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História O demônio nosso de cada dia - Uma crônica de um Coringa - Capítulo 1


Escrita por:


Notas do Autor


Uma noite você sonha com o Coringa e umas coisas bizarras. No outro, você escreve uma fanfic. É isso kk

Capítulo 1 - Um novo dia na cidade condenada


     Por aqui existe um modo próprio de se pronunciar o ditado "oito ou oitenta". Se você vive aqui, ou é maluco pra cacete ou doente pra caralho. Ziggy estaria me beliscando a essa altura se pudesse me ouvir dizer isso, afinal, sempre foi a "menina esperança". Entre tantas sombras, ela é a garota que acredita que as coisas podem melhorar. Ela é aquela que anda com um "S" estampado no peito. Também foi ela quem se foi com um sorriso no rosto.

     É um apelido engraçado, mas carinhoso da nossa parte. Ziggy sempre foi chamativa, uma grande fã do Bowie e, como tal, não deixaria faltar uma boa dose de cores e exuberâncias em seu visual. De vez em quando um detalhe a mais no cabelo ou duas cores diferentes de batom. Admito que sempre senti vergonha de ser seu amigo, mas, após alguns meses de amizade, seu jeito começou a me atrair tanto quanto Lisa, nossa melhor amiga em comum. Ao contrário de Lisa, Ziggy não esbanjava saliências demarcadas por suas roupas (que sempre foram bem folgadas para deixar seu corpo no último plano atrás do último plano de desejos sexuais de qualquer garoto ao seu redor). Na contramão, Ziggy gostava de mostrar as pernas, nem muito grossas e não muito ossudas, mas na medida certa. Abaixo dos joelhos quase sempre se encontrava indisponível graças a longas botas de couro, o xodó da nossa amiga-estrela. Quase sempre que meus olhos se perdiam no chão e eu encarava o par de botas velhas terminava por reparar em fissuras na costura da sola com o calcanhar, uma porção de fios soltos e algumas emendas descaradas. Sempre que me lembro dá vontade de rir. Ainda assim, nunca ri à sua vista.

     De vez em quando ficava em dúvida sobre qual das duas devia chamar para sair, mas Quentin ajudava com essa parte e sempre estávamos juntos, nós quatro, isso quando as duas não estavam com outros. Mesmo assim, depois de diversos encontros, se tornava cada vez mais impossível escolher entre as duas. Minha impressão é de que sou um pervertido incapaz de tomar decisões importantes como almoçar macarrão com queijo ou espagueti com almôndegas.

     - Cara, decida-se de uma vez. Tem sorte de não ter aparecido ninguém mais interessante, mas sabe como a Lisa é. A Ziggy, por outro lado, afasta os marmanjos com um olhar.

     - Isso quando não veem as roupas com estampa de urso.

     - Viu? Usa o princípio dos pássaros.

     - Princípio dos pássaros?

     - Isso.

     Passei um bom tempo pensando na conversa com Quentin, tanto tempo que sequer escutei um grito de Ziggy me chamando para a aula. Ela foi e eu fiquei sentado no pátio, refletindo sobre minhas opções. Vamos avaliar em retrospecto. Ziggy sempre foi a pessoa que liga o botão do foda-se. A maioria das ideologias terminadas em "ista" podem ser aplicadas a ela. Um pouco de tudo, sem definições específicas, um jeito bem direto e conquistador de lidar com a vida e algumas camisinhas largadas no meio do caminho.

     Um beijo. É tão difícil conseguir um beijo da sua melhor amiga feminista? Não. Eu devia conseguir. Devia ter sido o primeiro, até mesmo aquele que teria tirado a virgindade de sua boca, mas a verdade é que beijos nunca foram um grande demônio. Na verdade, qualquer aspecto cotidiano ou romântico da vida não serve como exemplo para tabus ou superstições de nós, Gothamitas. Cada um tem um grande demônio bem próximo. Alguns tem a figura de uma demônio alado, com orelhas pontudas e quase nenhuma clemência. Outros tem a imagem inconcebível de uma questão boba, porém implacável. Alguns veem um espantalho que assombra os esgotos ou um advogado de duas faces, mas o meu maior medo sempre foi aquele demônio ridículo que aprendemos a imaginar durante as missas dominicais.

