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História O herdeiro - Capítulo 2


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Notas do Autor


Espero que gostem

Capítulo 2 - O banquete


Estou no meu solar, esfregando minhas mãos, lavando-as, repetindo continuamente o movimento em uma pequena bacia, até que ouço alguém bater à porta.

– Entre.

Pego um pano para secar as mãos, embora sinta que ainda não estão totalmente limpas, e me viro para receber a visita.

Ru-an surge diante de mim, fazendo uma reverência discreta.

– Perdoe minha interrupção. Uma caçada foi convocada, Magestade.

– Agora?

Eu o encaro. Não consigo imaginar algo que nesse momento eu queira fazer menos do que perseguir uma criatura inocente pela floresta. Continuo a secar minhas mãos no pano, esperando que as próximas palavras do meu guarda sejam para dizer que não preciso ir, que está apenas me comunicando os planos da rainha para hoje.

– A rainha insistiu que você compareça, Magestade.

Eu me viro, fechando os olhos e os abrindo outra vez quando os homens mortos me encaram de volta. Por que marcar uma caçada para hoje? Quase nunca fazemos isso, mas hoje...? Quero visitar meu templo, fechar as portas e não pensar em nada. Quero sentir minhas mãos limpas. 

– Vou deixá-lo se preparar, Magestade – diz Ru-an, antes de sair do meu quarto.

Eu o observo ir embora, com um nó se formando no meu estômago. Não adianta tentar enviar uma mensagem implorando pela minha ausência, suplicando que ela me permita visitar meu templo. Ela sabe que eu irei. Eu poderia ter matado um ou cem homens esta manhã, e iria mesmo assim, porque ela ordenou. Minha família não pode se dar o luxo de perder o dinheiro e a comida que ela manda a cada lua, e ela não os enviaria caso eu a desagradasse. Ela já fez isso. Sabe que não arriscarei que minha irmã sofra mais do que o necessário por minha causa, sabe que sinto culpa por ter deixado ela para trás. Ela me conhece, e sou uma marionete obediente, fácil de controlar para quem sabe quais cordas precisa puxar, e o cordel ligado à minha irmã é o que deve ser manuseado se quiserem garantir minha obediência. Mas, mesmo que isso não fosse verdade, ela fala com a autoridade dos Deuses. Se acabo com uma vida, é pela vontade deles. E, se esta é a vontade deles, não posso reivindicá-la.

Quando saio do quarto com meu manto sobre os ombros, encontro apenas Ru-an esperando por mim.

– Onde está o outro guarda? – pergunto, procurando-o.

Ru-an contrai os lábios.

– Ele foi transferido, Magestade.

O dia só melhora, penso, embora eu não esteja surpreso. Quase todos os meus guardas deixaram o cargo algumas luas depois de terem assumido. Por mais que os homens que a rainha escolhe sejam treinados para matar de maneira rápida e impiedosa, conheço apenas um que é forte o bastante para acompanhar um menino capaz de assassinar com um único toque... Todos os outros solicitam transferências, e seus pedidos são sempre aceitos. Acredito que a rainha prefira assim. Afinal, se um guarda passasse tempo demais comigo, poderia perder o medo de mim, e talvez passasse até a gostar e ser leal a mim, e não a ela. E a rainha nunca permitiria isso.

A não ser uma vez. Em um único caso ela permitiu, mas duvido que tenha se dado conta disso.

Ru-an está comigo desde o início. Ele é mais velho que o rei, é grisalho e tem riscos cinza nas têmporas e na barba cuidadosamente aparada. Ele mantém o cabelo comprido, prendendo-o na altura da nuca, e seus olhos são castanhos e atentos. É o guarda perfeito, carrancudo e profissional, e sei que não somos amigos, mas somos alguma coisa. Temo o dia em que também vão tirá-lo de mim. Já conhecemos os movimentos um do outro, então seria muito difícil enganá-lo. Como se fôssemos casados há muito tempo, conhecemos um ao outro muito bem, e não preciso ter medo de que ele cometa um erro.

– Então, somos só eu e você? – pergunto.

– Temporariamente, Magestade. Fizeram testes ontem, e acredito que o novo guarda vai se juntar a nós hoje, mais tarde. Estou encarregado de explicar para ele suas funções enquanto você participa da caçada. A Guarda da Rainha vai acompanhá-lo, como sempre.

– O outro guarda foi transferido depois da Narração? – questiono, tentando manter um tom de voz estável.

