História O desabrochar de uma flor solitária - Capítulo 1


Escrita por: e jacksonwngg

Postado
Categorias (G)I-DLE
Personagens Shuhua, Yuqi
Tags (g)i-dle, Flor Solitária, Shuhua, Shuqi, Soulmates, Yuhua, Yuqi
Visualizações 132
Palavras 3.774
Terminada Sim
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Ficção Adolescente, Fluffy, LGBT, Yuri (Lésbica)
Avisos: Homossexualidade
Aviso legal
Os personagens encontrados nesta história são apenas alusões a pessoas reais e nenhuma das situações e personalidades aqui encontradas refletem a realidade, tratando-se esta obra, de uma ficção. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos, feita apenas de fã para fã sem o objetivo de denegrir ou violar as imagens dos artistas.

Notas do Autor


Leiam as notas finais!

Capítulo 1 - Capítulo Único; Talvez nossas almas estejam entrelaçadas


Talvez nossas almas estejam entrelaçadas.
 

 

A noite havia sido agitada em torno do palácio real. Os guardas estavam em maior prontidão que nunca. Homens fortes protegiam todas as entradas possíveis para os aposentos da realeza. Eunucos caminhavam de um lado para o outro, pois o Rei não havia conseguido fechar os olhos para o seu descanso. Na verdade, ninguém poderia descansar uma vez que as últimas semanas tenham sido desesperadoras.

Tudo havia se iniciado quando rebeldes do Leste declararam ataque ao palácio. Não fora de repente, afinal, as ameaças começaram no aniversário de dezoito anos da Princesa. Uma caixa portando uma boneca de pano coberta de sangue acabara com as comemorações e deixou em pânico a Rainha, mãe da menina que, mesmo se mostrando quieta, tinha os batimentos cardíacos cada vez mais acelerados. Todos os anos, desde que completara cinco anos, uma caixa como aquela se encontrava entre os presentes, sempre com ameaças de que seu fim estava próximo. Nunca descobriram a origem dos presentes maldosos, mas o Rei chegara a acreditar que vinha do seu próprio povo.

Era fim do dia quando tudo começou. Parte da guarda real morrera protegendo os portões, enquanto aqueles que estavam do lado de dentro tentavam salvar a realeza. O Rei e o filho mais velho, sendo o futuro herdeiro ao trono, não fugiram pelos túneis junto as mulheres da família. Com suas espadas, se colocaram de frente aos invasores e travaram uma luta perigosa que, por pouco, não fora vencida pelo lado inimigo.

Muitos tiveram suas vidas arrancadas abruptamente. Os que sobreviveram ficaram feridos ou assustados. Apenas não tanto quanto o Rei que, pela primeira vez, sujou as próprias mãos com sangue. Não acreditava que matar o pilar do lado Leste fosse apagar todas as cenas que seus olhos assustados flagraram durante a luta, porém, ainda assim, arrancou-lhe a cabeça. Em nome de seus filhos. Em nome dos que se foram. Em nome do povo que protegia.

Assim, estabeleceu ordens de restrição para quaisquer formas de saída do palácio. Ninguém poderia entrar ou sair até que tivesse certeza de que tudo havia se resolvido. O que restou para que fizessem não era nada além das ruínas dos monumentos e estátuas destruídas durante o confronto, alguns animais não saíram ilesos, outros fugiram e os que restaram pareciam acuados. Todos se uniram para limpar e reorganizar os arredores do palácio, ainda que não tivessem a certeza de que estavam seguros.

Contudo, no dormitório da Princesa, a menina de cabelos encaracolados observava o seu reflexo no espelho enquanto tinha os cachos movidos de um lado para o outro. Uma das criadas escovava os fios rebeldes e tentava a todo custo domá-los para prendê-los em um penteado padrão entre a realeza. Os olhos atentos da mais nova estudavam-na e causava-lhe risos quando flagrava seus lábios torcerem de pura frustração.

— Está pronta, Princesa. — abaixando a trança já feita, finaliza o penteado com uma delicada presilha em formato de borboleta, feito de prata verdadeira.

Enrugando o nariz, a herdeira sorri amplamente.

— Obrigada. 