 

     De vez em quando gostaria de voltar a pensar que o demônio é como um ator pornô feioso, um puto de um corno que anda por aí com um tridente e cuja pele é como sangue. Como eu queria que a pele do maldito fosse vermelha como sangue. Descobri do pior jeito que o demônio gosta de chamar atenção. Ele não é sombrio ou ridículo, mas gosta de ridicularizar. Ele gosta de ser bizarro e às vezes mais colorido que Deus. Este é seu show e nós somos sua plateia.

     - Quando estiver pronto, Marc - É a terceira vez que ela me avisa. Não estou pronto e não sei se um dia estarei.

     - Dói muito.

     - Eu sei, mas as pessoas precisam saber o que aconteceu aqui. Precisam entender com o que estamos lidando.

     - Achei que fosse conseguir desta vez, mas - Minhas mãos começam a tremer e as lágrimas escorrem sem licença. Retorno à minha infância, quando chorava por qualquer razão. Não é a mesma coisa, não é por qualquer coisa, mas pela única que importava. Tem muita gente que não acredita em deus, mas não estou aqui por isso. Estou aqui para mostrar que, pelo menos, do diabo ninguém deveria duvidar.

     Tudo começou na sexta-feira. O dia em que tomei a decisão mais importante do ano.

     Nesse dia, Ziggy veio com óculos de lentes multicoloridas, camiseta com listras verticais e uma calça pantalona castanha. Eu fui para a escola com uma simples camiseta branca e calça jeans, além do velho par de tênis típico de adolescentes, exceto pelo fato de ser amarelo. Ela cumprimenta alguns garotos recostados em uma moita, demora algum tempo para trocar detalhes da semana, então se aproxima de mim com seu sorriso arrebatador, me recebendo com os braços abertos e cheia de amor.

     - E aí, Marc. Como você está? Parece até que nunca me viu com essa roupa.

     - Às vezes parece ser a primeira vez.

     - Não sabia que te deixava assim.

     - Esquece o que eu falei, foi babaquice.

     - Não tem problema, Marc. Se sente vergonha de andar comigo, tem todo o direito de falar - Se estava cercado antes, isso havia piorado tudo e muito.

     - Não tenho vergonha, Ziggy. Sabe que eu te adoro. Poxa, você é minha melhor amiga - Ela desata a rir. Primeiro respiro fundo em comemoraração à minha bela resposta, então me junto à ela para as risadas.

     - Cuidado, a Lisa vai ficar enciumada.

     - Ela sempre foi complicada. Por isso quero sair com você.

     - Está de brincadeira? A gente sai todas as semanas.

     - Com o Quentin e a Lisa. Nunca sozinhos - Ziggy contém um riso, mas a manga cobrindo a boca mexe comigo tanto quanto sua exposição natural.

     - O que você quer fazer comigo que não pode fazer na frente dos dois?

     - Em público, não muito - Compartilhamos uma risada, que no caso dela soa bem natural, ao passo que pareço ter engolido um gato. Apesar de estar à vontade, a dificuldade em encontrar as palavras certas permanece. Um momento para reflexão, o suficiente para esquecer seu perfume de amoras para planejar a forma certa de dizer aquilo, ainda que Ziggy fosse das pessoas mais imprevisíveis - Só quero esbarrar no seu batom pra ver se é bom.

     - Vem cá - Ela me puxa em sua direção, nossos olhos se atravessam e sinto como se meu coração fosse saltar pelos pulsos. Apesar disso, mantenho o olhar fixo em seus lábios, belos, preenchidos e cuja tonalidade se enquadra e ajuda a me aproximar um pouco mais. Turquesa se estiver certo. Cheiro de amoras. Que confusão. Um toque. O volume de seus lábios se perde entre os meus com brevidade, o calor se alastra pelos dedos, o suor escorre de forma aconchegante. Um segundo depois estamos separados. Ela sorri. Eu lembro de respirar. Um instante depois e Quentin aparece, seguido por Lisa, que percebe o clima estranho assim que começamos a falar.

     - Espera, o que está acontecendo?

     - O Miles me chamou para uma festa na casa da Patrícia. Esse sábado às nove - Explicou Ziggy na esperança de desviar o assunto de nós dois.

     - Você vai, Marc?

     - Não cheguei a ser convidado, mas se você quiser posso ir junto - Lisa me encara com uma sobrancelha arqueada, mas logo volta o olhar para Ziggy.

