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História O Destino que se Merece - Capítulo 26


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Notas do Autor


Parece que depois de o quê? Um mês atualizando toda terça? Estou atualizando numa quarta. Minhas férias acabaram semana passada, então esperem mais capítulos saindo na quarta :p

Eu só estou bem feliz que eu finalmente consigo colar o texto no spirit direto com os itálicos e negritos, porque esse capítulo tem tantos deles. Daria um trabalho desgramado catar um por um.

Inclusive eu descobri hoje que "pêlos" não tem mais acento?? Como assim?? Enfim, eu escrevi com acento porque me recuso a escrever sem. (é só tão estranho "pelo")

Aproveitem a leitura!

Capítulo 26 - Chuunin Shiken: Rescaldo I


Fanfic / Fanfiction O Destino que se Merece - Capítulo 26 - Chuunin Shiken: Rescaldo I

Kurama guardou o nome de alguns humanos ao longo de sua vida. Ou mais precisamente, ao longo das últimas décadas de sua vida. Nomes como o de Madara, o de Hashirama. Como o de Mito, sua odiosa Shodaime Jinchuuriki, e Kushina, sua Nidaime Jinchuuriki. Não tão odiosa quanto Mito, mas Kurama definitivamente não gostava nem um pouco de Kushina. Seu desprezo pela mulher Uzumaki era palpável. Pelas mulheres Uzumaki.

E então havia o mais novo nome que conseguiu ficar guardado em sua memória: Naruto. Seu Sandaime Jinchuuriki. Isso por si só era motivo o suficiente para ele odiar o pirralho e desprezar sua existência, além dele ser um Uzumaki. Não que Uzumaki e Jinchuuriki já não sejam basicamente sinônimos para Kurama.

Mas Kurama não guardou o nome de Naruto somente por ódio, como todos os demais. Claro, por muito tempo (que hoje Kurama sabia dizer que foram doze anos) ódio foi a única coisa que conseguiu sentir em relação ao seu Sandaime Jinchuuriki; era seu Jinchuuriki, afinal. Porém Kurama enfim teve seu primeiro encontro real com Naruto e pôde substituir a visão indignante de que seu cárcere era um minúsculo pedaço de carne, um bebê humano, por algum pirralho mais crescido e mais desenvolvido. Ainda um pequeno pedaço de carne, no entanto.

Kurama não sabia se odiava mais ele ser a imagem cuspida do Yondaime ou odiaria mais se ele fosse como Kushina e Mito, mas de alguma forma Kurama ainda conseguiu enxergar todos os três em Naruto e isso só fez Kurama o odiar ainda mais (quando Kurama descobriu que esses três ainda eram os ídolos de seu novo Jinchuuriki Kurama só riu porque quão estúpido).

Naruto chegou em Kurama sem nem saber onde estava ou como havia chegado lá. Kurama ficou particularmente decepcionado e frustrado pelo pirralho não estar em uma situação de risco, ou tomado por alguma emoção como ódio, fúria ou até sentimentos mais amenos como irritação ou chateação, qualquer coisa que Kurama pudesse se aproveitar. Então, sem recursos para manipulá-lo a pegar seu chakra e cair sob seu controle e dominação, Kurama decidiu criar seus próprios.

Pegando toda sua malícia e ódio, Kurama foi o mais cruel que conseguia com aquele pirralho, saboreando da liberdade adicional que o selo do Yondaime lhe dava e do medo que o pirralho lhe enviava de volta em ondas, mas no final Kurama não conseguiu chegar em lugar nenhum. E, mesmo não entendendo como Naruto continuava voltando, Kurama não conseguiu cedê-lo após inúmeras tentativas.

Escusado dizer que Kurama ficou frustrado, muito, muito frustrado com isso. Frustração foi a segunda emoção que Naruto lhe fez realmente sentir em relação a ele, de uma maneira que Kurama nunca havia sentido antes com nenhum humano. Kurama já havia se sentido frustrado muitas vezes antes, sim, mas sempre era consigo mesmo ou com a situação, não com o humano.

