História O Exorcismo de Marlon Gayler - Capítulo 31


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Categorias Originais
Personagens Personagens Originais
Tags Exorcismo, Mistério, Romance, Sobrenatural, Terror, Yaoi
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Palavras 4.977
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Ficção Adolescente, Mistério, Romance e Novela, Sobrenatural, Suspense, Yaoi (Gay)
Avisos: Álcool, Homossexualidade, Linguagem Imprópria
Aviso legal
Todos os personagens desta história são de minha propriedade intelectual.

Notas do Autor


Voltei. Ufa. Bom, esta é a última parte das páginas cinzas. Desta vez em DOSE DUPLA já que acabando este capítulo já pode ler o primeiro Epílogo. Então corre e não deixe de comentar.

Capítulo 31 - Tormenta


I

 

DOOOMMM...

Dan Mason se assustou quando o eco do sino soou lá fora. Já há alguns minutos mantinha a mão imobilizando o irmão agitado, buscando fazê-lo se acalmar, porém Jeremy persistia em sussurrar cada vez mais angustiado sobre Marlon está em perigo, sobre Gayler precisar de ajuda. Vacilante, tentava acalmá-lo, explicando que em poucos minutos o garoto estaria ali com eles, que sim, que fugiriam naquela noite, mas que Jeremy precisava manter a calma, o controle. O maior temor de Dan naquele momento era de que os gemidos do irmão chamassem a atenção de algum frei no andar, e que desta forma, despertando-o, criasse um novo obstáculo para a saída. Sabia que se não conseguissem dar o fora naquela madrugada, uma nova oportunidade demoraria a acontecer, já que expulso, Dan precisaria aguardar o fim do inverno para tentar retornar a Von Saint-Michel.

Lá fora, quando o sino badalou pela segunda vez, ele ouviu um estranho alarido de aves na floresta e desviou os olhos para a vidraça, franzindo o cenho. O que estava acontecendo? Estranhando aquilo, tornou ao irmão, percebendo que agora Jeremy voltava a descansar vagarosamente, como se anestesiando ao som do sino, como se de uma hora para outra a tormenta houvesse passado, o corpo tornando a relaxar, repousando sobre os lençóis. Ele estava com a testa enrugada, sua respiração cálida saía pelos lábios entreabertos, e a feição que por semanas fora de palidez, começava a tomar cor, em nada se assemelhando àquela imagem mórbida de segundos antes. Mason aproximou-se mais, surpreso com a cena. Tomando-lhe a mão, aferiu sua pulsação e o observou tossir baixinho, logo em seguida, piscando os olhos vagarosamente com sensibilidade à luz. Agora a feição no rosto do irmão estava mais vívida, despertando daquele pesadelo, o sangue circulando com maior fulgor.

Surpreso e com o coração acelerado, Mason imediatamente afastou os cobertores para um lado a fim de deixá-lo respirar, e acariciou-lhe os cabelos com um largo sorriso no rosto, então reparou que o coração de Jeremy batia na mesma velocidade que o seu. Ensaiando dizer-lhe algumas palavras, teve a atenção roubada por um terceiro badalar.

DOOOMMMM...

Agora, não somente o ruído do metal se propagava no terreno, mas dentro no monastério, no corredor, a luz havia sido acesa, e alguém em passos apressados passara em direção à escadaria. Mason afastou-se um instante de Jeremy para conferir o movimento, e percebeu que o jardim também estava clareado pela luz que vazava de algumas janelas. Havia algo acontecendo, a balburdia das aves só aumentava conforme os minutos passavam. Ele voltou ao irmão, tomando-lhe as mãos entre as suas, então fixou seu olhar por um longo instante, transmitindo a emoção de vê-lo desperto.

Jeremy?! — respirou feliz. Muito feliz por tê-lo ali — Você está bem?

O garoto fechou os olhos ainda com dificuldade para se acostumar à luz, e após tossir, sussurrou baixinho:

Ele o pegou Dan — umedeceu os lábios esbranquiçados, sentindo a garganta arder — Ele o pegou.

Mason teve dificuldade para compreender o que sussurrava, chegou para mais perto a fim de ouvi-lo melhor e manteve silêncio olhando para a porta, atento aos passos do outro lado. Os freis continuavam a moverem-se apreensivos, e o que era mais estranho, o sino na torre leste, outrora estragado, persistia em retinir.

