1. Spirit Fanfics >
  2. O Internato >
  3. Fantasmas são como sentimentos

História O Internato - Capítulo 16


Escrita por: e Bleendy


Notas do Autor


Boa leitura 💜

Capítulo 16 - Fantasmas são como sentimentos


O cobertor grosso e felpudo cobria Kihyun da cabeça aos pés, sentado em sua cama, com as costas apoiadas na parede e o olhar fixo na porta. Ele parecia ausente, distante, Jooheon teve de guiá-lo ao dormitório, pois ele estava aéreo desde à biblioteca.

Hyunwoo chamou Minhyuk e Changkyun para o quarto, na tentativa de fazê-lo melhorar, mas todos eles ficaram um pouco consternados ao ouvir o que Jooheon tinha a dizer sobre as páginas do jornal que trouxe consigo.

A noite demorou a passar. Minhyuk e Changkyun dividiram a poltrona, Hyunwoo e Jooheon ficaram na cama do mais velho e Kihyun ficou em sua cama, na mesma posição, vendo a madrugada chegar sem que eles conseguissem dormir. Somente quando os primeiros sinais do dia começaram a aparecer, foi que eles adormeceram em posições desconfortáveis, menos Kihyun, ele não conseguiu dormir.

Se levantou quando percebeu que havia claridade o suficiente no quarto para poder se locomover sem esbarrar em nenhum objeto e acabar acordando seus amigos. Ajeitou o pescoço de Minhyuk no encosto da poltrona, calçou os sapatos e abriu a porta, fechando-a atrás de si sem fazer ruídos. O corredor estava escuro, as cortinas grossas não deixavam a luz passar. Ele desceu as escadas para o primeiro andar e continuou andando pelo corredor até o saguão.

Gray House estava silenciosa.

Kihyun abriu os trincos de uma das janelas do saguão e empurrou a vidraça para cima, se esgueirando pela abertura e pulando para o lado de fora. O chão molhado de chuva e o vento frio quase fizeram Kihyun voltar para o lado de dentro, mas ele apenas se encolheu entre os braços cruzados no peito e seguiu pelo pátio até o jardim. Passou pelos arbustos e pelo pequeno campo de beisebol até chegar na floresta nos fundos do casarão, respirou fundo, sentindo o ar gelar seus pulmões, e entrou no meio dos pinheiros que nunca perdiam seu tom vivo de verde, nem mesmo no frio rigoroso do inverno ou no calor do verão.

O barulho dos pássaros que voavam de seus ninhos ao percebê-lo lhe causava arrepios, porém ele continuou, seguindo o som fraco de sapos e rãs coaxando numa harmoniosa melodia. Avistou a água esverdeada do lago atrás das árvores e se aproximou dele, varrendo os olhos pelo lugar à procura do velho poço, que estava quase do outro lado do lago. Foi até ele com passos lentos. Sentia seu coração bater mais rápido a cada passo que dava até estar defronte as pedras acinzentadas e a cobertura de ferro do poço.

Lhe era tão familiar, o chão de terra ao redor onde não crescia nenhuma grama ou planta, o som que o vento fazia ao tocar a escuridão dentro do poço e o cheiro de limo que emanava dele. Percebeu que já tivera sonhos com o lugar quando era criança, mas agora se perguntava se havia mesmo sido apenas sonhos.

Kihyun levou as mãos ao rosto e fechou os olhos com força, sentiu-se zonzo por um instante, quase caindo ao chão, mas se apoiou na borda do poço, colocando sua cabeça para dentro do buraco. Ao abrir os olhos, sua visão turva e desfocada viu três pessoas dentro do poço no meio da densa escuridão. Ele se assustou, dando passos desengonçados para trás e tropeçando nos próprios pés, caiu no chão.

Kihyun viu três rostos assustados e cobertos de sangue dentro do lugar, e uma daquelas aturdidas faces era a sua, de olhos pequenos e bochechas redondas, sujo de sangue, com apenas três anos de idade.

Ele sentiu o choro vir no mesmo ritmo de sua taquicardia. Era difícil respirar no meio de um ataque de pânico, e Kihyun pareceu querer se deixar levar pelo desespero, assim seria mais fácil e talvez menos doloroso. Sentiu alguém lhe tocar e lhe acolher em um abraço. Sua respiração começou a voltar ao normal. Então ele pode chorar tranquilo, sem pressa, sem medo de ser ouvido, sem embaraços. As mãos frias que lhe afagavam as costas deram-lhe a sensação mais plena de segurança.


