História O general da minha vida - Capítulo 3


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Categorias Histórias Originais
Tags Bear, Homens Mais Velhos, May-december, Militares, Ursos
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Palavras 3.883
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Ação, LGBT, Romance e Novela
Avisos: Homossexualidade, Insinuação de sexo, Sexo
Aviso legal
Todos os personagens desta história são de minha propriedade intelectual.

Capítulo 3 - Capítulo 3


Fanfic / Fanfiction O general da minha vida - Capítulo 3 - Capítulo 3

Sérgio

 

– Agradeço pelo convite, general, mas será que compensa? Acabei de me formar como cadete, não tenho nenhuma experiência pra lhe assessorar. Além disso, vivi toda minha vida aqui no Paraná, até Curitiba me é estranha, antes só tinha vindo umas poucas vezes em excursões da escola ou campeonatos do time de vôlei. Eu iria me sentir como um peixe fora d’água, e talvez o fizesse pagar vexame junto aos seus colegas. - começar uma carreira ao lado dele, mesmo não tendo chances de rolar nada (ele parecia ter o nome “hétero” escrito na testa) seria maravilhoso, e trabalhar com um general, com certeza, seria benéfico para mim. Mas, por uma questão de justiça, eu precisava fazê-lo ver minhas limitações antes de aceitar. Fora que eu sentiria saudades dos meus pais, o mais difícil durante aquele período fora a distância entre nós.

No entanto, ele recebeu minhas objeções com uma expressão impassível e retrucou com voz inalterada:

– Sérgio, você se lembra do que me disse quando nos conhecemos? Eu lhe perguntei se você conseguiria dar conta do recado, e você respondeu que sim, pois já passara por muitas coisas e tinha ânimo e disposição para aprender. Desde aquele dia passei a reparar em você e foi com satisfação que percebi o quanto evoluía no aprendizado e na prática, não recusando nenhum desafio ou incumbência. Do mesmo jeito como você aprendeu tudo o que lhe foi ensinado aqui, também aprenderá tudo o que lhe for designado lá, e do mesmo jeito como eu lhe disse aqui quando você precisava aprimorar algo também lhe direi lá. E quanto a como você vai fazer para se habituar no Rio de Janeiro, você sabe muito bem que nessa profissão nós servimos ao país e temos de ir para onde nos mandarem. Além disso, terá um apartamento à sua disposição e um salário bem melhor do que o atual. Por isso, volto a perguntar: você vai trabalhar comigo no Rio? - e pelo olhar que me dirigiu ele parecia deixar claro que, caso eu me negasse, não faria a proposta de novo.

– Sendo dessa forma eu aceito, senhor. Quando eu precisarei ter minhas malas prontas? - já que ele não receava minhas limitações eu não seria tolo de recusar essa oportunidade. E quanto a pertences pessoais, eu não juntara muitas coisas além de minhas roupas, alguns livros que adquiri em sebos e minha gruta de Nossa Senhora de Lourdes, essa sim algo de que nunca me separaria.

– Em uma semana. Aproveite esse tempo para se despedir de seus colegas e estudar. Viajaremos de avião e seremos recebidos por meus subordinados.

– Obrigado pela oportunidade, general. Acho que todo agradecimento que eu lhe der será pouco – e, talvez com um pouco de atrevimento de minha parte, apertei sua mão.

– Não há o que agradecer, soldado. Apenas se empenhe em servir bem ao país – respondeu ele com um sorriso que, por mais incrível que pareça, só o tornava ainda mais lindo.

Como é que vou fazer? Esse homem está cada vez mais perto de mim e ao mesmo tempo mais distante. Por favor, que eu aguente.

