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História O diário de horrores de Jeff - Capítulo 4


Escrita por:


Notas do Autor


E depois de cerca de aproximadamente 200 anos, eu estou de volta
Desculpem pela demora, de verdade
Enfim, aqui está mais um capítulo de Jeff, o pimentinha

Só uns avisos antes de começar:
Essa é uma estória de ficção, do gênero horror, que não procura em momento nenhum glorificar as atitudes violentas do protagonista. É apenas uma releitura da lenda urbana original na visão do autor, sendo que nenhum comportamento do personagem deve ser copiado ou visto como positivo. Se ainda é menor de idade ou ainda frequenta ambiente escolar, por favor, não tentar, em nenhuma circunstância, imitar o que foi visto aqui, procure um responsável.

Dito isso, e sei que vocês são maduros o suficiente para entender, vamos ao capítulo haha
Boa leitura <3

Capítulo 4 - 03 - Jeff odeia Escola - p.2


Fanfic / Fanfiction O diário de horrores de Jeff - Capítulo 4 - 03 - Jeff odeia Escola - p.2

Será que a Jane estava falando a verdade?

Não que eu me importasse com o que ela falava, não me importo mesmo, ela é só uma idiota que não faz nada além de cagar pela boca e reclamar da dor nos joelhos.

Eu já disse isso? Tanto faz.

Ela bem que poderia morrer de um infarto, já tá doente mesmo, né?

A questão é: Ninguém gostava de mim. A minha família inteira me desprezava e nunca me incluía em nada, nem os meus tios, ou os meus avós ou a mamãe ou o papai.

Eu nunca era tratado como uma pessoa de verdade e eu sei que eu tenho uns costumes estranhos, mas não é nada demais. Isso não justifica eles simplesmente me deixarem de lado e me tratarem como doente.

Não é justo o Liu sempre ficar como o menino favorito! Isso me dá muita raiva. Ele bateu em mim naquele dia! Como as pessoas ainda poderiam tratar ele como a estrela?!

 

                                                                   ***

 

- Mas Jeffrey, você matou o cachorro dele. Não acha que isso seria uma boa razão pra ele ficar com raiva? - A médica perguntou, segurando um riso que ela sabia que se tornaria muito errado caso conseguisse sair.

- Você entendeu! O Liu não é perfeito...

 

                                                                  ***

 

Por isso eu tinha m... Eu queria parar de fazer essas coisas que eu faço por um tempo. Queria ser normal e que a mamãe me amasse do mesmo jeito como amava ele, por isso eu tinha até aprendido a comer a torrada com abacate que ela fazia e até mesmo tentado cuidar da horta com ela.

Foi por conta disso que eu imaginei que seria melhor levar uma surra daqueles bobocas do que ouvir todas as coisas que surgem na minha cabeça. Era o que Liu faria, mas se bem que não haviam valentões caindo em cima dele.

Por que todo mundo fazia aquilo comigo em todo canto que eu fosse?

Eu só queria que todo mundo me incluísse na mesa de jantar. Eu não fiz coisas assim tão ruins.

 

                                                                   ***

 

- As coisas podem até não parecer tão ruins para você, mas isso por que você foi o autor. As pessoas ao redor entendem de forma diferente. Por que não conversa com eles e procura compreendê-los? - A psiquiatra falou de forma doce, deixando inclusive de lado o pequeno caderninho, visto que não parecia agradar muito seu paciente.

Jeff apenas retorceu o rosto.

- O quê?! De que lado você está?!

- Estou do lado certo, Jeffrey. De que lado você está?

As bochechas da pequena face do menino se tornaram vermelhas como sangue e ela logo se preparou para mais uma resposta ácida.

- Se eles não tivessem me tratado como um criminoso desde que eu era pequeno eu nunca teria terminado desse jeito! Eu só queria que eles gostassem de mim como gostam do Liu!

- E eles irão gostar se parar para ouvi-los. Sua família te ama, Jeffrey, por isso te mandou aqui.

- Não foram eles! Foi a porcaria do policial de cabelo laranja! Minha mãe queria que eu ficasse em casa com ela!

