História O Desafio (BOOK!2) - Capítulo 3


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Categorias Bangtan Boys (BTS)
Personagens Jeon Jungkook (Jungkook), Jung Hoseok (J-Hope), Kim Namjoon (RM), Kim Seokjin (Jin), Kim Taehyung (V), Min Yoongi (Suga), Park Jimin (Jimin), Personagens Originais
Tags Família, Jikook, Livro2, Vhope, Vmin
Visualizações 298
Palavras 4.951
Terminada Sim
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Aventura, Comédia, Drama (Tragédia), Famí­lia, Ficção, Fluffy, Lemon, Romance e Novela, Shoujo (Romântico), Yaoi (Gay)
Avisos: Álcool, Homossexualidade, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Sexo
Aviso legal
Os personagens encontrados nesta história são apenas alusões a pessoas reais e nenhuma das situações e personalidades aqui encontradas refletem a realidade, tratando-se esta obra, de uma ficção. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos, feita apenas de fã para fã sem o objetivo de denegrir ou violar as imagens dos artistas.

Capítulo 3 - O desafio começou


Fanfic / Fanfiction O Desafio (BOOK!2) - Capítulo 3 - O desafio começou

O olhar de Jungkook por pouco não era capaz de abrir um buraco na parte de trás da cabeça de Jimin. Felizmente, toda vez que ele se virava, não era o Jungkook de sempre que via, mas sua versão suada e inchada — o que destruía a imagem de encarnação do sexo que sempre tivera dele.

Ele acenou.

Jeon estreitou os olhos e se sacudiu violentamente no assento — mais uma vez. Jimin suspirou e se virou para olhar por cima do ombro direito, na direção do assento do irmão. Notou que Minho dormia feliz. Será que ele perdera o barraco?

Era sem dúvida o pior irmão do mundo!

— Mais vinho. — Vovó Nadine entregou a Jimin o copo vazio. Mas o que ela faria com aquilo?

Uma comissária de bordo apareceu do nada e o encheu até a borda. Como alguém conseguia aquele tipo de atendimento em um voo tão curto? Eles nem estavam na primeira classe!

Sem dizer nada, Vovó Nadine pegou o copo plástico das mãos de Jimin e tomou um longo gole. Cada milímetro da borda estava coberto de batom vermelho, indicando que o objeto pertencia a ela e a mais ninguém. Parecia haver mais batom ali que em todos os estandes da Sephora.

— Então, Jimin. Sei que Jungkook é um bundão...

Jimin soltou uma risada curta.

— Mas... — A velha senhora interrompeu a frase para outro gole de vinho. — É o meu bundão.

Jimin quase engasgou, de tanto que riu.

— Não, calma... — Vovó deu um longo suspiro. — Não quis dizer que ele é meu... Ele é bundão por ele mesmo. Mas foi muito mimado por mim quando criança. O garoto tinha medo de tudo, sabe?

— Ah, é mesmo? — Jimin fingiu desinteresse, apesar de a revelação ter feito seu coração bater com força. — Não sabia.

— Ah, querido

Vovó riu. — Ele tinha medo da própria sombra, quando garoto! Dormiu na cama dos pais até os seis anos!

Coitados dos pais de Jungkook.

— De qualquer modo... — Vovó deu mais um gole no vinho. As joias que usava no pulso tiniam quando ela gesticulava ao falar. — É meu trabalho, minha missão, fazer o melhor por ele. Ajudá-lo no percurso, fazer dele o homem que deveria ser, antes que seja tarde demais.

— A senhora está doente? — sussurrou Jimin, sentindo o coração apertado.

— Eu? — Vovó deu uma risada. — Ah, querido! Deus ainda não me quer do lado dele! Ele me contou isso hoje mesmo, pela manhã.

— Então... — Jimin soltou o ar e esfregou as mãos nas calças. — Qual é o plano?

— Ah. — Vovó esvaziou o copo tal qual faria uma estrela do rock e o devolveu a Jimin. — Isso é fácil. Já o deserdei. Jungkook conta apenas com o que tem na poupança. Também o demiti. Embora ele ainda não saiba.

— Hum.