Endireita-se e, segurando as barras do seu hanbok que variavam entre as cores azul ciano e lilás. Girando em seu eixo, faz menção de seguir até a porta do quarto.

— Está indo a algum lugar? — Para a biblioteca. — limita-se em dizer. — Não precisa me acompanhar. Ficarei algumas horas lá dentro.

O sorriso que esboça é sincero, já suas palavras, nem tanto.

A porta é aberta quando sua sombra é vista do outro lado, as outras quatro mulheres e dois guardas do outro lado curvam-se para saudar a Princesa que suspira quando não recebe olhares em sua direção. Não importava a quantos anos vivia dentro do palácio, nunca iria se acostumar com a forma como era tratada, como se fosse intocável. Diferente dos seus pais e irmão, não queria que fosse temida, sua única cobiça era conquistar um amigo.

Ainda com o tecido macio um pouco mais no alto, guia-se por entre todos e segue pelo corredor, dobrando a esquerda e logo repetindo o ato, porém, a direita. Ao chegar em frente a biblioteca, dois guardas abrem a porta e curvam-se para a entrada da Princesa. Quando a morena espia o interior, solta a respiração e inspira o ar que tanto amava.

Gostava de se esgueirar pelo palácio e passar horas do seu dia lendo livros e escrevendo. Tinha um professor que a ensinava sobre tudo o que precisava saber, mas achava ser pouco, por essa razão, investigava por si só e sentia-se cada vez mais curiosa sobre o mundo.

Porém, sua entrada no lugar de leitura e estudos nem sempre eram com o propósito de estudar, assim, olhando para trás por cima dos ombros, tem a garantia de que estava sozinha, podendo rumar até uma das últimas prateleiras do espaço repleto de livros. Antes, curva-se e apanha a bolsa que preparou na noite passada e, silenciosamente, arrasta-a até liberar a passagem para uma breve escadaria. Adentrando-a, torna a fechá-la para não ser descoberta e faz o caminho já conhecido.

Apanhando uma candeia ao lado do último degrau, agradece mentalmente ao fato de uma das cozinheiras do palácio sempre a deixava acesa, pois aquele também era seu ponto de fuga. Seguindo pela passagem escura, consegue chegar facilmente até a porta de saída e, empurrando-a sem muito esforço, avista a moradia dos servos do palácio, desde os guardas até as damas de companhia.

Song Yuqi adorava a forma como viviam. Crianças corriam pelo terreno amplo, e as mulheres tinham suas distrações, cultivando plantas ou desenhando junto aos filhos em pergaminhos ou roupas que secavam no varal. Invejava-os por serem simples, embora felizes. Não tinham ouro, prata ou bronze os cercando, no entanto, tinham o que faltava no coração da Princesa.

— O que faz aqui? — o garoto de olhos brilhantes assusta a mais velha que dá um passo para trás. — Está tentando fugir novamente?

— Você me assustou. — massageia o peito com a mão livre. — Pode me ajudar, Go Wo?

— Meu pai disse que ninguém pode entrar ou sair do palácio. — ergue o queixo. — Preciso retribuir o favor a uma amiga.

— De qualquer maneira, a Princesa não devia estar desobedecendo ordens. 

— Bem, não estou no palácio. — rebate e também ergue o rosto. — Se me ajudar dessa vez, prometo não contar aos seus pais que foi ao mercado escondido na tarde de ontem. 

— Como sabe disso? — o adolescente arregala os olhos escuros. 

— Eu sei de tudo o que acontece, criança. — bagunça os fios do cabelo que batia nos ombros largos do rapaz. — Por favor?

Os lábios de Yuqi unem-se e formam um beicinho, e Go Wo pragueja baixinho. A Princesa e o adolescente se conheceram em uma das fugas da mais velha que fora descoberta pelo menino curioso que lhe fez muitas perguntas, mas ao invés de entregá-la para algum guarda, ajudou-a e conheceu um lado desconhecido da filha mais nova do Rei. Tornaram-se amigos e confidentes, ainda que o filho de um dos guardas do palácio negasse tal fato.

— Há um cavalo atrás da cabana de ferramentas do guarda Ji. — desvia o olhar.

— Você é incrível! — animada, a mais velha inclina-se e dá-lhe um beijo na bochecha e pousa em suas mãos a candeia.