Em perigo — o garoto murmurou outra vez, recuperando-se aos poucos — Marlon Gayler está em perigo.

— Marlon? — Dan ergueu-se e tentou acalmá-lo quando enfim compreendeu, voltando a massagear suas mãos agora quentes — Não Jeremy. Marlon está bem. Nos vimos a pouco, combinamos de se encontrar aqui. Ele deve chegar a qualquer momento, você vai ver, vamos dar o fora de Von Saint-Michel está noite irmãozinho.

Não Dan, não — Jeremy respirou vagarosamente fechando os olhos um momento mais para superar a tontura — Você não entende — sentia os dedos dele agora deslizando por entre os seus. Engoliu em seco, sentindo a garganta dolorida ao tentar se expressar — Ele não nos deixará sair, ele nos odeia.

Mason o fitou por um momento mais, percebendo que não falava coisa com coisa, devia ser reflexo do recém-despertar. E então, umedecendo os lábios para tentar pedir-lhe que repousasse, fora interrompido por um forte estampido que dera contra o vidro às costas. Virando-se de imediato, o rapaz conferiu o vulto negro que agora se debatia contra a superfície, agonizando sobre o peitoril da janela. Afastando-se de Jeremy um momento, percebeu que a ave viera da floresta, e tinha as penas completamente eriçadas enquanto gruía como se sufocada. O corvo escuro jazia sobre a neve dando seus últimos suspiros dolorosos, e aquilo era intrigante. Diante disto, Dan ergueu os olhos para o céu buscando a região, e cerrando-os no distante, observou com surpresa a agitada nuvem barulhenta que girava entre as árvores, se espalhando frente ao fraco luar. Foi quando a voz do irmão ecoou uma segunda vez à lateral:

Você precisa encontrá-lo Dan — O murmúrio saiu rouco e ele tossiu. Tentando disfarçar seu temor com aquilo, Dan Mason retornou à cama buscando acalmá-lo — Precisa encontrá-lo, agora, antes que seja tarde demais.

— Ei. Se acalme Jer. — Dan buscou imobilizá-lo quando percebeu que tentaria se erguer, e ainda fraco, o garoto cedeu — Se acalme, tudo bem? Tenho certeza que Gayler está bem. E veja, os freis estão lá fora, precisamos fazer silêncio ou...

Pafft...

Sob um novo impacto, Dan interrompeu sua fala e virou-se outra vez para a janela. Com Jeremy novamente em silêncio, atento àquilo, ele o deixou um instante mais e seguiu até lá para conferir o que diabos havia, observando então uma segunda ave caída junto à primeira, igualmente em agonia. Tornando a franzir o cenho, fitou a noite e observou com atenção o movimento se espalhando pelo céu, como a fumaça escura de um incêndio.

O que está havendo Dan? — Jeremy retrucou baixinho, e Dan sentiu algo estranho, embora buscasse disfarçar.

— Apenas os pássaros Jer — ele cerrou os olhos um pouco mais, tentando visualizar melhor os traços que riscavam a noite — Eles parecem, agitados.

Estão com medo — Jeremy murmurou e o garoto virou-se a observá-lo um instante — Todos eles. Nós também deveríamos.

— Deveríamos? — Dan voltou a olhar para fora, sentia-se confuso. Então tornou ao irmão — Do que está falando?

Não deu tempo para responder. Num momento questionava o garoto, e no outro arregalava os olhos com a visão da silhueta que se aproximava rapidamente. Desviando-se imediatamente, lançou-se sobre ele e ouviu o impacto certeiro que estilhaçou a vidraça. Os vários cacos de vidro se espalharam pelo quarto, trazendo consigo o vento, a neve e o gruído dos corvos que agora se espalhavam pelo terreno. Eles estavam desnorteados, perdidos na noite, lançando-se contra os muros, o sino, as portas e janelas do monastério, como se não os estivesse vendo, como se a escuridão os houvesse cegado. Quando se ergueu a remover os estilhaços que caíram sobre os lençóis, Mason conferiu se Jeremy estava bem e o garoto respirava ofegante ao seu pescoço, com os olhos assustados fitando o movimento da ave agonizante no centro do quarto, e então, imediatamente ouviram a porta ser aberta, e um dos freis que passava pelo corredor colocou o corpo para dentro, conferindo o que acontecia, assustando-se com a cena diante de si.

