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História O Crush que bate um bolão - Capítulo 32


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Notas do Autor


Não tenho nem cara de aparecer aqui... Mentira, tenho sim!
Sem delongas: A fic se aproxima do lemon mais esperado da América Latina e isso me deixou bastante apavorado. Trata-se de um ato supervalorizado por vocês, leitores a quem tanto amo, e, na busca de trazer o melhor para vocês, acabei por repensar diversas e diversas vezes os capítulos. Mas agora passou. Sinto-me mais preparado para escrever esse ato e, em caso de desgraça, me avisem! Não mordo, não xingo! Preciso mesmo de ajuda com cenas assim...
Boa leitura a todos!

Capítulo 32 - Fé


Dentro de cada ser que habita o louco mundo dos seres humanos vive alguém cujo brilho tem uma força própria, algo sobressalente que nos faz destoar uns dos outros e ter identidade e modo de agir vindos dos primórdios de nossa formação fetal. Esse brilho, não raramente, danifica-se ao longo do tempo, deixando marcas, traumas, lições, que também seguirão conosco, pouco importando se caminhamos entre as pedras ou pelo chão de barro. Ele nunca deixa de brilhar. Nós é que, por vezes, deixamos de vê-lo para virar de costas e encarar sua sombra. Algo arriscado, profundo; mar o qual todo marinheiro teme e respeita. Sem ver nosso brilho, como saberemos o quão valiosos somos? 

    Era exatamente esse medo que Caio batia de frente a cada nova pisada no gramado de um campo de futebol. Ali, qualquer padrão de comportamento ou status que estar no time lhe promovia (socialmente falando) acabava e vinha, de fato, a prova dos nove. Sua força interior e confiança caíam por terra, focando apenas em driblar muito além da bola — driblava barreiras emocionais, medos, adrenalina e até renúncias que fazia em prol de um sonho. Sentia-se cuidando de uma lasca de fogo, resistindo a mais fria noite de inverno, quando se dava conta disso. Investia cada célula de si para não decepcionar, reprovar, esquecendo-se de seu ser e do quão importante era para os seus e, principalmente, para si próprio. 

    Nada disso ficou diferente depois de alguns dias de expulsão do time. Porém, retornar em circunstâncias tão delicadas lhe faziam temer quanto ao futuro. Tudo era areia movediça, onde cada passo dava a impressão de estar sendo engolido — fosse em conta de seus medos ou pela própria pressão de Guerra sob si. 

O treinador arrancava-lhe rios de suor em seus exercícios físicos exaustantes, exploração das mais diversas estratégias, previsões de possíveis táticas de ataque e defesa do time rival… demanda forte, pesada, onde seus ombros pareciam fracos demais para aguentar. Resistia a cada súplica de seus pensamentos para parar. Focava na taça e na chance de voltar ao time de maneira triunfal e, assim, voltar a ter noites tranquilas de sono. 

    Ao fim do último treino antes do jogo final, quinta feira, às 20h36min, o garoto caminhou em direção ao vestiário sem muita certeza de estar acordado ou em modo automático. Despia-se das roupas dentro de seu box sem pressa, perdido dentro de sua mente. 

Guto, sempre atento, sabia que algo estava errado. Seus olhos fitavam o amigo desde o início do dia, sentindo-o quieto, recluso. Queria respeitar o momento, porém, era difícil ficar inerte diante de tal abatimento. Se Caio necessitava de um ombro amigo, queria que ele soubesse que o seu estaria sempre ali, mesmo depois quando mudasse para São Paulo. 

Saiu do box ao ouvir o que parecia ser os últimos colegas a irem embora do vestiário, onde só duas duchas permaneciam correndo água — a sua e a de Caio. Desligou a sua, enrolou-se numa toalha branca (sem qualquer preocupação em se secar), verificou os demais boxes e, notando estarem sozinhos, entrou no do amigo sem mesmo pedir licença. Nem isso, porém, foi capaz de expressar alguma reação estranha ou surpresa. O loiro não se deixou intimidar, permanecendo ali mesmo e encarando o moreno de igual pra igual. Foi direto ao perguntar qual era o problema, afinal, a amizade de tanto tempo lhe dava essa liberdade. 

— Não saio daqui enquanto a resposta não aparecer — afirmou, convicto, de braços cruzados. 

    Caio pareceu retornar de sua viagem pelo subconsciente, passando a mão por seu rosto enquanto o sentido voltava. Encarou o olhar do amigo com certo pesar, como se carregasse nas costas um saco do tamanho do mundo só de problemas. 

