História O Grande Mestre - Capítulo 1


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Categorias Saint Seiya
Personagens Kiki de Áries, Shiryu de Dragão (Shiryu de Libra), Shunrei, Shura de Capricórnio
Tags Grande Mestre, Guerra, Kimonohi Tsuki, Paz, Saint Seiya, Shiryu
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Palavras 7.902
Terminada Sim
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 14 ANOS
Gêneros: Aventura, Comédia, Famí­lia, Luta
Avisos: Spoilers
Aviso legal
Alguns dos personagens encontrados nesta história e/ou universo não me pertencem, mas são de propriedade intelectual de seus respectivos autores. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos criada de fã e para fã sem comprometer a obra original.

Notas do Autor


Ontem completou um mês do Hiato de Guerra e Paz, então eu trouxe um presentinho para vocês!

Caso você não tenha sido G&P, é possível compreender a estória, mas você pode perder os detalhes mais sórdidos.

Capítulo 1 - Capítulo Único - Um dia do Grande Mestre


Fanfic / Fanfiction O Grande Mestre - Capítulo 1 - Capítulo Único - Um dia do Grande Mestre

Verão de 2009, 5 anos antes dos acontecimentos do prólogo de Guerra e Paz.

Pela manhã.

Ser Grande Mestre exigia muito trabalho e dedicação, por isso, não eram raras às vezes que o libriano passava a noite em claro ou acordava antes mesmo do sol, para desespero e preocupação de sua esposa Shunrei.

Havia caído a ideia de celibato para o patriarca de Athena, regra que nunca foi realmente seguida por nenhum Mestre, afinal, muitos passavam até mesmo séculos nessa posição e a ausência de relações humanas por tanto tempo era impossível para simples mortais. No máximo os mestres se mantinham castos apenas durante a presença de sua pura deusa no santuário.

Nos tempos modernos em que viviam, Saori Kido havia entendido que tal petição chegava a ser até mesmo cruel, principalmente levando-se em conta que o antigo Dragão possuía alguém que o amava desde tenra idade. Por isso o casamento entre ambos havia não apenas sido permitido, como também abençoado pela própria Athena, e realizado no próprio santuário.

Mas isso é outra história.

Nessas quase duas décadas juntos, o casal teve dois filhos, Shoryu, o mais velho e atual cavaleiro de Libra, adotado por Shunrei em uma viagem de volta para China, e Izo, filho de sangue e futuro sucessor da casa de Capricórnio. Além disso, enquanto Shiryu crescia como Grande Mestre, Shunrei se tornava uma espécie de figura materna para os futuros cavaleiros e amazonas que vieram de lares vazios, sendo carinhosamente chamada de "Mama" por muitos aprendizes que ela mesmo alfabetizara.

Como todas as manhãs que o líder do santuário tentava levantar-se sem acordar sua esposa, havia falhado completamente, pois assim que colocou os pés sobre o frio chão de mármore ouviu a feminina voz às suas costas.

- Não pise descalço assim durante o inverno, você pode se resfriar...

Shiryu sorriu ao ouvir esse tom sonolento, e ainda assim preocupado. Mesmo que fosse um dos guerreiros mais fortes de Athena, isso nunca impediu a pequena chinesa de preocupar-se com sua saúde.

- Desculpa, eu não quis te acordar - Inclinou-se de volta ao leito, e apesar de sua deficiência não teve dificuldade em encontrar o rosto de sua esposa e beijá-la.

- Ainda nem amanheceu - Informou Mama encontrando e verificando a hora em seu celular. Nunca conseguiu aprender essa história de telepatia, então precisava recorrer a meios eletrônicos para se comunicar a distância, além de ser muito útil para relaxar jogando mahjong.

Seu marido também possuía um, adaptado para ele, porém nunca se interessou em aprender a usá-lo, por isso, sempre que ela precisava, ligava para um de seus filhos, que não possuíam qualquer problema para lidar com a tecnologia moderna.

- Hoje haverá uma cerimônia de sucessão para três armaduras de prata, preciso me certificar que tudo estará no lugar devido.

- Agatha irá participar? Ela pediu para faltar algumas aulas para praticar, e caso se sentisse pronta, tentaria a Armadura de Lagarto  - Questionou sentando-se e vendo como Shiryu colocava a bata de Grande Mestre e amarrava sua costumeira faixa em seus olhos. - Deixe que eu te ajude, você sempre acaba apertando demais e seu rosto fica todo vermelho.

- Eu não tenho um senso anormal de dor, deve ser por isso - E cedeu o amarre para as delicadas mãos femininas - Sim, ela nasceu com pre-destinação para essa constelação, e ouvi Afrodite falar muito bem dela, seria uma pena se não tentasse, mas ela se inscreveu semana passada e Kiki disse que foi muito bem no teste escrito também.

- Ah que bom! Fico feliz, nem parece mais aquela pequenina, tão retraída e assustada depois que sua família acabou morrendo em um acidente em Atenas, até hoje não entendo como ela conseguiu sobreviver, foi algo terrível  pelo que ouvi dizer. - Dito isso terminou seu labor, aproveitando a proximidade para beijar novamente seu homem, um tocar de lábios suave e carinhoso.

- Obrigado. Talvez alguém no submundo goste dela. O importante é que pela graça de Athena ela sobreviveu - Colocou casualmente - Então - Indicou a si mesmo - Está tudo certo? Não coloquei nada no avesso dessa vez?

Shunrei sorriu com o comentário.

- Traumatizado?

- Se Izo não tivesse me avisado quando passei por Capricórnio teria passado um momento bem constrangedor frente aos aprendizes.

- Não se preocupe, está tudo certo. Apenas não se esqueça de escovar os dentes antes de descer, um Grande Mestre não pode ter mal hálito.

 - Você se preocupa demais amor. - E caminhou até o banho privativo. Quando voltou minutos depois, Shunrei já estava socialmente vestida e desperta. - Você podia ter voltado a dormir.

Os anos haviam sido muito gentis com Shunrei, não havia mudado praticamente nada, embora, por alguma razão, parecia ser mais baixinha.

- Agora que já acordei. Melhor eu usar esse tempo para preparar o material para as crianças, além disso, preciso devolver o dicionário de grego que peguei da biblioteca. Se há uma coisa que todos sabem no santuário é que jamais devemos atrasar a entrega de um livro, se não queremos o ódio gélido do bibliotecário* - Ambos riram sutilmente - Além disso, o nascer do sol é sempre magnífico  das doze casas.