Mas Kurama não deixou isso lhe abalar (era necessário muito mais) e transformou sua frustração em raiva, então raiva em fúria e por fim em ódio – mas não exatamente. Kurama só pegou tudo e jogou como combustível para sua intenção assassina, forçando seu chakra junto no meu do caminho. Se Naruto não iria pegar seu chakra, Kurama de bom grado daria seu chakra para o pirralho. Tudo para enfraquecer o selo e para preparar Naruto quando ele enfim vier procurar Kurama por si mesmo.

E tudo isso para, mais uma vez, em nada dar no final. Naquele ponto Kurama só aceitava que, por qualquer motivo, Naruto continuava voltando e ficou perfeitamente satisfeito em ignorá-lo até que parasse. Kurama só aguardaria quando sua chance de se libertar vier, já que ficou amargamente claro que suas tentativas de criar essa chance eram completamente ineficazes.

Pelo menos Naruto ficou satisfeito em somente ignorar Kurama também. Isto é, inicialmente. Com o tempo Naruto só ficou mais e mais entediado e deixou Kurama irritado com sua inquietação (o pirralho não ficava parado!), não o deixando dormir e isso era algo que Kurama não perdoava (dormir era um prazer e luxo que Kurama há muito não mais tinha o privilégio de possuir, Kurama queria apenas aproveitá-lo mais uma vez). Essa foi a terceira real emoção que Naruto lhe deu – irritação. Kurama pode ter sentido irritação de Mito e principalmente de Kushina, mas a irritação que Kurama sentiu com elas foi fortemente atrelada ao ódio para ser algum sentimento separado.

Esse foi não foi o caso. A irritação que Naruto que lhe fez sentir foi irritação. Irritação pura e simples. Um sentimento mais ameno, uma chateação. E isso assustou Kurama. Porque a última vez que Kurama teve oportunidade de sentir isso, de sentir essa simples emoção em estado tão puro, foi quando Kurama mal tinha seus um, dois séculos de idade. Kurama estava cochilando em uma colina verdejante, era um dia agradável de primavera e brisa refrescava seus pêlos. Matatabi chegou nele e ficou mordendo e puxando sua orelha de uma maneira insistentemente irritante até Kurama concordar em brincar com Matatabi nas pradarias que haviam por perto.

Kurama se lembrava que acabou cedendo no final. Essa era uma de suas últimas memórias de diversão e alegria, também. (uma das coisas que Kurama mais se arrependia em sua vida foi a decisão de separar das outras Bijuus)

Então Kurama falou com Naruto. Mordaz em seu tom, mais duro do que Kurama planejava ser, Kurama pediu (exigiu) que Naruto ficasse quieto ou fosse embora. Naruto olhou na sua cara, sem medo nenhum, e só reclamou que não controlava como ia parar ali e que Kurama teria que aguentá-lo. Só... assim.

Kurama ficou chocado com isso, mesmo que tenha escondido muito bem. Foi um lembrete amargo de que suas tentativas de intimidação realmente não funcionaram e, bem, a quarta emoção que Naruto fez Kurama sentir – surpresa. Poderia ter sido algo mais único, algo que Kurama não iria atrelar ao nome Naruto (o pirralho era simplesmente idiota e sem noção, havia sido seu veredito), mas então Naruto só o fazia se surpreender mais e mais e mais.

Pois Kurama se resignou a interagir com Naruto uma ou duas vezes para diminuir sua inquietação (era nada mais que uma simples chateação fazer isso, realmente, mas Kurama não pensou muito no que isso significava), mas então não só Naruto teve a audácia de se sentir confortável na sua presença (tudo bem, Kurama poderia usar isso ao seu favor) como Naruto pediu para eles serem amigos.

Foi indignante, revoltante. E Naruto só fez provocar Kurama quando Kurama foi deixar claro qual era a situação ali. (Kurama também não admitiu que as palavras de Naruto ficaram profundamente dentro dele, pois quando Kurama pensou em ter algum amigo? Quando pensou que alguém poderia querer lhe oferecer alguma amizade?)

Naruto não aceitou bem sua recusa e Kurama foi forçado a aprender como dormir mesmo com o falatório incessante do pirralho ou pelo menos como diminuir seu foco o suficiente para as palavras se tornarem completamente ininteligíveis, nada além de um ruído de fundo, já que não importava o que Kurama fizesse ou dissesse, Naruto só voltaria a falar com mais afinco.