– Ele solicitou a transferência há algum tempo, Magestade, mas a rainha ainda não havia aprovado o novo guarda. Acredito que agora ela já tenha escolhido um.

– Quanto tempo você acha que este vai durar? – Dou um sorriso pesaroso.

– Não tanto quanto você merece, Magestade. Ande, não queremos deixar Suas Majestades esperando.

Ele dá um breve sorriso gentil, e sinto o nó no meu estômago apertar. Ru-an lidera o caminho, descendo a escada, e me mantenho afastado, com as mãos ao lado do corpo, rezando aos Deuses para que ele também não vá embora.

                                             *

O grupo está reunido, com as damas vestidas de verde e prata e os homens com roupas de caça azuis e douradas, enquanto visto meu manto escarlate, por cima do terno da mesma cor. A rainha gosta que eu use vermelho, porque acredita que isso enfatiza meu papel, e, por essa razão, a maioria dos meus ternos e mantos é vermelho.

Os cães trotam ao redor do rei, estalando os maxilares, com os olhos treinados a encará-lo, esperando por um comando. Odeio estes cachorros mais do que quase tudo no mundo. São diferentes dos cachorros do vilarejo onde cresci: não se acovardam ao serem reprimidos, nem exibem a barriga ao ouvirem uma palavra gentil. Estes cães têm pernas compridas e musculosas, e enormes cabeças chatas e largas. São uma cruza de alano com mastiff, e com algo mais selvagem e mortal. Têm um pelo áspero, mosqueado e malhado de marrom e dourado. Não me agradaria nada acariciá-los, mesmo que permitissem. Sorriem maliciosamente e possuem olhares vazios. Encará-los é como fitar os olhos do homem que executei esta manhã: são inexpressivos, sem consciência, sem alma.

E, se há algo do qual entendo, é de almas. Antes de me tornar o Daunen Encarnado, eu era o filho da Devoradora de Pecados.

                                           *

O cheiro dos cães preenche o salão, almiscarado e pútrido, junto ao odor de carne e morte, e vejo a rainha cobrir o rosto com um xale delicado. Os cachorros não gostam de carne morta, preferem devorar a vida de suas vítimas ao derrubá-las, e estão sempre ansiosos para caçar. Sabem o que significa estarem reunidos aqui, e sua animação, seu andar em círculos, deixa um gosto amargo na minha boca. Espero que hoje eles não cacem um homem ou uma mulher. Quero que decidam ir atrás de um animal.

Quando vi, pela primeira vez, a rainha soltar os cachorros atrás de um prisioneiro – um ladrão que havia saqueado uma das casas de campo do seu senhor –, quase vomitei meu café da manhã no piso do salão. Eu sabia que ela fazia esse tipo de coisa, o reino inteiro sabia que os castigos da rainha eram especialmente cruéis, mas testemunhar, sentir o cheiro e ouvir, enquanto os cães despedaçavam o homem, foi demais para mim. Até mesmo para alguém como eu foi demais. Ru-an me protegeu, contando para a rainha que eu reclamara estar passando mal a manhã inteira. Então me mandou voltar para a cama e descansar, um curandeiro foi despachado para me cutucar com uma vara de vidro e me medicar com chá de raízes fétidas.

Desde então, tenho sido atormentado por pesadelos com cães me perseguindo, indo atrás da minha irmã, de Taehyung, de Ru-an. Acordo encharcado de suor, tremendo, convencido de que estou sentindo o cheiro deles no meu quarto. Nenhum crime merece tal destino, não importa o que a rainha diga. Sei, no entanto, que as pessoas dizem o mesmo sobre o que eu faço, por mais que os condenados que eu execute sejam traidores do reino.

– Jimin – chama a voz fria e entrecortada da rainha.

Faço uma reverência exagerada, uma reação que vem do mesmo instinto que leva um rato a achar uma fenda no chão ao ouvir o pio de uma coruja.

– Abençoada Narração – diz ela, e a corte repete em um murmúrio. – Você pode visitar o templo depois da caçada.

Baixo ainda mais a cabeça, em agradecimento.

– Obrigada, Vossa Majestade.

Dois dos guardas dela vêm até o meu lado, mantendo uma distância constrangedora. Quando as grandes portas de madeira se abrem, descemos a escada até os cavalos que estão selados e à nossa espera. Primeiro a rainha e sua guarda, seguidos por mim e pela minha guarda, e depois o restante da corte.

