História O Corvo. - Capítulo 5


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Categorias Histórias Originais
Tags Escravidão, Poderes, Política, Revolução, Sobrenatural, Suícidio, Tragedia
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Palavras 7.609
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Ação, Aventura, Drama (Tragédia), Fantasia, Ficção, Luta, Magia, Misticismo, Sobrenatural, Steampunk, Suspense, Terror e Horror, Universo Alternativo, Violência
Avisos: Álcool, Bissexualidade, Heterossexualidade, Homossexualidade, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Mutilação, Nudez, Pansexualidade, Sexo, Suicídio, Violência
Aviso legal
Todos os personagens desta história são de minha propriedade intelectual.

Notas do Autor


Boa leitura!

Capítulo 5 - No Reflexo do Espelho.


Alana avançou com um soco pronto, mirando a barriga do homem, antes mesmo que Deimos pudesse concordar ou não com o treino. Ele agiu rapidamente e tentou desviar do ataque repentino, mas não foi rápido o suficiente e perdeu o ar ao perceber que Alana não estava se segurando. Ela fez um ataque em arco com a lâmina, mirando a cabeça dele e foi por centímetro que não acertou. Deimos se abaixou para evitar o movimento da lança e rolou seu corpo para trás para recuperar o fôlego. Alana não deu janela de tempo alguma para o homem e o chutou conforme ele se levantava, acertando-o na canela e fazendo-o recuar, com dor. Ele recuou o suficiente para bater a cabeça na parede oposta da sala e percebeu, feliz, que tinha tomado distância de sua atacante. Uns cinco metros, ele calculou, mas ela vinha lentamente, lança em mãos para continuar a luta.

Fintando, Alana estendeu a arma e usou a ponta contundente em um movimento de arco vindo de baixo, mirando a cabeça do marido. Acertou o ataque no ombro em vez do queixo, mas aproveitou a oportunidade para empurrá-lo e jogar a lança em outro movimento de arco atacando as costas de Deimos. Acertou outra vez o ataque, forçando-o a rolar para frente com a força do impacto. Deimos deu uma cambalhota e virou-se de prontidão para retaliar os ataques, mãos em posição de luta, mudando a postura para a defensiva, ele desviou do primeiro ataque de Alana e aparou o segundo, segurando com a mão direita o cabo da lança no alto. Entrando em automático, Deimos chutou a barriga da mulher e forçou a arma branca para fora de suas mãos, a jogando para o alto, fazendo ela pousar longe dos dois com um barulho metálico.

Alana não deixou se impressionar pelo feito e o atacou com as mãos, usando movimentos de boxe para acertá-lo na barriga, abdômen e queixo, errando dois ataques e acertando o terceiro. Ele aparou e desviou as mãos da mulher o melhor que pôde, mas era difícil de prever onde ela iria atacar da próxima vez. Deimos não poderia se defender para sempre, então mudou a postura, mudando-a para uma ofensiva. Aparou o ataque dela, um mirando o queixo, e usou o peso dela para jogá-la pelo alto, fazendo com que ela gemesse sem ar quando atingiu o tatame com força. Ele se afastou e deixou ela levantar e recuperar o fôlego, usando o tempo para fazer o mesmo.

- Okay, parabéns, por essa eu não esperava. - Alana sorriu. Ela se divertia com aquilo, era claro.

Ela fintou novamente e deu uma cambalhota quando chegou perto dele, usando o momentum acertar um soco em seu queixo, o lançando para trás vários metros. Deimos caiu ao lado da lança Medo e a agarrou em um movimento rápido, levantando com ela enquanto aparava um outro ataque de Alana. Ele a empurrou usando o cabo da lança e observou enquanto ela o via estender a lâmina em direção ao chão, uma posição de ataque que ele estava imitando dela. Mas não era um homem que Alana viu naquele momento, o que ela viu foi um fantasma do seu antigo marido, o mesmo fogo no olhar, o mesmo jeito de segurar a lança, de estender a mão livre como uma forma de defesa. Ela viu seu marido ali, finalmente.

Claro que Deimos não havia percebido isso, a postura e a forma que ele segurava a lança, para ele, eram uma imitação de o que Alana fez momentos antes, mas não era. Era algo dele, do antigo ele, uma versão que somente ele conhecia e fazia. Ele não percebeu isso, mas Alana, sim. Foi então que ela parou de se segurar.

Correndo para uma das mesas, Alana agarrou a primeira espada que suas mãos alcançaram e usou-a para atacar novamente o fantasma que a perseguia. Ambos ficaram ali, trocando investidas e refletindo ataques um do outro. Deimos não sabia ou percebia, mas todos os movimentos que ele fazia eram movimentos que ele fazia antigamente, quando um exército o chamava de líder, de amigo. Suas habilidades voltavam e Alana manifestava isso em seus ataques, colocando mais força nos próximos, soltando-se, dando tudo de si. Deimos não se defendia mais, ele também atacava, abaixando-se para atacar as pernas, chutando, socando e usando a lança para manter a espada dela a distância.

O casal não viu quando os primeiros cortes começaram a aparecer nos corpos deles, rasgando tecido e carne, fazendo arranhões e talhos. Sangrando, suando, arfando, ambos continuaram lutando, treinando. Trocando sorrisos de vez em quando, trocando ofensas e elogios quando acertavam as lâminas um no outro. Ambos se entendiam, ambos se soltaram, ambos estavam felizes, e, quando os dois caíram no tatame, largando armas e sorrindo, cansados, com corpos e espadas sujos de sangue, rasgos nas roupas e na carne, com suor e sangue empapando os cabelos, ambos sorriram, pois sentiram aquele fagulha acender de novo.

- Até.. que.. você.. - Alana arfou. - Não tá tão fora de forma assim. - ela tossiu, tentando normalizar a respiração.

- Você.. também.. nada mal. - Deimos respondeu, igualmente cansado.