Mas às vezes Kurama não tinha escolha senão ouvir o que Naruto tagarelava, sem conseguir dormir ou desviar sua atenção. Então Kurama, em algum momento, começou a voluntariamente prestar atenção no que era dito. Obviamente não era porque Kurama gostava de ouvi-lo, mas porque Naruto era simplesmente idiota e falava mais o que deveria. Como seus apegos emocionais, suas “pessoas preciosas”, seus sentimentos e emoções em certas situações.

Naruto não percebia que Kurama poderia facilmente usar essas informações contra ele? Bem, Kurama não estava reclamando e definitivamente não o desencorajou (pedir para Naruto parar de falar era, na verdade, um encorajamento, como Kurama percebeu). Então Naruto pareceu ficar sem coisas para falar com Kurama e decidiu narrar o que aconteceu com o mundo nesse meio tempo que Kurama ficou isolado do resto do mundo.

Kurama cuidadosamente absorveu informações e fatos que indicassem lugares e pessoas para evitar, lugares por onde Kurama poderia fugir e se esconder até se tornar uma maldita lenda e finalmente viver em paz. (Kurama não comentou nada quando Naruto disse que as outras Bijuus foram usadas futilmente como moedas de troca pela “paz”, e muito menos o quanto Naruto pareceu incomodado com esse fato)

Porém Kurama, mais do que tudo, não queria admitir que, com o passar dos meses, passou a esperar para quando Naruto viria calar a solidão com seu falatório. Ou que Kurama passou a apreciar cada momento com Naruto, e que foi refrescante finalmente sentir algo além de ódio e fúria e frustração e vários outros sentimentos negativados para sentir algo como diversão e alegria novamente e fazer provocações e zombarias sem a intenção de machucar.

Que foi bom finalmente saber o que aconteceu com seus irmãos, ou o que aconteceu no mundo durante todo esse tempo. Que foi bom finalmente ter alguém que o enxergava como além de uma besta, que foi bom finalmente falar com alguém, interagir com alguém, conversar com alguém após tanto, tanto tempo.

Kurama não queria admitir nada disso. Kurama não ligava de permanecer na ignorância para com seus próprios sentimentos. Kurama definitivamente não se importava com Naruto.

Então Naruto lhe implorava por ajuda. Ajuda que Kurama deu. Deu porque finalmente uma chance de liberdade havia aparecido, e não porque Kurama não queria ver (sentir) Naruto morrer. Não porque Kurama não gostou nem um pouco de ver Naruto, Naruto tão irritantemente brilhante, em desespero e em medo.

Mas se não fosse isso, Kurama não deveria ter recuado quando Sasuke lhe pediu por isso. Sasuke era um novo nome que Kurama havia aprendido, e pela primeira vez não por ódio. Kurama aprendeu Sasuke e Kakashi e Sakura, e não foi por ódio. E não foi porque os três poderiam ser uma possível ameaça no futuro ou usados para manipular Naruto, não importava o quanto Kurama quisesse dizer isso para si mesmo.

Sasuke era um Uchiha. Um Uchiha. Kurama não deveria ter o ouvido, mesmo que Kurama estivesse surpreso (chocado) e presunçoso ao ouvir um Uchiha lhe implorar.

Kurama também não deveria ter tido o cuidado e o trabalho de enviar chakra para proteger Sasuke Uchiha e Sakura. Ou de ter sentido Kakashi (procurado sentir) e ter o deixado se aproximar, especialmente quando Kurama ainda não estava no controle ou livre para se permitir conceder esses pequenos atos de benevolência. Ou de ter dado um pouco de espaço demais para a vontade de Naruto permanecer enquanto lhe dominava com a porção mais negativa de seu chakra.

Então Kakashi vinha e… agradecia. Agradecia à Kurama por cuidar de seus filhotes, quando Kurama não fez nada além de seguir seus próprios sentimentos egoístas, porque Kurama era muito egoísta. E Kurama simplesmente não sabia como se sentir com isso, porque Kakashi não foi nada além de sincero.

Kurama sabia que Naruto havia dito sobre o segundo Uchiha que pôs Kurama em um genjutsu para Kakashi e para Sasuke e Sakura alguns dias antes. Kurama sabia disso, Naruto mesmo que lhe disse. Kurama também sabia que, mesmo que saber isso pudesse melhorar sua “posição” perante seus pontos de vista, eles saberem isso não era o suficiente para eles agirem como agiram em relação à Kurama.