— Mason?! — ele disse observando a ave negra que agora se debatia entre os cacos de vidro, sem conseguir se reerguer — rápido, pegue seu irmão e desça para o hall — estava trêmulo e fez o sinal da cruz ouvindo um novo ruído de vidros partindo-se no aposento ao lado. Sussurrando algo que parecera uma prece, virou-se para lá observando o ocupante abrir a porta e sair assustado para o corredor.

— O que está havendo frei? — Dan questionou ajudando Jeremy a se erguer, e fazendo uma prece ruidosa, o frei resmungou de forma vacilante:

— As aves. Há algo as perturbando — então respirou fundo, e observou mais internos deixarem seus quartos sob o ruído de vidros se partindo — Agora vamos Mason, deixe de conversa e se apresse. — mantendo a porta ainda aberta, o homenzinho deixou o campo de visão e caminhou para o aposento vizinho, sendo interpelado por vários internos no caminho. Dan e Jeremy puderam observá-los passar apenas de camisola a conversar com o frei, receberem as mesmas ordens, e tomarem o mesmo caminho que os demais que vinham apressados do andar superior.

Neste momento, ouviu-se um novo estampido e outra ave invadira o quarto. Dando contra as paredes e o guarda-roupa, num assustado gruído de terror o corvo acertou vários móveis, até cair tonto junto ao primeiro. Dan ajudou Jeremy a se apoiar no ombro, e atento à chuva de penas que o animal deixara cair, o auxiliou para fora da cama.

— Vem Jer, precisamos sair daqui — disse, e foi imediatamente interpelado.

— Não Dan. Precisamos ajudar Marlon Gayler primeiro — o garoto resfolegou ainda fraco — Precisamos buscá-lo, precisamos saber se está bem.

— Gayler é mais esperto que nós dois juntos Jeremy — Mason explicou conduzindo-o para fora, recostando-o à parede, dando espaço para os colegas que passavam agitados sem se preocupar com quem estava no caminho — Tenho certeza que nos encontrará lá embaixo. Você é quem precisa de ajuda agora, ainda não está totalmente recuperado.

— Não Dan. Me ouça. — pôs-se a tossir, então se recuperou — Ele precisa de ajuda. Você não entende? — deu uma pausa a respirar, os olhos vacilantes acompanhando o movimento de retirada, temendo que alguém os pisoteasse — Gayler está em perigo. Ele o pegou.

— Ele? — Dan virou-se a encará-lo um momento, protegendo-o da nuvem de garotos que passavam às pressas — Mas, do que está falando Jer?

— Do garoto das histórias Dan. Elas são reais, todas elas. — Jeremy umedeceu os lábios sem saber como explicar aquilo, observando o temor nos passos apressados — Eu não sei como. Apenas sei que está aqui, em algum lugar.

Dan meneou a cabeça, respirando fundo.

— Jeremy, isto... isto são apenas histórias — afastou-se para uma dupla de rapazes passar. Eles auxiliavam um terceiro garoto que mancava com a perna ferida por um estilhaço. — Esse garoto das histórias... — continuava confuso por ter de debater uma bobagem daquela em local tão inapropriado — Você precisa se acalmar, okay? — olhou novamente em direção à curva de acesso ao quarto de Marlon Gayler na esperança de vê-lo surgir de uma vez por todas, colocando um fim a toda aquela preocupação do irmão. Entretanto, para seu desconforto, de todos os rapazes que vinham daquela direção, ninguém se assemelhava a ele. Iria dizer algo mais, porém quando cedeu os lábios o gruído no jardim tornou-se ainda maior e consequentemente os passos assustados se intensificaram, temerosos, por pouco não foram imprensados contra a parede. Dan protegeu o garoto entre os braços, até poderem respirar outra vez.

