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História O Feiticeiro - Capítulo 6


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Notas do Autor


Olá pessoas, espero que todo mundo esteja bem ai em suas casinhas.
E espero também que gostem do capítulo <3

Capítulo 6 - Aquilo Que é Mais Precioso


Quando Eleanore acordou já era noite, havia uma nova lamparina em sua mesinha de cabeceira, o fogo tremulando, movendo as sombras a cada segundo.

Sua cama não estava mais queimada, nem o chão ou a madeira da mesinha. Ela podia supor que Vincent havia concertado tudo com magia.

Ela sentia seus olhos pesados e inchados de tanto ter chorado na floresta, nos braços de Vincent. Não se lembrava de muito depois disso, ficou sonolenta de repente, sequer tinha memória de como voltou para o castelo. Sentia-se ligeiramente mais leve, depois de ter derramado tantas lágrimas, quase como se tivesse lavado a tristeza acumulada em seu corpo, ao menos uma parte dela, sabia que não era capaz de esquecer tudo assim tão facilmente.

Antes que pudesse ter fugido da casa de seu pai, escutou-o dizendo que era incapaz de ama-la por se parecer com Verena, sua mãe. Aquilo tinha partido seu coração, de uma forma mais dolorosa do que qualquer agressão que Albert já a tinha infligido.

Eleanore agarrou seus cabelos com força, o cabelo ruivo que herdou de sua mãe. Ela o puxava com violência, querendo arranca-lo de seu couro cabeludo. Não sabia porquê, já que não deveria querer o afeto de seu pai, um homem que nunca havia sido bom para ela, ou minimamente amável. Então, por que ela tinha essa necessidade doentia de agrada-lo?

Ela largou seu cabelo, vendo alguns fios alaranjados entre seus dedos. Será que nunca mais veria o seu pai? Ou sua tia ou sua prima?

Não sabia como se sentia em relação à isso. Na verdade, não sentia nada.

Estava prestes a se levantar da cama, quando viu que havia alguém em seu quarto. Ficou em choque ao perceber isso, mas foi relaxando gradativamente ao constatar quem era.

Vincent estava sentado na poltrona, na verdade, quase afundado contra ela. Seus olhos estavam fechados e o peito subia e descia suavemente. Estava dormindo.

Eleanore afastou as cobertas e se levantou. Ainda usava o mesmo vestido verde, mas estava sem as botas. Ela se aproximou silenciosamente de Vincent e esticou a mão para acorda-lo, mas parou no meio do ato. Ele parecia dormir profundamente, Eleanore não quis acorda-lo, apesar de, pela posição em que ele se encontrava, talvez não estivesse tão confortável.

As pálpebras de Vincent estavam agitadas, possivelmente devido a um sonho conturbado. Ele balbuciou algo bem baixinho, que Eleanore não conseguiu entender, então, ela chegou mais perto para que pudesse ouvir mais claramente.

 – Callie... – ele sussurrou e seu rosto se franziu, como se aquela palavra lhe causasse dor.

Callie. Provavelmente uma mulher. Quem poderia ser? E por que parecia doloroso para Vincent?

De repente, os olhos de Vincent se abriram, revelando aquela íris violeta incomum. Eleanore percebeu que estava muito próxima, tão perto que podia contar os cílios brancos do feiticeiro. Então, afastou-se bruscamente, enrubescendo.

 – Nossa, acabei dormindo – Vincent esfregou os olhos com as costas da mão e a fitou, em seguida, vasculhando o rosto dela em busca de alguma coisa. – Como você está, Ellie?

Ainda era um choque para Eleanore ouvir Vincent a chamando por um apelido, mas ela estava começando a gostar do som que “Ellie” tinha.

 – Eu estou bem, acho. Me desculpe chorar daquele jeito.

Vincent inclinou a cabeça para o lado e sorriu, o primeiro sorriso de verdade que Eleanore viu no rosto dele, desde que o conheceu.

 – Não precisa se desculpar por chorar, Ellie, não há nada de errado nisso.