Olhando para o teto, o casal ficou ali, estirados, descansando, por vários minutos. Em silêncio. Um silêncio agradável. Alana foi a primeira a quebrar o silêncio, sentando-se no tatame e olhando para o homem ao seu lado:

- Você se lembrou de algo? - ela perguntou, esperançosa. Deimos pensou na pergunta, não conseguia se lembrar de nada antes de acordar na rua uma eternidade atrás, então balançou a cabeça, negativamente. Claro que Deimos tinha, sim, lembrado de algumas coisas, mas ele não percebeu isso. - Você lutou como antigamente, sabia? - ela se deitou novamente, deixando-se cair. - Você nem deve ter se ligado, mas lutou. Claro que não era exatamente a mesma coisa.. sua estratégia precisa de ajustes e você está muito mais fraco.. - Deimos deu um chute leve na canela de Alana, fingindo estar ofendido. - Que é? É a verdade, oras. Você era bem mais forte. Mas.. é.. no fundo, no fundo, ainda é você aí dentro. - Alana sorriu para ele, um sorriso doce, daquele tipo que não enjoa, que te ilumina e te deixa feliz quando nada mais pode. Deimos gostava de vê-la sorrir.

- Bem.. obrigado. Você também não é nada mal. - olhando para Alana, Deimos adicionou: - Só precisa trabalhar mais na sua esquerda, ela é fraquinha. - Agora foi a vez de Alana chutar Deimos, sorrindo, "ofendida". Eles riram por um momento, sozinhos, trocaram um olhar e voltaram a olhar para o teto.

- Sabe.. - Alana começou. - Eu não cheguei a te dizer isso, por que não tive tempo, mas, Deimos.. - ela olhou para ele, seu rosto parecia sério, porém calmo, feliz. - Eu.. eu.. nah, nada. - ela dispensou o pensamento com um aceno, Deimos percebeu que seus olhos estavam molhados e lágrimas já corriam pela sua face. Ele não fez nenhuma suposição ou teoria do que ela podia ter querido dizer, não quis pensar nisso por que achou que seria uma traição da parte dele se descobrisse antes de ela estar pronta para contar. Deimos anotou mentalmente, mas afundou a nota bem fundo na sua mente. Não era algo que queria perguntar agora. - Qual é a primeira coisa que você lembra?

- Ah. - a pergunta pegou ele de surpresa, não era uma que ele queria responder. Mas respondeu mesmo assim. - A última coisa que eu me lembro antes de acordar na rua, no meio do nada, é um grito. De dor. Essa é a última. A primeira coisa é acordar na rua, no escuro. - ele olhou para a morena ao seu lado, ela escutava atentamente, quando percebeu que ele parou de falar, ela acenou com a cabeça, o convidando a continuar. Ele fez isso: - Eu estava com frio, dor e fome. Acordei no meio da rua, de noite, perto de onde você me achou, para falar a verdade. Eu não sabia onde estava ou quem eu era, só sabia que precisava comer, então.. - sua voz enrolou por um momento. - Foi o que eu fiz.. eu achei um rato e não tive escolha. - Alana entendeu de imediato o que ele quis dizer. Ele continuou. - O rato serviu por algumas horas, mas eu ainda tinha mais fome, foi através de sussurros e conversas por aí que eu fui descobrindo onde se come, o que se come, com o que se compra, coisas assim. Roubei roupas para mim no segundo dia, por não aguentar de frio. Matei alguém inocente no terceiro dia.. ele não quis me entregar a bolsa de moedas dele e tentou me atacar mas.. eu.. - Deimos ficou com a voz embargada, seus olhos enchiam de lágrimas.

- Não.. não precisa falar, tá tudo bem. - Alana se sentou e colocou uma mão no ombro do homem que chorava silenciosamente.

- Não.. tá tudo bem. - Deimos limpou as lágrimas. - Eu passei tanto tempo no silêncio, é bom falar isso para alguém, para variar. - ele pigarreou e continuou a falar. - Ele tentou me atacar, mas eu me desviei, ele caiu no chão e desmaiou, o sangue estava vazando da cabeça dele. Eu peguei a bolsa e fugi, fiquei sabendo dias depois que ele tinha morrido de frio pela manhã. - ele olhou para Alana. - Ele não morreu com a queda, sabe. Morreu de frio várias horas depois. Foi a primeira vez. - Deimos mostrou para Alana o seu pulso marcado por várias cicatrizes, ele apontou uma perto do antebraço. - No dia seguinte, quando descobri da morte dele, eu fiz esse corte, com um caco de vidro, para nunca esquecer. - Alana estremeceu.. haviam mais de dez cicatrizes no braço dele. "Isso só em um braço..", ela pensou.

O silêncio voltou e dessa vez era desagradável, machucando os dois e fazendo-os perceber como estavam frios agora que a adrenalina e euforia haviam baixado. Eles voltaram a olhar para o teto, Deimos contava as vigas que o sustentavam, Alana pensava em algo completamente diferente. Foi quando um pensamento lhe ocorreu:

- Espera! - Alana exclamou, se sentando, rapidamente. - Você disse que não sabe quem é.. isso significa que você não sabe como se parece?! - ela o pegou de surpresa, mais uma vez.

- Ah.. não, eu não sei. Nunca vi meu reflexo e não lembro como me pareço. - ele deu de ombros. - Não é como se eu quisesse ver a face de um monstro, também, então nunca liguei muito para isso.

- Você tá de sacanagem?! - Alana perguntou, incrédula. - Você não sabe como você se parece? Tipo, sério? - mais uma vez, Deimos confirmou que sim com a cabeça. - Você tá de sacanagem comigo.. - ela se deixou cair no tatame, novamente, descrente. Se levantou, de supetão e espanou a poeira das roupas, olhou para ele e estendeu a mão, agitando os dedos, impaciente, quando ele demorou para agarrar a oferta. - Vem, vem logo. Vou te mostrar como você é. Relaxa, eu te dei banho quando chegamos aqui, você está limpinho e não está parecendo um monstro. - ele olhou desconfiado. - Eu juro. - Deimos fez um muxoxo e agarrou sua mão, ainda desconfiado e levemente envergonhado por saber que Alana havia o banhado. Ela o ajudou a se levantar e ambos deixaram a sala.