Movendo-se ligeiramente para não ser pega, diminui a velocidade dos passos somente quando a voz do seu amigo chama-lhe atenção.

— Princesa. — umedece os lábios e lhe estende uma capa escura. — Tome cuidado.

Sorrindo, a morena anui em concordância e aceita a peça.

— Eu vou. — garante ao menino e volta a correr.

Seguindo os dizeres de Go Wo, avista o cavalo contido por uma corda em volta do tronco de uma árvore. A

ntes de montá-lo, a de fios encaracolados aproxima-se vagarosamente do animal, amansando-o e lhe estendendo alguns pedaços de cenoura que estavam caídos ao lado de um balde. Somente quando tem a segurança de que poderia levá-lo, desfaz o rente a madeira firme do tronco e ruma pela saída para uma parte da floresta.

Caminhando sem pressa e olhando sempre para trás, temendo que pudesse ser descoberta, porque sabia que os guardas foram instruídos a fazer rondas por todos os períodos do dia. Parando para montar no cavalo, ergue-se com certa dificuldade, o animal era imenso, enquanto a menina de estatura miúda trajava uma veste que não a ajudava também.

Começando a cavalgar pelas trilhas conhecidas, avança por todo o caminho até que, ainda distante, avista as flores de variadas cores que pareciam brilhar naquela manhã. Saltando do cavalo, Yuqi amarra-o rente a um tronco, permitindo que ficasse em uma sombra fresca por todo o tempo que gastaria em seu passeio secreto. 

Endireitando a bolsa de couro sobre o ombro direito, segue em passadas tranquilas até entrar no campo. Por alguns segundos, fecha os olhos e aspira o frescor da brisa que embala, não apenas as pétalas e folhas, como também alguns fios rebeldes que desprendem do penteado. Amava os aromas diversos que exalavam das flores que, mesmo crescendo juntamente umas com as outras, eram diferentes e únicas.

A Princesa encontrou o bonito campo por acaso, quando retornava de um jantar na casa do ministro do lado Sul. Estava sendo levada por alguns guardas e uma dama de companhia, então, ao olhar para fora, avistou as flores. Não foi fácil convencê-los a fazer uma parada, mas insistiu e conseguiu circular por entre a visão mais bela que tinha tido a sorte de flagrar em todos os seus anos de vida.

Desde então, nunca mais ousou ficar enclausurada na biblioteca ou no quarto. Queria sempre fazer visitas as flores e aos animais que encontrava também, sabia que não podia levar nada para o palácio, ou acabaria sendo descoberta. No entanto, acreditava que jamais se esqueceria das cenas mais felizes dos seus dias.

Ao abrir os olhos, esfrega as palmas das mãos e solta um longo suspiro.

— Você pode sair agora. — murmura. — Sei que trata-se de você, Ye Shuhua.

Um pigarreio escapa e, ao mesmo instante, uma figura completamente vestida como a guarda real sai de trás de alguns troncos estreitos, embora unidos.

Abaixando a máscara que cobria parte do nariz, lábios  e queixo, revelando a face de uma garota que aparentava a mesma idade da Princesa.  

— Porque não contou sobre as minhas fugas? — questiona ao virar-se para a jovem. — Você faz parte da guarda, mas nunca me entregou. Porque?

A morena mantém os olhos baixos e postura curvada, de modo em que mostrasse seu respeito.

— Por favor, Shuhua. Responda-me. — crispa os olhos. — E endireite-se. Sabe que não precisa se curvar para mim.

— Meu dever é protegê-la. — balbucia em resposta. — Enquanto estiver seguindo-a, não deixarei que ninguém a machuque.

Ergue-se e endurece sua feição, olhando para um ponto qualquer, nunca para os olhos da herdeira.

A Princesa anui em concordância, mas logo franziu o cenho.

— É por isso que foi atingida por uma espada, para me proteger? 

Hesitando por um instante, toma uma lufada de ar antes de responder.

— Desculpe? — não compreende a pergunta.

— Siga-me. — é tudo o que diz antes de começar a andar para o lado contrário.