Eleanore se espantou. Ela tinha uma memória vívida, de uma vez em que chorou na frente de seu pai e ele lhe deu um tapa no rosto, que ecoou por toda a cozinha, bem diante de duas criadas do casarão. Seu rosto ficou latejando por horas. Seu pai disse, depois que a bateu, que ela não podia chorar, que isso o aborrecia e que, se fosse para chorar, que não o fizesse na frente dele.

Mas Vincent não era seu pai. Nenhum homem era seu pai e ela tinha que entender isso.

 – Você me fez dormir? – Eleanore perguntou.

 – Perdão, Ellie. – Vincent soou arrependido – Eu achei que fosse ser melhor pra você, mas é muita presunção minha supor do que você precisa. Eu deveria ter te perguntado antes.

Era novidade alguém se desculpando por não ter pedido sua opinião. Ninguém nunca se importava com o que Eleanore queria.

 – Está tudo bem, foi bom dormir. – Ela ofereceu um pequeno sorriso tímido e desconcertado. – E minhas coisas? Eu deixei as roupas caírem na floresta...

 – Não se preocupe, está tudo no armário.

Vincent se levantou da poltrona e alongou os braços, quando virou o pescoço, este estalou audivelmente e ele fez uma careta.

 – Está com fome, Ellie?

 – Na verdade... – A barriga de Eleanore respondeu por ela, roncando alto, de um jeito que fez com que ela corasse de vergonha.

 – Vamos então.

 

A cozinha estava completamente vazia e silenciosa. Assim que Vincent se sentou, o fogão se acendeu, esquentando um ensopado que estava em uma panela ali em cima. Tigelas, copos e colheres se colocaram magicamente à frente dos dois.

Quando ficou pronto, a panela flutuou até a mesa e uma concha serviu o ensopado em ambas as tigelas. O cheiro de carne e tempero subiu até as narinas de Eleanore, fazendo sua boca salivar.

 – Vincent – ela falou quando já estava na metade de seu ensopado – Eu... Eu ouvi a conversa sobre o tal de Maximus Lennox que você me perguntou. Você pode me dizer quem é ele?

Vincent arqueou suas sobrancelhas claras, soando surpreso.

 – Ouviu, é? – Ele tomou um pouco de água, antes de prosseguir:  – Maximus é um feiticeiro, como eu, e seu pai se envolveu com ele, criou uma dívida. Acontece que Maximus não é uma pessoa de boa moral, por assim dizer, ele executa práticas pouco ortodoxas, mesmo entre os feiticeiros. Não é uma pessoa pra quem se quer ficar devendo.  

 – Por que será que ele me quer? – Eleanore mexeu a colher em seu ensopado distraidamente.

 – Acho que está relacionado com sua aptidão mágica, mas eu ainda não entendo a real motivação por trás disso.

 – O que ter aptidão magica significa? – ela questionou, enquanto levava mais uma colherada de ensopado a sua boca. A atenção focada em Vincent.

 – Significa que você é uma pessoa que tem facilidade para manipular energia mágica, geralmente isso torna uma pessoa uma boa candidata à se tornar feiticeiro ou feiticeira.

 – E como você faz isso? Quer dizer, enfeitiçar uma casa, transformar minha tia em galinha...

 – É preciso muito estudo, ler muitos livros de feitiços, práticas mágicas, enfim, anos e anos de experiência. Normalmente leva décadas para se tornar um feiticeiro minimamente poderoso.

Eleanore franziu o cenho, confusa.

 – Você não é muito jovem para ter tanto poder?

Naquele instante, Vincent sorriu como se achasse a pergunta de Eleanore divertida.

 – Sou mais velho do que pareço, Ellie.

 – E quantos anos você tem? – ela quis saber, curiosa.

 – Eu tenho sessenta e três anos.

Eleanore teve a capacidade de engasgar com a sopa, precisando tossir várias vezes para limpar sua garganta. Ela deu leves tapas em seu peito para acalmar seu corpo.

Isso era mais tempo de vida do que seu pai ou sua tia e, olhando para ele, Eleanore jamais diria que tinha mais do que vinte e três anos. Mesmo ele sendo um feiticeiro, mesmo tendo aquela aparência tão incomum, ainda foi um choque profundo para ela descobrir aquilo.