E assim ambos desceram calmamente, informando os cavaleiros que já estavam acordados de sua passagem. Uma das razões de acordar tão cedo era para poder descer calmamente essa extensa escadaria.

Dos antigos cavaleiros de ouro que haviam sido ressuscitados há 15 anos, apenas três permaneciam vivendo no santuário, Aiolos, Milo e Afrodite. Então não foi nenhuma surpresa para o casal encontrar as doze casas praticamente vazias, já que Afrodite tinha a própria moradia em Rodorio, permanecendo em seu posto, nesses tempos de paz, apenas para cuidar de seu jardim de rosas. Jardim o qual possuía um caminho específico de rosas normais e sem veneno que apenas aqueles com autorização para acessar os aposentos do Grande Mestre conheciam, para evitar que Shunrei acabasse se machucando. Milo, por outro lado, era um conhecido madrugador e já não se encontrava no oitavo templo, apesar do sol recém ter nascido, a igual que Aiolos. 

Apenas presenciaram alguma movimentação quando passaram por Áries, Kiki, o atual cavaleiro, estava sentado na entrada do templo, analisando uma armadura.

- Bom dia - Disse virando-se assim que ingressaram no salão, levantou-se, mas sem se ajoelhar. O cavaleiro que agora possuía vinte e sete anos era alto, tinha uma postura mais contida, embora seguisse tendo um espirito livre e vivido, mas sem dúvida, o que mais havia mudado em sua aparência, além da altura, eram seus longos cabelos ruivos, preso num rabo de cavalo baixo em suas costas. - Descansar tão pouco pode prejudicar sua saúde Grande Mestre.

- Ouviu? Kiki concorda comigo. - Teimou Shunrei - Eu vivo dizendo isso para ele.

O chinês apenas coçou a nuca sem graça, estava em desvantagem numa disputa contra esses dois.

- Então outra cerimônia de sucessão, fazemos uma vez ao ano, mas parece que elas chegam cada vez mais rápido - Mudou de assunto, olhando pensativo para o céu - Me pergunto como os gêmeos se sairão, além disso, Senhor Shion e Senhor Dohko trarão aquele garoto que eles encontraram para disputar a armadura de Taça.

- Sem dúvida será um evento interessante. - Concluiu Shiryu.

Ao abandonar as doze casas, o casal tomou rumos diferentes, enquanto Kiki garantiu que iria para o coliseu dentro de uma hora. Alguns poucos cavaleiros já formados cumprimentaram o Grande Mestre no caminho, uma vez que a maioria dos aprendizes seguia dormindo.

Quando enfim chegou ao coliseu, sentiu que alguém havia se adiantado a ele, alguém que se encontrava sentado nas arquibancadas. Se aproximou silenciosamente, mas para sua surpresa, o jovem o notou.

- ...O senhor é o Grande Mestre?  - O menino levantou-se apressado, Shiryu deduziu que ele se inclinou, pelo sutil movimento que sentiu. - Muito prazer, eu sou Suikyo, fui-

-Mestre Dohko e mestre Shion o trouxeram, estou certo?

O rapaz, de aparência jovem, cabelos azuis curtos e intensos olhos quase no mesmo tom confirmou com a cabeça, tenso, mas recordando-se da deficiência do homem, logo se retratou respondendo verbalmente.

- Sim, sou eu.

- Por que está tão nervoso? - Questionou em tom tranquilo, sentando-se sem cerimônia na arquibancada. - Não acredita estar preparado para ser um cavaleiro?

Suikyo surpreendeu-se que o mais velho pudesse ler seus sentimentos tão facilmente, apesar da situação. Além disso, sua aura calma e acolhedora o lembrava muito do senhor Dohko.

- Eu...Estou bem, não precisa se preocupar comigo, eu não quero atrapalhar o trabalho do senhor.

Escutou passos se distanciando, então logo acrescentou.

- Eu estou fazendo meu trabalho - O jovem parou - Desde o momento que meus Mestres resolveram treiná-lo, você se tornou um aprendiz de cavaleiro. Mesmo que não esteja no santuário, você também é minha responsabilidade. Que tipo de Grande Mestre eu seria se não consigo sequer acalmar os receios dos meus?

Sentiu a postura do adolescente abrandar.

- O senhor é tão bom quanto me disseram.

- Bobagem, meu velho mestre Dohko exagera a meu respeito. - Declarou com um sorriso.

Suikyo tornou a se aproximar, sentando-se ao lado do chinês.

- Os melhores elogios partiram do senhor Shion, ele disse que o treinou para as funções de Grande Mestre, e não podia imaginar um líder mais digno. - O jovem se sentiu ainda menos inibido quando o mencionado ruborizou-se pelo elogio, coçando a nuca sem graça.

- Muitos me superestimam demais por aqui - Declarou o antigo dragão com humildade - É difícil estar a par da expectativa dos demais, ser o que eles desejam que sejamos, sem desapontá-los - Virou para o mais jovem - É isso que está sentindo? Medo de trair a confiança dos que te acolheram?

O menino piscou, completamente surpreso, era como se esse homem pudesse entendê-lo como se fosse um livro aberto.

-Eu...- Apertou os punhos - Eles ajudaram a mim e a meu irmãozinho quando não tínhamos nada nem ninguém. Nós deram comida, nos ensinaram a ler e a escrever, me ensinaram a lutar...Até mesmo nos ofereceram um teto. - Pela respiração irregular e voz embargada, deduziu que o jovem lutava para não ceder a emoção. - E estando aqui, nesse lugar, prestes a competir por uma armadura, eu sinto que posso colocar tudo a perder, não ser capaz de retribuir tudo que fizeram por mim.

O adolescente olhou para o céu, uma expressão demasiadamente melancólica para um rapaz tão jovem.

- Sinto que esse não é o meu lugar, que estou prestes a fazer tudo errado, ser desleal com aqueles à quem devo minha vida.

E então sentiu uma mão acariciar seus cabelos, virou-se para o mestre que sorria suavemente.

- Quantos anos você tem?

- ...Catorze...

- E já tem tantas preocupações, além disso, fala como um adulto, apesar de ser apenas um adolescente.

Suikyo franziu a expressão, contrariado, afastando-se sutilmente da mão que o afagava.