Passando pelos mesmos lugares de antes, agora ambos descalços, eles cruzaram o tribunal para subir as escadas do mezanino e, com Alana na frente, o casal traçou o caminho para o quarto que ela tinha apontado como seu próprio. Deimos sentiu um calafrio ao perceber que iria entrar no quarto de uma mulher, mas ignorou e seguiu em frente. Alana entrou na frente e acenou para que Deimos a seguisse.

Entrando no quarto, a primeira coisa que Deimos percebeu foi como o cômodo cheirava bem. Ele tinha um cheiro de sabonete floral, algo que ele não associava a Alana até agora, como se fosse algo que ele não tivesse percebido nela até então. A segunda coisa era a falta de tochas no quarto, haviam duas, mas, em um lugar que tinha sido abundantes até então em relação a sua iluminação, este quarto deixava a desejar. O quarto estava desarrumado, com roupas jogadas pelo chão e a cama desfeita. Mas o quarto em si não tinha muita coisa, em si, era a cama, o chão de madeira, um guarda roupa , uma cômoda na frente da cama e era só. A direita da entrada do quarto, havia a porta para o que Deimos podia concluir ser o banheiro. Em cima da cômoda, roupas escondiam um volume por baixo, se as roupas estavam ali de propósito ou por acidente, Deimos não sabia. Ela o guiou até o banheiro, branco e ladrilhado, o banheiro tinha menos ainda a oferecer. Havia uma banheira, uma pia, a privada e um espelho pendurado acima da pia. A banheira parecia ter sido recentemente usada a julgar pelos pingos de água que ainda escorriam para o ralo.

A mulher ficou ao lado da pia, esperando que Deimos viesse observar o próprio reflexo. O sorriso se espalhava pelo rosto dela, como se ela estivesse prestes a apresentar algo maravilhoso para um melhor amigo.

Deimos lentamente andou até a pia, e olhou o homem que o observava pelo espelho. Ele provavelmente tinha sido pálido um dia, mas agora sua pele era queimada e bronzeada pelo sol. Assim como Deimos acreditava, ele tinha cicatrizes em seu rosto também, raras e pequenas, mas ainda estavam lá. Cicatrizes circulares e minúsculas se localizavam em sua testa e bochecha direita, parecendo crateras menores que uma unha. Um grande risco lhe partia os lábios já rudes e amargos o suficiente. Suas orelhas eram um pouco abertas, mas se escondiam atrás de seu cabelo. O cabelo desse homem amargo, agora limpo, caíam em mechas lisas até seus ombros. Eles eram negros e bonitos, mas simplórios em todo o resto. Pequenas rugas espalhavam-se pelo rosto dele, dando-lhe uma aparência velha. Deimos percebeu as linhas de sorriso, que mostravam que ele sorrira muito um dia. Não agora, claro. Olheiras se estendiam orgulhosamente debaixo de seus olhos já cansados e suas sobrancelhas eram espessas, mas bem-definidas. Deimos teve a sensação de que deveria agradecer a Alana por isso. Seu nariz era quebrado, obviamente, e um pouco mais bulboso na ponta do que ele achava inicialmente. Sua barba ainda estava por fazer, mas não aparentava ser suja ou mal cuidada. O homem não pôde conter uma risada quando percebeu que uma "bolha", perto da sua orelha, que o irritava tanto anteriormente na verdade não passava de uma pequena pinta. 

Deimos estava surpreso, do couro cabeludo aos dedos dos pés. Ele estava surpreso pois não era um homem que ele consideraria feio. Claro que Deimos não viu muitos homens, ele sempre olhava para as suas carteiras, não seus rostos. Assim era melhor, rostos não vinham o atormentar nos seus pesadelos, mas ele nunca esquecia das vozes. 

- Tá vendo as marquinhas de bolhas do lado do seu rosto? - Alana apontou, gentilmente, com o dedinho, as cicatrizes circulares que Deimos observou. - Foi quando um Iluminado acertou você com um tipo de ácido. Seu corpo foi mais atingido, mas caiu um pouco no seu rosto também, formou bolhas pequenas, do tamanho de uma unha, e quando elas estouraram sozinhas, as cicatrizes estavam aí. Você também tem mais dessas no braço direito e no peito. Não nas costas, claro, suas asas o protegeram ali. - Deimos soltou uma risadinha, parte dele ainda não acreditava naquilo tudo. Claro, ele estava lá e já tinha prometido fazer parte daquilo, mas não era como se não duvidasse as vezes. O que Deimos não admita, porém, era que ele sentia que esse era o certo a se fazer e não estava fazendo isso só por causa de sua promessa silenciosa na cama da enfermaria, tinha um motivo a mais ali e ele sabia disso. 

Com uma curiosidade para ver as tais cicatrizes, Deimos despiu a camisa que vestia, deixando a mostra seu peito nu e cortes recentes. Brincou com as formas no seu peito, como se nunca as tivesse visto antes e, quem sabe, talvez ele não tivesse visto mesmo. Era como ver uma criança conhecendo o playground pela primeira vez. 

Alana fez uma careta, ele estava magro. Ela já tinha visto ele assim, no beco e novamente na banheira quando ela o limpou, mas ainda a surpreendia, e machucava, ver as costelas de seu marido aparecendo tão proeminente em um peito que ela amava tanto. Tudo ali parecia tão fora de lugar, até mesmo as cicatrizes que ela já conhecia. A barriga funda, os relevos de seus ossos, as cicatrizes circulares de tamanhos diferentes, lembrando crateras. Tudo ali. Tudo ali parecia diferente do Deimos que ela conhecia, porém tão igual. Um livro favorito, que você já sabe de cor, mas que agora tinha páginas novas. Alana não sabia se eles poderiam fazê-lo voltar ao que era antes, nem sabia se era possível, mas ela precisava fazer isso. Precisava tentar. Ela foi a única que continuou o procurando, mesmo quando todos os outros desistiram, ela não podia desistir agora. Esse era seu marido, ela o amava, ela faria tudo por ele e faria o impossível para vê-lo saudável novamente. No corpo e na mente. Ele é tudo que Alana tem. 