 – Tudo bem, Ellie? Ficou assustada? – Ele inclinou a cabeça para o lado, analisando a expressão no rosto de Eleanore.

 – Eu só não imaginava. – Ela esfregou a mão em sua bochecha, como se pudesse lavar seu espanto. – É que não parece nenhum pouco.

 – Por que eu não esbanjo sabedoria? – Vincent sorriu.

 – Não foi isso que eu quis...

 – Eu sei, Ellie. Estou apenas brincando.

Terminaram de comer o ensopado em um silêncio confortável. Estava delicioso, ficou claro para Eleanore que a magia que atuava na casa cozinhava bem.

 – Ellie – Vincent afastou a tigela, que logo se elevou no ar, indo diretamente para a pia. – Tenho que falar com você sobre uma certa condição para que você fique aqui.

Eleanore aprumou a postura e entrelaçou os dedos das mãos sobre o colo, enquanto observava sua louça e talheres terem o mesmo destino das de Vincent.

 – Que condição? – ela questionou.

 – Eu quero te propor um acordo. Eu te ofereci minha casa e você precisa me oferecer algo em troca. Mais especificamente, aquilo que é mais importante pra você. – Vincent estava sério.

Instintivamente, Eleanore levou a mão à medalhinha de seu colar, sentindo-a gelada contra sua palma. Aquela que pertenceu à sua mãe. Era a única coisa que a fazia se sentir ligada à ela.

Vincent balançou a cabeça negativamente.

 – Não, não é algo material que estou pedindo. Algo que é intrínseco à você, que pertence à você, aquilo de maior valor e que é mais precioso. É isso que eu quero.

Ela se recostou contra a cadeira, olhando fixamente para as próprias mãos em seu colo. Eleanore franziu o cenho, sem entender o que exatamente Vincent poderia querer dela.

 – Eu não entendo.

 – Pense a respeito, Ellie. – Vincent se levantou da cadeira, dando a volta na mesa, em direção a garota, que ergueu o rosto para encara-lo. – Me dê uma resposta amanhã.

 – Por que você precisa disso? – Eleanore perguntou.

 – Todos que moram aqui me ofereceram algo e eu preciso disso para te manter aqui, é uma condição.

Eleanore assentiu. Estava muito grata por Vincent ter aceitado abriga-la, mesmo que tivesse dito que seria temporário, era mais do que ela poderia pedir. Era justo que ela oferecesse algo em troca. Só não conseguia imaginar ao certo o que exatamente “isso” seria.

Vincent pegou uma cadeira e a virou de frente para Eleanore, sentando-se novamente. Ele se inclinou, ficando mais próximo dela.

 – Ellie, eu gostaria de falar sobre outro assunto com você, sobre seu pai. Ele deve muito dinheiro à Maximus Lennox e, sem você lá, é bastante provável que Maximus faça... alguma coisa ruim com seu pai. Eu queria perguntar se você quer que eu faça alguma coisa para protege-lo.

Ela piscou, surpresa.

 – Faria isso?

 – Se você pedir, sim. – ele falava sério.

Eleanore ficou bastante tocada pela proposta de Vincent.

Seu pai era uma pessoa odiosa, não merecia qualquer compaixão de Eleanore, ainda assim, ela tinha que pensar em como se sentiria se ele morresse. Isso seria culpa sua? Não foi ela quem fez uma dívida, ela sequer quis esse casamento e nunca se sentiu na obrigação de ajudar seu pai, mesmo que ele dissesse constantemente que Eleanore o devia, já que foi sustentada por ele desde que nasceu.

Se seu pai havia se envolvido com um feiticeiro maligno, a culpa não era dela.

 – Eu vou ser uma pessoa horrível se disser que... não quero? Não é que eu não ligue se ele morre ou não, mas... – Eleanore enfiou o rosto em suas mãos – A culpa não é minha, eu não deveria estar tendo que lidar com isso, com esse tal de Maximus. Por que isso está acontecendo? Se eu não me parecesse com a minha mãe, talvez...