— Não são apenas histórias Dan — Jeremy retrucou com dificuldade sob o peitoral dele, sua feição era de frustração pelo mais velho ser tão cabeça dura — Por favor, você precisa acreditar em mim — engoliu em seco, trêmulo — Eu o vi Dan. Por que não acredita? Por quê? — respirou fundo tornando a olhar para o início do corredor — Por duas vezes eu o vi. Primeiro naquela noite em que tentamos fugir. Eu quis acreditar que eram apenas coisa da minha cabeça, como você tentava me fazer acreditar — fez uma pausa engolindo em seco, Dan olhando apreensivo para o movimento dos freis — Mas então, ao chegarmos à vila ele tentou me sufocar. Você estava lá, você viu acontecer.

— Jeremy — Dan tornou a fitá-lo, percebendo que seu coração estava disparado. Ele precisava acalmar o menor, ou uma nova crise respiratória poderia se desencadear. Além disso, precisava tirá-lo dali o quanto antes, ou alguém poderia machucá-lo — Não havia nada naquela noite Jeremy. Eu... nós... nós já conversamos sobre isso tantas vezes. Esse tal garoto, o das histórias, é apenas fruto da sua imaginação, do medo que aqueles idiotas colocaram em você — sentiu-se irritar, então massageou os ombros dele com ternura, fitando seus olhos vacilantes — Presta atenção. Não há perigo algum aqui.

Jeremy respirou fundo abaixando a cabeça, Dan era muito cético.

— Marlon Gayler — resfolegou outra vez, erguendo os olhos — Precisamos ir até lá, por mim. — encarou-o e Dan ficou sem reação, olhando novamente naquela direção — No dia em que Cotton me castigou, aquele em que você tentou golpeá-lo... — fez uma pausa — ele... eu... Marlon Gayler me ajudou — Dan sentiu um peso na consciência. Da forma em que Jeremy falava, dava a pensar que ele não estava dando a mínima para o rapaz. Pobre Jeremy, sequer imaginava a ligação extrema que os unira horas antes, naquela mesma madrugada. — Eu sequer tive tempo de agradecer Dan, eu... — engoliu em seco voltando a fitá-lo nos olhos — Por favor, precisamos saber se está bem. Precisamos ir até lá.

Dan Mason respirou fundo, desfazendo a tensão nos ombros. Por mais que tivesse certeza que Marlon Gayler ficaria bem, assim como eles estavam, uma pulgazinha mordia atrás de sua orelha. Ele iria procurá-lo, é claro, apenas queria deixar o irmão em local seguro primeiramente. Jeremy não podia ficar exposto à toda aquela adrenalina, ele acordara a poucos minutos, e família sempre vinha em primeiro lugar.

— Okay Jer — respirou fundo enfim — Eu vou até lá — resmungou — Mas primeiro vou deixá-lo no refeitório, depois que estiver seguro, junto aos demais, volto para encontrar Gayler — ele o encarou afastando a franja que caía por sobre os olhos, e então prosseguiu — Me entenda Jeremy, por favor, preciso fazer isso sozinho, você não está em condições de ficar andando por aí — resfolegou — Olha. Não sabemos o que está havendo, estão todos assustados e não quero que seja ferido por alguém ou pelas aves.

— Dan Mason — O irmão finalmente perdeu a paciência e chamou-lhe pelo sobrenome. O rapaz o encarou surpreso — Eu estou bem — tentou acalmá-lo, e prosseguiu — Marlon Gayler é quem precisa de ajuda. Vamos lá, AGORA — franziu o cenho e o observou sem reação.

A impassividade de Jeremy de repente se tornara assustadora. Por mais que o menor aparentasse fragilidade, era como se de uma hora para a outra deixasse de ser aquele garotinho indefeso de meses antes. No meio do tumulto era quase impossível dialogarem com precisão, e então, após fitá-lo por um longo momento e engolir em seco, Dan resolveu desistir. Desarmando a postura superprotetora, viu que o garoto estava certo, ele já estava crescido e podia se cuidar sozinho. Então, ajudando-o a firmar-se melhor ao ombro, prosseguiu:

— Okay Jer — olhou para a direção de onde vinham os vários colegas assustados — Você tem razão.Você tem toda a razão.

 

 

II

 

O barulho que se propagava no andar superior era assustador. Parecia estar havendo uma guerra lá em cima, e pelo intervalo entre os badalos do sino na torre distante, compreendia-se que não eram os freis a tocar o objeto como costumeiro, mas sim as aves, que assustadas, acertavam-no com os próprios corpos. Jeremy e Dan seguiam lentamente por entre os demais, e vez por outra alguém virava a cabeça, surpreso por estarem fazendo o sentido oposto às ordens dos freis.