Era quase torturante para Alana ver seu marido tão perto de si, mas não poder tocá-lo, beijá-lo. Tocar suas cicatrizes mais uma vez, fazer seus dedos passearem pelas linhas e "crateras", brincando com os relevos e fazendo cócegas nele ocasionalmente. Ela fechou os olhos e pensou nesses dias, nesses dias antigos e bons, quando eles eram felizes e se amavam. Quantas vezes ela não tocou naquele corpo? Quantas vezes não desejou tocar? E, apesar de ter feito muito isso em suas noites particulares com ele, não era somente o toque sexual que ela ansiava. Era qualquer toque. Muitas vezes o casal se mantinha de mãos dadas, ou com dedinhos entrelaçados, pernas se tocando quando estavam lado a lado, não por que era algo sexual, mas por que era a forma deles de ficarem perto um do outro, pelo toque, do corpo e da alma. É difícil de entender se uma pessoa descobrisse, principalmente uma que não amou alguém tão intensamente assim, mas o toque dele no corpo dela, fosse ele em seus seios, lábios ou braços mandavam-lhe arrepios espinha acima. E ela sabia que o toque dela surtia o mesmo efeito nele, ela lembrava de quando ambos entrelaçaram os dedos em meio de batalhas ou discussões e como se sentiram depois. Tudo estava bem, tudo era colorido, tudo era amor. Pois eles estavam lá, um pelo outro e se amavam. Tudo estava bem pois eles estavam juntos. 

Mas agora Alana abriu os olhos e encarou a realidade. O corpo esquelético e cortado de seu marido, com cicatrizes que ele mesmo infligiu e cicatrizes de torturas que ela sabia ser cúmplice. Ela viu o seu amor ali, em cada cicatriz, grande e pequena, seu amor sendo cortado várias e várias vezes. Quantas vezes ele não deve ter gritado o nome dela antes de que lhe apagassem a memória? Quantas vezes ele não deve ter dito que a amava, silenciosamente, enquanto sofria? "Mas e quanto as vezes que ele lhe xingou? Lhe amaldiçoou? A mandou para o Inferno por ter condenado ele a ir na frente? Alana, não se engane, você não merece este homem, você o matou, você o torturou, você o fez sangrar e o fez morrer. Olhe para o que você fez, Alana!", a voz em sua mente era venenosa, metálica, ríspida, doía ouvir, doía ouvir por que ela sabia que era verdade. Era a voz de sua vó. Era a voz de sua tia. Era a voz de seu pai. De seu tio. Era a voz das pessoas que a odiavam. Alana fechou os olhos, não aguentando mais ver o que tinha feito com o homem que mais amava, seus olhos vazavam lágrimas culpadas e silenciosas. 

"Fazendo-se de coitada até agora, Alaninha? É sério isso? Você não merece chorar, você não merece as lágrimas, você não merece. Você merece a dor, a tortura. Olhe para o que você fez, Alaninha.", a voz falava e Alana não abria os olhos, os selando fortemente assim como ela fez quando era criança e sua família diziam coisas tão ruins quanto, faziam coisas tão ruins quanto. Ela chorou. Ela chorou sozinha em um quintal vazio, com frio e pegajosa por causa da bebida que jogaram nela, ouvindo as risadas deles lá dentro, e também chorou sozinha em um banheiro com um homem que não merecia. Ela estava sozinha. Aqui e lá, sozinha. Torcendo para que quando abrisse os olhos, o pesadelo acabaria e ela poderia acordar. "Mas isso não é um pesadelo, não é, Alaninha? Isso não é um pesadelo e você está sozinha. Você o condenou e fez isso de cabeça limpa, sabendo das consequências e agora você não consegue enfrentá-las.", a voz agora vinha de trás de sua cabeça, sussurrando seu veneno imundo. Ela continuou: "Não, você não consegue, a Alaninha não consegue enfrentar seus demônios. De novo. Olhe o que você fez, Alana. Olhe!", a voz continuava, quase que entoando uma pequena canção enquanto matava Alana por dentro. O veneno se espalhava e a mulher, vítima de si mesma, chorava, balançando a cabeça, tentando apagar da sua cabeça o que eles fizeram com ela. "Olhe, Alana. Olhe, Alana. Olhe, Alana.", os sussurros continuavam, com tons diferentes e vozes diferentes, mas todos diziam a mesma coisa e iam ficando mais alto a cada lágrima que ela soltava de seus olhos culpados. Ficando mais alto, mais alto e então.."OLHE PRA MIM QUANDO EU FALO COM VOCÊ, SUA VAGABUNDA IMPRESTÁVEL!".

Alana abriu os olhos, ofegante.  Ela não percebeu quando, mas Deimos tinha lhe entregado a camiseta dele e ela a usara para assoar o nariz e limpar as lágrimas. Seu estado estava deplorável, ela não sabia por quanto tempo havia chorado, mas parecia ter sido horas, apesar de isso ser impossível. Ela estava com as bochechas vermelhas, nariz escorrendo e os olhos inchados, assim como estava no dia em que percebeu quão grande tinha sido seu pecado. 

Mas agora ele estava lá. A olhando. Deimos a olhava com uma expressão vazia, levemente preocupada. Ela olhou nos olhos dele e reconheceu o sentimento que estava ali, como uma fagulha se acendendo. Ela não merecia essa fagulha, mas, quando um Deimos de peito nu e com lágrimas de compaixão nos olhos, a agarrou e puxou-a para um abraço apertado, ela aceitou mesmo assim. 