Vincent segurou os pulsos de Eleanore e tirou as mãos de seu rosto, focando sua atenção nos olhos dela. Tão perto assim, ela podia ver os detalhes da íris violeta dele e de seus cílios brancos.

 – Você não é uma pessoa horrível, Ellie. Seu pai é uma pessoa horrível e não é você quem tem que querer mudar, é ele. E ele tem que lidar com a consequência de suas próprias decisões.

 – Foi por isso que você deu um soco nele?

Ele soltou os pulsos dela e ficou ereto, olhando atentamente para a garota, parecendo meio envergonhado, embora suas bochechas continuassem muito pálidas.

 – Isso foi um ato impulsivo e meio infantil da minha parte.

 – Está tudo bem, eu gostei. – Eleanore sorriu timidamente – Quer dizer, acho que meu pai bem que estava merecendo um soco. Eu bem sei que ele já deu vários.

 – Ele realmente batia em você, Ellie? – Vincent franziu o cenho, irritado.

Eleanore apertou uma mão contra a outra com muita força, deixando seus dedos brancos.

 – Ele... sim. Meu pai nunca teve a menor paciência comigo, agora eu sei o motivo, ele me odiava mesmo. E quando ele ficava bêbado era pior, até mesmo minha respiração deixava ele irritado. Acho que eu só precisava existir para inspirar a violência dele.

Uma lágrima solitária desceu por sua bochecha, a qual ela limpou rapidamente, desviando os olhos de Vincent. Nunca tinha falado com ninguém sobre isso, até porque era óbvio para todos os empregados da casa, para sua tia e para sua prima, que já chegaram a testemunhar as agressões algumas vezes.

 – Às vezes, era só um tapa no rosto, um soco na barriga, mas em outros momentos, ele chegava a me espancar. Meu corpo doía por vários dias. – Ela sentiu o lábio inferior tremer e esfregou as mãos contra suas coxas, como se pudesse sentir de novo o corte que havia sido feito em uma delas. – Uma vez, achei que ele fosse me matar e fiquei com tanto medo...

Vincent novamente se inclinou e tocou gentilmente no joelho de Eleanore, como se pudesse transmitir pelo gesto que agora estava tudo bem, que ela estava segura. Mesmo por cima da saia do vestido, ela podia sentir perfeitamente o calor e o contato. Apesar da gentileza do toque, os olhos do feiticeiro pareciam queimar, brilhando com uma fúria contida.

Apesar de a raiva das pessoas sempre suscitar pânico em Eleanore, a de Vincent apenas a fazia sentir que ele se importava, o bastante para se irritar com seu pai pelas atrocidades que ele fez.

 – Vincent – June estava parada na entrada da cozinha, olhando para os dois como quem presenciava um crime terrível.

O feiticeiro tirou a mão do joelho de Eleanore, recostando-se à cadeira. Ela sentiu a necessidade de ficar o mais longe possível de Vincent naquele momento.

 – Acordada tão tarde, June – ele comentou, casualmente.

 – Não sou criança, não tenho hora para dormir. – June rebateu com petulância.

 – Não foi isso que eu quis dizer.

June sequer dirigiu a atenção à Eleanore, olhava fixamente para Vincent, como se apenas ele existisse.

 – Amber disse que você saiu hoje – ela contou.

 – Ah, sim, fui até a antiga casa de Eleanore para que ela buscasse suas coisas, também fui fazer algumas perguntas para o pai dela. – Vincent explicou.

Por alguma razão, o cérebro de Eleanore registrou que ele não a chamou de “Ellie”.

 – Como assim buscar as coisas dela? – June perguntou, soando inquieta e agoniada.

 – Ela vai ficar aqui, pelo menos até eu achar um lar permanente para ela.

June pareceu mais aliviada quando Vincent disse que era algo temporário, o que apenas reforçava a teoria de Eleanore sobre June não gostar de sua presença no castelo.

Vincent se levantou e foi até June, ele disse alguma coisa para ela, tão baixo que Eleanore não conseguiu ouvir. Seja o que for que ele tivesse falado, fez June exibir uma careta, ainda assim, ela assentiu. Em seguida, o feiticeiro deu um beijo no topo da cabeça da garota e se voltou para Eleanore.

