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História O diário de Angelic P. - Capítulo 10


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Capítulo 10 - Capítulo 10


As Marcas 

A Visita

As Consequências

 

 

Além da dor havia frio. Frio ao ponto de me fazer ranger os dentes. Me mexer parecia uma tortura mas me esforcei para abrir os olhos mesmo assim.

"Angelic?" Ouvi alguém me chamar mas não conseguia enxergar nada além de borrões. Acabei dormindo novamente e tendo sonhos.

Não consigo lembrar de muito agora, mas havia uma ponte e um lago congelado. Ao longe, o sol nascia cálido no céu nublado e estava tão frio que sentia minha pele queimar no vento. Eu me debrucei sob o parapeito e, em um impulso, cai, mas acordei antes que o impacto com o gelo fosse sentido.

Não havia ninguém no quarto dessa vez. Pude ver que era dia por uma fresta na cortina grossa. Não conhecia aquele quarto e demorei alguns segundos para reorganizar minhas lembranças dos últimos acontecimentos. Eu tinha sobrevivido, tinha sido forte o suficiente e havia aguentado uma quebra de elo e a constituição de um novo simultaneamente, por isso sorri e deixei que uma ou duas lágrimas de felicidade escorressem dos meus olhos para aquela nova realidade. Eu estava livre. 

A porta do quarto abriu e Anthony entrou com uma bandeja na mão.

"Senti que você iria acordar e trouxe logo um remédio para a dor." Ele explicou, mas minha garganta estava seca demais para que eu conseguisse responder. Atenciosamente, ele me deu de beber e me entregou o remédio. 

"Obrigado." Não era pelo remédio e ele percebeu.

"Estou fazendo uma sopa para você. É hora do almoço. Está com fome?"

Assenti ao perceber o vazio no estômago.

"Sinto que estou dormindo já há bastante tempo." Disse. 

"Dois dias, na verdade. Você teve muita febre e tive que chamar um enfermeiro para te aplicar um soro para que não desidratasse." Assenti, agradecido. 

"O que aconteceu... Depois?" 

Anthony suspirou e segurou minha mão. A pele dele parecia capaz de queimar a minha e essa sensação faz com que um arrepio me fizesse tremer.

"Muita coisa com a qual você não precisa se preocupar agora. Está com frio?" Ele perguntou ao tocar meu rosto com preocupação. 

"Um pouco." Admiti e ele saiu para buscar a tal sopa. 

Como eu ainda estava trêmulo, Anthony fez questão de me dar de comer e eu acabei rindo por me sentir uma criancinha, mas ele, ao contrário de mim, parecia bem sério em relação aos cuidados para comigo.

"Andréas comentou comigo que você fazia questão de cuidar dos seus ômegas nesse período inicial, mas não achei que fosse com tanto zelo. Aliás, a comida estava uma delícia. Foi mesmo você que fez?"

"Não sei se me sinto feliz ou ofendido. Foi eu que fiz." Ele respondeu com uma face tão séria que me fez pedir mil desculpas, mas ele acabou rindo do meu desespero.

"Não ria de mim!" E ele tentou parar, mas acabou com um sorriso que mostrava as covinhas por trás da barba rala.

"Eu passava muito tempo com meu materno quando era criança e sempre gostei de ajudar ele na cozinha. Acabei aprendendo a me virar." Ele explicou.

"Seus pais não viviam juntos?" Não contive a curiosidade.

"Vivem, até hoje, mas meu pai viajava muito. Os luppus no geral têm muitas obrigações, mesmo políticas, então ele sempre foi muito ocupado."

Depois de afastar o prato vazio ele fez com que eu desse espaço para que ele se sentasse atrás de mim de forma que seus braços pudessem me envolver por completo e eu pudesse apoiar minha cabeça em seu peito. Esse comportamento, apesar de repentino, me trouxe um alívio tremendo. O frio pareceu diminuir e meu corpo pareceu mais sob meu controle.

"Seu cheiro está diferente..." Comentei já fechando os olhos de tão boa que estava aquela posição.

"Você ainda está se adaptando a nova marca. Vai demorar ainda alguns dias, mas até lá, quanto mais próximo você estiver de mim, mais fracos vão ficar os sintomas. Você pode dormir agora se quiser. Mais tarde eu vou ligar para um médico amigo meu e pedir para que ele venha te examinar amanhã." Ele pôs a mão na minha cabeça e começou a alisar meus cabelos. Foi impossível resistir ao sono e novamente eu dormi, dessa vez mais tranquilamente, sem sonhos.

