História O Corvo. - Capítulo 2


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Categorias Histórias Originais
Tags Escravidão, Poderes, Política, Revolução, Sobrenatural, Suícidio, Tragedia
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Palavras 3.815
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Ação, Aventura, Drama (Tragédia), Fantasia, Ficção, Luta, Magia, Misticismo, Sobrenatural, Steampunk, Suspense, Terror e Horror, Universo Alternativo, Violência
Avisos: Álcool, Bissexualidade, Heterossexualidade, Homossexualidade, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Mutilação, Nudez, Pansexualidade, Sexo, Suicídio, Violência
Aviso legal
Todos os personagens desta história são de minha propriedade intelectual.

Notas do Autor


Boa leitura!

Capítulo 2 - União e Traição.


Depois que o Primeiro Iluminado subiu ao poder do antigo Império Britânico, ele evitou destruir a cidade. De fato, o que ele fez foi somente expandir o poder do seu império. Investiu em guerras, estradas, trens, pontes, etc. Tudo para unir seu Império aos poucos, adquirindo mais e mais terrenos, destruindo países para ficar com o que sobrou, desfazendo alianças e causando guerras. Por esses e outros feitos, ele ficou conhecido como o Rei das Cinzas, pela sua tática de reduzir países a cinzas para conquistá-los. Fez da antiga Londres a capital de seu Império e construiu seu palácio lá, destruindo tudo que antes pertencia a monarquia britânica. A cidade em si parecia a mesma aos olhos nus. Mas era só prestar um pouco de atenção para perceber o preconceito e ódio que estavam nos olhos de cada Trabalhador para os Iluminados e perceber o desprezo e nojo dos Iluminados para com os Trabalhadores.

Claro que o ódio dos Trabalhadores era algo assassino as vezes, por isso foi construído os distritos separando as duas classes. Os distritos eram separados pelos muros brancos altos e guardados vinte e quatro horas por dia por guardas Iluminados bem treinados. Era expressamente proibido para os Trabalhadores de baixa classe saírem de seus distritos, enquanto que, para os de alta classe, era difícil e envolvia uma burocracia severa. É óbvio que os Iluminados podiam deixar seus distritos e viajar pela cidade toda se quisessem, sem punições ou burocracia. A Escória não tem distrito.

Nem é necessário falar o quanto os distritos Iluminados diferem dos distritos dos Trabalhadores. Eles são mais limpos, mais ricos, não existia nenhuma fábrica, fazenda ou quaisquer outras coisas "baixas" assim. Nos distritos Iluminados haviam somente festas, casas, fontes, palácios, igrejas, mercados dos mais refinados, feiras gigantescas e limpas, animais bem treinados, peças teatrais, bibliotecas e por aí vai. Em nenhum momento havia sujeira no chão ou crianças gritando ou pessoas suadas por passar o dia trabalhando. Só existiam pessoas pomposas com egos inflados e falas arrastadas.

Para cuspir um pouco mais de nojo no rosto dos Trabalhadores, o Rei das Cinzas fez questão de criar um idioma especial para seu Império. Ele o chamou de Donum, 'dádiva' no latim, pois "a sabedoria de ler, escrever e falar era uma dádiva que os Trabalhadores não merecem", mas claro que seu presente tão humilde não deixou de vir com um sotaque e um vocabulário exclusivo para os Iluminados, um dialeto, aliás, que era punível de morte caso os Trabalhadores usassem. Não que eles tivessem um jeito de aprender o dialeto, mas ainda assim a lei existia.

