História O Corvo. - Capítulo 3


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Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Ação, Aventura, Drama (Tragédia), Fantasia, Ficção, Luta, Magia, Misticismo, Sobrenatural, Steampunk, Suspense, Terror e Horror, Universo Alternativo, Violência
Avisos: Álcool, Bissexualidade, Heterossexualidade, Homossexualidade, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Mutilação, Nudez, Pansexualidade, Sexo, Suicídio, Violência
Aviso legal
Todos os personagens desta história são de minha propriedade intelectual.

Notas do Autor


Boa leitura!

Capítulo 3 - Andando em Frente.


Era um dia frio quando amanheceu. Ele mal sabia onde estava, só conseguia sentir que estava em movimento, ouvia vozes, via movimentos e borrões mas entendia nada. Só entendia que ainda estava vivo e era por isso que lágrimas corriam pela sua face, mais do que ele gostaria de admitir. Deimos ia e voltava de seu sono conturbado com pesadelos mais horrorosos ainda, mas não desistia e sempre tentava dormir de novo, quem sabe dessa vez ele não dormia para sempre?

Era noite, estava frio, ventava e Deimos estava numa rua deserta, já tinha tido esse pesadelo antes, já sabia o que ia acontecer, mas ainda assim forçou seus pés a lhe obedecer e começou a andar. O lugar a sua volta era uma rua Iluminada, isso é, 'Iluminada' só no nome, pois na rua em si não possuía nenhum tipo de luz em si que não fosse a lua cheia no céu. O bairro todo estava quieto, com nenhum barulho exceto a sua respiração e o vento a rugir rapidamente. Mas era só continuar andando que ele ouviria os gemidos de dor na esquina seguinte.

A rua de paralelepípedos se abria em uma bifurcação mais a frente, uns cinco metros se ele tivesse que apostar. Nas margens da rua haviam casas e comércios, todos fechados e escuros, não havia sujeira no chão, não haviam gatos rebeldes caçando lixo, não haviam transeuntes, só havia Deimos e a escuridão. Ele andava, mas não queria, ele sabia o que iria ver, ele sabia qual seria a brutalidade, ele sabia qual seria o ódio que iria sentir. Mas ele precisava ver, seus pés lhe forçavam assim como sua preocupação pela pessoa gemendo de dor.

Ele chegou mais perto da esquina e viu uma única luz acesa na loja a frente. Sem placa, portas ou identificação e com várias ferramentas e materiais aos arredores, ele deduzia que o dono ainda estivesse construindo a própria loja. Ele andou mais, sempre lentamente, atravessando a rua. Ele não precisava olhar para saber que a sua esquerda se encontrava o caminho direto para o muro branco que dividia as seções pobres e ricas da cidade e que a sua direita o caminho simplesmente continuava quase infinitamente com casas sempre ladeando as ruas.

As casas em si sempre mudavam de forma em seu pesadelo, então Deimos não fazia questão de olhar para elas, mas a loja a sua frente era sempre da mesma forma, sempre o mesmo lugar.

A loja não tinha portas e o balcão de atendimento que dava de frente para a rua estava sem grades. Mas é claro que os balcões com grades só existiam nos bairros pobres, por que era só ali que os comerciantes tinham o medo de serem roubados. Deimos entrou na loja pelo buraco onde logo existiria uma porta e olhou em volta.

O lugar fedia a tinta fresca e não possuía muito espaço, era só a fachada, afinal. Logo abaixo do balcão existia o espaço para guardar os produtos e de frente para o balcão, um pouco a esquerda do buraco da porta, existia o corredor levando até o que Deimos achava ser o depósito. Ele adentrou o corredor. Escuro por não ser alcançado pela luz da lua, sua única iluminação era a luz amarela do lampião da sala no final do corredor. Deimos observou as duas portas na direita e na esquerda, ele nunca tentou abrir elas, mas de algum jeito sabia que estavam ambas trancadas. Ele se aproximava cada vez mais da sala no final do corredor. Não havia mais gemidos. Só havia um choro abafado.