 – Boa noite – E com isso, saiu, deixando-as sozinhas.

June o acompanhou com os olhos cheios de uma emoção genuína de devoção e algo a mais.

 – Como foi hoje na sua casa? – June perguntou, enquanto ia para o cesto de frutas para pegar uma maçã muito vermelha.

 – Foi bastante... intenso. – Eleanore suspirou – Meu noivo é um tal de Maximus Lennox.

June olhou para Eleanore um tanto espantada. Balançou a cabeça afirmativamente com firmeza, sem dizer nada, encarando a maçã em sua mão.

 – Vincent transformou minha tia em uma galinha. – Eleanore acrescentou.

As duas se olharam por um instante de silêncio e, de repente, riram.

 – Isso é bem algo que ele faria – June estava sorrindo, de um jeito que Eleanore ainda não tinha visto. Ela estava com os olhos brilhando quando deu uma mordida na maçã, ficou óbvio que ela tinha bastante carinho por Vincent.

 – June, posso te fazer uma pergunta?

Ela deu de ombros, enquanto dava mais uma mordida sonora na fruta.

 – Vincent disse que para que eu pudesse ficar, eu teria que dar o que era mais precioso pra mim, mas eu não consigo entender. O que foi que você ofereceu?

June se aproximou de Eleanore, parecia um tanto irritada de repente.

 – Ele pediu, foi?

Eleanore fez que sim com a cabeça. Ela quase conseguia sentir a hostilidade de June na pele, embora não conseguisse entender bem o motivo.

 – Quando você fizer o acordo vai estar ligada à Vincent e vai receber uma Marca. – June ergueu a mão esquerda e mostrou o dorso para Eleanore, onde havia marcado em sua pele uma estrela de sete pontas vermelha. – É um heptagrama, um símbolo místico e sagrado, muito poderoso.

 – E isso muda alguma coisa? – Eleanore acariciou a pele intacta do dorso de sua mão esquerda, imaginando a marca gravada ali. – Quer dizer, vou me sentir diferente?

 – Não, eu não senti diferença. Você quer saber mesmo o que eu ofereci, o que é mais precioso para mim? – June recolheu a mão, deixando a maçã meio mordida de lado. Ela estava tensa, Eleanore pôde perceber e se arrependeu de ter perguntado. – Eu tive uma infância... difícil. Conheci pessoas muito ruins, que eram más comigo e com a minha mãe. Consegui nos proteger na época vendendo certas informações, segredos que eu ouvia aqui e ali. Quando a minha mãe morreu, eu fiquei nas ruas, e só não morri de fome porque sabia alguma coisa sobre plantas medicinais e chás, por causa da minha mãe. Eu ajudava pessoas doentes em troca de comida. Então, um dia, Vincent me achou e me trouxe para cá, cuidou de mim e me ofereceu uma casa. Eu ofereci pra ele o que me manteve viva todo esse tempo, meu Conhecimento.

 – Mas o que o Vincent faz com isso? Isso quer dizer que você perdeu esse conhecimento?

June sorriu, um sorriso que não chegava aos seus olhos.

 – É claro que eu ainda tenho o conhecimento, foi com ele que eu curei sua perna ferida. E não sei o que ele faz com isso, não faz diferença para mim. – June pegou novamente a maçã e se afastou de Eleanore. – Eu vou dormir, Eleanore. Boa noite.

Eleanore se lembrou de algo que o garoto fantasma, Sam, havia dito para ela: “Todos nós temos uma ligação com Vince. O que nos faz poder entrar e sair do castelo quando queremos, sem a permissão dele”.

 

Eleanore ficou deitada em sua cama de barriga para cima, olhando para o dossel acima de sua cabeça. Estava pensando sobre o que Vincent pediu e o que June dissera.

Ela tinha oferecido conhecimento, o que era mais importante para ela. E o que era mais importante para Eleanore? Não era conhecimento certamente. Então, o que? O que ela mais prezava na vida?

A menina sentou novamente, mexendo de forma inquieta nos lençóis, alisando-os, como se isso pudesse distrai-la.