Parando de frente para o que se assemelhava a uma gruta, a Princesa adentra o local que ecoa até mesmo o som dos seus passos, e senta-se em uma rocha firme ao chão. Ainda na entrada, a guarda espia o interior, mas não se move. Parecia desconfiada, envergonhada e confusa. Porém, sem dar-lhe algum tempo de estudar o misto de emoções que sentia, têm a atenção voltada para a garota de olhos brilhantes e miúdos que bate na rocha, indicando o lugar para se sentar.

— Sente-se. — impõe.

— O que?

— Não me faça buscá-la. — com o olhar e queixo, aponta para o espaço vago ao seu lado.

Estando em uma situação em que não poderia negar algo para a Princesa de toda a nação, força suas pernas e pés a se moverem na direção indicada e, ao se sentar, une os joelhos, assim como faz com as mãos. Seu coração batia apressadamente, e algumas gotículas de suor voltavam a se formar em sua testa e pescoço. O clima estava quente, mas não o suficiente para causar-lhe tanto incômodo.

— O q-que… O que a Princesa deseja? — o tom  de sua voz é baixo, quase inaudível.

— Quero gritar com você. Quero chamá-la de estúpida e mandá-la para longe do palácio. — busca os olhos escuros, mas não encontra nada além de uma franja grossa que cobre parte do rosto empalidecido da mais nova. — Porque se colocar em perigo dessa maneira, Shuhua?

— É o meu trabalho. — Colocar sua vida em risco é o seu trabalho? — eleva sua voz em alguns tons, estando verdadeiramente irritada. 

A morena olha para os lados, aflita, porém, não ousa olhar para a sua Alteza.

— Meu trabalho é protegê-la, não importa o que ou como. — afirma. — Se estiver em perigo, irei mantê-la em segurança, mesmo que minha vida dependa disso.

— Pare com isso! — os olhos amendoados tornam-se mais escuros. — Faz ideia de como é tola dizendo isso?

— Desculpe-me, Princesa. — vira-se o suficiente para poder se curvar corretamente. — Essa é somente a verdade.

— Não quero que fique ao meu lado como uma guarda, garota tola. — solta uma risada embalada pelo nervosismo. — Porque não podemos apenas ser amigas como éramos antes? 

— Sabe que isso não é possível. — sua fala soa sem emoção.

— Porque?

Fechando os olhos, a guarda respira e inspira.

— Devemos retornar para o palácio.

A Princesa não devia ter saído sem proteção.

Fazendo menção de se levantar, tem uma mão delicada que contorna o seu pulso esquerdo.

— Deixe-me fazer algo por você. — pede, baixinho. — Por favor.

Eu não posso. É a primeira frase racional que se passa pela mente agitada de Shuhua, no entanto, como se seu corpo estivesse ligado unicamente ao coração, volta a se sentar.

Ainda que lutasse contra suas emoções alvoroçadas, não conseguia negar algo para a herdeira. Por isso, evitava olhá-la nos olhos, pois eles pareciam sempre sorrir antes de seus próprios lábios. Também, não gostava de contato físico. As mãos pequenas e macias sempre lhe contornavam os pulsos ou dedo mindinho.

Não gostava — nem um pouco — do que sentia quando o mindinho de Song Yuqi entrelaçava o seu.

— Não preciso que faça nada por mim. — responde duramente, mas não surte o efeito esperado.

Ao invés de recuar, a doce menina dá de ombros e abre a bolsa, retirando alguns frascos e tecidos.

— Pedi algumas coisas para a curandeira. — explica ao notar o olhar intrigado da mais nova. — Soube que não permitiu que tratassem do seu ferimento.

— É porque não foi nada grave. — umedece os lábios, de repente, tão secos. — Para que foi aborrecê-la?

— Diferente de você, a senhora Yang gosta da minha companhia. — torce os lábios. — Você era uma criança adorável, mas tornou-se tão amarga.

O resmungo chega intencionalmente aos ouvidos atentos da guarda que olha-a de canto.

E você continua tagarela como sempre fora. Era o que realmente queria dizer para rebater, mas opta o silêncio. 