 

Comecei a arrumar minhas coisas aos poucos, e me veio a ideia de pesquisar sobre a vida do general na Internet, é incrível o que a gente descobre sobre as pessoas na rede. Usando seu nome completo, que constava na assinatura do meu diploma, encontrei várias referências a ele em alguns sites, principalmente sites do Exército, e descobri que ele tinha 54 anos (definitivamente uma fruta madura, mas saborosa), nascera no Rio, tinha 2 filhos, fora casado mas perdera a esposa cinco anos atrás e participara de missões de paz em países estrangeiros, como Haiti e Timor Leste. Também apareciam menções a ele como homenageado em diversas solenidades civis, demonstrando que ele era no mínimo benquisto. E era para esse homem que eu passaria a trabalhar em menos de uma semana.

Telefonei para o número da escola onde estudei para avisar a meus pais que em uma semana eu iria para o Rio de Janeiro, já que tinha receio do correio não transmitir a notícia a tempo. A atendente se comprometeu a transmitir o recado, e de fato uma hora depois minha mãe ligou para o quartel para me parabenizar e chorar um pouquinho, com medo de que não voltássemos a nos ver. Tranquilizei-a, dizendo que eram os ossos do ofício, mas continuaria escrevendo para eles semanalmente, bem como que talvez agora eu pudesse mandar mais dinheiro, e daria um jeito de visitá-los nas férias.

– Filho, nunca faltou nada aqui em casa, não se preocupe com isso. O que eu e seu pai queremos é que você esteja bem.

– Eu estou bem, mamãe, nunca pensei que fosse me identificar com isso aqui. Tenho aprendido muitas coisas e estou realizando meu sonho de conhecer o mundo. Agora eu vou ter de desligar, senão a ligação vai ficar cara ou vão me dar uma bronca por alugar o telefone – tentei descontrair um pouco o ambiente porque sempre me emocionava quando falava com ela – Um beijo.

– Um beijo, filho – e a ligação foi interrompida.

Essa conversa doeu fundo na minha alma, parecia que eu me distanciava cada vez mais daquele garoto simples que fui. Mas uma vez tinha ouvido que ninguém cresce sem dor, então me resignei, na confiança de que estava seguindo no caminho certo.

Uma semana depois, eu e o general Roberto fomos conduzidos num carro do Exército até a base, onde fomos conduzidos até um avião oficial. Tomamos assento, e uma moça uniformizada perguntou se tínhamos interesse em alguma coisa. O general pediu um uísque, e eu perguntei se tinha um suco de maracujá. Ela sorriu e disse que providenciaria.

– Nervoso, soldado? - perguntou meu agora companheiro de viagem.

– Um pouco, senhor. Tenho uma certa vergonha de dizer, mas nunca viajei de avião antes. Como o senhor sabe, minha família é pobre.

– Devia ter me dado conta disso, Sérgio, mas fique tranquilo. Aviões são estatisticamente o meio de transporte mais seguro do mundo, já perdi a conta das vezes que os utilizei. Já passei por coisa muito pior, como percorrer campos no Timor Leste sem ter certeza se não havia alguma mina que não havia sido detonada lá.

– Vou confiar na sua palavra, senhor. - e nessa hora ele olhou para minha bolsa, que parecia um pouco mais volumosa do que era de se esperar.

– Sua bolsa parece muito pesada, Sérgio. Porque você não botou tudo junto com as outras coisas?

– É porque aqui tem uma coisa que me é muito cara e que não me sinto à vontade para deixar aos cuidados de qualquer um, senhor. Tenho-a desde criança – e abrindo-a, mostrei a ele, protegida por isopores numa caixa, minha gruta com Nossa Senhora de Lourdes e Santa Bernadette.

– Você é religioso? - a pergunta traía um certo espanto. Esperava que ele não fosse ateu.

– Não sou carola, mas pode-se dizer que sim. Ganhei essa imagem na primeira competição que venci, na minha turma de catecismo, e ela veio especialmente de Lourdes, na França. Sempre que eu olho pra ela, lembro que existem coisas bonitas além do mundo em que cresci, e sinto-me incentivado a conhecê-las. Sei que ela não é a verdadeira santa, mas acredito na história que ela conta e seu simbolismo é importante para mim.