Kurama não sabia, no entanto, o que fez para ganhar a confiança de Naruto e desses outros três humanos que juntos assumem o nome de “equipe sete” (outro nome que Kurama aprendeu). Kurama nem sequer sabia de onde Kurama depositou confiança o suficiente para deixar Naruto saber sua fraqueza contra o sharingan (e ainda contar para um Uchiha) e lhe pedir ajuda.

Ou sabia por que simplesmente decidiu falar sobre o segundo Uchiha, algo completamente fora do comum para Kurama.

(isso é mentira. Kurama disse isso porque então haveria um motivo para Naruto lhe perdoar pelo que Kurama fez anos atrás com Konoha. Kurama não precisava ou desejava esse perdão e Naruto nunca disse que perdoou Kurama, mas Kurama sabia que ele o fez e não entendia o porquê. Kurama não gostava de não entender)

Então Kurama olhava para o pirralho loiro inconsciente que flutuava na água barrenta que cobria todo o chão do lugar e… refletia. Refletia sobre tudo e tentava encontrar uma resposta – e se isso o fazia parar de ignorar seus próprios sentimentos, tudo bem. Quando se vivia eternamente você poderia deixar tudo para o amanhã e para o depois e não haveria problema, porque sabia que esse outro dia sempre chegaria. E se esse outro dia chegou mais cedo do que Kurama desejava, tudo bem também.

Kurama arrulhou seu pêlo e deitou a cabeça sobre as patas, olhando pensativamente para Naruto. Hoje era o quinto dia que Naruto estava inconsciente e o pirralho finalmente estava curado o suficiente para acordar, e Kurama só sabia dizer quanto tempo se passou porque Naruto, tão idiotamente idiota como o pirralho é, nunca se preocupou em fechar os canais de visão e audição quando os abriu antes.

Com as pálpebras abaixadas a visão era essencialmente inútil, mas Kurama ouviu tudo que os outros humanos (que Kakashi e Sasuke e Sakura) disseram quando próximos o suficiente, e Kurama fez algo que provavelmente não deveria ter feito: mesclou sua própria audição com a de Naruto, ao invés de só acessar à do pirralho.

A audição de Kurama era superior, lhe permitiria ouvir o que acontecia além do quarto onde Naruto descansava no hospital, os passos das pessoas que poderiam se aproximar, a batida de seus corações indicando intenções, permitiria Kurama até mesmo usar algo muito próximo da ecolocalização e saber qual era o lugar de cada coisinha no quarto, bem como suas dimensões.

Claro, demoraria muito para que os ouvidos humanos de Naruto se adaptassem e evoluíssem o suficiente para alcançar a audição de Kurama, além de Kurama nem mesmo saber se continuaria deixando sua própria audição aberta para Naruto assim quando Naruto acordasse. Sua longa experiência com os humanos dizia à Kurama que não, que era simplesmente estúpido conectar seus sentidos aos de um humano assim.

Mas quase nada da experiência humana que Kurama teve conseguia ser aplicada à Naruto. Ou ainda para o resto da equipe sete, dada as conversas que Kurama conseguia ouvir deles e o que aconteceu anteriormente, na floresta.

Kurama teve um bom tempo para refletir nesses cinco dias. Kurama nem mesmo dormiu ou cochilou, ainda ficando alerta o tempo inteiro para qualquer coisa suspeita que conseguisse ouvir (Kurama ignorou que fez isso porque estava preocupado com Naruto, porque Kurama não estava). Foi um bom tempo, sim, mas não foi tempo o suficiente. E agora Naruto voltava à consciência e Kurama poderia tentar arrancar algumas respostas dele.

— Hugh…. — Naruto gemeu enquanto rolava para o lado, segurando sua cabeça com uma careta. Kurama observou silenciosamente enquanto Naruto sintonizava onde estava e os últimos acontecimentos que se lembrava.

— Pirralho. — Chamou após alguns momentos, ganhando a atenção de Naruto.