Ele chegou tarde demais. De novo. De novo e para sempre. Sempre tarde demais.

Ele chegou no final do corredor. Estava a frente de uma sala grande e espaçosa, havia muita poeira voando ao redor, existia também várias caixas e barris de madeiras espalhados pelos cantos e duas portas nos cantos extremos da sala, uma na direita e uma na esquerda, provavelmente levando à rua de paralelepípedos lá fora. Pelo tamanho das portas, era por ali que passavam as carroças carregando os suprimentos para a loja. Havia uma única fonte de luz na sala e não era um lampião e sim um candelabro preso no teto. O candelabro balançava levemente. O chão da sala era um metro e meio mais baixo que o corredor, de forma que havia uma escada para o fácil acesso, assim como uma rampa improvisada com tábuas de madeiras, provavelmente para empurrar caixas de produtos corredor acima e abaixo. Mas era no meio da sala que estava aquilo que fazia Deimos acordar gritando. Três homens. Duas mulheres. Ou melhor, uma mulher e uma garotinha. Ele sempre via essa mulher com cabelos castanhos cor de mel em seus pesadelos, mas só agora sabia seu nome. A mulher era Alana. Ela chorava, e, mesmo sendo segurada por um dos homens, seu choro ainda dava para ser ouvido - e sentido - por Deimos. Os homens, dois de pé e um deitado, claramente morto com estacas de pedra se projetando para fora de seu peito, estavam todos vestidos da mesma forma; com as roupas bege e azuis da Guarda Iluminada, com as rapieiras e porretes em suas cinturas, com a exceção do homem perto da garotinha caída no chão, claro. Ele segurava no alto seu porrete, o descendo com cada vez mais força na garotinha, soltando ocasionais arfadas enquanto o fazia. A cena se desenvolvia lentamente a frente de Deimos, era sempre assim. Mesmo ouvindo os barulhos molhados que o porrete fazia ao atingir com toda a força de um homem adulto, ou mesmo quando via a cabeça da coitada da garota afundando cada vez mais a cada golpe, deixando-a desfigurada e irreconhecível fazendo seu sangue se espalhar no chão assim como pedacinhos de crânio e uma gosma cinzenta que Deimos só podia supor que, algumas horas atrás, faziam parte do cérebro da garota.

Ele assistia a tudo isso lentamente pois não conseguia se mexer, nunca conseguiu, nem mesmo quando isso aconteceu na frente dele, talvez por que estivesse, finalmente, com medo. Mas ele sabia o que era, no fundo, sabia. Sempre soube. Eram os olhos dela. Os olhos saltados, sangrando e saindo para fora da órbita da garotinha a sua frente. Eles estavam voltados para ele, vidrados, julgando-o. Ela talvez tivesse dez anos, talvez nem isso. Mas ainda assim foi barbarizada pelos "humanos melhores". Ela não merecia isso. O que ela fez para merecer essa coisa horrenda? Deimos olhou lentamente para as estacas de pedra e para Alana com, agora percebia, as calças arriadas. E então, num estalo, ele entendeu tudo.

Mas não importava, ele tinha chegado tarde demais.

Deimos nunca tinha visto o resto da cena, seu pesadelo sempre se desmanchava nessa parte, fazendo ele acordar com medo e ódio. Mas dessa vez, ele foi até o fim.

Ele sentiu um arrepio pela espinha quando olhou uma última vez para o cadáver da garota. O arrepio o fez perceber como suas costas estavam pesadas, como se segurasse algo nelas, ele não estranhou isso, parecia natural, mesmo quando o arrepio o fazia estremecer e fazer o peso aumentar. O arrepio que ele sentiu era arrepio de tristeza, de ódio, de arrependimento, de perda.. e da mais pura fúria. Ele não pensou, não planejou, nem ao menos notou se os homens tinham lhe percebido ou não. Ele só atacou.