— Ei, onde vocês vão? — alguém retrucou a determinado momento — As aves estão no andar superior, é perigoso ir por este caminho — mas Dan e Jeremy nada responderam, sequer se viraram para dar-lhe atenção. Prosseguindo a fazer a curva que conduzia ao quarto de Gayler, apenas ouviram o resmungar afastado antes de sumirem do campo de visão — Ah, quer saber, que se danem.

Jeremy aos poucos conseguia caminhar sem precisar colocar tanta pressão sobre os ombros de Dan. As pernas estiveram paradas por tanto tempo, que era normal senti-las dormentes vez por outra. Ao chegarem a determinado ponto de onde já podiam avistar a porta esperada, notaram que alguns freis se aproximavam conferindo o movimento, e então, dando de costas, ambos disfarçaram estar caminhando no mesmo fluxo que os demais. Os clérigos passaram bem próximo aos dois, porém, nada retrucaram, apenas pareciam mais preocupados em resmungarem algo sobre o arcebispo, e após sumirem, permitiram a Jeremy e Dan tornarem a virar-se, caminhando outra vez “contra a debandada”.

Jeremy recostou à parede quando alcançaram a porta, e respirando fundo, Dan conferiu os arredores com atenção antes de levar a mão à maçaneta. Sentindo-se realmente preocupado por notar que de todas as portas do corredor aquela era a única ainda fechada, apressou-se em tentar fazê-la ceder, porém, mesmo impondo pressão, a maçaneta parecia emperrada, o que era estranho, já que o combinado com o frei Beterrabas era de que ele a deixaria aberta após sair. Respirando fundo, tentando manter a calma, Mason apenas encarou Jeremy mais uma vez e secou o suor que umedecia a testa. Voltando a colocar pressão na maçaneta, empurrou a superfície com o ombro e também com o pé, forçando-a de todas as formas, porém nada acontecia, sequer ruídos se propagavam do outro lado. Então, ansioso, Jeremy começou a murmurar, sendo imediatamente interrompido pelo rapaz:

— Não Jer. — Mason engoliu em seco, voltando-se rapidamente para ele — Está tudo bem — olhou para o fim do corredor um momento, buscando algo nos bolsos para enfiar na fechadura, porém, nada encontrou — Marlon Gayler está bem. Okay? — Voltou a forçar a maçaneta chacoalhando-a, desta vez, sentindo um estranho aperto no coração. Ele respirou fundo recostando o ouvido à porta, e mesmo com o barulho infernal no andar superior, pôs-se a chamar pelo ocupante, porém nada ouvia lá dentro. Foi quando perdendo a paciência, ele a esmurrou com fúria.

— Dan, não.

Jeremy então colocou-se entre ele e a porta, para fazê-lo se acalmar, temendo que se ferisse desnecessariamente. O coração estava disparado a exemplo do seu, com a lembrança dos sonhos que tiveram a pouco, mas antes que pudesse retrucar algo mais, ouviu-se um estampido do outro lado, e sutilmente, voltando a encará-la, viu a maçaneta girar vagarosamente, e sob um rangido, a superfície ceder de forma convidativa.

 

Eles trocaram um rápido olhar observando a porta se abrindo, como se algo a puxasse do outro lado. Inicialmente pensaram tratar-se de Gayler querendo pregar-lhes uma peça, então imediatamente Dan lançou-se à frente, entrando no ambiente e olhando para a lateral, dando de cara com uma cena que fizera o coração acelerar.

Nada. Era isso, simplesmente. Nada anormal havia atrás da porta ou no resto do ambiente, literalmente. Nem Marlon Gayler, nem aves, tampouco vidros estilhaçados como nos aposentos vizinhos. Simples assim. A cama permanecia desarrumada com os mesmo lençóis de mais cedo, e sobre a cômoda, um livro aberto chamava a atenção para a gaveta puxada até a metade. A janela de Marlon Gayler estava intacta, do outro lado apenas algumas penas escuras congelavam. As aves no jardim sequer lançavam-se contra ela, embora pudessem ser vistas cruzando a escuridão, voando de um lado para o outro. Sobre o peitoril, a neve se acumulava, e o alarido persistia na noite, chamando a atenção para a nuvem escura sobre a propriedade. Ele olhou apreensivo para Jeremy que entrara em seguida, surpreendendo-se com o vazio e a quietude.

