele podia até ser uma criança, mas Red não acreditava que tinha mesmo ouvido aquela pergunta. Agora, ele se via no meio de duas opções: agir como um bom irmão mais velho, nesse caso, primo, e responder com toda a seriedade e explicar como as nuvens realmente eram e que tudo que estava lendo não passava de fabulas, ou ser uma péssima pessoa e zombar do pequeno até que ele sinta vergonha de fazer qualquer outra pergunta na vida, causando futuros traumas que iriam refletir em sua vida acadêmica.

E, como Red era o exemplo perfeito a ser seguido, ele escolheu a segunda opção:

— Por que a fumaça consegue ser mais densa que essa sua cabeça oca. — Sua resposta foi curta e grossa, contudo a ignorância de Red não se limitava a apenas uma frase. — Ou talvez os anjos tenham fugido para as nuvens por conta da sua estupidez de nível alarmante, provavelmente com medo dela ser contagiosa.

— Ei! Ele só fez uma pergunta, não precisa agir como um babaca dessa forma. — Rosnou Carrot, puxando Papyrus para perto quando esse estava ameaçando começar a chorar. — Não liga para esse saco de banha, ele é um estúpido irresponsável sem coração.

— Sabe, você não é muito diferente de mim.

— E sem contar que fede muito. Ao contrário de você que cheira a coisas doces. — Carrot continuava com os comentários pejorativos em relação a Red como se esse não estivesse em sua presença, — Também é um idiota, não sabe cozinhar, quebrou a TV e ainda possui umas revistas qu...

— Okay! Pode parar. O tempo de leitura já acabou e agora começa o tempo de irem para a cama. Vão trocar de roupa e escovar os dentes. — Ordenou Red, fechando o livro com certa brutalidade. Conseguiu ouvir claramente um “Aaah...” saindo da boca de Papyrus e Edge, chateados por não poderem ouvirem a continuação da história.

Não que estivesse mentindo. Estava realmente tarde, até mesmo para Red. Ler aquela pequena parte do livro realmente fez o tempo voar e, falando em tempo, onde Blue e Sans poderiam estar uma hora dessas? O combinado era que ele iria tomar conta de Carrot e Papyrus por apenas três dias.

Bom, os três dias passaram e até agora não havia noticia dos dois.

Decidido, Red pegou o celular e ligou para Sans quando ficou sozinho. Sua perna começou a balançar em cima do tapete felpudo, estava ansioso pela demora deles, mais ansioso ainda se precisasse continuar cuidando daqueles três ao mesmo tempo. Pois, senão, poderia enlouquecer.

Depois de uns cinco toques o telefone foi atendido por uma voz arrastada e preguiçosa. Red conseguiu reconhece-la com facilidade, sem dúvidas era a de Sans, provavelmente estava dormindo no banco do carro ou algo parecido.

— Quem é?

— Sou eu, a pessoa que você mais ama e odeia nessa terra. — Respondeu com tom sarcástico e pouco paciente, o que deixava evidente que Red havia achado a pergunta idiota e sem necessidade.

— Que estranho. Me lembro da parte do “odeia”, mas tenho a leve impressão que nunca demonstrei que te amava.

— E isso importa? Seguinte; já está tarde e vocês disseram que eu iria cuidar do Papyrus e do Carrot até terça. Bom, já é terça à noite e vocês ainda não apareceram. Onde estão?

— Oh, sobre isso... Está havendo uma tempestade forte de neve aqui que conseguiu congelar as túrbidas de todos os aviões do aeroporto. Provavelmente vai continuar assim até quinta, no máximo sexta.

— Sexta?! Quer dizer que eu vou ter que aturar a peste do Carrot até sexta?! Você só pode estar zoando com a minha cara. — Red praticamente berrou ao telefone e da porta do banheiro, que ficava no corredor e não muito longe do quarto, ele pode ouvir um “não é como se você fosse um santo que todos adoram” ao fundo. Não precisava pensar muito para saber de quem era aquele comentário. Mas Carrot não foi o único que escutou a reclamação de Red.

Blue praticamente avançou no telefone quando ouviu o nome do irmão ser mencionado no telefone ao lado de um xingamento. Ele segurou o pulso de Sans com tanta força para ativar o viva-voz e manter o telefone perto que, por alguns segundos, Sans se perguntou se aquela criatura furiosa era o mesmo Blue amigável e simpático com quem estava conversando há alguns segundos.