— Que gracinha. — Vovó deu tapinhas na perna de Jimin. — Percebi que você ficou preocupado com ele. Não fique. Depois disso, Jungkook vai pôr os pés no chão. Em uma situação difícil, os bundões sempre caem em pé. — Ela hesitou. — Ou será que são os gatos? — A velha senhora sacudiu a cabeça com o dedo no queixo, confusa. — Bem, de qualquer jeito... ele vai ficar bem.

— Então é para o bem de Jungkook que você está arruinando a vida dele? — perguntou Jimin.

— Isso mesmo.

Vovó curvou o tronco para frente, e os seios vistosos extravasaram um pouco do longo decote em V. Como ela conseguia manter um corpo daqueles?

Sério. Vovó Nadine era simplesmente incrível.

— Todo o mundo, todo o mundo mesmo, merece ter a vida arruinada — disse vovó, sorrindo e colocando uma das mãos perfeitamente feitas no braço de Jimin.

— Isso mantém as pessoas agradecidas. Vou arruinar a vida de Jungkook, e, no fim, ele vai ficar agradecido, feliz, satisfeito e... — Ela olhou para trás. — Não com essa aparência pior que o pecado. Ah, bom Deus! Aquele rapaz era lindo! Agora usa um negócio no cabelo, faz limpeza de pele e... — Vovó deu de ombros. — Ruína e imundice. Ele terá os dois. Quando eu terminar, Jungkook nem vai saber o que aconteceu a ele. E, se isso não funcionar... — Fascinado, Jimin mal podia esperar para ouvir que pérola de sabedoria sairia da boca de vovó Nadine em seguida. — Bem, sempre tem o seminário religioso.

— A senhora o mandaria para um seminário religioso?

— Mas é claro que não! — Vovó levou uma das mãos ao peito, ofendida. — Ele que se ofereceria para ir, para me deixar feliz e poder novamente contar com as minhas boas graças. E com as graças de Deus, que não podemos nos esquecer d’Ele! Já faz anos que Jungkook o irrita. Que Deus abençoe esse coração galinha!

— Ah, acho que a senhora não deveria dizer “galinha” e “Deus” na mesma frase.

— Besteira! — Vovó fez um gesto de indiferença. — Estou exausta. Vou descansar os olhos. Boa noite.

Parecia que a conversa tinha terminado. Ou isso, ou as três taças de vinho tinham derrubado vovó, que em questão de segundos começou a roncar. O avião pousou vinte minutos depois, encerrando o voo mais apavorante e estranho da vida de Jimin.

No instante em que o aviso de AFIVELAR OS CINTOS apagou, Jimin pulou do assento. Vovó acordou e bocejou.

— Já chegamos?

— Já. — Jimin estava tentando não ser mal-educado, mas só pensava em deixar aquele pesadelo para trás. Voltou o mais rápido que pôde para seu assento original, onde Minho esperava pacientemente.

— Precisamos ir agora mesmo! — ordenou Jimin. — Pegue nossas coisas. Não queremos que vovó Nadine pense que...

— Jimin! — gritou uma voz feminina familiar. — Jimin! Preciso de ajuda!

Em pânico, Jimin foi direto até vovó, passando inclusive por cima de outros assentos. A velha senhora esperava serenamente em seu assento.

— O que foi? É o coração? Está passando mal? Está...

— Minhas malas estão pesadas, e acho que bebi demais.

O que era a constatação do século. Vovó Nadine tinha bebido três taças de vinho em menos de vinte minutos. Na última vez que bebeu tanto assim, Jimin acabou com a cara enfiada em uma cama de cachorro, ao lado de um labrador chamado Lúcifer, que com certeza se aproveitara dele durante a noite, a julgar por todo o pelo que havia em sua boca.

— Pode carregar para mim? — Vovó Nadine deu um sorriso tão doce que ele não teve escolha. E foi assim que, uma hora depois, Jimin estava na área de restituição de bagagens ao lado de Minho, de vovó e de um Jungkook bastante inchado.

Os óculos escuros não estavam ajudando. Cambaleando, Jungkook fazia o possível para manter os olhos fixos na esteira. Assim que pegasse as malas, daria o fora dali. Vovó já era crescidinha, podia chegar sozinha ao hotel. Além disso, se precisasse encarar Jimin mais uma vez, ele certamente perderia a cabeça e faria alguma maluquice, como ficar olhando fixamente para os lábios dele ou tentar estrangulá-lo. Era difícil saber qual das duas opções era mais provável.