– Uma atitude louvável, soldado. Já enfrentei momentos muito difíceis em guerras e conflitos e tenho certeza que as orações da minha mãe e da minha mulher me ajudaram a escapar sem nenhuma bala. Contudo, acabei me afastando um pouco depois que a Marina morreu, talvez seja hora de retomar a prática. - um pouco mais tranquilo com essas palavras, guardei a imagem novamente e o avião decolou, situação que me intranquilizou um pouco, já que ele tomou impulso com o que parecia ser o bico para cima, até estabilizar quando atingiu altura máxima. Algum tempo depois, a moça voltou com meu suco de maracujá e o uísque dele, e começamos a conversar um pouco até um determinado momento, quando o avião começou a dar alguns solavancos e parecia perder altura. Tentei ficar calmo, mas não sabia o que era aquilo e tive medo que estivéssemos caindo.

Contudo, não disfarcei bem as minhas emoções, pois logo o general me disse, com a calma de sempre:

– Sérgio, fique tranquilo. Não lhe falaram das turbulências?

– Não, o que é isso?

– É um fenômeno comum em voos, quando os aviões passam por correntes de ar, algumas nuvens e outros fenômenos meteorológicos, em que há uma espécie de corrente de ar e isso desestabiliza um pouco o avião. O que acabamos de passar não é nada, existem turbulências piores, tão bruscas que fizeram pessoas baterem no teto. Mas em geral elas não derrubam aviões, os acidentes acontecem com mais frequência na partida e na chegada.

– Obrigado, senhor, desculpe-me pelo descontrole. Definitivamente preciso aprender mais coisas.

– Ninguém nasce sabendo, meu filho. Apenas não hesite em perguntar quando não souber de algo, é melhor do que você sofrer sem necessidade ou se arriscar a cometer erros. - sua serenidade me tranquilizou mas a verdade é que me senti como se tivesse pagado um mico, foi a primeira vez que me vi como um caipira. De qualquer forma, decidi não me culpar, minha ignorância foi involuntária e já vi muitos riquinhos da cidade pagarem micos semelhantes quando iam visitar parentes na roça, ficando chocados ao descobrir que galinhas punham ovos e que o leite da vaca não era produzido em fábricas.

Em pouco tempo o avião pousou na base carioca e, ao descer, fomos recebidos por um homem relativamente jovem, de cabelo escuro, olhos verdes e aspecto simpático, ao lado de uma moça bonita com traços semelhantes. Ambos se aproximaram do general e o abraçaram, com todos parecendo muito felizes em se ver, e logo percebi que eram seus filhos. Pela primeira vez vi o general sorrir de modo aberto para o mundo, e uma onda de desejo me atingiu com tanta força que me atordoou, ninguém naquela posição de autoridade e faixa etária tinha o direito de ser tão belo.

– Papai, não imagina como ficamos felizes em lhe ver – disse a moça. - Vamos recuperar o tempo perdido, esses sete meses foram bem angustiantes.

– Não fale assim, mocinha, uma recém-casada sempre tem no que se ocupar. Quando você e o Marcelo vão me dar netos? Por sinal, porque ele não está aqui?

– Ele está numa cirurgia de emergência, vida de médico é assim.

– Mas isso não significa que não possamos nos divertir juntos. O senhor vai almoçar conosco, não vai? - perguntou o rapaz.

– Acho que sim, mas vão na frente. Preciso levar meu novo secretário no apartamento onde ele vai ficar. A propósito, quero apresentá-lo a vocês – e fez-me um sinal para que me aproximasse.

– Sérgio, esse é meu filho Gerson, que é engenheiro. E essa bela jovem é Mirella, minha garota, que é psicóloga. O marido dela, Marcelo, é cirurgião no hospital naval, e por causa do trabalho não pôde acompanhá-los. Sérgio acabou de concluir o curso de cadete em Curitiba e foi o melhor aluno da turma. Fiquei tão impressionado com ele que decidi trazê-lo para cá e supervisionar seu progresso.