A educação, aliás, no Imperium, é algo raro. Isso é, raro, pelo menos, nos distritos Trabalhadores, por que nos distritos Iluminados, as crianças eram ensinadas pelos seus pais sobre todos os temas. Essa é a única responsabilidade verdadeira que os Iluminados tem para com a sociedade; ensinar seus filhos. Não é algo ruim, mas é necessário notar que eles ensinam uma história que enaltece o Imperium e faz parecer que o Primeiro Iluminado era um salvador, um enviado de Deus. Aliás, algumas pessoas realmente o cultuam como se ele fosse um filho de Deus. E essa crença é algo que se fortalece cada vez mais no Imperium, com igrejas próprias sendo fundadas e com emissários surgindo aos montes para espalhar a palavra do "Novo Jesus". Nos distritos pobres, somente os de alta classe podiam pegar livros emprestados nas bibliotecas do outro lado do muro, para tentar aprender algo e, talvez, ensinar aos filhos. Mas é claro que nem sempre os Trabalhadores conseguiam ler, por isso a maioria dos Trabalhadores não sabiam nem mesmo as coisas mais básicas como soma de numerais ou noções básicas de biologia - coisa que faziam eles se reproduzirem facilmente, por não saberem se proteger de filhos indesejados. Eles nem mesmo sabem que os humanos, antigamente, não nasciam com habilidades. Eles acham que sempre foi assim e que somente os Iluminados são dignos desses poderes.

A única coisa que fazia os Iluminados temerem um pouco pelas vidas supérfluas e vazias deles era um homem que foi nomeado de Corvo. Mas somente um grupo pequeno de pessoas sabe o que houve com ele. Enquanto o resto, as pessoas que o amavam e torciam para ele acabar com o império tirânico dos Iluminados, somente choram pela perda dele, pela morte dele.

É claro que elas não sabiam que ele ainda estava vivo. Como iam saber que esse homem parado silenciosamente num beco sujo era ele? Pois Deimos era Corvo no passado. Esse homem que desconhece até mesmo a esposa que antigamente amava, esse homem derrotado que não quer mais lutar.

Por que, no final, o homem parado em silêncio num beco qualquer vendo sua antiga esposa chorar incontrolavelmente parecia em nada com o homem que as massas conheciam. O homem que eles amavam era alto, forte, impiedoso, bondoso, seus cabelos eram noite de tão escuros e seus olhos vermelhos brilhantes faziam até mesmo o mais corajoso dos Iluminados fugir gritando e chorando dizendo ter visto um demônio. E era o que Deimos era. Um demônio. Que trazia terror e medo, dor e morte, ferro e sangue. Mas agora ele nem mesmo é um fantasma do que, outrora, era. Agora é só outro homem nojento da Escória.

Seus olhos nem brilhavam mais, pareciam mais um castanho avermelhado do que o vermelho demoníaco de antigamente, seus cabelos são só uma pasta nojenta, sebosa e suja e não tinham mais a negritude da noite impregnada, agora só havia sujeira impregnada ali, dando uma cor cinza para os cabelos naturalmente negros. E ele está magro, obviamente. Franzino e com um ar tão frágil que se alguém olhasse, nunca diria que esse homem já aterrorizou pessoas. Seus olhos estão fundos, com olheiras, a barba estava por fazer e de sua orelha direita falta um pedaço. Se não fosse a Alana conhecer ele por completo e ter recebido a pista de que ele estaria naquele bar, ela nunca teria adivinhado que era ele caso o encontrasse na rua. Na verdade, ela teria se escondido dele caso percebesse sua presença. Seu homem não era mais o mesmo, lhe faltava o brilho, a força, o poder, o amor e, é claro.. lhe faltava...

- Suas asas.. - soluçou Alana, segurando nos ombros de Deimos para manter o equilíbrio enquanto debulhava em lágrimas. - O que aqueles malditos fizeram com suas asas..?!

Deimos tentava se lembrar de algo, qualquer coisa, sobre ter voado um dia. Talvez em um pesadelo ele estivesse caindo, mas era só isso. Não lembrava de ter asas. Será que ela havia encontrado a pessoa errada e agora está o confundindo? Apesar de que asas explicariam facilmente as quatro maiores cicatrizes nas costas.

- Eu tinha.. asas? - perguntou Deimos descrente e frio, enquanto, mecanicamente, limpava a faca em sua camisa e a enfiava na cintura de sua calça. 

