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História O Internato - Capítulo 17


Escrita por: e Bleendy


Notas do Autor


Boa leitura 💕

Capítulo 17 - Lembranças de um bom tempo


Em um bar perto da estação ferroviária, Kim Kwang se sentava em uma das mesas, se abrigando da chuva. Pediu algo para beber, álcool lhe seria mais aprazível, porém resolveu pedir apenas uma xícara de café.

Olhou pela janela aberta à uma mesa de distância. Chovia forte.

Bebia seu café no silêncio que trazia consigo.

Um par de olhos fixados em sua pessoa o fez erguer a cabeça e olhar para frente. Eles o encaravam como se pudessem ler seus pensamentos, como se soubessem de todos os seus pecados. Os olhos contornados por uma pintura escura e uma marca pequena em forma de estrela pertenciam a uma mulher de cabelo preto com tranças desgrenhadas e que trajava uma capa preta. Ela estava sentada na mesa de frente para Kwang e não conseguia tirar seus olhos de cima dele.

Ele desviou olhar para a xícara em sua mão, mas os olhos da mulher continuavam a perfurá-lo à curta distância, julgando-o sem piedade. Kwang se levantou, pegou a mala nos pés da cadeira, tirou uma cédula amassada de dentro do bolso da calça e colocou em cima da mesa. Saiu do bar, indo parar no meio da rua, na chuva.

Correu para a estação, com a mala suspensa em cima da cabeça para lhe proteger das gotas finas e geladas da chuva.

-          Qual o horário do próximo trem para Incheon? - Perguntou ao homem atrás do balcão na bilheteria.

-          Ele sairá às 15hrs, senhor.

-          Eu vou querer uma passagem, por favor!

Sentou-se no banco do lado de fora da estação, olhando os trilhos molhados pela chuva que começava a ficar mais fraca. Abriu sua mala para conferir se havia pegado tudo o que precisava, estava quase tudo lá, dois pares de roupas limpas, seus documentos, os livros que sempre levava consigo, uma garrafa pequena de whisky, um jornal velho de treze anos atrás. No entanto faltavam dois objetos que ele jamais deixava de carregar consigo.

Bateu as mãos nos bolsos da calça e nos bolsos de seu casaco surrado, mas não encontrou.

-          Devo ter deixado no quarto - murmurou.

Olhou no relógio pendurado na parede da estação, os ponteiros marcavam 13:26hrs.

-          Vai dar tempo.

Ele se levantou e correu pela estação, cruzando-a, indo para o outro lado, onde alguns carros passavam devagar. Pediu carona a um senhor em um Ford parado na calçada.

No carro, ele olhava a estrada de lama que levava à vila de Dongsan.

Ele odiava aquele lugar mais que qualquer outra coisa. Odiava o céu que sempre condizia com as estações do ano, odiava a terra fértil que dava de tudo o que fosse plantado, odiava as árvores altas e que perdiam as folhas no outono, o vento frio e as noites longas e silenciosas, odiava as pessoas que moravam ali.

Desde que perdera a filha, o sentido de continuar vivendo naquele lugar também havia se perdido para ele. Ele se tornou ausente, mal aparecia em casa e quando aparecia estava sempre entorpecido por álcool. Seu emprego no hospital da cidade não mais conseguia ocupar sua mente ou distraí-la da dor, então ele o largou e passou a viver das economias da família, vendo ela se esvair dia após dia nos bares e nas garrafas de bebida barata que comprava nas mercearias. Com o tempo, ficar dentro de casa o enlouquecia, odiava olhar a mobília e os cômodos sem que sua filha estivesse por perto, nem mesmo o álcool lhe impedia de sentir-se triste dentro de sua casa, então começou a viajar, passava meses sem voltar, assim se sentia menos vazio, mas bastava retornar para que tudo voltasse, como se revivesse todos os dias o dia em que enterrou sua filha.

A primeira vez que viajou e passou dois meses fora, Pietro estava com cinco anos. As memórias que o menino tinha do pai era a de uma figura ausente, que sempre chegava em casa tarde da noite e que sempre fazia sua mãe chorar escondida na sala, por não ter forças o suficiente para conversar com ele e dizer que toda aquela situação era insustentável. Depois, Pietro já não o via com tanta frequência. Os aniversários de Pietro vieram sem a presença de seu pai, os feriados também, ele cresceu sem saber do que seu pai gostava, se preferia o café com ou sem açúcar, e ao mesmo tempo sem que seu pai soubesse que ele gostava de beber chá com leite, que detestava cortar o cabelo e que não era muito bom em matemática. Pietro cresceu sem saber se seu pai o amava e mesmo assim não conseguia culpá-lo por isso, ele sentia que a dor que seu pai carregava era grande ao ponto de torná-lo um estranho para ele e sua mãe.