- Senhor Dohko me disse que vocês tinham essa idade quando enfrentaram Poseidon e Hades.

Shiryu respirou longamente, virando o rosto para o céu também.

- Sim, você tem razão. Ikki de Fênix era o mais velho entre nós com dezesseis anos creio, mas quando enfrentamos esses deuses, não possuímos muito mais que catorze. Quanto mais eu penso nisso, mais absurdo me soa, éramos pouco mais que crianças quando tivemos o mundo inteiro jogado em nossas costas. Sequer conhecíamos a nós mesmos, e tínhamos que defender toda a humanidade. O pior, é que isso não foi apenas conosco, os cavaleiros de ouro da geração após a dos Mestres Shion e Dohko assumiram suas armaduras, em sua maioria, com míseros sete anos. Com essa idade eu sequer sabia falar japonês direito, sempre misturava com o chinês, que é meu idioma materno, quem dirá então ser um cavaleiro de ouro aqui na Grécia. - Abaixou o rosto, fazendo silêncio por alguns instantes, como se perdido em suas lembranças do passado.

Suikyo já sabia sobre a antiga geração de soldados e sua tenra idade, mas nunca deixava de se espantar. Quando tinha sete, recém havia perdido sua mãe em um latrocínio, o qual foi impedido de testemunhar por um estranho homem de cartola, que conseguiu atrair a atenção do ladrão, dando-lhe a chance de fugir com seu irmão. Em um país tão populoso como o Nepal, nunca teve a oportunidade de encontrá-lo novamente para agradecer, sequer soube que fim ele teve. Com essa idade era completamente incapaz de parar um simples bandido, se fosse forte assim desde pequeno, sua mãe estaria viva, e seu irmão não seria tão doente. Mesmo que tenham sido poucos meses vivendo na rua de um país pobre, lutando por míseros grãos de comida, até o dia que foi encontrado pelos dois anciãos do santuário, cada dia passado ao relento havia contribuído para a fragilidade da saúde do seu irmãozinho Suisho.

Por se sentir sempre tão culpado e impotente, sempre acreditou que não tinha o direito de ser uma criança normal, empenhando-se duramente em seu treinamento, se esquivando quando Dohko o sugeria alguma atividade mais infantil. Ainda assim, era absurdo pensar que alguém com apenas sete anos pudesse estar em um nível próximo de seus mestres.

- Meu velho mestre me contou sobre seu passado - O adolescente sobressaltou-se, era como se o Grande Mestre tivesse conseguido ler seus pensamentos, mas tinha certeza que ele era incapaz disso, afinal, mesmo os lemurianos não possuíam tal dádiva. - Eu entendo a cobrança que você faz para si mesmo, em certa medida, você me lembra meu antigo companheiro Ikki, colocando a segurança de seu irmãozinho acima de tudo, mesmo de sua infância. Porém estamos em uma situação diferentes agora, a luta das gerações passadas até a nossa, finalmente nos trouxe a tempos de paz. Tempos em que podemos nos dar o luxo de permitir que crianças sejam crianças, e que adolescentes sejam adolescente, então, apesar de tudo, tente não se cobrar tanto, apesar da cerimônia de hoje, apenas quando você e os outros candidatos sejam maduras o suficiente, realmente assumiram os deveres e responsabilidades de um cavaleiros. Hoje em dia podemos nos dar esse luxo. Devemos aproveitar essa dádiva conquistada após tantas duras guerras, por quanto tempo seja possível. Em resumo - Colocou a mão no ombro do mais jovem - Tenha calma, nosso pior inimigo sempre será nós mesmos, nossos medos, desconfianças e cobrança.Guarde suas preocupações para quando ficar mais velho, acredite em mim, você irá precisar. Principalmente se um dia você acabar tendo filhos, neles você gastará toda a sua preocupação e tempo, mas valerá cada segundo, como o tempo que eu tenho com cada um de vocês aprendizes e cavaleiros.

E pela primeira vez em muito tempo, Suikyo sorriu, um pouco tímido e bastante sem graça.

-...Eu entendi, eu...Vou tentar me preocupar menos...Meu irmãozinho realmente vem reclamando que eu não brinco mais com ele, eu passava todo meu tempo treinando, por mais que mestre Dohko me recriminasse por isso. – Confessou.

- Mestre Dohko é como um pai para mim, leve em conta suas sábias palavras, ele sabe o que diz. Mas já que estamos nesse assunto, me diga, como é ser treinado pelos dois homens mais experientes do santuário? Eu passei por isso quando assumi a responsabilidade com o santuário. Foi algo bem difícil, é bom ter alguém para dividir a experiência.

Horas passaram até que a conversa finalmente teve fim, Suikyo já se sentia muito mais a vontade e até ria das anedotas que Shiryu o contava sobre seu próprio treinamento quando criança ou como chefe do santuário. A agradável conversa só foi encerrada quando o chinês notou os primeiros espectadores chegando ao coliseu.

Era quase hora da cerimônia e todo o tempo extra que tinha conseguido para verificar se estava tudo certo, tinha sido utilizado conversando. Claramente o mais jovem notou o deslize, mas se absteve de comentar, limitando-se a agradecer o “boa sorte” do mais velho sobre a cerimônia.

- Você está atrasado.  – Foi a primeira coisa que ouviu assim que adentrou o recinto restrito ao Grande Mestre, que servia como uma sala administrativa, possuindo uma mesa com duas cadeiras, e um grande armário. Reconheceu imediatamente a voz. – O que foi que te distraiu dessa vez?

- É uma pergunta retórica, porque eu o senti me observando Shura - Respondeu calmamente o libriano, caminhando em direção a cadeira, sentando e mexendo na mesa em busca de algo,  enquanto o antigo cavaleiro dourado se mantinha de pé.

Shura agora possuía o cabelo extremamente curto, quase raspado, mas de resto tinha praticamente a mesma aparência apesar dos anos. 

- Impressionante, consegue sempre estar ciente de todos ao seu redor, apesar de sua condição, mas não é capaz de chegar no horário a um compromisso - Suspirou o mais velho.

 - Desculpe por isso, mas um dos aprendizes realmente precisava de alguém para conversar - Encontrou o objeto que procurava, um velho gravador de fita.

- Você precisa urgentemente treinar um ajudante, não precisa ser necessariamente um sucessor, não demorará muito para seu filho Izo herdar minha armadura, e então eu planejo deixar o santuário. - Cruzou os braços, sério - Porém, como farei isso sendo que você não tem ninguém aqui para ajudá-lo?