— Jungkook? — chamou vovó. — Jungkook, já encontrou minhas malas?

— Não.  — grunhiu ele, em resposta. — E creio que seja porque eu não estou procurando por elas. Estou atrás da minha bagagem. Você mesma pode encontrar a sua e ir para o hotel maravilhoso de sempre, no centro.

Nadine segurou a mão do neto e a apertou.

— Ah, na verdade, já tenho onde ficar!

— Ótimo.

Vovó soltou sua mão e pegou o celular.

— Sim, só a limusine, por favor. Perfeito. Sim, são dois passageiros.

Ela acenou para Jimin e para o outro garoto. Jimin ignorou Jungkook, o que era ótimo: ele só queria esquecer aquele dia.

Olhando pelo lado bom, ao menos vovó tinha chamado uma limusine para ele. Não que Jungkook fosse pobre nem algo do tipo, mas não ter mais os direitos sobre uma empresa multimilionária estava longe de ser algo positivo, ainda mais considerando o estilo de vida que ele levara nos últimos cinco anos. Passara a faculdade em festas e gastara como se não houvesse amanhã, sem ligar para nada além de si mesmo. O que teria sido ótimo, se o dinheiro não tivesse acabado de repente. Bem, na realidade o dinheiro não tinha exatamente acabado: ele ainda era milionário, mas, sem a herança da avó, a grana diminuía.  Aquele deveria ser o ano em que assumiria os negócios da família.

Em vez disso, vovó desistira da aposentadoria e assumira novamente o controle do conselho da empresa, deixando Jungkook como mero vice-presidente.

Sem o salário de CEO, ele se tornava um pouco... ingrato. Ou seria apenas irritado? Não tinha certeza. Mas precisava de uma bebida forte e de sexo antes de sequer pensar em aparecer no trabalho segunda de manhã.

— Ela está ali! — Vovó apontou a enorme mala rosa com estampa de oncinha. — Vá pegar! Depressa!

Resmungando, ele ergueu a mala da esteira e quase perdeu o equilíbrio.

— Meu Deus! O que você enfiou aqui?

— Ah, você sabe... — Vovó fez um gesto de indiferença. — Uma mulher nunca viaja sem roupas e maquiagem.

— Certo. — Ele encontrou a própria bagagem e a pegou. — Então, cadê a limusine?

— Que limusine? — A avó tirou os óculos de sol Chanel da bolsa.

— A limusine — repetiu Jungkook. Todo aquele suplício no avião o deixara exausto. — Você acabou de ligar pedindo uma limusine para duas pessoas. Cadê ela?

— Jungkook, tenho certeza de que existem muitas limusines, onde cabem bem mais que duas pessoas, mas, para ser sincera, não sei do que você está falando. Na realidade, mandei uma mensagem ao motorista, pedindo a ele que ligasse para Jimin e o irmão dele.

— E por que você faria uma coisa dessas?

— Porque o pobrezinho estava exausto! — Vovó ficou boquiaberta, apontando para a cara de Jungkook. — Depois de tudo o que você o fez passar! E pensar! Um bilhete de agradecimento? Agradecendo o quê? Um orgasmo? É isso que os jovens fazem, hoje em dia? — censurou vovó. — O pobrezinho nem se lembra de ter dormido com você. Eu diria que você perdeu o jeito, mas duvido de que algum dia tenha tido, para começar.

— O quê? — explodiu Jungkook. — Do que você está falando? Posso dar prazer a qualquer um, quando eu quiser! Sou muito bom em fazer com que as pessoas tenham orgasmos!

— Claro que é, meu bem! — respondeu ela. Então se virou para olhar as pessoas que estavam atrás dos dois, moveu os lábios para formar um “desculpe” e deu o braço a Jungkook.

Como assim Jimin não se lembrava de ter transado com ele? Não se lembrava de nada? Sério? Será que ele era maluco? Ele tinha cada detalhe gravado na mente. O cabelo macio, com um aroma suave de lavanda, os gemidos que fazia no fundo da garganta quando ele o beijava. E o gosto... Droga! Homem nenhum conseguiria esquecer o gosto daquele garoto, e tudo em Jimin era único, só dele.