Subo sem ajuda no dorso largo da minha égua. A Guarda da Rainha fica parada em silêncio, apenas observando meu esforço. Depois, incito minha égua a seguir em frente e se juntar ao comboio da rainha. Cavalos são imunes a Praga-da-manhã, então corro os dedos pelas pontas da sua crina, que se derrama sobre o meu manto. É agradável tocar algo morno, algo vivo, sabendo que ela não sofrerá com o meu toque.

Olhos inexpressivos me encaram e sangue pinga na madeira manchada.

Estremeço e aperto a crina da égua, mas isso chama a atenção da rainha, então afasto os pelos e enrosco os dedos na rédea. Ela segue na dianteira, à frente do rei, e tanto eu quanto os cães soltamos suspiros suaves de alívio. Suspeito que sou a única que fica feliz porque hoje vamos cavalgar separado e não seguiremos os homens na caçada. A risada dos cães perturba os cavalos, até mais do que os cavaleiros. E já houve situações em que eles se cansaram da caça e atacaram um cavalo ou um cavaleiro.

Enquanto cavalgamos, fixo os olhos nos cumes das montanhas. Estamos cercados por elas por três lados. Os morros aninham o reino como uma mulher aninharia o filho recém-nascido. A cidade de Lortune e o castelo de Lormere estão situados no ponto mais ao leste de Lormere, e partes do castelo foram construídas incrustadas nas pedras, dando a impressão de que os largos anexos saem da própria montanha, numa tentativa de escapar dela.

– Uma fortaleza natural – disse minha mãe certa vez. – Por causa das montanhas, Lormere nunca será derrotada. 

 A geografia é favorável ao reino, ou, pelo menos, é o que me disseram. As montanhas impedem que qualquer um invada nosso território, e a vasta e densa Floresta do Oeste serve de escudo. Sempre estamos no ponto mais alto, com a floresta crescendo em uma inclinação que leva ao planalto onde Lormere prospera, então temos essa vantagem sobre nossos inimigos. Além da Floresta do Oeste fica o reino de Tregellan, que, durante algum tempo, foi nosso pior inimigo. Cem colheitas* atrás, travamos uma guerra sangrenta com eles, uma batalha iniciada por eles, mas da qual Lormere saiu vitoriosa, e um tratado de paz foi assinado por nossa família real e pelo conselho tregelliano.

Atravessando a extensão mais ao norte das montanhas, onde as rochas marcam os limites de Tregellan, e estendendo-se para o norte e oeste, até encontrar o mar, fica o reino perdido de Tallith, que está praticamente abandonado há meio milênio. Tudo o que resta dele são pequenos vilarejos envolvidos em batalhas perpétuas por territórios com seus vizinhos. Outrora, Tallith foi o mais rico entre os reinos, quando Lormere não passava de um punhado de povoados feudais nas montanhas, governados pelos ancestrais da rainha. Mas, com a decadência da dinastia real, Tallith caiu em ruína e seu povo partiu, a princípio em pequenas ondas migratórias, depois em grande número. Alguns se fixaram em Tregellan, outros foram mais longe, encarando a floresta e a altitude, e chegaram a Lormere. Dizem que o sangue tallithiano corre nas veias de um quarto dos lormerianos, e, às vezes, é possível identificar esses traços, quando, por exemplo, uma criança nasce com o Olho-de-Deus ou com o cabelo louro-acinzentado pelos quais eram conhecidos os tallithianos.

Cavalgamos em silêncio e a floresta ao redor aquieta enquanto nosso cortejo segue pelo meio das árvores. Lormere é fértil, mas, por causa da altitude, grande parte da terra é mais produtiva se usada como pasto. Podemos cultivar nossos próprios nabos, batatas, chirívias, centeio e feijão, mas grãos não crescem bem na região. Precisamos importá-los do norte de Tregellan, onde agricultores dispõem de uma abundância de terras cultiváveis próximo ao rio que separa Tregellan de Tallith. Todos os peixes e frutos do mar que comemos também vêm de Tregellan, pescados do rio ou trazidos pelos pescadores que se aventuram no Mar de Tallith. Isso faz com que esses alimentos sejam artigos de luxo. Antes de chegar ao castelo, eu nunca tinha comido pão branco.

Há um farfalhar nas árvores à nossa esquerda e todo mundo se vira. A Guarda da Rainha ergue suas espadas. Um instante depois, uma marta salta de um arbusto, rugindo de raiva enquanto sobe correndo um abeto antigo.