- Por favor,  não se prenda por minha causa - Insistiu - Eu ainda poderei contar com a ajuda do Kiki.

- Você sabe muito bem que Kiki já está sobrecarregado com suas funções, não vejo como isso pode funcionar. - Alegou em seu tom severo, cruzando os braços - Talvez um dos gêmeos de câncer seja uma escolha interessante, ambos parecerem muito responsáveis, disputarão a armadura de Altar hoje, o que é muito propício, é uma constelação que sempre esteve ligada aos Grande Mestres, além disso, Mu os educou muito bem. Ou você também pode optar por um de seus filhos, ambos são muito competentes, embora Shoryu seja um tanto preguiçoso.

- Todos são muito jovens para uma função dessas. - Rebateu

O espanhol franziu o rosto.

- Você sempre insistirá nisso? Devo lembrar que você conseguiu me derrotar e até mesmo me matar com apenas treze anos? Não sei porque insiste em poupar os aprendizes mais promissores, se já são capazes de assumir tais responsabilidades.

- Não é uma questão de capacidade Shura, e sim de humanidade. Enquanto eu puder evitar que crianças lutem como adultos, eu evitarei - Enquanto dizia isso, ouvia baixo por um fone de ouvido de aro, o conteúdo da fita. - Pelo relatório de Mu, os gêmeos realmente parecem geniais, principalmente Egas.

- Se Piada Mortal não fosse um gênio em seu próprio mérito, Egas ou Irekuha seriam excelentes candidatos a ser o novo cavaleiro de câncer.

- "Isso porque o menino que Máscara da Morte trouxe quase bebê para o santuário foi capaz de abrir o Seikishiki aos cinco anos." Era isso que iria argumentar Shura? - Retirou a fita e procurou outra mais na gaveta, com uma etiqueta que dizia "relatório sobre Agatha", a colocou no aparelho.

- Exato, Piada Mortal é outro em plena capacidade de herdar a armadura de ouro, apesar de sua pouca idade.

- E no entanto, ele recebeu essa alcunha justamente por pregar peças em todo o santuário - Respondeu calmamente Shiryu, podendo assim compreender a gravação que ouvia - Semana passada, ele jogou em si mesmo um balde de tinta vermelha e fingiu que estava morrendo na frente dos aposentos das amazonas, só parou de atuar depois de assustar várias aprendizes e ser ameaçado com uma morte real por Shina, sem mencionar que essa semana ele trocou as fitas que vocês me enviam como relatório, por uma coleção de músicas para dormir. É normal para uma criança de cinco anos, mas inconcebível para um cavaleiro de ouro.

Shura bufou.

- Para mim Máscara é o grande culpado dessas atitudes, se ele fosse um mestre mais duro isso não aconteceria.

- Pode ser - Fez um breve silêncio enquanto terminava a fita e trocava novamente,  por uma que dizia simplesmente " Suikyo". - Mas sendo sincero, devo admitir que aquelas fitas me fizeram dormir como há muito não dormia. Eu tive muitas desavenças com Máscara da Morte no passado, porém com o tempo ele me provou que mesmo a fruta mais escurecida ainda pode oferecer um puro néctar. - Novamente silenciou-se por mais alguns instantes, como se o que ouvisse na gravação requeri-se uma atenção maior. - Desse modo...-Seguiu- Não vejo porque buscar com tanto fervor um sucessor, ele mesmo admite que é muito cedo para que o pequeno o suceda.

O espanhol descruzou os braços dando-se por vencido.

- Parece que eu irei embora sem conseguir que você mude de ideia. - E no entanto, sorriu - Com todo respeito, você é muito teimoso Grande Mestre.

- Todos mudamos muito durante esses quinze anos que venho liderando o santuário. Alguns anos atrás você não questionaria uma patente superior como faz comigo.

- Sim - Concordou um pouco melancólico - Eu seguiria as ordens cegamente, sem hesitar.

Shiryu retirou os fones do ouvido e ergueu a cabeça na direção do mais velho.

- Me perdoe a piada, mas eu prefiro ser o único cego por aqui. - Sorriu com graça - Você me ajudou muito durante esses anos todos, lendo os relatórios antes de implementamos as fitas, me ajudando a estudar textos antigos, além de me servir, a igual que Kiki, como um conselheiro. Aquece meu coração saber que nossa amizade e intimidade chegou ao ponto de você conseguir me questionar. Eu nunca quis ser um líder absolutista, acredito que precisamos da ajuda uns dos outros pra crescermos e evoluímos - Seu sorriso se tornou uma expressão contemplativa. - No entanto,  eu sei o peso de minha posição,  sei que há momentos em que preciso ser firme em minhas convicções. E não colocar a completa responsabilidade de um adulto sobre os ombros de uma criança é uma delas, que isso seja nosso último recurso, por mais genial que sejam nossas crianças, quero que os jovens do santuário tenham a infância que eu e meus irmãos, e todos vocês cavaleiros antes de nós,  não tivemos. Talvez, se um dia você for pai Shura, consiga me entender.

- Talvez - Disse simplesmente - Não seria a primeira vez que você me provaria que está certo. No começo eu considerava que você era muito brando e até mesmo caloroso demais com os aprendizes - Caminhou lentamente, até parar frente a uma velha janela que dava vista para o coliseu - Pelas muitas vezes que você mostrou amor ao invés de força. Porém, com Athena permanecendo a maior parte de seu tempo no Japão,  você acabou se tornando a grande referência para todos aqui, o carinho que você dedicou a eles se tornou uma devoção fervorosa. Para alguns até mesmo maior do que sentem pela própria deusa - Sua expressão se pôs triste - Não apenas pela ausência dela, mas também por seu grande carisma.

- O Olimpo é testemunha de quantas vezes eu insisti para que Athena voltasse a viver conosco. A vida civil foi demasiadamente embriagante para ela, creio. De qualquer forma, não podemos deixar nos abater por isso - Levantou-se, também indo até a janela.

 - Isso me lembra Sun Tzu, na arte da guerra - Seguiu Shura - "Trate seus homens como seus filhos, e eles o seguirão aos vales mais escuros.Trate-os como filhos queridos, e eles o defenderão com o próprio corpo até a morte."