– Prazer, Sérgio, espero que você se dê bem aqui. Quanto ao papai, pode ficar tranquilo, acho que você já o conhece o suficiente para saber que ele ladra, mas não morde – disse Mirella, apertando minha mão, com um pouco de picardia. Como que fazendo um jogo antigo, o general fez uma cara feia de mentira.

– Ah, não tenho do que me queixar, senhora, seu pai me ensinou muita coisa durante esses seis meses. Só espero corresponder as expectativas dele.

– Ih, mais um pra coleção de fãs do papai. Sérgio, sabia que ele tem ex-subordinados espalhados pelo exército brasileiro, em mais de um estado ou patente, que telefonam pra ele até hoje querendo saber como está? Às vezes me dá a impressão de que se consideram mais filhos dele do que nós – Gerson não resistiu a fazer uma piadinha, parece que o senso de humor era predominante entre eles.

– Meninos, melhor parar por aqui, acho que o Sérgio está um pouco desconfortável com essa rasgação de seda. - mentalmente agradeci ao general pela intervenção, de fato essa espontaneidade carioca me deixava um pouco sem jeito. Mas como teria de conviver com ela dali em diante, melhor me acostumar, e percebi que eles não faziam por mal.

– Relaxa, cara, estamos à sua disposição. Papai, posso levá-lo para dar uma volta pelos principais pontos da cidade? Lembro que uma vez fiz um estágio em Porto Alegre e foi muito difícil ficar sozinho num lugar onde não conhecia ninguém. - fiquei realmente comovido com a disposição de Gerson em ajudar alguém a quem acabara de ser apresentado, aparentemente ainda existiam pessoas boas no mundo lá fora.

– Gostei da sugestão, filho. Acho que vocês podem fazer isso no próximo fim de semana. Estaria bom pra você, Sérgio?

– Com certeza, general. E muito obrigado a vocês pela gentileza. - apertei a mão de Gerson e, depois de pegarmos nossa bagagem, entramos num carro grande dirigido por ele.

Enquanto o veículo avançava, observei a cidade, cheia de prédios históricos (Mirella, que estava ao meu lado, mostrava alguns dos pontos turísticos pra mim, enquanto o general e Gerson conversavam na frente), passamos brevemente pela orla, até que chegamos a um prédio de apartamentos perto de um quartel, certamente onde eu começaria a trabalhar. O general Roberto desceu, ajudou-me a descarregar minha bagagem (exceto minha mochila, que mantive sempre às costas), e, depois de falar com o responsável pelo prédio, carregamos tudo até um pequeno quarto, cuja porta foi aberta e onde depositei tudo com a ajuda deles. Era um cômodo pequeno mas limpo, com uma cama, um armário e uma pequena estante de um lado, e do outro uma geladeira e um fogão a gás, mas ainda tinha o luxo de um banheiro privado. Não tinha televisão mas tinha uma estrutura elétrica adequada caso algum dia eu quisesse instalá-la, embora eu não me preocupasse muito com isso, tinha intenção de economizar para comprar um notebook e assim veria tudo o que precisava.

– Bem, está entregue, soldado. Amanhã compareça ao quartel às sete horas. - disse o general e apertou minha mão. Senti uma corrente elétrica passando pelo meu corpo e, a julgar por um estremecimento que ele pareceu sentir, afastando-se com certa brusquidão, ele também.

– Comparecei, general. Muito obrigado ao senhor e aos seus filhos. - disse, e depois de dizer um “Até amanhã”, ele e o outro se retiraram e a porta foi fechada.

Vendo-me sozinho, comecei a desempacotar meus poucos pertences, a começar por minha Nossa Senhora de Lourdes. Coloquei-a em cima do armário e rezei para ela.

– Nossa Senhora, por favor me ajude como sempre fez nos últimos anos. Às vezes o caminho é difícil, mas fui mais longe do que esperava. Agora só posso contar com você, por favor me ajude a ser alguém e a não perder o foco.