- Sim.. você tinha.. - Alana segurou um pouco o choro e olhou para Deimos. Ela é bonita, Deimos precisava admitir, seus olhos são um castanho cor de mel e seu cabelo tem cor, e cheiro, Deimos notou, de chocolate. Mas agora dos olhos dela vazavam aparentemente infinitas lágrimas e isso doía nele mais do que ele gostaria de admitir. Por que, ele não sabia. Mas doía. Ele olhava para os lábios dela enquanto eles se moviam, será mesmo possível que aqueles lábios finos já tocaram os grossos lábios dele? Talvez ela brincou com a cicatriz dele em cima do lábio superior dele? Parecia impossível que Deimos já tivesse sequer amado, quem dirá amado uma pessoa tão.. fora de sua alçada.  - Você tinha quatro e elas eram gigantes e tão maravilhosas.. - ela continuou falando, com um ar saudoso no rosto, talvez lembrando quando ele a  levou para tocar nas nuvens? Não, não, isso é idiota demais, sonhador demais. Talvez ela só estivesse lembrando quando ela acariciou suas asas enquanto ele cuidava de um ferimento no peit... "Espera, de onde veio essa lembrança?" - Você nunca sentiu alguma vontade de voar?

Ela não chorava mais, não tanto. Isso é bom, se ela continuasse chorando, ele não saberia o que fazer e provavelmente tentaria consolar ela. Ele é horrível em consolar as pessoas. "Mas nunca tentei consolar alguém, como sei que sou ruim nisso?"

- Eu.. não.. me lembro. - ele realmente não lembra e dói nele tentar lembrar de algo que ele tem a sensação que deveria estar lá. - Acho que você está se confundindo, não sou o homem que procura.

Ele deu as costas a Alana e já ia embora quando ela correu e agarrou sua mão e o puxou de volta com uma força que, Deimos notava, ele não tinha achado que ela possuísse.

- Espera aí! - ela já parou completamente de chorar e agora estava com um ar indignado no rosto. - Você sabe quanto tempo demorei pra te encontrar? E agora você simplesmente vai embora? Só por que você acha que não tinha asas?

- Não - disse Deimos, levemente irritado por estar sendo segurado. - Eu estou indo embora por que acho que você vai me causar problemas. E não, eu não acho que não tinha asas, eu sei que eu não tive.

- Urgh, eu tinha esquecido como você era teimoso. - ela respondeu, revirando os olhos. -  Ótimo, Sr. Sabe-Tudo, se você realmente acha que não tinha asas, então me explica as penas nas suas costas.

- Eu não tenho penas nas costas. - Deimos já estava ficando irritado. Ela podia ter falado que o céu era verde e teria sido mais fácil de ele acreditar.

- Okay, eu não queria ter que fazer isso, mas você não me deixa escolha. - ela disse isso e começou a puxar a camisa dele, despindo ele, quem ela estava pensando que era? Deimos se enfureceu, deu um tapa em sua mão e a empurrou, vestindo a camisa de novo. Mas ela não desistiu e começou a puxar de novo. Ele ia empurrar ela novamente mas ela foi mais rápida e o prensou contra a parede, segurando ele rente a parede pelos seus pulsos. Ela era um pouco mais baixa que ele mas isso não a impediu de lhe lançar um olhar de "mãe irritada". - Você quer parar de ser um bebezão? Eu só quero te provar que você tem penas, sim. Cacete, eu já vi tudo o que você tem a oferecer, essa timidez saiu de onde? - ele sustentou o olhar dela por alguns segundos antes de desistir e deixar ela lhe despir. Qual era o problema, afinal? Não é como se ela quisesse o machucar, se ela quisesse, já teria feito isso.