-Sim, mas eu sinceramente espero que isso nunca aconteça.E que no futuro, usando nossa inteligência, lutemos mais com nossas cabeças do que com nossos punhos. Sun Tzu também disse "A vantagem estratégica desenvolvida por bons guerreiros é como o movimento de uma pedra redonda, rolando por uma montanha de 300 metros de altura. A força necessária é insignificante; o resultado, espetacular."

Os burburios os informou que o coliseu já estava ficando cheio, o que os alertou do tempo que havia transcorrido em meio a conversa.

- Chega de palavras por hora, irei verificar se todos os aprendizes já estão prontos, e se Kiki já posicionou as armaduras, assim você poderá terminar de analisar os relatórios finais.

Shiryu suspirou agradecido.

- Obrigado, velho amigo.

Levou mais três quartos de hora até que pudesse ouvir todos os relatórios e fazer suas próprias anotações em braile. Usar a punção, equipamento pequeno, composto por um cabo de um lado e uma ponta afiada do outro, e o reglete, uma espécie de régua que o auxiliava a furar as letras em um papel cartão, embora tivesse já prática nesse tipo de escrita, ainda levava seu tempo. Já existia uma máquina de escrever que talvez tornasse o trabalho mais rápido,  da mesma forma que já existiam gravadores que usavam CD, mas sinceramente não era alguém muito ligado a tecnologias, só para Kiki ensiná-lo a usar o atual para que ouvisse os relatórios ao invés de alguém ter que lê-los, levou pelo menos seis meses, e basicamente um ano para que os cavaleiros em missão se acostumassem com a prática.

Embora alguns guerreiros como Shaka e Máscara da Morte seguiam resumindo suas missões pelo mundo como "nada relevante para contar". Uma desculpa bem esfarrapada para não fazer suas anotações. 

Quando já estava levantando-se para sair, ouviu uma batida na porta.

- Entre – Declarou simplesmente, devolvendo o gravador e as folhas de volta para a gaveta.

- Shiryu, já está tudo pronto. Estamos apenas esperando por você – Tanto pela energia quanto pela voz reconheceu ser Kiki.

- Muito bem, então eu não os farei mais esperar. 

Ambos então seguiram pelo corredor, entrando em uma passagem lateral que dava acesso a uma espécie de arquibancada especial do coliseu, muito semelhante ao conceito romano, onde os antigos imperadores observavam os gladiadores matando-se apenas por diversão. Porém, a única semelhança que o coliseu do santuário possuía em relação ao antigo pão e circo romano, limitava-se simplesmente a sua arquitetura.

O coliseu estava completamente lotado, enquanto pelo menos trinta aprendizes de doze a quinze anos se encontravam reunidos e nervosos na arena. Ao ver a figura do Grande Mestre muitos se silenciaram, e os que não o viram, o fizeram assim que o chinês disse suas primeiras palavras. Do seu lado esquerdo, Kiki se manteve um pouco abaixo, Shura surgiu pouco depois do mesmo corredor que ambos, posicionando-se do lado direito, mais acima era possível ver três urnas prateadas.

- Em primeiro lugar, sejam todos muito bem vindos. – Desejou Shiryu erguendo os braços – Estamos aqui novamente reunidos para mais uma cerimônia de sucessão. Dessa vez para três armaduras de prata – Indicou acima de si – A armadura de Altar, a armadura de Taça e por último e não menos importante, a armadura de Lagarto. As provas se dividiram em duas partes: Primeiro, uma prova de resistência, força e habilidade, segundo, um combate contra aqueles que disputam a mesma armadura e que passaram pela primeira etapa. Como podem ver – Indicou o arena, mais especificamente, atrás dos aprendizes, onde era possível ver trinta pilares de um metros de altura cuja cor era semelhante ao ferro – Atrás de vocês há pilares feitos de Gamanion, a mesma matéria prima que dá resistência a nossas armaduras. A primeira missão de vocês é danificá-las. Aqueles que conseguirem o maior nível de impacto, passam para a segunda etapa. Vocês devem usar seu cosmo nessa tarefa, caso contrário poderão até mesmo se ferir com gravidade, ainda assim, se não souberem manejar bem suas energias, ainda correm o risco de quebrar o punho ou uma das pernas pelo impacto, aqueles que se ferirem e não puderem mais continuar, por favor, dirijam-se para a saída da direita, onde serão atendidos por nossos curandeiros. Peço que saibam reconhecer seus limites para que não sofram ferimentos graves. Vocês podem usar seus punhos, suas pernas, ou até mesmo habilidades a distância. Meu último aviso, não subestimem esses pilares, eles foram forjados por nosso cavaleiro de ouro de Áries, Kiki – O mesmo apenas inclinou a cabeça, com um sorriso maroto – Fortificados com o sangue e cosmo de cinco cavaleiros de ouro. Dito isso, desejo boa sorte a todos.

E então sentou-se para observar.

- Em quem vocês apostam? – Questionou Kiki animado, sentando-se também, a igual que Shura.

- Não é digno de um cavaleiro de ouro apostar. – Recriminou capricórnio.

- Eu aposto dez euros nos gêmeos de câncer! – Máscara da Morte que abriu caminho na multidão até os aposentos do Grande Mestre exclamou, entregando o dinheiro em suas mãos para Kiki – Treinei os dois por uma semana e vocês vão se impressionar com o que são capazes de fazer!

O espanhol encarou o italiano, o qual ignorou completamente.

- Posso apostar também? – Se uniu um jovem logo atrás do canceriano, tinha características asiáticas e longos cabelos negros, cuja apenas uma parte era amarrada em cima. Aparentava ter quinze anos.

- Você também é um cavaleiro Shoryu! – Recriminou outro, mais novo, também de traços orientais, e cabelos igualmente longos, presos num rabo de cavalo baixo. Possuía doze anos. – Você ouviu o que mestre Shura disse. – O mencionado fez uma expressão de satisfação ao ver que ao menos alguém lhe escutava.

- Vocês ainda são muito jovens para apostar meninos – Zombou Máscara - Esperem crescer mais um pouco! Tome -Entregou mais cinco euros para Kiki – Esse é de Afrodite, apostou na pequena Agatha.

- Sinceramente, eu também quero apostar nos gêmeos. Sendo filho de quem são, aposto que irão se destacar. – O ariano tirou mais dez euros de seu bolso.