Eleanore ficou em pé e foi até a janela aberta, inclinou-se por sobre a mesa e olhou para fora, para as flores, o carvalho, a floresta ao redor. Novamente, buscou aquela besta de olhos vermelhos vivo, ficou minutos esperando, mas não a viu.

Pensou em chamar por Sam, já que ele foi a primeira pessoa que falou sobre a “ligação” para ela. Talvez, pudesse ajudá-la a descobrir o que poderia oferecer.

 – Sam – ela chamou em um tom normal, como se ele estivesse no quarto com ela. Supôs que, como ele era um fantasma, talvez pudesse ouvi-la de qualquer lugar da casa. Além do mais, não queria gritar, era noite e ela não queria acordar ninguém.

O quarto estava imerso em silêncio e nada aconteceu durante minutos inteiros. Eleanore suspirou. Aparentemente, ela estava errada.

 – Eleanore – uma voz a chamou e, quando ela se virou para olhar, viu uma cabeça se projetando da parede. A cabeça de Sam. Se fosse antes de Eleanore ver uma mulher de fogo, objetos voarem sem que os tocassem ou se não tivesse andado sobre o ar, ela provavelmente teria morrido de susto. Agora, apenas se espantou por poucos segundos. – Me chamou?

 – Hum, sim, chamei.

Sam terminou de atravessar a parede, entrando no quarto, ficando a poucos passos da garota.

 – Vincent disse que você vai ficar.

 – Sim, apenas por enquanto. Eu te chamei, porque Vincent me propôs algo e eu queria falar sobre isso.

 – Ele te propôs o acordo? – Sam foi até a mesa, onde Eleanore estava perto, e se sentou sobre o tampo, cruzando as pernas.

 – Você também fez?

Sam anuiu, mostrando o dorso de sua mão esquerda, onde havia a mesma estrela de sete pontas da mão de June, o heptagrama.

 – E o que você ofereceu a ele? O que é mais precioso pra você? – Eleanore perguntou, percebendo apenas naquele momento como aquilo era uma questão pessoal e, talvez, ela não devesse fazer esse tipo de questionamento.

 – Sabe, Eleanore, eu tive uma vida fácil, rodeado de riquezas e empregados. Este castelo – Sam apontou para cima para ilustrar sua frase – costumava ser da minha família. Éramos ricos, sabe, meu pai era um Duque. Acontece que o último dia da minha vida foi terrível e bastante difícil. Eu morri por causa dessa vida que eu tinha. Minha família toda foi assassinada, exceto uma pessoa e é por essa pessoa que estou aqui. Antigamente, quando eu estava vivo, eu achava que o que era mais importante era o que eu possuía, coisas materiais e fúteis. Foi só quando morri que percebi realmente o que era mais precioso pra mim, aquilo que me fez morrer para proteger alguém. O que eu ofereci à Vincent foi o Amor.

 – Amor. – Eleanore balbuciou. Sabia que amor não era o mais precioso para ela, embora fosse um sentimento lindo e forte. Ela nunca teve uma amostra verdadeira dessa emoção para que realmente fosse algo importante.

 – Espero ter ajudado você a pensar, eu sei que é difícil. Mas fico feliz que você vai ficar, Eleanore.

Eleanore piscou, surpresa.

 – Sério?

 – Claro, Eleanore. Sei que você vai gostar daqui.

 

Eleanore bateu na porta do quarto de Vincent e esperou.

Não demorou muito para que ele abrisse a porta. Estava usando uma calça cinza com as barras dobradas até os joelhos, uma camisa larga de mangas curtas suja de tintas das cores branca, verde, vermelha e azul, e estava descalço. Havia uma mancha de tinta vermelha na bochecha de Vincent, assim como eu seu pescoço. Seu cabelo estava preso agora em um rabo-de-cavalo baixo, ao invés de uma trança.

 – Ellie, está cedo.

 – Bem, eu não dormi de noite. Fiquei pensando no que você me disse.

Vincent se afastou, abrindo mais a porta para que ela entrasse.

