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História O inferno de Lena Luthor - Capítulo 2


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Capítulo 2 - Capítulo 2


No fim da aula, Kara Danvers enfiou rapidamente o pedaço de papel dobrado no dicionário de italiano, na página do verbete asino.

– Desculpe pelo que aconteceu. Winslow Schott, mas todos me chamam de Winn. O homem simpático estendeu a mão grande por sobre a mesa. Kara a apertou de leve e ele ficou admirado ao ver como a mão dela era pequena em comparação à sua. Se fechasse a mão, poderia machucá-la.

– Olá, Winn, eu sou Kara. Kara Danvers.

– Prazer, Kara. Lamento que a professora tenha sido tão idiota. Não sei o que deu nela.  Winn chamou Luthor pelo título com uma dose considerável de sarcasmo. Ela ficou um pouco vermelha e virou o rosto para seus livros.

– Você é nova aqui? – insistiu ele, entortando um pouco a cabeça como se tentasse capturar o olhar dela.

– Acabei de chegar. Da Universidade de Saint Joseph. Winn assentiu como se isso significasse alguma coisa para ele.

– Veio fazer mestrado?

– Vim. – Ela gesticulou para a frente da sala de aula agora vazia. – Pode não parecer, mas pretendo me especializar em Dante. Winn assobiou.

– Então está aqui por causa da Luthor? Ela assentiu e ele percebeu que as veias no pescoço de Kara começaram a pulsar, à medida que seu coração acelerava. Como não conseguiu encontrar explicação para essa reação, resolveu ignorá-la. Mas se lembraria dela mais tarde.

– Não é nada fácil trabalhar com a Luthor, por isso ela não tem muitos orientandos. Só eu e Andrea Rojas, que você já deve ter conhecido.

– Andrea? – Ela o encarou com uma expressão intrigada.

– A garota lá da frente. É a outra doutoranda dela, mas seu objetivo é ser a futura Sra. Luthor. Ela acabou de entrar para o curso e já começou a fazer biscoitos para a professora, aparecer na sala dela e mandar torpedos. É inacreditável.

Kara tornou a assentir, mas não disse nada.

– Andrea parece desconhecer as regras rigorosas da Universidade de Toronto que proíbem o relacionamento entre professores e alunos. Winn revirou os olhos e foi recompensado com um sorriso muito bonito. Pensou que precisava fazer Kara Danvers sorrir com mais frequência. Mas, por enquanto, isso teria que ser adiado.

– É melhor você ir. Ela queria falar com você depois da aula. Está esperando. Kara jogou suas coisas às pressas na mochila L. L. Bean surrada que usava desde os tempos de caloura na faculdade.

– Hum... não sei onde fica a sala dela.

– Vire a esquerda ao sair daqui, depois dobre à esquerda outra vez. A sala dela fica no final do corredor. Boa sorte. Se não nos encontrarmos antes, nos vemos na próxima aula. Ela sorriu, agradecida, e saiu da sala.

Assim que dobrou à esquerda pela segunda vez, viu que a porta da sala da professora estava entreaberta. Ficou ali parada, nervosa, pensando se deveria bater primeiro ou enfiar a cabeça pela fresta. Após alguns instantes de indecisão, decidiu bater. Ela endireitou os ombros, respirou fundo, prendeu o ar e estendeu a mão. Foi então que o ouviu.

– Desculpe se não liguei de volta. Eu estava em aula! – disparou uma voz irritada, já bastante familiar. Houve um breve silêncio antes que ela prosseguisse: – Porque é a primeira aula do ano, seu imbecil, e porque, da última vez em que nos falamos, ela me disse que estava bem!

Kara recuou na mesma hora. Parecia que ela estava ao telefone, gritando com alguém. Não queria que a Luthor gritasse com ela, então decidiu fugir e enfrentar as consequências mais tarde. Mas então a professora deu um soluço de cortar o coração. E disso ela não pôde fugir.

– É claro que eu queria estar aí! Eu a amava. É claro que queria estar aí. – Um segundo soluço soou detrás da porta. – Não sei a que horas vou chegar. Diga que estou indo. Vou direto para o aeroporto e pegarei o primeiro avião, mas não sei que tipo de voo eu vou conseguir tão em cima da hora. – Ela fez uma pausa. – Eu sei. Diga a eles que sinto muito. Muito mesmo... – A voz dela foi sumindo até se tornar um choro suave e trêmulo, e Kara a escutou pôr o telefone no gancho.