— Kyuubi! — Naruto gritou, quase pulando para se pôr de pé e tropeçando no meio do caminho — Por favor me diga o que aconteceu com Sakura e Sasuke. — Naruto implorou desesperadamente — Orochimaru não chegou neles, né!?

— Eles estão perfeitamente bem. — Kurama comentou tediosamente, um brilho analítico em seus olhos escarlates — Você conseguiu manter Orochimaru por tempo o suficiente até a ajuda chegar. Ele ainda conseguiu escapar, no entanto. — Franziu seu focinho, soltando audivelmente o ar pelas narinas. Mesmo que Kurama não tenha liberado chakra o suficiente nem de longe para se comparar ao seu poder real, ainda era um ponto dolorido que esse Orochimaru conseguiu lidar perfeitamente e ainda escapar em bom estado.

— Eu…? — Naruto questionou, confuso, mas grandemente aliviado.

— Sim, você. — Kurama inclinou sua cabeça mais para o lado, mexendo suas orelhas — Poderia não estar são, mas ainda infelizmente você. Bem que você poderia ter puxado um pouco mais de meu chakra~ — Cantarolou sardônico, fazendo Naruto relaxar a postura por sua “provocação amigável” e bufar em resposta.

Bem, Naruto ainda não havia voltado completamente para a sanidade, então. Qualquer humano em sã consciência não relaxaria sua tensão com isso. Mas Naruto não era qualquer humano, era?

— Não acontecendo, bola de pêlos. — Naruto sorriu confiante, pelo qual Kurama alegremente zombou. Então o sorriso de Naruto suavizou e Kurama tensionou, sabendo muito bem o que viria — Mas sério, obrigado, Kyuubi. Sem você… eu não tenho ideia do que teria acontecido, mas só não poderia ser bom. — E ele se curvou. Naruto se curvou para Kurama. Em agradecimento.

Kurama sentiu um rosnado tremer em sua garganta, suas últimas gotas de paciência se esvaindo após tantos meses tendo que lidar com a maldita incógnita que era Uzumaki Naruto.

— Pare. Apenas pare. — Naruto arregalou os olhos para Kurama, voltando à sua postura ereta — Apenas… pare com isso.

— Parar o quê? Agradecer? — Naruto disse confusamente, fazendo Kurama rosnar para ele. Naruto recuou para trás em surpresa antes de endurecer sua expressão com determinação e avançar para frente.

Kurama odiava quando Naruto ficava com essa expressão. Kurama não conseguia encontrar forças dentro de si, no entanto, para odiar Naruto. E Kurama odiava isso também.

— Kyuubi….

— Cale-se. — Kurama sabia o que Naruto iria dizer. Kurama não precisava de Naruto para dizer.

Kurama queria respostas, não mais dúvidas ou perguntas.

— Você não pode me calar, e eu me recuso a me calar. — Naruto disse, e Kurama só rosnou mais uma vez ao ver o fogo queimando nos olhos azuis — Você me ajudou e eu provavelmente poderia ter morrido sem sua ajuda. Então sim, eu estou lhe agradecendo por isso. Qual é o seu problema em receber um obrigado!?

— Porque não faz sentido! — Se levantou, elevando-se sobre o pirralho e rosnando Você não faz sentido! Você fica com essas baboseiras de amizade para mim, confiando em mim! Você é simplesmente estúpido! Me agradecer!? Me agradecer por tentar controlá-lo!? Simplesmente estúpido, idiota!

Naruto teve a ousadia de revirar os olhos para Kurama.

— Eu já disse. Nós estaremos juntos durante toda a minha a vida, então que mal há em sermos amigos? — Naruto resmungou, como se Kurama fosse a chateação aqui, e não ele — E além disso, eu gosto de você. Eu gosto de conversar e brincar com você, de nos provocar. É tão difícil assim só acreditar que eu quero ser seu amigo? — Naruto encolheu os ombros, mas encontrou o olhar de Kurama com pura determinação flamejante.

Não faz sentido. — Kurama grunhiu com raiva, fincando as garras no chão em frustração. Uzumaki Naruto era simplesmente tão frustrante — O que você fez, pedindo minha ajuda? Implorando minha ajuda? Isso só foi estúpido e idiota. Seria tão fácil só empurrar mais e mais chakra para você, tomar o controle e destruir essa aldeia patética, matar todos que você chama de “povo precioso”. — Kurama cuspiu as palavras com ódio — Tudo iria por água abaixo, só porque você foi estúpido e inconsequente para confiar em mim.