Do alto da escada, ele pulou diretamente no homem que espancava a criança segundos antes, o homem não teve reação alguma, ele nem ao menos percebeu quando Deimos o agarrou pela garganta e o jogou contra a parede oposta, destruindo caixas e barris de madeiras no processo e derramando seus conteúdos no chão de pedra. O homem bateu a cabeça, deixando uma marca distinta de sangue na parede, ele se ajoelhou mas não estava morto ainda. Ele tentou se levantar, mas Deimos lentamente se aproximou dele, chutando seu joelho fazendo ele torcer para um ângulo estranho. Deimos não ouviu, mas o homem gritava de dor e de terror. O guarda, chorando e gritando, fez sua última tentativa de continuar vivo e olhou para seu atacante, prestes a lhe pedir misericórdia.. mas então ele viu quem era seu atacante e sentiu medo. Um medo que nunca havia sentido na vida. Diante dele havia a morte em carne e osso, e ela estava furiosa. O infeliz guarda não percebeu ou se importou em perceber, mas naquela hora ele esvaziava sua bexiga, contra sua vontade, no chão frio da loja em construção. E ele novamente gritou, por que sabia o que ia acontecer. Deimos não sentiu dó, pena, ou tristeza ao agarrar e puxar o assassino pela boca aberta com a mão direita, enquanto a esquerda empurrava a cabeça dele para trás. O guarda se debateu, chutou, esperneou e até tentou morder o seu atacante mas ele era mais forte, inacreditavelmente mais forte, e continuou o puxando até ver o sangue jorrando e ouvir os ossos da mandíbula do monstro que ele punia se separando de seu crânio asqueroso.

O guarda continuava a se debater, mas Deimos não soltava. Ambos sabiam, internamente, que Deimos tinha força o suficiente para fazer isso de forma bem mais rápida. Mas ambos sabiam, também, que este nojento Iluminado merecia isso, merecia bem pior. Então por isso, Deimos resolveu fazer pior. Aproveitando a posição sentada e de pernas abertas de sua vítima, ele pisou com força em cima da sua coxa direita, sorrindo internamente quando sentiu os ossos quebrarem. O guarda tentou gritar, mas aproveitando que estava com os dedos dentro de sua boca, Deimos agarrou sua língua se contorcendo e a arrancou facilmente, fazendo com que sangue saísse borbulhando inundando de vermelho o interior da boca do guarda e fazendo ele engasgar. Deimos usou essa abertura para terminar de arrancar a mandíbula do guarda. Fazendo ele engasgar e ficar borbulhando sangue numa tentativa de gritar. O homem vitorioso, segurando uma mandíbula sangrenta em sua mão direita, observou enquanto o assassino de crianças sangrava até morrer. A última visão deste guarda foi as coisas volumosas e penosas grudadas às costas do homem que o matara se abrindo lentamente. Quatro asas negras como o vazio se abriam diante dele, com penas longas e negras, quase não cabendo na sala onde estavam, tal era seu tamanho. A morte viera buscá-lo, e ela queria fazê-lo sofrer.

Deimos, de asas abertas, virou-se para o segundo homem só para poder encará-lo enquanto ele tentava correr. Mas Deimos era incrivelmente rápido e antes mesmo que o segundo guarda se virasse para a saída da sala, o vingador alado já estava lá, atravessando sua mão pelas suas costas para alcançar a espinha dorsal do guarda. Um puxão e o guarda caiu mole no chão. Desmaiado por não aguentar o choque, porém não morto, não ainda. Mas morrendo quando Deimos lhe atravessou o crânio com sua bota.

E então o arrepio passou e Deimos sentiu a raiva se esvaindo, dando lugar a tristeza.

Não por ter destruído os dois guardas e sim pelo que havia acontecido com ambas as mulheres. Não era certeza e ele não ia perguntar, mas ele sabia que tinham, pelo menos, tentado abusar de Alana. Silenciosamente ele observou enquanto ela levantava suas calças e tentava parar de chorar.

Ela estava machucada, eles agrediram ela, muito. Seu rosto estava com feridas nas bochechas e um de seus olhos já começava a inchar arroxeado. Mas isso não fazia sentido, Alana sabia se defender, porém não o fez. Ou não conseguiu? Isso faria menos sentido ainda mas, ao observar mais a cena da mulher se levantando, era fácil ver o furo de agulha em seu pescoço e uma seringa de metal no chão.