— Só tô… cansado. Só isso — limitou-se a responder. Lógico, aquilo não convenceu. 

— Se eu não te conhecesse… — deixou no ar, na expectativa do outro compreender sua mensagem. Para sua sorte, de fato, aquilo ocorreu.  

    Sem maior resistência, acabou por ceder a oportunidade dada pelo amigo de abrir seu coração e contar tudo, compartilhar um pouco daquela ansiedade por ele vivida nos últimos dias. Era bom poder descarregar um pouco daquela energia que tanto lhe assombrava. 

— Tem coisas demais envolvidas nesse jogo, entende? O peso do mundo parece estar concentrado naquela bola… 

— Pode ser. Ou… Tu quer corresponder às expectativas do Major. 

— Por que eu ia querer isso? 

— Caio, qual é. Te conheço há séculos! Tu quer provar pra ele que tu pode tudo e esquece até mesmo da tua essência. É isso que atrapalha tua dinâmica em grupo no campo, e é nela que tu precisa focar hoje. 

    O outro balançou a cabeça em sinal positivo, mas, ainda sim, a aura incomodada seguia em torno de si, como se fosse um sanguessuga, tirando até mesmo sua capacidade de pensar e agir. Guto percebeu, seguindo com a postura irreverente. Quis ir mais a fundo e achar, de fato, a raiz do problema. 

    De leve, ergueu o queixo baixo do amigo, fazendo lhe encarar fundo nos olhos. Seus olhos negros pareciam as de uma criança prestes a cair no choro, talvez por medo ou insegurança, algo além até mesmo disso. Se não era apenas a pressão do jogo,qual seria a outra razão pela qual o amigo demonstrava tamanha preocupação? 

— Tu sabe que não é esse o problema — afirmou, sem titubear — Pelo menos, não só esse. A minha vida parece ter dado um salto mortal de cima de uma prancha gigante, e agora tô só esperando quando é que o chão vai chegar. 

— Tenho que concordar — sorriu, maledicente — Muita coisa aconteceu num período tão curto de tempo. Mas deixar isso te dominar as vésperas do jogo da tua vida, o motivo pelo qual tu se empenhou esse tempo todo… Acha prudente? 

— Isso não pode servir de razão para eu entrar em campo forçado. 

    O loiro conseguia compreender através dos olhos acuados do amigo a ansiedade tomando forma dentro de si, tal qual um monstro de alimentando do medo e desequilíbrio. Caio coçava sua nuca enquanto encarava o teto na busca de uma solução. Guto, na medida do possível, tentava falar algo capaz de arrancar do amigo um suspiro de esperança, um motivo pelo qual todo esforço deles estava valendo a pena. Levou sua mão direita, de leve, ao encontro do ombro do rapaz e o encarou bem fundo nos olhos, a fim de tirá-lo da imensidão escura e miserável na qual estava prestes a se jogar. 

— Lembra que essa batalha é muito, mas muito pequena… perto das outras que tu venceu nos últimos dias. 

— Mas… E a promessa com o Ma—

— F*da-se ele. Pensa em ti, na tua conquista, nos teus ideais — ordenou, sem fraquejar nas palavras — Independente do resultado, ele precisa de nós. 

    Caio tentava achar seu bote salva vidas no cais tranquilo dos olhos de Guto, ainda que seu afoito coração ainda estivesse a lhe perturbar. No fundo, sabia da razão do loiro e sequer cogitava em desmerecê-la, só precisava de uma palavra amiga mesmo, um incentivo, um pulo para frente. Elvis faria isso com o maior carinho possível, todavia, não era o mesmo. O artilheiro o conhecia como ninguém — mais até do que o próprio cônjuge. Se havia alguém capaz de reerguê-lo era ele.

    Guto saiu do box, deixando-o sozinho com a fria água lhe preenchendo o peito e a mente. Talvez conseguisse bancar aquilo como tanto frisou ao treinador que faria, mas e caso não? Tinha suas dúvidas, muito pela proximidade da realização do evento. Odiava-se por aquilo. Aquela, nem de longe, era hora da bola querer escapar do seu pé. Pai, mãe, até mesmo Elvis… Seu irmão… todos contavam com ele. Conseguiria, ainda sim, ser o atleta que tanto almejava?  