     - Isso se a Ziggy não tiver convidado.

     - De qualquer forma, vamos todo juntos. Como sempre - Lembrou Quentin com os braços cruzados - A única festa em que não estávamos juntos foi quando o Marc pegou aquela doença dos ratos.

     - Nem me fale - Comentei com desgosto - Aquela foi uma época terrível.

     - E como. Eu vi tua cara no hospital. Parecia um defunto arrumado.

     - E esse batom na sua boca, Marc? - Senti uma pontada no peito. Como fomos idiotas a ponto de esquecer um detalhe desses?

     - Batom? Acho que está vendo demais, Lisa - O esforço dividido entre a mentira e a força necessária para manter minhas pernas no lugar me custou uma fratulência nada agradável. Ziggy, por outro lado, olha para Lisa como se tivesse perdido o juízo.

     - E por que Marc teria decidido sair do armário em plena sexta-feira?

     - Não sei, mas tenho a leve impressão de que ele não saiu. Vocês estão juntos, é isso? - Meu coração palpita com mais força do que se estivesse fazendo exercícios. Puta merda. Como eu fui esquecer da marca do batom? E como um beijo de dois segundos deixou uma marca visível a ponto de ser exposto desse jeito?

     - Amiga, você bebeu antes de sair de casa?

     - Não preciso beber para peceber que dois amigos estão ficando - Seu tom é mais calmo que o anterior, indicando que tem plena certeza do que diz.

     - Não estamos ficando - Afirmei com impaciência - Foi um selinho. Nada demais.

     - Um selinho?

     - Isso - Reforçou Ziggy com indignação.

     - Está na hora de crescer, pessoal. Pelo menos assumam o relacionamento - Depois da provocação, Lisa se afasta sem olhar para trás, seguida por Ziggy, que caminha a passos curtos, sem ideia do que fazer para acalmá-la.

     - Estraguei tudo, não foi?

     - Estragou.

     - Nunca pensei que Lisa gostasse de mim desse jeito.

     - Agora é tarde. Perdeu, parceiro.

     - Isso nem é o pior.

     - E o que poderia ser pior?

     - Ela não me quer por tanto.

     - A Ziggy?

     - Isso. Ela me beijou aqui no pátio, como se fosse a coisa mais natural do mundo.

     - É o jeito dela, cara. Vai ter de se acostumar. Agora, aproveita que conseguiu dar o primeiro passo e ainda saiu bem sucedido e avança para o segundo.

     - Não sei se ela vai querer sair comigo depois dessa palhaçada.

     - Ela é esperta. Pode ser que não seja hoje, mas em algum momento vai acontecer. Relaxa.

     - Espero que esteja certo.

     Naquela manhã, tivemos um período com o professor de filosofia, Carmo de La vie. Na maior parte do tempo, é um cara bem carismático, sorridente e convincente. Seus óculos quadrados ajudam a aumentar seu charme natural, mas não neste dia. Seus dedos tremem enquanto traça o giz sobre a lousa, tremem durante a explicação e tremem quando usa o indicador para alinhar a haste em sua face. O professor que fala com naturalidade e encanta quando discorre sobre a matéria não está em seus melhores dias. Muitos alunos deixam escapar risadas abafadas, até mesmo Ziggy, que depois se desculpa com Margareth, uma das alunas que mais admirava o professor.

     No intervalo, Quentin e eu conversamos sobre seu trabalho. Espere... permita uma correção, estava tão preocupado em me flagelar por ter beijado Ziggy que quase não abri a boca. Para ser sincero, Quentin estava falando sozinho. Em alguns momentos parava de falar para saborear a batata frita, mas no geral disse que havia problemas com o sistema de trens. Atrasos nas viagens, sistema de segurança comprometido e falta de pessoal. Pelo que entendi, a prefeitura havia postergado a data de abertura de novos processos seletivos para preencher os cargo vagos no sistema de transportes da cidade.

     - Pena que o Batman não tenha culhões para ameaçar o prefeito.

     - O Batman é um cuzão, mano - Afirmou Quentin com violência, tomando uma batata para parti-la ao meio antes de comer - Há meses que ninguém o vê. Pelo visto sumiu naquela época que trouxeram reforços de outras cidades. Isso é um absurdo. O cara quebra dez idiotas ao mesmo tempo e se rende à polícia?