E doutora respirou fundo, baixando o olhar. Não adiantava discutir com Jeff, era impulsivo demais e jamais aceitaria estar errado.

Tomou um gole da água em sua garrafa.

- Jeffrey, poderia me contar sobre as coisas na sua cabeça? O que elas dizem?

Mas ele não respondeu.

 

                                                                ***

 

Naquela noite eu fiquei virando de um lado pra o outro da cama, sem conseguir dormir.

Eu lembrei da reação da minha mãe quando eu cheguei machucado em casa e quando ela soube da briga na escola: Eu nunca estaria livre do desprezo dela, por que mesmo quando eu não era o culpado, eu continuava sendo o culpado.

Entende?

A violência está em todo lugar e ela sempre vem pra onde eu estou.

Eu a atraio.

Desde quando eu era um menininho pequenininho, quando eu levei uma surra dos meus primos e terminei quebrando o joelho de um, até agora, quando eu só precisei entrar na sala de aula pra virem vários meninos jogarem o meu lanche fora.

Se houver uma chance de alguma tragédia acontecer ao meu redor, ela vai acontecer. Sempre acontece. 

Todos os lugares por onde eu vou sempre estão cheios de caos.

Eu sou cheio de caos. 

Minha cabeça é como um furacão, girando, girando e girando, e quando eu vejo, tudo já foi destruído.

Daí, a única coisa que faço é reagir.

E se a natureza me fez assim, eu não devia ir contra ela, não é?

Quando eu assisti Pinóquio eu descobri que todo mundo sempre esconde um grilo falante na cabeça, que fica dizendo o que ele deve ou não fazer. Eu também tenho um e ele me diz pra correr e tentar descobrir o que aconteceria se eu esmagasse todos os ossos de alguém.

Ou se eu colocasse fogo no meu próprio rosto.

Eu realmente deveria voltar a ouvir o que ele dizia: Ele provavelmente entendia o meu cérebro muito melhor do que eu mesmo.

Mas seria aquele finalmente o momento de começar a fazer o que eu bem quisesse? A mamãe provavelmente diria que não, especialmente depois do que eu fiz na casa dos velhos, mas ela não podia ler meu pensamento.

Quer dizer, ela não estava tão errada de negar, era algo grande: Todo mundo gosta de notícias violentas, meu pai adora quando passa no jornal, fica de olho grudado na TV.

Então talvez aquela fosse a maneira correta de chamar a atenção das pessoas de casa: Se não conseguiria ser o garotinho perfeito eu seria o pior de todos os tempos e finalmente fazer com que eles olhassem pra mim.

Isso! Era isso!

E de quebra, ainda dava pra saber se eu era um “psicopoto” como todo mundo dizia: Eu soube que eles precisam testar as coisas em vários humanos e aí eles poderiam ser chamados desse jeito.

Deve ser legal fazer parte de uma panelinha.

               

                                                                 ***

 

- O certo é “psicopata”, Jeffrey - A psiquiatra deu um pequeno sorriso - E não é uma panelinha, é uma condição médica.

- Tanto faz.

- Quem te chamou assim?

- O meu amigo. 

- Qual amigo? Isso te machucou?

- Rá! Eu estou vendo a sua cara! - Ele riu e apontou para o rosto da mulher, que tratou de imediatamente olhar para outro canto, com vergonha - Achou que eu não tivesse nenhum?

- Eu não disse isso...

- Mas eu tenho. E ele é... Interessante. - Ele riu.

A mente daquele pequeno era como um grande quebra cabeças, gigante demais para seu tamanho ainda tão diminuto. Seria maravilhoso montar peça por peça: Foi para aquilo que ela havia passado tantos anos na escola de medicina.

 

                                                                 ***

E por isso eu comecei a pensar:

O Keith era como o pintinho que eu matei sufocado quando tinha 3 anos, entre uma pedra e outra: Era magrelo, burro e só seguia o maior.

O Randy era tipo o sapo que eu explodi com água quando tinha 6: Gordo, lerdo e que acha que consegue assustar alguém.