[...]


Hoseok e a diretora Kim tomavam café juntos na varanda da sala de visitas.

– Não está muito cedo para voltar? - ela acompanhava os movimentos do professor com os olhos, preocupada com a aparente insônia que o perseguiu nas últimas noites.

– Pelo contrário, Sra. Kim, já está tarde e eu sinto que meus alunos precisam ainda mais de mim.

– O que quer dizer com isso?

Hoseok olhava para as mãos enquanto conversava com a diretora.

– A senhora não vê? - ele subiu os olhos em direção ao céu - as nuvens cinzentas anunciam a tempestade… a morte de minha mãe foi apenas o prelúdio do que virá.

Ao ouvir tais palavras a diretora soltou a alça da xícara que segurava em sua mão canhota, deixando a porcelana se chocar no chão e se despedaçar, sujando o piso com o líquido marrom.

– Não… não - ela gaguejava - não permitirei que nada aconteça com os nossos alunos.

– Então conte-lhes a verdade, diga a eles que não é seguro do lado de fora à noite e conte o porquê de não ser. Avise-os e instrua-os a como devem agir caso algo de estranho aconteça.

A vida se tornou amarga para a diretora desde que perdeu a filha, mas em Gray House as coisas eram calmas, fáceis de lidar e a rotina era tranquila e organizada, ao menos era assim que costumava ser, e isso era o que dava leveza aos dias penosos de sua vida. No entanto, a paz dava-se como desaparecida àquele início de trimestre, perceber isso acentuou a dor fina que sentia em suas têmporas.

Desde que pisara os pés em Gray House para lecionar, a rotina do colégio se tornou um pesadelo infernal. A diretora Kim analisou o professor, ponderando se algo ligava ele ao início dos turbulentos acontecimentos.

No refeitório os meninos comiam entre conversas e risadas, somente uma mesa parecia quieta e preocupada.

Hyunwoo, Minhyuk, Jooheon e Changkyun mal tocaram na comida, o sono impedia a fome de chegar e a preocupação com o sumiço de Kihyun espantava o sono.

Yonghee, que segurava uma bandeja com seu café da manhã, se sentou na mesa silenciosa dos quatro rapazes, junto a Pietro, que não entendeu as intenções do amigo, mas resolveu acompanhá-lo mesmo assim.

Yonghee os cumprimentou.

Yonghee e Hyunwoo se conheciam desde quando eram pequenos, suas famílias eram vizinhas e eles estudaram juntos no ensino fundamental. Não eram muito próximos um do outro, por conta de suas personalidades distintas, mas estudavam juntos na biblioteca às vezes e se ajudavam quando era preciso, pois cada um deles sabia bem como era ser bolsista em uma escola da elite e ter de enfrentar olhares tortos pelos corredores e brincadeiras de péssimo gosto todos os dias.

– Olá! - Hyunwoo disse, estranhando a repentina aproximação - Está tudo bem?

– Não muito.

– Para todos nós, amigo - Jooheon mexia sua comida sem intenção alguma de pô-la na boca.

– Preciso mostrar uma coisa para vocês… é urgente! - Yonghee fez os rapazes se levantarem, acompanhando seus passos para fora do refeitório.


[...]



O queimor em seu peito parecia se acalmar aos poucos. Kihyun ergueu a cabeça para ver quem o impedia de cair por completo no chão. Viu as íris escuras dos olhos de Raissa. Se afastou de seu abraço e secou o rosto rapidamente, se arrependendo da distância que criou ao notar quão frágil estava, suas mãos e pernas ainda tremiam.

Olhou bem no rosto da menina, há poucos minutos tinha visto aqueles mesmos olhos parados no fundo do poço, sujos de terra e sangue. Kihyun balançou a cabeça, como se buscasse negar a veracidade do que viu.

– Não precisa fazer isso - Raissa quebrou o silêncio entre eles.

Kihyun estremeceu ao ouvir a doce voz dela.

– Isso o quê? - a voz dele estava embargada pelo choro.

– Negar o que viu.

– Como… como assim?