     - Talvez seja um tira. É a única explicação.

     - Nesse caso, espero que esteja bem morto.

     - Viu a Lisa?

     - Acho que a vi bem rapidamente, assim que saímos da sala de matemática - Permaneci quieto. A culpa me deixava mais perplexo a cada momento e parecia não haver qualquer tipo de escapatória. Apesar da minha posição, Quentin não se dá por vencido e retoma o comentário - Tem coisas piores. Olha só, se a Lisa não aparecer na festa de amanhã, você aproveita o tempo com a Ziggy. Domingo vai à casa dela, explica o que aconteceu e reata a amizade.

     - Não é tão simples.

     - Quer saber, estou cansado dessa putaria. Vamos - Sem dizer mais nada, Quentin pega sua mochila e levanta do banco.

     - Pra onde?

     - Tomar um porre. Vamos ver se assim para de se martirizar.

     - Não dá pra ser depois da aula?

     - Não se vai continuar com isso até o encontro com a Ziggy - Nossos pés se afastam do pátio tranquilamente e uma vez fora da vista de todos, Quentin observa a passagem dos corredores, confere o intervalo entre os transeuntes e pula o portão sem muito esforço, ajeitando as mangas da blusa para então me encorajar a fazer o mesmo.

     - Você é um merda - Declarei antes de repetir suas ações e tropeçar do outro lado da grade, momento em que ele pensa rápido o bastante para me levantar e me empurrar em direção a uma pilastra, impedindo que alguém pudesse nos ver.

     Passeando pela cidade, nos deparamos com excesso de viaturas e de policiamento, mas nada de anormal entre os civis. Ninguém fazia ideia do que estava acontecendo, mas a maior suspeita era de missão sigilosa. Como Quentin estava cego a qualquer história que não envolvesse uma dose de cachaça, fui obrigado a deixar minha curiosidade de lado para segui-lo até um estabelecimento de madeira cor de vinho. Poucos caras na casa dos trinta dividem o balcão e uma mesa, mas o único atendente, um senhor de cabelos e bigode branco, com avental personalizado onde se lê o nome do bar, se dedica a esfregar um pano nos copos que havia lavado, mantendo uma expressão desgatada no rosto, olhando para o nada, o que deixa Quentin receoso antes de se aproximar do balcão.

     - Quero duas doses.

     - Sério?

     - Algum problema?

     - Tem cara de criança.

     - Bom, você pode nos servir - Apontou Quentin deixando uma nota de vinte no copo que o idoso havia acabado de secar - Ou pode continuar esperando novos clientes.

     - Eu vou servi-los de qualquer maneira - Respondeu o funcionário com rispidez, retirando a nota do copo com a mão dura - O que me deixa com vontade de cagar é ver dois garotos como vocês desperdiçando tempo aqui. Vocês não tem o que fazer? Garotas? Livros? Internet?

     - E isso é da sua conta?

     - Na minha época, eu tinha um peão, uma caneta e um cachorro. As meninas se reservavam e os caras eram cafajestes, mas eu larguei meu peão por uma garrafa aos doze anos - Quentin bufa com impaciência enquanto o idoso enche dois copos até a metade - Hoje em dia, eu sou o peão.

     - Que bom pra você - Quentin entrega minha dose - Vamos?

     - Se eu falar merda, juro que não apareço nessa festa idiota - Contamos até três, depois viramos os copos, sentindo a bebida rasgar nossos canais digestivos, queimando até arder, gerando uma agradável sensação de conforto enquanto sinto que o lugar está ficando mais quente. É nesse momento que os olhos de Quentin se afastam em outra direção.

     - Tudo bem?

     - Velho, aumenta o volume.

     - Já cansei dessas notícias insuportáveis.

     - Mas eu não. Aumenta, porra - O idoso não diz mais nada. Apenas aumenta o volume e balança a cabeça com indignação. A princípio, ignoro o que os jornalistas estão dizendo, mas o súbito desvio de olhares dos presentes atiça minha curiosidade e sou obrigado a seguir o mesmo percurso.

     Na televisão, fotos bizarras, vídeos arquivados a respeito de crimes ocorridos muitos anos antes e uma risada de fundo. Enfim descobrimos a razão de tantos policiais na rua.



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