Sem pensar no que fazia, ela espiou com cuidado pela fresta da porta. A mulher de trinta e poucos anos estava chorando, com a cabeça apoiada em suas mãos de dedos longos, os cotovelos em cima da mesa. Ela ficou observando seus ombros se sacudirem. Ouviu a angústia e a tristeza brotarem de seu peito. E sentiu pena. Queria ir até ela, oferecer consolo, abraçá-la, acariciar seus cabelos e lhe dizer que sentia muito. Imaginou por alguns instantes como seria limpar as lágrimas daqueles olhos expressivos, cor de esmeralda, e vê-los olhar para ela com carinho. Imaginou-se beijando o rosto dela bem de leve, só para deixar clara sua compaixão. Mas vê-la chorar como se seu coração estivesse partido a petrificou por um momento e ela não fez nada disso. Quando finalmente se deu conta de onde estava, apressou-se a desaparecer de volta atrás da porta, pegou às cegas um pedaço de papel de dentro da mochila e escreveu:

Sinto muito.

Kara Danvers.

Então, sem saber bem o que fazer, fechou silenciosamente a porta da sala, prendendo o bilhete contra o batente.

A timidez de Kara não era sua principal característica. Sua melhor qualidade, aquela que a definia, era sua compaixão – que não havia sido herdada de seus pais. O pai era um homem decente, mas severo e inflexível. A mãe, que já tinha morrido, não havia sido compassiva em nenhum sentido, nem mesmo com sua única filha.  Jeremiah Danvers  era um homem de poucas palavras, mas bem conhecido e querido por quase todos. Era zelador na Universidade de Susquehanna e chefe dos bombeiros do distrito de Selinsgrove, na Pensilvânia. A brigada de incêndio era toda composta por voluntários, então ele e os demais bombeiros estavam sempre de sobreaviso. Ele cumpria seu dever com orgulho e dedicação, o que significava que quase nunca parava em casa, mesmo quando não estava atendendo a alguma emergência. 

Na noite da primeira aula de Kara na pós-graduação, ele telefonou para a filha do posto de bombeiros, feliz por ela finalmente ter decidido atender o celular.

– Como estão as coisas por aí, Kara? – Sua voz não denotava nenhuma emoção, mas ainda assim era reconfortante e a aqueceu como um cobertor. Kara suspirou.

– Tudo bem. O primeiro dia foi... interessante, mas legal.

– Os canadenses estão tratando você direito?

– Ah, sim. São todos muito simpáticos. – O problema são os americanos. Quer dizer, uma americana.

Jeremiah pigarreou e Kara prendeu a respiração. Ela sabia, por anos de experiência, que o pai estava prestes a lhe dizer algo sério. Perguntou-se o que seria.

– Querida, Lilian Luthor faleceu hoje.

Kara se empertigou na cama de solteiro, o olhar perdido.

– Ouviu o que eu disse?

– Ouvi, sim.

– O câncer voltou. Eles acharam que ela estava curada. Mas a doença voltou e, quando descobriram, já estava nos ossos e no fígado. Lionel e os filhos estão muito abalados. Kara mordeu o lábio e conteve um soluço.

– Eu sabia que seria duro para você. Sei que considerava Lilian uma segunda mãe, e era muito amiga da Samantha na escola. Tem falado com ela?

– Hum, não. Não tenho. Por que ela não me contou?

– Não sei bem quando descobriram que Lilian estava doente de novo. Passei na casa deles hoje mais cedo e Lena nem estava lá. Isso criou um problemão. Não sei o que ela vai ter que enfrentar quando chegar. Existe muito rancor naquela família. – Jeremiah praguejou em voz baixa.

– Você vai enviar flores?

– Acho que sim. Não sou muito bom com essas coisas, mas posso pedir ajuda a Deb.

Deb Lundy era a namorada de Jeremiah. Kara revirou os olhos ao ouvir seu nome, mas guardou a reação negativa para si.

– Por favor, veja se ela pode mandar algo em meu nome. Lilian adorava gardênias. Deb também pode assinar o cartão por mim.