O Troy era o cachorro imbecil do Liu que eu esfaqueei até a morte: Um diabo detestável que só estava ali pra encher meu saco, mas que convencia algumas pessoas a ficarem de joelhos na frente dele.

Estava tudo interligado!

É claro que era o que eu deveria fazer! 

Todo aquele tempo, todas aquelas coisas que eu fiz eram só um treinamento, pra que um dia pudesse enfrentar aqueles idiotas ao meu redor e conseguir o meu lugar.

Eu iria finalmente ser respeitado como eu sempre quis! 

No topo da cadeia alimentar, onde eu deveria ficar desde o dia em que eu nasci.

Eu fiquei revirando na cama a noite inteira! Estava tão ansioso pra finalmente chegar na escola no outro dia! Eu tinha tantos planos! Destruiria vários coelhos numa só cajadada! Me tornaria o... Lobo? Leão?

Quem come coelhos?

Pensando bem, o ser humano é o maior devorador de animais do mundo, eu comi um coelho no almoço da caça da vovó. Então acho que eu finalmente me tornaria homem de verdade depois daquilo.

Passei a noite inteira correndo de um lado pra o outro e enchendo minha mochila com besteiras, inclusive uma muito especial, que eu achei na oficina no papai.

No outro dia eu fui caminhando de novo até escola, de estômago vazio: Eu fico enjoado quando estou muito feliz, e se tivesse que comer as torradas com abacate que a mamãe fez era bem provável que iria vomitar no meio do caminho.

Eu sentia meu corpo inteiro pulsar.

O grilo de dentro da minha cabeça não parava de pular de alegria também, eu sentia as asas dele batendo dentro dos meus ouvidos.

- O que está acontecendo com você? - O Liu perguntou, com a cara de boboca de sempre, mas ele parecia meio desconfiado - Qual é a dessa roupa folgada?

- Por que você quer saber? - Eu rebati de primeira - Só estou usando o presente que o vovô me deu de natal.

- Está sorrindo. O que está planejando? Você nunca faz isso por nada!

- Eu só estou animado para ir pra escola! Não posso mais?

- Se isso significar me meter em encrencas, é claro que não! - Ele parecia com raiva, mas sei lá, não era da minha conta.

Não iria deixar ele atrapalhar os meus planos.

- Não é encrenca nenhuma. Não se preocupe - Menti. Claro que era. Os Woods viviam de encrencas desde o dia em que fugiram com uma criança criminosa.

E claro que a criança era eu.

Tenho que manter a minha linhagem.

- Certo... Eu vou falar com a sua professora no final da aula. Quero ver o que ela vai dizer... - Ele voltou a se concentrar na rua e eu provavelmente teria dado um socão bem no meio da fuça dele, mas um pensamento me fez parar tudo.

Parar de andar, de pensar e de respirar também.

A professora.

Não sei que tipo de monstro ela era, mas era com certeza um que eu nunca havia visto na vida.

Era ela quem me paralisava todo dia, que me enchia de m... De agonia. Ela era apa... Estranha. Muito estranha, e quando ela olhava pra mim... Eu sentia que estava levando uma surra, como nunca tinha levado na vida.

Só de lembrar, eu quase cho... Quase gritei.

Ela era um demônio!

Mas eu já tinha planos pra ela.

E eu iria dar inicio a ele ali mesmo.

- Não, por favor! Não fale com a professora! Ela... Ela me odeia!

- E por que ela te odeia? - Ele levantou uma sobrancelha e parou no meio da calçada.

- Porque... - E foi aí que uma ideia surgiu - Ela viu o que os meninos estavam fazendo comigo e não fez nada! Ela me deixou ficar com esse olho roxo e nem me levou na enfermaria!

- Que mentira!

- É verdade! Eles me chamaram de viadinho e ela riu!

- Viadinho?! Quem te ensinou a falar isso?! Espera... Não, você está inventando coisas! Anda que daqui a pouco estaremos atrasados!