- Eu não faria isso se fosse vocês - Disse sério Shiryu. Shura confirmou com a cabeça, recriminando com o olhar seus companheiros – Apesar dos gêmeos serem filhos de Mu, e Agatha ter muitas vezes treinado com o filho de Afrodite, eu digo que vocês deveriam considerar Suikyo. Aposto cinco euros que ele é quem se destacará mais.

- SHIRYU! – Recriminou Capricórnio, enquanto Áries tentava conter o riso.

- Tem razão Shura, é errado que alguém em minha posição seja tão tacanho. Quinze euros então.

Shura bufou impaciente enquanto Kiki aceitava os euros.

- É sempre bom fazer negócios com você, Grande Mestre~ - Ironizou Máscara fazendo pouco caso do companheiro de Capricórnio.

-..Ah...Queria ter dinheiro pra apostar – Resmungou Shoryu, sob a vista severa de seu irmão mais novo.

Nos primeiros minutos de competição a metade dos aprendizes já havia perdido, alguns, apesar dos avisos, haviam quebrado seus punhos, outros saíram mancando, manchados com o próprio sangue. Por mais que o Grande Mestre sempre pedisse que respeitassem seus limites e se preservassem, todos queriam impressionar o patriarca, dando absolutamente tudo de si, e apesar de quinze aprendizes não  continuarem, todos conseguiram danificar os pilares, mesmo que minimamente.

- Nesse ritmo, na próxima cerimônia ele conseguiram suas armaduras, com certeza. - Informou Kiki - Eu usei Ichi e Nachi de cobaia, e mesmo eles tiveram dificuldade de causar danos, apenas de serem cavaleiros há anos. Isso indica que o nível dos aprendizes está cada vez maior.

- Ou significa que precisamos retirar as armaduras de bronze desses dois inúteis - Ironizou Máscara apoiando os cotovelos na mureta que separava a arquibancada do Grande Mestre. - Eu já tentei ser mestre desse Nachi e posso  garantir que ele é pouca coisa, uma vergonha para nós cancerianos.

- Falando nisso, onde está Piada Mortal?  - Questionou Shura, desconfiado - Não deixou ele sozinho, deixou?

- Depois que ele se pintou de tinta vermelha? Não - Sorriu - Ele está na floricultura com Afrodite, descobrimos que ele estava planejando soltar um saco cheio de caranguejos durante a cerimônia - Dizia com um inquestionável tom de orgulho - Ele ficou chateado de perder a cerimônia de Egas, porém achamos mais seguro.

Mais alguns minutos e só restavam dez competidores de pé. Entre eles, apenas quatro não estavam arfando pelo esforço, e quem mais se destacava era uma jovem de cabelos castanhos presos em rabo de cavalo e olhos do mesmo tom, havia conseguido produzir uma massa de cosmo e ar que havia aberto uma cratera em seu pilar, quase o partindo ao meio.

- Essa é Agatha? - Questionou Shura.

- Ela mesma - Respondeu Kiki.

- Parece realmente ser promissora.

- Os gêmeos não vão fazer nada? - Questionou Shoryu sonolento. - Esse tal de Suikyo também não está se mexendo.

Na arena haviam dois jovens idênticos, albinos, seus longos cabelos brancos chegavam até metade das costas, apesar de presos em um rabo de cavalo alto, além disso, ambos possuíam pequenas esferas purpuras em cima dos olhos no lugar das sobrancelhas. Os meninos conversavam entre si, como se planejando algo.

Do outro lado da arquibancada, Mu, que não havia mudado nada em quinze anos, se encontrava em um dos assentos mais baixos, observando calmamente com um bebê em seu colo e uma menina loira de sete anos de pé,  que via tudo expectante ao seu lado.

"-Alguma ideia do que seus meninos estão planejando?" - Questionou mentalmente a seu velho amigo.

"- Provavelmente, em como podem se ajudar para quebrar os pilares. Afinal, não há nenhuma regra que impeça isso."

"- Tem razão, porém, é estranho que se ajudem quando disputam a mesma armadura"

"- Não para eles."

Ao lado dos meninos, porém, Suikyo se mantinha sentado no chão, em pose de lótus, de olhos fechados, enquanto reunia seu cosmo.

Então tudo aconteceu muito rápido.

Os gêmeos Irekuha e Egas usaram sua telecinese para erguer seus pilares numa altura considerável, pelo menos três metros do chão, para então cada um dirigi-lo para uma direção diferente, um para a esquerda e outro para direita, fazendo em seguida que se chocassem ambos um contra o outro em plano ar, no centro da arena, implodindo em mil pedaços. Kiki já havia se levantado para usar sua própria telecinese para impedir que os detritos atingissem a plateia e os demais aprendizes, porém não foi necessário.

Antes que os destroços se espalhassem, Egas ergueu a mão esquerda, da qual começou a emitir raios de energia, ondas brancas partiram da ponta de seu indicador em direção ao Gamanion, cobrindo-o e abrindo um grande portal logo embaixo, que fez tudo desaparecer.

No segundo seguinte, Irekuha abriu outro portal, próximo ao chão, trazendo todos os detritos de volta.

Foram apenas alguns segundos de silêncio até que os espectadores pudessem processarem o que havia acontecido, para então, em sua maioria, levantarem e começarem a aplaudir e assobiar.

- Impressionante. - Declarou Kiki tornando a se sentar - Eles não apenas foram inteligentes o bastante para usarem o próprio Gamanion contra ele mesmo, ajudando um ao outro, como também abriram o Seikishiki apenas para impedir que os demais se ferissem depois da colisão.

- Viu - Disse Máscara da Morte sorrindo prepotente - Eu disse que vocês iriam se surpreender.

- Eles aprenderam isso em uma semana? - Exaltou-se Shura, também impressionado.

- Sim, os dois. Parece que alguém ganhou uma aposta, não é?  - Cantou vitória o italiano, aumentando a voz sobre a multidão que aplaudia.

- Eu não estaria tão certo disso - Declarou o Grande Mestre apontando na direção exata do único aprendiz que ainda não havia feito qualquer movimento até aquele momento - Suikyo começou a agir.

Os olhares se voltaram para o adolescente, que estava finalmente de pé, com os olhos ainda fechados.

"-Talvez você ache esse movimento familiar, Shiryu" - A voz de seu mestre soou em sua cabeça, não era capaz de saber onde ele estava, pois havia ocultado sua presença, porém tinha certeza que estava em algum lugar alto observando tudo com Shion.

