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História O Inimigo - Capítulo 1


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Notas do Autor


Olá! Muito obrigado por estar aqui.

Para uma melhor experiência, ouça esse link: https://www.youtube.com/watch?v=BR1YPQ8pkUA enquanto lê.

Gosto muito das séries ESO e acho que a soundtrack casa com a história.

Capítulo postado também no Nyah. Espero que não me perca nessa mudança de plataforma xD

Capítulo 1 - Capítulo 1 - Do passado para o presente.


AURIEL


Olhar para as estrelas já não possuía o mesmo sentido de quando se era ainda criança. Já não havia a mesma inocência de olhar para o céu e contar quantos pontinhos brilhantes haviam no grande manto negro. Olhar para as estrelas agora tornou-se a estratégia de manter-se acordado enquanto monta-se guarda para os seus companheiros de batalha junto com outro companheiro. Além de manter-se acordado você precisa aprender a acostumar com a dor que o frio causa nas suas juntas.

Tolerar a dor física era algo extremamente comum para um Explorador. A resistência era uma habilidade que a luta pela sobrevivência gera em você. E algo que um Explorador deveria saber bem era lutar – lutar pelas vidas das pessoas, pelo bem-estar da nação, pelo fim dos behemoths e se houvesse algum tempo durante esse campo de batalha, lutar pela sua vida também.

Ser aprovada como um membro oficial dos Exploradores foi um dos piores desafios que já enfrentei. Nas provas iniciais você precisa lutar com todas as forças que possui para não morrer, pois eles te lançam nos ambientes em que a vida humana tem dificuldade de se desenvolver e prevalecer. Eles te jogam para morrer. Precisam saber se você possui resistência suficiente para lutar contra um behemoth e matá-lo. Os Exploradores não queriam pessoas que apenas soubessem lutar, mas que trouxessem a vitória – vivas ou  mortas.

A maioria daqueles que se candidatam para os Exploradores são órfãos, mercenários e pessoas morrendo pela fome e pobreza... Indivíduos que sabem não possuir nenhuma chance de viver de forma digna, onde a barriga não ronque a todo momento por um pedaço de pão.

Eu era uma órfão.

Fui acolhida pelo orfanato Black Swan, uma oficina secreta da Guilda dos Magos. O orfanato exigia bastante disciplina dos órfãos – horários fixos para comer e dormir, horários para treinamento de espada, luta corpo a corpo, aulas de alquimia e botânica, além de intensas horas limpando os estábulos, salas, corredores, janelas e ladrilhas dos seus edifícios. Quem não estava disposto a submeter-se a essa disciplina, dizia o Grande Mestre Mago, tinha a única opção de deixar o orfanato. Quando o Mestre Mago falava sobre deixar o orfanato, ele na verdade queria dizer ser sacrificado para os deuses dos magos e nunca mais ser um peso para ninguém. O ancião era o Mago responsável pela preparação e educação dos órfãos.

— Você acha que pode ser um mago da Guilda assim?! – ele dizia quando algum órfão errava a pronúncia de uma palavra – Comece tudo de novo!

— Garoto, se você recebesse um golpe de espada do seu oponente  assim estaria morto – logo após dizer isso, ele dava um golpe com sua espada de madeira, punindo o órfão pelo seu desempenho no treino.

—É inaceitável um verdadeiro mago não saber elaborar poções corretamente. Que vergonha! Absoluta vergonha! – ele ralhava – Comece de novo ou irei fazer você beber isso.

Ao decorrer dos anos o Arquemago e o seu conselho de mestres avaliavam se aquela criança possuía o gene dos Elementos – Ar, água, fogo ou terra. Ao perceber que sim, a criança era remetida a intensos treinamentos e provas até a idade de ser absorvida na Guilda dos Magos como aprendiz, e se demonstrasse excelência em suas aptidões após alguns anos poderia ser promovida a recruta.

Mas esse não foi o meu caso. Eu não demonstrei ter o gene de qualquer Elemento, e eles me destinaram para morrer. Assim como outros órfãos que também foram reprovados como eu.

Tudo porque éramos comuns demais, tudo porque não éramos especiais.