Deimos não sabia consolar alguém, nunca soube, sempre foi horrível nisso, apesar de ter muita empatia. Ele arrumava os problemas, ouvia as pessoas, mas ele nunca conseguia consolá-las completamente, elas sempre continuavam tristes, mas Deimos abraçou Alana ainda assim, sabendo de tudo isso, ele a queria bem, queria ver o sorriso dela, mais uma vez. Não sabia por que ela estava chorando e se ela não falasse, ele não perguntaria. Ele só a abraçou e segurou-a forte contra seu peito nu, ignorando as pontadas de dor que isso lhe causava quando as roupas dela roçavam em seus cortes recém abertos pelo seu treino. 

- Por favor.. por.. favor.. me desculpa.. me desculpa, por favor.. - Alana soluçou, ela o abraçava, chorando em seu ombro, tentando controlar as lágrimas, o barulho, e falhando miseravelmente. - É tudo culpa minha.. é tudo culpa minha.. me desculpa, amor. O que foi que eu fiz?? - ela continuava chorando, limpando as lágrimas ora na camisa do marido, ora no corpo do mesmo. 

- Eu te perdoo, Alana. - Deimos conseguiu se fazer ouvir por entre as lágrimas dela. Ele chegou mais perto do ouvido dela e sussurrou: - Eu te perdoo, Alana. Estou aqui por você. - e isso a fez chorar mais ainda, ela chorava agora, mas estava feliz, estava feliz por que isso era o que queria ouvir, mesmo não merecendo. 

"Mas talvez você mereça, afinal.", uma voz falou com Alana, em sua cabeça. Ela conseguia ouvir o sorriso dele em sua voz, conseguia sentir. Sabia a quem pertencia aquela voz. E sorriu, fazendo lágrimas salgadas caírem dentro de sua boca. "Eu ainda estou vivo, Alana. Estou vivo e eu te perdoo, por que eu te amo. Te amei uma vez e amarei novamente. Abra os olhos, bobinha, olha quem você está abraçando.", a voz continuou falando com ela, calorosamente, amavelmente. E conforme Alana percebia o calor do seu marido a abraçando e sussurrando em seu ouvido que iria ficar tudo bem, ela lentamente parou de chorar. Por que sabia que iria ficar tudo bem. Ficaria tudo bem por que ele estava lá. 

Alana demorou vários minutos para terminar de chorar, mas em nenhum momento as carícias em suas costas, ou os sussurros de esperança e perdão em seu ouvido, pararam. A mulher limpou novamente as lágrimas, e ranho, na camisa que Deimos vestira há momentos antes. A camisa agora estava completamente molhada. Ela o soltou e ele, não querendo forçar um gesto que ela talvez não desejasse, fez o mesmo. Ela sorriu para ele, um sorriso sincero, fraco e que pedia desculpas. Ela lhe ofereceu o tecido encharcado de volta e ele o aceitou, só para jogá-lo na pia logo depois. A camisa não era importante. 

- Desculpa.. pela camisa. - Alana sorriu, sem graça, limpando o resto de ranho que ainda escorria de seu nariz. 

- Tá tudo bem. - Deimos dispensou o pedido de desculpas com um aceno. - Não era minha, mesmo. - ambos riram, uma risada rápida e levemente preocupada com um sentimento de pesar. 

- Ob.. obrigado, Deimos. - Alana gaguejou. Ela mirou os olhos dele, procurando o sentimento que ela sentia, mas se ele estava lá, estava escondido. Não era hora, não ainda. Mas ela sabia que ele sentia algo por ela, sabia bem. Mas não podia fazer coisa alguma. Ela olhou para a sua boca, seus lábios, os que ela já tocara tantas vezes. Com as mãos, dedos, lábios..

E, num impulso, Alana puxou Deimos para um beijo.Ela precisava saber, precisava sentir, precisava tocar. O beijo o pegou de surpresa, mas ele não negou, não a xingou, não a empurrou, ele se deixou levar. Se entregou e se devolveu ao beijo, fazendo ele ser quente, doce, bom. Eles dividiram aquele momento como dividiram tantas outras coisas antes disso. Eles se beijaram, tocando os lábios um do outro com beijos longos, com beijinhos e até mordidas. Eles se deixaram levar e quando soltaram os corpos um do outro, eles não sabiam se havia passado um minuto, ou uma hora. E quando Alana olhou para os olhos vermelhos de seu marido, ela enxergou, ali, por um momento, o sentimento que ela sentia desde que eles se beijaram pela primeira vez. Ele estava ali, em seus movimentos, em seu beijo, até mesmo no embaraço envergonhado nos seus olhos, que substituiu a fagulha quando eles se soltaram. 

Ela o achou fofo e se segurou para não beijá-lo novamente. Ela queria e sabia que ele queria, mas não podiam, não de verdade, então ela se segurou e fez uma anotação mental para lembrar depois de beijá-lo quando ele voltasse ao normal. É engraçado, ela sabia, que ela tenha aprendido algo tão útil como as anotações mentais com Deimos. Era sempre que ela ensinava ele, mas isso foi uma das poucas coisas que ele a ensinou, isso é, se estavam falando de habilidades em si, por que se contasse tudo que Alana aprendeu de seu marido nos quatro anos que estiveram casados e os dois que estiveram namorando, então ela não saberia por onde começar a lista. 

Eles se afastaram, ambos levemente envergonhados e com bochechas vermelhas e balbuciando desculpas. Ela tocou os próprios lábios, tinha esquecido de como era a sensação de beijar. De como era bom. Deimos estava tendo um sentimento parecido mas claro que, para ele, essa era a primeira vez que ele tinha sido beijado. E ele tinha adorado. Ambos estavam experienciando o sentimento bom e arrepiante da barriga, parecida com cócegas mas muito mais prazerosas. 

- Eu, ahn.. desculpa, eu me deixei levar. - Alana se desculpava, mas era da boca pra fora, na verdade, ela não se arrependia nenhum pouco do que tinha feito. Tinha gostado e sabia que ele tinha gostado também, a julgar pela retribuição do beijo dela. Ela ainda tocava os lábios com seus dedos, descrente do que tinha feito. Ela mexeu a língua pela boca, sentindo um gosto leve de ensopado. Fez uma careta, talvez ela se arrependesse um pouco, afinal. 

