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História O dragão vermelho - Capítulo 3


Escrita por:


Notas do Autor


Ilustração: Magdalena Korzeniewska


Boa leitura!

Capítulo 3 - Capítulo 2


Fanfic / Fanfiction O dragão vermelho - Capítulo 3 - Capítulo 2

 

 

 

CAPÍTULO 2



 

As sombras da noite dançavam entre eles e ao redor da chama que os aquecia. Para qualquer direção que olhassem, a escuridão completa parecia ser a única companheira. Todavia, há bem mais nas profundezas do abismo do que apenas o gélido silêncio. Um observador bem treinado conseguiria distinguir os minúsculos olhos brilhosos espreitando por entre as árvores do Bosque. Eram eles. Os seres da noite. As almas perdidas e condenadas às trevas. Briana sabia que eles não fariam mal algum aos visitantes do Povoado das luzes. Era por isso que a calmaria reinava no grupo. 

 

Enquanto Morin e os demais dormiam a alguns pés de distância mas ainda agraciados pela quentura das chamas, ela se questionava se voltaria a ter uma boa noite de sono como comumente o tinha. Nos últimos tempos, cenas sangrentas a perturbavam assim que fechava os olhos. Não sabia exatamente do que se tratava, apenas que constituíam um cenário de um destino cruel e infame. Ela via o fogo. Via o sangue nas próprias mãos. Via os mortos caídos aos seus pés. O seu povo. A sua gente. Em momentos assim, as dúvidas cruéis a respeito de seu próprio passado eram como fantasmas cantando ao pé do ouvido. Quem ela era? O que ela era? Os pesadelos tinham alguma ligação com a sua história manchada e esquecida? 

 

— Você precisa dormir. 

 

Cédric. 

 

Ela o observou se sentar bem ao lado e contemplar o fogo com atenção. 

 

— O que está tentando fazer tão perto da fogueira? Enxergar o próprio reflexo? — então, os olhos verdes a miraram com interesse. 

 

Briana suspirou, cansada demais para qualquer conversação sem sentido, mas optou por respondê-lo em um tom ameno:

 

— Não consigo dormir. — era pessoal demais. Íntimo demais. Não conversara sobre nem mesmo com Merida, sua amiga mais próxima.  

 

— Depois da ideia de içar as mercadorias com aquela geringonça pesada que corria o risco de nos atrasar, eu também perderia o sono. 

 

Claro. Ele não perdia a oportunidade de importuná-la. Cédric era assim. Vinha de mansinho, você tinha a impressão de que ele seria amigável, mas pelo contrário, a acidez transbordava de seus sorrisos e olhos dissimulados. 

 

— Você preferia dar um chute nos portões e sair correndo carregando um saco de batatas, ciente de que a ideia inicial era fazer tudo na surdina? Eu sei. Acabou dando tudo errado, mas a minha ideia principal continua sendo melhor que as suas. 

 

Ele sorria de canto. Briana o observou à espera de mais uma frase maldosa, mas se surpreendeu ao vê-lo concordando com um leve movimento de cabeça. Voltou a fitar as luzes alaranjadas dançantes. As mãos estavam quentes, porém não se sentia assim por dentro. 

 

— De qualquer forma, não estou sem sono por causa disso. — por que mesmo continuava a dar importância à presença dele? Não sabia. Mas havia a ânsia de falar. De revelar a alguém, ainda que fosse a Cédric, sobre o que a amedrontava. — Já faz tempo desde a última vez em que tive uma noite de sono decente. Nem sei mais o que é isso. 

 

Cédric a olhava como se buscasse na expressão tensa alguma resposta.

 

— Há quanto tempo? — ele sabia. Todos sabiam. Sonhos não eram apenas sonhos para o Povoado das luzes. 

 

— Meses. — Briana murmurou. 

 

— E achou que não deveria contar a ninguém? 

 

— Não acho que os anciãos e a Comissão ficariam muito felizes em saber o conteúdo. 

 

A expressão de incompreensão de Cédric a obrigou a revelar toda a verdade. Contou com detalhes como eram os pesadelos que tanto a atormentavam. Sobre os corpos dilacerados, os olhos vermelhos e o fogo que a acompanhava. Sobre a destruição de todos aqueles que jurou proteger. 

 

— Uau. 

 

Ele parecia perdido. Perdido e ao mesmo tempo eufórico. Briana não compreendeu o motivo do sorriso desleixado de Cédric, e ao questioná-lo, a resposta a desagradou mais ainda.