Levara meses para tirar da cabeça aquele gosto, o jeito como apertara os lençóis entre os dedos e depois o tocara com aquelas mãos habilidosas...

— Sei bem como se sente — sussurrou vovó em seu ouvido. — Também fico um pouco atrevida quando viajo de avião. Você vai superar. Agora, dá para irmos embora antes que todos percebam o efeito que a animação dos aeroportos produz em você? Já foi ruim o bastante ter de ficar aqui ouvindo você gritar “orgasmo”. Deus sabe como já fui paciente com você hoje!

— O quê?

— Jungkook, as avós sabem das coisas. Tudo bem. Veja só, quando eu tinha a sua idade... — Ela deu uma risadinha. — Uma vez, seu avô e eu fomos ao banheiro do aeroporto... Eles eram menores naquela época, sabe? Bem, eu estava de salto vermelho, na altura perfeita para...

— Vovó, por favor, eu imploro: não diga mais nada! Já é suficientemente ruim o fato de minha imaginação estar a toda. Eu só... só preciso que o dia de hoje acabe. Preciso dormir um pouco antes do trabalho, está bem? Vamos logo para onde quer que você vá ficar hospedada, para que eu possa ir para casa.

Vovó deu de ombros e passou depressa por ele, em direção à rua. Ela estendeu a mão para chamar um táxi e deu as instruções ao motorista enquanto Jungkook ajudava a pôr a bagagem no porta-malas.

Quando o táxi começou a andar, ele pôde, enfim, relaxar. Vovó estava em silêncio ao seu lado, com os olhos fixos na paisagem de Seul. Em menos de dez minutos, vovó já estava roncando. Assim, ao menos parava de gritar obscenidades. Com a sorte que ele tinha, era capaz de ela voltar a falar de orgasmos e saltos vermelhos. Ah, mas que inferno! Ele nunca mais veria sapatos de salto vermelhos da mesma forma.

Deu uma olhada nas mensagens de texto. Algumas eram de Aileen, que errara a grafia de palavras que qualquer pessoa da idade dela deveria saber. Se tinha dificuldades até para enviar uma simples mensagem de texto, talvez não fosse mesmo mulher para namorar.

A última mensagem era de Hoseok.

Adiantamos a data do casamento. Não queremos esperar. Taehyung e a omma estão indo à loucura. Esteja pronto em duas semanas, padrinho!

— Merda! — Jungkook jogou o celular no banco e xingou mais um pouco.

Vovó se mexeu, mas não acordou.

Como é que iria encarar Taehyung e Hoseok, depois de tudo o que tinha acontecido? Taehyung fora seu melhor amigo a vida inteira, até que... as coisas mudaram. Ele mudou, Tae também. As pessoas mudam, não é? Era normal seguir em frente! Era normal deixar amigos para trás. O que não era normal era dormir com esses amigos e depois os abandonar. Jungkook com certeza tinha problema com compromissos. Odiava o modo como as mulheres reclamavam pela manhã. Pareciam armadilhas mortíferas e grudentas. Que o envolviam com as pernas, beijavam suas costas... Não. Odiava aquilo. Queria apenas um momento com elas. Recusava-se a dar mais que isso. Porque quando se dava mais de si mesmo, acabava sendo abandonado. Com homens era mais ou menos.

A ideia de ir ao casamento deixava Jungkook desconfortável. O pai de Taehyung não estava vivo para levá-lo até o altar, como ele merecia — mais que qualquer outra pessoa. A pior parte era que Jungkook estava muito bem vivendo a própria vida, até cometer o erro de pedir a Taehyung que fingisse ser seu noivo durante um fim de semana. Não imaginara que seria tão afetado por ele. Mas o golpe final em seu orgulho foi quando Taehyung se apaixonou por seu irmão mais velho — O que, quando criança, era gago e o infernizava. Era muito injusto!

Queria ajeitar a vida antes do casamento. Precisava. Afinal de contas, aparência e dinheiro... eram as únicas coisas que tinha. Sabia que não merecia o amor de ninguém e, portanto, nunca pedira amor. Só torcia para que aquela sua falsa segurança durasse o bastante para que ele sobrevivesse às próximas duas semanas e cumprisse as obrigações de padrinho.