- Tá.. tudo.. bem.. - Deimos se enrolou com as palavras e soltou-as mais baixas que um sussurro. Suas bochechas iam avermelhando a cada batimento cardíaco. Um silêncio se espalhou pelo banheiro. O casal não sabia o que falar. 

Momentos se passaram e o casal ouviu passos leves entrando no quarto, a porta ainda estava aberta e mesmo da frente da pia do banheiro, era possível ver a figura musculosa e larga de Phobos. Ele não aparentava ter qualquer tipo de emoção em seu rosto além do cansaço. Seus olhos estavam entreabertos e ele parecia, estranhamente, estar adormecido. Ou quase. 

- Alana.. você está bem? - Phobos balbuciou, sua voz carregada de sono. Alana deu um sorriso de gratidão, de carinho. Olhou para Deimos e fez gestos para ele esperar no banheiro e, sem fazer barulho, seus lábios formaram as palavras "Eu cuido disso". 

Ela prosseguiu para o quarto e foi gentilmente guiando Phobos porta afora, dizendo que ela estava bem e que ele não precisava se preocupar. Deimos assistiu toda a cena com um semblante confuso. Confuso pela aparição repentina do homem no quarto de Alana, confuso pelo beijo mais repentino ainda e confuso pelo sentimento que se espalhava do seu peito para o corpo todo. 

Ela fechou a porta e voltou o olhar para o banheiro onde Deimos ainda esperava, enquanto encostava suas costas na porta, suspirando. O seu olhar parecia pedir desculpas. Não perdão ou algo tão profundo, mas sim algo como "Desculpe pela demora". Ela deu um sorriso e fez um sinal para que ele a seguisse. Sem esperar por ele, ela se desencostou da porta e andou até a cama, se jogando nela ao chegar perto. Pó voou da cama e a fez tossir. Ela não mentiu ao dizer que não dormia mais nesse quarto. Alana espanou um lugar da cama e fez sinal para que Deimos se sentasse ali. Ele se sentou, tímido, e Alana fez questão de deitar a cabeça no colo dele. De início, Deimos se sentiu desconfortável e quase pediu para ela parar com isso, mas depois passou a se sentir bem ao observar o peito da mulher subindo e descendo, calmamente, conforme ela relaxava mais e mais. Ele não sabia, mas Alana estava com medo de que ele fosse, justamente, pedir para ela sair, se ele tivesse feito isso, ela talvez não chegasse perto dele durante o resto da semana, no mínimo. Mas ele não fez e ela relaxou. 

Ela se sentia bem perto dele, apesar de ser doloroso a maior parte do tempo. Se sentia confortável e completa. Mesmo com os seus ataques de pânico ocasionais, ela sabia, no fundo, que a pessoa que ela era e a pessoa que lhe fez mal havia morrido, e sabia que ela o amava mais que si mesma. Mas o que lhe fazia sofrer era justamente isso, o fato de ela o amar, porém, tê-lo machucado tanto. Ela se culpava e, na maior parte do tempo, se odiava. Mas continuava a amá-lo. Era a única certeza que ela tinha. 

- Ele me ouviu chorar. - Alana explicou, olhando para o teto. - Depois que você se foi.. ele e eu passamos por várias brigas e muitas vezes eu vinha para esse quarto chorar. Eu ficava aqui - ela fez um gesto para a cama. - chorando e chorando. Só fazia isso. Ele ouviu isso uma vez, quando ele estava indo dormir, e veio aqui me consolar. Desde então, ele fica de escuta para ver se estou chorando, às vezes, mesmo cansado, ele vem aqui me consolar. Teve várias vezes que Marli ficou chateada ou com ciúmes por que ele ficou aqui me abraçando e dizendo que vai ficar tudo bem até eu dormir. - ela suspirou, espantando várias partículas de poeira que estavam flutuando pelo quarto. A atmosfera do quarto era confortável, apesar de triste, e Alana sabia que sentia a mesma coisa dentro de si. 

- Isso é legal, da parte dele. - Deimos comentou. Ele começava a gostar, aos poucos, de Phobos. Ainda não o via como irmão e talvez nunca visse, eles nem ao menos se pareciam, afinal. Mas ele parecia ser uma pessoa boa e Deimos conseguia respeitar e admirar isso. 

- Sim, é. - Alana concordou. - Ele é uma pessoa boa, sabe. E sente sua falta. Muita. Ele não quer dizer e vai negar se você falar isso com ele, mas ele está feliz que você está aqui, que você está vivo. - ela olhou para Deimos, o observando com seus grandes olhos cor de mel. - Eu também estou, sabe. Feliz, isso é. Que você está aqui. - Deimos fez um muxoxo. Não acreditava nisso, não completamente, mas esse sempre foi o problema dele, ele nunca acreditava que outras pessoas podiam, realmente, gostar dele. Foi esse mesmo sentimento que causou várias brigas entre eles antigamen.. Deimos lembrou de uma de suas notas mentais. 

- Alana. - Deimos olhou para a mulher. Linda mesmo no escuro, com olhos inchados e marcas de lágrimas pelo rosto, ela olhou para ele, com atenção nos olhos doces. Deimos sentiu o frio na barriga voltar, mas o combateu o melhor que pôde. - Eu me lembrei de algumas coisas. Hoje e antes, no beco. - Alana pareceu mais interessada ainda, sentando-se para ouvir melhor, um convite silencioso para ele contar o que lembra. - Eu lembrei de uma cena. Não lembro onde estávamos, mas você acariciava minhas.. asas.. - Deimos ainda não acreditava completamente que realmente havia tido asas, mesmo assim, continuou: - enquanto eu cuidava de um ferimento no meu peito, uma facada, eu acho. - Alana assentiu, ela se lembrava desse dia. Realmente havia acontecido. - Outra memória foi.. quando você e a.. Lyn.. foram capturadas.. - uma sombra passou pelo rosto de Alana e, por um momento, ela pareceu que iria chorar novamente, mas não chorou. - Eu também lembro do dia seguinte do enterro dela, eu saí pela cidade, matando todos os Iluminados que eu via. E agora mesmo me lembrei de vezes que brigamos. - ele terminou e olhou para ela, esperando comentários. 