— Que história é essa de que o meu maninho é uma peste, Red?! É melhor que você não esteja maltratando o meu Carrot e estejam se dando bem, caso contrário...

— O quê?! Eu não estou fazendo nada, é ele quem está me deixando louco! A TV da sala foi quebrada por culpa dele, os armários da cozinha foram praticamente revirados e eu acho que ele deve ter alguma mania compulsiva de mexer nas coisas dos outros, por que vou te contar...

— Red, ele é apenas uma criança e você está exagerando no que diz.

Red desistiu de tentar argumentar com Blue. Colou a mão no rosto e deu um grande suspiro de indignação. Era óbvio que Blue iria defender o caçula até o fim dos tempos, era sempre assim quando Red tentava mostrar o quão insuportável Carrot era até o momento em que o dialogo começava a tomar um rumo completamente diferente e quando notavam já estavam discutindo sobre os defeitos e mancadas que deram no passado, e, para ressaltar, Red era repleto deles. Então, ou aceitava calado ou tinha a sua falta de moral e hipocrisia jogados em sua cara. Naquele momento, Red preferiu aceitar calado.

— Quer saber? Deixa pra lá, já tá tarde e preciso dormir. Boa noite. — E então encerrou a ligação de forma repentina sem deixar Blue ou Sans responderem, jogando o celular na cama. Mas, o que ele realmente queria fazer, era se jogar nela e permanecer lá nas próximas doze horas, e era exatamente isso que iria fazer.

Não se preocupou em colocar os três para dormir. Edge e Carrot já eram grandes o suficiente para saber irem para a cama sozinhos. Então apenas tratou de se jogar de qualquer jeito no colchão e desmaiar ali mesmo, literalmente. Nem precisou desligar a luz para pegar no sono. Em um curto período de tempo seus roncos altos já conseguiram alcançar todos os cantos da casa.

Depois de saírem do banheiro os três tentaram, de forma inútil vamos dizer assim, dormir. Em partes essa dificuldade se dava por conta do barulho, em outras pelo açúcar, talvez os dois misturados. Mas principalmente por que eles ainda continuavam pensando na história, principalmente Papyrus, que ainda parecia maravilhado com a ideia de um mundo acima das nuvens. Talvez pensasse que elas pudessem ter gosto de algodão doce.

— Como vocês acham que o mundo acima das nuvens deve estar agora? — Papyrus perguntou enquanto encarava o teto no escuro e, como os roncos absurdamente altos do Red não deixavam nenhum dos três dormir, Carrot foi o primeiro a responder sua pergunta.

— Aquilo foi só uma história, Papyrus. Não existe mundo acima das nuvens.

— Bom, mas se ele existisse? Como acha que se pareceria hoje?

— Provavelmente deve ser uma visão bem legal. — Edge comentou em cima da cama. Carrot o encarou com um olhar como quem dissesse “não começa a influenciar ele também”. — O quê? Vai me dizer que nunca sonhou em sair da terra e voar em direção aos céus?

— Sim, as vezes, antes do seu irmão começar a agir que nem um idiota e a falar o obvio.

— Tipo “se pudéssemos voar até o espaço quando chegássemos a determinada altura iriamos perder o oxigênio e desmaiar” e que “nossos ossos explodiriam com a pressão fora da terra”?

— É, isso mesmo.

E então os dois começaram a rir. Papyrus não entendeu direito a graça daquela conversa, na verdade, ele ainda não entendia muito bem como o mundo funcionava, mas não se importava muito com isso. Ele apenas continuou encarando o tento, pensando, imaginando e querendo sentir em como seria o mundo acima das nuvens e em como a vida poderia ser fácil igual à da história do livro.

Por fim, acabou desmaiando de sono, ansioso com o amanhã para poder ouvir mais histórias.



Gostou da Fanfic? Compartilhe!

Gostou? Deixe seu Comentário!

Muitos usuários deixam de postar por falta de comentários, estimule o trabalho deles, deixando um comentário.

Para comentar e incentivar o autor, Cadastre-se ou Acesse sua Conta.


Carregando...