– Deixe comigo. Precisa de alguma coisa?

– Não, estou bem.

– Precisa de dinheiro?

– Não, pai. A bolsa é suficiente para eu me manter se controlar os gastos.

Jeremiah fez uma pausa e, antes mesmo que ele voltasse a abrir a boca, Kara já sabia o que o pai iria dizer.

– Sinto muito por Harvard. Quem sabe no ano que vem?

Kara endireitou os ombros e forçou um sorriso, por mais que seu pai não pudesse vê-lo.

– Quem sabe? Depois conversamos melhor.

– Tchau, querida.

Na manhã seguinte, Kara caminhou um pouco mais devagar até a universidade, ouvindo seu iPod. Em sua cabeça, escrevia e reescrevia um e-mail de pêsames e desculpas para Sam. A brisa de setembro era quente em Toronto e ela gostava disso. Gostava de estar perto do lago, do clima ensolarado, da cordialidade, das ruas limpas, sem lixo. Gostava do fato de estar em Toronto e não em Selinsgrove ou na Filadélfia – de estar a centenas de quilômetros de distância dele. Esperava apenas que pudesse continuar assim.

Ainda estava pensando no e-mail para Samantha quando entrou na sala do Departamento de Estudos Italianos para conferir seu escaninho. Alguém cutucou seu ombro. Ela se virou, tirando os fones de ouvido.

– Winn... oi.

Winn sorria para ela, olhando para baixo. Kara era baixinha, ainda mais quando estava de tênis, e o topo da sua cabeça mal alcançava a parte de baixo do peito dele. O sorriso de Winn sumiu ao perguntar, com uma expressão preocupada:

– Como foi seu encontro com a Luthor? Ela mordeu o lábio, um tique nervoso do qual não conseguia se livrar, principalmente por não ter consciência dele.

– Hum... não encontrei com ela. Ele fechou os olhos e inclinou a cabeça para trás. Soltou um pequeno grunhido.

– Isso... não é nada bom. Kara tentou explicar a situação:

– A porta da sala estava fechada. Acho que ela estava ao telefone... não sei direito. Deixei um bilhete.

Winn notou o nervosismo dela e a maneira como suas sobrancelhas delicadamente arqueadas se franziram. Sentiu pena de Kara e amaldiçoou mentalmente a professora por ser tão grossa. Ela parecia se magoar com facilidade e Luthor não percebia como sua atitude afetava os alunos. Então Winn decidiu ajudá-la.

– Se ela estava ao telefone, não gostaria de ser interrompida mesmo. Vamos torcer para que tenha sido isso. Se não, eu diria que você está em maus lençóis. – Ele se empertigou, revelando toda sua altura e abrindo os braços de modo casual. – Se houver alguma consequência, me avise e verei o que posso fazer. Se ela gritar comigo, eu aguento. Mas não quero que grite com você. – Porque, pelo visto, você morreria de pavor, Coelhinha Assustada.

Kara pareceu querer dizer algo, mas ficou calada. Ela abriu um leve sorriso e concordou com a cabeça, como se agradecesse. Então foi até os escaninhos e esvaziou o seu. A maior parte das correspondências não tinha importância. Algumas notificações do departamento, incluindo o aviso de uma palestra pública a ser ministrada pela professora Lena K. Luthor, intitulada “Luxúria no Inferno de Dante: O pecado mortal contra o ego”. Kara releu o título várias vezes antes de conseguir absorvê-lo. Mas depois começou a cantarolar suavemente para si mesma. Estava cantarolando quando notou um segundo aviso, mencionando que a palestra da professora Luthor tinha sido cancelada e seria remarcada. Ainda cantarolava ao ver o terceiro aviso, informando que todas as aulas, compromissos e reuniões da professora Luthor estavam cancelados até segunda ordem. Por fim, sem parar de cantarolar, enfiou a mão no fundo do escaninho e retirou um pequeno pedaço de papel. Ela o desdobrou e leu:

Sinto muito.

Kara Danvers.

 

Continuou cantarolando enquanto tentava entender o que significava encontrar seu próprio bilhete no escaninho um dia depois de deixá-lo preso à porta da professora Luthor. Finalmente ficou em silêncio e seu coração parou de bater quando virou o papel e leu as palavras:

"Luthor é uma babaca."

 



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