Merda! Precisava recomeçar e encontrar outra pessoa que pudesse levar ao casamento. A julgar pelo naipe das mensagens de Aileen, ela não era mais uma opção.

Sentiu que uma dor de cabeça estava prestes a despontar, mas a ignorou. Foi quando o táxi virou na saída da rodovia. A saída para a casa dele. Deu de ombros: talvez vovó fosse deixá-lo primeiro. Quando o táxi parou na casa de Jungkook, perto do lago, ele desceu, pegou a bagagem e foi se encaminhando para a porta. Não acordaria vovó. Não seria legal. Afinal, ela estava apagada.

Será que isso fazia dele uma má pessoa? Bem, o taxista não a mataria nem nada... Quem mataria uma doce velhinha com baba escorrendo pela...?

— Prontinho! Obrigada! — gritava vovó.

Jungkook se virou, rezando pela primeira vez em anos, e viu a avó — e as malas da avó — acenando para o táxi, que já desaparecia ao longe.

Quando ia abrir a boca, ouviu:

— Pegue minhas malas! Estou exausta! Onde está meu celular? Viu meu celular, Jungkook? — Ela vasculhou a bolsa enorme, da qual puxou um iPhone com capa de zebrinha.

Não. Não mesmo. Ela ia ficar na casa dele? Por quanto tempo? Deus, por favor, não permita que seja até o casamento!

— Meu Deus do céu! O casamento é daqui a duas semanas! Temos bastante tempo!

— Tempo? — Aquilo só podia ser punição divina. Ou isso, ou vovó estava possuída. Era impossível decidir a alternativa mais provável.

— Sim. — O sorriso de vovó se suavizou enquanto ela pegava uma das mãos de Jungkook e a beijava. — Tempo para arruinar sua vida.

— Arruinar? — Jungkook deu uma risadinha enquanto puxava a mão. — Prefiro ficar... hã... não arruinado. Mas obrigado mesmo assim.

— Como preferir. — Vovó deu de ombros. — Ah, Jungkook?

— O quê? — grunhiu ele, enquanto levava a pesada bagagem escada acima.

— Você está demitido.

Jungkook deixou as malas caírem.

— Demitido? — perguntou ele enquanto pontos negros surgiam em sua visão.

(...)

Aquela loucura precisava acabar. Vovó estava hospedada em sua casa havia apenas um dia — um dia! — e, nessas 24 horas, tinha deixado sua vida tão fora do eixo, que era capaz de na próxima sexta-feira ele já estar em um hospício.

A avó o acordou às duas da manhã.

O motivo? Pensou ter visto uma aranha-de-costas-vermelhas. Sim. Uma aranha que, de acordo com as buscas que ele fez na internet, só existia na Austrália. Quando Jungkook lhe revelou aquela pequena informação, a avó, em resposta, gritou que estivera na Austrália alguns meses antes e que uma das aranhas podia ter entrado em sua mala e posto ovos.

A culpa, na verdade, era de Jungkook, que tentou argumentar. A pergunta que ele fez foi simples: por que motivo uma aranha escolheria justamente a mala da avó? De todas as malas do mundo, a dela teria sido a premiada? Isso não seria muito provável...

A resposta? Porque a mala é brilhante, e todos sabem que as aranhas gostam de coisas brilhantes. Depois disso, a avó enfiou uma lanterna na cara dele e o obrigou a revirar a casa inteira atrás da tal aranha.

Lá pelas quatro da manhã, Jungkook estava prestes a arrancar as próprias orelhas.

Aparentemente, vovó roncava um pouco.

Às seis da manhã, ficou ainda pior. Vovó praticava ioga. Jungkook teve a oportunidade de descobrir isso em primeira mão quando ela colocou o DVD de videoaulas em um volume ensurdecedor. O que não teria sido tão ruim se antes ela tivesse avisado que era um tipo de ioga sensual voltada para idosas, ou melhor, lobas.

Por fim, Jungkook trancou a porta do quarto.

Mas vovó era implacável. Depois de muitas batidas e de um ruído alto, quando a porta se soltou das dobradiças, a senhora exclamou:

— Jungkook? Ah, meu Deus! Achei que você tivesse morrido!

— Deus não é assim tão justo. Pode acreditar. Eu já implorei por isso.