    Ao saírem do vestiário, cerca de cinco minutos depois da conversa, Guto e Caio se depararam com Átila sentado nas arquibancadas, entretido com seu celular. O camisa nove foi quem chamou-o de volta à terra, recebendo uma revirada de olhos recheada de desdenho como resposta. Não estava sendo nada fácil aturá-lo, principalmente depois do acertado com Major. Entretanto, pensava no bem que fazia ajudando um rapaz agredido pelo pai para amenizar um pouco de seu sentimento controverso com relação a ele. O pior era fazer tão pouco tempo da presença dele em sua casa e já parecer que fez moradia permanente lá. 

Guto, outrora o primeiro a se compadecer da raiva do amigo e até sentir-se compartilhando-a num gesto mútuo de cumplicidade, agora gargalhava sem medo de ser tachado de louco. Na visão do loiro, tendo um panorama geral das figuras, ambos eram como primos forçados a se amarem por conta das circunstâncias; e, tal qual estes, acabavam por serem mais parecidos do que estranhos ou opostos. Divertia-se com isso, pouco ligando para as alfinetadas e implicâncias ocorridas até o carro da mãe do amigo. Teve inclusive de ajudar Átila a se ajeitar no banco, uma vez que Caio sentou no banco da frente sem nem pestanejar ou ligar para os alertas de sua mãe quanto a perna machucada do “Hóspede”. Como “prêmio”, o loiro recebeu uma carona até sua casa, controlando-se para não continuar a rir do sermão dirigido ao amigo, contudo, beliscando a perna de Átila quando este o fazia — tinha o direito de debochar, pois queria bem Caio, o qual não era o caso do garoto de olhos azuis expressivos. 

Poucos foram os minutos entre entrar no carro e a chegada na casa do artilheiro do time do Instituto América. Dali para a casa do namorado de Elvis então foi menos ainda. Quando chegaram, o garoto abraçou os pais e subiu direto para seu quarto, alegando estar com pouca fome — mesmo tendo arroz à grega, seu predileto, como um dos pratos principais. O corpo almejava sua cama e sua alma queria permanecer nela até a reorganização da Pangéia. Zero era sua vontade de jogar e menos cem de engolir Átila no pré-jogo. Mas o garoto, para seu infortúnio, parecia atentá-lo mais do que a própria Circe em seus piores dias. 

Estava tirando sua camisa quando, de repente, ouviu três batidas em sua porta. Negou na hora serem seus pais, pois estes nem se prestariam a isso caso fosse grande a necessidade de informá-lo acerca de algo. Seu cérebro não processava tal informação como algo natural. O que o rapaz poderia querer? Foi em direção a porta e a abriu lentamente, de muito má vontade, e fitou o outro. Este pouco fez da cara feia, permaneceu ali a espera da abertura da porta. Sem muita alternativa, Caio abriu, dando passagem para o garoto entrar. Átila virou enquanto o anfitrião fechava porta e analisou-o bem, recebendo um olhar surpreso quando o jogador percebeu. 

— Desculpa. Não tô afim — Caio não conseguiu controlar sua língua. Átila riu, sarcástico. 

— Sabe que, apesar de lerdo, tu até que tem um corpinho legal — comentou — O Vi deve ter visto isso em ti pra ser tão apegado… 

— Não podia me dizer isso outra hora? Precisava vir aqui encher meu saco?!

— Pra ser bem sincero, queria dizer outra coisa — respirou bem fundo, mordiscando os lábios antes de falar. As palavras pareciam filhotes assustados em sair do aconchego dos progenitores tamanha incerteza carregada em seu olhar expressivo — Olha, o Major tá realmente indignado de ter posto tu e o loiro de volta no jogo. Conversei com ele e— 

— Acabou de vez com a nossa moral — deduziu o rapaz, já contando até dez para não mandar o outro pela janela — Não se preocupa. Vamos mandar bem no jogo e—

— Eu fui elogiar vocês, seu grandessíssimo jumento — Átila interrompeu, surpreendendo-o de forma que nem ele mesmo conseguiu prever — Nunca quis fazer parte disso, ok? Não tinha ideia dessa paixão do Vi por ti quando cheguei aqui semana passada. E ele tem esperança em ti e na tua força… Fora que tu joga bem mesmo. 

— Falou o cara que me deu um carrinho também na semana passada — cruzou os braços, seguindo encarando-o. 

— Até as pedras conseguem ver que tu tá no último do nervosismo. Só tô tentando ser legal e retribuir o favor que tá me fazendo — concluía, indo em direção à saída — Vi ia querer isso de mim. Tenho certeza…

    Átila sequer ficou para ouvir um ‘obrigado’. Fechou a porta mais rápido do que a luz e foi para o seu canto, deixando para trás um Caio atordoado com a recente cena. De todas as possíveis situações criadas pelo rival, aquela, sem sombra de dúvidas, nunca havia lhe passado pela cabeça. Sua única questão em branco era: Por que então cargas d’água ele teria entrado no time? 