Eu não cheguei a ver Anthony fazendo a tal ligação, mas no dia seguinte, pela manhã, um médico realmente apareceu. Um beta que simpaticamente fez alguns exames simples e observou com bastante cuidado a nova cicatriz no meu pescoço.

"Ambas as marcas estão bem fortes e medindo força no seu corpo. Esse é um período delicado, você sabe, então nada de deixar ele chegar perto de outro alfa, ou os sintomas vão piorar ainda mais" Ele falou para o meu anfitrião. "Até o próximo cio ele já deve estar melhor, mas enquanto ele não vem, estejam sempre próximos, fisicamente falando, e evitem locais muito lotados ou qualquer outro estressor. O seu corpo, apesar de forte o suficiente para ter sobrevivido a isso, ainda está debilitado, então vertigens, náusea e dores de cabeça são esperadas. E nem pense em tomar supressores ainda, entendeu?"

Eu concordei e ele deu um tapinha amigável na minha costa.

"Fora isso sua saúde está ótima. Nenhum sinal de rejeição de vínculo ou de alguma doença qualquer. Se alimente bem, beba bastante água e aos poucos você vai se recuperar. Eu vou deixar uma receita de pomada para a marca, ok? É normal que ela incomode de vez em quando."

Depois de falar essas e mais uma série de recomendações o médico deixou o apartamento e eu pude perceber que estava exausto. Eu nem mesmo tinha levantado da cama, mas sentia como se tivesse corrido uma maratona, então acabei cochilando e quando acordei estava coberto de suor, provavelmente fruto de alguma febre que nem percebi que tive. 

Anthony estava segurando minha mão, parcialmente deitado na cama e dormindo profundamente. Parando então para observá-lo, pude perceber que ele ainda tinha algumas cicatrizes da briga com César que eu agora me sentia culpado por ter provocado. Me mexi um pouco e ele acabou acordando. Ele imediatamente colocou a mão na minha testa e eu tremi com o toque. Cada toque de Anthony agora provocava um choque que atravessava meu corpo e causava um arrepio confortável. Eu queria mais, mas não tive coragem de pedir.

"Você está bem? Quer alguma coisa?" Ele perguntou preocupado.

"Quero um banho." Confessei. Nunca foi muito do meu agrado ficar suado, ainda mais em uma situação de saúde.

"Vou preparar um para você."

Ele se levantou e foi até o banheiro daquela suíte. Pude ouvir ele ligando a torneira do que deveria ser uma banheira e depois de uns dez minutos ele veio me buscar. Me agarrei a ele quando fui suspenso da cama pelos seus braços e foi impossível controlar minha vontade de cheirar seu pescoço. Ele tinha um cheiro forte e amadeirado que era gostoso de sentir, mas ao inspirar aquele aroma, meu corpo inteiro pareceu se retorcer por dentro, como se de fato dois alfas ainda estivesse lutando dentro de mim e por isso acabei deixando escapar um gemido de desconforto.

"Você quer ajuda ou consegue sozinho?" Ele me perguntou e eu apenas neguei e o puxei para mais perto. 

A sensação dentro de mim não era muito agradável, mas ainda sim eu o queria lá e ele pareceu entender. Pacientemente, ele me ajudou com o banho e permitiu que eu repousasse minha cabeça, que começava a latejar, em seu peito enquanto terminava com a limpeza. Ele ainda ajudou a me secar, vestir e deitar novamente. Me deu de comer e conversou comigo até o sono vir novamente.

"Andréas vai passar aqui amanhã." Ele disse.

"Vai? Por quê?"

"Como a maioria das suas coisas ficaram na sua antiga casa, pedi para que ele comprasse roupas e algumas outras coisas que você pode precisar. Ele vai trazer tudo amanhã." Ri com a resposta. 

"Eu não sei se fico contente ou temeroso. Andréas tem um gosto bem diferente do meu, quase o oposto." Disse e ele acabou rindo também.

"Mesmo assim, isso não é algo com que você precise se preocupar agora." Tive que concordar com ele.

No dia seguinte, Andréas acabou chegando próximo da hora do almoço e, graças aos deuses, ele foi razoável em suas compras, mesmo que a maioria das peças fosse curta ou apertada demais para meu gosto nada refinado de alguém acamado que só quer conforto.