Eu ri bem baixinho, porque percebi que ele estava caindo na minha. É bom ser criança, você pode enganar as pessoas se chorar e falar coisas feias.

 

                                                                 ***

 

- Jeffrey, sei que não gosta da sua professora, mas mentir sobre ela é errado. Você pode estar colocando a carreira dela em jogo. Ela pode ter filhos, como fará pra alimenta-los se for demitida? - A médica se inclinou na direção do menino, esperando ansiosamente por uma resposta.

- E eu sei lá! Não é problema meu. Mastiga umas minhocas e enfia na garganta deles, que nem eu vi no Discovery Channel - Ele gesticulou como se tentasse cruzar os braços, mas foi interrompido bruscamente pelas algemas.

- Gostaria que sua mãe fizesse isso com você?

- Você acha que ela faria isso comigo?! - Jeff riu escandalosamente, riso alto de criança, mas que fez os vidros das janelas tremeres por um instante - Se ela precisasse fazer algo assim, já teria se matado.

Jeffrey era um menino de boca razoavelmente suja, que ficava equilibrado na tênue linha entre palavrões e resmungos baixos: Não sabia o que significava “viadinho”, mas entendia muito bem o conceito de suicídio.

Que tipo de comportamentos ele havia visto por parte de sua mãe para ter aqueles tipos de pensamentos sobre ela? A família Woods não parecia desequilibrada àquele ponto. De longe, ao menos, era como qualquer outro grupo familiar de classe média alta do século XXI.

E ela havia percebido, de forma bem óbvia, que aquele menino tinha uma forte ligação com sua figura materna.

Liu era o masculino, o protetor, o responsável, enquanto Jeffrey, por mais estranho que parecesse, era o feminino, o hábil, o esperto, o oculto.

O único esperto o suficiente para atacar alguém pelas costas como uma cobra (também no feminino).

Talvez essa fosse a razão para que vivesse em conflitos dentro da própria cabeça.

- Você tem problemas com a sua mãe?

Ele pareceu chocado com a pergunta por um momento, arregalando os olhos azuis, desviando o olhar para o canto da parede e depois para os próprios sapatos, como sempre fazia.

E para a surpresa da psiquiatra, foi a vez dele engolir em seco.

- O papai nunca me ajudou nas tarefas de casa, sabe? Eu... Precisei fazer o trabalho de geografia sozinho...

- Ah, sim. Entendo, claro. Mas você é um garoto muito inteligente, tenho certeza de que se saiu muito bem.

Ela sabia que ele estava tentando desviar do assunto e por mais que quisesse, com todas as forças, perguntar mais e insistir, ela sabia que estaria indo contra todo o código conduta da psiquiatria.

E que código infeliz!

Se acomodou em seu sofá, tentando aquietar toda a curiosidade latente.

 

                                                                ***

 

Quando eu cheguei na escola, corri pra sala, sentei na minha carteira e fingi prestar atenção na aula de geografia, até entreguei o meu trabalho.

Foi a professora quem pegou, mas tudo bem, eu não fiquei com tanto medo.

Enquanto ela explicava todo aquele assunto de hidrografia, eu fiquei de ouvidos bem atentos pra aqueles três ao meu redor.

O Troy começou a chutar a minha bolsa, enquanto o Randy ficava falando coisas do tipo “você tem piolho no cabelo” ou “você é uma maricona”. Eu sei lá de onde ele tirou essas ideias: Ele era o fedorento ali, só não tinha cabelo o suficiente pra guardar piolho.

Mas eu estava concentrado demais vendo o Keith apontando o lápis na lixeira.

- Saiam de perto de mim, vocês são nojentos - Eu sorri, assim como eles. 

Eu estava levando tudo bem a sério. Sou muito dedicado

- O que disse?! - Keith perguntou, finalmente sentando na sua cadeira.

Sua cara fininha ficava vermelha como uma pimenta malagueta.

Foi engraçado, ele parecia realmente engasgado.

- Não, não faz nada com ele, Keith. Deixa... - Troy falou, rindo - As bolinhas dele estáo finalmente crescendo! - Riu de novo - Você tem alguma Jeffrey? 