    Sem muita disposição para se atolar em mais dúvidas e questionamentos, Caio tratou de pegar uma muda de roupa limpa, tomar seu banho e deitar na cama, mandando para bem longe qualquer resquício de fome existente em seu corpo. Precisava estar bem para o grande dia. Precisava estar bem para provar a todos que era capaz e, principalmente, provar a si mesmo que era guerreiro dos bons. 

***

    À medida em que o dia foi passando, cada vez mais Elvis se perguntava se tudo aquilo era real ou apenas um sonho incrivelmente bom. Deus criou o mundo em sete dias; Elvis havia recriado sua vida no mesmo tempo, e tentando sempre manter a linha de raciocínio intacta, ainda que fosse difícil. 

    Quando viu seu pior pesadelo entrar pela porta da sala de aula lhe cumprimentando dias antes, sequer imaginava o que a vida havia lhe reservado. Dúvidas, fraquejos, primeira vez completamente fora de seus planos… a forma mais pura e perfeita de um caos organizado. No momento, claro, não viu assim. Precisou de um tempo para digerir e administrar tudo a seu modo, para, somente ali, conseguir aproveitar com uma visão mais periférica de ter conquistado tudo aquilo que almejava. 

    Suspirava vendo o amado no treino dando tudo de si. Via-o como um ser forte, sagaz, determinado a atingir seus objetivos. Entendia muito cada vez que Caio corria atrás da bola, como um tigre em busca do alvo,a razão dele ser o escolhido — tinham muito em comum, mais até do que poderia imaginar. Seu instinto não lhe virou as costas como outrora; pelo contrário, abraçou-lhe e deu a oportunidade de provar do amor mútuo e verdadeiro. 

Nem a suposta heterossexualidade foi um problema, no entanto, sabia da sorte que teve, e tinha certeza de que o raio não caíria no mesmo lugar uma segunda vez. Por isso queria se dedicar a amar Caio com todo seu coração, sem pressão ou ardor. Tudo levaria o tempo necessário. Sentia que, agindo assim, não havia razão para o jogador desistir deles se não fosse mesmo a incompatibilidade sexual. Esta, torcia, para estar mais frouxa. 

Não ficou até o fim do treino pois os olhos pesados conseguiram lhe vencer. Foi para casa, tomou seu banho e deitou na cama enquanto aguardava o jantar ficar pronto. Olhava o aplicativo de mensagens de minuto em minuto para ver se o amado lhe dava notícias. Nada. Ao mesmo tempo em que ficava preocupado, tinha uma pontinha lhe dizendo que havia dedo do Major nisso. 

Ocupar sua mente com coisas aleatórias as quais fugissem disso nunca foi tão difícil. Quando finalmente conseguiu a voz de Laís gritou histérica para ir jantar antes do Michael Jackson revelar que estava vivo. Sentou a mesa com Circe a sua frente, ao lado dela sua irmã; ao lado do garoto estava seu pai e, a ponta da mesa, sua mãe, encarando todos com olhar de lince vendo se alguém teria tamanha coragem de não comer um prato sequer do pequeno banquete: polenta recheada, massa e fricassé de frango; como acompanhamentos vinham a salada de verduras e beterraba. Valquíria não era o tipo de mãe capaz de ficar na cozinha por horas para alguém vir com não-me-toque: estava à disposição? Cada um que comece a parte que lhe coubesse! Circe, vendo todos pegar um pouco de tudo, deu sorte de ser esperta e entrar na onda. 

— Caio não vai oficializar isso nunca, Elvis? — ela questionou, do nada, fazendo o filho engasgar enquanto Laís segurava o riso — Ué, o que foi? Já devia ter sido providenciado. 

— Eles a recém começaram, mãe. Dá um desconto — A irmã tentou sair em defesa, mesmo contendo a crise de riso. Em vão. 

— No meu ponto de vista, alguém que já tá até dormindo aqui não precisa de mais tempo pra coisa alguma. 

— Ele dormiu aqui duas vezes só. Não é muito. 

— Se não vai me ajudar, fecha o bico com comida antes que esfrie — ordenou a mãe, fazendo a filha bufar e voltar sua atenção ao prato — Não vai me dar uma resposta, Elvis? 

— Mas… Eu… — tomou um gole do suco de laranja natural — Ainda é cedo. Vamos fazer isso mais adiante. 