 

— Nunca ouviu falar da lenda dos Quatro dragões? 

 

— Já ouvi brevemente. Mas nunca me interessei pelas historinhas de Nicolau. — Nicolau era um dos anciãos do Povoado. Um verdadeiro contador de histórias. Ainda que ele fizesse parte da Comissão, Briana tinha certeza que era o único membro que a escutaria se decidisse contar a verdade. 

 

Cédric suspirou.  Dessa vez, com um sorriso estranhamente simpático. 

 

— Meu passado é uma mancha. A única coisa que sei é que fui deixada na floresta, à borda do Lago dos cristais. Nicolau e a falecida Ann cuidaram de mim e me treinaram. 

 

— Ann era uma excelente feiticeira. 

 

— Como sabe disso? — ela o observou com inquietude. Cédric nunca falara a respeito de si mesmo. Tudo o que sabiam era sobre os seus dias vagando de povoado em povoado, sempre ajudando os pobres desavisados em troca de algum alimento e boas armas. 

 

Aparentando incômodo com a pergunta, respondeu:

 

— Nicolau me contou. 

 

Briana sabia que era mentira, mas não insistiria no assunto. Não tinha cabeça para mais revelações e dores de cabeça.

 

— Você não me explicou que relação a lenda dos Quatro dragões tem com o que lhe contei. — sibilou. Mais adiante, Morin se remexia de um lado para o outro. O sono dele não era um dos mais calmos. 

 

— Dizem que cada dragão guarda os poderes dos Antigos. O dragão verde, o dragão preto, o dragão azul e o dragão vermelho. O verde simboliza a proteção das florestas, da magia presente em cada planta, cada local encantado desse vasto mundo. O azul simboliza as águas mágicas, a cura e a ressurreição. O preto simboliza as forças ocultas, a magia das trevas, a ponte entre o mundo material e o mundo espiritual. Dizem que é o que mais pode voltar-se às energias maléficas quando sob o controle de receptáculos levados pela ganância. — Briana o ouvia com toda atenção; tentava entender aonde aquilo os levaria, mas sua cabeça ficava cada vez mais confusa. — Por último, temos o vermelho. O dragão vermelho simboliza a magia dos tempos de guerra e destruição. É o espírito de vingança e proteção de cada ser mágico que vaga por aí. Não consegue adivinhar por que estou contando isso, Briana? 

 

Ela ponderou, olhando profundamente nos olhos esverdeados de Cédric. Viu o momento exato em que as pupilas dele dilataram. Era como olhar para o abismo. Se sentiu incomodada, repentinamente ferida. Voltou-se para as mãos sujas, os dedos repletos de ferimentos e arranhões… 

 

— A portadora ou portador do dragão vermelho, também chamado de receptáculo, costuma ter pesadelos envolvendo a morte de seu próprio povo. A temática do fogo e do sangue é sempre muito presente. 

 

— Isso é bobagem. Como você pode saber de tanto? — Briana resmungou. 

 

— Um cara que vaga pelo mundo aprende muitas coisas… — ela teve a estranha impressão de que ele fugira da pergunta. — Se o portador de um dragão não for bem treinado, pode se voltar contra aqueles que deve proteger. 

 

Os lábios dela tremularam. Cédric não soube dizer se aquilo era uma ameaça de sorriso, ou sinal de frustração. 

 

— Me diverti muito com as suas mentiras tolas, — retorquiu com ironia — mas os povos da floresta não são realmente a minha gente. 

 

— Como pode ter tanta certeza? Você mesma disse que não sabe nada sobre seu passado. 

 

— CHEGA, CÉDRIC! 

 

A voz revolta de Briana fez com que o restante do grupo despertasse aos pulos. 

 

— O-o que está a-acontecendo…? — Merida e seus cabelos negros revoltos teria sido uma visão muito engraçada se a chegada de um desconhecido não os tivesse alarmado ainda mais. 

 

Primeiro, os galopes selvagens de um cavalo escuro como a noite, depois, uma intrigante figura de capa negra e espada reluzente. Por detrás do sujeito, outras figuras em capas cinzentas surgiram. Sob a luz da fogueira, Briana soube que não eram meros visitantes do Bosque. 

 

— Quem é você?! — brandou quando a figura na liderança apontou a espada em sua direção como uma flecha. 

 

Eu quero a sua morte. 

 

No instante seguinte, mergulhados sob a réstia do fogo, espadas tilintaram. 

 


Notas Finais


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