- Claro que ele não tem, ele é uma menina! - Randy falou baixinho e os três riram.

- Por que querem tanto saber? Provavelmente estão apaixonados por mim, não é? Três idiotas que só andam juntos e que se beijam quando estão sozinhos... Mas a culpa não é de vocês, claro, nenhuma menina gosta de três imbecis sujos. 

- Retire o que disse agora! - Randy gritou.

- Não vou - Eu respondi e cruzei os braços.

- Estamos te dando uma chance, Jeffrey, ou prefere outra surra? - Troy murmurou entre os dentes.

- Dessa vez a surra vai ser em você, Troy - Eu respondi, rindo.

Ah, mas ele não tinha ideia.

- Ouviram isso? - Aquele bobão de topete riu - Então é um desafio, não é? Te vejo no recreio. Vou quebrar esse seu nariz de porco.

Dei de ombros.

Eu ri junto com eles, ora. Era bem melhor do que manter a cara fechada.

Na verdade não, mas eu tinha que disfarçar as coisas.

Quando finalmente o sinal tocou, eu coloquei todo plano que eu tinha feito durante a noite em ação.

Esperei todos saírem da sala pra finalmente ir até o lixo e jogar uma das bombinhas que o Liu tinha (as mesmas que tinha usado pra explodir a casa daqueles dois velhos). Acesa, claro, eu nunca tirava o isqueiro do papai do bolso.

Ele era tão burro que nunca notou que ele não estava mais na caixa de ferramentas dele.

E quando ela finalmente explodiu e todo o papel dali de dentro começou a pegar fogo, eu corri para a cantina, me misturando na fila do lanche e fingindo que tinha demorado simplesmente porque ainda não tinha sido atendido.

Mas simplesmente fui até a pilha de bandejas e peguei uma, colocando o lanche que a mamãe tinha colocado na minha bolsa em cima dela.

Sentei numa mesa e só esperei até que aqueles três viessem até mim, como haviam prometido.

- E aí, Jeffinho? Comendo o lanche da mamãe de novo? - Troy perguntou, sentando do meu lado.

- Porquê te interessa?

Ele não esperou e jogou tudo no chão.

E era isso o que eu queria!

Ele me deu um soco e eu caí, batendo o meu rosto na cadeira. Foi engraçado, eles são muito convencidos.

- Ah, vai chorar? Vai ligar pra sua mamãe? - Keith riu e gritou.

Logo tudo mundo se aglomerou ao nosso redor.

Ótimo!

- Ah, não, eu não vou. E você?! - Eu levantei, devia sair um pouco de sangue da minha boca, eu sentia o gosto por todos os lugares e uma ferida aberta enorme na minha bochecha.

De dentro do meu moletom azul, que era quase duas vezes o meu tamanho, eu tirei o pé de cabra que peguei escondido da caixa de ferramentas do papai. Eu tinha guardado ele ali desde o início da manhã! Como eu estava ansioso pra finalmente poder usá-lo!

Ouvi todo mundo gritar de surpresa (e talvez de medo, o que torna tudo ainda melhor).

- Ah, você tá estressadinho? Pode vir, viadinho, sei que não sabe usar isso - Troy riu, e foi aí que meu sorriso sumiu.

Meus músculos endureceram e não sei dizer, mas o meu sangue parecia a água que a mamãe coloca no fogo pra fazer chá, estava muito quente e eu podia ouvir o zumbido da chaleira dentro da minha cabeça! 

O grilo começou a cantar de novo e a bater as asinhas nos meus ouvidos. Ele sabe das coisas.

- Troy, é melhor não... - Keith começou.

- Cala a boca! Se vai se cagar todo agora é melhor ficar longe!

- Jeffrey, não faz isso! - Uma voz de menina vindo de trás de mim.

Era a Nina, que parecia desesperada, ela chorava até que seu rosto ficasse completamente vermelho, tipo um tomate. Eu simplesmente não conseguia entender o porquê daquilo: Ela era estúpida ou o quê? Por que chorar por algo que não tinha nada a ver com ela?