— Ah, Jungkook! — Vovó se jogou na cama. — Anime-se! Pense em sua demissão como um prolongamento das férias!

— Só que não é — grunhiu Jungkook. — Estou desempregado. Não tenho carreira nem dinheiro. Não tenho nada, e você está lá embaixo praticando essa ioga das lobas como se o dia estivesse ótimo!

Vovó parou, então foi até a janela e abriu as cortinas.

— Mas o sol está brilhando... e o dia está lindo. Acho que, se você sair para correr um pouco, vai perceber como é bom estar de férias.

— Fui demitido — corrigiu Jungkook.

— Férias — retrucou vovó, severamente. — Agora, vou fazer compras com aquele moço simpático de ontem. Ele é o padrinho pela parte de Taehyung, e só temos duas semanas para...

— Espera aí! — Jungkook pulou da cama. — Repita isso. Quem é o padrinho do Taehyung?

— Aquele moço simpático que salvou sua vida ontem. Ele e Taehyung são amigos há anos! Ele estava em Daegu com o irmão para uma curta temporada de férias e não foi à festa de noivado, já que, além da sua vagabunda, apenas a família foi convidada.

— Mas...

— Agora! — Vovó bateu palmas. — Vá aproveitar seu dia de folga, que eu vou às compras!

— Mas...

— E vista umas roupas, filho. Não tem ninguém para você impressionar nesta casa.

Então vovó marchou quarto afora, deixando a porta arrombada apoiada na parede. Enquanto a observava ir embora, Jungkook se perguntava se seria preso caso agredisse uma idosa.

Demitido.

Sem o dinheiro da família.

E tinha de ir ao casamento do irmão dali a duas semanas.

Com um homem que ele rejeitara não uma, mas duas vezes.

Talvez fosse bom levar alguns amendoins, só para o caso de precisar de uma saída de emergência... Ou de uma forma de encontrar o Criador, já que parecia que Deus o estava mantendo na Terra unicamente para torturá-lo até o fim de seus dias.

(...)

— É marrom. — Jimin piscou algumas vezes diante do reflexo no espelho. — Por que o terno é marrom?

— Porque essa é a cor, querido. — Vovó Nadine bebericou o champanhe e inclinou a cabeça. — Mas ficou horroroso. Acha que Taehyung confundiu as cores?

— Nossa, espero que sim! — Jimin estremeceu ao olhar mais uma vez para o reflexo. O terno era de um marrom-alaranjado estranho, e ficava tão largo, que o fazia parecer feio.

Jimin suspirou enquanto vovó pegava o celular.

— Taehyung? É a vovó. — Ela gritou tão alto ao telefone, que Jimin se sobressaltou. — Taehyung! Não estou ouvindo! Ah, só um segundo. — Vovó se levantou e caminhou até a vitrine. — Sim? Está melhor? — A senhora se voltou para Jimin, ainda com o telefone ao ouvido. — Ah, que lindo! Acho que esse terno ficaria fantástico em você, Jimin! Venha aqui!

Sem muita opção, Jimin se arrastou até o manequim na vitrine.

— É um terno de noivo

— Eu sei! — Vovó tapou o bocal do celular. — Ficaria lindo em você! Experimente! Só dessa vez, vamos lá! Só vai levar um minutinho! — Vovó gesticulou e o enxotou de lá. — Taehyung! Taehyung! Desculpe, estava falando com seu amiguinho. Aliás, ele é lindo e... Ah, entendo!

Jimin se remexeu, desconfortável, enquanto procurava o terno nas araras.

Seus dedos tocaram a seda delicada. Era um terno lindo. Mas ele não estava se casando. Será que não daria azar experimentar um terno de casamento antes de ter um noivo?

— Experimente! — gritou vovó, de novo fazendo Jimin pular de susto. — Que ideia maravilhosa, Taehyung! Sim. Sim, entendo. Sim. Não. Não, deixe que a vovó aqui fará sua mágica. Sim. Não. Mas, Taehyung... Certo. Diga a ele que aceito o desafio.

Jimin parou. Se fizesse silêncio, talvez conseguisse ouvir o que tanto Taehyung e vovó conversavam.

— Xô! Vá experimentar! — Vovó fez um gesto, expulsando-o, e se virou de costas para ele. — Diga a Hoseok que estou dentro.