— Onde ele está? — questionou respirando fundo, o coração acelerado.

— O quarto está vazio — Dan respirou voltando a olhar ao redor, satisfeito por estar tudo bem.

— Vazio? — O garoto retrucou olhando para uma lateral e outra da porta, o coração acelerado — Mas Dan — gaguejou aproximando-se do irmão — Eu, eu o vi... eu tenho certeza que o vi. Ele estava sozinho, estava bem aqui — apontou para o a lateral.

— Você o viu? — o rapaz retrucou franzindo o cenho — Mas como pode tê-lo visto Jeremy? Você estava dormindo. — resmungou.

— Não foi da forma como está pensando Dan — Jeremy engoliu em seco, sem saber como explicar aquilo para alguém tão cético — Era como uma impressão, uma sombra — ele gaguejou — Marlon estava parado bem aqui, rente à porta, e tinha... tinha o garoto ali, a silhueta sombria na janela... — gaguejou olhando para a região — E um papel, algo retangular nas mãos — fitou o chão, mas nada conseguiu encontrar. Então Dan o interrompeu, percebendo que ficava nervoso.

— Não Jer, olha, se acalme. — respirou fundo fitando outra vez os olhos dele, não podia deixá-lo nervoso, tampouco confiar nos devaneios ou julgá-lo pela preocupação, Jeremy estava apenas confuso — Marlon já desceu, entende? — prosseguiu massageando seus ombros — Deve ter deixado o quarto na hora combinada — umedeceu os lábios voltando até a cômoda, tentando explicar o que poderia ter ocorrido ali — Mas então ouviu o sino e se escondeu assustado — virou-se para ele uma vez mais, imaginando a cena — Ele deve ter se escondido por causa dos freis — respirou fundo olhando para a cama — E então... então aguardou até ver as luzes sendo acessas, reparou na correria dos demais, na ordem para retirada e na confusão com as aves. Ele está lá embaixo, aguardando no refeitório.

Jeremy o fitou por um momento. Queria acreditar no irmão, mas no fundo algo dizia que não era tão simples assim.

— Você entendeu? — Mason retrucou — Marlon Gayler está em segurança. Ele está bem.

Houve um momento de incertezas, ele olhava ao redor como se algo ali não se encaixasse.

— Sim Dan — disse por fim, mesmo não sabendo em quê acreditar — Talvez você tenha razão — resfolegou olhando para ele, o irmão respirava fundo. — Perdoe-me por isso, eu só pensei que...

— Não, não se desculpe Jer. — Mason voltou a interrompê-lo, transmitindo-lhe confiança — Eu não julgo você. Eu entendo sua preocupação com Gayler, e... olha, quando descermos, tenho certeza que ele ficara feliz em saber que você veio procurá-lo, exatamente como faria se fosse ao contrário.

Jeremy sorriu, percebendo que na voz do garoto havia certo carinho pelo novato, diferente de como fora nas semanas em que ele chegara.

— Acho melhor descermos agora — Dan retrucou em seguida, olhando lá para fora — Precisamos ficar junto aos demais se quisermos compreender o que aconteceu esta noite. Precisamos descer para ouvir os murmúrios.

Jeremy respirou fundo passando um último olhar pelo lugar. Nada anormal se manifestava, apenas as aves continuavam a cruzar o jardim.

— Okay Dan — Jeremy umedeceu os lábios estalando os dedos — Isto é o melhor.

 

 

III

 

— O padre não devia ter autorizado esta ceia, ele sabia das implicações, ele sabia que era um erro — dizia um dos velhotes encarando os demais, que faziam o sinal da cruz sempre que as janelas eram atingidas por alguma ave ainda perdida — Há quinze anos fizemos um compromisso de cessar com festas e guardar esta noite em jejuns e orações, pela primeira vez este compromisso fora rompido. O que o padre pensou? O que tinha na cabeça?