Eles a incapacitaram. A arrastaram para cá e então fizeram o que queriam dela.

Somente de pensar nisso, Deimos sentia o calafrio de fúria voltando aos poucos.. mas Alana chorava e isso fez com que a fúria se aquietasse. Por um momento, ele havia esquecido, talvez de propósito, para não ter que sentir a culpa, mas acompanhando os movimentos de Alana, ele viu novamente a criança deitada no chão. Morta.

Olhando para ela agora, sem paralisia para lhe impedir ou fúria para o cegar, ele via o quanto ela deveria ser uma garota linda. Isso é, antes de ser aberto um buraco no lado direito de sua cabeça.

O cabelo que ainda estava grudado em sua cabeça eram cor de mel, mas isso era o máximo que podia ser dito sobre ela com certeza. O resto seria suposições ou teorias de como ela teria parecido em vida.

Mas Deimos sabia, ele lembrava da garotinha sorrindo com seus dentes da frente ligeiramente separados, lembrava de seu nariz pequeno e arrebitado e seus olhos sagazes e.. vermelhos.

Alana chegou perto do corpo, o abraçando com ternura e chorando como se nada mais importasse no mundo. Afinal, nada mais importava. Alana balançava-se, lentamente, agachada no chão e agarrarada ao corpo já endurecendo.

Deimos agachou ao lado dela, suas asas recolhidas. Ele não sabia quando, mas começava a chorar também. Vendo aquela cena, ele se esforçava, em vão, para não lembrar se seus momentos com a criança. O momento em que ela caiu pela primeira vez e ele lhe fez curativos. O momento em que ela pulava alto demais, aproveitando a agilidade herdada, mas se machucava ao descer.

O momento em que ele segurou-a em seus braços pela primeira vez, não fazendo minutos de que ela havia nascido. Ele chorou naquele momento, e chorou também quando a nomeou de Lyn. Agora ele chorava novamente, pois Lyn estava morta. Nunca mais ela riria, nunca mais ela brincaria de invocar pedras de suas mãos para jogá-las nele, nunca mais ela pediria para ele verificar o tamanho de suas asas, para ver se elas tinham crescido e nunca mais ele faria ela feliz ao falar que as asas dela seriam maiores que as dele.

Lyn era seu nome. Ela era sua filha. E agora ela estava morta. Assim como seus sonhos e esperanças.

Ele chegou tarde demais.

Deimos acordou em um sobressalto. Primeiro ele pensou que estava sonhando ainda, pois seu corpo parecia estar deitado em uma nuvem. Uma nuvem macia e confortável. Ele percebeu lentamente o que era aquela nuvem mas ainda acreditava estar sonhando, afinal, Deimos nunca havia deitado em uma cama. Não uma que ele lembrasse, pelo menos. Ele se sentou na cama e, enquanto esfregava os olhos, olhava em volta com curiosidade e receio: seu quarto, se assim podia ser chamado, era de um azul-celeste agradável de se olhar. Havia uma janela a direita da cama onde Deimos deitava, ela estava aberta e lá fora o dia estava, surpreendentemente, ensolarado. Não era um dia quente, mas o céu estava azul e pássaros cantavam. Mas é claro que o homem ranzinza não se importava com os pássaros, fodam-se os pássaros. Sua cama tinha lençóis brancos e era simples, assim como eram simples as roupas confortáveis e largas que agora o vestiam. Com cor de creme e pontinhos verdes, Deimos reconheceu-as como roupas de hospital, apesar de nunca ter pisado pé em um hospital antes. A esquerda de sua cama havia uma cadeira de madeira e, mais no fundo, uma porta de madeira fechada, levando, provavelmente a um corredor de várias outras salas como essa.