 

Roberto

 

Estar de volta à sua cidade natal e ao seu círculo de amigos é muito bom, embora desgastante. Parecia que as visitas e os telefonemas não tinham fim, todo mundo me cortejava como se eu fosse uma noiva, parecia que tinham se passado sete anos e não sete meses que eu fora para Curitiba. De qualquer forma, aproveitei bem os jantares e as conversas, mas evitava compromissos até mais tarde, já que tinha de dar expediente no quartel todos os dias durante a semana e logo percebi que tínhamos uma batata quente para resolver, que era o combate ao narcotráfico, cuja influência crescera de forma assombrosa e para o qual tanto o governo do estado quanto a polícia civil pareciam não ter condições de resolver. E a situação era mais grave porque o colega que eu substituí saíra sob suspeita de corrupção e de receber propina de traficantes. Indignado, ordenei que todos os que eram ligados a ele fossem afastados e com a ajuda de pessoas de cuja integridade não tinha dúvidas, montei uma nova equipe, incluindo-se aí membros do Ministério Público e do Judiciário. Tínhamos reuniões semanais, momento em que também fazíamos varreduras nos cômodos para nos certificarmos de que não haviam escutas nem grampos, e estávamos pensando em deflagrar uma nova operação em alguns meses. Exatamente por isso escapava sempre que podia para ver meus filhos, embora me irritasse ao perceber que eles falavam cada vez mais que eu ainda era muito jovem para virar celibatário e pareciam estar dispostos a bancarem os cupidos.

– Mas papai, qual o problema de você jantar com dona Sandra? Ela é viúva, só tem uns 10 anos a menos que o senhor, é bonita e sempre diz que lhe acha um tipão. Você não pode se enterrar com a mamãe. – disse Mirella num jantar, tentando me convencer a dar uma chance pra tia caçula do meu genro.

– Mirella, ainda estou me readaptando ao Rio, e cheguei justo num momento em que coisas importantes precisam ser decididas. Não tenho tempo nem disposição para namorar, por favor aceite isso. Já basta o que eu ouvia do Luís em Curitiba, a esposa dele sempre dava um jeito de incluir as amigas dela em qualquer programa que fazíamos juntos.

– Pai, você nunca teve mentalidade de velho, por favor não comece a agir como um. Assim não dá, você vive pro trabalho, não é à toa que você e o Sérgio se dão tão bem. Já cansei de convidá-lo para sair comigo e as amigas da Estela, e ele sempre diz que precisa acordar cedo pra não perder o costume. O rapaz não tem nem 20 anos! Um garoto excelente, mas que praticamente não vive. - reclamou Gerson.

– Não é que ele não viva, ele só é focado. Ele tem uma inteligência desconcertante mas teve uma infância humilde, e não quer se desviar do caminho. - vi-me na obrigação de defendê-lo, sei que meu secretário e guarda pessoal (pois é, depois de uns três meses coloquei-o nessas duas funções pagando os dois salários correspondentes, já que a segunda era mais útil ao seu currículo militar e na prática ele cuidava de minha segurança dentro do quartel desde o princípio) já contara para eles sua vida, mas não custava nada relembrá-los.

– Eu sei, papai, mas isso me frustra. Tente convencê-lo a sair mais. - insistiu, e voltamos a jantar com tranquilidade.

Surpreendentemente, desde o primeiro passeio Gerson se apegou a Sérgio, talvez porque percebeu a inexperiência e a sede por aprender dele e tenha se sentido um pouco como se fosse seu irmão mais velho. De vez em quando eles se falavam por telefone ou Whatsapp, e sempre que podia ele o levava para conhecer locais do Rio e arredores, como a floresta da Tijuca, o Jardim Botânico e Petrópolis. Algumas vezes, por convite deles, até os acompanhei, e não deixava de reparar na expressão maravilhada dele cada vez que era apresentado a alguma coisa nova. Muitas vezes eram coisas que eu cansava de ver, mas quando ele explicava porque achava aquilo interessante percebia o quanto ele estava certo e tinha vontade de rir ao ver que tinha tantas coisas notáveis perto de mim e eu não valorizava.