— É por isso que hoje em dia essa juventude engravida antes mesmo de sair de casa… 

— Eu não engra—

— Quietos! Que coisa! Tiraram o dia pra me retrucar! 

    Circe assistia a cômica cena rezando a Deus por ajuda para não cair na gargalhada e desmerecer a fala da mãe do ex melhor amigo. Tinha pouca experiência com pais bondosos e afetuosos, porém, via de longe os laços unidos daquela família tão diferente da sua. Val se preocupava com o bem estar dos filhos, queria vê-los bem e felizes. Sua mãe, bem ao oposto, acreditava que a filha estava bem por conseguir recitar um ou dois trechos da bíblia sagrada. Uma obsessão descomunal que minou a relação deles para sempre — verdade seja dita, ela nem fazia questão de retomá-la. Bem ou mal, tinha um teto e pessoas dispostas a lhe ajudar. Isso, por si só, dava força necessária para seguir em frente. 

    No fim do jantar, após mais algumas perguntas estranhas dirigidas a todos (todos mesmo, inclusive a ela própria), Circe e Elvis ficaram de responsáveis por organizar a louça e guardá-la nos devidos lugares. Laís foi a última, colocando o prato quando Vi estava a um passo de concluí-la só pelo prazer de vê-lo crucificá-la e nada poder fazer. Terminada a lavação, o garoto dedicou-se a ajudar na secagem, a fim de concluir aquilo o mais depressa possível para ir até o quarto ver se alguma mensagem havia chegado. Nenhuma palavra tinha sido dita, até que, por vontade própria, Circe acabou quebrando o clima. 

— Acha que vai demorar muito pra vocês se assumirem? 

— Fiz isso faz tempo. Graças a ti e aquele outro, aliás — o garoto comentou, meio sem vontade — Agora, com relação ao Caio… Não sei. Vai depender muito. Ele falou esses dias, mas acho que foi no calor do momento. 

— Não duvide. Ele não faz o tipo que investe sem razão. Se ele te deu uma chance, é porque fez jus a isso. 

— Ou porque meus argumentos foram bons… — deixou escapar. Os ouvidos da outra, atentos como os de um morcego, não deixaram no ar. 

— Como assim? 

— Nada não…

    Seguiram na atividade de novo com apenas o barulho da rua como companhia. No entanto, ao virar para pegar alguns itens de cima da mesa, notou o celular da loira perto de um dos copos para secar. Como a tela estava ligada, pôde ver a imagem do passeio da oitava série outra vez, onde ambos sorriam com tantas lembranças feitas naquela deliciosa tarde. Eram ligados por um elo forte de sinceridade e amor fraterno, inatingível até então. Encarava aquilo com o pensamento distante, vagando por entre as lembranças de um tempo onde nada era tão ruim a ponto de perder sua esperança, sua vontade de lutar e vencer. Era bem verdade que os eventos posteriores criaram uma barreira protetora forte, quase inabalável. Ainda sim, valorizava a visão ingênua de outrora, sem o filtro amargo de experiências dolorosas. 

    Uma lágrima inconsciente acabou por escorrer por seu rosto, enquanto ainda buscava respostas para o inexplicável. como se a vida fosse aparecer em pessoa e lhe dizer o significado de tudo. Era um sentimento estranho, avassalador, inquietante, provocador. Talvez um misto de tudo isso. Não sabia dizer ao certo, só tinha certeza de uma coisa: a dor que aquilo causava em seu peito, algo emocional, carregado de arrependimentos, palavras não ditas e verdades encobertas pelo medo. A razão dela a mais incoerente possível: dois amantes que não podiam se amar. Só isso. Um sentimento, vários destroços. 

    Circe percebeu o quanto aquela fatídica imagem mexeu com Elvis, pondo-se a observá-lo, mais uma vez, na imensa vontade de compreensão e empatia por parte dele. Fazia por ele tudo que sempre quis que alguém fizesse por ela — como ele mesmo já fez no passado, tantas vezes as quais nem se lembrava de contar. Seu maior calcanhar de Aquiles, sem dúvida, era seu melhor amigo. A moça cheia de pose, destemida e ardilosa se desmanchava ao ver aquele rapaz saltitando a cada gesto que, na época, Átila dava a ele. 

Achava aquilo a demonstração mais sincera de felicidade, nascida somente da essência de compaixão que temos enquanto seres humanos e capazes de sentir. O dia da foto em especial foi recheado de momentos assim — conversas, brincadeiras, zoeiras juvenis — mas nem perto chegou de aquecer tanto o coração quanto a capacidade que Elvis tinha de amar Átila. 