Mas era na cadeira que a visão de Deimos havia parado, ali sentava uma mulher. A mesma mulher que havia assassinado, acidentalmente, algumas horas antes. Alana sentava ali com um ar preocupado e melancólico. Suas roupas de Trabalhadora haviam sumido e agora ela vestia uma calça masculina preta e grossa, com coturnos também pretos. Ela não usava quaisquer vestimentas na parte superior de seu corpo deixando partes de seu peitoral musculoso a mostra, com exceção de seus seios e a área na barriga onde Deimos havia a esfaqueado, nessas partes haviam bandagens a enfaixando. Uma camisa roxo escuro estava pendurada nas costas da cadeira.

- Você tem pesadelos? - ela perguntou, consoladora. Deimos balançou a cabeça afirmativamente, ainda estupefato. - Entendo.. é a primeira vez que você sonha com aquele dia? - ele olhou para o chão, desconcertado, por que aquilo o deixava assim? - Seu olhar diz tudo - riu sem humor, para aliviar a tensão. - Eu.. foi esse o último dia que eu te vi, amo... - pigarreio - Deimos.

- Como..? - Deimos não conseguiu terminar a pergunta, ele parecia ter engolido uma pedra, sua garganta doía; ele queria chorar, e, a julgar pelo nariz de Alana ficando lentamente vermelho, ela também.

- Como aconteceu? - ela respirou fundo e inclinou-se para a frente na cadeira. Ela ficou um pouco mais perto dele, causando certa timidez quando o homem percebeu que ela estava praticamente nua e a poucos centímetros dele. - Você quer mesmo que eu conte?

Ele pensou antes de responder. Ele queria mesmo saber? Havia se juntado a ela há pouco tempo e não sabia bem o que ela queria dele, a história de que ela queria torná-lo "poderoso" novamente ainda não tinha sido bem processada por Deimos. Ele mal aceitava seu nome ainda. Ainda pensava em si mesmo como o "Desconhecido", apesar de no fundo saber que ela estava certa. Mas agora tudo parecia tão estranho e complexo, parte dele queria voltar atrás, queria seu buraco no chão, sua vida de matança e roubos, de sofrimento. Mas a outra parte queria saber mais, precisava saber mais. Esses pesadelos eram memórias e se o seu eu do passado chorou pela morte de uma filha, ele queria, no mínimo, saber como ela era. Ele levantou os olhos para Alana, sentando-se de frente para ela, lentamente, ele sustentou o olhar dela e fez um meneio positivo.

Ela puxou sua cadeira para mais perto e ficou cara a cara com ele, pousou, lentamente suas mãos nos próprios joelhos e respirou fundo.

- Eu entendo que você precise saber mais para lembrar mais e voltar a ser o que era - suspirou - mas eu realmente não gosto de lembrar desse dia, então vou ser o mais rápida possível, OK? - ela coçou nervosamente a cabeça e, sem esperar por uma resposta, começou: - Naquele dia nós estávamos fazendo um assalto aos depósitos Iluminados. Eles guardavam roupas, armas, comidas e afins lá. Existem vários desses depósitos espalhados por todos os distritos deles. Alguns, inclusive, escondidos em lojas, como forma de propina aos vendedores, para eles reportarem qualquer coisa estranha ou indícios de crime, assim como vender coisas mais baratas para certas pessoas. Uma das lojas que havia recebido um carregamento de mantimentos era uma lojinha pequena e ainda em construção. Eu e você combinamos de ir para investigar, mas quando estávamos indo, o Phobos - Phobos? Deimos fez uma anotação mental para perguntar a ela depois - veio apressado nos dizer que um ataque Iluminado estava acontecendo em uma de nossas bases no Norte. - bases? Outra anotação mental - Nós combinamos de você e ele irem investigar o ataque e eu ir até a loja, na saída Lyn chegou e.. - ela o observou - você se lembra de Lyn, não é? Você estava quase gritando o nome dela enquanto dormia, presumo que você lembre. Ela é.. era.. nossa filha. Nós amávamos muito ela, Deimos, você se lembra? - ela continuou - Lyn.. ela sempre teve curiosidade para participar nas nossas batalhas de revolução. Ela estava treinando os poderes dela, ficava invocando pedrinhas de cascalho por onde andava e jogava nas pessoas que a irritavam. Ela jogava bastante em você.. apesar de você nunca ter irritado ela. - sua voz falhou, lágrimas podiam ser vistas enchendo os olhos dela, o queixo tremia levemente - Ela te amava tanto.. tanto.. meu Deus, Lyn.. - Alana começou a chorar e cobriu seu rosto com as mãos. - O que eles fizeram com você, Lyn? Meu Deus, me desculpa.. me desculpa..