Cada vez mais percebia que eu estava certo ao trazê-lo comigo. O que faltava-lhe em experiência ele compensava com empenho, e logo ele dominou minha agenda e meus compromissos. Percebendo que quando eu estava em reunião às vezes perdia a noção da hora das refeições, aprendeu a encomendar refeições conforme minhas preferências e, quando via que eu ia demorar, pedia licença para entrar na sala com um prato pronto. Talvez para compensá-lo, comecei a almoçar com ele no refeitório sempre que podia, e reparei que as recrutas e oficiais femininas sempre olhavam mais de duas vezes para ele.

– Sérgio, parece que você virou o novo galã do quartel. - disse a ele certa vez, com uma picardia que não me era habitual, para ver o que ele achava disso.

– Não é por falta de desestímulo, senhor, sempre deixei claro que não estou em condições de oferecer nada no momento. É só porque sou uma novidade para elas, quando eu passar mais tempo aqui elas vão me deixar de lado. - disse ele com uma modéstia que me chocou.

– Garoto, às vezes sua inocência me choca. Sim, você veio de fora e isso chama a atenção, mas não é todo dia que se vê aqui um rapaz com o seu perfil. Você já era forte quando o conheci, e com os exercícios que passou a fazer seu físico ficou impressionante, sem falar que suas feições não são o que se podem chamar de comuns. - parecia meio estranho eu chamar um homem de bonito, mas no caso dele era a mais pura verdade, não tinha como falar outra coisa. - Elas seriam cegas se não lhe notassem, ainda mais porque você é mais educado e discreto que a maioria.

– Bem, sinto por elas mas agora minhas prioridades são outras. Nunca namorei e não senti falta até hoje.

O jeito displicente com que ele contou isso me levou a uma suspeita e não resisti a expressá-la:

– Sérgio, você é virgem?

– Senhor, com todo o respeito, será que essa pergunta é mesmo necessária? - perguntou ele um tanto ruborizado. Só isso já me dava a resposta de que precisava, mas, ainda assim, insisti:

– Acho que sim. Você já confia em mim pra tanta coisa, porque não pode me confiar para isso? - de fato ficamos um pouco mais próximos desde meu retorno, eu continuava dando indicações de livros para ele e incentivei-o a fazer cursos intensivos de inglês e espanhol. Aos poucos, ele foi perdendo o receio de se abrir comigo e foi falando mais sobre sua vida no campo, chegando até a me mostrar algumas das cartas enviadas por sua mãe.

– Sim, senhor, eu sou virgem, embora já tenha dado uns beijos. Mas prefiro que não fale mais sobre isso, já que não tem nada a ver com meu trabalho.

– Não se preocupe, é porque gosto realmente de você e me importo com seu bem-estar. Se algum dia precisar desabafar qualquer coisa comigo, não se acanhe.

– Obrigado, senhor, mas por ora não será necessário – a expressão que ele me deu quando falou isso foi a mais impenetrável que eu já vira, e mais uma vez fiquei pensando por que ele a adotara.

 

Algumas semanas depois, chamei-o pelo telefone e ele deixou a antessala que ocupava para vir me atender no meu gabinete.

– Aqui estou, senhor. O que quer de mim? - perguntou naquela expressão de eficiência discreta que já o caracterizava.

– Olá, Sérgio. Suas aulas de inglês e espanhol estão em dia?

– Sim, senhor, estão impecáveis. Meus professores estão bem satisfeitos.

– E você tirou seu passaporte assim que veio para cá, como lhe pedi?

– Sim, senhor, recebi-o há poucas semanas. Mas porque tantas perguntas?

– A questão é que, tendo em vista a operação que realizaremos, decidiram que precisamos de colaboração internacional. E como a Colômbia é um dos países da América do Sul que melhor lidaram com o narcotráfico e o terrorismo, nos designaram para participar de um seminário sobre o tema, além de algumas reuniões secretas, em Bogotá. Faça as malas e alguns exames de sangue que em uma semana iremos para lá.



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