Eles gastaram tempo e dinheiro conosco e agora nós os retribuiríamos não com o nosso serviço na Guilda, mas com o nosso sangue em sacrifício a deusa dos magos. Esse era o fim para crianças comuns do orfanato Black Swan: sacrificados para a deusa Kutar.

Mas no dia que iríamos ser mortos, uma coisa diferente do cotidiano do orfanato aconteceu. Um terremoto acometeu a região do orfanato e consequentemente quebrou a estátua de Kutar horizontalmente no meio. O sacrifício foi postergado até que a estátua fosse restaurada e estivesse pronta para receber sacrifícios.

Os órfãos foram acorrentados em quartos separados até a restauração total da deusa. Infelizmente para o Arquemago a estrutura do orfanato não contemplava uma masmorra para aprisionar pequenos pestinhas que teriam seu fim postergado, afinal nem a Guilda dos Magos nem o orfanato cogitavam a possibilidade da sua sagrada e poderosa deusa, muito faminta de sangue de inocentes, tivesse sua estrutura de  gesso quebrada.

O orfanato era bastante sútil com as suas reais intenções. Na mascarada atitude de ajudar os órfãos de rua a terem um abrigo e comida, conseguiam material humano facilmente capturado para serem sacrifícios de paz ou eternos serviçais da Guilda dos Magos.

No dia seguinte, as coisas começaram a ficar mais interessantes ainda. Logo de manhã ocorreu um novo terremoto e o muro do orfanato foi fendido em brechas. Os magos se desesperaram e correram para as fechar.

A tarde veio acompanhada com gritos de guerra que ultrapassavam as paredes de pedra.

— A arca é nossa! Morte aos cultistas profanos!

— Morte!!!!!!

— Vocês vão pagar por zombar de quem não devia!

Cem homens armados haviam ultrapassado os muros do orfanato e estavam matando a espada todos os magos. Saquearam tudo, colocaram fogo no templo de Kutar e nas demais torres.

Estava ouvindo os gritos dos homens misturados com o terror dos magos quando um deles entrou dentro do quarto que estava acorrentada. Pude ver claramente a espada na mão esquerda e a tocha na direita, prontas para consumar o fim dessa torre também.

Porém o homem teve uma postura diferente em relação a mim.

— Criança, não tenha medo. Estou aqui pela Arca e não a matarei. Preciso que fuja daqui antes que esse lugar seja engolido pela terra – Ele utilizou a chave-mestre do Arque Mago para livrar-me das correntes.

Antes de sair, fiz a ele uma pergunta.

— Senhor, o que é essa tal de Arca?

Havia uma luz cintilante em seus olhos ao me responder.

— Ela é a salvação do povo de Auredon e os magos a querem destruir porque são muito maus, criança. Agora vá. Vá em paz e que a sabedoria e o temor te guie.

Uma parte das palavras daquele homem são um mistério para mim. Elas soam como... misericórdia. Misericórdia mesmo para uma criatura desprezível.

Parecia que aqueles homens sabiam que nós estávamos prestes a ser mortos pelos magos. Como se entendessem que éramos apenas órfãos, que não possuíamos outra saída a não ser procurar alguém que nos desse algo de comer. Como se aqueles homens viessem para evitar mais uma injustiça que os magos estavam prestes a cometer. Mas eu sabia que eles estavam ali por outro motivo.

Até hoje não consegui descobrir a origem daqueles homens e muito menos daquele terremoto que parecia mais proposital do que um  acidente natural. Como se algo estivesse com muita ira dos magos e tragasse o orfanato para dentro da terra.

O tempo passou e a sensação que fica  é como se o simples fato da Arca existir tivesse me salvado...

Depois de tudo isso acontecer fui parar novamente com fome e com frio nas ruas da capital. Para superar a fome comecei a roubar. Roubava nas multidões e nas madrugadas. Roubava às escondidas de padeiros e vendedores ambulantes, sempre com medo de ser pega e morta.

Com o tempo aprendi a lidar com a dura realidade de ir dormir com fome nas noites que não conseguia pegar nada. Aprendi a ser resistente. E isso foi-me útil para superar as provas de iniciação dos Exploradores.