O quarto continuava o mesmo caos que Eleanore viu no dia anterior, tudo bastante espalhado e bagunçado. Agora, havia uma tela sobre o cavalete, ficou bastante óbvio pela aparência do feiticeiro que ele estava pintando algo.

Assim que ela entrou, Vincent fechou a porta atrás dela, deixando Eleanore completamente consciente de que estava sozinha em um quarto com um homem.

 – Pensou? E então, que conclusão chegou?

Ela passou a noite em claro pensando em algo que não abriria mão, o que realmente era precioso à ela, que a pertencia completamente e que era intrínseco à seu ser. Aquilo que a manteve firme, enquanto caminhava naquela noite fria, sob uma tempestade, sofrendo de dor e agonia. Aquilo pelo qual ela desistiu de morar naquela casa que só lhe trazia infelicidade. O que a fazia querer lutar e continuar seguindo em frente.

 – Eu posso te oferecer a minha... Vida. É o que eu tenho de mais precioso.

Vincent estava sério, seu rosto era uma máscara, mas ela pôde notar um leve arquear de sobrancelha. Ele estava surpreso com sua resposta.

 – Tem certeza?

Eleanore assentiu com a cabeça, firme e decidida

 – Vem aqui. – Vincent fez um gesto com a mão a chamando em direção a mesa, para onde ele estava indo.

O feiticeiro mexeu naquela bagunça de livros, tintas e papeis, encontrando um punhal de prata. Ela sentiu seu coração descompassar e ameaçar parar naquele momento. Eleanore sentiu medo que talvez ele pudesse querer...

 – Acalme-se, Ellie. Isso não é pra você. – No mesmo instante, Vincent encostou a ponta do punhal na palma de sua mão, furando-a, fazendo com que sangue minasse de sua pele. Logo em seguida, ele deixou a lâmina novamente sobre a mesa.

Vincent alcançou a mão esquerda de Eleanore, deixando-a sobre a sua palma manchada de sangue. Depois, ele começou a entoar algo em uma língua estranha, algo que ela podia sentir que carregava um certo poder oculto. A magia eletrizou a pele de Eleanore, fazendo-a formigar intensamente, eriçando seu pelos.

O sangue de Vincent assumiu um brilho escarlate e envolveu a mão de Eleanore, deslizando por sobre sua pele, como se alguém o guiasse com um pincel invisível. O líquido vermelho começou a formar o desenho da estrela de sete pontas.

 – Diga o que você me oferece, de novo. – pediu Vincent. Quando ela olhou para o rosto dele, percebeu que seus olhos, antes violetas, agora haviam assumido um brilho esverdeado pálido.

 – Ofereço minha Vida. – ela repetiu.

De repente, Eleanore sentiu uma pressão que ficava cada vez mais quente, como se aquela marca estivesse sendo impressa em sua pele com ferro fervente, ou sendo talhada com uma lâmina. Ela sentiu uma dor aguda atingir sua mão, o que a fez contrair os dedos e soltar um grito. O sangue estava sendo cravado em sua pele e em sua carne, tornando-se parte de seu corpo.

Eleanore sentiu uma pressão em seu peito, que não chegava a ser dor exatamente, mas a fez perder o fôlego por um segundo. Era como se um anzol fisgasse seu coração, que tremeu levemente em seu tórax. Eleanore podia sentir algo diferente, embora não soubesse explicar o que, como se fosse uma nova presença, um peso extra em seu corpo.

Quando Vincent terminou de recitar aquele feitiço, soltou a mão de Eleanore, que a recolheu e ficou encarando seu dorso, agora, marcado pela estrela. O brilho escarlate começou a se dissipar, tornando-se um vermelho mais escuro. Eleanore pôde sentir quando a magia cessou, levando embora a dor, a energia eletrizante e a sensação pesada que sentiu.

Não se sentia diferente de antes.

 – E agora? – ela perguntou, olhando para Vincent em expectativa.

Ele sorriu, dessa vez um sorriso menos contido. Vincent se inclinou para frente e segurou novamente a mão de Eleanore, beijando seu dorso, feito um cavalheiro.

 – Seja bem-vinda à minha casa.



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