Misturando algumas das ervas em uma pequena tigela de porcelana, Yuqi logo consegue uma mistura aparentemente feia, e de um cheiro forte. Contudo, era exatamente o que a curandeira havia lhe dito para fazer. Uma vez com tudo pronto, lembrando-se até mesmo dos mínimos detalhes, a Princesa olha para a morena que, sem se dar conta, estava olhando-a atentamente por algum tempo.

— Afaste as vestes do seu ombro. 

— Uh? — pisca algumas vezes, como se estivesse recobrando os sentidos.

— Preciso ver o ferimento para poder tratá-lo.

Instrui calmamente, porém, a mesma não dura por muito tempo. Erguendo a mão para tocar no ombro ainda coberto pelo tecido grosso da roupa escura e padrão de toda a guarda, a morena salta para o lado, ficando a um centímetro de ir com tudo ao chão pelo pouco espaço que tinham sobre a rocha.

Por si só, afrouxa o nó que segurava os dois lados da peça e desliza parte do pano pesado para baixo, de modo em que expunha o ferimento profundo e sem qualquer cuidado.

— Shuhua… — leva as mãos aos lábios, horrorizada com o que via. — Isso deve ter doído tanto.

A guarda nega com a cabeça, no entanto, ao olhar para a mais velha, flagra as lágrimas que se formavam nos olhos brilhantes.

— Porque está chorando?

— Não gosto de saber que se machucou assim por mim. — sussurra e luta contra as próprias lágrimas.

— Ei! Não faça isso. — move-se inquieta. — Não permita que suas lágrimas caiam por um motivo tão bobo.

— Não é um motivo bobo, trata-se disso. — torna a olhá-la e, dessa vez, toca superficialmente na pele sã do seu ombro. — Porque não aceitou ajuda?

— Como disse, não foi nada grave. — desvia o olhar. — Meu pai conseguiu feridas maiores que essa antes de morrer.

— Seu pai odiaria ver a sua filha machucada. — ergue o olhos ainda marejados. — E eu também odeio. Odeio vê-la assim, Ye Shuhua.

Uma onda de arrepios serpenteiam pelos braços e pernas da morena que limpa a garganta.

— Vamos acabar com essa bagunça e retornar ao palácio. — tenta esconder o ferimento, mas tem a mão afastada pelas mãos delicadas, embora ágeis da Princesa.

— Não sem antes cuidar disso. 

Forçando-a a manter-se quieta no mesmo lugar, a Princesa cuida do ferimento com uma maestria surpreendente. Tudo porque escutou cada palavra dita pela senhora de pouco mais de sessenta anos que cuidava de todos que adoeciam no palácio. Também, era uma curiosa de primeira, nunca deixava nada fugir do seu radar. Seu irmão costumava dizer que era astuta como uma raposa.

Mordisca o lábio inferior com força quando nota o quão feia estava a ferida que a mais nova foi teimosa o bastante para ignorar. Seu coração parecia estar em pedaços, pois sentia-se culpada. Detestava como mais nada no mundo o fato de que a garota que um dia foi sua melhor e única amiga, estava arriscando a vida para salvá-la.

— Shuhua.

— O que foi?

— Porque se tornou guarda?

A pergunta pega a morena de surpresa e rouba-lhe o fôlego que torna-se irregular. Mesmo sabendo a razão, não era fácil responder. Por muito tempo acreditou que fosse para honrar todo o período em que seu pai serviu o palácio como guarda, quando o Rei ainda era um Príncipe. Todavia, com o passar dos anos, quanto mais convivia com a Princesa, algo maior, mais intenso e errôneo fazia morada em seu peito, do lado esquerdo. Era algo sufocante e completamente irreal. 

Poderia simplesmente fugir para acabar com toda a loucura que se passava em seus pensamentos e vontades absurdas. Porém, algo a prendia junto a menina sorridente e rebelde. E, por este algo, tentou um lugar na guarda real, sendo a primeira e única mulher a jurar proteger a herdeira, custasse o que fosse necessário. O palácio poderia confiar no juramento da jovem, pois a mesma cresceu ao lado da Princesa, foram amigas durante um longo tempo.