Ela tirou a camisa, ainda ensaguentada com o sangue da mulher, dele e assim que o fez, ele percebeu como estava frio aquela noite. Teve um calafrio e a xingou em silêncio. Com gentileza, ela virou o corpo dele, tentando ignorar a barriga magra e as costelas aparecendo proeminente no peito antes musculoso e chegou nas costas dele para ver.. nada. Somente cicatrizes. Havia ali as quatro cicatrizes maiores, assim como várias outras que ela não conhecia. Ela sentiu vontade de chorar de novo e sentiu a culpa arrancando-lhe outro pedaço do coração. Mas não havia penas ali. Nenhuma. Isso é impossível. Ele tinha penas, ela tem certeza disso, suas costas eram cobertas por elas, assim como, obviamente, as asas. Isso é impossível, mas não importa, ela não precisa de uma rebelião dele agora, precisa que ele acredite nela. Então ela verificou se ele estava olhando e quando viu que não estava, ela desceu a mão até sua bota e tirou de lá uma pena dele. Ela tinha recebido essa pena de presente dele numa das últimas vezes que o viu antes do desaparecimento que a deixaria sofrendo por meses.

Alana fingiu tirar a pena das costas dele e o virando pra ficarem frente a frente, ela usou seu melhor sorriso triunfante e disse, dando um tapinha no ombro dele:

- Ahá! Viu? Eu te disse que você tinha penas! - ela lhe devolveu a camisa e o assistiu enquanto ele a vestia, incrédulo. Quantas vezes ela não tinha visto ele fazer exatamente a mesma coisa? Mas agora era diferente. Agora ela se sentia culpada, agora ela se sentia uma intrusa. E talvez fosse mesmo. Olha só pra ela, mal voltou a falar com ele e já está mentindo pra ele de novo. Ela deveria sofrer pelo que fez. Pelo que está fazendo.

- Como isso é possível..? - Deimos ainda estava tentando entender tudo aquilo.

- Amo.. - pigarreou, e se xingou mentalmente; por um momento ela esqueceu. - Deimos. Isso não é importante agora. Por favor, só confie em mim e me acompanhe, okay? - pegou ele pela mão e começou a puxá-lo, com gentileza. Mas ele resistiu e Alana sentiu o pânico crescer um pouco. - Deimos. - ela olhou pra ele, lágrimas nos olhos. - Por favor.

Então ele a acompanhou, tentando se lembrar de alguma vez que já tenha visto penas em seu buraco no chão ou em qualquer lugar que frequentasse. Mas ele não se lembrava. Por que ele não se lembrava? A dor na sua cabeça era tanta.

Ele nem sabia mais o que estava acontecendo, como isso aconteceu tão rápido? Cacete, não fazia nem duas horas que ele estava só querendo beber um pouco e dormir no seu buraco, como foi forçado a matar de novo por alguém? Que história era essa de que ele era poderoso? Ele nasceu sem poderes, por isso é da Escória, todas as pessoas com poderes nascem nos Iluminados, todo mundo sabe disso. Será que ela estava se confundindo..? "Pior", disse uma vozinha no fundo da cabeça dele, "Será que ela está mentindo?". Parando pra pensar, fazia sentido. E se isso fosse só um esquema complexo para capturar ele? Ele era o Desconhecido, essa palhaçada de Deimos era ridícula, como ele não percebeu isso antes? Todos sabem que mutações físicas são raras e podem acontecer até mesmo na Escória, afinal, todos se lembram do que aconteceu com a filhinha de um casal pesqueiro que desenvolveu guelras só depois de mergulhar pela primeira vez, não é mesmo? Pobre coitada.

Era isso, o Desconhecido sabia, ele continuava sendo um ninguém. Mas por que os Iluminados estariam interessados nele? Ele era um ninguém, um qualquer, por que ele estaria sendo capturado pelos Iluminados? Ele, de todas as pessoas. Não faz sentido. Será mesmo que os Iluminados dariam tanta importância em capturar uma pessoa que nem ele? Talvez quisessem punir ele? Afinal, ele realmente matou 50 pessoas. Talvez seja mesmo isso, ele está prestes a morrer, não está? Toda essa história é só pra fazer ele acompanhar ela, essa mulher desconhecida. O que ele realmente sabe dela? Sabe que ela luta bem, e que diz ser esposa dele, mas ela não mostrou nenhuma prova de verdade que podia ser considerada confiável. Mas e a pena? Talvez ela tivesse forjado ela. Mas e todo esse choro? Talvez ela seja uma daquelas atrizes dos teatros Iluminados. Ele precisava fugir. 