Uma das ladies dá uma risadinha, e os guardas voltam a guardar suas espadas, visivelmente constrangidos. A rainha cavalga à minha frente e nossos guardas formam um círculo ao nosso redor. Seu longo cabelo castanho reluz ao brilho mosqueado do sol que atravessa os carvalhos, tílias e abetos.

Ela é linda e, ao se virar para conferir se seu comboio está em ordem, exibe um perfil orgulhoso. Sua tez é pálida e imaculada, as maçãs do rosto são saltadas e tem olhos escuros, como os de toda sua família. A linhagem real gera uma beleza morena, e o sangue deles permanece puro. A última moda da corte são as ladies imitarem a coloração real, por isso as que têm cabelo claro tentam tingi-los, usando tinturas feitas de cascas de árvores e frutas, obtendo resultados variados. Algumas ladies, inclusive, já ficaram quase cegas ao colocar atropa nos olhos, tentando obscurecer as íris azuis ou castanhas. Comparada a elas, pareço um ser de outro mundo, com meu cabelo vermelho, olhos verdes e pele sardenta. Aliás, acho que realmente sou de outro mundo. 

                                            *

Nas profundezas da mata ao norte do castelo, um pavilhão dourado nos espera. Sob os picos, uma longa mesa resiste ao peso de mais comida do que o grupo inteiro seria capaz de consumir: javali assado, pato caramelizado, bolinhos de gengibre, gulache grosso, pães e pudins. Carpetes de seda importados de lugares estranhos e exóticos cobrem o chão da floresta e há sandálias dispostas nas beiradas para nós. Quando a rainha desce do cavalo, fazemos o mesmo, depois trocamos nossas botas de cavalgada pelas sandálias e ocupamos nossos lugares. Quando me sento à direita da elaborada cadeira da rainha, me mantendo o mais afastado possível dela, duas das criadas me olham de relance, trocando sussurros furiosos, antes da maior delas empurrar a outra na minha direção. Desvio o olhar, mas antes percebo que a amiga vitoriosa sorri com satisfação.

– Vinho, Magestade? – A garota que foi forçada a me servir paira a uma distância segura de mim, com um jarro nas mãos.

– Não – respondo. – Gostaria de um pouco de água.

A garota faz uma reverência delicada, depois sai apressada e volta com água. Quando ela se aproxima, enrijeço, me mantendo totalmente imóvel. Ela se inclina de tão longe para me servir, que derrama um pouco na mesa, e observo o líquido ser absorvido pela toalha de mesa dourada, estragando a seda. Ela ignora a mancha escura, correndo para a amiga e reiniciando os sussurros.

Assim que cheguei ao castelo e fui informado sobre o que aconteceria a quem encostasse em mim, me senti especial e poderoso, como um rei. Ninguém poderia mais me agredir, me beliscar ou tomar coisas de mim. Também me tornei malicioso. Quando eu não conseguia o que queria, balançava os dedos para os criados, adorando vê-los empalidecer e se apressar de forma estabanada para realizar meus pedidos. Naquela época, no entanto, eu acreditava que o propósito da Praga-da-manhã era apenas provar meu valor. Os criados, no entanto, já haviam percebido que eu era uma arma. Não posso mais culpá-los por seu ódio. Se eu não fosse tão ingênuo, talvez não tivesse sido tão cruel. Mas é melhor mesmo que mantenham distância de mim, para não correrem o risco de sofrerem as mesmas consequências que Taehyung.

                                          *

A rainha brinca ociosamente com um leque, abrindo-o e fechando-o, enquanto observa a floresta em busca de algum vislumbre azul, inclinando a cabeça para tentar ouvir as trompas que costumam anunciar a chegada do seu marido. Não é comum ela se preocupar tanto com o paradeiro do rei, e isso deixa o restante do grupo nervoso. Todos estamos sentados perfeitamente eretos e imóveis, respirando o mais baixo possível. Olho de forma sutil de um lado para outro, observando a rainha aguardar, inquieta, depois conferindo se há algum movimento na floresta.

Nunca sabemos quando os caçadores se juntarão a nós. Eles não farão uma pausa enquanto os cães não tiverem matado alguma coisa, e, se estiverem caçando animais selvagens, nunca se sabe quando isso acontecerá. Nossa tarefa é esperar a chegada deles aqui, recebendo-os com uma aparência agradável e pitoresca. Quando os escribas registrarem os dias desta corte, a rainha quer ter certeza de que escreverão sobre elegância, beleza e tradição. Ela está determinada a governar a sua própria Idade de Ouro de Lormere, e, por isso, tudo deve estar perfeito.