Queria demais se debruçar em lágrimas, ou, ao menos, uma lágrima para pôr para fora, compartilhando assim, de maneira física, da mesma saudade. No entanto, até isso lhe faltou. De certa forma, por orgulho sim, de herói quando perde a batalha; por outro lado, também era por não saber mais pelo que chorar — se por antes ou por agora. Tudo se mostrava misturado naquele momento. 

Foi então que, de forma calma, foi se aproximando e pegando a mão do amigo e entrelaçando a sua. Vi a encarou, não surpreso, mas saudoso, como se realmente precisasse daquele carinho uma vez que fosse. 

— Por que tinha que mudar? — perguntou a loira, com a voz rouca. 

— Precisou mudar… — o garoto limpou a lágrima, contudo, não desfez a mão entrelaçada — Pra gente crescer, mudar… 

— A que custo, não é? A que custo…

    O outro via em seus olhos um templo prestes a desabar. Circe tinha seus defeitos e dubiedades, o que não fazia dela menos humana ou emotiva. Ao contrário: criava um contraste entre o ser intocável e a menina indefesa, a mescla do bem e do mal. Vê-la assim tocava fundo em sua alma, pois a conhecia bem demais para saber o que era capaz de atordoá-la. E essa culpa jogada nela, sem dúvida, pouco a pouco ia consumindo seu coração. 

    Pensou bem antes de proferir alguma coisa à ela. Sua intenção nem de longe era magoá-la ou humilhá-la — afinal, fez isso aos montes nas últimas vezes desde o infeliz episódio na casa abandonada — queria apenas dizer a verdade de forma mais sutil, sem farpas ou ironias. Apenas o que seu coração sentia, sem o acréscimo da fútil raiva. Era a primeira vez a qual pensava naquilo dessa forma. 

— Não sei o que vai ser do futuro, realmente não sei, mas… — apertou um pouco a mão entrelaçada a dela — Só vamos ir levando. Só isso. 

    A loira mal se aguentou de felicidade. Puxou Vi para um abraço reconfortante, sentindo assim os pedaços estilhaçados se unindo outra vez num gesto nítido de reinvenção. Ele custou um pouco a ceder, acabando por levar uns segundos para retribuir o gesto. E como foi gratificante a sensação… Seu peito, há pouco preenchido por rancor e mágoa, parecia agora estar sendo esvaziado aos poucos, cautelosamente, como tudo na vida deveria ser. O peso de anos estava agora sendo deixado no passado. 

— Sei que não vamos ser como éramos. Tu já me disse isso, mas… — a loira limpou uma lágrima, a primeira corajosa o suficiente para cair — Obrigada. Por isso. 

    Assim ficaram por mais alguns instantes, compadecendo da dor um do outro, por mais estranho que fosse — principalmente ao garoto, por todo o tempo esmerado em desmerecer a amizade da menina. Qualquer mensagem de Caio poderia esperar. Uma coisa era certa: teriam tempo para ajustar seus ponteiros e, quem sabe, reconstruir em novas bases aquela cumplicidade que nem Júlia e Camila puderam lhe dar. 

***

    Mesmo tão próximos de entrar em campo para jogo, Major Guerra fez questão do último treino começar às 07h00min da manhã e sua culminância fosse ao 12h00min daquela sexta feira. Queria buscar táticas, estratégias, pontos fortes e fracos em cada um dos componentes do time representante da escola. O objetivo era claro como água: ter uma vantagem sob o adversário. 

    Fez o diabo e meio a fim de extrair o melhor de cada membro, explorando suas habilidades de maneira prática, única e objetiva. Se eram um time, deveriam estar alinhados como peças de um relógio: todos têm de estarem em sincronia, trabalhando com o mesmo propósito. Essa foi a maior briga com Caio, pois não conseguia-o fazer um jogo comum, e sim individualizado, prejudicando assim o andamento dos demais. Estes fizeram o que podiam antes de levar a bola para o garoto — até mesmo Guto assim o fez. Notava-se a quilômetros a cara descontente de seu treinador, porém, ele não tinha outra escolha. Precisava entubar se queria vencer. 

    Claro, isso não foi pretexto para deixar seus olhos fechados. Tinha de aturá-lo dentro do time. O resto ficava a seu cargo avaliar. Esta avaliação, por sinal, estava em uma onda decrescente absurda, pouco fazendo para ver outra forma de ajudá-lo. Queria colocar os pratos limpos e assim faria. 