— Ora irmão, não fale tantas asneiras — um segundo frei uniu-se à conversa, subindo vagarosamente pela escadinha na lateral do elevado — tormenta entre as aves é algo completamente natural, os livros explicam como um fenômeno migratório. Este ano o inverno chegou mais cedo, apenas isso, elas não tiveram tempo de deixar a colina.

— Não tiveram tempo de deixar a colina? — o velhote desdenhou cuspindo de lado — Sim irmão, é claro. Porque isso faz todo sentido, muito sentido na realidade — desviou os olhos encarando os demais que se aglomeravam ao redor da mesa — Da mesma forma que o vitral partido mais cedo e a repentina infestação de ratos durante a ceia — completou rançoso erguendo o pé a esmagar um filhote que passara em sua direção. Por causa do movimento das aves, as ratazanas começaram a migrar de volta ao subsolo, saindo de todos os locais onde se escondiam. — Há algo muito estranho acontecendo aqui. Há dias comenta-se que a visita do arcebispo não era um bom sinal, que a chegada adiantada da neve era propósito divino para impedir sua vinda, e mesmo assim, aqui estamos.

— Eu prefiro ater-me às explicações lógicas frei das granjas — o homem o interpelou de forma séria, parecendo ter sido instruído pelo padre-diretor a acalmar os murmúrios — É isso ou apegar-se a boatarias nada construtivas que apenas atraem o terror — encarou os demais e também aos internos que ouviam a discussão, disfarçando aos serem percebidos. Dan Mason estava entre eles, sentado ao lado de Jeremy a atentar-se ao que acontecia. Então o frei continuou: — Ora, o que é isso irmãos? Se formos mistificar tudo o que ocorre à nossa volta, tornaremos à idade das trevas. A fé neste século precisa ser praticada com base na razão, ou sequer sairemos de nossas capelas.

— Capela? — um frei meio surdo que subia o elevado, de repente uniu-se à discussão. Observando com atenção alguns ratinhos que corriam pelas vigas da pequena escadinha de acesso, ele afastou-se para que passassem, então prosseguiu — Esta é uma boa ideia. Reunirmo-nos todos a fim de rezar. Ao menos até a tormenta passar, ao menos até que as coisas se acalmem por aqui, não acham? — completou ajeitando as vestes, ciente dos olhos postos sobre si. Então alguém no meio da reunião resmungou:

— Eu concordo com o frei cozinheiro — voltou a olhar para os presentes — Todos devíamos rezar ao invés de criarmos boatarias. Ficar discutindo algo que não compreendemos apenas ampliará as especulações. Daqui a algumas horas quando o sol nascer, tudo ficara bem.

— O sol não nasce durante o inverno frei — o velho ranheta o interpelou de imediato.

— Sim irmão. Eu sei disto. Referia-me apenas ao clarear da aurora — ele retrucou olhando para lá das portas do refeitório, observando então o padre-diretor descer os degraus em companhia de Alex Cotton. O Arcebispo de Palencia vinha às costas conversando com o motorista da igreja — Aproveitemos também para acalmar os alunos. Certamente estão mais assustados que todos nós.

Dan Mason desviou os olhos quando o frei o reparou, e então, notou os superiores entrando pelas portas largas, caminhando ruidosos em direção ao elevado. O padre-diretor parecia incomodado com o Arcebispo ao seu encalço, e Alex Cotton apenas deslizava os olhos de rapina pelos grupinhos, até que reparando na presença dos irmãos, encarou-os com visível demonstração de repulsa por ainda tê-los ali. Por algum motivo Dan sentiu que Cotton falaria algo, porém Jeremy tomou sua atenção.

Dan — O garoto virou-se imediatamente para ele a fim de ouvir o que tinha a dizer. Percebeu então que os olhos de Jeremy fixavam em direção à cozinha. Olhou para lá, mas nada viu.

— O que houve Jeremy? — fez uma pausa, fixando os olhos a seu exemplo — Você o viu? — questionou preocupado, voltando a fitá-lo. Embora o irmão aparentasse estar bem, não podia esquecer-se de que Jeremy só estava desperto a menos de duas horas. Que estar de pé e com a aparência tão sadia assim, de uma hora para a outra, ainda era algo que precisava assimilar.