Olhei para o outro lado e vi Jane, observando da mesa onde ela tinha sentado, ainda parada, com cara de raiva, olhando pra mim provavelmente pensando as mesmas coisas que eu pensava da Nina.

Tudo estava se encaixando.

Peguei o pé de cabra e fui pra cima de Troy, que desviou enquanto seus parceiros se afastavam, quase correndo.

- Vai precisar fazer melhor que isso, não é? - Ele falou, rindo de mim.

Eu ri de volta e corri na sua direção, intencionalmente, esperando que ele viesse finalmente me dar um soco no rosto.

E ele veio. Ah, como é bom quando te entendem!

Ele me deu dois murros do lado esquerdo e eu fingi perder as forças: Me joguei no chão, puxando a camisa dele pela parte debaixo, para que caísse junto comigo.

E quando ele já estava em cima de mim, eu aprontei a minha arma.

- Bobão - Sussurrei dei um golpe no seu rosto.

Uma mancha vermelha enorme surgiu, aos poucos ficando mais e mais escura, vi até algo sair de sua boca, algo branco, um dente. Se ele tivesse sorte, seria de leite.

Ri e me levantei, vendo ele ainda se contorcer com a dor na cabeça.

Levantei o pé de cabra e comecei a bater no seu joelho, com toda a força que eu tinha, tanta, mas tanta, até que finalmente ouvisse seu osso dar um estalo.

Ele fazia uns barulhos estranhos, engasgava com a própria saliva e cuspia sangue em outros momentos, tudo isso enquanto se contorcia no chão, chorando que nem a Nina, talvez pior.

Seus amigos, naquela hora, nem estavam mais no refeitório, tinha saído correndo.

Eu controlei a minha vontade de rir: Era muito divertido. Reagir era muito divertido. Ouvir os gritos de todos os outros alunos também era.

Acho que eu finalmente estava assumindo meu papel no topo da cadeia alimentar.

Como um homem.

Quase admiti que Jane estava certa, mas tenho muito amor próprio pra isso.

Continuei batendo na sua perna esquerda até que uma pequena ponta se levantou da sua canela e uma mancha escura surgia rapidamente na sua calça jeans.

Eu tinha conseguido quebrar o osso dele no meio.

E Ele deu um grito horrível. Enorme! 

E parece que foi esse grito que fez a minha consciência parar de cantar e voltar a ficar quietinha no canto, fazendo todo o meu sangue esfriar e voltar a correr devagarzinho pelas minhas veias.

Foi quando eu finalmente parei.

Vi todas as crianças da minha sala e das outras olhando pra mim, algumas chorando, outras gritando e outras simplesmente paralisadas. 

Ajeitei o cabelo e respirei fundo pra poder gritar:

- Se ele não tivesse me tratado como lixo, isso não teria acontecido! - Apontei com o pé de cabra para o Troy, que estava nos meus pés, encolhido como uma bolinha, soluçando. Logo virei a ponta do metal pra o resto do pessoal, girando para que pudesse ver todo mundo - E que isso fique de alerta pra todos vocês! Eu tive piedade dele, mas o próximo que vier pra cima de mim vai levar na cabeça! - Eu gritei muito alto e todos andaram um passo pra trás - Avisem pros dois amiguinhos dele que são os próximos da minha lista.

Terminei e me virei, indo em direção ao canto do refeitório, vendo todos abrindo caminho pra mim.

Claro que eu não poderia deixar de agradecer a pessoa que me incentivou a fazer aquilo tudo.

- Jane, muito obrigado por me emprestar o pé de cabra - Coloquei a ferramenta do lado da bandeja dela, em cima da mesa, sujando tudo com ferrugem, que nem as minhas mãos - Obrigado também por bolar esse plano comigo, se não tivesse conversado comigo ontem, eu nunca teria feito nada disso.

Claro que era mentira, eu teria feito aquilo de todo jeito, mas ver sua cara de horror não teve preço! Ela olhava confusa ao seu redor e depois pra mim, mas eu sabia que uma hora outra ela iria se vingar, claro que iria.