As coisas mudaram quando responsabilidades pelo sangue que corria nas veias da mais velha, a fizeram ir para longe e tornar-se cada vez mais inalcançável. Tentou esquecê-la para que pudesse viver sua vida simples, apenas não foi capaz de ir para canto algum. Após algum tempo, passou a compreender suas emoções. Descobriu que havia um nome para o que sentia. Contudo, continuava sendo um erro, então, escolheu esconder e guardar para si mesma, até o seu último suspiro.  

— Meu pai morreu como um guarda do palácio. Ele amava o que fazia.

— E você? — tem os olhos atentos ao que fazia sobre o ferimento. — Também faz isso porque ama?

— Para que são essas perguntas? 

— Quando era criança, você dizia que o seu sonho era viver em uma pequena casa no campo, onde poderia voltar depois de tocar gaita por todo o dia no vilarejo. Shuhua pressiona os lábios finos e rosados.

— Sonhos de criança mudam. — rebate. — Você sonhava em ser uma borboleta.

— Meu sonho não mudou. É somente frustrante ser algo impossível. 

— Você é uma Princesa, do que mais precisa?

— Amor.

Os olhos escuros se arregalam e voltam-se para a miúda, completamente concentrada em colocar as ervas rente ao ferimento, temendo feri-la ainda mais caso viesse a errar algum gesto.

— O que disse?

— Eu preciso de amor. — suspira. — Não quero uma relação como a dos meus pais, ou a do meu irmão e sua futura esposa. Eles não se amam.

— Como pode ter tanta certeza disso?

— Ouvi dizer que o amor é expressado em pequenos gestos. — abre um sorriso e olha para a morena, brevemente. — Acredita em almas destinadas?

— Almas destinadas? — assente. — O que você acha que são duas almas destinadas?

— São duas pessoas que nasceram para ficar juntas, não importa o que aconteça. — sua resposta é recheada de convicção. — Ouvi também que é algo que só acontece uma vez na vida.

— Então, quando duas pessoas que nasceram para viver juntas se encontram, é como se o tempo parasse?

— Talvez. — balança os ombros. — Acho que, quando duas pessoas se amam, são capazes de ter o tempo só para elas.

— Isso é o que você aprende naquela biblioteca?

— Eu quero viver algo assim.

Termina de zelar do ferimento.

— Para que?

— Para sentir. — ergue o queixo e empina o nariz. — Você já amou alguém?

Sim. Queria dizer.

— Não. — é o que diz.

— Acha que poderá encontrar sua alma gêmea em algum lugar?

— Não tenho planos de ir a qualquer outro lugar. — sente  garganta seca.

Yuqi pensa por um instante.

— Eu também ouvi que amar alguém é cuidar, proteger e se manter por perto. — semicerra os olhos. — E se eu for sua alma gêmea?

— O que?!

Uma tosse desajeitada explode pela garganta e lábios de Shuhua que engasga-se com uma simples frase que ouve.

— Talvez nossas almas estejam entrelaçadas. — comenta, sorridente. — Você me protege, cuida de mim e continua ao meu lado. Eu também quero fazer isso por você.

— Princesa…

— De agora em diante, quando estivermos só nós duas, não seremos da realeza ou guarda. — ergue as sobrancelhas. — Seremos apenas, Shuhua e Yuqi, duas amigas de infância que compartilham segredos, sentimentos e sonhos. Tudo bem?

Os olhos de Ye Shuhua piscam devagar, quase como se pesassem uma tonelada.

— Uh? — aproxima o rosto da menina.

As batidas do coração da mais nova poderiam impedi-la de ouvir qualquer outra coisa ao redor, até mesmo o som da sua própria voz. Contudo, sua cabeça pende para frente  e para trás, sutilmente.

O gesto arranca um sorriso sincero da Princesa que, empolgada, alcança o mindinho esquerdo da amiga que olha-a assustada.

— Essa é a nossa promessa, Shuhua. — não desvia o olhar. — Se somos almas gêmeas ou não; se iremos sentir o amor algum dia ou não. Nada disso importa agora. Vamos apenas deixar o pequeno botão desabrochar.

Naquele instante, algo realmente acontece. E, a promessa de jovens sonhadoras resulta no desabrochar de uma flor solitária em meio a um campo cheio de outras flores.  


Notas Finais


Obrigada pela leitura. Até a próxima!
Agradeço a querida adm desse projeto lindíssimo pela betagem sz


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