E antes que o golpe fosse executado, surpreendeu-se com tamanha energia acumulada. Se esforçou ao máximo para ouvir por entre a multidão que aos poucos deixava de comemorar.

- Voo da águia! - Escutou. Enquanto apenas pelo cosmo emanado pôde perceber que o jovem havia erguido o punho direito e socado o céu, num movimento muito parecido ao cólera do Dragão.

Provavelmente a isso Dohko se referia.

Uma enorme rajada de vendo e energia subiu aos céus, numa leve diagonal, para então a gravidade se reverter e o turbilhão acertar em cheio o pilar de cima para baixo, estardalhaçando-o completamente e o convertendo em pó.

A multidão ficou em choque novamente, para logo explodir numa intensa salva de palmas, muitos pulavam eufóricos em seus lugares.

- Apenas os sucessores a armadura de ouro conseguiram esse nível de destruição - Colocou Áries incapaz de esconder seu choque, virou-se para Shoryu que parecia finalmente desperto e observava a arena com interesse - Até agora apenas seu filho e o primogênito de Aioria conseguiram esse nível de dano

- Esse Suikyo é um verdadeiro prodígio - Analisou Shura admirado ainda sentindo o cosmo emitido no golpe - Mesmo levando a armadura de prata de Taça, claramente tem um poder capaz de superar um Cavaleiro de Ouro num piscar de olhos. Qual é o seu signo?

- Câncer - A resposta partiu de Máscara da Morte, que, no entanto, trazia uma expressão anormalmente séria. - Pelo menos, eu sinto o cheiro da morte emanando dele.

O antigo Dragão virou-se para Máscara com a sobrancelha franzida, para logo voltar-se novamente para a arena.

- Sim, de fato, ele é canceriano também - Levantou-se. - Silêncio,  silêncio por favor. -Apesar da bagunça, muito rapidamente as vozes foram cessando após a petição do chinês, os dez participantes voltaram-se ao patriarca - Obrigado. Agora, dez aprendizes passaram na primeira etapa, quatro disputam a armadura de Altar, três a armadura de Lagarto, e três a de Taça. Se algum de vocês deseja se retirar antes da etapa de combate, por favor, levante a mão. Primeiro, Altar.

Dois levantaram a mão,  entre eles, Irekuha.

- Irekuha! - Exclamou seu irmão - O que você está fazendo?!

- Com todo o respeito Grande Mestre,  acredito que meu irmão será um melhor cavaleiro do que eu, por isso, sinceramente,  eu gostaria de seguir a vocação de curandeiro - Voltou-se ao irmão - Então se você não ganhar essa, eu vou costurar sua cabeça no colchão enquanto você dorme.

Egas apenas sorriu com tristeza.

"-Como eu disse - A voz de Mu surgiu novamente em sua cabeça - Irekuha jamais considerou seriamente enfrentar seu irmão, então não havia porque não cooperarem"

"-Entendo...Você realmente conhece seus filhos"

E mesmo que não pudesse ver, Mu sorria, enquanto Irekuha abandonava a arena e sentava ao seu lado, sendo repreendido por sua irmã mais nova.

O seguinte desistente alegou que não possuía energia para enfrentar uma técnica como o Seikishiki, ficando apenas dois pela armadura de Altar.

- Muito bem, agora armadura de Lagarto. - Não houve nenhum desistente. - Certo, por último, Taça.

O único que não ergueu a mão foi o próprio Suikyo, este ficou sem graça enquanto os antigos adversários alegavam que ainda não possuíam poder para enfrentá-lo.

- Parece que alguém ganhou por W.O - Assobiou Máscara.

- Isso já aconteceu antes?  - Perguntou Izo, que havia mantido silêncio até então, analisando ao máximo os aprendizes e seus movimentos. Afinal, em breve seria ele que passaria por algo assim.

- Já, com Shoryu, a demonstração de força dele também impressionou a concorrência - Respondeu Kiki. - E naquela vez...- Voltou a vista para onde Shiryu estava sentado, porém, o lugar já estava vazio, com a única exceção da bata de mestre. - E lá vamos nós de novo.

Shura revirou os olhos.

- Ele realmente não muda.

Num incrivelmente alto e rápido mortal, Shiryu pousou na arena, levantando areia para todas as direções.

- Se não existe um adversário, eu me disponho a enfrentá-lo - Declarou aquecendo-se e estralando seus ossos, trajando suas antigas vestimentas chinesas - Se me atingir com um único golpe, a armadura será sua - Voltou-se aos demais aprendizes - Assim que acabarmos, será a disputa de Lagarto e então de Altar, peço que por hora se retirem.

Sem questionar todos saíram rapidamente.

- Grande Mestre? - Perguntou desconcertado o jovem de cabelos azuis espetados, hesitante.

- Eu fiquei muito interessado em sua força, além do mais, pelo que conversamos, você não se consideraria digno se ganhasse desse jeito, não é? - Assumiu postura de ataque - Então dê o seu melhor!

Foram três horas inteiras nas quais Suikyo atacou de todas as formas possíveis, mas nem mesmo seu voo da águia atingiu sequer um fio de cabelo de Shiryu, era absurdo como o mais velho desviava com graça e elegância, não apenas como se pudesse ver os movimentos contrários, mas também como se eles estivessem em câmera lenta. Como era capaz de fazer isso sendo cego? Se questionava Suikyo. Quando o sol começou a se por, o adolescente já estava arfante, enquanto o patriarca não tinha sequer uma gota de suor.

Não era à toa que aquele era o homem que liderava o exército de Athena.

- Desiste? - Questionou vendo como o mais novo cambaleava frente aos entulhos de Egas e Irekuha.

Porém, não obteve resposta. Quando o garoto começou a cair para trás, rapidamente Shiryu correu até ele, com o intuito de segurá-lo antes que caísse de cabeça nos detritos, estava a ponto de tomar seu tronco quando sentiu algo bater em sua testa.

- Se não possuí energia, nem som, você não pode prever...- Sussurrou, antes de desmaiar de exaustão, sendo segurado pelo chinês.

- Então você gastou toda a sua energia, deduzindo que, sem cosmo algum, eu não seria capaz de identificar seu movimento, muito bem. - Disse guiando-se pelo tato e pelo calor contrário para descobrir que fora a mão do menino que o acertou na testa. - Muito bom mesmo.