Raissa se levantou, batendo a terra de seu vestido, deu a mão para Kihyun, esperando que ele fizesse o mesmo.

– Fingir que não viu o que viu, esconder o que está sentindo, anular suas necessidades pelas necessidades dos outros… ah Kihyun, são tantas coisas que eu gostaria que você não fizesse.

Ao ver que Kihyun não havia segurado sua mão para poder levantar, Raissa se afastou e virou-se de costas para ele. O vento bagunçava a trança em seu cabelo.

– E o que espera que eu faça então? Nada disso é fácil de se aceitar…

– Não espero que faça nada que eu queira, espero que faça o que você quer, ao menos uma vez na sua vida.

– E o que é que eu quero? Diga-me?... Meu mundo está de ponta cabeça e eu nem sei mais quem sou.

– Então descubra!

Kihyun soltou uma risada, não como se estivesse achando graça daquilo tudo, mas sim por estar desesperado.

– Eu devo estar louco - disse ele, abaixando a cabeça e olhando o chão úmido e desmatado. - Isso tudo deve ser fruto de minha loucura… preciso de um médico, talvez com alguns meses de tratamento a minha lucidez volte.

Raissa virou-se para ele, olhando-o com uma feição brava.

– Olhe para mim, pareço a criação de uma mente adoecida? Minha dor de cada dia, minha solidão e minha tristeza, elas não são frutos da sua cabeça, elas são minhas e são tão reais quanto suas mãos que tocam o solo deste lugar.

Kihyun se arrependeu de ter dito as palavras que disse.

Raissa continuava com seus olhos apontados para ele, sem desviar por nenhum segundo.

– Dói, Kihyun, sei bem como dói… eu não me esqueci da dor só porque não estou viva; ela me acompanha, faz parte do que sou agora… ela me lembra, dia após dia, como vim parar aqui, no fundo desse poço, sangrando até a morte e depois sendo enterrada ao lado dessas pedras.

Kihyun se levantou, mantendo o equilíbrio do jeito que podia. Disse:

– Eu sinto muito!

– Não quero que sinta por mim, quero que sinta por você… por seus amigos lá na casa, que estão em perigo.

Sem que notasse como foi parar tão perto de Raissa, Kihyun a abraçou.

Como podia tocá-la e sentir sua pele sem calor entre seus braços e os dedos das mãos? Como podia ouvir sua voz macia e doce e que agora soava irritada e tristonha? Como podia sentir que o coração dela se partia ao lembrar das coisas horríveis que viveu? Como podia vê-la se ela já não estava mais viva?

– Eu sinto muito, por tudo! - Raissa movia seus dedos entre os fios do cabelo de Kihyun.

– Você disse que não se deve sentir muito por alguém além de si mesmo.

Raissa sorriu anasalado.

– Não use minhas frases contra mim.

– Não usarei.

Os dois se sentaram na ponte na beira do lago. Kihyun mergulhou os pés na água fria.

– Você já sabia sobre mim? - Perguntou Kihyun.

– Não a princípio. Percebi só depois que te vi no jardim… você e seus irmãos são muito parecidos.

Kihyun sorriu, mas o sorriso não durou muito tempo em seu rosto.

– Por que não posso vê-los agora?

– Não é assim que funciona isso, Kihyun… pense em nós como sentimentos... se você não está feliz, como pode sentir a felicidade? Se estiver com raiva, você sente ela, não sente? - Kihyun anuiu - Assim somos nós, precisa sentir antes de ver.

– E o que eu senti para conseguir ver você? -  Kihyun olhou nos olhos de Raissa, que virou o rosto na direção do lago.

– Solidão, talvez…

– Agora que me dei conta do porquê você pareceu tão feliz quando eu te cumprimentei aquela vez no corredor - Kihyun sorriu. - Por um momento eu pensei que você tinha me achado bonito.

Raissa soltou uma risada alta.

– E você é.

O sangue correu rápido para as bochechas de Kihyun, fazendo ele senti-las arder.

– Diga-me uma coisa, Kihyun, você se casaria comigo se eu estivesse viva? - Raissa olhou fixamente para ele e o silêncio entre os lábios de Kihyun e seu rosto corado a fez prosseguir a fala. - Não que eu quisesse me casar, na verdade pretendia ficar solteira o resto de minha vida, é só por curiosidade mesmo.