– Jimin, o que você cantará hoje?

A rainha se vira para mim e indica um pajem.

– “A Balada de Lormere”, “A Corça Azul” e “Carac e Cedany” agradam Vossa Majestade?

– Muito bem – responde ela.

Por mais que a maneira como ela apresenta a questão faça parecer que a escolha das canções é minha, isso é pura ilusão. Se eu tivesse escolhido “Digno e Distante” ou “Uma Donzela Que Ri”, ela teria me encarado com um olhar frio e sombrio.

– E por que considera essas músicas apropriadas? – diria ela, com um tom de voz traiçoeiramente suave. – Para uma caçada, Jimin? Essas canções?

Escolhi as que pela tradição são cantadas em excursões de caça, já sei disso. “A Balada de Lormere” narra a história de como o avô do avô do avô do tataravô da rainha fundou o reino. “A Corça Azul” é uma canção mais recente, que recorda a história de como a mãe da rainha, com sua bata azul, foi confundida com uma corça mágica e caçada pelo rei da época, mas acabou sendo salva por ele antes que os cães salivantes conseguissem pegá-la. “Carac e Cedany” é uma canção de batalha, composta para os avós da rainha. É ao reinado deles que hoje nos referimos como Idade de Ouro de Lormere, época em que a última Daunen Encarnada esteve entre nós. E é a música preferida da rainha. Ela adora ouvir o conto de como nós lormerianos derrotamos a invasão tregelliana e dizimamos seu povo, mesmo depois de eles se entregarem e esvaziarem temporariamente seus cofres de ouro.

O rei Carac e a rainha Cedany queriam que Tregellan nos entregasse seus alquimistas, para que pudéssemos produzir nosso próprio ouro, como eles fazem, mas Tregellan recusou, ameaçando matar os alquimistas de forma que pudesse proteger os segredos deles. Para não perder toda a riqueza, Carac e Cedany aceitaram receber uma grande quantia de ouro alquímico, e é por isso que hoje chamamos essa era de “Idade de Ouro”.  

Dizem que os alquimistas de Tregellan hoje vivem escondidos, para que não sejam raptados e forçados a trabalhar para nós. Antes de morar no castelo, eu podia cantar o que bem entendesse, e inventava canções sobre o céu, o rio e os martins-pescadores. Quando cantei para o rei e a rainha pela primeira vez como Daunen Encarnado, escolhi uma dessas músicas criadas por mim, mas a rainha não ficou muito satisfeita.

– Quem ensinou isso para você?

– Eu inventei, Vossa Majestade. A música é minha.

– Então, sugiro que esqueça. Entendo que era aceitável que o filho da Devoradora de Pecados cantasse tais disparates, mas o Daunen Encarnado não deve fazê-lo. Isso não agradaria aos Deuses.

Assenti com a cabeça. Naquela época, eu ainda estava desesperado para impressioná-la, desesperado para provar meu valor. Isso foi antes de eu descobrir o que tudo aquilo significava.

                                         *

Um grito horrível vem da floresta e nos viramos todos juntos. Tento não imaginar a violência com que os cães abatem a presa. Espero que tenha sido rápido.

– Eles estão chegando. – A rainha se levanta e bate palmas. – Preparem o banquete.

É uma ordem desnecessária, pois os pajens prepararam tudo muito antes da nossa chegada, mas, ao ouvir o comando dela, eles se movimentam com um pouco mais de rapidez, enchendo jarros de vinho, trazendo mais tortas e pássaros para a mesa, que já está cercada de barrigas roncando. Relaxamos a postura, nos esforçando para sorrir, com as sobrancelhas erguidas, enquanto nos voltamos atentamente para a rainha, como se ela tivesse murmurado algum gracejo. 

A trompa sopra e os homens surgem, suados mas exultantes, saltando dos cavalos, e os cachorros arrastam os restos da carcaça atrás de si. Os quatro maiores brigam pela ossada, rangendo os dentes e preenchendo a clareira com rosnados. Eu desvio o olhar. A caça não renderá espólios, não sobrará troféu algum. Os cachorros vão devorar até os ossos. Para os homens, a emoção está na perseguição, e eles parecem muito satisfeitos com o trabalho que fizeram.

Nós nos levantamos quando o rei se aproxima, e, de repente, meu estômago fica embrulhado. Ele está acompanhado do príncipe.


Notas Finais


Colheitas: Anos


Espero que tenham gostado
Até a próxima.


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