— Mas tudo ficou bem no final, não ficou? Você não me controlou e não só salvou a minha pele, como a de Sasuke e Sakura. — Naruto apontou calmamente, sorrindo e só fazendo Kurama rosnar com mais força — Claro que confiar em uma Bijuu, em confiar na Kyuubi no Youko, é bastante estúpido pelos padrões humanos. Mas eu ainda quero dizer isso quando digo que eu confio em você, Kyuubi. Talvez eu não deveria, mas foda-se se eu não deveria.

Em um movimento rápido demais para Naruto reagir, Kurama avançou com sua pata através das barras e apontou sua garra mais longa e afiada direto para o pescoço de Naruto. O pirralho arregalou os olhos brevemente, mas teimosamente se manteve firme no lugar, apenas alguns poucos centímetros os separando do perigo da morte.

— Foi assim que eu tentei lhe matar todos esses anos atrás, preso pelas correntes de Kushina após ter minha alma dividida ao meio pelo Yondaime, já livre do genjutsu do Uchiha. — Kurama ronronou cruelmente, raspando as garras de sua outra pata no chão para fazer sons horríveis ressoarem pela cela — Para então seus pais tristemente entrarem na frente de meu ataque e o levarem no seu lugar. Você não sabe de nada, Uzumaki Naruto.  — Kurama exibiu suas presas em seu sorriso mais cruel e malicioso — Mas admito que foi tão satisfatório fazê-los morrer em sofrimento.

— Você tentou me matar porque eu iria ser seu novo Jinchuuriki? Sua nova prisão? — Naruto perguntou, sua expressão se tornando incomumente indecifrável e incomodando que Kurama não conseguia lê-la — E… meus pais morreram porque… porque me protegeram? De você?

— Obviamente. Não que o Yondaime não fosse já morrer, estúpido e auto-sacrificial como era, ou Kushina, pateticamente fraca como estava. — Kurama recuou um pouco mais para as sombras de sua cela, afiando os olhos para Naruto e trazendo seu braço de volta para próximo de seu corpo. Parece Naruto estava finalmente entendo...

— Então tudo bem. — Naruto sorriu.

…só que não.

Tudo bem? — Kurama guinchou, incrédulo — Então tudo bem? — Seu rosnado voltou com força total — Você entende o que fala!? As asneiras que saem de sua boca!? — Kurama rugiu.

— Quer dizer, não é exatamente “tudo bem” você tentar me assassinar, e então matar meus pais, mas…. — Naruto inclinou a cabeça um pouco para o lado, chutando a água aos seus pés — Mas você passou quantas décadas preso em Mito-sama e em minha mãe? Claro que você não queria ser selado de novo! Claro que você me mataria se isso garantisse sua liberdade! Eu entendo por que você tentou me matar e… — Naruto fez uma pausa hesitante, lambendo os lábios — …acabar tirando as vidas de meus pais no processo, e por isso eu o perdoo. Você não gostava de meus pais, você odiava minha mãe, e tinha e tem todos os motivos para fazer isso. Não que isso seja certo, também.

— Você não faz sentido. — Kurama choramingou, frustrado muito além da conta, cansado muito além da conta — Eu acabei de lhe dizer que assassinei seus pais e você somente… diz que me perdoa? Assim!?

— Tecnicamente você estava tentando me matar, e meus já iriam morrer de qualquer maneira…. — Naruto provavelmente continuaria falando mais de suas asneiras, mas Kurama só fez nivelar um olhar nele e o pirralho se calou. Pelo menos isso.

— Eu nem sequer lhe pedi perdão! Eu não preciso do seu perdão! Eu não sinto muito pelo que fiz, e faria de novo!

Kurama precisava fazer Naruto entender. Kurama precisava fazê-lo entender pelo bem de sua própria sanidade.