Ao fim do treino, reuniu seus pupilos no centro da quadra de pé, pondo-se a observá-lo e atentos aos comandos. Todos em posição sentido, como já era rotina. O treinador gostava dessa posição de respeito herdada dos tempos no exército. Começou o discurso dando algumas observações percebidas, falhas de comunicação e execução, seguido dos pontos positivos e desempenho habilidoso de alguns especificamente. 

Deixou a “melhor parte” para o fim, e Caio só não emburrou mais a cara por não ser elástico. Major deleitava-se a dizer o quão egocêntrico, infantil e mimado ele era e, principalmente, que seria essa sua maior fraqueza caso estivesse em campo naquele momento. O garoto ouviu tudo sem bater boca. Sabia que tinha pouco tempo para gastar latim. Precisava de uma solução, o mais depressa possível. Como? Nem fazia ideia. 

    Concluído o sermão, todos foram em direção ao vestiário e depois para casa descansar até a noite. Menos um. O vice titular pegou uma das bolas, colocou-a na quadra e começou a treinar sozinho mesmo, chutando a bola na rede como se Major estivesse nela — o que, diga-se de passagem, lhe deu uma bela mira e foco. Fez isso umas três vezes antes de ouvir passos atrás de si. Era Guto. O loiro comentou a dedução de uma atitude daquelas, mas que, apesar de compreender, não ajudaria em nada chegar ali às 17 quebrado de tão exausto. O amigo bem quis argumentar, porém nada mudou o ponto de vista. Viu-se obrigado a ir para casa mesmo. 

    Chegou em casa, comeu um pouco e foi deitar. Tentou ir atrás do sono, só que a ansiedade e a raiva lhe impediam. Queria poder mostrar ao Major que dava conta do recado sem suas ordens, pois deu duro a vida inteira para chegar onde chegou. Pouco antes da definição de quem iria para São Paulo jogar na Série C do Corinthians, seu nome estava na lista, só foi retirado por interferência do treinador, negando-se a premiar aquele que não compreendia o espírito do esporte em si. Foi demais para si. Socou o travesseiro aquele dia mais vezes do que pôde contar e a raiva não passada. Sentimento bem parecido com o ocorrido agora, com a única diferença de que poderia reverter o jogo. Só precisava baixar a guarda e ir jogando. Como fazer isso e ainda sim mostrar seu valor? Não fazia ideia. 

    Virou de um lado para o outro sem conseguir dormir até a hora do relógio despertar para tomar banho e ir direto para a escola. Levantou ainda com aquele mix de sentimentos lhe preenchendo cada célula do corpo. A parte boa foi não ter precisado ver Átila e receber de novo suas palavras de consolação. Tomou uma ducha rápida e seguiu para a escola de a pé mesmo, na esperança de ajudar. Via as pessoas na rua, suas feições tão amáveis e contentes, perguntando-se o que tinha feito para não estar assim. Não era ingrato, dava valor as coisas já conquistadas, mas aquela sensação de sempre estar na berlinda lhe incomodava muito. Queria também poder estar alegre, tranquilo quanto ao jogo, só que isso simplesmente não acontecia. Parte da culpa, deduzia, devia ver da pressão do Major. O resto distribuía ao turbilhão de coisas que aconteceram até então. Contudo, se queria mesmo ser homem, sentia que tinha de tirar do éter a força necessária para sobreviver a isso e pôr um sorriso na cara. Não era nenhum inválido, podia correr atrás, se esforçar e mostrar a que veio. Só precisava que seu cérebro entendesse isso antes das 19 horas daquele dia. 

    Entrou no colégio cumprimentando alguns rostos conhecidos, colegas seus, aguardando a chamada de seu treinador. No entanto, queria trocar meia dúzia de palavras. Pensava que assim sua mente ficaria mais tranquila, mas o ocorrido depois funcionou melhor do que tranquilizante para leão. Quanto mais se aproximava da sala de Guerra, mais conseguia ouvir as vozes elevadas vindas de lá de dentro. Uma era do dito cujo, a outra, para sua surpresa, de Átila. Sequer tinha ideia da razão pela qual o garoto estaria ali, o que acabou contribuindo para sua curiosidade. Escondeu-se de modo estratégico para ambos não conseguirem lhe ver, mas que, caso visse alguém a caminho, saísse sem ser visto. Tarefa simples, visto o alto tom dos dois lá dentro. 