Não importa se ela é Iluminada ou não, ela é problema e ele precisa fug... ele parou por um instante, ele percebeu pra onde ela está levando ele. Ele chutou a coxa dela e a empurrou com a mão esquerda. Ela deu um gemido baixo de dor e olhou com o olhar de quem é traído para ele. 

- O que é que você está pensando?? - ela sussurrou com raiva. - Você enlouqueceu?

- Você é que enlouqueceu se acha que vou com você direto para o distrito Iluminado! - ele exclamou, furioso. E era verdade, ambos estavam indo direto para os portões do distrito Iluminado, ele nem mesmo tinha percebido até ver as lâmpadas coladas ao muro branco. 

- Eu.. eu - ela gaguejou, ela sabia que tinha sido pega no flagra. Maldita, ele nunca devia ter confiado nela. - Eu sei o que parece, mas não é assim, a base da minha equipe fica do outro do muro e temos que ir pra lá, lá é seguro, eu juro. - ela tentou pegar a mão dele, levantando as mãos em gesto de paz. - Eu juro, Deimos, não é o que parece. 

- Não me chame assim, esse não é meu nome. - o Desconhecido estava furioso, então ele estava certo, ela realmente era uma Iluminada, vinda diretamente do outro lado do muro para capturar dele, talvez torturar levando em conta que ela tinha dito "minha equipe". Desgraçada. - Eu não quero saber o que você quer comigo, muito menos o que eu fiz para irritar os Iluminados, mas a menos que queira uma faca na barriga, você vai me deixar ir. 

A lua brilhava muito, a noite estava fria demais, não havia barulho algum exceto o vento e as vozes dos dois com um ocasional barulho de um rato ou um miado. E foi por esse motivo que ele ouviu tão bem o sussurro de Alana, se era mesmo o nome dela:

- Não. 

- Não? - disse ele, ciente de que sua faca estava escondida na cintura de sua calça. 

- Exatamente. Você vem comigo, querendo ou não. Eu demorei muito tempo pra te encontrar e não vou deixar essa sua paranoia ridícula te levar, de novo, de mim. - ela sacou sua faca e o Desconhecido a imitou. - Eu não vou te perder de novo. Você virá comigo, nem que eu tenha que cortar seus tendões. - ela estava chorando de novo, por que uma pessoa que só quer matá-lo choraria diante da ideia de só aleijá-lo? - Me desculpe, amor, mas eu ainda preciso de você. 

Ela disse isso e avançou na direção do Desconhecido/Deimos, rápida como um raio, ela acertou seu braço que segurava a faca e fez ele a soltar, talhando a carne dele do braço direito dele e arrancando dele um grito de dor no processo. Ele tentou se defender do soco dela com a mão esquerda, mas falhou e viu estrelas ao ser acertado pela mulher habilidosa. Algo estava errado. 

A visão dele estava embaçada e ele balançou os braços a frente dele, num frenesi, tentando acertá-la. Conseguiu. Ele ouviu o grito de dor dela e percebeu que a afastou. Se abaixou para recuperar o equilíbrio e percebeu sua faca caída no chão, ele a pegou com a mão esquerda e para ele não importava mais quem ela era ou deixava de ser. Ele deu as costas e correu, tentando ignorar a dor no braço direito enquanto corria desajeitadamente, esperando a sua visão normalizar. 

Ele continuou a correr mesmo enquanto ouvia os gritos dela de desculpas e de desespero. Por que ela estava se desculpando? Algo estava errado. Talvez ela realmente fosse quem dizia ser, e ele estivesse sendo ignorante ao achar que ela o desejaria ferir. "Mas ela me feriu, não é mesmo?Arruinou meu braço, atacou primeiro", ele pensava, tentando arranjar uma desculpa para jogar a culpa nela. Esquecendo, de propósito, que sua mão já estava no cabo da faca antes mesmo de ela disser que iria levar ele, ele querendo ou não. Esquecendo também que ele chutou a coxa dela. O que ele estava pensando? Se deixou levar pelo medo. E pelo quê? 