Alana deitou-se na cama, jogando os pés para fora do colchão, fazendo-os tocar levemente no chão. Estendeu seus braços e suspirou. Deimos permanecia esperando comentários, sentado no pé da cama. A mulher passou a roer as unhas depois de alguns minutos, ela permanecia quieta e o ar na sala ficava pesado. Deimos ficava impaciente, ele pigarreou, chamando a atenção da mulher. Ela levantou a cabeça e o olhou por cima do próprio corpo. 

- Ah, desculpa. - ela parou de roer as unhas. - Eu só não sei o que dizer, essa noite foi muito cheia. Talvez precisemos descansar. - Deimos discordava, ele havia acabado de acordar, praticamente, mas falou nada, não sabia se ela tinha dormido ou não. - Eu vou tomar um banho e ir dormir, talvez você queira fazer isso também. Se quiser, eu preparo um banho pra você. 

Deimos fez que sim e Alana levantou e saiu do quarto, pegando alguma coisa no banheiro antes. Disse um "volto logo" que Deimos não ouviu e saiu porta afora. Ele não ouviu por que estava ocupado pensando, ansiosamente, em como seria seu banho.. ele nunca tinha tomado um banho antes. Bem, ele tinha tomado um, segundo Alana, quando chegou aqui. Mas ele estava desacordado na hora e não se lembrava de como era. Ele estava com um certo medo. 

Alana voltou dez minutos depois e pediu para ele o acompanhar, ela o levou escadas abaixo e o guiou até a enfermaria de novo, mas em vez de entrar no quarto no fim do corredor, o de Deimos, ela entrou no quarto anterior e fez com que ele entrasse também. O quarto estava escuro e Alana, quase que prevendo o que ele iria falar, acendeu uma vela e, colocando-a num suporte, entregou para ele.  

O quarto era igual ao seu, mas a cama estava arrumada e a esquerda da entrada, havia uma porta que em seu quarto não existia. A porta dava até um banheiro igual ao de Alana, mas com ladrilhos verde-escuros e uma banheira cheia de água fumegante. 

- Ali está os sabonetes reservas do meu quarto. - ela apontou uma caixinha de madeira do lado da banheira com algumas coisas dentro e um cabo de madeira saindo para fora da caixa. - Assim como uma escova para as costas e outra para os dentes e uma ampola de shampoo. Pode usar tudo da ampola, seu cabelo é longo e deve estar suado depois do nosso treino. - Alana se virou para sair, quando Deimos tocou seu braço para chamar a atenção dela. 

- Eu não tenho roupas limpas. - ele disse e era verdade, as roupas que ele usava não era as mesmas que usou no beco, ele estava com roupas brancas e novas, provavelmente de Phobos ou de alguém tão grande quanto a julgar pelo quanto elas ficavam folgadas nele. 

- Hum.. isso é verdade. - ela fez um muxoxo, realmente não percebeu isso. - Tá tudo bem, pode tomar seu banho, vou deixar uma muda de roupas na sua cama, no quarto da enfermaria. O do lado, você sabe de qual estou falando. - ele assentiu e ela se virou para sair do quarto, voltando segundos depois, antes mesmo dele começar a se despir, com um tecido bege nos braços. - É uma toalha, vou deixar ela aqui. - ela depositou a toalha em cima da cama perfeitamente arrumada. - Alguma pergunta? 

- O que eu faço com a água depois? - Deimos perguntou, ainda com um certo medo de que se afogaria na banheira. 

- É só puxar o ralo no fundo, nós temos um sistema de encanamento. - Alana explicou e se virou para ir embora, ela parecia com certa pressa. 

- Ah, Alana.. - Deimos a chamou, tendo quase certeza que ela iria lhe responder rispidamente e que estaria brava com ele, mas quando ela o olhou ainda com os olhos doces, porém, sérios, ele continuou: - Por que não tem um banheiro no meu quarto? - Deimos estava realmente confuso, mas Alana riu mesmo assim, fazendo-o sorrir e agradecer por não ter dado ouvidos ao arrependimento momentâneo. 

- Eu não sei, me diga você, você é que construiu esse lugar. - ela lhe enviou um sorriso e ele retribuiu o gesto. Ainda sorrindo, mas sem dizer mais palavra, Alana saiu e fechou a porta atrás de si. Deimos conseguiu ouvir ela cantarolar pelo corredor. Só quando o canto dela desapareceu que ele se despiu, depositou a vela em cima da pia e entrou, com cuidado, na banheira de água quente. 

A água o embalou e, depois de perder o equilíbrio e escorregar dentro da banheira espalhando água por cima da borda, ele conseguiu relaxar e aproveitar o banho quente. Era uma sensação realmente agradável, ele se sentia quente, confortável e leve. Ele sentiu suas feridas do treino cessarem o ardor, que ele nem tinha percebido até então, e se acalentarem com a água quente que o envolvia. Deimos observou quando a água foi se tornando avermelhada por culpa de suas feridas abertas e expostas. Ele não tinha percebido que haviam tantos cortes, eram cinco na coxa direita, quatro no peito e incontáveis no antebraço esquerdo onde ele tinha aparado vários ataques de Alana. Todos eles não eram tão profundos, sinal de que mesmo dando tudo de si, Alana se controlou, e Deimos sabia ter feito cortes tão ruins quanto no corpo dela. Mas ele sabia ter se controlado, então suspirou aliviado. 