 — Eu... — ele umedeceu os lábios fixando os olhos novamente para tentar ver melhor, mas um frei gordinho saiu do recinto, ocultando seu campo de visão — Eu só pensei que...

— Pensou que o quê?! — Dan questionou voltando a seguir a direção de seu olhar, foi quando percebeu Gurkievicz aproximar-se da mesa em companhia de Gomes, sentando-se bem ao lado deles. Sabendo que o garoto sem sombra de dúvidas era o mais bem informado do lugar, não pensou duas vezes antes de esticar a mão, e puxá-lo para mais perto. Gurkievicz reclamou:

— Ei, o que está havendo? — virando-se ao ter o braço pressionado, deu de cara com o garoto e franziu o cenho imediatamente — Ah, é só você Mason — num impulso livrou-se das mãos dele, e Gomes chegou para mais junto pensando estar havendo alguma confusão. Gurkievicz prosseguiu: — O que quer? Ter sido castigado outra vez não foi o suficiente para você?

Dan observou Gomes franzir o cenho fazendo cara feia, e então buscou acalmar os ânimos.

— Ei. Calma aí — meneou a cabeça olhando rapidamente para o elevado, então voltou a eles — Eu só quero uma informação seus idiotas — retrucou e os garotos fecharam a cara.

— Idiotas? — Gomes demonstrou aborrecimento, percebendo que Dan os estava insultando, porém, antes de retrucar qualquer coisa, foi interpelado:

— Digam-me, vocês viram Marlon Gayler por aí?

— Como? — os garotos trocaram olhares confidentes, e então, fazendo pouco caso da pergunta, tornaram a ele — E por que deveríamos dar-lhe alguma informação sobre isso Mason? Não é você que o tem envolvido em seus planos furados? Você é quem deveria saber de seu paradeiro. — desferiu o descaso, e Dan revirou os olhos. Gurkievicz, no entanto prosseguiu: — Aliás, com uma expulsão assinada pelo padre, você me parece tranquilo demais a ponto de se preocupar com os outros, e não com a própria cabeça.

Diante da revelação, Jeremy olhou para o irmão, porém Dan nada lhe explicou.

— Isso é não é da sua conta Gurkievicz — foi rude, e o garoto franziu o cenho outra vez, então Dan prosseguiu.

— E quanto a Beterrabas, vocês se esbarraram com ele?

— Beterrabas? — foi Gomes a questionar nada simpático às costas, olhando por sobre os ombros do colega — Por acaso está achando que somos seus espiões Dan Mason?

Dan tornou a demonstrar desprezo pelos colegas.

— Espiões não. Mas, os maiores fofoqueiros do monastério já não se pode negar, não é mesmo Gomes?

Ei?! — Gomes cerrou o punho erguendo-se um minuto. Dan arqueou a sobrancelha e pensando duas vezes, o garoto baixinho murchou olhando para o elevado distante, então tornou a se sentar. Gurkievicz tocava seu braço.

— Não Mason — foi o maior quem respondeu, não querendo chamar atenção dos freis — Não vimos Beterrabas por aí. Ninguém o viu na realidade. Quando descíamos alguns freis perguntaram por ele. Deve ter se escondido, sei lá. — Tornou a virar-se para Gomes.

Resfolegando, Mason soube naquele momento que nada sairia dali, e que Gurkievicz e seu parceiro realmente falavam a verdade. Diante disto, Dan virou-se uma vez mais para Jeremy ignorando os demais, e então para o elevado dos freis, aguardando algum pronunciamento do padre-diretor. Conforme a aurora ia se aproximando, a madrugada ficava mais fria, e o barulho lá fora ia diminuindo ante o silêncio dos internos. Aquilo tudo estava muito estranho. O alvoroço entre as aves, o sumiço de Gayler e também de Beterrabas. Será que no fim os acontecimentos teriam alguma ligação?

Ele atentou ao padre conversando baixinho com Alex Cotton enquanto olhavam o arcebispo pelas costas. Atentou ao frei mamute parado à entrada da cozinha passando um olhar de revista pela aglomeração de internos. Von Saint-Michel era um lugar sombrio e misterioso, e naquela noite estava mais confuso ainda. Sem dúvidas, mais confuso ainda.


Notas Finais


Corre que tem Epílogo...


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