O deitou no chão e declarou para todos:

- O vencedor é Suikyo!

E mesmo com os gritos de urra e aplausos, o menino não despertou.

As seguintes lutas não foram nem de longe tão difíceis, mas também foram disputadas, arrastando a cerimônia até as dez horas da noite, onde Agatha, com o braço direito deslocado, e Egas, que mancava, saindo como vencedores. A essa altura, Suikyo finalmente havia despertado, com a ajuda dos poderes de Shion, sendo o primeiro que viu, a orgulhosa expressão de Dohko, que o abraçou quase ao ponto de sufocá-lo.

Então, foi em meio de uma animada comemoração que os três foram nomeados os novos cavaleiros de prata, embora só poderiam atual oficialmente em missão quando completassem quinze anos, todos estavam radiantes, mesmo Suikyo, que sorria enquanto era abraçado por seu pequeno irmãozinho.

Já passava de meia noite quando todos finalmente haviam abandonado o coliseu, e Shiryu despedia-se de Shura, que era responsável pela ronda noturna junto com Seiya naquela noite. Kiki havia saído mais cedo para Rodorio, comemorar junto com Mu e sua família a promoção de Egas.

No meio do caminho para as doze casas, porém, o libriano deparou-se com Suikyo.

- Muito obrigado por hoje,  Grande Mestre. - Declarou curvando-se ao estilo oriental, levando em suas costas a urna de Taça - Depois de amanhã eu me empenharei como novo cavaleiro de Taça, eu partirei cedo com meus mestres, então resolvi agradecê-lo agora - Tornou a erguer-se - E se possível,  daqui a alguns anos, quando faça jus a minha posição, se não se importar, eu gostaria de uma revanche.

Shiryu sorriu, aproximando-se mais do rapaz.

- Eu estarei aguardando ansioso esse dia. Mas eu tenho uma dúvida, por que começará a se empenhar apenas depois de amanhã? Tão longa será a viagem de vocês dessa vez?

- Não - O jovem sorriu radiante - É que eu prometi a Suisho que brincaria com ele amanhã.

o- Entendo - Uma expressão de satisfação assumiu a face de Shiryu - Então uma boa viagem para vocês, espero que nos reencontremos em breve.

- Sim! - E com outro cumprimento mais, saiu pela direção oposta.

Sentindo-se completamente cansado, mas extremamente realizado, o chinês seguiu seu caminho até as doze casas. Ao chegar no início da escadaria de Áries,  porém, soltou um longo suspiro.

- Eu entendo como se sente, subir as doze casas pode ser realmente desgastante. - Reconheceu a voz e presença como sendo de Afrodite - Por essas e outras que eu acabei de mudando para um lugar bem plano em Rodorio.

Afrodite não parecia ter envelhecido sequer um dia, mantendo-se belo como sempre, usando simples roupas civis e o cabelo preso num coque.

- O que te traz tão tarde aqui então Afrodite? - Questionou casual o Grande Mestre - Problemas com Piada Mortal?

- Na verdade não, ele está com Mu e os meninos agora, resmungou a tarde toda que não pôde ver a cerimônia, mas acredito que já é seguro o suficiente deixá-lo fazer parte da comemoração. Eu só vim aqui fazer uma entrega, simples negócios.

- Entrega? - Questionou confuso.

- Você verá em breve - Sorriu misterioso - Tenha uma boa noite Shiryu.

E saiu sem mais comentários.

A curiosidade ajudou-o a amenizar o cansaço, enquanto subia todos os doze santuários até seus aposentos, bocejando vez ou outra, anunciando sua passagem a cada casa, e quase tropeçando no chão escorregadio de Aquário. Quando finalmente chegou a décima terceira morada, tudo que queria era ir para seu quarto e dormir até amanhã, com roupa e tudo.

Contudo, um cheiro entre doce e cítrico chamou sua atenção, o guiando até os banhos termais, o local usado para purificar o corpo dos patriarcas antes que tivessem contato com Athena.

Na maioria das vezes, usado apenas como um banho relaxante, afinal, depois de tudo, os Grandes Mestres também eram humanos.

- Parece que a cerimônia estendeu-se bastante dessa vez - A suave voz de Shunrei o recepcionou.

Aproximou-se dela e beijou seus lábios, sentindo como usava um suave roupão de seda.

- Boa noite, desculpa a demora. Que cheiro é esse?

- Ervas com funções relaxantes, perguntei a Afrodite se ele possuía algo assim que pudesse ser usado no banho e ele me trouxe algumas. Achei que seria bom para que você pudesse relaxar e descansar um pouco para variar.

Então o chinês compreendeu o comentário sugestivo de peixes, sorrindo para si mesmo.

- O que eu faria sem você?  -Confessou do fundo de seu coração.

Abraçou o pequeno corpo contra o seu, beijando-a novamente, enquanto se deixava levar para aquelas revigorantes águas.

Se mantiveram apenas abraçados, ambos despidos de suas roupas, apreciando os efeitos daquela mistura calorosa e natural, mas o contato pele a pele fez o chinês pensar.

- Shunrei.

- Sim? - Ela desencostou do peito de seu amado para encará-lo

- O que acha de termos outro filho?

Ela ruborizou rapidamente, afastando-se completamente constrangida.

- Shiryu! Isso era para você relaxar! - Exclamou tampando o rosto como uma adolescente - Não era para...Outra coisa. É errado e impuro fazer isso num lugar desses!

- Não vejo como um ato de amor como o nosso pode ser impuro, mas dessa vez eu realmente só estava pensando na possibilidade de termos uma criança, e não no ato em si - Explicou com carinho, sorrindo pela reação contrária.

- ...Ah...Sim... - Sem graça por suas próprias deduções, ela voltou a se aconchegar, para logo responder - Não acha que já temos filhos o bastante aqui no santuário?

E o sorriso do chinês mal cabia em sua face, enquanto beijava a raiz dos cabelos de sua amada.

- Sim, você tem razão.

E quando foram dormir aquela madrugada, Shiryu, apesar de seu dia a dia cansativo e atarefado, simplesmente não podia desejar ter outra vida.

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Notas Finais


E é isso minha gente, espero que vocês tenham gostado!!

E para os leitores de guerra e paz, vocês pegaram todos os detalhes que essa sútil estória teve?~

Por favor, não deixem de comentar~


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