Os vi pela pela primeira vez na adolescência. O explorador Hagred começou a campanha para alistar futuros recrutas dos Exploradores. Vi essa situação como mais um oportunidade de sobreviver e me alistei para as provas de iniciação para tentar ser um dos Exploradores. Nada poderia ser pior que o orfanato.

Pelo o que o explorador Hagred dizia, um Explorador contribuía para a causa nobre da manter o reino de Auredon livre de ameaças como os behemoths.

Nunca mais me esquecerei da figura do rechonchudo Hagred. Hoje ele atua nas fronteiras lestes, caçando behemots. Soube que quase perdera um dos braços a lutar com uma dessas abominações. Acredito que cada um possui o risco de perder algo a lutar com essas feras, pois cada behemoth deixa uma marca diferente nas pessoas que passam pelo seu caminho.

Behemots são criaturas selvagens que sofrem mutações genéticas e se tornaram bestas indomáveis e assassinas. O objetivo da existência de um behemoth é destruir qualquer forma de vida – de animais do campo a guerreiros com uma habilidade formidável com a luta. O que não se sabe ainda é porque tais criaturas existem e quem os criou. Alguns dizem que foi a maldade dos magos e outros dizem que foi o curso natural das coisas.

É por isso que os Exploradores existem. Para acabar com a ameaça dessas criaturas que assolam os territórios de Auredon. Pesquisamos e estudamos os materiais de behemoths e tentamos entender a existência dessas criaturas, além da busca de quem os criou. Houve algumas descobertas, mas nenhuma satisfatórias.

O tempo no orfanato me possibilitou ter afinidade com a espada, mas também criar poções e remédios. Pude aprender a interpretar os números, os mapas e o solo.

Além disso, pude criar resistência sendo uma órfão abandonada e faminta. Sobreviver como um rato furtivo nas ruas de Varalen requer um alto nível de estratégia – você precisa saber sacrificar algo em troca de um bem maior, um passo em falso e um Guarda Real estará te levando para a masmorra.

Os Exploradores precisavam testar dois novos recrutas, verificar se suas habilidades são úteis verdadeiramente. Por isso enviaram-nos a encontrar e analisar possíveis vestígios de behemoths na região sul de Auredon junto com dois experientes, porém intemperantes, Exploradores.

Jhone, o outro Explorador novato que montava guarda comigo, possuía habilidades admiráveis para os Exploradores. Além de ser bom em arco-e-flecha, conseguia rastrear as coisas muito facilmente. Dê a ele um exemplar de couro de behemoth e ele sem dificuldade encontrará outros semelhantes na área escolhida. Os Exploradores acharam melhor estudar e avaliar suas habilidades antes de direciona-ló em uma missão mais complexa.

Jhone e eu olhávamos  para o  céu cheio de estrelas brilhantes esperando a luz do sol se revelar.

— O que você vê quando olha para um céu assim? – Jhone me perguntou.

— Fusão nuclear.

— Você poderia deixar essa carga teórica de lado e olhar para o seu interior  pelo menos uma vez. Ver o que ele diz.

— Nesse momento o meu interior me diz que está com fome. Muita fome. E que está com saudades da Fortaleza... Da cama quente, da biblioteca cheia de livros e da cozinha cheia de delícias que acabaram de sair do forno.

— Isso não é o seu interior. É a sua barriga.

— E a barriga fica na onde?!

Jhone respirou fundo. Eu sei que ele estava guardando dentro de si uma frase cheia de cólera.

— O meu interior está me dizendo que você está com raiva – disse olhando para os seus olhos azuis cintilantes – Não entendo como você consegue ser meu amigo. Você realmente é uma pessoa muito caridosa.

— Sou seu amigo porque sua amizade me trás benefício.

— E que benefício alguém teria ao ser meu amigo? Eu sinto em lhe informar que não tenho ouro. Não deixaram nenhuma herança para mim.

— O benefício que a sua amizade me traz é me fazer pensar diferente... – ele deu uma pausa – Você não sente vontade de conhecê-los? Os seus pais?

— Meus pais agora são os Exploradores.

Ele mudou de assunto rapidamente sabendo que eu não iria dar continuidade a frase.