Deimos passou dois minutos inteiros só observando as feridas e entregando o corpo à água quente, quando percebeu que a água começava a, lentamente, esfriar, ele pegou o sabonete na caixinha e o usou para limpar seu corpo o melhor que pôde, o engraçado disso é que Deimos nunca tinha usado um sabonete antes, essa era sua primeira vez e ele só sabia como usar por que viu um Trabalhador do bar onde ia fazer isso antes de tocar nos copos. Mas ele não fazia ideia de como usar o shampoo que Alana havia falado. Ela havia mencionado que era para o cabelo, não? Deimos virou o conteúdo da ampola de vidro no próprio cabelo, não sem antes fazer metade do líquido cremoso cair na água, desperdiçando o produto. Ele espalhou o líquido pelo cabelo e fez o melhor que pôde para não se espantar quando bolhas começaram e espuma começaram a aparecer. A sensação era boa, então Deimos continuou a massagear o cabelo com a espuma, o limpando no processo. Mas quando a espuma atingiu seus olhos, Deimos segurou um grito de dor e entrou em pânico para tirar o maldito shampoo de seus olhos, odiando o produto com todas as forças enquanto o fazia. Ele segurou a respiração, fechou os olhos e mergulhou a cabeça na água, tentando limpar o shampoo de seus olhos cerrados. Limpou também a espuma do cabelo, não queria mais aquilo nem perto de seu corpo. 

Quando emergiu a cabeça, seu cabelo estava sem espuma e seus olhos tinham parado de arder, apesar de agora lacrimejarem, uma reclamação silenciosa. Deimos xingou o shampoo, jogando, com raiva, a ampola de volta para a caixa. Evitando a ampola desgraçada, ele bisbilhotou a caixa e viu ali uma escova de madeira de cabo longo e outra escova, bem menor, com cerdas mais duras que a longa. Deve ser essa a escova que Alana se referiu quando disse "escova de dentes". Mas ele não sabia como usá-la, então resolveu deixar ali e perguntar para Alana depois. 

Quando a água começou a ficar fria demais para Deimos, ele saiu do banheiro e, completamente nu, correu para o quarto e se cobriu com a toalha em cima da cama. Secou o rosto e cabelo o melhor que pôde e desceu a toalha para a cintura, a segurando lá, protegendo suas partes íntimas de olhos alheios, porém ausentes. Andou de volta até o banheiro e percebeu que havia molhado o chão de ladrilhos, fazendo-o ficar escorregadio. Agradeceu por perceber isso e andou com cuidado, não queria escorregar. Se abaixou e buscou o ralo dentro da banheira, o puxando quando encontrou. Levantou-se e assistiu a água escoar. Virou-se e tentou andar até o quarto, mas pisou em falso e escorregou no chão molhado, caindo de costas no chão e, por centímetros, quase batendo a nuca na banheira. Deimos levantou irritado e vermelho de vergonha, usou as roupas que vestira minutos antes para secar o chão, jogando as roupas, agora molhadas, na pia quando terminou. 

Deimos andou, ainda descalço, para o seu quarto, carregando o suporte com a vela, ainda acesa, e viu, com surpresa, a sua cama arrumada e roupas dobradas em cima dela e botas pretas no chão a frente da muda de roupas. Ele analisou os tecidos e percebeu, instintivamente, que aquelas roupas eram suas. As calças eram pretas, grossas e pesadas, iguais as de Alana, havia também uma camiseta de algodão vermelha-sangue e um sobretudo de tecido preto por fora, e também vermelho-sangue por dentro. Similar a calça, o sobretudo parecia ser feito para batalhas, pois era pesado e mais grosso que o norma. O incomum nas roupas era a parte das costas da camiseta e do sobretudo. Ambos tinham um tecido diferente, porém da mesma cor, costurado, onde deveria ficar o tecido que cobriria a parte das costas. Demorou um pouco para Deimos perceber que esse tecido era para cobrir o buraco por onde suas asas passavam, antigamente. 

Sem saber o porquê, ele sentiu pesar e tristeza ao vestir as roupas, como se ele vestisse uma roupa de alguém que havia morrido e nunca mais retornaria e, de certa forma, ele estava certo. Vestiu também as botas, que encaixavam perfeitamente em seus pés calejados. 

O sobretudo continha vários bolsos pequenos e secretos, dentro e fora, mas Deimos não encontrou nada dentro. As roupas cheiravam bem e Deimos se sentiu confortável ao vesti-las. Não só física, como mentalmente. Ainda carregando o suporte com a vela que diminuía de tamanho, ele caminhou até o espelho do banheiro do quarto ao lado e se olhou bem.

Um homem que ele não conhecia o olhou de volta. Os cabelos ainda estavam molhados, as cicatrizes ainda estavam nos mesmos lugares e ele ainda era o mesmo. Mas ao mesmo tempo, também não era. Era melhor e só havia passado um dia aqui ainda. Como ele pareceria amanhã? 

Hoje ele parecia um líder, um homem de verdade, um homem que ele não gostaria de ver na rua, vindo em sua direção. E quando Deimos virou-se para sair do banheiro, ele viu, de relance, olhos vermelhos brilhando, demoníacos, onde os seus castanhos-avermelhados deveriam estar. Seus olhos antigos. Seu eu antigo. De relance, Deimos viu a si mesmo no espelho, o que ele era, e o que ele voltaria a ser. 


Notas Finais


FIM DO CAPITULO 4

Espero que estejam gostando da história, tô colocando tudo de mim nela e usando-a como diário tanto quanto estou usando ela para entreter a vocês e, obviamente, a eu mesmo. Então se ela ficar pesada ou triste demais, às vezes, é por causa disso.
Quem me conhece já deve ter percebido quantas referências, críticas, comentários a eu mesmo e a pessoas que eu sou relacionado estou fazendo aqui.
Também tô tentando ser cada vez mais rápido para escrever os capítulos, mas sem prejudicar a qualidade, que é minha prioridade principal, sempre.
Então se puderem, por favor, comentem e votem pra eu saber que vocês estão acompanhando e gostando. Isso só me motiva a ir cada vez mais rápido.

Até o próximo capitulo!


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