Com delicadeza, Jimin puxou terno da arara e entrou no provador.

Ora! O que tinha a perder, afinal? Ele tirou o terno feio que vestia e o substituiu por um branco lindo, Jimin se olhou no espelho.

Droga! Não queria chorar. Não por causa de um terno bonito. Engolindo as lágrimas ridículas, Jimin abriu a cortina e subiu na plataforma que havia em frente ao espelho.

Ele se virou para um lado e para outro, então ouviu aplausos.

— Tenho uma pergunta — começou uma irritante voz masculina atrás de Jimin. Ele ergueu a cabeça de supetão e viu o reflexo de Jungkook no espelho. — Não dá azar experimentar um terno de noivo antes de ter um pretendente?

Maldito.

— Não. — Ele o encarou, irritado. — Não dá. Além disso, vovó achou que fosse uma boa ideia.

— Essas foram as últimas palavras de muita gente. Além disso, vovó está no meio da vitrine, gritando a um celular com capa de zebrinha brilhante como se a pessoa do outro lado da linha estivesse em Marte.

— Existe um motivo para você ter vindo aqui? Quer dizer, além de ter sido demitido — retrucou Jimin, irritado.

Ele empalideceu visivelmente.

Jimin sorriu, triunfante.

— Férias — retrucou Jungkook. — Na verdade, recebi uma mensagem de Hoseok. Ele pediu que eu viesse pegar algumas coisas para ele e tirar minhas medidas para um smoking. Então, tem, sim. Estou cumprindo meu dever de padrinho.

— Padrinho? — repetiu Jimin, horrorizado. Um tremor percorreu o corpo de Jimin.

— Pela postura animada, dá para ver que você ficou feliz com a ideia.

— Você é um babaca.

— Obrigado. — Ele deu um sorriso debochado.

— Se serve de consolo... gostei do terno branco.

Jimin engoliu em seco quando ele avançou um passo em sua direção, cauteloso. Por que ele tinha que ser tão bonito? O cabelo castanho-claro tinha aquele brilho que as pessoas normais só viam nas capas de revista. O sorriso era de matar e, naquele momento, os olhos, esses olhos penetrantes, encaravam os dele.

Jimin umedeceu os lábios quando ele avançou mais um passo.

De repente, o lugar ficou pequeno demais, quente demais, tudo demais. Ele estendeu a mão para ajudá-lo a descer da plataforma.

Jimin não deveria ter aceitado. Não mesmo. Porque no instante em que sua pele tocou a dele, Jimin lembrou. A noite que passara com ele tinha sido tudo, menos esquecível. O toque dos lábios dele estaria para sempre gravado em sua memória, ele nunca se livraria daquela lembrança.

— Jungkook! — gritou vovó, espiando por trás do manequim. — Ajude-o a tirar esse terno! Temos uma emergência de casamento! Rápido!

— Certo. — Ele soltou a mão de Jimin e sacudiu a cabeça ao dar um passo para trás. — Não seria a primeira vez que o ajudaria a tirar a roupa, né, Jimin?

E o momento especial se foi.

Ignorando o calor em suas bochechas, Jimin voltou para o provador e fechou a cortina.

— Não precisa de ajuda? — perguntou ele.

— Acho que sei tirar minha roupa sozinha, Jungkook.

— Está bem. — Ele soltou uma risadinha que fez Jimin querer socá-lo. Tremendo, ele procurou pelos botões. — Mas quando eu ajudo é memorável. Só digo isso.

Recusando-se a deixar que Jungkook pensasse que tinha medo de não resistir ao toque dele, Jimin aceitou o desafio. Abriu a cortina.

— Prove.

Os olhos de Jungkook se arregalaram, e sua boca se curvou em um sorriso malicioso.

— O prazer é meu.

O jeito como aquele homem pronunciava “prazer” provocava reações infelizes no corpo de Jimin, reações que a faziam repensar a decisão impulsiva.

— Cadê o primeiro botão?

— Ah! Não consegue encontrar? Isso acontece com frequência, Jungkook? Não sabe onde enfiar o equipamento...?

— Ah, nunca tive problemas com isso! Você deveria saber.