Mas antes iria passar um tempo longe da escola, assim como eu.

Todos começaram a gritar e apontar pra ela, vaiando, e eu ri, tanto que quase fiz xixi nas calças.

E então chegou a hora do outro plano.

- Professora, foi ele! - Randy chegou, trazendo a professora. Apontava pra mim, claro - Ele bateu no Troy!

Aquela mulher se abaixou para ver o topetudo e depois me encarou, com muito mais pavor do que ódio.

Do outro lado surgia Nina, com o diretor, que olhava para toda aquela confusão com extrema raiva, esse sim tinha ódio (mas pouco medo). Parece que aquela menina seria útil no fim das contas, muito mais do que pensei.

Ela tinha facilitado todo o meu esquema.

- O que aconteceu aqui?!

- Jeffrey bateu no Troy com um pé de cabra! - Um menino aleatório falou.

- E a Jane quem mandou ele fazer isso! - Uma garota acompanhou.

- É mentira! Eu não fiz nada - Jane gritou, o seu rosto branco como o de um fantasma agora se tornando cor de rosa.

- Mas diretor Baker, foi o Troy quem começou! Ele me chamou de coisas horríveis! - Eu falei, fingindo desespero.

Não adiantava negar que tinha sido eu.

- Isso não é desculpa pra bater nele, Jeffrey - A professora tentou me tocar e eu desviei daquela mulher horrorosa - Além do mais, pode perguntar à enfermeira: A Jane usou a desculpa de ir tomar os remédios pra me convencer a fazer isso tudo.

- Jane, isso aconteceu? - O diretor perguntou e ela tremeu dos pés a cabeça.

Tive que segurar o riso.

- Não! Quer dizer, sim, eu fui tomar meus remédios quando ele estava lá, mas eu nunca falei sobre nada disso com ele - Foi ainda mais legal quando ela lembrou que na verdade tinha falado sobre aquilo comigo, e começou a pensar que talvez, realmente, ela tivesse culpa.

- Nina, querida, chame a enfermeira - O diretor sussurrou pra ela, que correu de volta pro corredor - Srta. Montserrat, ligue para a emergência - Ele disse para a professora - Vocês dois, venham comigo - Ele apontou pra mim e pra Jane - Peguem suas coisas e me acompanhem até a diretoria.

Jane pareceu congelar no lugar de tanto medo, enquanto eu estava muito tranquilo, não era a primeira vez que me metia numa encrenca.

E foi ao entrarmos na sala de aula que o ato 3 foi posto em prática (me sinto bastante adulto falando esse tipo de coisa).

Estava tudo coberto por fumaça: Do teto até as mesas, tudo manchado de preto por conta do fogo que tinha queimado todos os plásticos e papéis de dentro da lixeira grande.

Tossimos, e logo vi uma das veias da cabeça careca do diretor ficar saltada.

- O que aconteceu aqui?! - Ele perguntou, abrindo caminho entre as cinzas.

- Eu tentei avisar a Srta. Montserrat, diretor! Mas ela não me ouviu! O Keith queria colocar fogo no lixo e me culpar porque eu tinha brigado com eles. Ela viu eles fazendo bullying comigo, mas não fez nada! Fingiu que não ouviu.

Forcei algumas lágrimas (tive que passar bastante tempo sem piscar e depois apertar muito os meus olhos) e senti Jane revirar os dela.

- Ela me odeia! Sabia de tudo e nunca me protegeu!

- Estou entendendo - Ele suspirou e levou a mão à testa - Peguem suas coisas e venham, vou dar um jeito nesses problemas.

 

                                                                ***

 

- Ele passou bastante tempo conversando com nossos pais e no fim disse que eu e Jane estávamos suspensos por uma semana e que se fizéssemos aquilo outra vez seríamos expulsos. Parece que ele ficou bem rigoroso depois que colocaram fogos de artifício no banheiro dos meninos - Jeff soltou um espirro, logo coçando o nariz - A professora também foi demitida naquele dia, disseram que ela está tentando abrir um processo contra a escola, mas eu nem sei.