    Num primeiro momento, pareciam discutir coisas as quais não deu muita importância. Falavam da continuação dele no time —  o que realmente dava a mínima — e sua performance, nas palavras de Guerra, chorume no festival de música a qual teria acabado com todas as suas chances na construção de uma carreira no futebol. A partir desse ponto, Caio deixou seus ouvidos bem atentos. 

— Guto e Caio são guris habilidosos, com jogadas excelentes e domínio de bola. Foi horrível ter de tirá-los do time por conta daquele escândalo no refeitório seguido do vídeo —  o mais velho falava, andando de um lado para o outro, inquieto — Mas fiz. Sabe por quê? 

— Porque isso mancharia a imagem do seu precioso time —  Átila recheava sua fala de ironia e sarcasmo — Não precisa me dizer o óbvio. 

— Querendo ou não foi a chance pra mostrar a que veio, dar retorno de todas as expectativas que foram postas em ti nesses últimos anos! 

— É aí que mora o problema! Sempre as expectativas dos outros, nunca as minhas! — reclamava, bastante alterado — O senhor, meu pai… Vivi sempre o que vocês queriam pra mim. Fui tachado de brigão do colégio pra provar pra vocês o quão macho eu era e olha só no que deu! 

    Então era isso. Major e o pai de Átila tinham laços familiares, o que explicava sua súbita aparição no time completamente fora de época e sua entrada na escola. Caio não podia acreditar naquela barbaridade, entretanto, seguiu na sua, apenas ouvindo o que mais poderia sair daquela fatídica conversa. 

    Dentro da sala, o mais velhos passava as mãos pelo rosto pedindo a todos os santos por mais paciência e boa vontade. Sabia da dificuldade em esclarecer os pontos com alguém como Átila. O rapaz não aceitava qualquer coisa, ao menos, não quando lhe convia. 

— Era pra ti manter distância do tal Elvis. E o que tu fez? Se uniu a ele naquela idiotice completa! 

— E não foi nada, se quer saber —  jogou na cara — Eu já disse e torno a repetir: NÃO aceitei o acordo! Eu vim pra cá quando meu pai me ignorou completamente depois de dizer a ele quem eu sou de verdade. Essa é a minha versão dos fatos. O que vocês inventaram, não é meu problema! 

— Para de ser ingrato, guri! Eu fiz de tudo pra ti pôr aqui dentro! Ou acha que é fácil, faltando duas semanas para terminar as aulas, ter aluno se matriculando? Ah, por favor! 

— E quando eu saí do controle, o senhor foi correndo contar pro meu pai. Foi isso?! 

    O homem se calou. O garoto, claro, pressionou pela resposta. Ele respirou fundo antes de falar. 

— Não chamei teu pai. Ele mandou a tua tia ficar de olho e ela acabou avisando…

— A minha —  só então a ficha caiu. Regina, a tia com quem está morando, lhe cravou o punhal nas costas —  É mentira… Só pode ser… 

— Pergunta a ela, então. Sou um homem de palavra, rapaz. Mentirinhas e intriguinhas são coisas de baratas. O que eu fiz, assumo — via no olhar do menor o nítido desapontamento, a desolação de alguém que já havia perdido tanto. Guerra suspirou, encarando-o novamente — Não estou dizendo que concordo com o que meu irmão fez. Agora, só não me culpe de dizer que tu saiu dos trilhos completamente… 

— Por que? Por que sou “viado”? Por dar meu c*?! É isso?! — enfrentou —  Eu tô de saco cheio de vocês. Não aguento mais isso! 

— Ah é? E vai viver como agora? Subindo em palcos e se exibindo feito uma cadela?!

— Não — uma lágrima tímida escorreu do seu rosto —  sendo um artista.

 

    Na mesma hora, ouviu-se um estalo forte vindo lá de dentro. Como não estava de frente ou de forma que pudesse perceber o ocorrido, ficou aguardando para entender. Major Guerra começou a se desculpar — feito histórico — e lamentar ter feito o que quer que tenha feito, enquanto Átila afirmava com convicção que a conversa deles havia terminado, além de, antes de sair, avisar que seria a última. O garoto fechou a porta com força e caminhou a passos largos, nada capaz de impedir Caio de notar o vermelhão em um dos lados do rosto de seu rival. Ficou em choque com tudo o que escutara, mas concordava que tudo fazia mais sentido agora...

CONTINUA


Notas Finais


Eu não mereço, mas vou tentar: Alguém seria caridoso o bastante pra me deixar um review? Pode puxar minha orelha pela demora. Eu deixo!
Beijos e até o próximo!


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