– Sim. - Kihyun, que mantinha os olhos na paisagem, olhou-a e sorriu.

Ela sorriu junto a ele.

Raissa se levantou e puxou Kihyun para que também se levantasse.

– Temos que ir.

– Para onde?

– Um amigo meu quer te mostrar uma coisa.


[...]



As luzes das lanternas guiavam o caminho entre o breu dos corredores na galeria de esgoto. Yonghee ia na frente, seguido por Hyunwoo, Jooheon, Minhyuk, Changkyun e Pietro. Os ruídos dos ratos no meio da escuridão despertava todos os sentidos dos meninos, deixando-os em alerta.

– Que lugar é esse afinal? - Minhyuk perguntou, apontando a luz de sua lanterna na parede do lado esquerdo, vendo as tubulações e as teias de aranha nelas.

– Já estamos quase lá - Yonghee dizia, um pouco mais na frente.

Uma claridade podia ser vista em uma das curvas na bifurcação do corredor, eles seguiram na direção dela, que vinha das frestas da entrada de uma sala que no lugar da porta tinha a passagem obstruída por um armário velho de ferro.

– Me ajudem a empurrar.

Hyunwoo, Yonghee e Pietro empurravam o armário enquanto os outros iluminavam eles com as luzes de suas lanternas. O armário era pesado e foi difícil tirá-lo do lugar, mas depois de alguns empurrões, metade da porta ficou acessível. Eles passaram por entre a pequena abertura. A sala era usada para guardar materiais de construção quando Gray House estava sendo construída, mas deixou de ser usada com o tempo, porém ela não parecia estar desabitada, havia um sofá em um dos cantos, alguns armários nas paredes com latas de comida industrializada e muitos objetos e móveis velhos empilhados no fundo, aos pés de três escotilhas que estavam abertas.

– O que é isso tudo? - Jooheon chutava um caixote de madeira no chão, fazendo os papéis que estavam dentro dele cair no chão.

– Um esconderijo - Yonghee se abaixou para pegar os papéis e ver do que tratavam.

Yonghee, assim como os outros rapazes naquela sala, estava surpreso com a existência daquele lugar.

– Como você sabia disso? - Pietro sussurrou.

– Um amigo me contou - Yonghee respondeu.

Ouviram alguns barulhos se aproximando da porta, o que fez com que seus corações batessem mais rápido e fora do compasso.

Kihyun passou pela abertura entre o armário e a parede, arrancando suspiros aliviados de seus amigos ao vê-lo.

– Kihyun… meu Deus! - Changkyun respirava fundo - Como chegou aqui?

Kihyun olhou por cima de seu ombro direito e disse:

– Uma amiga me trouxe.

– Pronto, agora sabemos que vocês dois tem amigos incríveis - Jooheon olhava para Kihyun e Yonghee -, mas o que é este lugar? Alguém mora aqui?

No meio de suas perguntas, Jooheon percebeu que a resposta já havia sido dada, bastava olhar ao redor das tralhas e papéis espalhados pela sala com cheiro de mofo.

Taeyoung pediu para que Yonghee abrisse uma caixa que estava ao lado do sofá. Assim ele fez, chamando Kihyun para ver o que havia dentro.

– Um quadro! - Kihyun limpava a poeira e as teias de aranha da superfície da pintura.

Uma mulher de cabelos longos e negros, com um sorriso alegre no rosto, sentada em um sofá ao lado de um homem alto e de óculos redondos, com dois rapazes de treze e quatorze anos respectivamente, e Kihyun sentado no chão da sala, no meio deles, sorrindo.

– Sou eu - Kihyun disse.

Todos se aproximaram para ver o quadro. Se entreolharam, espantados diante toda aquela situação que custava em ser assimilada.

– Então é aqui que o assassino guarda as coisas de suas vítimas? - Hyunwoo perguntou.

– Sim. - Raissa disse ao ver seu livro em cima da mesa. O livro que ganhou de presente em seu aniversário de dezesseis anos e que carregava consigo no dia em que foi morta.



Gostou da Fanfic? Compartilhe!

Gostou? Deixe seu Comentário!

Muitos usuários deixam de postar por falta de comentários, estimule o trabalho deles, deixando um comentário.

Para comentar e incentivar o autor, Cadastre-se ou Acesse sua Conta.


Carregando...