— E você não tem que sentir muito pelo que fez. Não realmente. É errado tentar ser livre? — Naruto sorriu triste, desviando o olhar para o chão — Eu matei alguns bandidos antes, você sabe, foi até quando você me contou sobre Shukaku-san. — Naruto tentou soar brincalhão — Eles não fizeram nada para mim ou para qualquer pessoa que eu conhecesse, provavelmente nossos caminhos nunca se cruzariam, mas eu ainda fui ativamente até eles e os matei só porque eles estavam um pouco perto demais de Konoha e Kakashi-sensei queria nos introduzir à morte de maneira mais segura. E se não fossem nós, seriam outras pessoas a fazê-lo. Outros shinobi a fazê-lo.

Naruto levantou o olhar novamente, encarando Kurama diretamente. Azul no vermelho e vermelho no azul.

— É assim que o mundo funciona. O mundo dos shinobis. Não quer dizer que eu goste, ou que eu concorde, ou ainda que não tentarei mudar tudo isso. Não quer dizer que eu também goste de você ter tentado me matar, ou não fique pensando que se você não tivesse feito isso e meus pais não tivessem levado o golpe talvez eles sobreviveriam. — Naruto deu de ombros — Mas, Kyuubi, tudo que eu vejo aqui é alguém que foi preso injustamente durante décadas tentando ganhar sua liberdade de volta. Uma liberdade em que eu sou um empecilho para conseguir.

Kurama deixou sua cabeça cair novamente sobre suas patas, todas as suas forças finalmente esgotadas, olhando para Naruto com emoções que não conseguia decifrar dentro de si mesmo. Não tinha forças para decifrar.

— Eu não posso simplesmente lhe libertar no mundo, não sem eu morrer no processo. — Naruto sorriu tristemente para ele, e Kurama só contorceu sua boca — Há muitas coisas que eu ainda quero fazer, objetivos para atingir. Pessoas que eu não posso deixar na mão. Uma família querida que não posso e nem quero decepcionar. E, bem, eu simplesmente não quero acabar minha vida assim. — Naruto deu uma pausa, respirando fundo — Por isso, já que estamos presos um ao outro nessa situação… por que não sermos amigos? Companheiros? Podermos confiar livremente um no outro? Por que não, Kyuubi?

— Porque então eu não conseguira lhe matar se isso significasse minha liberdade. — Kurama sussurrou uma das possibilidades que lhe tanto corroía o coração e a alma nos últimos tempos, fechando os olhos cansado.

Afinal, Kurama tinha quase certeza que isso não era mais uma “possibilidade”, porém algo real. Quando Kurama recuou dias atrás depois de ter dominado Naruto até as quatro caudas... Kurama tornou isso real. Kurama não conseguia mais matar Naruto, mesmo que isso significasse liberdade.

O pirralho lhe deu companhia. O pirralho lhe deu alegrias e momentos divertidos. O pirralho lhe deu um raio de sol no meio de tanta escuridão.

O pirralho, Uzumaki Naruto, lhe deu amizade.

— Você seria realmente livre se me matasse? — Naruto questionou melancólico após alguns momentos de silêncio — Se eu, sua prisão e cárcere, fosse destruído… você seria realmente livre, Kyuubi?

Não. Kurama não seria.

Seria liberdade ter que viver fugindo e se escondendo porque temia quando um novo Mestre em Fuuinjutsu viria lhe selar? Seria liberdade viver com medo que jamais veria o mundo afora novamente, mas já não o veria de qualquer maneira porque isso significaria pintar um alvo em suas costas? Seria liberdade viver na solidão eterna por não poder formar laços com ninguém porque isso os colocaria em perigo e a traição estaria lhe espreitando à cada passo em cada esquina?

Não seria liberdade, seria?

— Não. — Kurama respondeu tardiamente, vendo como Naruto ainda aguardava sua resposta.

E Kurama enfim podia aceitar isso. Antes era fácil pintar a liberdade na morte de seu Jinchuuriki, quando Kurama tanto odiava Mito e Kushina. Quando tudo que Kurama conseguia pensar era escapar da situação torturante em que se encontrava.

Acorrentado sem poder sequer movimentar suas caudas, sem poder dormir e ser forçado a olhar eternamente para o nada, ficar anos e décadas sem falar com ninguém, sem ouvir a voz de ninguém. Não poder fazer nada além de ficar preso em sua própria mente e ter nada além de seus próprios pensamentos como companhia.

Tudo que Kurama conseguia fazer era desejar sair primeiro daquela situação miserável, porque viver fugindo e com medo era facilmente uma alternativa melhor.