Os olhos de Jimin se estreitaram quando Kookie fechou a cortina e fez com o dedo um gesto para que ele se aproximasse a fim de tirar a gravata. Jimin obedeceu. Jungkook pôs as mãos em seu ombro e depois passou o paletó por seus braços. Não ia ficar arrepiado. Não ia reagir!

Ele tocou seu quadril e abriu o zíper da calça, após desabotoar. Devagar, deslizou as mãos pela lateral de seu corpo, Jimin sentiu a respiração acelerar.

— Você tem um cabelo lindo. — Ele passou os dedos por algumas mechas e suspirou, encarando-o.

Jungkook não estava sorrindo. Será que estava mesmo fazendo um elogio? Na cara dele?

— Eu, hã..

— É só um elogio, Jimin, não um pedido de casamento.

Ele corou ainda mais.

— Obrigado.

O olhar dele fazia com que Jimin se sentisse nu. O que o fez se lembrar do motivo de ter dormido com ele daquela vez. Jimin nunca sabia com qual Jungkook estava conversando: o que fora seu amigo de infância ou o play boy milionário e desalmado.

Jimin duvidava que até mesmo ele soubesse a resposta. Ele não podia se esquecer disso, ou acabaria outra vez de coração partido.

— Todos estão decentes? — perguntou vovó, do lado de fora do provador.

Jungkook se afastou e piscou um olho.

— Infelizmente.

Jimin sentiu o rosto esquentar.

— Droga! Perdeu o jeito, filho.

— E eu não sei? — Ele umedeceu os lábios e acenou com a cabeça mais uma vez para Jimin, antes de sair do provador.

O que tinha acabado de acontecer?

Jimin levou uns bons cinco minutos para vestir a calça jeans. Suas mãos idiotas tremiam tanto que ele não conseguia fechar o zíper. Por isso homens como Jungkook não deveriam sair da jaula — era perigoso, muito perigoso.

— Já está pronto? — perguntou Jungkook. — Vovó está impaciente.

— Estou indo. — Jimin saiu do provador em disparada, com a bolsa nas mãos.

— Ok, qual é a emergência?

Jungkook suspirou e apontou para a avó, que naquele momento dançava bem no meio da loja.

— Estou confuso. Ela está doidona? — Jimin olhou para vovó, que continuava a dar dois passos e virar, para então parar, bater o pé e recomeçar.

— Não duvido — sussurrou Jungkook.

— Quietos! — Vovó interrompeu um giro. — Tive uma ideia!

— Engraçado, achei que ela estivesse mal das ideias.

— Vocês dois! — Vovó apontou para eles. — Vão.

— Vão? — indagou Jimin.

— Os dois? — perguntou Jungkook.

— Ah, está resolvido! Afinal, preciso fazer as unhas. Aqui está a lista de coisas a fazer. A maioria precisa ser resolvida antes de irmos embora no fim de semana. Ah, e não se atrasem! Madame detesta atrasos. — Ela endireitou o longo cachecol rosa e bateu palminhas, feliz. — Estou tão feliz por termos resolvido tudo! Taehyung estava em pânico! Vocês salvaram o dia!

Um gemido escapou dos lábios de Jimin antes que ele conseguisse resistir.

Jungkook estendeu os braços, como se tentasse acalmar vovó — ou seria a si mesmo?

— Vovó, não podemos passar todos os dias juntos, cuidando dos últimos preparativos do casamento.

— Por que não? — Vovó parou, e seu rosto mostrava preocupação.

— Porque... estou ocupado — desconversou ele, tossindo.

— Sentir pena de si mesmo não é ocupação.

— Nem galinhar por aí, e olha até onde ele chegou — acrescentou Jimin.

— Entende? — Jungkook apontou outra vez para Jimin. — Não conseguimos nem conviver em paz, quanto mais planejar juntos alguma coisa. Quer mesmo ser responsável pela morte dele?

— Vocês vão ficar bem. Além disso, Jimin precisa de você. Afinal de contas, ele tem um emprego. E um muito bom, por sinal. Bem, vocês sabem como me encontrar se precisarem de mim. — Vovó pegou os óculos de sol na bolsa gigante e os colocou. — Amo vocês.

O sino da porta soou quando a velha senhora saiu da loja, deixando para trás Jungkook, com uma lista nas mãos, e Jimin, que se perguntava se seria possível matar alguém apenas com o olhar.



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