Deimos sabia ao que ela estava se referindo. Ele não chorou, não disse palavra alguma e não fez barulhos ao puxá-la, lentamente, para seu abraço, a segurando em seu colo. Ela não protestou ou reclamou, simplesmente o abraçou e continuou a chorar e soluçar.

- É tudo culpa minha, tudo culpa minha.. - ela continuava a soluçar - Eu que deixei ela vir, fui eu que permiti.. era só pra ser uma missão de reconhecimento.. meu Deus, me desculpa, Lyn..

Enquanto ele, quase que instintivamente, a abraçava e acariciava lentamente suas costas e cabelos, ele lembrava de ter essa mesma conversa. Memórias difusas de como ela, aos prantos, contou que haviam sido capturadas por terem chegado na loja no mesmo momento que guardas também chegavam. Lembrou de como ambos choraram juntos sob o corpo pequenino de sua filha. E então lembrou de como havia sido capturado.

No dia seguinte da morte da sua filha, ele foi atrás dos Iluminados, de todos eles, para se vingar. Saiu pela cidade, cego de ódio, partindo em dois qualquer Iluminado que visse na rua. Matou inocentes naquele dia, pelo menos, o mais inocentes que civis Iluminados podem ser. Ele também matou guardas, brutamontes do governo, exércitos inteiros. Ele saiu sem rumo, não tinha objetivo. Fez uma trilha de sangue pela cidade, não tinha estratégia naquilo, não tinha missão, não tinha razão. Só ódio. Fúria. Ele queria matar e ele queria morrer. E então...

As memórias cessaram e deixaram para trás uma leve tontura. Deimos não sabia quanto tempo havia se passado desde que começou a se lembrar, mas Alana já havia parado de chorar e o dia não estava mais tão claro lá fora. Ela estava ao seu lado, sem as botas, sentada na cama com as costas encostadas na cabeceira da cama e abraçando as próprias pernas. Ela tinha vestido a camisa roxa, Deimos ficou um pouco aliviado.

Segurou a própria cabeça para fazer o quarto parar de girar e se segurou na cama. Alana percebeu isso e o segurou, puxando ele levemente para seu lado. Ele se deixou ser puxado e sentou ao lado dela, ambos olhando para a parede em frente. Em silêncio.

- Como.. como eles conseguiram te imobilizar..? - Deimos quebrou o silêncio - Digo.. eu te vi lá no beco.. você luta muito bem, você aprendeu a lutar antes ou depois.. daquilo? - Deimos ainda não sabia como lidar com o fato de não só ter tido uma filha, como também ela ter morrido e ele não se lembrar de como era amar ela. Ele estava triste, isso é fato, mas ele não conseguia sentir tanta tristeza quanto o seu eu do passado sentiu.

- Não, não, eu já sabia lutar na época.. - sua voz embargou, ela pigarreou e voltou a falar - Eu simplesmente não vi eles aparecendo atrás de mim. Eles me injetaram alguma coisa, me bateram várias vezes na cabeça, eu quase desmaiei. A Lyn viu eles e até tentou lutar, invocando poeira para cegá-los e, quando um chegou muito perto, ela invocou e lançou três estacas de pedra nele, matando ele na hora. Foi isso que fez um deles ficar furioso e atacar ela, e então.. você sabe o resto.. - sim, ele sabia. Isso respondia a última pergunta que tinha sobre aquele dia, não queria mais falar daquilo, principalmente por que fazia ela sofrer tanto, Deimos não a queria ver sofrendo. Os motivos por trás disso ele não sabia. "Ela é uma mulher bonita demais pra desperdiçar tempo chorando..", pensava Deimos, mas é claro que não era só isso.