"Se você quiser alguma coisa folgada, use as roupas do Tom. Ele pode parecer todo doce e gentil, mas tenho certeza que esse truque também funciona com ele."

Revirei os olhos.

"Eu não preciso mais disso, Andréas. Não quero seduzir mais ninguém." Contrapus e ele estalou a língua em negação.

"Bobagem! Vai dizer que Anthony não é um tipão que merece atenção? Vocês vão ter que passar bastante tempo juntos agora e trocar muito contato físico, então por que não deixar o processo todo mais divertido?" 

"Só estou marcado por ele por causa do acordo e apenas por isso vamos ter esse tipo de contato físico." Meu rosto devia estar corado nesse momento.

"Arg, como eu amo e odeio esse seu lado puro que desconversa quando falamos de sexo" Ele brincou. "Mas estou falando a verdade. Até ele encontrar o amor da vida dele ou sei lá o quê ainda sobra muito tempo e tenho certeza que você vai sentir falta." Ele disse.

"Falta do que?" Perguntei inocente.

"De uma piroca no meio da sua bunda, é claro, Angelic! Não é disso que nós estamos falando? Mesmo que você nunca tenha de fato transado com o Tom, vocês já brincaram um pouco, então não venha me dizer que você não tem a mínima curiosidade de saber como ele é nos finalmente."

"Pelos deuses, Andréas, não!" Eu neguei, escandalizado.

"Você é um péssimo mentiroso, Angel, mas eu vou esperar até você ter coragem de admitir isso para si mesmo. Só porque sou seu amigo, tenho dito."

Neguei e tentei mudar de assunto para, quem sabe, diminuir um pouco o meu constrangimento, e surpreendentemente Andréas aceitou isso de bom grado. O ômega acabou ficando para o almoço, o que tornou meu esforço para comer bem menos doloroso. A interação entre ele e Anthony era divertida de assistir e Andréas fazia questão de constranger o alfa todas as vezes em que isso era possível.

Após a refeição, Andréas aproveitou o tempo que sobrava para comunicar Anthony que ele se mudaria para outra cidade, pois finalmente tinha conseguido economizar o suficiente para ter uma vida confortável em outro lugar e recomeçar. Eu fiquei feliz por ele, principalmente quando soube que esse era um dos seus sonhos, e tive que segurar o choro quando ele me deu um abraço longo de despedida pois ele tinha se tornado meu melhor amigo. Por mais que tenhamos nos conhecido em uma situação bastante atípica, ele tinha me salvado de muitas formas diferentes e eu não tinha como agradecê-lo por isso. Por fim, ele prometeu me visitar e me mandar seu endereço para que eu fizesse o mesmo quando estivesse melhor e eu concordei. Quando saiu, Anthony me ajudou a voltar para a cama e se sentou ao meu lado.

"Angelic, eu sei que parece de repente, mas acho que seria bom se você também se mudasse. Não é bom ficar nessa cidade, onde tudo isso aconteceu e você pode encontrar com pessoas desagradáveis a qualquer momento." Ponderou. 

"A situação está tão ruim assim?" Perguntei e ele assentiu.

"Eu não quero que você se preocupe com isso agora, mas pensando na sua saúde..."

"Tudo bem." Eu o interrompi. 

"Tem algum lugar para onde você queira ir?"

Neguei.

"Eu tenho uma casa de veraneio que já não visito há algum tempo. Ela não é muito grande, mas é confortável. O que acha?"

Eu sorri.

"Qualquer lugar que você escolher está bom." Eu disse e ele me olhou resignado. 

Por mais que eu soubesse que não era bom me preocupar com o que quer que fosse, eu não conseguia simplesmente ignorar as consequências das minhas escolhas. Por Anthony ser um luppus, César não podia fazer uso do seu direito de marido e pedir minha execução ou um duelo, mas mesmo assim eu o tinha chamado para aquele hotel e os alfas haviam brigado, mas o que teria acontecido depois? E meu materno? Ele sem dúvidas já tinha conhecimento do ocorrido, mas não havia uma única ligação dele no meu celular.

Anthony beijou o centro da minha testa e me tirou do turbilhão de pensamentos que ocupava minha mente.

"Eu não consigo imaginar como deve estar sendo tudo isso para você, mas confie em mim, Angelic. Eu vou te apoiar e te proteger então, até que você esteja melhor, tente esquecer esse assunto, tudo bem?"

E eu concordei porque não havia outra escolha, mesmo que um gosto amargo tomasse minha boca naquele momento.



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