- E o que os seus pais disseram? - A mulher tomou o último gole da água já quente em sua garrafa - Percebi que seu pai estava um pouco nervoso quando te trouxe aqui.

- Nada. Absolutamente nada! Mesmo depois disso tudo eles fingiram que nada estava acontecendo, tomaram o pé de cabra de volta e esconderam todos os objetos que poderiam ser perigosos pra mim! Não sei se o diretor tentou me inocentar ou algo assim, mas não era pra ele ter feito isso! Eles deveriam estar furiosos!

A médica estava absolutamente fascinada com todo o comportamento e as ligações que aos poucos se formavam entre as peças do jogo de Jeff: Havia um desenho sendo formado por aquele quebra-cabeça, ela só não tinha ideia de qual era ainda.

Além disso, seu diagnóstico, apesar de este possuir vários sinais e sintomas das mais diversas condições psíquicas, permanecia indecifrável.

- E quanto aos três amigos? O que houve?

- Parece que o Keith foi suspenso e o Troy foi transferido. O Randy eu não faço a mínima ideia.

- E a Jane?

- A Jane eu não ligo. Vi ela chorar saindo da escola, mas fui a última vez que vi ela, parece que não saiu mais de casa. Mas eu tenho uma novidade, se estiver interessada.

- Estou sim, claro - A doutora fechou o caderno e o colocou ao lado de sua perna, no sofá.

- Eu descobri o que significa viadinho, e na verdade, nem estou tão chateado. Quer dizer, te xingar por beijar um menino? Nem faz sentido. Até parece que as minhas bolas vão cair.

- Sim. É uma ótima forma de pensar, Jeffrey. As pessoas amam quem elas quiserem, não concorda?

- Eu poderia ficar com um menino se eu quisesse, ou uma menina, tanto faz. Eu estou no topo agora, e todo mundo vai se ajoelhar quando eu aparecer - Sorriu maliciosamente, provavelmente imaginando as mil e uma peripécias que faria.

- Você sabe que o que fez foi extremamente errado, não sabe? Não sei deve acusar os outros assim e muito menos usar da violência de forma tão irresponsável. Precisa canalizar toda essa sua raiva em algo mais produtivo.

- Tanto faz. Foi legal e eu consegui dar a cada um o que eles realmente mereciam. Não poderiam continuar tratando as pessoas daquela forma ou ignorando os problemas. Fiz o certo, não acha?

- Não, querido. Justiça com as próprias mãos nunca é a resposta. Você é apenas um humano, não pode ditar o que acontecerá com outros humanos.

- Então por que está tentando fazer isso comigo? Está tentando me impedir de fazer algo que eu sempre fiz. Você está tentando me mudar. Isso é certo?

- Jeffrey, não é... - Foi interrompida pelo menino, que arqueava a sobrancelha.

- Tem mais uma coisa: Quando eu vi a mamãe e a professora juntas, eu descobri que elas são muito parecidas.

- Como assim?

- Eu não sei, ela só... São.

- E você tem medo da sua mãe assim como tinha da sua professora?

Alguns segundos de silêncio consumiram o lugar.

- Olha a hora, doutora! - Jeff apontou para o pequeno relógio digital ao lado da poltrona - O meu pai já deve estar agoniado pra ir pra casa.

O números diziam: 20h00min. Hora do jantar para ambos.

- Ah, sim, claro. Até semana que vem - Ela se levantou e eles se despediram.

Esperou ele sair da sala para mais uma vez caminhar até o computador, escrevendo outro dos vários relatórios que já havia encaminhado à polícia sobre o infame Jeffrey Woods.

E como sempre, iria omitir algumas das informações: A caçada pelo verdadeiro problema do menino já havia se tornado sua jornada pessoal e não mediria esforços para mantê-lo ali, ao seu lado, até que finalmente desvendasse aquele mistério.


Notas Finais


Obrigada pela leitura :3
Perguntas, sugestões e críticas é logo abaixo ^.^


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