- Entendo.. - ele disse e o silêncio retornou.

Eles ficaram em silêncio até a noite chegar lá fora, Alana lentamente se encostou mais em seu antigo marido e repousou sua cabeça no ombro dele. Já estava completamente escuro dentro do quarto e lá fora quando Deimos percebeu o ronco leve e quase inaudível da mulher ao seu lado. Ele olhou para ela, tomando cuidado para não a acordar, e não conseguiu impedir um sorriso de se espalhar no seu rosto. Um leve frio na barriga o atingiu e passou rapidamente quando as imagens de sua filha o atacaram novamente. Ele balançou a cabeça para afastar as imagens e o sentimento estranho que brotava no fundo de sua cabeça.

Enquanto o sentimento ia embora, seu estômago roncou e ele percebeu o quanto estava com fome. Não queria acordar ela e, sendo sincero, ele tinha medo de o que os "amigos" de Alana fariam com ele sem a chefe deles por perto. Por isso se deitou na cama e arrumou, com gentileza, Alana ao seu lado. Ele puxou os lençóis e fez o que podia para cobrir ela assim como si mesmo. Olhou para o teto e enfiou a mão esquerda debaixo de sua cabeça.

Alana ronronou um pouco e se aninhou ao corpo de seu marido. Ela sorria um pouco, mas ainda parecia muito triste. Ela o abraçou e pousou sua cabeça no peito dele, talvez querendo, inconscientemente, ouvir seus batimentos cardíacos e ter certeza de que tudo aquilo não era um sonho.

Mas nem mesmo Deimos sabia se tudo aquilo era um sonho ou não, tudo parecia tão novo, tão estranho, porém tão.. certo. Ele se sentia bem aqui, de certa forma. Ele se sentia no próprio lugar, como se estivesse certo em estar aqui. E talvez estivesse mesmo certo em estar aqui. Talvez fosse certo voltar a vestir o manto de seu antigo eu, voltar a ser o que era antes, seja lá o que for. Não é como se ele sentisse falta de matar as pessoas para comer, "Sim, isso mesmo. Troque a matança por fome pela matança por ódio. Veja que bem isso lhe faz. Deixe de mentir, você é um monstro e gosta de matar, admita.", sussurrou a vozinha em sua mente. Talvez ela estivesse certa, afinal.

Deimos estava estava trocando um motivo pelo outro, mas no final, ambos caminhos davam na mesma estrada. Mas talvez fosse hora de admitir. Ele olhou para os pulsos, marcados e com várias cicatrizes. Não sabia o que pensar. Ele sempre se considerou um monstro, e agora recebia, lentamente, a confirmação de que realmente era um. Porém um bom? Tal coisa não existia. Ele é só uma faca, uma arma. Uma bomba relógio prestes a explodir.

Mas dessa vez ele escolheria em quem iria explodir.

Sim, ele é um monstro, ele é um pesadelo, ele é um terror. Mas agora escolheria quem iria aterrorizar. Não será fácil, mas ele suportará tudo o que eles lhe jogarem, ele levantará, sempre, por que alguém precisa pagar. Não por vingança, mas por justiça. Um leve sentimento, uma parte pequena dentro de si clamava por isso, gritava e berrava. Seu velho senso de justiça, voltando aos poucos, soltando-se de sua prisão.

Deimos irá levantar. Deimos irá lutar. Deimos irá voltar. E ele nunca desistirá.

E lá dentro, dentro de seu corpo franzino, entre as costelas e pulmões, no fundo de seu coração amargurado, com cicatrizes e traumas, lá dentro, bem no fundo.. um Corvo batia as asas novamente.


Notas Finais


FIM DO CAPITULO 2

Espero que estejam gostando dessa história tanto quanto eu, sério mesmo. Eu segurei lágrimas e arrepios enquanto eu escrevia esse capitulo. Mas e vocês? O que sentiram? Me digam nos comentários, e não esqueçam de votar!
Desculpa pela demora, também, andei ocupado.
Espero muito que estejam gostando, obrigado por acompanharem até aqui e até o próximo capitulo!


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