— Eu acho que lá encima deve ser bem mais frio. Além disso, um behemoth deve estar nos esperando.

— Os behemoths não habitam aqui há milhares de anos. Os Exploradores sabem disso e por isso nos enviaram. É uma simples pesquisa.

—  E você acha que eles pensam que somos incapazes de matar um behemoth?

—  Não acho, tenho certeza. Dependendo do tamanho da besta, Gethel e Farael não serão capazes de lidar sozinhos. Os Exploradores não são burros em sacrificar homens experientes

— O inesperado pode acontecer.

— Mas não vai, pois os meus estudos dizem que não há nenhum monstro nessa região. Somente animais selvagens, no máximo encontraremos uma matilha de lobos.

Há algumas semanas o pacato vilarejo de Caelora estava sofrendo ataques noturnos curiosos. As plantações estavam sendo reviradas a noite, gados estavam sumindo e alguns habitantes haviam desaparecido. Alguns moradores reclamavam de tremores vindo das montanhas, e outros disseram ver uma única vez certa luz violeta intensa vindo do topo da montanha Erudin.

Caelora foi construído na antiguidade na sombra da montanha. Os primeiros habitantes sentiam-se seguros na sombra da montanha porque em seu topo havia o forte Amnhe Alora embutido dentro de Erudin voltado para a segurança do sul.

O prefeito da região recebeu muitas reclamações dos moradores do vilarejo porque eles estavam com medo de haver um behemoth que fosse responsável por toda essa bagunça. Todavia, no entanto, pelas estimativas das minhas pesquisas não havia nenhum behemoth naquela área. Não apenas pelos vestígios pesquisados mas também pela conclusão lógica de que um besta sanguinária não se daria o trabalho de descer da montanha, pegar um animal e/ou uma pessoa e retornar o seu local de origem. Muito pelo contrário, além de matar todos a fera iria tornar Caelora seu novo nicho.

Tentei explicar isso para Jhone, mas ele insiste em dizer que minhas conclusões podem estar equivocadas.

E não apenas ele, mas o departamento de coleta de dados dos Exploradores que receberam o relatório de toda a minha pesquisa e mesmo assim disseram que seria prudente continuar a investigação na montanha Erudin, e que se porventura a ameaça não fosse um behemoth mas qualquer outra criatura que ameaçasse os moradores do vilarejo, eles confiavam que os exploradores Gethel e Farael possuíam experiência suficiente para lidar com isso.

— Você se baseia muito na sua ciência e nas suas conclusões, Auriel. Nem tudo você terá o pleno conhecimento e por isso o seu julgamento será errado – disse Jhone.

— E é por isso que devo buscar mais conhecimento.  Viver assim é melhor do que viver na ignorância.

— Entre ter todo o conhecimento do mundo e viver na ignorância, prefiro ter a humildade de saber que não saberei de tudo e muito menos terei controle de algumas situações. Não importa se os números e as evidências dizem que algo é impossível quando a humildade diz que nada está fora de hipótese.

— Está me chamando de orgulhosa? – Não consegui conter meu olhar de descontentamento – Jhone, minhas evidências são claras e concisas. Formam uma linha de fatos que se forem conectados um ao outro conseguem dar uma resposta satisfatória. Você não entende porque sua cabeça de abóbora só pensa em  jogos de cartas e cavalos.

— Não estou te chamando de orgulhosa, embora seja. Estou dizendo que nem tudo está no nosso controle, e muito menos no nosso conhecimento.

— E estará no controle de quem?

— Tudo o que sei é que não está no nosso controle, acredito que isso basta. Isso foi o que os jogos me ensinaram: pode achar que o jogo está ganho, enquanto o oponente pode ter uma carta na mão que anulará todas as suas outras cartas.

— Se você saber contra quem está jogando e a sua estratégia, talvez consiga prever os seus próximos passos. Isso aumentará as suas chances de ganhar o jogo.

— Acontece que as pessoas mudam as suas estratégias conforme jogam. Mas parece que você sempre tem uma resposta para tudo, não é mesmo?

— Eu tenho uma resposta para tudo porque tudo ao nosso redor tem uma resposta.



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