Ele parou de correr. Por que ele estava correndo? Por que ele estava fugindo? Não era isso que ele queria desde que matou a primeira pessoa meses atrás? A morte? Não era isso que ele desejava? Por que ele continuava correndo? Por que ele continuava lutando? Dê uma chance a ela, talvez ela esteja falando a verdade, e se não estiver, quaisquer dores que os Iluminados lhe infligirem não chegaria nem perto da dor que ele sente o tempo inteiro. "Do que está com medo?", a voz perguntou. Mas ele não estava com medo de morrer, estava? Ele olhou para seu braço, agora já começando a coagular. Ele estava sentindo dor ainda. Era isso que ele sempre quis, desde que ele matou a primeira pessoa meses atrás. 

Ele lembrava daquela noite, ele já tinha acordado numa qualquer fazia uma semana e estava com uma fome desgraçada, se alimentando de ratos sempre que podia. Mas os ratos tinham acabado e ele não tinha dinheiro pra comprar comida em bares ou nas lojas. Ele estava sozinho e sofria com o frio, fome e a sede. Não lembrava de nada a não ser.. e então ele percebeu o que estava errado. 

A última lembrança que ele tinha era de uma mulher com cabelos com cheiro de chocolate. Era Alana. Ele sabia que era. Por isso sentia que algo estava errado. Por isso sabia o cheiro do cabelo dela. Ele nem mesmo teve a chance de chegar assim tão perto dela, como sabia que esse era o cheiro? Fosse ela Iluminada, fosse ela sua antiga esposa, ela fazia parte da vida dele antes de ele perder a memória. Era muito achar que ela realmente estava falando a verdade? 

E ele a obrigou a se defender, chutou ela.. como ele pôde ser tão burro a ponto de deixar a emoção falar mais alto? "Mesmo que ela seja uma Iluminada, eu tenho nada a perder. Preciso saber quem ela é.", ele pensou. Segurando o braço rente ao peito, deu meia volta e começou a correr em direção à Alana... mas ela já estava lá, olhando pra ele, a centímetros de distância. Seu cheiro cheirava mesmo a chocolate, agora ele conseguia sentir. Ela não dizia coisa alguma, apesar da boca aberta. Ela olhou para baixo e ele entendeu. 

Ele não guardou a faca antes de começar a correr. E agora ela estava fincada dentro da barriga de Alana. Sangue escorria, manchando as roupas dela e as suas mãos, agora que ela tentava retirar o objeto estranho lhe machucando. Ela vacilou e Deimos a segurou o melhor que pôde com o braço machucado. Sangue dela agora sujava as mãos dele também. 

Ele não sabia o que fazer, estava em pânico por essa mulher tão desconhecida mas que já significava tanto pra ele.. ele não sabia por que, mas lágrimas começaram a rolar. Algo dentro dele chorava. Algo dentro dele sabia o erro que tinha cometido. 51 vítimas. Ele era um monstro. Matou até mesmo alguém que o ajudou. Ele se odiava. Ouviu passos se aproximando mas não se importou, já estava na hora de alguém acabar com seu rastro de sangue. Ele não se importou ao sentir o golpe na cabeça, se importou menos ainda quando caiu no chão e sentiu a água ali molhar seu rosto. E somente abraçou a escuridão quando seus olhos começaram a se fechar. Ele já estava cansado. Queria morrer. Queria dormir. Queria acabar com aquilo e nunca mais acordar. E quando seus olhos se fecharam, ele acreditou ter ouvido as últimas palavras que ele escutaria em vida:

- Por favor, não machuquem ele.


Notas Finais


FIM DO CAPITULO 1

E aí, pessoal, final intrigante, hein? Vocês gostaram? Se gostaram, por favor, deem um voto pra eu saber que estou indo bem e comentem suas opiniões, críticas ou só comentários mesmo de como você está com raiva de mim por eu ter machucado a Alana.

Anyway, espero que tenham gostado! Até o próximo capítulo!
Vereor Nox.

Dedicado ao meu amigo Renan que se ofereceu pra fazer a capa do livro pra mim <3


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