Então quando o Yondaime lhe deu uma cela que era apenas um grande espaço infinito, sem amarras ou correntes? Onde Kurama poderia à vontade dormir, correr, se esticar, balançar suas caudas, rugir, lamentar, respirar e viver… e onde Naruto conseguia facilmente lhe fornecer a companhia que Kurama não antes sabia que tanto desesperadamente ansiava?

— Foi o que eu pensei. — Naruto comentou ao seu “não”, suspirando tão cansado quanto Kurama — Konoha jamais iria desistir de sua preciosa arma, e as outras aldeias não perderiam a chance de ganharem mais poder. — Naruto disse, desgostoso. Kurama só zombou em acordo — Mas… você sabe que eu quero ser um Grão Mestre em Fuuinjutsu, não sabe?

Kurama ergueu sua sobrancelha em curiosidade e confusão pela súbita mudança de assunto.

E pelo tom inconfundivelmente esperançoso em suas palavras. Uma esperança que, querendo ou não, sabendo sobre o que era ou não, se infiltrou em Kurama também.

— Sim, estou ciente. — Kurama respondeu cautelosamente, olhando para Naruto e vendo a determinação brilhar ferozmente em seus olhos.

— Seria realmente impossível-... não, isso não. — Naruto balançou a cabeça, sorrindo mais e mais — Seria realmente difícil fazer uma alteração ou, sei lá, uma extensão no selo para me... para lhe permitir “sair” sem mais problemas? Como invocar uma espécie de “avatar” no lado de fora onde você colocaria sua consciência, mas você ainda estaria selado dentro de mim?? — Naruto mexeu animadamente os braços de um lado para o outro, mais e mais possibilidades vindas à ele como uma iluminação divina.

Possibilidades que Kurama conseguia ouvir, cada uma delas, mesmo sem Naruto falar porque Naruto não se incomodou em abafar ou esconder seus pensamentos para Kurama ouvir. Para Kurama sentir sua excitação com as ideias, sua esperança de que qualquer uma delas desse certo, sua determinação em fazê-las darem certo, a confiança de que conseguiria fazê-las darem certo….

— Talvez fazendo uma espécie de clone das sombras modificado?? Ou, ou um selo à parte que fizesse conexão indireta com o Shiki Fuujin?? — Naruto continuou tagarelando.

— Ei, pirralho. — Kurama chamou em alto e bom som, aquietando um pouco o fluxo de pensamentos coerentes e não coerentes e de emoções e sentimentos que chegavam em Kurama como uma avalanche.

— Sim?? — Naruto quase gritou, alegria infantil colorindo sua voz sem disfarçar a ferocidade que se mantinha por baixo, como um predador na espreita pronto para atacar.

— Me chame de Kurama.

 

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Naruto abriu os olhos aos poucos, dando de cara para um teto um branco. Um sorriso adornava suas feições.

Não era um sorriso suave. Mas não era um feroz também.

Porém faria inveja ao sol.

— Naruto!? — Uma voz feminina gritou ao seu lado, e Naruto se virou para ver uma Haruno Sakura se levantar às pressas de um pequeno sofá próximo de sua cama, onde um Uchiha Sasuke jazia dormindo esgotado. Os dois tinham sinais claros de exaustão e pouco sono expressos em seus corpos, mesmo que um estivesse dormindo naquele instante e outra tivesse seus olhos brilhando mais que nunca.

— Hey, Sakura-chan. — Lágrimas grossas escorreram pelos olhos de Sakura, um soluço engasgado de puro alívio escapando por sua garganta — Eu aprendi um nome.

De fato, um sorriso que faria inveja ao sol.


Notas Finais


Mais um capítulo seguido focado em 'estudo' de personagem. Primeiro Sakura e Sasuke, depois Kakashi, agora Kurama. Pelo menos, não haverá mais um tão cedo agora que Naruto finalmente volta à consciência para progredir a história.

Mas eu gostei desse capítulo. Vocês o fizeram também? Por favor, comentem, comentários são apreciados~

Ps. Shiki Fūjin (屍鬼封尽) – Selo Consumidor do Demônio Morto; o selo usado para aprisionar Kurama dentro de Naruto.


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