Kwang havia chegado de Seoul há pouco mais de uma semana, voltou pois precisava deixar em casa o dinheiro que guardou dos bicos que fazia durante suas viagens, mesmo que Jihyo não aceitasse, ele sempre trazia consigo e entregava para ela, que colocava o dinheiro em um baú no escritório dele, sem nunca tocar em uma moeda sequer. Passou as noites em uma pousada na cidade e durante o dia se embriagou nos bares para que as horas passassem mais rápido, não durou mais que nove dias e já queria ir embora.

Entrou no quarto da pousada em que se hospedou durante a semana. Olhou debaixo da cama, no banheiro, pelo chão do quarto e do corredor, mas não encontrou o que procurava. A chuva havia parado, então correu até casa que já não ousava mais chamar de sua.

A empregada limpava a poeira das estantes de livros na sala de estar quando ele passou pela porta e subiu as escadas correndo. Procurou pelos cômodos em que esteve da última vez que pisou os pés ali, na manhã de terça-feira, no escritório e no antigo quarto que dividia com sua esposa. Não encontrou.

Não podia ir embora sem a corrente e a foto.

Caminhou até a colina, subindo a estrada.

A diretora ouviu batidas em sua porta. Ela repassava os cálculos com as contas de Gray House, contabilizando os gastos com a volta às aulas.

-          Entre - disse.

Kwang empurrou a porta e entrou, causando um enorme desconforto à diretora ao vê-lo.

-          O que faz aqui? - A diretora deixou os papéis de lado. Ajeitou os óculos no rosto.

-          Eu… eu vim procurar uma coisa.

-          O quê?

Ele caminhou pela sala, varrendo os olhos pelo chão. Ele não havia entrado naquela sala nos últimos dias, mas precisava verificar mesmo assim.

-          Uma fotografia de Raissa.

A diretora Kim respirou fundo.

-          Estarei lá fora… Fique à vontade.

Ela se levantou e saiu pela porta. Sentou-se na poltrona no corredor. Desejava poder fumar ali e agora, mas isso ia contra a sua conduta, então aguentou o máximo que deu a vontade de gritar e quebrar as coisas ao seu redor, e apenas esperou.

Ao sair da sala, Kwang segurava um pequeno pedaço de papel nas mãos.

-          Como ela veio parar aqui? - Ele perguntou.

-          Não sei - respondeu a diretora.

Ele suspirou, guardando a fotografia no bolso da parte interna de seu casaco.

-          Estou indo para Incheon.

A diretora se levantou, ia voltar para sua sala quando Kwang prosseguiu o que dizia.

-          Encontrei pistas sobre donos do antigo jornal que ficava em Myoung-gon. Sinto que dessa vez eu vou conseguir achar alguma coisa…

-          Boa sorte - ela disse e entrou, fechando a porta atrás de si.

Dentro da sala Raissa olhava a pintura pendurada na parede central. Sua família parecia tão feliz naquela moldura.

-          Foi você que trouxe aquela foto para cá? - A diretora perguntou, sua voz estava um tom mais alto que o normal.

Raissa anuiu sem tirar os olhos do quadro.

-          Por que fez isso?

A menina não quis dizer que assistir sua própria família desmoronar sob a escuridão de sua sombra desatinava toda a dor em sua alma, então somente olhou para sua mãe e depois olhou novamente para a pintura de seus rostos alegres de outrora.

Faltava-lhe a corrente. Onde a deixou? Só havia tirado ela de dentro da mala uma vez desde que chegou à cidade. Ele não poderia viajar sem aquele maldito pedaço de metal prateado, precisava dela.

Descia as escadas para o saguão de Gray House, o trem partiria em quarenta minutos.

Viu dois homens conversando no canto da ala esquerda do saguão e percebeu que um deles segurava uma corrente de prata nas mãos, mostrando-a para o homem alto defronte para si.

Kwang sentiu o sangue gelar. Deu meia volta e parou com as costas apoiadas na parede no final dos degraus da escada. E agora? Pensou ele, precisava daquela corrente. Como a deixou ir parar nas mãos daquele homem?

Lembrou-se da noite da sexta-feira passada em que caminhou pela floresta ao redor dos pinheiros.

-          Devo ter deixado cair lá - sussurrou.

Ele ajeitou a postura e caminhou em direção a saída sem olhar na direção dos dois professores que ainda gesticulavam parados no mesmo canto, com feições preocupadas.



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